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quarta-feira

MAMMA MIA! LÁ VAMOS NÓS DE NOVO


MAMMA MIA! LÁ VAMOS NÓS DE NOVO (Mamma Mia: Here we go again, 2018, Universal Pictures, 114min) Direção: Ol Parker. Roteiro: Ol Parker, estória de Richard Curtis, Ol Parker, Catherine Johnson, personagens de Catherine Johnson. Fotografia: Robert D. Yeoman. Montagem: Peter Lambert. Música: Benny Andersson, Anne Dudley, Bjorn Ulvaeus. Figurino: Michele Clapton. Direção de arte/cenários: Alan MacDonald/Anita Dujic. Produção executiva: Benny Andersson, Nicky Kentish Barnes, Richard Curtis, Tom Hanks, Phyllida Lloyd, Bjorn Ulvaeus, Rita Wilson. Produção: Claudia Balboa, Judy Craymer, Raphael Benoliel, Gary Goetzman, Anna Sofia Morck. Elenco: Amanda Seyfried, Pierce Brosnan, Lilly James, Stellan Skarsgaard, Colin Firth, Dominic Cooper, Meryl Streep, Julie Walters, Christine Baranski, Andy Garcia, Cher, Jeremy Irvine, Alexa Davies, Jessica Keenan Wynn, Hugh Skinner, Josh Dylan, Celia Imrie. Estreia: 20/7/2018

Quando surgiu a ideia - aparentemente estapafúrdia - de uma continuação do musical "Mamma Mia!",  pouca gente levava fé no projeto. Não apenas porque todo mundo sabia que seria quase impossível repetir o impressionante êxito do primeiro filme - que arrecadou assombrosos 700 milhões de dólares em sua carreira nos cinemas -, mas porque havia a dificuldade extra de encontrar-se um roteiro coerente com o desfecho do original e, mais ainda, de encaixar nele canções do ABBA não utilizadas no primeiro capítulo. Porém, nenhum desafio é grande o bastante para um estúdio em busca de um sucesso de bilheteria, e poucos repertórios são tão fortes quanto o do grupo sueco - em que até mesmo as músicas menos conhecidas são capazes de empolgar. Com isso, "Mamma Mia: lá vamos nós de novo" não chegou a surpreender quando, dez anos depois da estreia do primeiro filme, encerrou sua carreira nas salas de exibição com uma respeitável renda de 365 milhões - nada mal para uma produção sem efeitos visuais dispendiosos, super-heróis devidamente testados e aprovados e uma campanha de marketing maciça. Mesmo com a ousadia de abdicar da presença marcante de Meryl Streep - aqui apenas em uma rápida participação especial -, o filme do britânico Ol Parker é divertido o bastante para não fazer feio diante da memória afetiva das plateias. 

De certa forma aprisionados pelo final redondinho do primeiro filme - cujo desfecho não abria espaço para novos desdobramentos -, os roteiristas de "Mamma Mia: lá vamos nós de novo" (dentre os quais está o experiente Richard Curtis) encontraram uma solução interessante ao intercalar presente e passado: Sophie (Amanda Seyfried) está passando por dias conturbados, já que a reinauguração do hotel de sua mãe, Donna (Meryl Streep), morta há um ano, está ameaçado por questões naturais (uma tempestade que pode atrapalhar as festividades) e por situações mais prosaicas, como uma possível crise em seu relacionamento com Sky (Dominic Cooper) e a ausência de dois de seus pais afetivos, envolvidos em projetos profissionais. Enquanto lida com tais atribulações, nunca deixa de lembrar da encorajadora história de Donna, que em 1979 (e vivida por Lilly James), saiu de sua zona de conforto para realizar seu sonho de viajar pelo mundo - e de quebra, viveu uma surpreendente história de amor/desejo/paixão/liberdade com o romântico Harry (Hugh Skinner), o sexy Bill (Josh Dylan) e o misterioso Sam (Jeremy Irvine). Contando com a ajuda de Rosie (Julie Walters) e Tanya (Christine Baranski) - fiéis escudeiras de sua mãe - e com o apoio do novo gerente do hotel, o charmoso Fernando Cienfuegos (Andy Garcia), Sophie descobre que o legado de Donna é maior do que simplesmente a bela propriedade na Grécia... e até mesmo sua excêntrica avó reaparece, para sua surpresa.

 

Com uma direção mais ágil e segura do que a do primeiro filme - e apresentando coreografias mais elaboradas que tornam as canções ainda mais energéticas - "Mamma Mia: lá vamos nós de novo" faz uso inteligente de flashbacks, que disfarçam o fiapo de história e a falta de conflitos relevantes. Cientes de que o mais importante do projeto eram as músicas e as personagens amadas pelo público, os roteiristas se dedicaram a criar uma nova trama de acordo com a trilha sonora - e acertaram em cheio ao dar prioridade à juventude de Donna em detrimento aos pouco interessantes problemas sentimentais e profissionais de Sophie: mesmo que Amanda Seyfried seja talentosa o suficiente para sustentar uma produção (como já fez em outras ocasiões), sua personagem quase desaparece diante da energia de Lilly James - mesmo que elas não dividam nenhuma cena, por razões óbvias. Centro do filme, James tira de letra o desafio de dividir um papel com Meryl Streep - e sua química com o elenco jovem aponta o talento do diretor Ol Parker, em sua primeira grande produção, depois dos pouco ambiciosos "Imagine eu e você" (2005) e "Agora e para sempre" (2012): sem o objetivo de aprofundar um estilo ou aparecer mais do que a história que deseja contar, Parker oferece ao público duas horas de diversão escapista, leve e alto-astral, que em nada mancha o legado do filme original - cujos maiores atrativos eram, a rigor, a trilha sonora e a presença ensolarada e rara (em um musical) de Streep. Se há algo a reclamar é apenas o pouco tempo em cena dos veteranos do "Mamma Mia!" original - em especial as excelentes Julie Walters e Christine Baranski. Mas, em compensação, há a surpresa da presença da sempre luminosa Cher, aqui no papel da apoteótica (como não poderia deixar de ser) Ruby, a bissexta avó de Sophie.

"Mamma Mia: lá vamos nós de novo" cumpre o que promete. É divertido, é despretensioso e é, acima de tudo, uma ode à alegria, ao amor e à amizade. Não tem o frescor do primeiro filme - e nem o carisma de Meryl Streeep a não ser em poucos minutos, no final -, mas não deixa a peteca cair em termos de energia e honestidade. Para o seu público-alvo é uma festa: dançante, contagiante e sem contra-indicações. Não é uma obra-prima e nem mudou a história do cinema, mas é um filme conforto dos mais agradáveis - exceto para quem busca produções cabeça ou repletas de testosterona pura e simples.

 

CAPITÃO AMÉRICA: O PRIMEIRO VINGADOR


CAPITÃO AMÉRICA: O PRIMEIRO VINGADOR (Captain America: The first avenger, 2011, Marvel Studios/Paramount Pictures/Marvel Entertainment, 124min) Direção: Joe Johnston. Roteiro:Christopher Markus, Stephen McFeely, personagens criados por Stan Lee, Jack Kirby. Fotografia: Shelly Johnson. Montagem: Robert Dalva, Jeffrey Ford. Música: Alan Silvestri. Figurino: Anna B. Sheppard. Direção de arte/cenários: Rick Heinrichs/John Bush. Produção executiva: Louis D'Esposito, Alan Fine, Nigel Gostelow, Joe Johnston, Stan Lee, David Maisel. Produção: Kevin Feige. Elenco: Chris Evans, Hugo Weaving, Sebastian Stan, Tommy Lee Jones, Stanley Tucci, Toby Jones, Dominic Cooper, Hayley Atwell, Richard Armitage, Samuel L. Jackson. Estreia: 19/7/2011

Criado como uma resposta à violência da Alemanha nazista, o Capitão América surgiu, segundo dizem, inspirado em um mito do folclore judeu, o Golem, um protetor contra a violência antissemita. Sua primeira aparição, em março de 1941 - esmurrando Adolf Hitler em pessoa - já causou polêmica e rendeu a seus criadores, Jack Kirby e Joe Simon, ameaças de grupos alinhados à política do chanceler alemão. O mais popular herói dos quadrinhos durante a II Guerra Mundial, porém, foi sendo deixado de lado após o fim do conflito e só voltou a ser aplaudido - dessa vez por uma nova geração - quando Kirby e Stan Lee o reuniu aos Vingadores, em março de 1964. O mais patriota dos heróis da Marvel, chegou perto de ter uma adaptação para os cinemas nos anos 1980 - com Jeff Bridges no papel principal -, mas foi somente com o sucesso dos dois filmes estrelados pelo Homem de Ferro e a definição de um projeto mais amplo da editora - que também originou "Thor" (2010) - que as telas (e o público) finalmente viram uma transposição digna da trajetória do soldado Steve Rogers. Com uma produção caprichada e uma renda internacional de mais de 370 milhões de dólares, "Capitão América" foi mais um passo certeiro da Marvel, e o último capítulo antes do ambicioso "Os Vingadores", lançado um ano mais tarde.

A trama - bastante fiel àquela revelada em um quadrinho lançado em janeiro de 1969 - começa em 1942 e acompanha o idealista e obstinado Steve Rogers (Chris Evans) em seu desejo de alistar-se ao exército americano e ajudar o país e os aliados na II Guerra Mundial. Franzino e pouco saudável, o jovem é repetidamente rejeitado em seus pedidos, ao contrário do que acontece com seu melhor amigo, Bucky Barnes (Sebastian Stan). Sua situação muda, no entanto, quando ele é escolhido pessoalmente pelo renomado cientista alemão Abraham Erskine (Stanley Tucci) para fazer parte de uma experiência secreta que almeja criar super soldados. Colaborando com os EUA depois que suas pesquisas foram roubadas por Johan Schmidt (Hugo Weaving), um nazista de alta patente e de métodos criminosos, Erskine vê no caráter de Rogers uma característica imprescindível para aqueles a quem deseja oferecer o soro que irá mudar os rumos da guerra. Quando o cientista é assassinado, no entanto, o projeto é deixado de lado e Rogers torna-se o Capitão América, uma simples peça de propaganda para o exército americano. Mas quando o pelotão do qual seu melhor amigo faz parte é capturado, Rogers desafia seus superiores e parte para seu resgate - batendo de frente com o perigoso Red Skull, líder da Hydra (organização terrorista ligada à Alemanha nazista). Para isso, ele conta com a tecnologia criada pelo milionário Howard Stark (Dominic Cooper).

Dirigido por Joe Johnston - escolhido graças a seu trabalho em "Rocketeer" (1991) e "O céu de outubro" (1999) -, "Capitão América" encontrou em Chris Evans seu intérprete ideal, mas foi somente depois de várias recusas que o ator (já conhecido do público de quadrinhos por ter vivido o Tocha Humana na adaptação de "Quarteto fantástico" (2005)) finalmente aceitou o desafio de encarnar um dos maiores ícones da cultura pop do século XX. Primeira escolha dos produtores, Evans hesitou por um bom tempo em adentrar o universo da Marvel - e nesse meio-tempo, abriu espaço para inúmeras outras possibilidades, que iam de Brad Pitt e Matthew McConaughey a Will Smith e Leonardo DiCaprio, passando por Sam Worthington e John Krasinski (que chegou a fazer teste de figurino mas desistiu da empreitada na última hora). Bonito e carismático, Evans nem precisa fazer muito esforço para convencer a plateia de seus atos de heroísmo - ao mesmo tempo em que também convence facilmente como o jovem frágil rejeitado por seus (poucos) dotes físicos. O que talvez seja pouco crível apenas é o relacionamento amoroso entre Steve e a agente britânica Peggy Carter (interpretada pela insossa Hayley Atwell) - apesar de ser um respiro em tantas cenas de ação, seu romance soa deslocado e pouco interessante, ao contrário da relação entre o protagonista e Bucky Barnes - personagem que será crucial na segunda aventura do herói.

Como é comum nos filmes da Marvel, a produção de "Capitão América: o primeiro vingador" é caprichada, tecnicamente impecável e milimetricamente calculada para conquistar todo tipo de plateia. Quando se detém a explorar as relações entre os personagens não vai além do básico - apesar de o elenco (que inclui Tommy Lee Jones e Samuel L. Jackson) arrancar o máximo de cada diálogo -, mas é evidente que o foco do roteiro são as sequências de ação (derivativas mas adequadas às expectativas de plateias sempre sedentas por adrenalina). No final das contas, é um filme que entrega o que promete e diverte a seu público-alvo independentemente da falta de criatividade de sua trama e seu desenvolvimento.

 

quinta-feira

CAFÉ DA MANHÃ EM PLUTÃO


CAFÉ DA MANHÃ EM PLUTÃO (Breakfast on Pluto, 2005, Pathé Pictures International, 128min) Direção: Neil Jordan. Roteiro: Neil Jordan, Pat McCabe, romance de Patrick McCabe. Fotografia: Declan Quinn. Montagem: Tony Lawson. Música: Anna Jordan. Figurino: Elmer Ní Mhaoldomhnaigh. Direção de arte/cenários: Tom Conroy/Crispian Sallis, Sara Wan. Produção executiva: François Ivernel, Brendan McCarthy, Cameron McCracken, Mark Woods. Produção: Neil Jordan, Alan Moloney, Stephen Wooley. Elenco: Cillian Murphy, Liam Neeson, Ruth Negga, Stephen Rea, Brendan Gleeson. Estreia: 03/9/2005 (Festival de Telluride)

Em 1993, o cineasta Neil Jordan ganhou o Oscar de roteiro original por "Traídos pelo desejo", uma história de amor fora do comum que surpreendeu plateias pelo mundo todo. Quatro anos mais tarde, viu seu "Michael Collins: o preço da liberdade" dar a Liam Neeson o prêmio de melhor ator no Festival de Berlim - por interpretar ninguém menos que o fundador do IRA, o famigerado Exército Republicano Irlandês que por décadas se manteve nas manchetes internacionais devido a seus atos contra o domínio britânico na ilha. Sendo assim, o espectador que estranhar a união desses dois fatores - o político e o sexual - em "Café da manhã em Plutão", está no mínimo desavisado. Mestre em mesclar temas polêmicos com personagens excêntricos, Jordan encontrou no livro de Patrick McCabe o material ideal para seguir-se ao pouco visto (e pouco lembrado) "Lance de sorte", lançado em 2002: sem pesar a mão no tom político da obra e concentrando seu foco na trajetória de um protagonista sui generis, o diretor/roteirista/produtor comprova seu talento em transitar por diferentes gêneros sem jamais abdicar de suas características artísticas. Sim, "Café da manhã em Plutão" não é apenas um drama político, nem tampouco somente uma produção destinada ao público LGBTQ+: apresenta também elementos de musical, comédia e romance, sempre amparado em uma atuação primorosa de Cillian Murphy.

Indicado ao Golden Globe de melhor ator em comédia/musical e aplaudido unanimemente pela crítica internacional, Murphy encontrou em Patrick Braden o personagem de uma carreira. Adotando um ar ingênuo e doce que contrasta violentamente com os incidentes que atravessam o caminho de seu protagonista, o ator-amuleto de Christopher Nolan foge radicalmente dos clichês que poderiam transformá-lo em caricatura e entrega um desempenho memorável. Desviando habilmente das armadilhas do roteiro, Murphy evita o sentimentalismo (sem evitar mergulhar nos momentos mais comoventes), o exagero (apesar da natureza inerentemente festiva de parte de sua ambientação) e o humor fácil (mesmo nas situações surreais  e personagens bizarras criadas por McCabe, ). Comandando um elenco coadjuvante que conta com nomes fortes como Liam Neeson, Stephen Rea, Brendan Gleeson, Ruth Negga (mais de uma década antes de concorrer ao Oscar por "Loving: uma história de amor", de 2016) e Dominic Cooper (em participação não creditada), o protagonista da série "Peaky Blinders" assume sem medo um lado não apenas queer - Patrick Braden, também conhecido como Patricia, não se limita a rótulos simples de gênero e sexualidade, mas jamais deixa de ser crível e apaixonante.


Dividido em 26 capítulos curtos que tornam a narrativa quase episódica, o roteiro de "Café da manhã em Plutão" segue com extrema fidelidade o romance de Patrick McCabe - autor também do livro "Nó na garganta", adaptado pelo mesmo Neil Jordan em 1997. Narrado em primeira pessoa por Patrick, o filme apresenta seu protagonista desde seu nascimento - abandonado na porta de uma igreja sem saber a identidade de seus pais - e segue seu caminho rumo à auto-aceitação ou, na pior das hipóteses, às suas raízes. Rejeitado pela família adotiva que não aceita seus trejeitos e interesses femininos, Patrick encontra abrigo, como era de se esperar, junto aos párias ao seu redor, às pessoas que, assim como ele, se escoram em semelhantes para manter a dignidade e o amor-próprio. Fortalecido pela compreensão de seu novo grupo, ele resolve partir em busca de seus pais e, enquanto acaba se envolvendo em ações do IRA, bandas de rock, prisões inglesas e shows eróticos, descobre sua real identidade: Patricia. Logicamente, enquanto não finaliza sua missão, vai acumulando decepções e encontros fortuitos que desafiam seu otimismo e ingenuidade.

Neil Jordan é um cineasta que sabe explorar dramas humanos - ou nem tão humanos assim, haja visto sua bem-sucedida adaptação do best-seller "Entrevista com o vampiro" (1995) - com elegância e sensibilidade. Aproveitando com maestria o tom irônico e iconoclasta do livro de McCabe, constrói, em "Café da manhã em Plutão", uma obra que flerta ao mesmo tempo com a melancolia e o bom-humor. Trata de temas densos - transexualidade, política, igreja - sem pesar a mão e se imprime à narrativa um ritmo ágil que envolve o espectador sem maiores esforços. Utilizando-se de uma trilha sonora pop de primeira qualidade e elementos lúdicos que surpreendentemente não destoam da atmosfera pretensamente séria (mas nunca aborrecida), Jordan cria uma pequena obra-prima, uma pérola delicada e dotada de um humanismo raro, que conquista pela sinceridade que escorre de cada fotograma e pela interpretação precisa de um Cillian Murphy em dias de inspiração absoluta!

JÁ ESTOU COM SAUDADES


 JÁ ESTOU COM SAUDADES (Miss you already, 2015, 5 Films/New Sparta Films/The Salt Company International, 112min) Direção: Catherine Hardwicke. Roteiro: Morwenna Banks. Fotografia: Elliot Davis. Montagem: Phillip J. Bartell. Música: Harry Gregson-Williams. Figurino: Claire Finlay. Direção de arte/cenários: Amanda McArthur/Celia de La Hey. Produção executiva: Morwenna Banks, Jerome Booth, Sheryl Crown, Catherine Hardwicke, Nicki Hattingh, Jamie Holt, Samantha Horley, Lisa Lambert, Cyril Megret, James Norne, Celina Rattray, Anne Sheehan, Barnaby Southcombe, Trudie Styler, Paul Andrew Williams. Produção: Christopher Simon. Elenco: Toni Collette, Drew Barrymore, Dominic Cooper, Paddy Considine, Jacqueline Bisset. Estreia: 12/9/15 (Festival de Toronto)
 

Filmes a respeito da amizade entre mulheres já constituem, de certa maneira, quase um novo gênero cinematográfico - principalmente quando a relação descamba para a tragédia como forma de incrementar o roteiro. É dessa safra que saíram "Amigas para sempre" (1988) - estrelado por Bette Midler e Barbara Hershey -, o sensível "Tomates verdes fritos" (1991) - que contava não apenas uma, mas duas histórias de cumplicidade entre mulheres -, o já clássico "Thelma & Louise" (1991), que rendeu indicações ao Oscar para Susan Sarandon e Geena Davis - e o moderno "Somente elas" (1995), que estendeu sua sororidade à trilha sonora composta apenas por intérpretes femininas e colocou na estrada uma cantora lésbica (Whoopi Goldberg), uma silenciosa soropositiva (Mary-Louise Parker) e uma maluquete grávida do namorado violento (Drew Barrymore). Barrymore, aliás, é uma das duas estrelas de mais uma produção semelhante: pouco visto e pouco comentado, "Já estou com saudades" pouco acrescenta à lista de filmes afins, mas é simpático o bastante para sustentar uma sessão descompromissada - e muito disso se deve às presenças de suas atrizes centrais, Toni Collette e a mesma Drew Barrymore de "Somente elas". Talentosas e carismáticas, elas carregam o filme nas costas e conseguem até mesmo deixar suportáveis toda a previsibilidade do roteiro.

Barrymore, aliás, só acabou no elenco do filme depois de duas desistências. Primeiro foi Jennifer Aniston quem pulou fora, devido ao adiamento das filmagens; depois, foi a vez de Rachel Weisz abandonar o projeto e abrir vaga para a ex-atriz mirim. Talvez tenha sido para o bem: com sua personalidade vibrante, Barrymore é o contraponto perfeito para o talento à flor da pele de Collette, e o encontro de duas energias tão díspares é que faz com que a trama funcione, deixando pouco espaço para os coadjuvantes - um time que inclui até mesmo a veterana (e ainda belíssima) Jacqueline Bisset. Com ares de adaptação de romances água-com-açúcar, "Já estou com saudades" é, surpreendentemente, um roteiro original (ou quase isso: é a adaptação de uma peça radiofônica escrita pela mesma Morwenna Banks, autora de roteiros para séries de televisão britânicas), e acompanha a trajetória de duas amigas de infância que tem suas vidas transformadas por situações que fogem de seu controle - e põe a relação em xeque. Como era de se esperar, o roteiro não se aprofunda em questões psicológicas e tampouco vai além do já visto em outras produções afins. Mas há como resistir a suas protagonistas e a uma trilha sonora que dá destaque à atemporal "Losing my religion", do R.E.M.? 

Milly (Toni Collette) tem uma vida de sonhos, com um emprego que a satisfaz e uma rotina doméstica das mais felizes, que inclui o marido, Kit (Dominic Cooper), e dois filhos adoráveis. Jess (Drew Barrymore) já é menos completa - apesar do carinho do namorado, Jago (Paddy Considine), seu trabalho não é dos melhores, vive em um trailer desconfortável e sofre com as tentativas sem sucesso de engravidar. As duas são amigas íntimas desde que eram crianças, e apesar de suas diferenças (ou talvez por causa delas) se completam e não conseguem ficar separadas por muito tempo. A relativa paz da relação é abalada quando ambas se descobrem diante de situações catalisadoras: Jess finalmente fica grávida, e Milly é diagnosticada com câncer - o que altera substancialmente sua personalidade e a põe em rota de colisão com a amiga e o próprio marido. Para ajudar Milly em sua recuperação, Jess deixa sua vida de lado - mas será que a ligação entre as duas sobreviverá a uma prova tão dura?

A diretora Catherine Hardwick tem em seu currículo o excelente "Aos treze" (2003), que marcou a estreia de Evan Rachel Wood no cinema, mas é mais lembrada pelo tenebroso "Crepúsculo" (2008), o primeiro capítulo de uma das sagas mais constrangedoras do cinema americano das últimas décadas. Para sorte dos espectadores, "Já estou com saudades", apesar de não ser exatamente criativo e seguir à risca uma série de clichês, está menos para o romance vampiresco adolescente e mais para o drama familiar que deu à Holly Hunter uma indicação ao Oscar de coadjuvante. A cineasta acerta em deixar que suas atrizes comandem o show, mas peca ao não evitar o melodrama sentimental que domina a segunda metade do filme. Ainda bem que, apesar de suas personagens não sejam complexas como deveriam, Toni Collette e Drew Barrymore sustentam a produção sem muito esforço - e podem levar o público mais sensível às lágrimas. Não é um filme inesquecível, nem um ponto alto da carreira de ninguém envolvido, mas consegue cativar pelas quase duas horas de sessão. Tem tudo para virar um frequentador habitual das sessões da tarde na televisão aberta - e isso é bem mais do que muitos congêneres conseguem.

sábado

DUBLÊ DO DIABO


O DUBLÊ DO DIABO (The devil's double, 2011, Corsan/Staccato Films, 109min) Direção: Lee Tamahori. Roteiro: Michael Thomas, livro de Latif Yahia. Fotografia: Sam McCurdy. Montagem: Luis Carballar. Música: Christian Henson. Figurino: Anna B. Sheppard. Direção de arte/cenários: Paul Kirby/Caroline Smith. Produção executiva: Arjen Terpstra, Harris Tulchin. Produção: Paul Breuls, Michael John Fedun, Emjay Rechsteiner, Catherine Vandeleene. Elenco: Dominic Cooper, Ludivine Sagnier, Raad Rawi, Philip Quast. Estreia: 22/01/2011 (Festival de Sundance)

O que você faria se fosse um sósia quase perfeito do filho de um dos terroristas mais procurados do mundo? Para Latif Yahia não houve qualquer tipo de escolha: idêntico a Uday, o filho mais velho de Saddam Hussein, Latif foi obrigado a aceitar o "convite" para tornar-se o dublê de corpo do excêntrico e tempestuoso herdeiro - caso contrário, toda a sua família corria sérios riscos de pagar o pato. Testemunha de situações de extrema violência e excessos de todos os tipos, Latif pode contar sua história, com detalhes, em um livro onde descrevia seu período sob as ordens de Hussein - uma fase encerrada em 1991. Dirigido pelo neozelandês Lee Tamahori, "O dublê do diabo" estreou no Festival de Sundance de 2011 e conquistou boa parte da crítica, principalmente graças ao esforçado
desempenho de Dominic Cooper nos dois papéis centrais. Apesar de contestado por várias testemunhas dos fatos - inclusive confidentes de Uday, um guarda do palácio onde ele vivia, um dos cirurgiões da família Hussein e até um agente da CIA - o livro inspirou um filme de fôlego, bem equilibrado entre seus gêneros (drama e ação) e interessante do princípio ao fim. Se tudo aconteceu da forma como narrada pelo autor pode até ser algo duvidoso, mas o fato é que dramaticamente a coisa funciona muito bem.

Revelado ao mundo pelo elogiado "O amor e a fúria" - premiado com um prêmio no Festival de Veneza de 1994 - e abraçado pelo cinema mainstream com "Na teia da aranha" (2001), estrelado por Morgan Freeman e "007 - Um novo dia para morrer" (2002), Lee Tamahori oferece, a "O dublê do diabo", seu talento em equacionar de forma consistente, a violência a que os personagens estão suscetíveis e o drama do protagonista em ser obrigado a conviver com o risco constante. Segundo o livro de Latif Yahia - e consequentemente o roteiro do filme -, ser o sósia de Hussein (com direito a cirurgias plásticas para aumentar ainda mais as semelhanças entre os dois) era permanecer em constante estado de tensão. Não bastasse ser o filho de um líder político dos mais controversos, Uday ainda tinha, a ser considerado, uma extravagância ímpar em termos de orgias sexuais, uso abusivo de drogas e álcool e um narcisismo dos mais doentios. A Latif cabia administrar tudo isso enquanto tentava, das mais diversas maneiras, encontrar um modo de libertar-se de seu pesadelo. Enquanto algumas testemunhas do caso tenham insistido que o rapaz se aproveitava da semelhança com Hussein para arrumar mulheres, o filme opta por comprar a narrativa de Yahia - até mesmo porque sua versão dos fatos seja bem mais atraente e dramaticamente potente.


É difícil não se deixar envolver pelo roteiro de Michael Thomas e pela direção energética de Tamahori: assim que a história começa e Latif se vê aprisionado por um mundo onde atentados e assassinatos são moeda corrente, o público imediatamente compra a ideia. Boa parte desse resultado positivo se deve ao desempenho muito além de correto do jovem Dominic Cooper. Mais conhecido do grande público por seu trabalho como o noivo de Amanda Seyfried em "Mamma Mia!" (2008), o ator inglês trabalha com sutilezas para realçar as diferenças entre seus dois personagens - enquanto parece se divertir na pele do irresponsável Uday Hussein, arrebata a simpatia da audiência ao interpretar Latif Yahia, um homem que presencia atrocidades com frequência assustadora e busca manter a sanidade mental para sobreviver. No terço final do filme, quando Yahia finalmente resolve arriscar tudo para fugir, a direção de Lee Tamahori mostra um cineasta capaz de manipular com segurança os recursos à sua disposição: por mais que não seja exatamente inovador ou surpreendente, o filme não deixa muito espaço disponível para o tédio - durante seus 109 minutos, entrega o que foi proposto, e de quebra, apresenta alguns momentos bastante tensos e violentos, como a sequência em uma boate que quase termina em uma carnificina e o último embate entre os dois personagens principais. Quem procura um bom filme policial vai aplaudir - e quem busca um drama baseado em uma história real também não terá do que reclamar.

Infelizmente, apesar das qualidades redentoras, "O dublê do diabo" não é um filme perfeito - e isso tem pouco a ver se a história contada é real ou pura imaginação de Latif Yahia. A direção de Lee Tamahori é correta, a atuação de Dominic Cooper tem momentos excelentes e tecnicamente o filme é admirável. Porém, nada disso afasta uma sensação de que falta alguma coisa no resultado final. Talvez seja um aprofundamento na vida de Yahia fora de sua relação com Hussein - sua família é brevemente citada mas nunca é permitido ao espectador saber o quanto de sua situação é conhecida por ela, uma vez que, segundo o sósia, ele tinha sido dado como morto na guerra. Talvez seja uma espécie de maniqueísmo na construção dos personagens, que parecem servir ao roteiro mais do que a um retrato da realidade. Ou ainda, no fato de todos os personagens (incluindo aí Saddam Hussein em rápida cena) falarem inglês mesmo com toda a ação se passando no Iraque do final dos anos 1980 (antes, portanto, do atentado ao World Trade Center): é uma escolha compreensível para uma produção que ambiciona o mercado norte-americano, mas não consegue deixar no ar um certo desconforto ao espectador mais exigente em termos de realismo. Nada disso atrapalha, no entanto, a quem procura um entretenimento de qualidade e bem acima da média.

terça-feira

GAROTO NOTA 10

GAROTO NOTA 10 (Starter for 10, 2006, BBC Films/HBO Films, 92min) Direção: Tom Vaughan. Roteiro: David Nicholls, romance de sua autoria. Fotografia: Ashley Rowe. Montagem: Jon Harris, Heather Pearsons. Música: Blake Neely. Figurino: Charlotte Morris. Direção de arte/cenários: Sarah Greenwood/Katie Spencer. Produção executiva: Michelle Chydzik Sowa, Nathalie Marciano, Sam Mendes, Jeff Abberley, Julia Blackman. Produção: Gary Goetzman, Tom Hanks, Pippa Harris. Elenco: James McAvoy, Rebecca Hall, Alice Eve, Benedict Cumberbatch, Dominic Cooper, Charles Dance, Lindsay Duncan, James Corden, Catherine Tate. Estreia: 13/9/06 (Festival de Toronto)

O enorme sucesso de vendas do romance "Um dia" - e sua consequente adaptação para o cinema, estrelada por Anne Hathaway e Jim Sturgess - fez com que o nome do britânico David Nicholls se tornasse popular a ponto de ser comparado a Nick Hornby, um dos mais festejados escritores dos anos 90. Assim como seu conterrâneo, Nicholls privilegia a prosa simples, irônica e recheada de referências pop em suas histórias, sempre protagonizadas por gente comum, que pode morar na casa ao lado do leitor - ou, no caso, do espectador. Se em sua obra mais famosa um casal de amigos atravessava anos de relacionamento antes de descobrir que eram feitos um para o outro, em seu livro "Resposta certa" o protagonista era um jovem nerd tentando encontrar o amor e o sucesso acadêmico. Transformado em filme, o livro foi batizado no Brasil de "Garoto nota 10" e adaptado longe de Hollywood - na Inglaterra. Estrelado por James McAvoy antes de tornar-se conhecido como o jovem Professor Xavier da série "X-Men" e com participação de Benedict Cumberbatch antes de sua consagração com a indicação ao Oscar por "O jogo da imitação" (2014), o filme de Tom Vaughan é uma comédia romântica despretensiosa, com ares das produções dirigidas por John Hughes na década de 80.

A comparação com as obras de Hughes - o Midas dos filmes adolescentes oitentistas - não é gratuita: "Garoto nota 10" se passa em 1985, o que remete diretamente às produções que fizeram a glória de  Molly Ringwald. O protagonista, Brian Jackson (interpretado com graça e bom timing por James McAvoy), também poderia facilmente ser uma criação de Hughes, uma vez que possui todas as características mais caras ao falecido diretor: é um nerd desajeitado, tímido e romântico, que só tem certeza absoluta de sua inteligência e do desejo que passa a sentir pela bela e experiente Alice (Alice Eve) - parte do time de estudantes de sua universidade que tem como objetivo participar de um badalado programa de TV sobre conhecimentos gerais. Chegado do interior e com uma alma ainda presa à sua rotina de estudante com pouca vida social, Jackson imediatamente se apaixona por Alice, bate de frente com o líder do grupo de nerds, Patrick Watts (Benedict Cumberbatch), se afasta cada vez mais da mãe viúva e dos amigos de infância, e não percebe que sua alma gêmea é a polêmica Rebecca Epstein (Rebecca Hall). Em outras palavras, a ciranda romântica já vista centenas de vezes mas que, quando narrada com frescor e simpatia, funciona às mil maravilhas. E é isso que acontece com o primeiro longa-metragem de Vaughn.


Embalado por uma deliciosa trilha sonora repleta de hits dos anos 80, "Garoto nota 10" conquista exatamente por não tentar ser mais do que é. Apresenta personagens com extrema simpatia e generosidade e conta suas trajetórias sem pressa, explorando sempre o mais agradável e divertido de cada um - mesmo quando as coisas saem do controle o carinho do autor por cada uma de suas criações fica evidente, especialmente quando se trata de Brian Jackson. Se no livro de Nicholls o protagonista já era adorável e compreensivelmente falho em suas desajeitadas tentativas de levar a vida de forma menos rígida, na interpretação do ótimo James McAvoy suas qualidades ficam ainda mais claras e destacadas: o ator que no mesmo ano duelou com Forest Whitaker em "O último rei da Escócia" mostra que já tinha talento o suficiente para entrar em Hollywood pela porta da frente - o que fez quando estrelou "Desejo e reparação" (que também consta com Benedict Cumberbatch no elenco) e começou sua escalada rumo às produções mais badaladas. A forma com que McAvoy retrata Brian Jackson é preciosa e delicada, levando a plateia a ficar do seu lado mesmo quando ele está decididamente errado - uma qualidade louvável em tempos onde os personagens principais andam fazendo questão de soarem arrogantes e/ou desagradáveis. O triângulo amoroso central também funciona muito bem (com a bela Alicia Eve e a sofisticada Rebecca Hall muito bem escaladas) e é uma pena apenas que o clímax não tenha a força que deveria - um pequeno escorregão que não apaga os inúmeros pontos positivos do resultado final.

O público disposto a encarar uma sessão descompromissada tem muito a ganhar com "Garoto nota 10". O roteiro escrito pelo próprio David Nicholls flui com naturalidade, o elenco é coeso, a trilha sonora é cativante e o humor é adequado às pretensões da trama e da época em que ela se passa. Talvez seu único defeito seja exatamente seu excesso de discrição, uma quase timidez que fez com que passasse quase em branco nos cinemas, a despeito de suas qualidades. Um filme que merece ser descoberto pelos fãs do gênero - e que comprova que Nicholls é, sem dúvida, o sucessor perfeito de Nick Hornby (a essa altura dedicado a escrever roteiros para cinema, função que lhe rendeu uma indicação ao Oscar por "Brooklin", de 2015).

domingo

SETE DIAS COM MARILYN

SETE DIAS COM MARILYN (My week with Marilyn, 2011, The Weinstein Company, 99min) Direção: Simon Curtis. Roteiro: Adrian Hodges, livros "My week with Marilyn" e "The prince, the showgirl and me" de Colin Clark. Fotografia: Ben Smithard. Montagem: Adam Recht. Música: Conrad Pope. Figurino: Jill Taylor. Direção de arte/cenários: Donal Woods/Judy Farr. Produção executiva: Kelly Carmichael, Simon Curtis, Christine Langan, Jamie Laurenson, Ivan Mactaggart, Bob Weinstein. Produção: David Parfitt, Harvey Weinstein. Elenco: Michelle Williams, Kenneth Branagh, Eddie Redmayne, Judi Dench, Julia Ormond, Dominic Cooper, Emma Watson, Dougray Scott, Toby Jones. Estreia: 09/10/11 (Festival de Nova York)

2 indicações ao Oscar: Atriz (Michelle Williams), Ator Coadjuvante (Kenneth Branagh)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz em Comédia/Musical (Michelle Williams)

Via de regra, cinebiografias tropeçam nas próprias ambições e esbarram na maior das dificuldades do gênero: contar em cerca de duas horas a vida inteira de alguém cuja existência justifique um filme. Tal dificuldade resulta em produções frequentemente superficiais que preferem passar ao largo de momentos cruciais na trajetória de seus protagonistas como forma de resumir, em uma duração palatável ao gosto do público médio, um arco de existência que vai do nascimento à morte. Às vezes, nem mesmo uma minissérie de TV seria capaz de dar conta da quantidade de informações e acontecimentos – e filmes como “Gandhi” e “Chaplin”, ambos, não por coincidência, de Richard Attenborough, acabam por ficar aquém do que poderiam. Como forma de sanar um pouco esse problema de superficialidade, o cinema americano encontrou uma saída inteligente que acabou virando tendência: escolher determinado momento na vida/carreira dos biografados e concentrar seu foco em períodos de tempo muito mais compactos. Tal opção funcionou muito bem em “Capote”, de Bennett Miller – que deu o Oscar de melhor ator a Philip Seymour Hoffman e concorreu nas categorias de filme, diretor e roteiro adaptado – e “Steve Jobs” – que apesar de ter dividido a crítica, deu a Michael Fassbender e Kate Winslet chances de concorrer à estatueta e à Aaron Sorkin o Golden Globe de melhor roteiro. Não deu tão certo assim em “Hitchcock”, de Sacha Gervasi, que atolou-se em uma direção medíocre. E resultou apenas morna em “Sete dias com Marilyn”.
Baseado em um livro escrito por Colin Clark – diretor de documentários que registrou em diários sua relação fugaz com Marilyn Monroe, a maior estrela de Hollywood nos anos 50 – o filme de Simon Curtis acerta em não tentar contar em seus 90 minutos de duração toda a existência conflituosa e recheada de complexos dramas psicológicos da atriz, mas não consegue, infelizmente, ultrapassar a superfície de uma das mais fascinantes personagens que o cinema americano já forjou – e que existia de verdade, sem que houvesse a necessidade de acrescentar à sua vida nenhum tipo de dramas. Apenas passando por cima da razão das carências emocionais de Marilyn e tocando com uma rapidez quase tímida momentos de extrema importância à vida futura da estrela (o aborto espontâneo sofrido no período de tempo retratado pelo roteiro), o filme de Curtis funciona como entretenimento leve, mas falha em ser uma homenagem a um dos maiores ícones do cinema americano às vésperas do 50º aniversário de sua morte.
O filme se passa em 1956, quando Marilyn já era a atriz mais famosa e desejada de Hollywood e chega à Inglaterra para estrelar a comédia romântica “O príncipe encantado”, convidada especialmente pelo astro do filme, Laurence Olivier, disposto a conquistar uma nova geração de espectadores que não se deixavam impressionar por seu currículo shakespereano. O problema é que Marilyn não chega sozinha à pequena cidade onde o filme será rodado: com ela, junto com uma dúzia de problemas de autoestima e insegurança, está o marido Arthur Miller – autor de clássicos do teatro americano - e sua instrutora de interpretação, Paula Strassberg, esposa do infame Lee Strassberg, criador do Actor’s Studio. Dependente quase total da opinião de Paula e dos remédios para dormir, Monroe não demora a desafiar a paciência de toda a equipe, incluindo Olivier, que não parece estar disposto a tolerar os atrasos constantes e a falta de compromisso da estrela. Apenas a veterana Sybil (Judi Dench) e o terceiro assistente de direção do filme, Colin (Eddie Redmayne) dão apoio incondicional à bela atriz – e ela acaba se encantando com o rapaz, para surpresa e desespero de todos.

Michelle Williams concorreu ao Oscar por seu desempenho na pele de Marilyn. Mereceu. Apesar de não ser exatamente parecida com o mito, Williams injeta tanta personalidade e sensibilidade a seu trabalho que o espectador não demora a comprar a ideia de que está realmente diante da mulher que sacudiu o mundo em filmes como “O pecado mora ao lado” e “Quanto mais quente melhor” – realizado logo em seguida e considerado o melhor trabalho de sua carreira. Mesclando momentos de candura e timidez com outros em que transmite o vulcão de sensualidade que fez de Monroe o mais duradouro símbolo sexual da história, Williams explora com inteligência tudo que o roteiro lhe oferece, tratando sua personagem com respeito e coerência, jamais caindo na armadilha de fazer dela uma vítima ou retratá-la como a loira burra, imagem que a estereotipou até sua trágica morte, em agosto de 1962. Sua interpretação é de uma sutileza comovente – com apenas um olhar, Williams fala mais do que outras estrelinhas que Hollywood insiste em empurrar para a plateia em longos discursos.
Mas se Michelle Williams dá um espetáculo com seu desempenho, seu elenco coadjuvante não fica atrás. Em um toque de mestre, o diretor Simon Curtis escalou Kenneth Branagh – irlandês que tornou-se famoso no cinema como uma espécie de representante oficial de Shakespeare nos anos 90, com filmes como “Henry V”, “Muito barulho por nada” e “Hamlet” – para interpretar Laurence Olivier – britânico que, nas décadas de 40 e 50, fazia o mesmo, a ponto de ganhar um Oscar por “Hamlet”. Esse sutil toque metalinguístico – Olivier chega a citar o bardo em uma sequência perto do final do filme – é um rasgo de inteligência que quase torna perdoável escalar a insossa Julia Ormond para viver a espetacular Vivien Leigh: mesmo que fosse mais velha que Marilyn, Leigh ainda era linda e elegante em 1956, coisa que Ormond apenas sonha em ser. Se na vida real era questionável alguém apaixonar-se por Monroe tendo Leigh em casa, no filme tal opção torna-se muito mais compreensível – se era essa a intenção do diretor, palmas a ele. Caso contrário, foi um tiro no pé. Diante de Ormond nem é preciso muito para que Michelle Williams brilhe e justifique o carisma imortal de Marilyn.
Quanto ao roteiro, “Sete dias com Marilyn” fica apenas na média. Não aprofunda as relações entre a atriz e Colin (Eddie Redmayne antes de ficar famoso e ganhar o Oscar por “A teoria de tudo”) nem dá foco ao que poderia ser um delicioso retrato dos bastidores de uma filmagem. Toda vez que o filme se concentra na fúria de Olivier em ter que aturar os atrasos e inconstâncias de Marilyn, o filme de Curtis cresce e se torna interessante. Quando se desvia para o romance hesitante entre Monroe e Clark – um personagem mal escrito e interpretado com apatia por Redmayne – cai no lugar-comum que acaba por transformá-lo em um filme apenas razoável. Serve como curiosidade e para admirar o trabalho de Michelle Williams e Kenneth Branagh – ambos, aliás, merecidos candidatos à estatueta da Academia.

quarta-feira

DO INFERNO

DO INFERNO (From hell, 2001, 20th Century Fox, 122min) Direção: Albert Hughes, Allen Hughes. Roteiro: Terry Hayes, Rafael Yglesias, graphic novel de Alan Moore, Eddie Campbell. Fotografia: Peter Deming. Montagem: George Bowers, Dan Lebental. Música: Trevor Jones. Figurino: Kym Barrett. Direção de arte/cenários: Martin Childs/Jill Quertier. Produção executiva: Thomas M. Hammell, Albert Hughes, Allen Hughes. Produção: Jane Hamsher, Don Murphy. Elenco: Johnny Depp, Heather Graham, Ian Holm, Robbie Coltrane, Ian Richardson, Jason Flemyng, Joanna Page, Mark Dexter. Estreia: 08/9/01 (Festival de Veneza)

Um dos personagens mais fascinantes da crônica policial universal - e que deu origem a livros, filmes, peças de teatro, estudos, teses e todo tipo de material possível e imaginável - não poderia deixar de ser retratado em uma das manifestações artísticas mais cultuadas do final do século XX, as graphic novels. Tendo Jack, o Estripador como personagem principal - e revelando sua identidade logo nas primeiras páginas, com base em uma teoria que muitos consideram incorreta e sem sentido - o livro "Do inferno", escrito e desenhado por Alan Moore e Eddie Campbell chegou às livrarias em 1991, com mais de 570 páginas recheadas de informações e detalhes históricos capazes de fazer salivar qualquer interessado no assunto, por mais cético que seja a respeito de suas conclusões. Centrando sua trama nos pensamentos de Jack e em suas razões para assassinar as prostitutas londrinas que frequentavam a zona pobre da Londres de 1888, o livro parecia um desafio a qualquer roteirista de cinema, que se veria em maus lençóis para adaptar ao gosto do público médio uma história tão sangrenta e, pior ainda, sem um herói para se torcer. No entanto, como a terra do cinema tem seus meios - e um tema assim não poderia passar em brancas nuvens pelos ambiciosos produtores - o Festival de Veneza de 2001 serviu de plataforma para o lançamento de sua versão cinematográfica, dirigida por dois irmãos afro-americanos (Albert e Allen Hughes) e estrelada por um dos atores mais populares do cinema americano, Johnny Depp. Não, Depp - queridinho das adolescentes desde que fazia a telessérie "Anjos da lei" - não interpretava Jack. Aliás, Jack nem era mais o protagonista da história. Na versão da 20th Century Fox quem dava as cartas era Frederick Abberline, um dos inspetores responsáveis pela caça ao serial killer. Coisas de Hollywood.

No filme dos Irmãos Hughes - estiloso, plasticamente estonteante e visceralmente violento, ainda que disfarce tal violência com uma fotografia apropriadamente escurecida - Abberline assume a protagonização da história, sendo promovido de sua função no livro e tendo sua personalidade alterada, uma vez que chamou para si características de outro personagem importante da narrativa literária (um vidente chamado Robert Lees que foi limado do roteiro final). Interpretado por Depp, o inspetor ganhou novas nuances (vício em ópio, por exemplo, o que cai como uma luva na mania do ator em sempre interpretar excêntricos ou drogados) e até uma insinuação de romance com a prostituta Mary Kelly (Heather Graham), que, a despeito da descrição de suas colegas feitas em todo e qualquer artigo escrito sobre o assunto, é bonita, limpa e jovem. Assumindo o papel que foi oferecido anteriormente a Daniel Day Lewis, Jude Law, Brad Pitt e até Sean Connery, Depp oferece ao filme o que a graphic novel não tinha - um herói com passado dramático com quem o público possa se identificar - mas tira do projeto o que ele poderia ter de melhor: personalidade.


Ao optar por um ritmo repleto de camadas que exploravam todas as linhas investigativas do caso de Jack, os autores da graphic novel criaram uma obra única e fascinante, mas os fãs do livro tiveram que contentar-se com uma adaptação narrativa nos moldes clássicos, ou seja, sem maiores ousadias ou surpresas. Na Londres de 1888, uma série de assassinatos mexe com a imaginação popular e com a segurança pública: prostitutas estão sendo violentamente mortas e mutiladas por um criminoso que parece ter conhecimento de anatomia humana e tem um sombrio senso de humor, deixando recados à polícia a respeito de seus feitos. Auto-intitulado Jack, o Estripador, ele acaba por tornar-se a missão do Inspetor Abberline (Depp) - cujos métodos pouco ortodoxos de investigação incluem visões promovidas pelo uso constante de ópio. Seguindo as pistas deixadas pelo psicopata, ele chega até Sir William Gull (Ian Holm), médico da família real e membro da comunidade maçônica londrina que aparenta saber muito mais do que deixa antever seu cuidado excessivo com o jovem príncipe Edward Albert (Mark Dexter) - que mantém uma misteriosa relação com uma jovem prostituta chamada Ann Crook (Joanna Page) e pode ser a chave do mistério.

Apesar de diluir todas as informações da obra original para que elas caibam em um filme de duas horas e de tirar dela sua essência, a versão para o cinema de "Do inferno" tem muitas qualidades, especialmente quando o assunto é visual. A fotografia de Peter Deming e a reconstituição de época que praticamente esfrega na cara do público a pobreza e a tristeza de um lado menos turístico de Londres são excepcionais, assim como a noção dos irmãos Hughes em explorar da melhor maneira possível os detalhes históricos da trama mesmo que seu desfecho não seja reconhecido como verdadeiro. Uma adaptação fiel seria genial, mas dentro do cinema comercial e suas exigências, é um filme policial clássico - com direito até mesmo a um final açucarado que quase põe tudo a perder e alguns exageros facilmente perdoáveis - capaz de agradar a quem tem paciência para produtos com ritmo menos alucinante. E nem Johnny Depp e seus excessos conseguem estragar o programa.

MAMMA MIA!

MAMMA MIA! (Mamma Mia!, 2008, Universal Pictures, 108min) Direção: Phyllida Lloyd. Roteiro: Catherine Johnson, peça musical de Catherine Johnson. Fotografia: Haris Zambarloukos. Montagem: Lesley Walker. Música: Benny Andersson, Bjorn Ulvaeus. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Maria Djurkovic/Barbara Herman-Skelding. Produção executiva: Benny Andersson, Tom Hanks, Mark Huffam, Bjorn Ulvaeus, Rita Wilson. Produção: Judy Craymer, Gary Goetzman. Elenco: Meryl Streep, Pierce Brosnan, Colin Firth, Stelan Skarsgard, Amanda Seyfried, Dominic Cooper, Christine Baranski, Julie Walters. Estreia: 30/6/08 (Londres)

Durante os anos 70, não havia no mundo quem não conhecesse ao menos uma canção do grupo sueco ABBA. Depois de uma década restrita apenas a fãs mais ardorosos, os anos 90 ressuscitaram seus sucessos nos filmes australianos "O casamento de Muriel" e "Priscilla, a rainha do deserto" e, quase na virada do século, hinos como "The winner takes it all" e "Dancing queen" chegaram aos palcos ingleses em uma peça musical escrita por Catherine Johnson: "Mamma Mia!" - que se utilizava do repertório da banda em uma comédia romântica - bateu recordes de bilheteria, foi transferido para a Broadway em 2001 e, para surpresa de ninguém, acabou parando no cinema. Seguindo o êxito de musicais com "Moulin Rouge" e "Chicago", a diretora Phillyda Lloyd (que também assinou o comando da versão americana) não decepcionou os produtores Tom Hanks e Rita Wilson, com uma bilheteria de mais de 140 milhões de dólares, prova da perenidade do conjunto formado do qual faziam parte Benny Anderson e Bjorn Ulvaeus, que inclusive aparecem rapidamente em cena e assinam a produção executiva do filme.

Ao contrário de "Across the universe", onde a diretora Julie Taymor, servia-se das canções dos Beatles para contar uma história de amor e liberdade nos EUA sacudidos pela Guerra do Vietnã, "Mamma Mia!" tem um registro muito mais alto-astral e leve, deixando de lado qualquer elocubração mais pesada ou densidade psicológica. Refletindo a beleza límpida e ensolarada da Grécia - onde se passa a história - o roteiro da própria autora da peça explode em colorido, alegria e bom-humor, sem espaço para nada além de uma fotografia deslumbrante, atores se divertindo nitidamente, uma trama que exige do espectador apenas um mínimo de atenção e, claro, uma trilha sonora vibrante e adequada. Aliás, não poderia deixar de ser diferente, já que são as canções que conduzem a história de Donna (uma iluminada Meryl Streep), a dona de um hotel rústico na Grécia que reencontra três ex-namorados justamente às vésperas do casamento da única filha.


Começando do começo: a jovem Sophie (Amanda Seyfried, em papel cobiçado por Mandy Moore, Rachel McAdams, Emmy Rossum e Amanda Bynes) tem um sonho (como diz "I have a dream", que abre o filme) de conhecer seu pai, uma vez que foi criada apenas pela mãe, Donna, em uma paradisíaca ilha grega. Mexendo nas coisas de sua progenitora, ela descobre um diário que lhe dá a conclusão de que ela só pode ser filha de um dos três ex-namorados da mãe, o ex-roqueiro Bill (Stelan Skarsgard), o certinho Harry (Colin Firth) e o bem-sucedido Sam (Pierce Brosnan). Em segredo, ela envia convites de seu iminente casamento para todos e, para sua surpresa, eles aparecem, mexendo com a vida tranquila de Donna, que precisará lidar com seu passado - e que, para isso, conta com a ajuda de suas duas melhores amigas, Rosie (Julie Walters) e Tanya (Christine Baranski), também presentes na ilha para o casamento.

O fiapo de história, porém, é o que menos importa. Phillida Lloyd não é uma cineasta capaz de grandes voos, o que fica evidente na sua total falta de ousadia visual ou segurança para compreender as diferenças de linguagem entre teatro e cinema. Como o grande público pouco se importa com essas questões técnicas, a diversão é garantida graças à explosão de alegria que o filme é. Meryl Streep brilha mais que todos, como sempre, criando uma Donna jovem, otimista e carinhosa - que passa da contagiante "Dancing queen" à dolorosa "The winner takes it all" com o talento de uma cantora nata - mas é inegável sua química com Amanda Seyfried, em especial na bela sequência em que a garota se prepara para o casamento. Julie Walters e Christine Baranski quase roubam o show como coadjuvantes e até mesmo o trio de ex-amores de Donna sai-se bem, ainda que nenhum deles possa ser considerado um grande cantor.

"Mamma Mia!" é um filme feito para divertir. Quem gosta de Meryl Streep é um prato cheio. Para quem gosta de comédias românticas com cenários deslumbrantes é um deleite. Mas é para os fãs do ABBA que o filme foi feito. E para eles é essencial!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...