O PESO DE UM PASSADO (Running on empty, 1988, Double Play, 120min) Direção: Sidney Lumet. Roteiro: Naomi Foner. Fotografia: Gerry Fisher. Montagem: Andrew Mondshein. Música: Tony Mottola. Figurino: Anna Hill Johnstone. Direção de arte/cenários: Philip Rosenberg/Philip Smith. Produção executiva: Naomi Foner, Burtt Harris. Produção: Griffin Dunne, Amy Robinson. Elenco: Christine Lahti, Judd Hirsch, River Phoneix, Martha Plimpton, Jonas Abry, Ed Crowley. Estreia: 09/9/88
2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (River Phoenix), Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Roteiro
Em 1983, o cineasta Sidney Lumet assinou o filme "Daniel", que, baseado em romance de E.L. Doctorow, inspirava-se na história real do casal Julius e Ethel Rosenberg, executado em 1953 nos EUA, acusado de traição. De uma certa forma, o tema voltou à tona na filmografia do diretor com "O peso de um passado", lançado cinco anos mais tarde e novamente com um foco mais familiar do que político. Se no filme estrelado por Timothy Hutton o protagonista embarcava em uma dolorosa jornada para descobrir os detalhes do processo que vitimou seus pais depois de uma tragédia que envolve sua irmã, na trama escrita por Naomi Foner o núcleo familiar formado por um par de militantes de esquerda e seus dois filhos precisa enfrentar uma temida realidade quando o passado começa a ameaçar o presente e o futuro - na figura de uma possível carreira musical para o talentoso primogênito, que coincidentemente está descobrindo o amor e a individualidade. Interpretado por um inspirado River Phoenix em vias de passar de promessa a ator consagrado ainda antes dos 20 anos de idade, o romântico e idealista Danny Pope acaba sendo o maior atrativo da produção, que apesar dos prêmios ao roteiro de Naomi Foner (e uma indicação ao Oscar da categoria), se ressente de um ritmo irregular e da demora em determinar seu foco.
O público demora um pouco a compreender a dinâmica da família Pope: tanto o pai, Arthur (Judd Hirsh) quanto a mãe, Annie (Christine Lahti) não demonstram claramente os motivos que os levam a mudar-se, juntamente com os filhos, a cada seis meses, deixando para trás identidades, rotinas e todos os vestígios de sua existência. Os filhos - o adolescente Danny e o pequeno Harry (Jonas Abry) - apenas seguem, sem questionar, as ordens paternas, impedidos de levar uma vida normal e dotada de qualquer aspecto de normalidade. É quando chegam em uma cidade do interior de Nova Jersey que as coisas começam a precipitar-se em suas vidas - e finalmente a plateia é informada sobre seu dramático passado, que remonta à 1971, quando, ainda jovens e esperançosos de modificar o mundo, Arthur e Annie explodiram um laboratório de napalm, atingindo um faxineiro que estava no local indevidamente. Desde então, foragidos, construíram uma vida em eterna fuga do FBI, jamais se permitindo permanecer na mesma cidade e com a mesma identidade por mais de poucos meses. De repente, como obra do destino, dois acontecimentos aleatórios ameaçam a rotina do grupo: o reaparecimento de Gus (L.M. Kit Carson), um antigo companheiro de lutas políticas e o nascimento da paixão entre Danny e Lorna (Martha Plimpton), filha de um professor de música que vê no rapaz o talento necessário para uma carreira como pianista - o que, logicamente, bate de frente com os planos a longo prazo do casal de foragidos.
Sem o brilhantismo de algumas de suas obras mais famosas - como "12 homens e uma sentença" (57) "Um dia de cão "(75), "Rede de intrigas" (76) e "O veredicto" (82), todos grandes filmes com aguda percepção da sociedade americana - Sidney Lumet não apresenta o mesmo brilhantismo em "O peso de um passado". Mesmo de posse de uma história de enorme potencial dramático, o veterano cineasta parece não sentir-se à vontade em explorar o romantismo da relação entre Danny e Lorna ou a rebeldia do rapaz quanto à imposição de uma vida nômade que finalmente passa a incomodá-lo. O tom morno da narrativa só é interrompido quando o roteiro abre espaço para o brilho de Christine Lahti, que acerta em cheio na construção de uma personagem que vai se revelando gradualmente ao espectador, até explodir em uma comovente cena em que encontra seu pai milionário, com quem rompeu ao unir-se a Arthur: é um momento de sensibilidade à flor da pele, que dialoga muito mais com a intensidade de River Phoenix do que com a frieza com que o filme vai acontecendo até então.
Indicado ao Oscar de coadjuvante - que perdeu para Kevin Kline por "Um peixe chamado Wanda" - o jovem Phoenix, que morreria precocemente poucos anos mais tarde, demonstra mais uma vez um carisma e uma naturalidade impressionantes, capazes de contagiar os colegas de cena e o público. De olhar doce e personalidade serena, ele oferece a seu personagem camadas intensas que contrastam saudavelmente com a quase frieza com que o filme é apresentado na grande maioria do tempo. Seus arroubos de espontaneidade garantem um acréscimo e tanto de interesse à uma trama que, apesar de relevante e naturalmente dramática, frequentemente entra em um estágio de monotonia e apatia que quase eclipsa suas qualidades - além de apresentar um protagonista tão chato quanto Arthur Pope, que nem mesmo o talento de Judd Hirsch consegue tornar simpático. Não é um dos melhores trabalhos de Sidney Lumet, mas graças a seu tema palpitante, a momentos pontuais de atuação de Lahti e ao carisma de Phoenix, prende a atenção até seu emocionante (ainda que um tanto abrupto) desfecho. Vale a pena dar uma chance.
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GAROTOS DE PROGRAMA
GAROTOS
DE PROGRAMA (My own private Idaho, 1991, New Line Cinema, 104min)
Direção: Gus Van Sant. Roteiro: Gus Van Sant, inspirado livremente em
"Henry IV", de William Shakespeare. Fotografia: John Campbell, Eric Alan
Edwards. Montagem: Curtiss Clayton. Música: Bill Stafford. Figurino:
Beatrix Aruna Pasztor. Direção de arte/cenários: David Brisbin/Melissa
Stewart. Produção: Laurie Parker. Elenco: River Phoenix, Keanu Reeves,
James Russo, William Richert, Chiara Caselli, Flea, Udo Kier, Grace
Zabriskie. Estreia: 12/9/91 (Festival de Toronto)
Quando "Garotos de programa" estreou, no Festival de Toronto de 1991, o diretor Gus Van Sant já era um queridinho do mundo do cinema independente, graças ao sucesso de seu filme de estreia, "Drugstore cowboy", que contava as aventuras de um grupo de jovens viciados em drogas que repunham seu estoque assaltando farmácias. Seu filme seguinte, que misturava três projetos que estavam em seu colo sem conseguir levantar voo, conquistou ainda mais a crítica especializada, levando prêmios por festivais mundo afora (Veneza, Toronto, Deauville) e dando a River Phoenix, um de seus protagonistas, o status de grande ator com que ele acenava desde os tempos de "Conta comigo" (86): na pele do prostituto juvenil e narcoléptico Mike Waters, ele foi eleito o melhor ator do Festival de Veneza e levou o prêmio da Sociedade Nacional de Críticos de Cinema, além do Independent Spirit Award do ano. Não é pouca coisa para quem tinha apenas 20 anos de idade durante as filmagens - e que infelizmente morreu tragicamente aos 23 anos, vítima de overdose.
Não é exagero afirmar que o trabalho de Phoenix - discreto, lúdico e comovente - é a maior qualidade de "Garotos de programa", e o que justifica todo o oba-oba em relação ao filme de Van Sant, um retrato mezzo poetico mezzo pé no chão do dia-a-dia de jovens que vendem o corpo para sobreviver nas ruas de Portland, Oregon. Centrando sua trama em dois personagens com passados bastante distintos mas com realidades muito semelhantes, o roteiro do diretor (livremente inspirado em "Henry IV", de Shakespeare) passeia por cenários diversos (Portland, Idaho e até Roma) para contar a história de busca e tentativa de redenção do jovem Mike (papel de Phoenix, que, inspirado, chegou a reescrever uma cena crucial do filme, com o apoio do diretor), rapaz abandonado pela família, narcoléptico (tem crises irrefreáveis de sono em momentos de stress), gay e apaixonado pelo melhor amigo, que acredita que o reencontro com a mãe mudará seu destino. Ele conta com o apoio de Scott Favor (Keanu Reeves), filho de família influente que tornou-se michê como forma de afrontar ao pai - afronta esta que tem data limite para expirar - e insiste em declarar-se heterossexual. Os dois partem em uma odisseia passional, sem lenço nem documento, contando apenas com sua juventude e seus corpos como forma de ganhar dinheiro.
A trama de "Garotos de programa" beira o melodrama barato, com filhos abandonados pela mãe, amores impossíveis, juventude radical contra os convencionalismos arcaicos, mas Van Sant tem o mérito de mesclar com todos esses elementos clássicos uma forma de narrativa criativa e por vezes desconcertante. Em seu universo, capas de revistas direcionadas ao público gay conversam entre si nas bancas onde estão expostas, bêbados de rua declamam Shakespeare e as cenas de sexo são estilizadas a ponto de parecer slides ou fotografias - tanto o ménage-à-trois entre os dois amigos e um milionário alemão vivido pelo sempre bizarro Udo Kier quanto a cena pretensamente tórrida entre Keanu Reeves e uma jovem italiana por quem ele se apaixona, para desespero de Mike, são propositalmente chocantes não pelo que mostram (pouco) mas pela maneira como isso acontece. Essa criatividade de Van Sant é enfatizada constantemente pelos ângulos inusitados de câmera, pelas elipses narrativas que dão ao espectador a mesma sensação de angústia de Mike e pela edição pouco convencional, que borra as fronteiras entre o cinemão comercial americano e o mais puro cinema independente - que pouco depois seria desvirtuado em função de objetivos comerciais até pelo próprio diretor (que se venderia à indústria com filmes com "Gênio indomável" (87)). Essa importância, a de dar voz a um cinema realmente desvinculado dos grandes estúdios americanos, ninguém pode tirar do filme, por mais que ele possa desagradar parte da plateia.
Sem fixar-se em assuntos polêmicos, como a prostituição masculina em si - tornada cômica em determinadas sequências, diretas em outra, mas nunca mostrada como uma condição degradante ou vitimizadora, o que por si só já é um mérito inegável - "Garotos de programa" trata seus personagens com carinho, ainda que por vezes lhes dê uma considerável carga de dramas pessoais para carregar em suas costas frágeis. A interpretação singela de River Phoenix, especialmente, imprime ao filme uma ternura e uma delicadeza que tiram o peso que o tema poderia lhe infligir, carregando-o de poesia e tristeza. O filme de Van Sant pode não ser uma unanimidade por várias razões, mas seu tom melancólico mesmo nos momentos mais leves - somado à atuação de Phoenix e sua coragem em romper com alguns padrões narrativos clássicos - merece ser louvado e respeitado.
Quando "Garotos de programa" estreou, no Festival de Toronto de 1991, o diretor Gus Van Sant já era um queridinho do mundo do cinema independente, graças ao sucesso de seu filme de estreia, "Drugstore cowboy", que contava as aventuras de um grupo de jovens viciados em drogas que repunham seu estoque assaltando farmácias. Seu filme seguinte, que misturava três projetos que estavam em seu colo sem conseguir levantar voo, conquistou ainda mais a crítica especializada, levando prêmios por festivais mundo afora (Veneza, Toronto, Deauville) e dando a River Phoenix, um de seus protagonistas, o status de grande ator com que ele acenava desde os tempos de "Conta comigo" (86): na pele do prostituto juvenil e narcoléptico Mike Waters, ele foi eleito o melhor ator do Festival de Veneza e levou o prêmio da Sociedade Nacional de Críticos de Cinema, além do Independent Spirit Award do ano. Não é pouca coisa para quem tinha apenas 20 anos de idade durante as filmagens - e que infelizmente morreu tragicamente aos 23 anos, vítima de overdose.
Não é exagero afirmar que o trabalho de Phoenix - discreto, lúdico e comovente - é a maior qualidade de "Garotos de programa", e o que justifica todo o oba-oba em relação ao filme de Van Sant, um retrato mezzo poetico mezzo pé no chão do dia-a-dia de jovens que vendem o corpo para sobreviver nas ruas de Portland, Oregon. Centrando sua trama em dois personagens com passados bastante distintos mas com realidades muito semelhantes, o roteiro do diretor (livremente inspirado em "Henry IV", de Shakespeare) passeia por cenários diversos (Portland, Idaho e até Roma) para contar a história de busca e tentativa de redenção do jovem Mike (papel de Phoenix, que, inspirado, chegou a reescrever uma cena crucial do filme, com o apoio do diretor), rapaz abandonado pela família, narcoléptico (tem crises irrefreáveis de sono em momentos de stress), gay e apaixonado pelo melhor amigo, que acredita que o reencontro com a mãe mudará seu destino. Ele conta com o apoio de Scott Favor (Keanu Reeves), filho de família influente que tornou-se michê como forma de afrontar ao pai - afronta esta que tem data limite para expirar - e insiste em declarar-se heterossexual. Os dois partem em uma odisseia passional, sem lenço nem documento, contando apenas com sua juventude e seus corpos como forma de ganhar dinheiro.
A trama de "Garotos de programa" beira o melodrama barato, com filhos abandonados pela mãe, amores impossíveis, juventude radical contra os convencionalismos arcaicos, mas Van Sant tem o mérito de mesclar com todos esses elementos clássicos uma forma de narrativa criativa e por vezes desconcertante. Em seu universo, capas de revistas direcionadas ao público gay conversam entre si nas bancas onde estão expostas, bêbados de rua declamam Shakespeare e as cenas de sexo são estilizadas a ponto de parecer slides ou fotografias - tanto o ménage-à-trois entre os dois amigos e um milionário alemão vivido pelo sempre bizarro Udo Kier quanto a cena pretensamente tórrida entre Keanu Reeves e uma jovem italiana por quem ele se apaixona, para desespero de Mike, são propositalmente chocantes não pelo que mostram (pouco) mas pela maneira como isso acontece. Essa criatividade de Van Sant é enfatizada constantemente pelos ângulos inusitados de câmera, pelas elipses narrativas que dão ao espectador a mesma sensação de angústia de Mike e pela edição pouco convencional, que borra as fronteiras entre o cinemão comercial americano e o mais puro cinema independente - que pouco depois seria desvirtuado em função de objetivos comerciais até pelo próprio diretor (que se venderia à indústria com filmes com "Gênio indomável" (87)). Essa importância, a de dar voz a um cinema realmente desvinculado dos grandes estúdios americanos, ninguém pode tirar do filme, por mais que ele possa desagradar parte da plateia.
Sem fixar-se em assuntos polêmicos, como a prostituição masculina em si - tornada cômica em determinadas sequências, diretas em outra, mas nunca mostrada como uma condição degradante ou vitimizadora, o que por si só já é um mérito inegável - "Garotos de programa" trata seus personagens com carinho, ainda que por vezes lhes dê uma considerável carga de dramas pessoais para carregar em suas costas frágeis. A interpretação singela de River Phoenix, especialmente, imprime ao filme uma ternura e uma delicadeza que tiram o peso que o tema poderia lhe infligir, carregando-o de poesia e tristeza. O filme de Van Sant pode não ser uma unanimidade por várias razões, mas seu tom melancólico mesmo nos momentos mais leves - somado à atuação de Phoenix e sua coragem em romper com alguns padrões narrativos clássicos - merece ser louvado e respeitado.
domingo
TE AMAREI ATÉ TE MATAR
TE
AMAREI ATÉ TE MATAR (I love you to death, TriStar Pictures, 97min)
Direção: Lawrence Kasdan. Roteiro: John Kostmayer. Fotografia: Owen
Roizman. Montagem: Anne V. Coates. Música: James Horner. Figurino: Aggie
Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: Lilly Kilvert/Cricket
Rowland. Produção executiva: Michael Grillo, Charles Okun. Produção:
Jeffrey Lurie, Ron Moller. Elenco: Kevin Kline, Tracey Ullman, Joan
Plowright, River Phoenix, William Hurt, Keanu Reeves, Phoebe Cates,
Heather Graham. Estreia: 06/4/90
Joey Boca é um italiano simpático, bem-humorado e extrovertido. Dono de uma pizzaria do Brooklyn que leva seu nome - e tem na parede reproduções de Cristo, do presidente e de Frank Sinatra - e pai de família aparentemente respeitável, ele tem, no entanto, um defeito irrecuperável: não pode ver um rabo-de-saia sem que seus hormônios latinos não entrem em ebulição. Suas constantes escapadas sexuais são de conhecimento de toda a vizinhança, mas de certa forma ignorados por sua cara-metade, a paciente Rosalee - que tampouco percebe a paixão que desperta em Devo, jovem funcionário da pizzaria com idade para ser seu filho. Levemente machista, quase cafajeste e acintosamente sedutor, Joey Bocca é o protagonista de "Te amarei até te matar", uma comédia de humor negro dirigida pelo mesmo Lawrence Kasdan dos seríssimos "Corpos ardentes" (81), "O reencontro" (83) e "O turista acidental" (88). Mas se o nome de Kasdan não deixa de ser uma surpresa por trás de um filme tão atípico em sua cinematografia, é o nome do protagonista que surpreende ainda mais: na pele de um personagem tão explicitamente cômico que beira o histriônico está Kevin Kline, o mesmo homem que interpretou o torturado amante judeu de Meryl Streep em "A escolha de Sofia" (82) e o jornalista sul-africano que fugiu de seu país de origem para denunciar as atrocidades do apartheid de "Um grito de liberdade" (87). Ou seja, nada mais distante da imagem que se esperaria de um ator que vive tão intensamente alguém chamado Joey Bocca.
Tudo bem que o público de cinema já sabia dos dotes cômicos de Kline, que ganhou seu Oscar de coadjuvante na pele do atrapalhado, ciumento e levemente demente Otto no sucesso "Um peixe chamado Wanda" (88). Mas, sabendo-se que o ator tem uma formação clássica, shakespereana e dramática, não deixa de ser refrescante perceber o quão versátil ele pode ser. E é graças a seu talento imenso e seu carisma que Bocca não se transforma, no decorrer do filme de Kasdan - com quem ele já havia trabalhando em "O reencontro" e no western "Silverado" (84) - em um personagem antipático ou uma aberração criada unicamente com fins burlescos. Mesmo inspirado em um caso real ocorrido na Pensilvânia em 1984, o roteiro de John Kostmayer (de estrutura levemente teatral, em especial em seu terceiro ato) está a um passo do exagero e do inverossímil, com seus acontecimentos constantemente desafiando o público a embarcar em uma história tão inacreditável quanto deliciosamente insana. E se consegue o grande feito de fazer rir com seu alto grau de nonsense, o mérito deve ser dividido entre Kline (fantástico em cada cena), Kasdan (demonstrando um domínio até então desconhecido do timing da comédia) e o elenco coadjuvante, que consegue misturar sem efeitos colaterais a veterana dos palcos Joan Plowright (que ficou viúva de Laurence Olivier durante as filmagens), a estrela da TV Tracey Ullman, o colaborador habitual do diretor, William Hurt (também surpreendendo em papel menos sério do que o habitual) e dois jovens atores então em início de carreira, River Phoenix e Keanu Reeves.
A trama de "Te amarei até te matar" é, conforme afirmado antes, um primor de nonsense. Tudo começa de verdade quando Rosalee (Ullman) descobre uma traição do marido Joey Bocca e, como boa católica, prefere assassiná-lo a ter que encarar um divórcio. Contando com a ajuda de sua mãe, Nadja (Joan Plowright, sempre prestes a roubar a cena), que despreza o genro, e o jovem Devo (Phoenix), que mantém por ela um paixão assumida, ela resolve dar cabo do pizzaiolo. Depois de uma primeira tentativa frustrada pela ojeriza do rapaz a qualquer tipo de violência e do fracasso em matar Bocca com uma overdose de comprimidos para dormir, eles contratam uma dupla de drogados, Harlan (Hurt) e Marlon (Reeves) para resolver o problema: a questão passa a ser, então, a inacreditável resistência da vítima, que sobrevive a todos os atentados contra a sua vida, para surpresa (e pânico) dos pretensos criminosos.
Engraçadíssimo como poucos filmes americanos da década de 80 conseguiram ser sem apelar para o besteirol desvairado dos irmãos Zucker e de Jim Abrahams, "Te amarei até te matar" ainda tem a vantagem de arrancar gargalhadas tanto por seu humor visual e o absurdo de sua trama quanto por seus diálogos, banhados em ironia e sarcasmo. Equilibrando o tom na tênue linha entre o caricato e o divertido de Kevin Kline, o texto de Kostmayer brinda o espectador com momentos de grande inteligência verbal (o encontro da polícia com o "corpo" de Bocca em sua cama, por exemplo, é sensacional) e com sequências do mais puro vaudeville (como a conversa entre Harlan e Marlon diante de uma provável vítima anestesiada de pílulas para dormir e prestes a ser morto). É um filme rápido, conciso e extremamente eficiente que comprova Kasdan como um dos grandes cineastas pouco reconhecidos do cinema americano.
Joey Boca é um italiano simpático, bem-humorado e extrovertido. Dono de uma pizzaria do Brooklyn que leva seu nome - e tem na parede reproduções de Cristo, do presidente e de Frank Sinatra - e pai de família aparentemente respeitável, ele tem, no entanto, um defeito irrecuperável: não pode ver um rabo-de-saia sem que seus hormônios latinos não entrem em ebulição. Suas constantes escapadas sexuais são de conhecimento de toda a vizinhança, mas de certa forma ignorados por sua cara-metade, a paciente Rosalee - que tampouco percebe a paixão que desperta em Devo, jovem funcionário da pizzaria com idade para ser seu filho. Levemente machista, quase cafajeste e acintosamente sedutor, Joey Bocca é o protagonista de "Te amarei até te matar", uma comédia de humor negro dirigida pelo mesmo Lawrence Kasdan dos seríssimos "Corpos ardentes" (81), "O reencontro" (83) e "O turista acidental" (88). Mas se o nome de Kasdan não deixa de ser uma surpresa por trás de um filme tão atípico em sua cinematografia, é o nome do protagonista que surpreende ainda mais: na pele de um personagem tão explicitamente cômico que beira o histriônico está Kevin Kline, o mesmo homem que interpretou o torturado amante judeu de Meryl Streep em "A escolha de Sofia" (82) e o jornalista sul-africano que fugiu de seu país de origem para denunciar as atrocidades do apartheid de "Um grito de liberdade" (87). Ou seja, nada mais distante da imagem que se esperaria de um ator que vive tão intensamente alguém chamado Joey Bocca.
Tudo bem que o público de cinema já sabia dos dotes cômicos de Kline, que ganhou seu Oscar de coadjuvante na pele do atrapalhado, ciumento e levemente demente Otto no sucesso "Um peixe chamado Wanda" (88). Mas, sabendo-se que o ator tem uma formação clássica, shakespereana e dramática, não deixa de ser refrescante perceber o quão versátil ele pode ser. E é graças a seu talento imenso e seu carisma que Bocca não se transforma, no decorrer do filme de Kasdan - com quem ele já havia trabalhando em "O reencontro" e no western "Silverado" (84) - em um personagem antipático ou uma aberração criada unicamente com fins burlescos. Mesmo inspirado em um caso real ocorrido na Pensilvânia em 1984, o roteiro de John Kostmayer (de estrutura levemente teatral, em especial em seu terceiro ato) está a um passo do exagero e do inverossímil, com seus acontecimentos constantemente desafiando o público a embarcar em uma história tão inacreditável quanto deliciosamente insana. E se consegue o grande feito de fazer rir com seu alto grau de nonsense, o mérito deve ser dividido entre Kline (fantástico em cada cena), Kasdan (demonstrando um domínio até então desconhecido do timing da comédia) e o elenco coadjuvante, que consegue misturar sem efeitos colaterais a veterana dos palcos Joan Plowright (que ficou viúva de Laurence Olivier durante as filmagens), a estrela da TV Tracey Ullman, o colaborador habitual do diretor, William Hurt (também surpreendendo em papel menos sério do que o habitual) e dois jovens atores então em início de carreira, River Phoenix e Keanu Reeves.
A trama de "Te amarei até te matar" é, conforme afirmado antes, um primor de nonsense. Tudo começa de verdade quando Rosalee (Ullman) descobre uma traição do marido Joey Bocca e, como boa católica, prefere assassiná-lo a ter que encarar um divórcio. Contando com a ajuda de sua mãe, Nadja (Joan Plowright, sempre prestes a roubar a cena), que despreza o genro, e o jovem Devo (Phoenix), que mantém por ela um paixão assumida, ela resolve dar cabo do pizzaiolo. Depois de uma primeira tentativa frustrada pela ojeriza do rapaz a qualquer tipo de violência e do fracasso em matar Bocca com uma overdose de comprimidos para dormir, eles contratam uma dupla de drogados, Harlan (Hurt) e Marlon (Reeves) para resolver o problema: a questão passa a ser, então, a inacreditável resistência da vítima, que sobrevive a todos os atentados contra a sua vida, para surpresa (e pânico) dos pretensos criminosos.
Engraçadíssimo como poucos filmes americanos da década de 80 conseguiram ser sem apelar para o besteirol desvairado dos irmãos Zucker e de Jim Abrahams, "Te amarei até te matar" ainda tem a vantagem de arrancar gargalhadas tanto por seu humor visual e o absurdo de sua trama quanto por seus diálogos, banhados em ironia e sarcasmo. Equilibrando o tom na tênue linha entre o caricato e o divertido de Kevin Kline, o texto de Kostmayer brinda o espectador com momentos de grande inteligência verbal (o encontro da polícia com o "corpo" de Bocca em sua cama, por exemplo, é sensacional) e com sequências do mais puro vaudeville (como a conversa entre Harlan e Marlon diante de uma provável vítima anestesiada de pílulas para dormir e prestes a ser morto). É um filme rápido, conciso e extremamente eficiente que comprova Kasdan como um dos grandes cineastas pouco reconhecidos do cinema americano.
sábado
INDIANA JONES E A ÚLTIMA CRUZADA
3 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Som, Efeitos Sonoros
Vencedor do Oscar de Efeitos Sonoros
Um dos maiores problemas encontrados por Hollywood quando se trata de realizar continuações de seus maiores sucessos de bilheteria chama-se criatividade. Dificilmente sequências de filmes bem-sucedidos encontram equilíbrio entre crítica e público, afundando em auto-referências e o pior de tudo, preguiça. Felizmente Steven Spielberg pode ser considerado tudo, menos sem criatividade e preguiçoso. Talvez por isso "Indiana Jones e a última cruzada", terceiro capítulo da saga do mais famoso arqueólogo do cinema tenha conseguido o feito de agradar a gregos e troianos - diferentemente da segunda parte, que foi considerada violenta demais para o público infanto-juvenil. Desta vez, Spíelberg não errou a mão em nada: a receita tem muita ação, bom humor, um pouco de romance e o melhor de tudo, duas novidades empolgantes no elenco.
Rejeitando a regra que diz que não se mexe em time que está ganhando, o diretor acrescentou à vitoriosa fórmula dos filmes anteriores duas aquisições de gerações diferentes, visando atingir todas as faixas de público: o veterano Sean Connery e o jovem River Phoenix juntam-se a Harrison Ford, Denholm Elliot e John Rhys-Davies em duas horas de um entretenimento saudável, divertido e que não deve absolutamente nada a seus predecessores. "Indiana Jones e a última cruzada" é uma digna exceção à regra que dita que continuações são sempre sofríveis.
A trama de "A última cruzada" se passa três anos depois das aventuras do primeiro filme. O nazismo ainda é uma ameaça à paz mundial e Indiana Jones recebe a missão de encontrar mais um artefato religioso que pode conceder poderes sobrenaturais. Enquanto no primeiro capítulo ele corria atrás da Arca Perdida que continha os Dez Mandamentos, desta vez ele precisa localizar o Cálice Sagrado utilizado por Cristo na última ceia, objeto que, segundo a lenda, pode dar a imortalidade a seu dono. Intrigado com a possibilidade, logo ele se vê praticamente obrigado a embarcar na aventura, ao descobrir que seu pai, Henry Jones (vivido por Connery) desapareceu em vias de saber a exata localização do ambicionado cálice.
Assim como nas aventuras anteriores de Indiana Jones, o público é brindado com um filme que, a despeito de suas sequências de ação ininterruptas, não descuida em momento algum do roteiro, repleto de diálogos saborosos e inteligentes. Ao eleger novamente como vilões os nazistas, Spielberg e cia mais uma vez acertam o alvo - o Mal como entidade não poderia ser melhor representado, afinal. Sem que muito sangue seja derramado - pelo menos em frente às câmeras - o Bem triunfa, como convém ao estilo escapista criado pelo cineasta em "Os caçadores da Arca Perdida" e meio esquecido em "O templo da perdição". Ao resgatar o espírito mais leve da primeira aventura de Jones, "A última cruzada" resgata também o bom-humor que lhe fazia falta. E para isso, a escalação de Sean Connery mostrou-se providencial.
Escalado até mesmo como forma de homenagem aos filmes de 007 que inspiraram a criação da personagem Indiana Jones, Connery rouba as cenas em que aparece, como um pai jovial, conquistador e tão dado a aventuras quanto o filho. O fato dos dois dividirem a atenção da mesma mulher (interpretada por Alisson Doody) é sintomático. Aqui, Indiana Jones não é o centro das atenções: ele divide tudo com seu progenitor.
E é impossível negar também o excelente prólogo criado para explicar alguns detalhes da biografia do protagonista. Na pele de River Phoenix, Jones aos 16 anos sofre o acidente que lhe deixa a cicatriz no queixo, encontra pela primeira vez seu famoso chicote e passa a sofrer de seu conhecido terror de cobras. Como uma espécie de preparação para a série de TV "O jovem Indiana Jones" (injusto fracasso), esses primeiros quinze minutos são a cereja de um bolo saboroso e que deixa um gostinho de quero mais - infelizmente esse mais viria somente quase vinte anos depois...
sexta-feira
CONTA COMIGO
CONTA COMIGO (Stand by me, 1986, Columbia Pictures, 89min) Direção: Rob Reiner. Roteiro: Raynold Gideon, Bruce A. Evans, conto "The body", de Stephen King. Fotografia: Thomas Del Ruth. Montagem: Robert Leighton. Música: Jack Nietzsche. Direção de arte/cenários: Dennis Washington/Richard D. Kent. Casting: Janet Hirshenson, Jane Jenkins. Produção: Bruce A. Evans, Raynold Gideon, Andrew Scheinman. Elenco: Wil Wheaton, River Phoenix, Corey Feldman, Jerry O'Connell, Kiefer Sutherland, John Cusack, Richard Dreyfuss. Estreia: 08/8/86
Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado
O nome do escritor Stephen King nos créditos de “Conta comigo” não deixa de ser enganador. Ao ver seu nome atrelado a produções de terror normalmente bem abaixo da média, King nunca deixou que seus trabalhos em outros gêneros viessem à tona. Baseado em um conto chamado “The body”, o filme de Rob Reiner sobre a perda da inocência é quase uma pequena obra-prima de sensibilidade e melancolia.
Passado no início dos anos 60, quando os EUA ainda não haviam passado pelos traumas da guerra do Vietnã e do assassinato de Kennedy, o filme conta a aventura de quatro amigos em vias de passar da infância para a pré-adolescência, quase como o país.
Ao embarcar em uma viagem em busca do corpo de um jovem morto por um trem, os amigos embarcam também em uma jornada de auto-conhecimento, em que o objetivo passa ser menos importante do que o caminho.

O criativo Gordie (Will Wheaton) não consegue provar aos pais seu talento, sempre sufocado pela lembrança do irmão mais velho morto tragicamente (vivido em flashback por um jovem John Cusack). O rebelde Chris Chambers (River Phoenix, em uma atuação delicada e inesquecível) também vive à sombra do irmão, mas pelos motivos opostos, uma vez que ele não é exatamente um motivo de orgulho. O traumatizado Teddy (Corey Feldman) sofre de maus-tratos domésticos cometidos por seu pai, veterano da Guerra da Coréia e o gordinho Vern (Jerry O’Connell) tem em sua forma física motivos suficientes para considerar-se à margem. Juntos, os quatro partem em busca de fama e glória ao encontrarem o cadáver de um conterrâneo. Em seu encalço está uma gangue de transviados liderados por Ace Merrill (Kiefer Sutherland iniciando uma carreira de vilões).
Como já foi dito antes, a viagem dos amigos é mais importante que seu destino. Enquanto conversam sobre suas vidas, fogem de cães raivosos e trem desatinados e revelam seus segredos, Gordie e seus companheiros constroem uma amizade forte e perene, mesmo que sem maiores ambições de seguir com ela no final dos seus dias de aventura. O tom melancólico da obra de King atinge um nível emocionante graças ao roteiro indicado ao Oscar, à trilha nostálgica (em especial a bela canção que dá título ao filme) e ao inspirado elenco jovem. E pensar que River Phoenix morreu menos de dez anos depois deixa o ar menos respirável ainda quando o escritor vivido por Richard Dreyfuss, em participação especial termina de contar sua bela e triste história.
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EVIL: RAÍZES DO MAL (Ondskan, 2003, Moviola Film, 113min) Direção: Mikael Hafstrom. Roteiro: Hans Gunnarsson, Mikael Hafstrom, Klas Osterg...
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O SILÊNCIO DOS INOCENTES (The silence of the lambs, 1991, Orion Pictures, 118min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: Ted Tally, romance de ...

