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terça-feira

ESTAREMOS SEMPRE JUNTOS


ESTAREMOS SEMPRE JUNTOS (Nous finirons ensemble, 2019, Trésor Films/Caneo Films/EuropaCorp, 134min) Direção: Guillaume Canet. Roteiro: Guillaume Canet, Rodolphe Lauga. Fotografia: Christophe Offenstein. Montagem: Hervé de Luze. Direção de arte/cenários: Philippe Chiffre/Fabien Georges. Produção executiva: Xavier Amblard. Produção: Alain Attal. Elenco: François Cluzet, Marion Cottilard, Benoit Magimel, Gilles Lelouche, Laurent Lafitte, Pascale Arbilot, Clémentine Baert. Estreia: 11/4/2019

Em 2010, o ator e cineasta Guillaume Canet lançou "Até a eternidade", uma comédia dramática que tornou-se um dos maiores sucessos do cinema francês daquele ano, com mais de cinco milhões de ingressos vendidos e elogios rasgados. Seu retrato carinhoso e um tanto melancólico de um grupo de amigos obrigados a enfrentar as verdades por trás de suas vidas aparentemente tranquilas tinha no elenco nomes conhecidos do cinema europeu - como o veterano François Cluzet - e vencedores do Oscar - Marion Cottilard e Jean Dujardin, este em uma participação especial - e nítidas influências de "O reencontro", clássico oitentista do norte-americano Lawrence Kasdan. Com personagens bem construídos, excelente senso de ritmo e um equilíbrio invejável de humor e sentimentalismo, seu roteiro deixava margem para uma continuação que, depois de nove anos, finalmente viu a luz dos projetores. "Estaremos sempre juntos", que volta a encontrar o grupo de amigos, dessa vez com suas vidas alteradas pelo tempo e por novos dramas, estreou na França em 2019 e, apesar de não obter a mesma repercussão do original - e não ter sido exatamente aprovado pela crítica -, mantém algumas de suas maiores qualidades e aposta na identificação da plateia com seus personagens, agora mais velhos e desiludidos.

Enquanto o primeiro filme as férias de verão do grupo de amigos protagonistas acontecia sob a sombra do acidente que deixou um deles no hospital, em "Estaremos sempre juntos" o drama principal gira em torno de Max (François Cluzet), o mais bem-sucedido financeiramente do grupo, que está passando por um inferno astral: separado da mulher, Véro (Valerie Bonneton), vê sua fortuna escapar por entre os dedos, sofre de uma grave crise de meia-idade (apesar do relacionamento carinhoso com a nova esposa) e, apesar de esconder de todos, está vendendo a casa de praia onde tantas vezes recebeu (com indisfarçável orgulho) sua turma. Em depressão e ainda mais taciturno e mau-humorado, Max se surpreende quando todos aparecem na propriedade sem avisar, como forma de comemorar seu aniversário com uma festa surpresa. Já faz algum tempo que seu relacionamento com o grupo está estremecido (principalmente depois de uma briga com Eric (Gilles Lellouche)), e o reencontro, como se poderia esperar, irá reviver conflitos e forçar confrontos que todos gostariam de evitar. Sete anos depois da tragédia que os fez repensar a vida, eles novamente são postos diante de situações decisivas.

Marie (Marion Cottilard) talvez seja, dentre todos, a que mais mudou: mãe solteira de um menino, ela não é mais a mulher disposta a mudar o mundo que era em seus dias mais jovens, e não perde a oportunidade de demonstrar sua má-vontade com o mundo em geral. Vincent (Benoit Magimel) também mudou radicalmente de vida, depois de assumir um relacionamento homossexual e separar-se de Isabelle (Pascale Arbillot) - que, por sua vez, redescobriu sua sensualidade a ponto de chamar a atenção de Antoine (Laurent Lafitte), agora trabalhando como assistente de Eric - que também tornou-se pai e tenta equilibrar sua carreira de ator (em ótima fase) com a vida (quase) familiar. Eric é o único que sabe a verdade sobre a nova situação financeira de Max - e o ajuda a fingir que ele é o responsável por alugar uma nova casa para seu reencontro - um reencontro em que ele tentará manter as aparências enquanto luta desesperadamente com sua sensação de fracasso. Nesse meio-tempo, situações dramáticas e cômicas se acumulam: Vincent se sente atraído pela ex-mulher, Eric tenta convencer Marie a abandonar sua nova e autodestrutiva rotina e a onipresença de uma rígida babá deixa tudo em constante tensão - sem falar nos filhos adolescentes de Vincent e Max, buscando atenção e aprovação paternas.

Assim como em "Até a eternidade", Canet equilibra drama e humor, ilustrando seu roteiro com uma trilha sonora caprichadíssima e um ritmo suave. Porém, ao contrário do que acontecia no primeiro filme, ele não consegue evitar uma queda de interesse em seu terço final, com um clímax pouco atraente - envolvendo as crianças - e um desfecho menos potente do que se poderia imaginar. Tais pecados, no entanto, não apagam o que a produção tem de bom: um elenco acima de qualquer crítica (que consegue lidar com a complexidade de seus personagens), uma sensibilidade emocionante e um carinho indisfarçável pelas relações humanas. Que venha um terceiro capítulo!

sexta-feira

MACBETH: AMBIÇÃO E GUERRA

MACBETH: AMBIÇÃO E GUERRA (Macbeth, 2015, See-Saw Films/DMC Film, 113min) Direção: Justin Kurzel. Roteiro: Todd Louiso, Jacob Koskoff, Michael Lessie, peça teatral de William Shakespeare. Fotografia: Adam Arkapaw. Montagem: Chris Dickens. Música: Jed Kurzel. Figurino: Jacqueline Durran. Direção de arte/cenários: Fiona Crombie/Alice Felton. Produção executiva: Jenny Borgars, Oliver Courson, Danny Perkins, Tessa Ross, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Iain Canning, Laura Hastings-Smith, Emile Sherman. Elenco: Michael Fassbender, Marion Cottilard, Paddy Considine, David Thewlis, Jack Reynor, Sean Harris, Elizabeth Debicki. Estreia: 23/5/15 (Festival de Cannes)

Escrito no início dos anos 1600, o texto de "Macbeth" tornou-se, com um tempo, um dos mais celebrados do imortal William Shakespeare - e também o mais cercado de superstições e lendas a respeito de suas montagens. Ao falar basicamente sobre o mal e a ambição, a obra chegou ao ponto de ser chamada simplesmente de "a peça escocesa", como forma de isolar toda as maldições que (segundo consta) atinge suas montagens. Dona de alguns dos personagens mais conhecidos do teatro mundial - especialmente o personagem-título e sua esposa -, a peça também chegou ao cinema em diversas ocasiões, mais notadamente em uma versão dirigida por Orson Welles em 1948 e uma adaptação de Roman Polanski, lançada em 1971. Sem uma nova releitura cinematográfica desde então, "Macbeth" chegou ao século XXI sob a direção do australiano Justin Wurzel - relativamente conhecido de circuitos de festivais graças à sua estreia como cineasta, "Os crimes de Snowtown" (2011): visualmente exuberante, dramaticamente convincente e passível de uma nova compreensão psicológica, "Macbeth: ambição e guerra" tem a seu favor, também, a certeira escalação de seus dois atores centrais. Sempre arrebatadores, Michael Fassbender e Marion Cottilard - que voltariam a trabalhar com o diretor na adaptação do videogame "Assassin's Creed" - agigantam o filme de Wurzel e dignificam uma das maiores obras teatrais da história.

Violenta, impiedosa e cruel, a trama de "Macbeth" não poupa sangue e apresenta seus protagonistas como um casal absolutamente ganancioso e frio. O roteiro do filme de Wurzel dá uma amenizada em suas características principais, mas o faz de maneira orgânica e coerente com a visão proposta pelo cineasta: o Macbeth de Michael Fassbender sofre de um grave transtorno pós-traumático, oriundo de suas batalhas para defender o trono da Escócia e garantir o reinado de Duncan (David Thewlis), seu parente distante; e sua esposa, vivida por Marion Cottilard, é atormentada pela perda precoce de um filho, um fato que, se não a absolve de todos os pecados que virá a cometer, ao menos oferece ao espectador (e à atriz) uma camada a mais de complexidade e humanidade. Substituindo Natalie Portman - a escolha original para o papel -, Cottilard pode parecer, por sua nacionalidade, uma opção estranha para uma personagem tão vinculada a intérpretes britânicas, mas basta uma cena para que o público deixe de lado qualquer reserva e se deixe envolver pela sedução de uma das mais perversas criações dramáticas do teatro universal: um misto de beleza, inteligência e calculismo, Lady Macbeth encontra em Cottilard uma personificação exemplar, que justifica toda e qualquer ascendência sobre o marido ambicioso.


E se Marion Cottilard encarna com perfeição a infame esposa do protagonista, Michael Fassbender não faz por menos na pele de Macbeth. Dedicado e intenso, Fassbender entrega-se de maneira avassaladora ao filme - adaptação de sua preferida dentre as peças de Shakespeare. Segundo o diretor, o ator alemão leu o roteiro nada menos que 200 vezes antes que as filmagens sequer começassem - e o resultado de tanto empenho é perceptível em cada cena: transmitindo sem erro todas as nuances de seu personagem (ambição, medo, paranoia, coragem, loucura), Fassbender não apenas entrega uma atuação impecável, mas também a coloca instantaneamente no rol das maiores interpretações de sua carreira repleta de grandes desempenhos, e na cobiçada companhia de nomes como Laurence Olivier, Orson Welles, Ian McKellen e Kenneth Branagh - atores internacionalmente reconhecidos como intérpretes shakespereanos. A intensidade de Fassbender, assim como sua figura imponente e carismática, engole cada cena do filme de Kurzel, mesmo quando ao lado de colegas também bastante talentosos - desde o veterano David Thewlis como o Rei Duncan até o jovem Jack Reynor, que, vindo do cinema independente, interpreta com segurança o príncipe Malcolm. Mesmo que suas participações sejam pequenas, servem como apoio ao trabalho irretocável do protagonista.

E se não bastasse as atuações irrepreensíveis de seu elenco, "Macbeth: ambição e guerra" consegue se destacar também por seu visual. A bela fotografia de Adam Arkapaw é a moldura perfeita para a violenta trama que se desenrola diante dos olhos do espectador, ilustrando com imagens o estado mental de seus personagens. Nem mesmo as pequenas mudanças em relação à peça (a criação de uma quarta feiticeira, por exemplo) são capazes de estragar o espetáculo, especialmente porque o roteiro segue a sangrenta história ao pé da letra. Para quem ainda não conhece, ela acompanha a trajetória de Macbeth, um general que, depois de receber, através de feiticeiras, a notícia de que se tornará o rei da Escócia, se une à esposa para apressar tal destino, eliminando todas as pessoas que poderiam ser um empecilho para tal - sejam elas homens, mulheres ou crianças. A partir daí, sua ambição desmedida o empurra para a paranoia, a loucura e ainda mais violência - tudo tratado com seriedade e delicadeza pela direção de Wurzel, que se mostra plenamente digno de comandar uma das mais importantes sagas do teatro universal. Para os fãs de Shakespeare é um programa indispensável!

domingo

ALIADOS

ALIADOS (Allied, 2016, Paramount Pictures, 127min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Steven Knight. Fotografia: Don Burgess. Montagem: Mick Audsley, Jeremiah O'Driscoll. Música: Alan Silvestri. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Gary Freeman/Raffaella Giovanetti. Produção executiva: Steven Knight, Jacqueline Levine, Patrick McCormick, Denis O'Sullivan, Jack Rapke. Produção: Graham King, Steve Starkey, Robert Zemeckis. Elenco: Brad Pitt, Marion Cottilard, Matthew Goode, Jared Harris. Estreia: 13/11/16

Indicado ao Oscar de Figurino

Talvez tenha sido a expectativa gerada em torno da união de três grandes nomes de Hollywood no projeto. Talvez tenha sido o excesso de boatos a respeito dos bastidores, que insistiam em um rumoroso caso extraconjugal entre os atores principais. Ou talvez tenha sido a estratégia de lançamento justamente na época do ano em que chegam aos cinemas os filmes que irão disputar as principais indicações ao Oscar. O fato é que "Aliados", uma caprichada produção de época, passada durante a II Guerra Mundial, que mistura ação, suspense e romance em doses homeopáticas, dirigida por Robert Zemeckis e estrelada por Brad Pitt e Marion Cottilard naufragou nas bilheterias americanas: com um custo estimado em 85 milhões de dólares, rendeu pouco mais de 40 milhões no mercado doméstico (EUA e Canadá) e nem mesmo chegou a ser lembrado pela Academia, arrebatando uma solitária indicação ao Oscar de melhor figurino. Porém, seu relativo fracasso de bilheteria (a renda internacional ajudou a chegar aos 100 milhões de faturamento) não reflete as qualidades do filme, que, mesmo estando aquém do talento dos envolvidos, é um thriller romântico acima da média, que peca apenas por não apresentar nenhuma novidade ao gênero ou surpreender o espectador.

Assim como o clássico dirigido por Michael Curtiz e estrelado por Humphrey Bogart e Ingrid Bergman em 1942, "Aliados" começa sua trama em Casablanca, no Marrocos. É lá que o Comandante Max Vatan, integrante da resistência canadense na II Guerra Mundial, chega para cumprir uma missão imposta por seus superiores: encontrar a francesa Marianne Beauséjour e, junto com ela, assassinar o embaixador alemão no país. Para isso, eles precisam fingir ser casados, e não demora para que, solteiros e atraentes, eles acabem por se apaixonar de verdade depois da convivência forçada. Logo após o sucesso de sua missão, eles se casam e, resolvidos a formar uma família, vão morar na Inglaterra, onde passam a viver uma vida tranquila ao lado da filha pequena. Tal paz se mostra frágil, no entanto, quando Max é informado que sua mulher é, na verdade, uma espiã nazista que matou a verdadeira Marianne e assumiu sua identidade. Sem acreditar na verdade - mas abalado a ponto da dúvida - ele passa a investigar o passado da mulher que ama, na tentativa de provar sua inocência. No caminho, ele encontra como principal fonte de informações um antigo companheiro de Marianne, Guy Sangster (Matthew Goode), que vive preso a uma cadeira de rodas com o rosto desfigurado.


Com uma ambientação sofisticada e um cuidado extremo no visual - cortesia da fotografia climática de Don Burgess, habitual parceiro de Zemeckis - "Aliados" ganha muitos pontos por sua semelhança com os grandes clássicos produzidos em Hollywood nas décadas de 30 e 40. Amparado por um tom que dialoga diretamente com grandes filmes do passado, o roteiro de Steven Knight - indicado ao Oscar pelo script de "Coisas belas e sujas" (2003) - acerta quando direciona seu foco para as investigações de Vatan e as intrigas relacionadas à guerra, mas falha em seu ponto crucial: o relacionamento entre o casal de protagonistas. Apesar das fofocas que insistiam em colocar Marion Cottilard como pivô da separação de Brad Pitt e Angelina Jolie, sua química com o colega de cena nunca chega a esquentar a tela com cenas mais intensas (sejam elas de sexo ou de romance puro e simples). Essa falta de combustão acaba por ser um defeito mortal para as intenções do filme: sem acreditar totalmente no amor de Max por Marianne, como acreditar em tudo que ele faz para provar sua inocência?

Justiça seja feita: "Aliados" não é um filme ruim. É plasticamente impecável, dirigido com precisão e com uma dupla de atores extremamente talentosos - e da qual sobressai-se a impressionante naturalidade de Marion Cottilard em interpretar absolutamente qualquer papel. O problema é, definitivamente, a total falta de surpresas do roteiro. Até mesmo a reviravolta final soa deslocada e sem muito sentido, como se estivesse sendo tirada da cartola para caber na receita para um filme de sucesso. Os fãs do casal central não terão do que reclamar, mas não deixa de ser um tanto decepcionante ver tantos bons elementos misturados de forma tão mecânica e sem inspiração. Vale como passatempo, mas jamais será um filme inesquecível.

sábado

É APENAS O FIM DO MUNDO

É APENAS O FIM DO MUNDO (Juste la fin du monde, 2016, Sons of Manual/MK2 Productions/Téléfilm Canada, 97min) Direção: Xavier Dolan. Roteiro: Xavier Dolan, peça teatral de Jean-Luc Lagarce. Fotografia: André Turpin. Montagem: Xavier Dolan. Música: Gabriel Yared. Direção de arte/cenários: Colombe Raby/Pascale Deschênes. Produção executiva: Patrick Roy. Produção: Sylvain Corbeil, Xavier Dolan, Nancy Grant, Elisha Karmitz, Nathanael Karmitz, Michel Merkt. Elenco: Gaspard Ulliel, Marion Cotillard, Vincent Cassel, Léa Seydoux, Nathalie Baye. Estreia: 19/5/16 (Festival de Cannes)

Um perfeito exemplo de que nem mesmo a crítica é capaz de chegar a um consenso quando se trata de arte é o filme "É apenas o fim do mundo", sexto longa-metragem do jovem canadense Xavier Dolan: vaiado pela imprensa na ocasião de sua estreia no Festival de Cannes de 2016, o filme acabou saindo da Riviera Francesa com o Grande Prêmio do Júri Oficial e o Prêmio do Júri Ecumênico, além de ter ficado entre os nove pré-finalistas ao Oscar de melhor filme estrangeiro do ano. Sucesso de bilheteria na França, onde arrastou mais de 1 milhão de pessoas às salas de cinema, a adaptação da peça teatral de Jean-Luc Lagarce é, talvez, o mais maduro filme do diretor, que mantém nele suas características mais importantes mas consegue, ao mesmo tempo, administrar sua tendência ao excesso e entregar à plateia uma obra dramaticamente consistente e visualmente atraente, com um equilíbrio excepcional entre as linguagens do teatro e do cinema e um elenco excepcional.

Encontrando no texto de Lagarce - inspirado em suas próprias vivências familiares - uma matéria-prima que vai ao encontro de sua coerente filmografia até o momento, Xavier Dolan constrói uma atmosfera claustrofóbica e melancólica que, como qualquer bom teatro, vai se avolumando gradativamente até a explosão final, catártica e emocional. Ao contrário de seus filmes anteriores, onde os conflitos eram sempre resolvidos no grito - do início ao fim da projeção - em "É apenas o fim do mundo" os dramas são tratados de forma discreta, sutil, em fogo brando, dando apenas pequenas mostras do turbilhão que se passa nos corações e nas mentes de seus personagens, todos com uma saudável cota de problemas e angústias. Utilizando com inteligência a linguagem cinematográfica, ele faz uso exemplar dos silêncios reveladores e da edição minimalista, que revelam com parcimônia o clima de desespero e nostalgia que acompanha a visita do protagonista à casa dos pais, doze anos depois de sua deserção. Vivido com brilhante suavidade por Gaspard Ulliel (que foi o herói romântico de "Eterno amor" (04), de Jean-Pierre Jeunet), o escritor Louis Knipper é mais um alter-ego do cineasta, mas concebido com mais nuances e menos agressividade - uma docilidade que contrasta com a violência de seus dramas pessoais.


Afastado da família há mais de uma década, Louis resolve fazer uma inesperada visita à cidade natal, com o objetivo declarado já em sua primeira fala, de "anunciar a sua morte". Assim que chega em casa, porém, o rapaz já se vê diante da dificuldade de expressar seus sentimentos, uma vez que todos parecem munidos de uma extrema incapacidade de empatia. Sua excêntrica mãe (Nathalie Baye) preocupa-se exclusivamente com o cardápio da ocasião, falando sem parar para disfarçar seu desconforto. Sua irmã caçula, Suzanne (Léa Seydoux) - com quem teve pouco contato - é uma jovem rebelde e hostil, que vê nele uma possibilidade de abandonar um lar opressivo e tedioso. Seu irmão mais velho, Antoine (Vincent Cassel), é bruto, amargo e pouco afeito a demonstrações de carinho - nem mesmo com a bela e fragilizada esposa, Catherine (Marion Cottilard). Sintomaticamente, é com ela, a única pessoa sem laços de sangue, que surge o maior entendimento: não é preciso palavras para que a frequentemente oprimida Catherine descubra o motivo da visita de Louis, que aos poucos passa a questionar a decisão de informar à família seu estado de saúde.

Com uma trilha sonora escolhida a dedo - desde a abertura com "Home is where it hurts", da cantora Camille, até os créditos finais ao som de "Natural blues", de Moby - Dolan pontua sua narrativa com imagens poderosas (um de seus pontos fortes) para ilustrar as muitas vezes dolorosas palavras escritas por Jean-Luc Lagarce, que encontram nos atores escolhidos pelo diretor seus intérpretes ideais. Gaspard Ulliel nunca esteve tão bem, transmitindo a dor de seu personagem mesmo sendo o mais silencioso dentre toda a barulhenta família. Nathalie Baye - que já havia trabalhado com o diretor em "Laurence anyways" (2012) - se entrega com corpo e alma à sua quase desagradável mãe, enquanto Vincent Cassel faz como ninguém o tipo "boçal com orgulho". Não à toa, ambos estão foram indicados ao César de coadjuvantes - o filme também está no páreo de melhores ator, diretor, montagem e filme estrangeiro. Mas é Marion Cottilard, mais uma vez, que rouba a cena. Com uma personagem que difere de tudo que já fez até então - uma mulher oprimida e quase humilhada por um marido abusivo - a vencedora do Oscar por "Piaf, um hino ao amor" (2008) mostra, mais uma vez, porque é uma das grandes atrizes de sua geração. Seus momentos de dor e compreensão com Gaspard Ulliel são o grande trunfo de "É apenas o fim do mundo", um filme de silêncios e segredos que aponta um novo caminho na carreira de Xavier Dolan. Difícil entender as vaias.

quinta-feira

DOIS DIAS, UMA NOITE

DOIS DIAS, UMA NOITE (Deux jours, une nuit, 2014, Les Films du Fleuve/Archipel 35, 95min) Direção e roteiro: Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne. Fotografia: Alain Marcoen. Montagem: Marie-Hélène Dozo. Figurino: Maira Ramedhan Levi. Direção de arte: Igor Gabriel. Produção executiva: Delphine Tomson. Produção: Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne, Denis Freyd. Elenco: Marion Cottilard, Fabrizio Rongione, Catherine Salée, Batiste Sornin, Pily Groine. Estreia: 20/5/14 (Festival de Cannes)

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Marion Cottilard)

Em 2008, todo mundo esperava que Julie Christie saísse da cerimônia de entrega do Oscar com a estatueta de melhor atriz, por seu fantástico trabalho em "Longe dela", da também atriz Sarah Polley. Para surpresa dos espectadores, porém, a Academia deixou de lado sua tendência em relegar atores estrangeiros a meros coadjuvantes e concedeu sua honra máxima a uma francesa da qual poucos haviam ouvido falar até então: por seu desempenho emocionante como a mais famosa cantora de seu país, no filme "Piaf, um hino ao amor", Marion Cottilard não só faturou o prêmio mais cobiçado do cinema, mas tornou-se uma das atrizes mais requisitadas de Hollywood. Porém, mesmo trabalhando com nomes como Woody Allen, Christopher Nolan e Michael Mann, a bela nunca deixou de lado os filmes menos comerciais (aos olhos da indústria americana) e marcou presença em produções fortes como "Ferrugem e osso" - na qual interpreta uma treinadora de golfinhos que perde as duas pernas em um acidente de trabalho - e "Dois dias, uma noite", filme dirigido pelos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne. Sua performance neste último - com direito a sotaque belga, rosto lavado e a complexidade dramática de interpretar uma mulher comum - fizeram com que novamente os eleitores da Academia se curvassem a seu talento superlativo: Cottilard foi a única das indicadas ao Oscar 2014 por um filme não falado em inglês - e se não fosse o favoritismo absoluto de Julianne Moore como uma mulher diagnosticada com Alzheimer em "Para sempre Alice" (coincidentemente a mesma doença da qual sofria Julie Christie em "Longe dela"), não teria sido nada injusto que um segundo homenzinho dourado fosse enfeitar sua prateleira.

Quem conhece a obra dos irmãos Dardenne - minimalista, simples e que sempre utiliza o mais banal dos acontecimentos como matéria-prima para seu trabalho - sabe bem o que esperar de "Dois dias, uma noite", a dramática odisseia de uma mulher em busca de um dos direitos mais básicos do ser humano: o de trabalhar. Sem buscar em seu roteiro o caminho mais fácil do melodrama, os diretores/roteiristas conseguem, ao retratar a via-crúcis de sua protagonista, expor ao mesmo tempo a crise econômica pela qual passa a Europa, a tendência cada vez mais forte ao individualismo e, em um registro mais esperançoso, a solidariedade que ainda sobrevive, impávida, onde menos se espera. Quase em tempo real, eles conduzem o espectador como testemunha ocular de um caminho de humilhação, desespero, decepção e redenção que somente um cinema humanista e desprovido de quaisquer artifícios sentimentaloides pode oferecer. É sofrido, é triste, é quase desconfortável. Mas é, acima de tudo, grandioso em sua extrema simplicidade.


Em uma atuação visceral que justifica plenamente sua indicação ao Oscar, Marion Cottilard vive (literalmente) Sandra Bya, uma jovem mãe de família que afastou-se do trabalho para tratar de uma depressão profunda e que, às vésperas de seu retorno, descobre que será demitida como forma de controlar os gastos da empresa - e gerar um bônus extra de 1000 euros para seus dezesseis colegas remanescentes, cuja votação (13x3) decidiu por sua dispensa. Sabendo da possibilidade de uma nova eleição na segunda-feira, ela resolve, então, passar o fim-de-semana inteiro visitando todos os seus companheiros de trabalho com a intenção de fazê-los mudar de ideia e, por consequência, lhe devolver a chance de um emprego que é essencial para sua família. No caminho, ela tanto percebe o egoísmo de alguns quanto as dificuldades enfrentadas por outros, a quem o bônus de sua demissão poderá ser uma forma de respirar diante das dificuldades financeiras.

Quem só gosta de cinema americano, com seu ritmo ágil e sua narrativa quase anfetamínica, deve passar ao largo de "Dois dias, uma noite". Sem pressa ao contar sua história, dando a cada cena, a cada diálogo e cada personagem o tempo necessário para que seja melhor digerido pela plateia, os irmãos Dardenne fazem de seu filme uma experiência única e dolorosa, ainda que encerrada com uma nota de otimismo capaz de deixar o espectador com um sorriso no rosto e paz no coração. E de quantos filmes se pode dizer o mesmo?

BATMAN: O CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGE

BATMAN: O CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGE (The Dark Knight rises, 2012, Warner Bros/Legendary Pictures, 165min) Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Christopher Nolan, Jonathan Nolan, estória de Christopher Nolan, David S. Goyer, personagens criados por Bob Kane. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Lee Smith. Música: Hans Zimmer. Figurino: Lindy Hemming, Craciunica Roberto. Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Kevin Kavanaugh. Produção executiva: Kevin De La Noy, Benjamin Melniker, Thomas Tull, Michael E. Uslan. Produção: Christopher Nolan, Charles Roven, Emma Thomas. Elenco: Christian Bale, Anne Hathaway, Michael Caine, Joseph Gordon-Levitt, Tom Hardy, Marion Cottilard, Gary Oldman, Morgan Freeman, Matthew Modine, Cillian Murphy, Ben Mendelsohn, Juno Temple, Thomas Lennon, Liam Neeson. Estreia: 16/7/12

O que falta dizer sobre "Batman: O Cavaleiro das Trevas ressurge" que ainda não foi dito, analisado, dissecado e elogiado desde sua estreia, a maior de 2012, com uma bilheteria arrasadora que confirmou de uma vez por todas a força do personagem e do talento de todos os envolvidos? O encerramento da trilogia dirigida por Christopher Nolan - que provou que entretenimento e inteligência podem conviver pacificamente em um blockbuster, haja visto também o sucesso merecido de "A origem", que chegou a concorrer ao Oscar de melhor filme - pode não ser tão impactante quanto o segundo capítulo da série (que, afinal de contas, contava com a atuação assombrosa de Heath Ledger) mas consegue ser empolgante, comovente e surpreendente, apesar de alguns pequenos defeitos. De quantos "filmes de verão", pouco afeitos a "detalhes" como roteiro e direção de atores se pode pode afirmar a mesma coisa?

A essa altura todo mundo sabe que a trama mantida em segredo por Nolan antes da estreia começa sete anos depois dos acontecimentos do segundo filme, mostrando Bruce Wayne (Christian Bale) isolado em sua mansão e a imagem de Batman manchada pela acusação da morte de Harvey Dent (Aaron Eckhart) - na verdade obra das armações do Coringa (Heath Ledger).  Batman e Wayne são obrigados a voltar à ação, no entanto, quando um mercenário chamado Bane (o impressionante Tom Hardy) passa a ameaçar Gotham City com a destruição em massa proposta por Ra's Al Ghul (Liam Neeson), mentor de ambos na Liga das Sombras. Junta-se à receita a charmosa ladra Selina Kyle (Anne Hathway na ingrata tarefa de ofuscar a Mulher-Gato de Michelle Pfeiffer no filme comandado por Tim Burton em 1992), o jovem policial idealista Blake (Joseph Gordon-Levitt) e a milionária Miranda Tate (Marion Cotillard) - que ambiciona tornar-se sócia de Wayne em seus experimentos - e pronto: Nolan oferece à audiência cenas de ação de extrema competência, dramas humanos críveis e reviravoltas em número suficiente para que as quase três horas de projeção passem voando diante dos olhos do público.


Fugindo do limitativo nicho de "filmes de super-herói", a trilogia do Homem-morcego criada por Nolan tem uma consistência rara, mantendo um nível de qualidade que encanta tanto aos fãs de histórias em quadrinhos quanto àqueles interessados apenas em um bom filme de ação. Tudo tem espaço no roteiro do cineasta, que tem óbvio carinho pelas personagens e pelos atores que as interpretam (não é à toa que o "time Nolan" está todo aqui, de Bale, Michael Caine e Cillian Murphy aos novos integrantes da troupe, Marion Cotillard, Joseph Gordon-Levitt e Tom Hardy, saídos direto de "A origem"). A história que conta é mais importante para o homem que despontou para o grande público com o fantástico "Amnésia" do que efeitos desconcertantes de câmera e efeitos especiais de ponta (e mesmo assim ele proporciona à plateia bons momentos assim). E é um desafio a qualquer um não sair do cinema bastante satisfeito com as ideias do excelente roteiro e com o final emocionante, com direito até mesmo a uma pequena e feliz surpresa. Seguindo o caminho de costurar várias linhas narrativas simultâneas e com inúmeros personagens, que pode ser bastante perigoso - caso do terceiro "Homem-aranha", de Sam Raimi - quanto bem-sucedido - como aconteceu com a trilogia "O Senhor dos Anéis", de Peter Jackson - Nolan conta com uma edição de extrema competência, que consegue dar conta de tudo mesmo quando a aparência é de uma bagunça descontrolada. Realmente existe um acúmulo de personagens, mas Nolan mantém o pulso firme até o final - e ainda consegue chocar a audiência com uma das cenas mais impressionantes da trilogia (retirada diretamente dos quadrinhos).

Difícil falar de "Batman: O Cavaleiro das Trevas ressurge", em especial depois que tudo foi dito. Mas algo precisa ser afirmado apesar de tudo: é absolutamente imperdível e satisfaz até ao mais exigente fã do personagem de Bob Kane. É um encerramento absolutamente digno e se Anne Hathway não rouba a coroa de Michelle Pfeiffer ao menos faz bonito em cena, com beleza, carisma e talento. Uma pena, no entanto, que a personagem de Marion Cottilard seja tão pouco aproveitada e que agora estejamos todos reféns de novas e temíveis adaptações do herói para o cinema. Obrigado, Nolan, por esses anos de entretenimento de primeira qualidade.

terça-feira

CONTÁGIO

CONTÁGIO (Contagion, 2011, Warner Bros, 106min) Direção: Steven Soderbergh. Roteiro: Scott Z. Burns. Fotografia: Peter Andrews (Steven Soderbergh). Montagem: Stephen Mirrione. Música: Cliff Martinez. Figurino: Louise Frogley. Direção de arte/cenários: Howard Cummings/Cindy Carr. Produção executiva: Jonathan King, Michael Polaire, Jeff Skoll, Ricky Strauss. Produção: Gregory Jacobs, Michael Shamberg, Stacey Sher. Elenco: Matt Damon, Jude Law, Kate Winslet, Marion Cottilard, Gwyneth Paltrow, Laurence Fishburne, Jennifer Ehle, John Hawkes. Estreia: 03/9/11 (Festival de Veneza)

Quando surgiu no mundo do cinema, em 1989, com seu independente “sexo, mentiras e videotape” – que ganhou a Palma de Ouro em Cannes e foi indicado ao Oscar de roteiro original – o cineasta Steven Soderbergh foi louvado como um gênio que poderia renovar o sangue do cinema americano. Com o tempo, ele tanto deu com os burros n’água com produções pretensiosas – “Kafka” (91), por exemplo – como assinou sucessos de bilheteria apenas divertidos – “Onze homens e um segredo” (01) e suas continuações, “Erin Brockovich: uma mulher de talento” (00), que deu o Oscar à Julia Roberts e “Magic Mike” (02), que apesar do êxito comercial é indigno de seu talento. No meio do caminho, filmes muito bons, como “Irresistível paixão” (98) e “Traffic” (00), que lhe rendeu uma estatueta de melhor diretor. Em uma carreira de altos e baixos constantes, “Contágio” fica no meio-termo: não é um filme marcante ou memorável nem tampouco um desastre completo. É um competente thriller médico cuja eficiência se escora mais no elenco multi-estelar do que exatamente em suas qualidades narrativas.
Na tradição de filmes que se utilizam de alguma epidemia para retratar o pânico da população, a ganância da indústria farmacêutica, o descaso das autoridades e o suspense inerente a tantos elementos, Soderbergh criou um produto que mantém a atenção da plateia do primeiro ao último minuto – quando enfim completa o quebra-cabeças cuja primeira peça é lançada na cena inicial – fazendo a intersecção de diversas histórias paralelas ao redor do mundo. Mal comparando, é um “Babel”, de Alejandro González Iñarrítu, mas com viés científico e um elenco tão repleto de estrelas que faz lembrar os filmes-catástrofes dos anos 70, como “Inferno na torre” (74) e “O destino do Poseidon” (75). A vantagem é que Soderbergh, apesar dos tropeços, é um diretor bem mais competente que a média mesmo em produções mais comerciais e menos autorais. Assim como fez em “Traffic” – que também levou as estatuetas de roteiro adaptado, montagem e ator coadjuvante (Benicio Del Toro) – ele demonstra um soberbo senso de ritmo e grande segurança na condução de seus atores, o que faz da missão de se assistir à “Contágio” um prazer mesmo que a história não seja das mais animadoras.
A trama começa em Hong Kong, mostrando os últimos momentos da executiva norte-americana Beth Emhoff (Gwyneth Paltrow) antes de sua volta para casa, depois de uma viagem profissional que lhe deu a oportunidade inclusive de reencontrar um antigo romance. Antes mesmo que ela chegue em Minneapolis, sua cidade natal, o filme já mostra o que vem pela frente: um grupo de pessoas, em países diferentes (Inglaterra, Japão, EUA, China), se torna vítima de uma doença desconhecida, com sintomas de gripe comum, que leva à morte em poucas horas. Não demora para que a própria Beth – assim como seu filho de seis anos de idade - entre para as estatísticas, para desespero de seu marido, Mitch (Matt Damon). Sem querer alarmar a população, organizações médicas começam a investigar a origem da doença, com profissionais de várias partes do mundo buscando encontrar formas de prevenção e respostas imediatas, como modos de contágio e tempo de encubação. Enquanto correm contra o relógio, o blogueiro Alan Krumwiede (Jude Law), de São Francisco alerta seus leitores para uma provável conspiração do governo para impedir que a população saiba do que realmente está por trás da trágica epidemia.


O tema principal de “Contágio” é a busca desesperada da comunidade médica pelas respostas cada vez mais fugidias a respeito do vírus – o que não impede o roteiro de tocar em temas como a irresponsabilidade da mídia, o declínio da civilidade diante de uma crise e a desigualdade social e econômica. Porém, peca por não desenvolver a contento nenhum desses pontos da trama, preferindo ater-se a um suspense que nem sempre funciona, ainda que disfarçado por uma fotografia inteligente (em tons amarelados na trama médica e em tonalidades frias quando retrata as consequências cada vez mais tenebrosas da doença). A edição do veterano Stephen Mirrione – premiado por “Traffic”, também um filme calcado em tramas paralelas – dá espaço igual a todos os personagens, mas mesmo assim por vezes é impossível à plateia realmente se conectar com eles devido à agilidade um tanto exagerada da narrativa. Assim, o drama de Mitch e sua filha adolescente – surpreendentemente imunes ao vírus, mas impedidos de travar qualquer tipo de contato normal com o restante da população – acaba por se tornar, em muitos momentos, muito mais interessante do que as investigações promovidas pelas médicas Leonora Orantes (Marion Cottilard) – que viaja à Ásia representando a OMS e acaba pega como refém por um grupo popular desesperado por uma vacina – e Erin Mears (Kate Winslet) – que segue os passos de Beth Emhoff em busca da origem de tudo. Cottilard e Winslet são atrizes espetaculares e quando entram em cena engolem tudo à sua volta, mas não são capazes de desenvolver a contento seus papéis, graças principalmente ao roteiro superficial.
O roteiro é culpado, também, de não dar a Jude Law e seu personagem um espaço maior: a trama do blogueiro que tenta alertar a população a respeito do descaso do governo em relação às vacinas experimentais e sobre a ganância das indústrias farmacêuticas é empolgante, mas intercalada com as demais ramificações da história, perde o pique e o ritmo, tornando-se apenas uma série de conversas e discussões éticas e morais – seja com o médico Ellis Cheever (Laurence Fishburne) ou com o cientista Ian Sussman (Elliot Gould), que ignora ordens superiores para abandonar as pesquisas e se torna, juntamente com a dra. Ally Hextall (Jennifer Ehle), um dos principais responsáveis pelos avanços rumo à cura. Enquanto Law surge como o olhar questionador do caos, Matt Damon representa o público comum, jogado no meio de um tornado sem ter respostas ou orientações. Fatalista como os bons filmes do gênero, “Contágio” ainda arruma espaço, em seus minutos finais, para culpar o ser humano por toda a situação – um recado que não apenas faz sentido em um período tão ecologicamente alerta quanto imprime ao filme um tom ainda mais dramático e assustador, apropriado ao tema e coerente com o discurso desenvolvido pelo roteiro – que, sem diálogos, encerra o filme deixando o espectador com uma sensação desconfortável. Um tiro certeiro que torna perdoáveis seus pequenos pecados narrativos.
No final das contas, “Contágio” cumpre o que promete: é um suspense médico eficiente na tensão e apresenta um elenco de cair o queixo, que inclui também os indicados ao Oscar John Hawkes e Bryan Cranston (de “Breaking bad”). É um filme de primeira linha, realizado por um cineasta de comprovada competência e com uma história aterrorizante que, apesar do tema pouco atraente, cativa a plateia até o seu desfecho. Soderbergh já fez melhor, mas não deixa de ser um programa acima da média.  

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