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sexta-feira

OS AGENTES DO DESTINO

 


OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto "Adjustment Team", de Philip K. Dick. Fotografia: John Toll. Montagem: Jay Rabinowitz. Música: Thomas Newman. Figurino: Kasia Walicka Maimone. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/Susan Bode Tyson. Produção executiva: Isa Dick Hackett, Jonathan Górdon. Produção: Bill Carraro, Michael Hackett, Chris Moore, George Nolfi. Elenco: Matt Damon, Emily Blunt, Terence Stamp, Michael Kelly, Anthony Mackie, John Slattery. Estreia: 14/02/2011

Depois de perder uma eleição praticamente ganha para o Senado americano - devido à publicação de uma foto de sua juventude -, o carismático David Norris (Matt Damon) encontra, por acaso, a bela Elise Sellas (Emily Blunt), que sonha em tornar-se uma bailarina mundialmente famosa. Inspirado pelo otimismo da moça (e por um beijo trocado), Norris faz um discurso que imediatamente o faz voltar às graças dos eleitores e à disputa pelo Congresso. Ainda abismado com o encontro com Elise - de quem não sabe nem o nome -, o ambicioso político acaba a encontrando um mês depois, novamente sem esperar. O novo encontro faz nascer entre eles um romance promissor, mas o que Norris não sabe - e irá saber da pior maneira possível - é que a história desse nascente amor vai contra os planos do destino. Perseguido por um grupo misterioso de homens de preto - autointitulados Comitê de Ajuste -, David precisa decidir entre um brilhante futuro na política (o que deixaria Elise livre para realizar seus sonhos profissionais) ou a possibilidade de um final feliz com a mulher por quem está apaixonado. Para isso, ele recorre à ajuda de um dos agentes, o empático Harry Mitchell (Anthony Mackie) - principal responsável pelo desvio da rota programada para o destino do rapaz.

Sucesso apenas razoável de bilheteria, "Os agentes do destino", estreia do cineasta George Nolfi, chegou às telas com pedigree: baseado em conto de Philip K. Dick, o mesmo autor de clássicos da ficção científica, como "Blade Runner: o caçador de androides" e "O vingador do futuro", a produção estrelada por Matt Damon e Emily Blunt merecia sorte melhor. Elegante e ágil, inteligente e instigante, o filme de Nolfi consegue o equilíbrio quase perfeito entre um thriller e uma história de amor, evitando o caminho fácil das sequências de ação alucinantes e das explicações em excesso. Deixando que o espectador vá preenchendo as lacunas conforme elas vão aparecendo, o roteiro brinca com a percepção do público em relação a conceitos como destino, amor, livre arbítrio e futuro. Com efeitos visuais discretos que não chamam mais atenção que a trama e uma trilha sonora eficiente do veterano Thomas Newman, "Os agentes do destino" se beneficia, também, da química entre seus dois atores centrais. Era imprescindível para que a história funcionasse, que os intérpretes de David Norris e Elise Sellas convencessem o público de que desafiariam o que fosse para ficarem juntos, e, ótimos atores que são, Damon e Blunt fisgam o público já em seu primeiro contato - a ponto de, mesmo separados, jamais deixarem de ser a base de toda a trama.

 

Um dos roteiristas do estupendo "O ultimato Bourne" (2007), e portanto dono de pleno domínio de ritmo e narrativa, George Nolfi apresenta, em "Os agentes do destino", uma noção visual digna de veteranos. A elegância das sequências de ação demonstra um cuidado raro em não apenas deixar o espectador mergulhado na agonia de seus protagonistas, mas também em oferecer uma experiência mais rica em termos plásticos. Detalhes do figurino - como os chapéus que permitem o acesso ao mundo dos chamados agentes - e a fotografia eficiente mas que nunca chega a desviar a atenção da trama (cortesia do duplamente oscarizado John Toll) são exemplos claros do talento do cineasta em utilizar-se da imagem para contar a história com todos os elementos à sua disposição. Se o enredo criado por Dick em 1954 - e adaptado com total liberdade por Nolfi - já é interessante por si próprio, sua transposição para para as telas realça seus questionamentos éticos e atualiza a história, contrapondo em seu cerne a discussão entre o que é mais importante: o amor ou a carreira, a chance de um futuro alvissareiro ou a felicidade de um amor verdadeiro.

Sem exagerar nos efeitos visuais e conquistando o público mais por sua história do que pela aposta na adrenalina pura e simples, "Os agentes do destino" rendeu pouco mais de 127 milhões de dólares em sua carreira internacional, em um ano que viu, em seus dez maiores sucessos comerciais nove continuações e uma produção infantil com personagens já consagrados - "Os Smurfs". Competindo com Harry Potter, Jack Sparrow, Bella & Edward, Transformers, Ethan Hunt e Dominic Toretto, o conto de amor e rebeldia criada por Philip K. Dick não fez feio - principalmente por ser um respiro de criatividade e ineditismo em um universo saturado de marcas registradas. Pode não ser uma obra-prima e talvez nem mesmo uma produção memorável na filmografia de seus envolvidos, mas é digno, decente e francamente divertido.

terça-feira

BOSSA NOVA


BOSSA NOVA (Bossa nova, 2000, Columbia Pictures, 95min) Direção: Bruno Barreto. Roteiro: Fernanda Young, Alexandre Machado, conto "A senhorita Simpson", de Sérgio Sant'Anna. Fotografia: Pascal Rabaud. Montagem: Ray Hubley. Música: Eumir Deodato. Figurino: Emilia Duncan. Direção de arte: Cassio Amarante. Produção executiva: Bruno Barreto. Produção: Lucy Barreto, Luiz Carlos Barreto. Elenco: Amy Irving, Antônio Fagundes, Deborah Bloch, Drica Moraes, Alexandre Borges, Pedro Cardoso, Giovanna Antonelli, Rogério Cardoso, Sérgio Loroza, Stephen Tobolowski, Alberto de Mendoza. Estreia: 21/02/2000 (Festival de Berlim)

"Bossa nova", a comédia romântica dirigida por Bruno Barreto, se passa em um universo particular. Um ecossistema próprio, dotado uma trilha sonora suave com canções de Tom Jobim (a quem o filme é devidamente dedicado), paisagens idílicas de um Rio de Janeiro idealizado e personagens cuja maior função na vida é amar e ser amado - mesmo que ainda não saibam disso. Baseado no conto "Senhorita Simpson", de Sérgio Sant'anna (e adaptado pelo casal Fernanda Young e Alexandre Machado, criadores da série "Os Normais"), o filme de Barreto marca seu retorno ao cinema nacional depois de uma tentativa malograda em ser abraçado por Hollywood (com o pouco visto "Entre o dever e a amizade") e, apesar de não apresentar nada de novo ao gênero e forçar uma estética quase pasteurizada, consegue conquistar o público com uma trama despretensiosa e agradável, valorizada por um elenco de peso liderado por sua então mulher, Amy Irving. Leve, romântico e francamente ingênuo - com tudo que isso tem de positivo e negativo -, "Bossa nova" foge da tendência do cinema brasileiro da época de explorar o regionalismo (em produções como "O auto da Compadecida", "Eu, tu, eles" e "Tainá: uma aventura na Amazônia") e não tem medo de apelar para o escapismo.

O centro do roteiro - que aposta em diálogos rápidos e uma estrutura, em seus melhores momentos, de uma comédia de erros - é a solitária Mary Ann Simpson (Amy Irving), viúva americana que mora no Rio de Janeiro e vive de ensinar inglês para brasileiros interessados (pelos mais diversos motivos) em aprender a se comunicar no idioma. Sua amiga Nadine (Drica Moraes) precisa saber a língua para uma melhor relação com um namorado estrangeiro, a quem nunca viu pessoalmente mas acredita ser um artista plástico do SoHo. O jogador de futebol Acácio (Alexandre Borges) acaba de ser contratado por um time inglês e quer aprender a xingar (e seduzir) na língua de Shakespeare. E o advogado Pedro Paulo (Antonio Fagundes), ainda sem aceitar o fim do casamento com Tania (Deborah Bloch), está mais interessado na própria professora do que em novos conhecimentos - e não mede esforços para conquistá-la. Enquanto isso, seu meio-irmão, Roberto (Pedro Cardoso), cai de amores por sua estagiária, Sharon (Giovanna Antonelli), que, por sua vez, se sente atraída por Acácio quando ele procura o escritório para tratar de seu novo contrato.

 


Com uma narrativa simples que faz uso das paisagens naturais do Rio de Janeiro - fotografadas com destreza pelo francês Pascal Rabaud - como elemento dramático crucial, "Bossa nova" é assumidamente uma declaração de amor à cidade que lhe serve de cenário, assim como se mostra apaixonado pelo ritmo que lhe dá nome. Emoldurada pelas canções de Tom Jobim, a história de amor entre Mary Ann e Pedro Paulo se mostra plácida, envolvente e delicada como a obra do compositor - e se beneficia do carisma e do talento de seus intérpretes. Se Amy Irving serve como musa inspiradora do diretor e catalisadora de todo o quiproquó que a envolve, o charme maduro de Antonio Fagundes surge como a tradicional figura do galã maduro - status que não o impede de demonstrar um talento já devidamente consagrado. No elenco coadjuvante, Drica Moraes e Deborah Bloch brilham com um timing cômico impecável, que valoriza cada linha de diálogo, e é uma pena que o ótimo Pedro Cardoso seja tão pouco explorado: sua história de amor não correspondido pela bela Sharon é, talvez, a mais romântica de um roteiro que privilegia o humor (provavelmente pelo currículo de Young e Machado, sempre sagazes em suas observações sobre a natureza humana). Não deixa de ser irônico, no entanto, que a direção de Bruno Barreto seja mais interessante quando se volta ao amor do que ao riso - apesar de engraçadas, as situações propostas soam mais como um especial de televisão do que como cinema.

Visualmente atraente, delicadamente amoroso e engraçado como a melhor das comédias românticas, "Bossa nova" é o programa ideal para os fãs do gênero, ainda que nem sempre atinja todo o seu potencial. Tecnicamente impecável e dotado de uma honestidade encantadora, é uma prova (mais uma) das possibilidades infinitas do cinema nacional - ainda que sua estética seja mais próxima de Hollywood do que das produções brasileiras clássicas. Apesar de suas inegáveis qualidades, é impossível não ficar com a impressão de que se trata de um filme brasileiro para gringo ver - mas, em sua defesa, é uma propaganda sensível de uma das mais belas cidades do mundo. E talvez isso seja o suficiente para o público que deseja apenas desligar-se dos problemas enquanto assiste a uma bela história de amor.

INOCÊNCIA


INOCÊNCIA (Inocência, 1983, Embrafilme/Luis Carlos Barreto Produções Cinematográficas, 118min) Direção: Walter Lima Jr.. Roteiro: Walter Lima Jr., adaptação de Lima Barreto, romance de Visconde de Taunay. Fotografia: Pedro Farkas. Montagem: Raimundo Higino. Música: Wagner Tiso. Figurino: Diana Eichbauer. Direção de arte/cenários: Carlos Liuzzi. Produção: Lucy Barreto, Luiz Carlos Barreto. Elenco: Fernanda Torres, Edson Celulari, Sebastião Vasconcellos, Ricardo Zambelli, Fernando Torres, Rainer Rudolph, Chico Diaz, Chica Xavier, Jorge Fino. Estreia: 23/6/83

Publicado em 1872 como parte do Regionalismo brasileiro - uma escola literária posterior ao Romantismo e anterior ao Naturalismo -, o romance "Inocência" interessou ao cinema nacional desde o começo do século XX, com uma versão muda (dirigida pelo ítalo-brasileiro Vittorio Capellaro). Em 1949 ganhou uma nova adaptação, sob a direção de Luiz e Fernando de Barros (estrelada por Maria Della Costa e Sadi Cabral), mas foi somente em 1983 que o livro, escrito pelo Visconde de Taunay, parece ter encontrado sua forma cinematográfica definitiva. Com o lirismo do diretor Walter Lima Jr. a serviço de uma história de amor trágica e delicada, uma bela trilha sonora de Wagner Tiso e a escolha certeira de Fernanda Torres para o papel-título (em sua estreia no cinema), "Inocência" acabou por tornar-se uma das produções nacionais mais elogiadas dos anos 1980, saindo do Festival de Brasília com dois prêmios (direção e ator coadjuvante) e conquistando fãs por seu capricho técnico e artístico. Com base em uma adaptação feita pelo cineasta Lima Barreto, o roteiro de Lima Jr. encontra na fidelidade à obra original o caminho para o coração do espectador.

Em uma estrada do interior do Mato Grosso do século XIX, o jovem médico Cirino (Edson Celulari) se encontra com o fazendeiro Martinho Pereira (Sebastião Vasconcelos) e se oferece para, com seus conhecimentos profissionais, tratar da malária da filha do novo amigo. Inocência (Fernanda Torres) está há dias enferma, e assim que começa a melhorar - graças ao tratamento do desconhecido - chama a atenção do visitante, encantado por sua beleza e pela pureza de seus modos. Educada com rigidez pelo pai e prometida em casamento a Manecão (Ricardo Zambelli), amigo da família, Inocência é tida como uma princesa presa em uma redoma, a única mulher (além da empregada da casa) em um universo masculino e patriarcal, onde honra manchada se lava com sangue e as regras são todas ditadas pelos homens. O amor nascente entre ela e Cirino, portanto, surge como um potencial desafio ao status quo - já abalado por outra presença masculina, a do zoólogo alemão Meyer (Rainer Rudolph), deslumbrado pela adolescente.


 

Considerado um marco do Regionalismo, o livro de Taunay retrata com fidelidade os costumes típicos do mundo rural e as idiossincrasias de seu universo, apesar de contar com elementos também do Romantismo e do Realismo. O roteiro do diretor não abre mão de tais detalhes, utilizando-os como matéria-prima para uma trama que não se concentra apenas em uma história de amor proibido mas também como o desenho de uma época e de uma mentalidade próprias. Se Inocência parece servir apenas como um objeto - de desejo, de posse, de admiração platônica, de representação simbólica de um estado de coisas que não deve ser alterado -, a masculinidade tóxica a seu redor se desdobra em tentar, por quaisquer meios, impor sua pretensa superioridade. Não é surpresa que Inocência, criada em meio a um ambiente hostil no qual ela só tinha a opção de aceitar o que lhe era forçado, se apaixone por Cirino, um homem estudado, gentil e de modos delicados que contrastam com a bestialidade do pai, do noivo e até do anão mudo que lhe vigia dia e noite. Também não chega a surpreender que sua rebeldia romântica seja o gatilho de sua tragédia - filmada com a sutileza característica de Walter Lima Jr., sem pressa e repleta da poesia visual da câmera de Pedro Farkas, que explora a beleza juvenil e pálida de Fernanda Torres como se fosse uma estátua grega, inalcançável e fadada à desgraça. 

E Fernanda, no auge da juventude - 17 anos à época da estreia do filme - já demonstra, em seu primeiro papel no cinema, a potência dramática que faria dela uma das maiores atrizes de sua geração. Ainda que quase silenciosa, sua Inocência é força motriz do filme, a catalisadora da trama - e seu trabalho encontra apoio no ótimo desempenho de Sebastião Vasconcelos e na elegância de Edson Celulari, dois extremos que sintetizam com eficiência a dicotomia crucial do romance de Taunay. Mesmo sem ousar na forma - a narrativa é simples e linear -, "Inocência" cumpre o que promete e entrega ao espectador uma história de amor à moda antiga, que respeita o material original e o engrandece com escolhas artísticas certeiras.

quarta-feira

ÁGUA PARA ELEFANTES


ÁGUA PARA ELEFANTES (Water for elephants, 2011, Fox 2000 Pictures, 122min) Direção: Francis Lawrence. Roteiro: Richard LaGravenese, romance de Sara Gruen. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Alan Edward Bell. Música: James Newton Howard. Figurino: Jacqueline West. Direção de arte/cenários: Jack Fisk/Jim Erickson. Produção executiva: Kevin Halloran. Produção: Gil Netter, Erwin Stoff, Andrew R. Tennenbaum. Elenco: Robert Pattinson, Reese Witherspoon, Christoph Waltz, Hal Holbrook, Paul Schneider, Jim Norton. Estreia: 22/4/2011

Quando "Água para elefantes" estreou nos EUA, em abril de 2011, o ator Robert Pattinson ainda estava preso aos filmes da série "Crepúsculo" - que tanto foram responsáveis por sua popularidade (especialmente junto ao público adolescente feminino) quanto pela falta de respeito por parte da crítica a seu trabalho, situação que mudaria somente anos mais tarde, graças a sua associação com diretores de prestígio, como David Cronenberg. Mas, apesar do pouco caso da imprensa em relação a seus dotes artísticos, é inegável que boa parte do sucesso de bilheteria do filme, adaptado do romance homônimo de Sara Gruen, se deve à sua presença. Com uma trama derivativa e pouco original, "Água para elefantes" se beneficia de uma produção caprichada para disfarçar a direção morna de Francis Lawrence, que consegue deixar apagada até mesmo a normalmente carismática Reese Witherspoon.

A trama de "Água para elefantes" - e sua subsequente adaptação para o cinema - explora (nem sempre a contento) todos os elementos do que se convencionou chamar de "história de amor à moda antiga": um herói íntegro e romântico; uma mocinha sofrida mas decidida a lutar contra tudo e todos; uma paixão proibida; um vilão crudelíssimo e um cenário extravagante. Senão vejamos: o jovem Jakob Jankowski (Robert Pattinson) vê sua vida virar de cabeça para baixo quando perde a oportunidade de fazer a prova final de sua faculdade de Veterinária devido à trágica morte dos pais e, com isso, sua derrocada financeira que o obriga até mesmo a abandonar a casa onde morava. Por obra e graça do destino - ou dos desvãos das mãos caprichosas da escritora - ele acaba indo trabalhar como operário em um circo de propriedade do violento August (Christoph Waltz vivendo dois personagens amalgamados em um único, para desprazer dos leitores da obra original). August trata os empregados de seu circo, o Benzini Bros., com desprezo e tampouco se importa em ser cuidadoso com os animais que se apresentam pelas cidades onde o espetáculo é montado - até mesmo sua relação com a esposa, Marlena (Reese Witherspoon), mais jovem e uma das estrelas da companhia, é construída sobre uma base de medo e tensão. Quando Rosie, um elefante fêmea é adquirida para incrementar os shows, Jakob se aproveita de sua qualificação profissional para tornar-se seu cuidador e treinador oficial - e se apaixona irremediavelmente por Marlena. O romance entre os dois é sufocado pela onipresença de August, que jamais aceitaria perder a mulher para um empregado.

 

Com um prólogo interessante que apresenta o veterano Hal Holbrook como um Jakob idoso e nostálgico de seus dias no circo, o filme de Francis Lawrence - diretor de videoclipes de Britney Spears, Jennifer Lopez, Black Eyed Peas e Lady Gaga e da cultuada adaptação de "Constantine" (2005) - cria uma atmosfera envolvente, sublinhada pela trilha sonora épica de James Newton Howard e pela recriação dos anos da Depressão norte-americana dos anos 1930, mas peca ao não dar a mesma importância ao desenvolvimento dos personagens, em especial os secundários. O romance entre os protagonistas não convence por uma perceptível falta de química entre Reese Witherspoon - cujo talento é indiscutível - e Pattinson, que ficou com um papel para o qual foram testados também Andrew Garfield, Channing Tatum e Emile Hirsch: não existe entre eles aquela faísca que deixa impossível ao espectador não torcer por seu final feliz, em parte por problemas do roteiro (que não permite ao público acompanhar o florescer de seus sentimentos) e em parte pela edição que se pretende ágil mas é apenas apressada. Nem mesmo Christoph Waltz consegue escapar dos problemas, repetindo os trejeitos de sua criação mais famosa, o nazista Hans Landa, de "Bastardos inglórios" (2009), e criando um vilão unidimensional, sem qualquer nuance que o faça parecer mais do que apenas um antagonista cruel. E, golpe de misericórdia, o ambiente circense é subaproveitado, servindo unicamente como um mero pano de fundo - e nem a bela fotografia de Rodrigo Prieto consegue valorizá-lo.

No fim das contas, "Água para elefantes" é apenas um romance morno, cujo visual disfarça (relativamente bem) uma alma de telenovela. Com personagens rasos e uma trama folhetinesca que agrada aos fãs do gênero (e do par central de atores), é uma produção que fica muito a dever até mesmo em termos de emoção. E é de se questionar a qualidade geral de um filme quando seu maior destaque fica por conta de um elefante - Rosie, que serve de ponto fundamental para o clímax, rouba a cena sempre que aparece e desperta mais empatia do que o casal protagonista. Não que isso faça diferença para quem lotou as salas de exibição, mas tanto Pattinson quanto Witherspoon não estavam em seus melhores dias.


O DESPERTAR DE UMA PAIXÃO

 


O DESPERTAR DE UMA PAIXÃO (The painted veil, 2006, Warner Independent Pictures/Bob Yari Productions, 125min) Direção: John Curran. Roteiro: Ron Nyswaner, romance de W. Somerset Maughan. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: Alexandre de Franceschi. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Juhua Tu/Peta Lawson. Produção executiva: John Curran, Mark Gordon, Robert Katz, Ron Nyswaner. Produção: Sara Colleton, Jean-François Fonlupt, Edward Norton, Naomi Watts, Bob Yari. Elenco: Edward Norton, Naomi Watts, Liev Schreiber, Toby Jones, Juliet Howland. Estreia: 13/12/2006

Vencedor do Golden Globe de Trilha Sonora Original

Publicado em forma de folhetim na revista Cosmopolitan, entre novembro de 1924 e março de 1925, o o romance "The painted veil", de W. Somerset Maughan, deu origem a duas adaptações cinematográficas antes de 2006. A primeira, lançada em 1934 como "O véu pintado",  tinha Greta Garbo como estrela mas não chega a ser um grande destaque na carreira da icônica atriz. A segunda, batizada como "O sétimo pecado", estreou em 1957e apresentava Eleanor Parker no principal papel feminino - e é igualmente pouco lembrada em seu currículo. Por isso, quando uma terceira versão do filme chegou às telas, no final de 2006, não houve a gritaria sempre tão comum quando se trata de refilmagens de clássicos. Dirigido por John Curran (cineasta sem um grande sucesso para chamar de seu) e estrelado por dois atores de grande prestígio, Edward Norton e Naomi Watts, "O despertar de uma paixão" é uma adaptação fiel e elegante de uma história sobre amor, traição e perda - e se não alcançou o sucesso merecido, isso diz mais sobre o mau costume do público de consumir produtos rasos do que sobre suas várias qualidades.

A história se passa na década de 1920 e começa com o casamento da bela e frívola Kitty Garstin (Naomi Watts em papel oferecido a Nicole Kidman) com o jovem bacteriologista Walter Fane (Edward Norton). Ansiando por fugir dos domínios da mãe possessiva, Kitty aceita o pedido do introvertido Fane e se muda com ele para Shangai. Lá, sentindo-se solitária e deslocada, ela se apaixona por um conterrâneo, o vice-cônsul Charles Townsend (Liev Schreiber), e inicia um tórrido romance que, pouco discreto, acaba descoberto por seu marido. Ofendido em seus brios e disposto a punir a esposa, Fane planeja, então, uma vingança das mais cruéis: cabe a Kitty passar por um divórcio escandaloso e, por consequência, ser rejeitada pela sociedade, ou acompanhá-lo a um distante vilarejo acometido por um violento surto de cólera. Decepcionada com a atitude de Townsend em não ampará-la, Kitty embarca com o marido para uma viagem da qual não sabe se voltará. Longe da cidade, porém, ela acaba por encontrar um sentido para a própria vida - ajudar as freiras a cuidar de um orfanato - e ver com outros olhos o homem com quem se casou. A dúvida que surge, no entanto, é uma só: será que as provações poderão reaproximar o casal, ou o relacionamento já está definitivamente condenado?

 

Embalado pela bela trilha sonora de Alexandre Desplat, premiada com o Golden Globe, "O despertar de uma paixão" acerta o tom ao optar por uma narrativa clássica e suave, sem atropelos de ritmo ou excessos melodramáticos. O roteiro de Ron Nyswaner - autor de "Filadélfia" (1993) - conta sua história de forma a envolver o espectador gradualmente, dando tempo aos personagens (e ao público) de compreender todas as suas implicações, sejam elas românticas ou sociais. Mesmo que a direção de Curran seja pouco inventiva e até trivial visualmente, é difícil não se deixar impactar pelo belo trabalho de Edward Norton e Naomi Watts, também produtores do filme: em um registro minimalista que evita a grandiloquência, os dois atores mergulham em um universo de dor e sofrimento que se revela através de gestos simples e olhares angustiados. É interessante a maneira com que Curran transita entre o sublime dos momentos românticos e o terror das sequências que mostram as consequências da epidemia, como se mostrasse dois filmes que se cruzam em um mesmo e melancólico clímax. Para isso colabora a atmosfera claustrofóbica imposta pela fotografia quente de Stuart Dryburgh, que transmite com precisão o desespero da situação imposta pela história e os personagens.

Injustamente pouco lembrado dentro da filmografia de seus astros, "O despertar de uma paixão" passou praticamente em branco pelas cerimônias de premiação e tampouco fez barulho nas bilheterias. Filmado na China e coproduzido por uma companhia local que exigiu controle sobre o roteiro e o corte definitivo - felizmente sem maiores ônus ao resultado final -, talvez tenha sido prejudicado pelo tema pesado e pela campanha pouco esforçada do estúdio. Mas é uma produção caprichada, feita para adultos que procuram mais do que simplesmente finais felizes anódinos e artificiais. Pode-se dizer, sem medo, que é a versão definitiva do romance de Maughan.

sexta-feira

AO ENTARDECER

 


AO ENTARDECER (Evening, 2007, Hart Sharp Entertainment/Twins Financing/MBF Erste Filmproduktiongesellschaft, 117min) Direção: Lajos Koltai. Roteiro: Michael Cunningham, Susan Minot, romance de Susan Minot. Fotografia: Gyula Pados. Montagem: Allyson C. Johnson. Música: Jan A. P. Kaczmarek. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Caroline Hanania/Catherine Davis. Produção executiva: Michael Cunningham, Jill Footlick, Michael Hogan, Robert Kessel, Susan Minot. Produção: Jeffrey Sharp. Elenco: Claire Danes, Patrick Wilson, Hugh Dancy, Vanessa Redgrave, Toni Collette, Natasha Richardson, Meryl Streep, Mamie Gummer, Eileen Atkins, Glenn Close, Barry Bostwick. Estreia: 09/6/2007 (Newport International Film Festival)

Autor dos livros que deram origem ao premiado "As horas" (2002) - vencedor do Oscar de melhor atriz e indicado a outras sete estatuetas - e ao pouco conhecido "Uma casa no fim do mundo" (2004), estrelado por Colin Farrell e Robin Wright -, o norte-americano Michael Cunningham tem predileção por personagens torturados por lembranças do passado e escolhas erradas. Por isso não é surpresa ver seu nome como um dos roteiristas de "Ao entardecer", baseado no romance de Susan Minot: o drama dirigido pelo húngaro Lajos Koltai tem muito da personalidade do escritor e de sua sensibilidade quase feminina, e sua história de amor, renúncia e arrependimentos é o material ideal para emocionar ao público fiel do gênero. Nem sempre a mistura funciona, no entanto, e por mais que sua lista de créditos seja invejável, o filme, lançado sem muito alarde no verão norte-americano de 2007, não chega a ser um marco na carreira de seus envolvidos.

Narrado em dois tempos cronológicos que se intercalam e completam, "Ao entardecer" tem como protagonista Ann Grant, uma mulher que, à beira da morte (e na pele da excelente Vanessa Redgrave), se deixa mergulhar em lembranças de um passado tão romântico quanto dolorido. Suas reminiscências remetem direto a um fim-de-semana em particular, quando (vivida por Claire Danes), compareceu ao casamento da melhor amiga, Lila Wittenborn (Mamie Gummer) em sua mansão litorânea de Newport. Acompanhada do melhor amigo Buddy (Hugh Dancy) - irmão da noiva -, a aspirante a cantora não resiste à beleza natural do local e à atmosfera romântica do evento e acaba por se apaixonar por Harris Arden (Patrick Wilson), um amigo não aristocrático da família. O problema é que não apenas Lila ainda tem fortes sentimentos pelo rapaz - com quem teve um rápido envolvimento no passado -, mas também o inconstante e quase irresponsável Buddy parece nutrir algo mais do que simples amizade por ele. Quando uma tragédia mancha irremediavelmente a festa, cabe a Ann decidir os rumos de sua vida adiante - uma decisão que irá atormentá-la pelo resto de seus dias.

 

Apesar de não apresentar a profundidade que se poderia esperar de uma trama tão repleta de melancolia e culpa, "Ao entardecer" se beneficia - e muito - de um poderoso elenco feminino que se dá ao luxo de ter, em curtas participações especiais, as espetaculares Meryl Streep e Glenn Close. A primeira dá vida à madura Lila, quando, em visita à sua melhor amiga, rememora a dor dos dias trágicos que praticamente as afastaram. Close, por sua vez, surge em cena como a excêntrica mãe de Lila e Buddy - com direito a pelo menos uma cena digna de seus melhores trabalhos. Dividindo o papel de Ann em diferentes fases da vida, Claire Danes e Vanessa Redgrave compartilham, também, a força da sutileza, optando sempre pelo mínimo para transmitir a variada gama de sentimentos de sua personagem. Na pele das filhas adultas de Ann - duas mulheres com visões distintas da vida e que se vêem diante da iminência da morte -, as ótimas Toni Collette e Natasha Richardson (filha de Vanessa Redgrave também na vida real) encontram o tom exato entre a angústia da perda  e a surpresa em descobrir uma história escondida na vida da mãe aparentemente feliz. Ao elenco masculino resta pontuar com correção o brilho das mulheres: Patrick Wilson é o galã ideal, másculo e romântico, e Hugh Dancy (que se apaixonou por Claire Danes durante as filmagens, e foi correspondido) se destaca como o vibrante e pouco ortodoxo Buddy. Premiado diretor de fotografia indicado ao Oscar por "Malena" (2000), Lajos Koltai sai-se relativamente bem no comando de seus atores e brilha na composição visual das cenas - algumas delas dotadas de uma poesia tocante  -, mas nem sempre consegue manter o ritmo de sua narrativa, o que acaba por comprometer o resultado final e amenizar seu impacto emocional. A carreira musical de Ann, por exemplo, é apenas citada em alguns diálogos - apenas no casamento de Lila ela solta a voz, mas sua paixão por Harris muitas vezes soa maior do que pela música, e até mesmo sua história de amor não alcança profundidade o suficiente para que o espectador se importe com ela. Claire Danes é uma atriz fantástica, mas sua química com Patrick Wilson é apenas morna, o que enfraquece o ponto principal de todo o filme.

Pouco lembrado dentro da filmografia de seus atores - todos eles com um vasto e relevante currículo -, "Ao entardecer" é um belo filme, tanto em termos visuais quanto dramáticos, mas carece da força que os grandes possuem. A história pouco memorável é valorizada pelo ótimo elenco, mas por vezes soa como um dèja-vu, misturando elementos de várias outros romances sem grandes critérios. O roteiro - coescrito por Michael Cunningham e pela autora do livro que lhe deu origem, Susan Minot - não apresenta maiores novidades e é quase previsível, com um final tão sutil que priva o espectador da catarse que se espera de uma produção do gênero. Apesar dos pesares, no entanto, tem tudo para comover aos mais sensíveis - e nunca é perda de tempo assistir gente como Claire, Vanessa, Meryl, Toni e Glenn Close.

ATAQUE DOS CÃES


ATAQUE DOS CÃES (The power of the dog, 2021, Netflix/BBC Films, 126min) Direção: Jane Campion. Roteiro: Jane Campion, romance de Thomas Savage. Fotografia: Ari Wegner. Montagem: Peter Sciberras. Música: Jonny Greenwood. Figurino: Kirsty Cameron. Direção de arte/cenários: Grant Major/Amber Richards. Produção executiva: Rose Garnett, Simon Gillis, John Woodward. Produção: Jane Campion, Iain Canning, Roger Frappier, Tanya Seghatchian, Emile Sherman. Elenco: Benedict Cumberbatch, Kirsten Dunst, Jesse Plemmons, Kodi Smith-McPhee. Estreia: 02/9/2021 (Festival de Veneza)

12 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Direção (Jane Campion), Ator (Benedict Cumberbatch), Ator Coadjuvante (Jesse Plemons/Kodi Smith-McPhee), Atriz Coadjuvante (Kirsten Dunst), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Som

Vencedor do Oscar de Direção (Jane Campion)

Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Direção (Jane Campion), Ator Coadjuvante (Kodi Smith-McPhee)

Quem conhece o cinema da neozelandesa Jane Campion sabe que o que lhe interessa é o turbilhão interno de seus personagens. Mesmo quando o sexo está ameaçando romper o verniz de civilidade que revestem seus protagonistas é o que se passa além de seus desejos carnais que chama a sua atenção. Foi assim, por exemplo, com a pianista muda que redescobre o prazer e o amor no mais inesperado momento, no premiado "O piano" (1993) e com a dama da sociedade que se vê alvo de uma armadilha engendrada por seu marido e sua melhor amiga, em "Retrato de uma mulher" (1996). E é assim também em "Ataque dos cães", que estreou no Festival de Veneza de 2021 e imediatamente despertou comentários entusiasmados que o levaram a merecidas doze indicações ao Oscar: a despeito de parecer, a princípio, apenas uma desconstrução dos cânones do western, a história da relação doentia/intrigante/imprevisível entre dois irmãos e a mulher que surge entre eles é um estudo sombrio sobre ciúme, vingança e intolerância, contado com o estilo quase contemplativo de Campion - desta vez centrando sua trama em um protagonista masculino.

Afastada do cinema desde "O brilho de uma paixão" (2009) - como diretora esteve envolvida apenas com a minissérie "Top of the lake", entre 2013 e 2017 -, Jane Campion voltou à cena no auge de sua força narrativa. Explorando o romance de Thomas Savage como ponto de partida, a cineasta/roteirista nada contra a corrente do cinema de fácil digestão ao criar uma teia de sentimentos escondidos, sensações recalcadas e meias-verdades que vão se avolumando até o final - um clímax poderoso, mas de uma sutileza tal que deixa no espectador a dúvida sobre seus reais desdobramentos. O roteiro de Campion é repleto de silêncios avassaladores, sublinhados pela bela trilha sonora de Jonny Greenwood e, enfeitado pelas deslumbrantes paisagens da Nova Zelândia (fazendo as vezes do estado de Montana, cenário da trama), conduz o público a um labirinto de intenções escusas e atrações dúbias: seus personagens não são unidimensionais, seus desejos quase nunca se revelam facilmente e muitas das aparências enganam - essa é "a força do Cão" do título original, a capacidade que o demônio tem de disfarçar sua real face até que seja tarde demais. O teor fatalista do enredo - que pode até soar como uma tragédia grega - encontra na direção suave de Campion (premiada com uma estatueta da Academia) a tradução ideal: mesmo que imprima um ritmo bem mais lento do que a média do cinema contemporâneo, a realizadora acerta em cheio em não apressar o desenvolvimento de seus personagens e de suas ações, oferecendo a eles (e a seus intérpretes fabulosos) espaço suficiente para que jamais pareçam gratuitos ou incoerentes.

 

O personagem principal do filme é Phil Burbank (Benedict Cumberbatch em mais um desempenho memorável): fazendeiro bruto, quase irascível e pouco dado a sutilezas, ele desperta a antipatia imediata da independente Rose (Kirsten Dunst), proprietária de um restaurante de beira de estrada, ao implicar com os modos delicados e sensíveis de seu filho único, Peter (o ótimo Kodi Smith-McPhee). A relação pouco amistosa entre eles não impede, porém, que Rose aceite o pedido de casamento de George (Jesse Plemons), irmão de Phil, e se mude com ele para a fazenda que ambos dividem. A aparente falta de educação de Phil contrasta radicalmente com a delicadeza de Rose e Peter - e logo um clima de constante tensão se instala na propriedade. A dinâmica entre o quarteto só começa a mudar quando Phil inicia uma aproximação com Peter - um caminho sem volta que leva a uma tragédia inesperada, com raízes ocultas em um passado infeliz e (mal) enterrado.

O elenco escolhido por Campion é abismal - não por acaso seus quatro atores centrais chegaram a indicações da Academia. Mesmo sem precisar de longos diálogos, todos eles são capazes de expressar uma vasta gama de emoções - seus olhos, seus gestos e seus silêncios transmitem toda a angústia que circunda a existência de seus personagens. Kirsten Dunst surge como a peça inicialmente frágil em uma disputa de poder e testosterona que só pode acabar mal, mas são Benedict Cumberbatch e Kodi Smith-McPhee que roubam a cena. Seus embates são fascinantes e carregados de uma tensão cujo tamanho vai crescendo até o ponto de explodir - uma explosão que, inteligente e sutil, Campion impede que contradiga o tom delicado do filme até então. Pode até decepcionar a quem espera algo mais radical, mas não trai a essência tanto da produção em si quanto da filmografia de sua criadora. "Ataque dos cães" é um filme para poucos - como o são todos os filmes anteriores de Jane Campion - que recebeu um merecido Oscar por seu meticuloso trabalho. Mas é, também, uma pérola, que se sobressai diante da mesmice de boa parte do cinema contemporâneo hollywoodiano - e uma senhora bola dentro da Netflix, cada vez mais se firmando como espaço para grandes diretores (como Martin Scorsese, Alfonso Cuarón e David Fincher) que buscam liberdade artística.

terça-feira

O FILME DA MINHA VIDA

 


O FILME DA MINHA VIDA (O filme da minha vida, 2017, Bananeira Filmes/Globo Filmes/MGM, 113min) Direção: Selton Mello. Roteiro: Selton Mello, Marcelo Vindicato, romance "Um pai de cinema", de Antonio Skármeta. Fotografia: Walter Carvalho. Montagem: Marcio Hashimoto. Música: Plínio Profeta. Figurino: Kika Lopes. Direção de arte/cenários: Claudio Amaral Peixoto/Monica Delfino, René Padilha, Claudio Amaral Peixoto. Produção executiva: Vânia Catani, Selton Mello. Produção: Vânia Catani. Elenco: Johnny Massaro, Selton Mello, Vincent Cassel, Bruna Linzmeyer, Bia Arantes, Ondina Clais, Martha Nowill, Rolando Boldrin, Erika Januza. Estreia: 03/8/2017

A família é sempre um elemento crucial no cinema de Selton Mello. Desde que iniciou sua carreira como cineasta - com o denso "Feliz Natal" (2008) -, o também ator, roteirista e produtor passou a direcionar sua câmera a personagens mergulhados em dúvidas existenciais e questões mal resolvidas com aqueles que, dividindo o mesmo sangue ou não, fazem parte de seu entorno sentimental. Seja através da claustrofobia de seu primeiro trabalho ou da terna nostalgia de seu filme seguinte, "O palhaço" (2011), a filmografia de Selton espelha, de forma poética e por vezes dolorida, a preocupação com o mais íntimo de seus protagonistas, frequentemente atormentados por fantasmas pessoais. É o que acontece também em "O filme da minha vida", sua terceira incursão na cadeira de diretor: baseado no livro "Um pai de cinema", do chileno Antonio Skármeta, o filme é a história do amadurecimento (amoroso, sexual, profissional) de um jovem abalado pela inexplicável falta de um pai cuja ausência se faz sentida em cada momento. Esteticamente deslumbrante e e com extremo cuidado em cada detalhe, "O filme da minha vida" é um considerável passo à frente na carreira do Selton Mello diretor - tanto em termos visuais quanto narrativos.

Mais um protagonista assombrado por laços sanguíneos problemáticos, o jovem Tony Terranova (Johnny Massaro) retorna à sua Remanso, no ano de 1963, vindo da faculdade, e descobre que seu pai, Nicolas (Vincent Cassel) o está abandonando e à sua mãe para retornar à sua França natal. Atônito com tal situação, ele passa a dedicar seus dias à tentativa de descobrir os motivos que o levaram a atitude tão extrema. Nesse meio-tempo, sua rotina inclui aulas para pré-adolescentes em ebulição hormonal, sua fascinação pela bela Petra Madeira (Bia Arantes) - a ponto de não perceber a atração que exerce na irmã dela, Luna (Bruna Linzmeyer) - e conversas frequentes com Paco (Selton Mello), melhor amigo de seu pai, de quem tenta arrancar pistas sobre seu paradeiro e um exemplo de figura masculina. Misturando-se a lembranças felizes de sua infância, seu sentimento de inadequação o leva a questionar sua capacidade de servir como modelo a seus alunos, ansiosos por entrar na vida adulta.

 
 
 Filmado em cidades da serra gaúcha - local pródigo em locações deslumbrantes, captadas com extrema competência pelo veterano Walter Carvalho -, o terceiro trabalho de Mello seduz, a princípio, pelo visual acachapante, que mergulha o espectador em um mundo à parte, em uma atmosfera rarefeita onde seus personagens transitam de forma (positivamente) afetada. Ao abrir mão do naturalismo que virou marca registrada do cinema nacional, o diretor acaba por exigir mais do público, e lhe oferece em troca uma experiência rica em termos plásticos e emocionais. Com uma trilha sonora escolhida a dedo - com clássicos dos cancioneiros francês e brasileiro ilustrando sequências encantadoras - e um elenco brilhante (dos protagonistas aos menores coadjuvantes, especialmente os infantis), "O filme da minha vida" é o feliz encontro do calor do cinema brasileiro com a sofisticação quase cerebral do cinema europeu. Selton Mello conduz o espectador por um caminho fascinante, em que a emoção brota quando menos se espera - e sempre de forma elegante, como nos filmes assistidos pelo romântico Tony. Mesmo que o desfecho deixe a desejar (depois de uma reviravolta interessante em que o diretor/ator aproveita para fazer uma discreta homenagem ao cinema), as qualidades técnicas e artísticas do filme são tão consistentes que é difícil não se deixar conquistar por elas. Ciente das ferramentas de que poderia utilizar para contar sua história, Mello as aproveita como um veterano, equilibrando técnica e emoção nas medidas certas.

Expandindo o romance que lhe deu origem - escrito pelo mesmo Antonio Skármeta de "O carteiro e o poeta" -, o roteiro de "O filme da minha vida" corre sem pressa diante dos olhos do espectador. A bela paisagem gaúcha emoldura um ritual de passagem repleto de um humor ingênuo e sentimental - algo que também fez parte de "O palhaço" - e tem em Johnny Massaro sua figura de centro. Mesmo apático em alguns momentos, Massaro parece ter encarnado com perfeição o Tony Terranova criado pelos autores, intercalando uma melancolia quase incurável com olhos de esperança inevitável. Ao lado de Selton Mello (o ator em um personagem encantador em sua quase misantropia) e de um elenco que conta com o francês Vincent Cassel em uma participação especialíssima, Massaro prova o alto grau de excelência que o cinema nacional pode alcançar. Pode até não ser um filme para o público que gosta de blockbusters, mas é o cinema brasileiro em seu mais alto patamar artístico.

quinta-feira

A FOGUEIRA DAS VAIDADES

 


A FOGUEIRA DAS VAIDADES (The bonfire of the vanities, 1990, Warner Bros, 125min) Direção: Brian DePalma. Roteiro: Michael Cristofer, romance de Tom Wolfe. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Bill Pankow, David Ray. Música: Dave Grusin. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Richard Sylbert/Joe Mitchell, Justin Scoppa. Produção executiva: Peter Guber, Christine Peters, Jon Peters. Produção: Brian DePalma. Elenco: Tom Hanks, Bruce Willis, Melanie Griffith, Morgan Freeman, Kim Catrall, Saul Rubinek, John Hancock, Rita Wilson, Kirsten Dunst. Estreia: 21/12/90

Sherman McCoy é um bem-sucedido magnata de Wall Street, bem casado e em franca ascensão profissional e financeira. Peter Fallow é um jornalista quase decadente, quase alcóolatra e quase em vias de abandonar a carreira. Uma noite, depois de um encontro, McCoy vê a amante atropelar um jovem negro em um bairro barra-pesada de Nova York e a incentiva a fugir do local, certo de que jamais serão descobertos. Por acaso, Fallow descobre a identidade do dono do veículo e, com a atenção da imprensa, não hesita em divulgá-lo e contar sua história. Exposto na mídia, McCoy se vê perdendo a a família, o respeito, a posição social e até mesmo a liberdade: bode expiatório de uma série de interesses políticos e advogados corruptos, ele se vê diante da ambição de gente como o demagogo reverendo de uma comunidade negra e um promotor público com ambições pouco louváveis. Enquanto sua descida é cada vez mais veloz, o caminho de Fallow rumo ao topo parece inevitável - e ele parece bastante disposto a pagar o preço do sucesso.

As expectativas a respeito da adaptação cinematográficas do best-seller "A fogueira das vaidades" - primeiro livro de ficção de Tom Wolfe - eram altas. Aplaudido pela imprensa e presença constante nas listas dos mais vendidos por meses, o romance de Wolfe - uma obra repleta de ironia e sarcasmo, sem herois e recheado de personagens dúbios e pouco agradáveis - soava como um desafio a quem quer que assumisse a responsabilidade de levá-lo às telas sem perder sua essência amoral. No entanto, desde sua gênese tudo apontava para um potencial desastre, justamente por seu tom pouco disposto a corroborar  a ideia do american way of life. Entre seguir a trama à risca - apostando na capacidade das plateias de abraçar ousadias temáticas e narrativas - e desfigurar a obra original como forma de alcançar uma bilheteria expressiva, a Warner Bros acabou por decidir-se pela segunda opção - o que resultou em críticas violentas e uma resposta ensurdecedora por parte do público: com pouco mais de 15 milhões de dólares de arrecadação mundial (contra um orçamento estimado em 47 milhões), a obra dirigida por Brian De Palma entrou para a história como um dos maiores fracassos de Hollywood, além de ser considerado um dos piores filmes das carreiras de todos os envolvidos - um grupo que conta com nomes poderosos da indústria, como Tom Hanks e Bruce Willis.

 


Antes de iniciar o processo de tornar-se um dos intérpretes mais respeitados de sua geração - com dois Oscar consecutivos de melhor ator -, Tom Hanks foi uma escolha inusitada e corajosa para viver o protagonista, Sherman McCoy, um bem-sucedido magnata de Wall Street, e só entrou em cena depois que Mike Nichols abandonou o barco e, com ele, levou Steve Martin, cujo perfil combinava bem mais com o personagem - antes ainda de Hanks outros nomes importantes chegaram a ser cotados, como Jon Voigt, Kevin Costner, Christopher Reeve e até John Lithgow (o preferido do diretor Brian De Palma) e Chevy Chase (que teria sido a escolha do próprio Tom Wolfe). A entrada de Hanks - assim como a de outros nomes chave do projeto, cortesia do então produtor Peter Guber  - acabou sendo um fator decisivo para o rumo da produção em direção a uma atmosfera bastante distinta do livro original, enfatizada pelo roteiro de Michael Cristofer (outro contratado por Guber): com sua aura de bom moço, Hanks suavizava a personalidade arrogante e amoral de McCoy e de certo modo equilibrava o cinismo do jornalista Peter Fallow, o segundo personagem central da trama - inglês no romance (assim como John  Cleese, que recusou o papel) e americano no cinema (o que não foi o suficiente para convencer Jack Nicholson a entrar no jogo). Em mais uma cartada para chamar a atenção do público, o estúdio ousou novamente e chamou Bruce Willis (em alta pelo sucesso de "Duro de matar", de 1988, mas sem maiores êxitos fora do cinema de ação). A surpreendente dupla formada por Hanks e Willis (mais o tititi em torno do livro de Wolfe) já seria o bastante para garantir notas de jornais, mas as esperadas filas nos cinemas ficaram apenas na vontade: o fiasco de bilheteria e as críticas impiedosas (cinco indicações ao Framboesa de Ouro, incluindo pior filme, atriz, roteiro e diretor) mostraram que nem grandes cineastas e atores de prestígio são imunes a erros gigantescos. Mas afinal de contas, passadas décadas de sua estreia, fica a pergunta crucial: "A fogueira das vaidades" é assim tão ruim?

Apesar de algumas ideias visuais interessantes - o plano-sequência de abertura, a fotografia pouco convencional - e do esforço de Brian De Palma em traduzir o tom artificial do romance através de atuações não naturalistas do elenco (que beira a histeria), o resultado final é decididamente frustrante. O roteiro de Michael Cristofer jamais consegue seduzir o público - talvez pela falta de um personagem com quem haja qualquer identificação, talvez por sua indecisão entre o drama e a comédia - e a escalação do elenco é flagrante ao menos exigente espectador. Tom Hanks é um ator excelente (como seria provado poucos anos depois), mas não acerta o tom de seu Sherman McCoy - não à toa o próprio ator o considera seu pior filme. Bruce Willis tem pouco a fazer com seu Peter Fallow - e quando o faz parece repetir os mesmos trejeitos de um de seus mais famosos personagens até então, na série de TV "A gata e o rato". E Melanie Griffith - escolha de De Palma, com quem havia trabalhado em "Dublê de corpo" (1984) - até tenta ser mais do que apenas uma mulher sensual, mas não alcança todas as nuances que lhe são exigidas - qualquer uma atriz considerada para o papel (Uma Thurman, Robin Wright, Kyra Sedwick) provavelmente teria se saído melhor. Juntos (ao lado de Morgan Freeman e F. Murray Abraham, também subaproveitados), eles parecem perdidos em cena, soterrados pelos artifícios técnicos do diretor e por suas tentativas infrutíferas de imprimir o tom de farsa da trama de Wolfe - deliciosa no papel, bastante problemática na tela.

Uma comédia farsesca que não atinge nem perto de seu potencial crítico, "A fogueira das vaidades" sofreu também com o erro primário de não ser direcionado para uma plateia mais sofisticada - os leitores da obra original - e tentar atingir um público médio que, via de regra, rejeita produções com conceitos menos maniqueístas. Ao deformar o romance de Wolfe para que coubesse em suas ambições comerciais, a Warner acabou com o que de havia de melhor no livro (a perspicaz leitura das ironias da sociedade) e o transformou em um produto mais "palatável" (leia-se superficial e sem nenhuma personalidade). O pífio resultado financeiro e o massacre da crítica apenas refletiram a profusão de equívocos acumulados desde sua concepção. Uma pena!

terça-feira

ACONTECEU EM WOODSTOCK

 


ACONTECEU EM WOODSTOCK (Taking Woodstock, 2009, Focus Features, 120min) Direção: Ang Lee. Roteiro: James Schamus, livro de Elliot Tiber, Tom Monte. Fotografia: Eric Gautier. Montagem: Tim Squyres. Música: Danny Elfman. Figurino: Joseph G. Aulisi. Direção de arte/cenários: David Gropman/Ellen Christiansen De Jonge. Produção executiva: Michael Hausman. Produção: Celia Costas, Ang Lee, James Schamus. Elenco: Demetri Martin, Emile Hirsch, Imelda Staunton, Henry Goodman, Jonathan Groff, Jeffrey Dean Morgan, Mamie Gummer, Eugene Levy, Dan Fogler, Andy Prosky, Skylar Astin, Paul Dano. Estreia: 16/5/2009 (Festival de Cannes)

As lendas e fatos a respeito do Festival de Woodstock todo mundo já conhece - seus números, seus artistas, seus imprevistos e principalmente seu legado à história da música e da cultura popular (sem falar nos desdobramentos sociais e políticos). O que, então, poderia haver de novo a ser explorado em um filme quarenta anos depois do evento? A resposta surgiu quando o diretor Ang Lee foi interpelado por Elliot Tiber durante a divulgação de seu "Desejo e perigo" (2007): autor de um livro sobre os bastidores da organização do festival, do qual foi parte crucial, Tiber ofereceu ao cineasta a chance de contar a história sob um novo ponto de vista - e com um viés mais humano, comum em sua obra. Com seus colaboradores de confiança (James Schamus no roteiro, Eric Gautier na direção de fotografia e Tim Squyres na edição), o já vencedor de um Oscar (por "O segredo de Brokeback Mountain") lançou, no Festival de Cannes de 2009 o esperado "Aconteceu em Woodstock". O resultado, porém, ficou aquém das expectativas - tanto em termos financeiros quanto artísticos - e acabou se tornando um dos trabalhos menos memoráveis de Lee, a despeito de suas notáveis qualidades

Elliot Tiber, o autor do livro que deu origem ao filme, é interpretado por Demetri Martin, comediante em seu primeiro trabalho no cinema - uma falta de experiência e carisma que atrapalha muito as possibilidades de conexão com o espectador. Em 1969, Tiber abandona uma carreira pouco feliz de design de interiores em Nova York e retorna para a pequena cidade de White Lake com o objetivo de ajudar seus pais (Henry Goodman e Imelda Staunton) a manter vivo seu pequeno e nada convidativo hotel. A missão é complicada, já que nenhum dos dois é exatamente competente nos negócios e nada no lugar chama a atenção dos turistas ocasionais. A salvação da lavoura surge, no entanto, quanto ele menos espera: ao saber que uma cidade vizinha voltou atrás ao permitir a realização de um festival de música para o público hippie, o jovem toma as rédeas da situação e, depois de fazer contato com os produtores, transforma seu pacato lugarejo no cenário de um dos mais importantes acontecimentos culturais da história. Para isso, porém, ele precisa lutar contra o preconceito local, os problemas logísticos que envolvem a realização de algo inesperadamente gigantesco e encarar sua própria sexualidade conflituosa.

 

Fugindo da tentação de fazer do festival seu protagonista, Ang Lee segue mantendo-se fiel à sua marcante característica de priorizar os sentimentos humanos e, com eles, criar um amplo mosaico de personagens interessantes, como a travesti interpretada por Liev Schreiber (que assume o posto de segurança informal do evento), o jovem veterano do Vietnã vivido por Emile Hirsch e a idiossincrática mãe do protagonista (em um show particular de Imelda Staunton). Woodstock, na visão do cineasta, é apenas o pano de fundo (forte) para uma jornada de autodescobrimento, pincelada de momentos clássicos reproduzidos sutilmente pelo desenho de produção caprichado e pelo figurino, que dialogam com o tom onírico impresso pelo roteiro. A opção do filme em não mostrar absolutamente nenhum número musical - o que provavelmente é motivo de frustração para os fãs mais obcecados do festival - é surpreendente, mas condiz com o tom menos documental e mais emotivo da produção, que apesar disso falha em não aprofundar a contento todas as possibilidades que apresenta ao espectador. Tal problema impede que uma de suas maiores qualidades - o belo elenco - seja aproveitado em todo o seu potencial.

Quem começar uma sessão de "Aconteceu em Woodstock" com a intenção de ver Janis Joplin, Joe Cocker ou Jimi Hendrix certamente irá se decepcionar. O filme de Ang Lee é para um público que procura obras sobre pessoas em busca de si mesmas - mesmo que para isso seja preciso fazer parte de um evento de proporções gigantescas que mudou o mundo (ou ao menos a concepção de muita gente sobre ele). Pode não ser uma obra-prima como alguns dos melhores trabalhos do cineasta, mas é simpático e honesto o bastante para não fazer feio em uma filmografia marcada pela sensibilidade e pelo carinho por seus personagens.

sexta-feira

O VIOLINISTA QUE VEIO DO MAR

 


O VIOLINISTA QUE VEIO DO MAR ( Ladies in Lavender, 2004, UK Film Council/Baker Street/Future Films, 104min) Direção: Charles Dance. Roteiro: Charles Dance, conto de William J. Locke. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: Michael Parker. Música: Nigel Hess. Figurino: Barbara Kidd. Direção de arte/cenários: Caroline Amies/David Hindle. Produção executiva: Bill Allan, Charles Dance, Emma Hayter, Robert Jones. Produção: Elizabeth Karlsen, Nik Powell. Elenco: Judi Dench, Maggie Smith, Daniel Bruhl, Natascha McElhone, Freddie Jones, Toby Jones, Miriam Margoyles. Estreia: 14/6/2004 (Festival de Taormina)

Conhecido por seu trabalho como intérprete em produções de prestígio como "Assassinato em Gosford Park" (2001) e "O jogo da imitação" (2014) e séries premiadas como "Game of thrones" e "The crown", o ator britânico Charles Dance tem, em seu currículo, uma interessantíssima incursão como diretor. Lançado discretamente em 2004, "O violinista que veio do mar" já seria imperdível por ter seu elenco liderado pelas espetaculares Judi Dench e Maggie Smith, mas, além disso - e de ser o primeiro trabalho em língua inglesa do alemão Daniel Bruhl -, a adaptação do conto de William J. Locke é um filme acima da média, com um ritmo delicado que ecoa as belas paisagens da costa inglesa e brinda o espectador com personagens fascinantes e uma trama que surpreende pelos desdobramentos inusitados (mas nunca inverossímeis ou tirados da manga). Valorizado pelos desempenhos exemplares de Dench e Smith - o que não chega a ser uma surpresa -, o filme de Dance é um deleite para os fãs de histórias contadas com sutileza e sobriedade.

A trama gira em torno de Ursula (Judi Dench) e Janet (Maggie Smith), duas irmãs viúvas que moram juntas em um chalé na costa da Cornualha, poucos anos antes da II Guerra Mundial. Sua rotina pacata e sem grandes acontecimentos é abalada depois de uma violenta tormenta, quando um jovem desacordado é encontrado na praia. A princípio temerosas de colocar um desconhecido dentro de casa, logo elas resolvem cuidar do rapaz, que não fala sua língua e cuja origem é uma incógnita. Aos poucos sua comunicação vai ficando menos complicada: ao aprender noções rudimentares de inglês, o novo hóspede se identifica como Andrea, um polonês que, a caminho dos EUA para tentar a sorte como violonista, sobreviveu a um naufrágio. Enquanto se recupera dos ferimentos, Andrea, sem perceber, despertar sentimentos há muito enterrados nas duas solitárias idosas - que passam a temer sua partida especialmente quando ele inicia uma amizade com a extrovertida Olga (Natasha McElhone), uma bela russa que mora nas proximidades do chalé.

 

Fazendo pequenas alterações na história original - como a transferência para os anos pré-I Guerra Mundial e o desfecho da relação entre os protagonistas -, o roteiro do também diretor se apoia em pequenos momentos, emoções discretas e diálogos curtos (mas repletos de subtextos). Acostumadas a atuações minimalistas e sutis, Judi Dench e Maggie Smith voltam a encantar com desempenhos comoventes, pontuadas pelo bom trabalho do alemão Daniel Bruhl em seu primeiro filme falado em inglês: a interação entre os três personagens principais são o que há de melhor na obra, em uma dinâmica pontuada de mistério, sedução e até um pouco de suspense. Deixando sempre no ar uma série de possibilidades que impedem que o espectador adivinhe os próximos acontecimentos, o filme de Dance imprime uma sensação deliciosa de uma história contada em frente à lareira, com personagens humanos e bem escritos diante de situações que caminham entre o romântico e trágico. Só não é ainda melhor por sua falha em explorar a contento a relação entre o misterioso violinista e Olga - um relacionamento que nunca deixa exatamente claro a que veio (a não ser precipitar o ato final da trama).

Em seu primeiro (e até agora único) trabalho como diretor, Charles Dance mostra-se atento às sutilezas, tanto de sua trama quanto de suas estupendas atrizes. Talvez pelo fato de ser também um intérprete, Dance valoriza a construção paulatina de climas e relações entre seus personagens, enfatizando-as mais do que à própria trama, que serve, na verdade, como uma forma de retrato da solidão e suas vicissitudes. Narrado em um ritmo delicado que não deixa espaço para cortes bruscos e catarses exageradas, "O violinista que veio do mar" é um oásis de paz e sensibilidade - e mais um exemplo do talento dos colaboradores envolvidos.

quarta-feira

DA MAGIA À SEDUÇÃO


DA MAGIA À SEDUÇÃO (Practical magic, 1998, Warner Bros, 104min) Direção: Griffin Dunne. Roteiro: Robin Swicord, Akiva Goldsman, Adam Brooks, romance de Alice Hoffman. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Elizabeth Kling. Música: Alan Silvestri. Figurino: Judianna Makovksy. Direção de arte/cenários: Robin Standefer/Claire Jenora Bowin. Produção executiva: Bruce Berman. Produção: Denise Di Novi. Elenco: Sandra Bullock, Nicole Kidman, Aidan Quinn, Dianne Wiest, Stockard Channing, Goran Visnjic, Marc Feuerstein, Evan Rachel Wood, Margo Martindale, Chloe Webb. Estreia: 16/10/98

Quando "Da magia à sedução" chegou aos cinemas, Nicole Kidman ainda não era a estrela que viria a se tornar depois do sucesso de "Moulin Rouge: o amor em vermelho" e "Os outros" - ambos lançados em 2001 - nem tampouco tinha o prestígio que o Oscar por "As horas" (2002) lhe traria. Em outubro de 1998, data da estreia, a maior estrela do projeto era Sandra Bullock, em franca ascensão desde que chamou a atenção do público pela primeira vez, em "Velocidade máxima" (1994). A união das duas atrizes, porém, ao contrário do que se poderia esperar, decepcionou. Com menos de 50 milhões de dólares arrecadados nas bilheterias mundiais, o filme dirigido pelo também ator Griffin Dunne - e baseado em um best-seller de Alice Hoffman - ficou em um estranho meio-termo entre uma comédia romântica com tons sobrenaturais e um suspense fantástico com elementos típicos das histórias de amor que enchem os olhos dos fãs do gênero. Escorado no carisma de suas estrelas e com o apoio luxuoso de um elenco coadjuvante impecável, "Da magia à sedução" funciona como um passatempo acima da média - mas inegavelmente sofre com sua atmosfera um tanto indecisa.

De acordo com um dos roteiristas, o premiado Akiva Goldsman - Oscar por "Uma mente brilhante" (2001) - a primeira versão do filme privilegiava o lado mais sombrio da história criada por Hoffman e publicada em 1995. O marketing promovido pela Warner, porém, conduziu a produção a um resultado mais leve, de olho em um público mais amplo. Sendo assim, a saga de duas jovens irmãs lidando com seus dons de feitiçaria encontrou, no filme de Dunne, um viés mais lúdico e menos mórbido. Se por um lado é um acerto, ao explorar o talento cômico de suas atrizes, também deixa no ar a sensação de um resultado final híbrido, que não atinge todo o seu potencial dramático. Tal problema de foco respingou inclusive na trilha sonora original de Michael Nyman, que foi substituída, depois de exibições-teste, por uma música considerada menos "europeia e intrusiva", composta por Alan Silvestri. Com intenções mais comerciais, a versão que finalmente chegou às telas acabou por decepcionar o estúdio - mas tornou-se cult com o passar do tempo, principalmente devido à presença de Kidman e Bullock.

 

As duas atrizes vivem, respectivamente, Gillian e Sally Owens, irmãs que, órfãs, vivem desde a infância em uma pequena ilha na costa de Massachussets, criadas por suas tias, Frances (Stockard Channing) e Jet (Dianne Wiest). Descendentes de uma longa linhagem de bruxas, elas sabem que são amaldiçoadas para o amor e se ressentem de terem passado a vida toda sofrendo o preconceito dos outros moradores locais. Chegando à idade adulta, porém, sua união é posta à prova pelas radicais diferenças entre suas personalidades. Enquanto Sally - introvertida e romântica - desafia sua sina e vive um casamento feliz e realizado com Michael (Mark Feuerstein), Gillian - rebelde e sensual - foge da cidade com o objetivo de viver a vida longe dos olhos maldosos dos conterrâneos. A maldição que as une, no entanto, parece mais forte do que qualquer coisa: Sally fica viúva depois de um trágico acidente, e Gillian se envolve em um relacionamento tóxico e violento com o perigoso Jimmy Angelow (Goran Visjnic) - uma relação cujos desdobramentos trágicos a obriga a retornar ao lar e apresenta as duas irmãs o detetive de polícia Gary Hallet (Aidan Quinn). Sua reunião abala a tranquilidade da pequena cidade - mas pode, paradoxalmente, ajudá-las a superar o preconceito que cerca sua família e suas origens.

O que pode ser dito a respeito de "Da magia à sedução" é que, apesar dos problemas, o produto final é um delicioso programa para os menos exigentes. No auge da beleza, Nicole Kidman rouba a cena como a tresloucada e irresponsável Gillian - um contraponto aos dramas de Sally, interpretada por uma Sandra Bullock competente mas repetindo os trejeitos que fizeram dela uma grande estrela. Stockard Channing e Dianne Wiest brilham a cada aparição e a direção de Griffin Dunne faz o possível para extrair o melhor de um roteiro cuja mudança de tom no terço final prejudica mais do que ajuda. Para os fãs de suas atrizes centrais é imperdível - mas fica no ar a sensação de que poderia ter sido melhor, mais memorável ou até mesmo mais corajoso.

segunda-feira

BARRY LYNDON


BARRY LYNDON (Barry Lyndon, 1975, Warner Bros,
185min) Direção: Stanley Kubrick. Roteiro: Stanley Kubrick, romance de William Makepeace Thackeray. Fotografia: John Alcott. Montagem: Tony Lawson. Música: Leonard Rosenman. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Ken Adam/Roy Walker. Produção executiva: Jan Harlan. Produção: Stanley Kubrick. Elenco: Ryan O'Neal, Marisa Berenson, Patrick Magee, Gay Hamilton, Frank Middlemass, Leonard Rossiter. Estreia: 11/12/75 (Londres)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Stanley Kubrick), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Vencedor de 4 Oscar: Fotografia, Trilha Sonora, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Conhecido por sua obsessão em termos profissionais, Stanley Kubrick dedicou boa parte de sua vida a pesquisar sobre Napoleão Bonaparte, a quem escolheu como tema de um seus filmes. Depois de ler alegadamente uma centena de livros sobre o líder francês e ter explorado o assunto por todos os ângulos, porém, viu seu projeto ser cancelado pela Warner Bros por problemas de orçamento - o que mostrou-se premonitório, haja visto o fracasso de "Waterloo" (1970), produzido por Dino de Laurentiis. Partiu, então, para a produção do controverso "Laranja mecânica" (1971) - que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor diretor - mas jamais abandonou a ideia de dirigir uma história passada no século XVIII e utilizar-se de todo o resultado de seus estudos. Foi então que mirou na obra do escritor William Makepeace Thackeray - mais precisamente em "Feira das vaidades", publicado em 1848. Com o tempo, ciente de que a vasta trama do livro não caberia em apenas três horas de duração, mudou novamente de alvo, mas ainda dentro do universo do autor, nascido na Índia em 1811. Surgia assim "Barry Lyndon", mais um de seus clássicos - e certamente a mais sofisticada de suas produções, premiada com 4 Oscar e celebrada pela crítica como uma obra-prima inquestionável.

Filmado na Inglaterra por longos nove meses - o que empurrou sua estreia para dezembro de 1975, quase dois anos e meio depois do começo da produção -, "Barry Lyndon" custou aos cofres da Warner aproximadamente 11 milhões de dólares, mas não foi um sucesso de bilheteria, para decepção do estúdio e do próprio diretor, que viu-se obrigado pela consciência a fazer de "O iluminado" - um projeto bem mais comercial - seu filme seguinte. Nem a exigência dos engravatados - de escalar um ator popular para o papel central, como forma de garantir seu sucesso financeiro - mostrou-se certeira. O apuro visual, o capricho na direção de atores e o roteiro (irônico e inteligente) não foram suficientes para conquistar a plateia. Sem as elocubrações filosóficas de "2001: uma odisseia no espaço" (1968) e o virtuosismo narrativo de "Laranja mecânica", o filme de Kubrick aposta em uma narrativa linear como forma de contar sua história, uma saga pessoal que satiriza com elegância a aristocracia europeia dos anos 1700. Com uma reconstituição de época impecável e uma fascinante direção de fotografia - que inclui belas sequências filmadas a luz de velas -, "Barry Lyndon" provou que o celebrado cineasta jamais poderia ser chamado de repetitivo.


 

A trama de "Barry Lyndon" começa com a morte do pai do protagonista, que se torna órfão ainda criança e passa a ser o centro das atenções de sua mãe. Vivendo na Irlanda do século XVIII, o rapaz, chamado Redmond Barry (e interpretado por Ryan O'Neal), se apaixona por sua prima, Nora Brady (Gay Hamilton), e tal sentimento é o catalisador de uma série de eventos que irá transformar sua vida pelas próximas décadas. Fugindo de uma acusação de assassinato - forjada por seu rival pelo amor da ambiciosa prima -, Barry acaba se unindo ao exército britânico na Guerra dos Sete Anos. Indolente e pouco honesto, ele deserta mas se vê obrigado a fazer parte do exército prussiano. Depois de salvar a vida de seu capitão, torna-se seu protegido, mas sua lealdade não é exatamente sólida e não demora a associar-se a Chevalier de Balibari (Patrick Magee), um jogador irlandês de quem só se afasta quando resolve dar o golpe do baú na milionária Lady Lindon (Marisa Berenson) - de quem assume também o sobrenome. Seu casamento com a viúva, porém, é destinado à tragédia, graças à rivalidade de Barry com seu enteado.

Talvez a maior ousadia de Stanley Kubrck em "Barry Lyndon" tenha sido a escolha de seu ator central. Um dos dez atores mais populares do cinema em uma pesquisa realizada em 1973 (ano do começo da produção), Ryan O'Neal só perdia, na época, para Clint Eastwood - logicamente velho demais para o papel. Vindo do sucesso de filmes como "Love story: uma história de amor" (1970), "Essa pequena é uma parada" (1972) e "Lua de papel" (1973), O'Neal não era, apesar disso, a primeira opção do cineasta, que preferia Robert Redford, também parte da lista dos grandes astros do momento. Com a recusa de Redford - que logo em seguida voltaria ao topo com "Nosso amor de ontem" e "Golpe de mestre", ambos de 1973 - o futuro marido de Farrah Fawcett entrou no projeto como uma forma de somar prestígio ao sucesso comercial. Por um lado deu certo: mesmo com a direção do perfeccionista Kubrick, o ator que levou multidões aos cinemas com seu drama lacrimoso ao lado de Ali McGraw não teve a mesma sorte com a produção que poderia lhe dar o status de grande intérprete - mas obteve o respeito que tal empreitada oferece. Seu desempenho, porém, acabou eclipsado pela opulência da produção: dotado de um ritmo próprio, cuja lentidão é parte indissociável do tom imposto pelo roteiro e pela direção, "Barry Lyndon" encanta principalmente pela beleza plástica. Suas três horas e cinco minutos de duração - meros doze minutos a menos que "Spartacus" (1960) e com direito a intervalo - passam sem pressa diante dos olhos do espectador, que fascinado com a bela fotografia de John Alcott, o figurino de Milena Canonero e o desenho de produção de Ken Adam, se deixa envolver por uma trama iconoclasta, satírica e quase cínica. Com um protagonista que vive na sociedade do século XVIII com uma mentalidade moderna, "Barry Lyndon" é, a seu modo, também à frente de seu tempo. Pode não ter revolucionado o cinema, mas é mais um filme indispensável na carreira de um dos poucos diretores que podem ser realmente chamados de artista.

 

quarta-feira

O SEGREDO


O SEGREDO (The chamber, 1996, Universal Pictures, 111min) Direção: James Foley. Roteiro: William Goldman, Phil Alden Robinson (Chris Reese), romance de John Grisham. Fotografia: Ian Baker. Montagem: Mark Warner. Música: Carter Burwell. Figurino: Tracy Tynan. Direção de arte/cenários: David Brisbin/Lisa Fischer. Produção executiva: David Friendly, Karen Kehela., Ric Kidney. Produção: John Davis, Brian Grazer, Ron Howard. Elenco: Chris O'Donnell, Gene Hackman, Faye Dunaway, Robert Prosky, Raymond J. Barry, Lela Rochon, Bo Jackson, David Marshall Grant. Estreia: 11/10/96

Entre 1993 e 1996, um dos nomes mais quentes em Hollywood não era um astro milionário, um cineasta prestigiado ou um produtor poderoso. Ao transformar em livros seu conhecimento como advogado e sua experiência em tribunais, John Grisham, passou, em poucos anos, de um escritor principiante a um dos autores mais requisitados pelos estúdios, sempre em busca de material para suprir a demanda de um público ávido por boas histórias. Com o apoio nada desprezível de atores como Tom Cruise, Julia Roberts, Denzel Washington e Susan Sarandon - e diretores respeitados como Sydney Pollack, Alan J. Pakula e, vá lá, Joel Schumacher - as adaptações das obras de Grisham se mostravam uma mina de ouro, se não inesgotável ao menos generosa. Assim, "A firma" (1993), "O Dossiê Pelicano" (1993), "O cliente" (1994) e "Tempo de matar" (1996) ultrapassaram a marca de 100 milhões de dólares de arrecadação e firmaram seu nome como um atestado de qualidade. Porém, como não poderia deixar de acontecer, nem todo sucesso dura para sempre - e qualquer falha no processo pode resultar em um inesperado fracasso. Foi o que aconteceu com "O segredo": com uma renda mundial que não chegou a cobrir metade de seu orçamento, estimado em 50 milhões, o filme dirigido por James Foley mostrou que nada - nem ninguém - é infalível.

Lançado poucos meses depois de "Tempo de matar", dirigido por Joel Schumacher e com um elenco que incluía Samuel L. Jackson, Kevin Spacey, Sandra Bullock e um Matthew McConaughey a caminho do estrelato, "O segredo" já estreou em desvantagem: apesar de ser um ator em franca ascensão à época -  no mínimo desde sua parceria com Al Pacino em "Perfume de mulher" (1992) -, Chris O'Donnell ainda não parecia capaz de segurar sozinho (ou quase) uma bilheteria sólida, em especial em comparação com a primeira escolha para o papel principal do filme, Brad Pitt. Mais jovem, com menos experiência e sem nenhum grande sucesso solo no currículo, O'Donnell acabou por se tornar o principal alvo das críticas - mesmo que não seja o responsável pelos problemas de bastidores que, logicamente, respingaram no resultado final, que não agradou nem mesmo ao próprio John Grisham. Desde a saída de Pitt - consequência da opção de Ron Howard em comandar "O preço de um resgate" (1996) -, o projeto de "O segredo" parecia fadado pelo menos a uma produção problemática. O roteirista William Goldman, por exemplo, viu parte de seu trabalho rejeitado por Howard (ainda produtor do filme) e pelo novo diretor, James Foley - e depois testemunhou seu substituto, Phil Alden Robinson, preferir assiná-lo com um pseudônimo por não concordar com a versão final. Além disso, a ideia de oferecer a direção a Foley - que lançou o suspense "Medo" no mesmo ano para a mesma Universal Pictures - não foi das mais felizes: se a trama já não é tão eletrizante quanto a de outros livros de Grisham, o trabalho de Foley pouco faz para acentuar suas qualidades ou amenizar seus defeitos. Quase no piloto automático, o cineasta falha em sua principal missão: conectar o espectador com seu protagonista.

 

Jovem e idealista como quase todos os personagens centrais de Grisham (talvez seus alter-egos), Adam Hall (Chris O'Donnell, esforçado mas nada mais do que isso), acaba de sair da faculdade de Direito e para seu primeiro caso importante escolhe um desafio dos maiores: evitar que um condenado à câmara de gás seja executado. Culpado pelo assassinato de duas crianças judias trinta anos antes, Sam Cayhall (Gene Hackman) assume a autoria do crime, não demonstra nenhum arrependimento e parece se orgulhar de suas ideias racistas - transmitidas a eles através de gerações. Mas Adam tem seus motivos para lutar pela suspensão da pena do irascível presidiário: Sam é seu avô, e apesar das consequências trágicas do crime, como o suicídio de seu pai, o jovem advogado quer, mais do que tudo, investigar as raízes de tanto ódio e tentar extirpá-las do próprio futuro. Para isso, conta com a ajuda hesitante de uma tia, Lee (Faye Dunaway), viciada em álcool e envergonhada do passado da família, ela esconde suas origens, mas vê na chegada do sobrinho uma oportunidade de curar feridas antigas e ainda doloridas.

Visto à luz do tempo, "O segredo" não é o horror que muitos fizeram pensar quando de sua estreia. Mesmo que não tenha o mesmo brilho de outros filmes baseados em obras de Grisham - em especial "O cliente", que deu a Susan Sarandon uma indicação ao Oscar, e "O homem que fazia chover", um dos poucos Francis Ford Coppola da década de 1990 -, o resultado final tem qualidades que foram ignoradas em seu lançamento. A atuação monstruosa de Gene Hackman é um exemplo: mesmo com um personagem quase maniqueísta, o veterano ator oferece ao público um trabalho precioso, repleto de uma energia que falta ao protagonista de Chris O'Donnell. E se Faye Dunaway - em papel oferecido a Sigourney Weaver - foi indicada ao Framboesa de Ouro, isso diz mais sobre a implicância de parte da crítica sobre seu desempenho do que exatamente por justiça: por mais que exagere em alguns momentos, a atriz, vencedora do Oscar por "Rede de intrigas" (1976), constrói uma personagem que reflete com perfeição as consequências do ódio e da intolerância. São os veteranos astros que dão a "O segredo", apesar de suas falhas, motivos para que lhe seja feita justiça: mesmo estando longe de ser um filme marcante, tampouco é a aberração que seu fracasso comercial poderia dar a entender.

 

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...