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quinta-feira

ALL THAT JAZZ: O SHOW DEVE CONTINUAR


ALL THAT JAZZ: O SHOW DEVE CONTINUAR (All that jazz, 1979, 20th Century Fox/Columbia Pictures, 123min) Direção: Bob Fosse. Roteiro: Bob Fosse, Robert Alan Aurthur. Fotografia: Giuseppe Rottuno. Montagem: Alan Heim. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Philip Rosenberg/Gary J. Brink, David Stewart. Produção executiva: Daniel Melnick. Produção: Robert Alan Aurthur. Elenco: Roy Scheider, Jessica Lange, Ann Reinking, Leland Palmer, Cliff Gorman, Ben Vereen. Estreia: 16/12/79

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Bob Fosse), Ator (Roy Scheider), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Adaptada, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Vencedor de 4 Oscar: Montagem, Trilha Sonora Adaptada, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Palma de Ouro de Melhor Diretor no Festival de Cannes

Joe Gideon é workaholic, fumante compulsivo, mulherengo inveterado, ávido consumidor de álcool e usuário habitual de substâncias químicas que o ajudam a manter um ritmo insano de vida. Joe Gideon é diretor de musicais, coreógrafo, dançarino e cineasta. Joe Gideon trabalha escalando o elenco de seu novo espetáculo na Broadway, trabalha na edição de um novo longa-metragem e trabalha formas de equilibrar as mulheres da sua vida - a ex-esposa, a atual namorada e a filha adolescente. Joe Gideon é um artista mas precisa lidar com a burocracia e a insensibilidade de seus investidores - mais apaixonados por dinheiro do que por integridade artística. E além de tudo, Joe Gideon é um ser humano - propenso, portanto, a ver seu organismo cobrar por tanta pressão. Então, durante o processo de ser Joe Gideon por 24 horas por dia, ele sofre um severo ataque cardíaco - e enquanto vê sua posição como diretor ser ameaçada por interesses financeiros, apela para sua fértil imaginação e cria, em seus momentos inconscientes, um novo show, onde realidade e fantasia se misturam com pessoas reais, alucinações,  médicos, procedimentos cirúrgicos e seus constantes excessos profissionais e amorosos: como todo artista obcecado com sua arte, ele faz de sua doença a inspiração para mais um grande evento. Joe Gideon é o protagonista do filme "All that jazz: o show deve continuar". E, como não há o menor espaço para dúvida, Joe Gideon É Bob Fosse, seu criador.

Um dos maiores nomes do teatro musical norte-americano, Fosse tornou-se também um cineasta respeitado quando, pela versão cinematográfica de "Cabaret" (1972), arrebatou o Oscar de melhor diretor, batendo Francis Ford Coppola (de "O poderoso chefão"). A partir daí, levou seu estilo moderno, feérico e elegante para as telas, da mesma forma como fazia nos palcos. Em 1974 causou polêmica com "Lenny", cinebiografia do comediante de stand-up Lenny Bruce - e voltou a concorrer à estatueta da Academia. E, como prova de criatividade (e autoironia), aproveitou-se de um problema de saúde real (um enfarte), para realizar mais uma obra-prima - que lhe valeu a Palma de Ouro de melhor diretor no Festival de Cannes. "All that jazz: o show deve continuar" é a versão musicada e anfetamínica de um período conturbado da existência de Fosse - mas, como visto na tela, é uma celebração da arte, da dança e da vida, repleta de um colorido e de uma energia que deixou muita gente atônita (e outros tantos espectadores extasiados). Indicado a nove Oscar (incluindo melhor filme e direção), "All that jazz" foi considerado corajoso por parte da crítica - mas tampouco deixou de incomodar àqueles que o julgaram macabro e de péssimo gosto. Seja como for, o filme fez um relativo sucesso de bilheteria (rendeu três vezes mais o seu custo), levou 4 Oscar (figurino, direção de arte, trilha sonora adaptada e edição) e ficou marcado como mais um triunfo do talento inesgotável de seu criador.

Segundo Shirley MacLaine, foi ela quem sugeriu a Fosse que transformasse seu ataque cardíaco em um musical sobre a morte. Se é verdade ou não, a questão é que o cineasta/coreógrafo acatou a ideia e chegou a oferecer um dos principais papéis femininos à amiga - com quem trabalhou em "Charity, meu amor" (1969), sua estreia como cineasta. No entanto, quem ficou com o papel de Audrey Paris - ex-mulher de Gideon e sua parceira artística constante, assim como o era Gwen Verdon com o próprio Fosse - foi Leland Palmer, em seu último trabalho no cinema. A escolha de Palmer no lugar de MacLaine, no entanto, foi a menos difícil e traumática do elenco. Complicado mesmo foi chegar a um consenso quanto ao intérprete do protagonista, um dos alter-egos mais brilhantes da história do cinema. Fosse chegou a pensar em si mesmo para o papel - mais foi demovido da ideia pelo produtor Daniel Melnick, que não acreditava que ele sobrevivesse às filmagens se acumulasse as funções de diretor e ator. A partir daí, nomes os mais variados surgiam e eram descartados - por um motivo ou outro. Warren Beatty se interessou pelo projeto - e era aprovadíssimo pela Columbia Pictures, confiante em seu potencial de grande astro -, mas foi deixado de lado depois de exigir que o final fosse alterado. Richard Dreyfuss chegou a ser escalado, mas abandonou o barco na fase de ensaios por não acreditar no projeto - uma decisão da qual se confessa arrependido. Paul Newman nem chegou a ler o roteiro por não sentir-se confortável em interpretar um dançarino. Jack Lemmon foi considerado, mas Fosse chegou à conclusão de que era velho demais para o papel. Gente como Jack Nicholson, Gene Hackman, Elliot Gould, George Segal e Alan Alda foram cogitados - e Jon Voight chegou até a fazer um teste, mas é difícil, hoje em dia, à luz do resultado final, imaginar outro ator que não Roy Scheider na pele do sedutor Joe Gideon.

Scheider foi escolhido por Fosse em pessoa - que bancou sua decisão corajosamente. Apesar de participações em filmes de sucesso, como "Operação França" (1971) e "Tubarão" (1975), Scheider não era exatamente a opção mais óbvia para viver um coreógrafo don juan - especialmente em um musical que lhe exigiria sequências de canto e dança. Scheider, no entanto, honrou a ousadia do cineasta com uma performance arrebatadora que lhe garantiu lugar entre os indicados ao Oscar de melhor ator do ano (que perdeu para Dustin Hoffman, por "Kramer vs Kramer"): arrogante e autoconfiante, o Joe Gideon construído por Scheider escapa da antipatia justamente pelo carisma do ator, que escapa magistralmente das constantes armadilhas do roteiro, co-escrito por Fosse e pelo produtor Robert Alan Aurthur - que morreu em novembro de 1978, durante a produção do filme, e foi indicado postumamente ao Oscar. Liderando um elenco impecável e sem grandes astros (reparem em John Lithgow no começo de carreira, em papel pequeno), Scheider sublinha todos os acertos do filme e apaga os problemas pré-lançamento: o estouro do orçamento (que pulou de 6,5 milhões para 10 milhões e só foi aprovado depois de uma sessão especial aos presidente da Fox), o extenso cronograma de pós-produção (oito meses contra os 101 dias de filmagens) e as dúvidas a respeito de como o resultado final seria recebido pela crítica e pelo público.

Essa última preocupação provou-se exagerada. Mesmo com algumas (poucas) reclamações por parte da imprensa, "All that jazz" já estreou vencedor. Sucesso comercial e premiado profusamente, o filme de Fosse chegou a receber um elogio inesperado e definitivo de ninguém menos que Stanley Kubrick, que classificou-o como "o melhor filme que já vi." Nada mal para uma ousada criação que mistura dança, morte, sexo, obsessões e generosas doses de autobiografia. Uma obra-prima que confirma o gênio de Bob Fosse!

segunda-feira

CÉU AZUL

CÉU AZUL (Blue sky, 1994, Orion Pictures, 101min) Direção: Tony Richardson. Roteiro: Rama Laurie Stagner, Arlene Sarner, Jerry Leitchling, estória de Rama Laurie Stagner. Fotografia: Steve Yaconelli. Montagem: Robert K. Lambert. Música: Jack Nitzsche. Figurino: Jane Robinson. Direção de arte/cenários: Timian Alsaker/Gary John Constable. Produção: Robert H. Solo. Elenco: Jessica Lange, Tommy Lee Jones, Powers Boothe, Carrie Snodgress, Amy Locane, Chris O'Donnell, Anna Klemp. Estreia: 24/8/94

Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Jessica Lange)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Jessica Lange) 

Na longa lista de males que vem para o bem na história de Hollywood, "Céu azul" merece um lugar de destaque. Filmado no verão norte-americano de 1990 e pronto para ser lançado em 1991, o último filme do diretor Tony Richardson acabou ficando na prateleira por mais três anos devido à falência de seu estúdio (Orion Pictures) e só chegou aos cinemas em 1994. A má notícia é que, a essa altura, o cineasta já havia morrido e não chegou a ver seu filme estrear. A boa notícia é que, lançado em um ano particularmente fraco de grandes desempenhos femininos, o filme empurrou sua estrela Jessica Lange em direção a um Golden Globe e a seu segundo Oscar (o primeiro na categoria principal). Sua premiação foi absolutamente justa: é Lange, com sua sensualidade e sua precisão em interpretar mulheres à beira do precipício, é o corpo e a alma de uma produção fraca e, não fosse por sua presença magnética, facilmente esquecível. Indeciso entre um drama familiar e conflitos políticos, o roteiro acaba por não explorar a contento nenhum dos dois enfoques e, em vez de ser dois filmes em um, o resultado final é apenas o resultado de duas metades que nem sempre se comunicam com coerência.

Uma heroína com a sensualidade trágica de uma Ava Gardner e a densidade psicológica de um personagem de Tennessee Williams, a protagonista de "Céu azul" é Carly Marshall, a esposa bipolar de um engenheiro nuclear que trabalha para o governo dos EUA. No início da década de 60, antes da morte de Kennedy e do trauma da guerra do Vietnã, o afável Hank (Tommy Lee Jones) é parte fundamental dos estudos do país em relação a testes atômicos - mas é sua mulher a mais perigosa das armas com as quais ele tem de lutar: transferido do Havaí para o Alabama (em boa parte por causa do comportamento errôneo de Carly), ele não precisa apenas lidar com suas crises nervosas, mas também com o efeito que ela causa aos homens a seu redor. No novo lar, por exemplo, ela tira do sério o oficial Vince Johnson (Powers Boothe), superior de Hank, homem casado e pai de um adolescente, Glenn (Chris O'Donnell), que se envolve justamente com a filha mais velha do casal, Alex (Amy Locane). O relacionamento escandaloso entre Carly e Vince - que fica evidente a todos que os rodeiam - acaba tendo consequências também na vida profissional de Hank, que testemunha um acidente e se vê no centro de um jogo de interesses políticos em que a conduta de sua mulher é peça fundamental.


Único roteiro escrito por Rama Laurie Stagner até hoje, "Céu azul" é livremente baseado em sua mãe, que também viveu um conturbado relacionamento com o marido militar na década de 60. É perceptível seu carinho no desenho da protagonista, uma personagem complexa e rica em nuances, todas muito bem exploradas por uma Jessica Lange particularmente inspirada. Carly não é alguém com quem se possa simpatizar completamente - seu comportamento chega às raias da irresponsabilidade -, mas Lange injeta humanidade e alma a cada cena, enfatizando suas carências e inseguranças e a aproximando do público. O problema do filme é sua tentativa de contar duas histórias paralelas sem que haja maior aprofundamento em nenhuma delas - o que a edição apressada apenas deixa ainda mais claro. A trama que envolve Hank e seu embate com militares superiores a respeito da radiação nuclear que deixa vítimas inesperadas é interessante, mas praticamente some diante da imponência da atuação da atriz principal, que engole a tudo e a todos. E tampouco ajuda o fato de Tommy Lee Jones não ser exatamente um ator carismático e o desfecho ser tão anticlimático.

Em poucas palavras, "Céu azul" é um filme que existe e se mantém graças ao desempenho notável de uma atriz no auge do talento e a uma personagem que lhe permite explorar uma variedade imensa de possibilidades. Não é o filme marcante que poderia ser com um roteiro um pouco menos superficial ou uma direção mais segura - o que é de surpreender levando-se em conta a longa e premiada carreira de Tony Richardson. Não fosse a performance oscarizada de Jessica Lange - e até a sorte de ter sido lançado em um período favorável à sua premiação, poderia se tornar facilmente esquecível e relegado à história como uma produção quase medíocre. Salva-se como uma sessão descompromissada e uma aula de interpretação feminina, mas é apenas isso.

domingo

TERRAS PERDIDAS

TERRAS PERDIDAS (A thousand acres, 1997, Touchstone Pictures, 104min) Direção: Jocelyn Moorhouse. Roteiro: Laura Jones, romance de Jane Smiley. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Maryann Brandon. Música: Richard Hartley. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Dan Davis/Andrea Fenton. Produção executiva: Armyan Bernstein, Thomas A. Bliss. Produção: Marc Abraham, Lynn Arost, Steve Golin, Kate Guinzburg, Sigurjon Sighvatsson. Elenco: Jessica Lange, Michelle Pfeiffer, Jennifer Jason Leigh, Jason Robards, Colin Firth, Keith Carradine, Kevin Anderson, Pat Hingle, John Carroll Lynch, Michelle Williams, Elizabeth Moss, Beth Grant, Bob Gunton. Estreia: 19/9/97

Um rei idoso e poderoso, sentido a morte se aproximar, resolve dividir seu reino entre as três filhas, deflagrando assim um confronto épico de decepções e traições. Escrita por William Shakespeare por volta de 1605, a peça "Rei Lear" serviu de inspiração, desde então, para inúmeros autores dispostos a examinar as raízes da ambição e dos conflitos familiares advindos dela. Um dos livros inspirados na tragédia shakespeareana foi "A thousand acres", escrito por Jane Smiley e vencedor do prestigiado Pulitzer de literatura. Com os direitos vendidos para Hollywood, era apenas questão de tempo para que sua trama chegasse às telas e conquistasse o público - afinal, não tinha como dar errado. Mas deu. Com uma produção problemática que se estendeu por cinco anos, constantes reedições, a rejeição do produto final por sua diretora e um fracasso de crítica e bilheteria, "Terras perdidas" tornou-se mais um na vasta lista de filmes que poderiam ter sido um grande sucesso mas que não passaram de promessa. Uma pena, já que seus ingredientes são excepcionais.

A diretora de "Terras perdidas" é a australiana Jocelyn Moorhouse, cujo filme anterior, "Colcha de retalhos" (95), também tinha uma apurada visão feminina da vida. Suas estrelas, Michelle Pfeiffer e Jessica Lange, são ótimas atrizes, populares e velhas conhecidas da Academia. O elenco coadjuvante conta com Jason Robards, Jennifer Jason Leigh e um então iniciante Colin Firth - sem contar as adolescentes Michelle Williams e Elizabeth Moss, que mal aparecem em cena, como as filhas de Pfeiffer. A trama - como já dito, inspirada em Shakespeare - inclui na receita traumas do passado, doenças incuráveis e um leve viés feminista, mas o roteiro, escrito por Laura Jones, mal consegue alinhavar todos os conflitos propostos pela história original: não fosse a força das atuações de Lange e Pfeiffer - tirando leite de pedra -, o filme de Moorhouse seria um desastre completo (e isso que a própria cineasta pediu para seu nome ser retirado dos créditos depois de assistir à sua primeira versão).


Transferindo a ação de Lear para o interior do Iowa, com suas belas fazendas e cenários de tirar o fôlego, "Terras perdidas" começa justamente quando o fazendeiro Larry Cook (Jason Robards em papel recusado por Paul Newman), viúvo há muitos anos, resolve, como o protagonista shakespereano, dividir as terras de sua fazenda entre suas três filhas. A mais velha, Ginny (Jessica Lange), é quem cuida da rotina do pai, e divide seu tempo entre ele e o marido, Ty (Keith Carradine). A filha do meio, Rose (Michelle Pfeiffer), se recupera de um câncer no seio e leva uma vida doméstica aparentemente tranquila com Peter (Kevin Anderson) e as duas filhas adolescentes. A caçula, Caroline (Jennifer Jason Leigh) é a única que não compartilha do dia-a-dia agrícola da família: estudando para ser advogada e morando longe, é ela quem questiona a decisão do pai - e é ela também que desencadeia o processo de conflito familiar, ao recusar a proposta paterna. A briga entre os dois passa a ser o pano de fundo para uma sucessão de dramas que afloram no seio dos Cook, o que inclui a chegada de um antigo conhecido, Jess Taylor (Colin Firth), que desequilibra a união entre Ginny e Rose.

Michelle Pfeiffer - que lutou para levar o livro de Smiley às telas - está fascinante como Rose, uma mulher amargurada por traumas do passado e que tenta, através da compensação financeira, recompor uma vida de sofrimento. Jessica Lange tem mais trabalho como Ginny, que se transforma de uma mulher frustrada pela falta de filhos no para-raios de uma família altamente disfuncional - e que encontra forças para viver a própria vida justamente quando já se encontrava acomodada em um casamento morno. São as duas que movimentam a trama do filme - a ótima Jennifer Jason Leigh é subaproveitada como Caroline, e Jason Robards, apesar de sempre excelente como déspota, sofre com um personagem maniqueísta, sem nuances ou qualidades redentoras. O resultado é uma obra morna, que desperdiça uma história forte e bons atores em uma trama de telenovela, rasa e desprovida de maior emoção. Para os fãs das atrizes é um show à parte, mas como cinema é, infelizmente, bem medíocre.

terça-feira

O DESTINO BATE À SUA PORTA

O DESTINO BATE À SUA PORTA (The postman always rings twice, 1981, MGM, 122min) Direção: Bob Rafelson. Roteiro: David Mamet, romance de James M. Cain. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Graeme Clifford. Música: Michael Small. Figurino: Dorothy Jeakins. Direção de arte/cenários: George Jenkins/Robert Gould. Produção executiva: Andrew Braunsberg. Produção: Charles Mulvehill, Bob Rafelson. Elenco: Jack Nicholson, Jessica Lange, John Colicos, Michael Lerner, Christopher Lloyd, Anjelica Huston. Estreia: 20/3/81

Publicado em 1934 pelo norte-americano James M. Cain, o romance "The postman always rings twice" sempre foi bastante atraente para o cinema. Já em 1939, o francês "Paixão criminosa", de Pierre Chenal traduzia para a tela a história de luxúria, ambição e paranoia criada por Cain. Quatro anos mais tarde, foi a vez da Itália apresentar a sua versão da trama, em "Obsessão", dirigido por Luchino Visconti - uma produção que só chegou aos cinemas dos EUA em 1976 (segundo consta, por imposição dos editores do autor). Mas foi somente em 1946 que Hollywood rendeu-se à tentação de adaptar a obra, com direção de Tay Garnett e Lana Turner no papel central feminino - uma demora explicada pela dificuldade de transformar uma obra com alto teor sexual em algo palatável ao gosto dos famigerados responsáveis pelo Código Hayes, que mandava nas produções da época e implicava até mesmo com beijos que durassem mais do que alguns segundos. Foi preciso mais trinta e cinco anos, porém, para que um cineasta americano chegasse perto da amoralidade e da sensualidade retratadas pelo escritor. Mais afeito a rebeldias temáticas do que ao cinemão promovido por Hollywood - vide títulos como "Os Monkees estão à solta" e "Cada um vive como quer", retratos nítidos da contracultura dos anos 60 - o cineasta Bob Rafelson é quem teve a coragem de tirar o pó de um livro com quase meio século de idade, distanciar-se do tom noir imposto pelo filme de 1946 e enfatizar o lado mundano de seus personagens. Com um roteiro seco e incisivo do dramaturgo David Mamet (estreando no cinema), "O destino bate à sua porta" versão 1981 pegou de surpresa o puritano público norte-americano e provou, entre uma cena mais quente e outra, que a bela Jessica Lange , ainda desacreditada pela crítica, era uma atriz de grande potencial dramático - o que ficou provado no ano seguinte, quando ela arrebatou indicações ao Oscar de atriz e atriz coadjuvante por dois filmes totalmente opostos (e ganhou a estatueta da segunda categoria pela comédia "Tootsie").

Enfatizando a sexualidade quase animal dos protagonistas e tornando-os mais humanos (e portanto mais suscetíveis a falhas de caráter e incoerências), o roteiro de Mamet transformou o romance de Cain em um pesadelo claustrofóbico e sufocante, tanto pelo visual árido oferecido pela fotografia do sueco Sven Nykvist - colaborador habitual de Ingmar Bergman - quanto pela atmosfera de tensão criada por Rafelson. Substituindo o visual elaborado de luz e sombra dos filmes americanos da década de 40 por um tom naturalista que sublinha a sordidez das situações da história, Nykvist aproxima seus personagens da plateia, impelindo-a a mergulhar em seu emaranhado de circunstâncias cruéis e trágicas sem a proteção de qualquer tipo de glamour. Quando Jack Nicholson e Jessica Lange cedem ao desejo e fazem da mesa da cozinha como palco de seu amor - em meio à farinha e outros ingredientes - o público sabe que está testemunhando o início de um romance que não tem como dar certo, mas compreende completamente suas ações. No auge da beleza, Lange é impossível de se resistir - e Nicholson, em sua quarta parceria com Bob Rafelson, surge em sua vida como alternativa a um mundo sem perspectivas. É um caminho de paixão desmedida e avassaladora conduzido com um senso absoluto de urgência e melancolia - e, paradoxalmente, de uma elegância ímpar mesmo em seu desolador cenário.


A história se passa durante a Grande Depressão americana ocorrida logo após a queda da bolsa de Nova York em 1929. À beira de uma estrada da Califórnia, o grego Nick Papadakis (John Colicos em papel que foi oferecido ao cineasta Elia Kazan) vive com a esposa bem mais jovem, Cora (Jessica Lange) e dirige um restaurante e um posto de gasolina. É lá que vai parar Frank Chambers (Jack Nicholson), um andarilho sem passado - e logicamente sem futuro - que não demora em conquistar a confiança do proprietário do local e convencê-lo a lhe dar um emprego. Surge então, entre ele e Cora, uma tensão sexual que é rapidamente transformada em um caso tórrido e irresponsável. Apaixonados, os dois resolvem fugir juntos, mas quando percebem que lhes será impossível manter o relacionamento sem uma boa base financeira, decidem matar Nick e fazer parecer um acidente. Como não são exatamente gênios do crime, porém, as coisas começam a sair muito erradas - o que coloca a polícia em seu encalço e o remorso em sua rotina como amantes. Em pouco tempo, sua história de amor vira uma história de angústia e desespero.

Acostumado a filmar histórias com anti-heróis e personagens que não se encaixam em uma sociedade convencional, Bob Rafelson faz dos protagonistas de "O destino bate à sua porta" pessoas de carne e osso, uma visão mais perto da obra de Visconti do que da adaptação estrelada por Lana Turner - de certa forma presa à estética noir. Ao dotá-los de características mais humanas, o cineasta (e o roteirista David Mamet) acaba por oferecer a seus atores centrais um material rico e complexo. Em seu ponto de vista, Frank Chambers e Cora Papadakis não são simplesmente dois amantes sórdidos e ambiciosos - como sugere o romance original e suas adaptações anteriores: são pessoas lutando desesperadamente por uma vida menos triste e sem sentido. É lógico que o fazem da maneira errada, mas sua incapacidade até mesmo de lidar com suas escolhas os aproxima do público com grande sucesso, mesmo que seja para serem rejeitados por ele. Nesse ponto é Jessica Lange quem se sai melhor, dotando sua Cora de subtextos e nuances que expandem a compreensão de sua personagem até o limite da compaixão. Jack Nicholson se mantém como o sedutor mau-caráter que sempre lhe cai bem, mas é Lange quem brilha, justificando a escolha de Rafelson e pavimentando um caminho que lhe traria ainda muitas glórias. Tenso e cortante, "O destino bate à sua porta" é uma das adaptações mais certeiras da obra de Cain, ainda que, por incrível que pareça, tente se distanciar das versões cinematográficas anteriores.

quinta-feira

GREY GARDENS

GREY GARDENS (Grey Gardens, 2009, HBO Films, 104min) Direção: Michael Sucsy. Roteiro: Michael Sucsky, Patricia Rozema, estória de Michael Sucsy. Fotografia: Mike Eley. Montagem: Alan Heim, Lee Percy. Música: Rachel Portman. Figurino: Catherine Marie Thomas. Direção de arte/cenários: Kalina Ivanov/Norma Jean Sanders. Produção executiva: Lucy Barzun Donnelly, Rachel Horovitz, Michael Sucsy. Produção: David Coatsworth. Elenco: Jessica Lange, Drew Barrymore, Daniel Baldwin, Jeanne Tripplehorne, Ken Howard, Kenneth Welsh, Arye Gross, Justin Louis. Estreia: 18/4/09

Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Minissérie ou Filme para Televisão, Atriz em Minissérie ou Filme para Televisão (Drew Barrymore)

Milionárias falidas, parentes próximas de Jacqueline Kennedy Onassis, beldades decadentes, mulheres presas a um passado glamoroso e personagens de nada menos que duas produções retratando sua vida, as protagonistas de "Grey Gardens", realizado pela HBO em 2009, parecem obra da mais tresloucada ficção. Mas não são. Objetos de um documentário lançado em 1979 e posteriormente personagens de um telefilme dirigido por Michael Sucsy que retratava sua produção, Edith Bouvier Beale e sua filha, Edie, são figuras únicas, que encontraram nas telas a forma indelével de passar à história após sua derrocada financeira e sua decadência psicológica. Interpretadas com genialidade por Jessica Lange e Drew Barrymore - de longe no melhor desempenho de sua carreira, premiado merecidamente com o Golden Globe e o Emmy - as duas fascinantes personagens encontram respaldo na direção sensível de Michael Sucsy (que mais tarde faria o romântico "Para sempre", com Channing Tatum e Rachel McAdams) e emocionam o público com uma história de cortar o coração que jamais apela para o sentimentalismo.

O roteiro, coescrito pelo diretor e Patricia Rozema, aproveita-se do documentário por David e Albert Maysles como ponto de partida para contar sua história. Primeiramente pensando em focar seu filme na trajetória de Jackie, os dois irmãos acabam fascinados por um outro lado da família da ex-primeira dama quando conhecem sua tia, Edith (Jessica Lange), e sua prima, Edie (Drew Barrymore), que vivem isoladas em uma mansão caindo aos pedaços e dominada pela sujeira feita pelos gatos e por sua absoluta falta de capacidade de manter a salubridade do local. Excêntrica e extrovertida, Edie é quem se torna a estrela do documentário, enquanto à sua mãe resta apenas pontuar a narrativa com suas lembranças de tempos mais fartos. O filme de Sucsy conta a trajetória de mãe e filha através de flashbacks, que começam em 1936 e se estendem até os anos 70, mostrando como a promissora Edie, que sonhava com uma carreira de atriz, e sua mãe - que levava uma vida de luxo e conforto, cercada por gente da alta sociedade e demonstrava talento como cantora - acabaram por tornar-se duas mulheres praticamente enterradas vivas em sua propriedade, outrora motivo de orgulho da família.


Apesar da excentricidade das protagonistas parecer quase exagerada, "Grey Gardens" jamais cai na armadilha de fazer delas motivos de caricatura ou humor proposital. Tratando com respeito e quase carinho de suas personagens, Michael Sucsy apresenta ao público uma história a respeito de sonhos despedaçados, ambições destruídas e uma relação no limite da codependência. Sufocada pela super-proteção familiar - disfarçada de amor e carinho - a jovem Edie se vê impedida de realizar todo o potencial que acredita ter e acaba se deixando envolver pela solidão da mãe, que, infeliz, consegue até mesmo interferir em seu romance (malfadado, é verdade, mas ainda assim um romance) com um homem casado por quem ela se apaixona e que acredita poder lhe fazer feliz. Drew Barrymore brilha tanto na pele da jovem e esperançosa Edie quanto em sua versão mais velha, a um passo do colapso mental e tão crente em seus talentos artísticos que vê no documentário a chance de ser descoberta pelo mundo. Seus embates com Jessica Lange - fantástica em um papel de mãe dominadora que aos poucos vai murchando, conforme percebe os rumos que sua vida vai tomando - são excepcionais, sofrendo alterações com o passar do tempo até chegar a um misto de ressentimento velado e afeto genuíno (ou dependência psicológica). Com a preciosa ajuda da maquiagem - que as envelhece com perfeição - as duas atrizes estão em um momento especial de suas trajetórias, com uma invejável química e trejeitos que lembram em detalhes as verdadeiras protagonistas (quem duvida pode procurar o documentário e conferir: a semelhança é impressionante!).

Comprovando a excelência da HBO na produção de telefilmes que fogem das limitações do gênero, "Grey Gardens" funciona em todos os níveis imagináveis: é dirigido com sutileza, escrito com respeito às personagens e interpretado com extrema inspiração. É impossível não se deixar conquistar pelas duas protagonistas e seus dramas pessoais e familiares - com direito até a uma intervenção de Jackie Kennedy em pessoa, na pele da atriz Jeanne Tripplehorne. Imprimindo um tom leve a uma história que poderia facilmente descambar para o soturno ou o trágico, Michael Sucsy acerta em cheio, evitando tanto o dramalhão rasgado quanto a comédia de humor negro que poderiam diluir a força do roteiro e das personagens, tão incríveis que chega a ser difícil de acreditar que não saíram da mente de um escritor mais criativo. No fim das contas, "Grey Gardens" é um belo filme, com grandes atuações e uma história fabulosa. Imperdível!

quarta-feira

PARA SEMPRE

PARA SEMPRE (The vow, 2012, Screen Gems/Spyglass Entertainment, 104min) Direção: Michael Sucsy. Roteiro: Jason Katims, Abby Kohn, Marc Silverstein, estória de Stuart Sender. Fotografia: Rogier Stoffers. Montagem: Melissa Kent, Nancy Richardson. Música: Michael Brook, Rachel Portman. Figurino: Alex Kavanaugh. Direção de arte/cenários: Kallina Ivanov/Jaro Dick. Produção executiva: Susan Cooper, J. Miles Dale, Austin Hearst. Produção: Gary Barber, Roger Birnbaum, Jonathan Glickman, Paul Taublieb. Elenco: Rachel McAdams, Channing Tatum, Jessica Lange, Sam Neil, Scott Speedman, Wendy Creyston. Estreia: 09/02/12

Dois fatores específicos justificam a bilheteria doméstica acima dos 120 milhões de dólares do apenas razoável "Para sempre", estreia do diretor Michael Sucsy no cinema depois do sucesso de "Grey Gardens" - estrelado por Jessica Lange e Drew Barrymore - na televisão americana: o romantismo incurável de uma considerável parcela do público (que salvo raras exceções lota as salas quando o assunto são histórias de amor) e o carisma de sua dupla central, formada por atores em franca ascensão dentro da indústria: Channing Tatum (em vias de arrastar multidões aos cinemas com "Anjos da lei" e "Magic Mike") e Rachel McAdams (bela, encantadora e boa atriz a ponto de estrelar um dos melhores Woody Allens desde sempre, "Meia-noite em Paris"). Só mesmo essas duas razões podem explicar o êxito de uma produção que, a despeito de ser visualmente atraente, não acrescenta nada de novo ao gênero. Baseado em uma história real, o roteiro não escapa das armadilhas, e é preciso aplaudir a força do casal de protagonistas em tentar dar veracidade e emoção à coleção de clichês que desfilam pela tela.

"Para sempre" conta um história que lembra a comédia "Como se fosse a primeira vez", lançada no final dos anos 90. Porém, enquanto no divertido filme estrelado por Adam Sandler e Drew Barrymore  o tom cômico levava a trama sem maiores sobressaltos, nessa versão melodramática a missão é bem mais difícil: um acidente de carro leva a jovem Paige (Rachel McAdams) a uma amnésia parcial que a faz esquecer completamente os últimos quatro anos de sua vida, justamente o período em que se relacionou com o apaixonado Leo (Channing Tatum). A condição médica da moça acaba servindo perfeitamente aos planos de seus pais (Sam Neill e Jessica Lange, fazendo o possível com o pouco que lhes é oferecido pelo roteiro), que tinham-na visto afastar-se do seio familiar anos antes, depois de abandonar a faculdade de Direito para ingressar em uma Escola de Arte (e de ter rompido com eles devido a um fato mantido em segredo por todos). Sem lembrar-se de seu casamento com Leo - e nem mesmo de tê-lo conhecido - Paige recomeça sua vida se reaproximando do ex-noivo, Jeremy (Scott Speedman), mas o rapaz não tem o menor plano de deixar o amor de sua vida escapar e faz de tudo para reconquistá-la, apesar de tudo lhe dizer que a batalha já está perdida.


A sucessão de clichês que inunda "Para sempre" chega a ser desanimadora. Tudo bem que dramas românticos não são exatamente cenários apropriados para experimentos estilísticos ou artísticos, mas nada justifica a preguiça da direção ou do roteiro, apoiado basicamente em cenas pretensamente emocionantes que só funcionam para aqueles que adoram esbaldar-se em histórias de amor. No entanto, mesmo que não exista aqui a química notável que havia entre a mesma Rachel McAdams e Ryan Gosling em "Diário de uma paixão" - o melhor exemplo de um romance clichê que conseguiu sobressair-se à sua origem literária menor (livro de Nicholas Sparks) graças ao elenco bem escalado e à sensibilidade de um cineasta talentoso - é visível o esforço e a garra do casal de protagonistas, infelizmente subaproveitados ao extremo. McAdams, por exemplo, fica o filme todo sendo usada como um joguete, de lá pra cá - e nem é bom comentar "o grande segredo" que a levou a romper com os pais, de uma frivolidade inacreditável.

Feito exclusivamente para quem não consegue sobreviver sem um dramalhão romântico, "Para sempre" é capaz de suprir as expectativas de seu público-alvo. É bonito, é direto e simples. Mas está muito longe de ser inesquecível, principalmente por não apresentar nada de novo à audiência - que, por sua vez, provavelmente não irá se importar com tanta fragilidade artística.

sexta-feira

MUITO MAIS QUE UM CRIME

MUITO MAIS QUE UM CRIME (Music box, 1989, Carolco Pictures, 124min) Direção: Costa-Gavras. Roteiro: Joe Eszterhas. Fotografia: Patrick Blosssier. Montagem: Joelle Van Effenterre. Música: Philippe Sarde. Figurino: Rita Salazar. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Erica Rogala. Produção executiva: Joe Eszterhas, Hal W. Polaire. Produção: Irwin Winkler. Elenco: Jessica Lange, Armin Mueller-Stahl, Frederic Forrest, Michael Hooker, Donald Moffat, Lukas Haas. Estreia: 22/12/89 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Jessica Lange)

Quando o nome do cineasta grego Costa-Gravas aparece nos créditos de um filme, o espectador já sabe o que esperar: autor de obras provocadoras e corajosas com "Z" (69) e "Desaparecido, um grande mistério" (82), o diretor apostava sempre em temas politicamente ousados, que desafiassem as ideologias tanto do espectador quanto da crítica. Depois do relativo fracasso de seu "Atraiçoados" (88) - em que colocava uma agente infiltrada do FBI vivida por Debra Winger se apaixonando pelo possível líder dum grupo racista do sul americano, interpretado por Tom Berenger - ele surgiu com "Muito mais que um crime", que tocava fundo em uma ferida ainda muito viva (especialmente na Europa ocidental): o colaboracionismo nazista. Para deixar a mistura ainda mais picante, ele tirou o tema das discussões teóricas e plantou a semente da dúvida no seio de uma aparentemente pacata família que, em tese, ajudou a construir as bases da América do pós-II Guerra Mundial. O resultado? Urso de Ouro de melhor filme no Festival de Berlim - sempre atento a produções com temáticas socialmente relevantes - e uma justíssima indicação ao Oscar de melhor atriz para sua protagonista Jessica Lange.

Lange - que entrou no film depois que Jane Fonda foi considerada com a idade inapropriada pelo próprio cineasta - interpreta com um impressionante equilíbrio entre delicadeza e força o papel de Ann Talbot, uma bem-sucedida advogada de Chicago que tem sua vida abalada quando seu pai, o imigrante húngaro Mike Laszlo (Armin Mueller-Stahl) é acusado formalmente de crimes de guerra cometidos durante o nazismo. Documentos até então perdidos o apontam como um dos responsáveis por cruéis assassinatos cometidos quarenta anos antes, apesar de suas negativas veementes: como americano naturalizado, pai, avô e funcionário exemplar de uma fábrica por décadas, ele insiste em sua inocência, alegando que tudo não passa de um complô comunista contra ele, radicalmente contrário ao regime. Tocada pelo desespero do pai e influenciada pelo irmão, Karchy (Michael Rooker) e pelo filho, Mikey (Lukas Haas), ela finalmente resolve defendê-lo no tribunal, mesmo não sendo especializada no assunto. Durante o julgamento, desfilam testemunhas que confirmam as acusações contra Laszlo, mas Anne se mantém confiante na inocência do pai, a quem vê como incapaz de tamanhas atrocidades.


Costa-Gavras conta sua história repleta de barbáries de forma elegante, discreta, sóbria. Resiste à tentação de emocionar pelo viés mais fácil, evitando o batido recurso de flashbacks durante os depoimentos dos sobreviventes da tragédia e tratando a relação entre pai e filha com seriedade mas nunca com exageros sentimentais - o que de certa forma até atrapalha um pouco em seu climax. Jessica Lange, sempre fantástica, entrega uma performance carregada de emoção, construindo uma Ann equilibrada mas a um passo de desmoronar diante das atrocidades que aparecem em sua frente e que podem estar muito mais ligadas a seu pai do que ela gostaria. Diante dela, o ator Armin Mueller-Stahl tem então a maior chance de sua carreira - que engrenaria com filmes posteriores, como o belo "Avalon" (90), de Barry Levinson - com um personagem cuja ambiguidade vai se avolumando até o final bolado pelo roteirista Joe Esztershas ("Instinto selvagem" (92)), que põe em xeque muitas das certezas (do público e dos próprios personagens). Graças à união entre roteiro, direção e elenco, fica impossível abandonar a trama, construída como um drama familiar de tribunal mas que prende a atenção como o melhor dos thrillers políticos dos anos 70.

"Muito mais que um crime" é um Costa-Gavras da melhor safra. Inteligente, bem orquestrado, relevante socialmente e, melhor ainda, sem perder em momento algum o essencial a um bom filme: o ritmo de entretenimento. É uma obra capaz de agradar a qualquer cinéfilo disposto a assistir a uma boa história, independente de suas opiniões políticas. Um belíssimo programa!

terça-feira

FRANCES

FRANCES (Frances, 1982, BrooksFilms, 140min) Direção: Graeme Clifford. Roteiro: Eric Bergren, Christopher De Vore, Nicholas Kazan. Fotografia: László Kovács. Música: John Barry. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Richard Sylbert/George Gaines. Produção: Jonathan Sanger. Elenco: Jessica Lange, Sam Shepard, Kim Stanley, Bart Burns, Jeffrey DeMunn, Lane Smith. Estreia: 03/12/82

2 indicações ao Oscar: Atriz (Jessica Lange), Atriz Coadjuvante (Kim Stanley)

O ano de 1982 foi particularmente satisfatório para Jessica Lange. Poucos anos depois de ter sido ridicularizada por sua estreia como a protagonista feminina de "King Kong", ela mostrou à crítica e aos detratores que, por trás de seu belo rosto e do vulcão de sensualidade que havia demonstrado em "O destino bate à sua porta" (81), havia uma atriz de intenso talento, pronta para surpreender e encantar. Em "Tootsie", de Sydney Pollack, ela deixou perceber seu lado solar, como a atriz de telenovelas que desperta a paixão de um travestido Dustin Hoffman e levou pra casa o Golden Globe e o Oscar de atriz coadjuvante. Mas foi seu desempenho como outra atriz, real e com uma vida repleta de lances dramáticos, que ela derrubou de vez toda e qualquer desconfiança: na pele de Frances Farmer - papel que era cobiçado por Diane Keaton e Goldie Hawn, ambas oscarizadas e já respeitadas - ela injetou em doses exatas emoção, desespero e revolta. E só não ganhou a estatueta na categoria principal porque tinha Meryl Streep e seu "A escolha de Sofia" pelo caminho.

Frances Farmer existiu de verdade e chegou a fazer alguns filmes em Hollywood nos anos 40 - antes que sua personalidade forte, suas simpatias comunistas e seu desinteresse pela fama estéril de um estrela de cinema em detrimento da nobreza do teatro lhe dessem o rótulo de persona non grata na capital das vaidades. Rechaçada em sua cidadezinha do interior aos 16 anos por ter escrito uma dissertação onde negava a existência de Deus, ela logo piorou sua situação indo passar um tempo em Moscou - quando já era uma jovem atriz especializada em teatro russo. Seu retorno triunfal ocorreu justamente quando chegou às telas de cinema, quando passou a ser respeitada e adulada sem por isso sentir-se obrigada a compactuar com ideais que renegavam os seus. Dedicando-se ao teatro, sua verdadeira paixão, ela jamais deixa de manter contato com o jornalista Harry York (Sam Shepard, que se envolveu com Lange durante as filmagens e teve com ela dois filhos), que é quem a ajuda a superar os piores anos de sua vida: abandonada e traída profissionalmente pelo amante dramaturgo, Clifford Oddets (Jeffrey DeMunn), ela volta à Hollywood e, desequilibrada, cai nas mãos de sua mãe, Lilian (Kim Stanley, indicada ao Oscar de coadjuvante), que vê solução apenas internando-a em um hospício.


Mesmo que o roteiro tenha ficcionado algumas passagens da vida de Frances - o personagem de Sam Shepard, por exemplo, nunca existiu, e a lobotomia sofrida pela protagonista jamais aconteceu - o filme de Graeme Clifford (que depois nunca mais acertou em sua carreira cinematográfica) sobrevive principalmente graças ao empenho de Jessica Lange em dar credibilidade e empatia a uma personagem difícil. Convencendo tanto como uma adolescente de 16 anos quanto como uma mulher sofrida e vivida, ela é a luz do filme, transmitindo milhares de emoções com poucas palavras, usando apenas o olhar para levar a audiência junto com ela à espiral de desespero que toma conta de sua vida no terço final da história. Seus duelos com Kim Stanley - que vive Lilian Farmer, sua mãe e algoz - são dignos de nota, dando ao filme um tom de tragédia familiar que deixa seus furiosos ataques à nata de Hollywood leves como um filme de Carlitos. Sua descida ao inferno - em especial uma inspirada sequência onde ela ensaia uma declaração aos juízes diante de uma plateia de internas insandecidas - é tratada com respeito, mesmo quando torna-se o pior dos pesadelos, com lobotomias e estupros no menu.

"Frances" é um filme irregular. Não tem um diretor brilhante que ouse na narrativa e até mesmo suas invenções no roteiro (ainda que o tornem mais chocante) acabam minando sua credibilidade. Mas tem em Jessica Lange um pilar forte o suficiente para torná-lo obrigatório. Não apenas é o retrato cruel de como a sociedade (e a indústria, seja ela qual for) pode exterminar a alma de uma pessoa de espírito livre e inteligente. Também é uma chocante mostra dos horrores do sistema psiquiátrico americano de sua época (anos 40), da maneira cruel como Hollywood se livrava de quem não mais lhe servia e até das sujeiras que escondem nos bastidores do teatro. Para quem gosta do assunto, é um prato e tanto.

segunda-feira

PEIXE GRANDE

PEIXE GRANDE (Big fish, 2003, Columbia Pictures, 125min) Direção: Tim Burton. Roteiro: John August, romance de Daniel Wallace. Fotografia: Philippe Rousselot. Montagem: Chris Lebenzon. Música: Danny Elfman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Nancy Haigh. Produção executiva: Arne L. Schmit. Produção: Bruce Cohen, Dan Jinks, Richard D. Zanuck. Elenco: Ewan McGregor, Albert Finney, Billy Crudup, Jessica Lange, Alison Lohmann, Danny DeVito, Marion Cottilard, Steve Buscemi, Helena Bonham-Carter. Estreia: 10/12/03

Indicado ao Oscar de Trilha Sonora

Dizem que a paternidade amolece o coração dos homens. E quando se assiste a “Peixe grande” a teoria ganha ainda mais força. Afinal de contas, o novo filme do diretor Tim Burton deixa de lado monstros, assassinos e criaturas bizarras para concentrar-se em uma bela história de amor entre marido e mulher, pai e filho, passado e presente. Tudo bem, o gosto por personagens excêntricos ainda se mantém intocado, mas dessa vez o criador de Edward Mãos de Tesoura pega bem mais leve em sua atração pelos tons sombrios e de humor negro. “Peixe grande” é o primeiro filme de Burton depois do nascimento de seu filho e talvez por isso seja tão delicado ao lidar com os temas que propõe.
    
Baseado em um romance de Daniel Wallace que quase foi filmado por Steven Spielberg com Jack Nicholson no papel central, “Peixe grande” conta duas histórias que se fundem em uma só, tendo como protagonista Edward Bloom, um homem incapaz de levar uma vida monótona. Quando o filme começa ele está à beira da morte (sendo brilhantemente interpretado por Albert Finney) e recebe a visita do filho único, William (Billy Crudup), com quem não tem uma relação das melhores, e que está prestes a também ser pai. Na verdade, o relacionamento entre os dois sempre esteve perto da superficilidade, uma vez que William não consegue aceitar o jeito de ser do pai, capaz de inventar histórias mirabolantes para contar cada momento de sua vida. Sentindo que não conhece a verdade sobre seu progenitor, o rapaz tenta separar o que é delírio e o que realmente aconteceu, contando pra isso com a ajuda da mãe, Sandra (Jessica Lange) e da esposa, a francesa Josephine (Marion Cottilard). Enquanto tenta lidar com a possibilidade da morte dele, William passa a recordar as histórias narradas por seu pai.

 

Mas a verdadeira pérola do filme de Burton – apesar da excelência dos atores que vivem o presente – encontra-se nas histórias contadas por Bloom. É lá, entre os visuais deslumbrantes criados por Dennis Gassner e fotografados por Phillipe Rousselot que está a essência do cineasta. Vivido na juventude por um carismático Ewan McGregor, Edward Bloom cai de amores pela jovem Sandra Templeton (interpretada por Alison Lohman) e vive aventuras inacreditáveis que incluem gêmeas siamesas, um dono de circo que vira lobisomem, um gigante de bom coração, uma cidade abandonada e até mesmo uma bruxa cujo olho de vidro prevê a morte dos interlocutores (vivida pela sra. Tim Burton, Helena Bonham Carter). Dentro do universo extremamente onírico que o cineasta acostumou seu público, são nas sequências da juventude de Bloom que “Peixe grande” deixa transparecer quem é seu capitão, mesmo que dessa vez ele fale mais suavemente à sua platéia.
    
“Peixe grande” é mais uma pequena obra-prima de Tim Burton, capaz de enternecer qualquer coração empedernido com seu belo discurso sobre amor, família, liberdade e principalmente sobre o poder da fantasia em ajudar a suportar a realidade de uma vida comum. Engraçado e terno, é o filme família que o diretor devia desde “Edward Mãos de Tesoura”.

terça-feira

CABO DO MEDO

CABO DO MEDO (Cape fear, 1991, Amblin Entertainment, 128min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Wesley Strick, roteiro original de James E. Webb, romance de John D. MacDonald. Fotografia: Freddie Francis. Montagem: Thelma Schoonmaker. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Henry Bumstead/Alan Hicks. Casting: Ellen Lewis. Produção executiva: Kathleen Kennedy, Frank Marshall. Produção: Barbara De Fina. Elenco: Robert DeNiro, Nick Nolte, Jessica Lange, Juliette Lewis, Joe Don Baker, Robert Mitchum, Gregory Peck, Martin Balsam, Ileana Douglas. Estreia: 13/11/91

2 indicações ao Oscar: Ator (Robert DeNiro), Atriz Coadjuvante (Juliette Lewis)

Martin Scorsese é o cara! Quando lança um projeto pessoal - como "Taxi driver", "Touro indomável" ou "Os bons companheiros" - se supera em técnica e paixão. E até mesmo quando trabalha praticamente sob encomenda, deixa no chinelo qualquer um que se considere cineasta. "Círculo do medo", realizado em 1962, e dirigido por J. Lee Thompson é um belo suspense. Mas empalidece consideravelmente em comparação à refilmagem comandada por Scorsese. "Cabo do medo", a reinvenção produzida pela Amblin Entertainment de Steven Spielberg, é uma das experiências mais angustiantes dos anos 90, amparada por um assustador Robert DeNiro.

Na verdade o próprio Spielberg é quem tinha interesse em refilmar "Círculo do medo" e, depois que ele deixou o filme de lado para realizar "Hook, a volta do Capitão Gancho", teve que praticamente implorar a Scorsese que comprasse a ideia. Contando com a valiosa ajuda de DeNiro, o diretor de "ET" finalmente foi feliz - mas só depois que o roteiro inicial de Wesley Strick sofreu profundas transformações. Nas mãos de Scorsese a banal luta entre advogado e cliente vingativo tornou-se um claustrofóbico embate entre dois homens dispostos a qualquer coisa para atingir seus objetivos. Com elementos novos adicionados à mistura - como sexualidade reprimida, adultério e uma personalidade bem menos unidimensional a seus protagonistas - o filme tornou-se a maior bilheteria da carreira do cineasta até "Os infiltrados", de 2006.

Quando "Cabo do medo" começa, Max Cady (Robert DeNiro, indicado a mais um Oscar por uma atuação apavorante) está saindo da cadeia, depois de passar 14 anos preso por estupro. Analfabeto à época de sua condenação, o violento agressor utilizou seu período de condenação para aprender a ler e estudar, descobrindo, nesse meio-tempo, que seu advogado de defesa, Sam Bowden (Nick Nolte em papel oferecido a Harrison Ford e Robert Redford) escondeu documentos que poderiam ter lhe amenizado o veredicto - ou até mesmo absolvê-lo. No momento de sua libertação, então, só o que lhe passa pela doentia mente é vingar-se de Bowden e, para isso, ele inicia um processo de violência psicológica contra ele e sua família, formada pela esposa, Leigh (Jessica Lange) e pela filha adolescente Danielle (Juliette Lewis). Passando por uma crise - despertada pela infidelidade conjugal de Sam - a estrutura familiar aparentemente sólida começa a ruir diante da fúria de Cady, que não mede esforços em direção a realizar sua missão.

A diferença entre "Cabo do medo" e dezenas de outros suspenses que fazem a festa dos programadores dos sábados televisivos é justamente o comando certeiro de Martin Scorsese. Dono de uma sensibilidade ímpar e de uma inteligência acima da média - além de uma cultura cinematográfica de cair o queixo - Scorsese imprime em seu filme uma personalidade inconfundível. Além de assustar o espectador em diversos momentos - afinal, um filme de suspense pede por isso - ele acrescenta à história uma densidade quase palpável. A trilha sonora tonitruante de Elmer Bernstein - que utiliza trechos da obra que Bernard Herrmann criou para o filme original - é tensa, forte e marcante, surgindo sempre como uma ameaça, um comentário ou um aviso de que Max Cady, com todo o seu ódio, está à espreita. A fotografia quente de Freddie Francis localiza com perfeição a trama no sul dos EUA - um lugar onde o medo já é costume, como bem diz uma personagem acostumada a sua terra natal. E o fato da família Bowden dessa nova versão não compartilhar da mesma felicidade de margarina do primeiro filme proporciona ao espetáculo um senso de realidade e modernidade que, ao contrário de distorcer a ideia inicial do romance de John D. MacDonald, apenas colabora em lhe dar mais profundidade.


E a profundidade do roteiro de Strick encontra no elenco escolhido por Scorsese um amparo espetacular. Enquanto DeNiro dispensa qualquer tipo de comentário, com uma atuação que supera qualquer expectativa - apesar de algumas críticas terem-no considerado um pouco exagerado. Nick Nolte transmite a angústia e a perplexidade de Sam Bowden com a segurança que seus vários anos de carreira lhe garantem e Jessica Lange vive uma Leigh equilibrada entre a fragilidade feminina e a força absoluta da maternidade. Gregory Peck e Robert Mitchum, atores da primeira versão do filme, participam em pequenas cenas, em uma homenagem carinhosa dos produtores. Mas é Juliette Lewis quem se destaca mesmo diante de seus consagrados colegas de cena. Indicada ao Oscar de coadjuvante aos 17 anos, ela abiscoitou o papel para o qual foram testados nomes como Reese Witherspoon, Jennifer Connelly e Winona Ryder e se revelou uma das grandes promessas do início da década de 90. A cena em que sua Danielle Bowden é praticamente seduzida por Cady em um cenário de peça de teatro infantil é um primor de sutileza, tensão e erotismo, uma ambivalência que perpassa todo o filme.

"Cabo do medo" pode ser assistido como um filme de suspense dos bons - com uma força crescente a cada sequência. Mas psicologicamente ele vai anda mais longe, discorrendo, ainda que discretamente, sobre complexo de Édipo, taras sexuais, frustrações eróticas e o suave equilíbrio entre o certo e o errado. É uma experiência única, como somente um diretor do porte de Scorsese é capaz de proporcionar.

TOOTSIE


TOOTSIE (Tootsie, 1982, Columbia Pictures, 116min) Direção: Sydney Pollack. Roteiro: Murray Schisgal, Larry Gelbart, história de Don McGuire e Larry Gelbart. Fotografia: Owen Roizman. Montagem: Fredrick Steinkamp, William Steinkamp. Música: Dave Grusin. Figurino: Ruth Morley. Direção de arte/cenários: Peter Larkin/Tom Tonery. Casting: Toni Howard, Lynn Stalmaster. Produção executiva: Charles Evans. Produção: Sydney Pollack, Dick Richards. Elenco: Dustin Hoffman, Jessica Lange, Dabney Coleman, Teri Garr, Charles Durning, Sydney Pollack, Bill Murray, Geena Davis. Estreia: 17/12/82

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sydney Pollack), Ator (Dustin Hoffman), Atriz Coadjuvante (Teri Garr, Jessica Lange), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Canção ("It might be you"), Som
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Jessica Lange)
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Comédia ou Musical, Ator/Comédia ou Musical (Dustin Hoffman), Atriz Coadjuvante (Jessica Lange)


De um lado, uma história sobre um tenista que desiste da operação de mudança de sexo, contentando-se em vestir-se de mulher. Do outro, a história de um ator desempregado que encontra trabalho como atriz em uma telenovela. No meio disso tudo, a ideia do ator Dustin Hoffman de interpretar ao mesmo tempo um homem e uma mulher, vinda da época em que filmava "Kramer X Kramer". Dessa mistura de ideias surgiu uma das comédias mais brilhantes da década de 80, que misturava humor de vaudeville, romance, sátira ao feminismo e uma feroz crítica à futilidade do mundo teatral: "Tootsie", dirigida por Sydney Pollack e que recebeu generosas 10 indicações ao Oscar em 1982.

Hoffman, em mais uma brilhante interpretação, vive Michael Dorsey, um ator tão talentoso quanto genioso que atravessa um difícil período de dois anos sem trabalho. Insatisfeito com o emprego de garçom, ele sonha em produzir uma peça escrita por seu colega de apartamento, Jeff Slater (Bill Murray), mas não encontra quem queira lhe oferecer uma chance nos palcos, nem mesmo com a ajuda de seu agente (o diretor Sydney Pollack, com um segundo contra-cheque como ator). Ao acompanhar a amiga Sandy (Teri Garr) a uma audição, que vai escolher a atriz para participar de uma telenovela vespertina, ele tem ideia de vestir-se de mulher e tentar o papel. Com o nome de Dorothy Michaels, ele não apenas é contratado como torna-se um ícone dos novos direitos femininos ao enfrentar o domínio masculino no programa. Seu sucesso começa a incomodá-lo quando ele passa a ser assediado por Lesley (Charles Durning), o pai de sua colega de elenco, Julie Nichols (Jessica Lange), por quem ele se apaixona.


O quiproquó criado pelo roteiro indicado ao Oscar é de uma delícia shakespereana. Assim como em "A comédia dos erros", Michael/Dorothy se vê enredado em uma confusão que se complica a cada cena. Ao tentar aproximar-se de Julie, ele se afasta de Sandy, que tem por ele intenções bem pouco profissionais, e encara a rejeição ao ser confundida com uma lésbica. Não consegue sair do elenco da novela graças a seu êxito impressionante e um contrato milionário. E não consegue desvencilhar-se de Lesley sem revelar a ele sua verdadeira identidade. Inteligente, sarcástico e de um bom-humor contagiante, o script se aproveita do verdadeiro show de Hoffman, que pinta e borda em um papel que lhe proporciona todas as chances de mostrar - mais uma vez - seu imenso talento.

O trabalho de composição de Hoffman, aliás, é digno de figurar em qualquer antologia de grandes atuações do cinema. Não apenas o genial figurino de Ruth Morley e a maquiagem sutil mas eficaz, mas todo o conjunto criado pelo ator é impressionante. O tom da voz de Dorothy Michaels (para a qual Hoffman contou com o auxílio de Meryl Streep), seu sotaque, seu modo de andar fazem parte de um contexto que empurra o espectador em direção ao universo quase surreal proposto por Pollack. E o ator - que perdeu o Oscar para Ben Kingsley em "Gandhi" - tem a sorte suprema de contar com um elenco coadjuvante igualmente de se tirar o chapéu.

Em cena em "Tootsie", Dustin Hoffman é cercado por atores em dias inspirados, que pontuam com precisão seu espetáculo particular. Bill Murray - que improvisou todas as suas falas -, Charles Durning e Sydney Pollack estão em alguns de seus melhores momentos e Teri Garr demonstra um timing cômico irrepreensível. Jessica Lange, na pele da doce Julie Nichols teve ainda mais sorte e levou o Oscar de atriz coadjuvante no mesmo ano em que concorria também na categoria principal pelo filme "Frances". Donos de uma química perfeita, eles formam uma equipe vitoriosa que transformam o delicioso texto em uma delirante comédia romântica.

Aliás, é preciso dar grande crédito ao roteiro de "Tootsie". O seu perfeito equilíbrio entre piadas relacionadas ao mundo artístico e seu tom delicado de contar uma história de amor cativa a audiência sem apelar para risadas fáceis e nem mesmo para o piegas. É bastante sintomático, inclusive, que não haja, durante suas quase duas horas de duração, nenhum beijo entre seus protagonistas, o que não impede de forma alguma a credibilidade de seus sentimentos.

No fim das contas "Tootsie" continua se mantendo como uma das mais admiráveis comédias realizadas em Hollywood, capaz de encantar o público de hoje com a mesma sutileza de quase trinta anos atrás.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...