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quinta-feira

IRMA LA DOUCE

IRMA LA DOUCE (Irma La Douce, 1963, The Mirisch Corporation, 147min) Direção: Billy Wilder Roteiro: Billy Wilder, I.A.L. Diamond, peça teatral de Alexandre Breffort. Fotografia: Joseph LaShelle. Montagem: Daniel Mandell. Música: André Previn. Figurino: Orry-Kelly. Direção de arte/cenários: Alexander Trauner/Maurice Barnathan, Edward G. Boyle. Produção: Edward L. Alperson, Billy Wilder. Elenco: Jack Lemmon, Shirley MacLaine, Lou Jacobi, Bruce Yarnell, Herschel Bernardi. Estreia: 05/6/63

3 indicações ao Oscar: Atriz (Shirley MacLaine), Fotografia em Cores, Trilha Sonora Adaptada
Vencedor do Oscar de Trilha Sonora Adaptada
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Comédia ou Musical (Shirley MacLaine) 

O primeiro encontro entre Billy Wilder, Jack Lemmon e Shirley MacLaine, em 1960, foi "Se meu apartamento falasse", que rendeu, entre outros prêmios, os Oscar de melhor filme, direção e roteiro original. Nada mais natural, portanto, que MacLaine, ao ser convidada para viver o papel-título da comédia "Irma La Douce" - dirigida por Wilder e coestrelada por Lemmon - tenha assinado o contrato sem ao menos ler o roteiro, adaptado de um musical de sucesso da Broadway. Para sua surpresa, porém, na transposição do palco para as telas, a obra de Alexandre Breffort perdeu todas as canções originais, transformando-se, nas mãos do cineasta austríaco, em uma comédia sem o menor vestígio de sua peculiar origem teatral. Sabendo-se incapaz de comandar coreografias ou números cantados, Wilder preferiu manter a trama central - com pequenas alterações, como a profissão do personagem de Lemmon - e injetar nela seu delicioso cinismo irônico. Deu certo, apesar das reservas de MacLaine, que não via o filme como o sucesso que foi - para sua surpresa, ela ganhou o Globo de Ouro e recebeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz por seu desempenho.

O que MacLaine talvez não soubesse quando aceitou entrar no projeto de Wilder é que ela não era a primeira opção para o papel principal. O próprio diretor declarou, mais tarde, que sua primeira escolha era ninguém menos que Elizabeth Taylor - o convite nem chegou a ser feito, no entanto, porque o austríaco disse que não saberia lidar com a conturbada vida afetiva da atriz, então envolvida em um rumoroso caso de amor com Richard Burton, seu colega de cena no complicadíssimo "Cleópatra" (63). A segunda escolhida por ele tampouco mostrou-se possível, mas por motivos bem mais insolúveis: mesmo ainda traumatizado com os problemas demonstrados por Marilyn Monroe nos sets de "Quanto mais quente melhor" (59), Wilder estava muito disposto a reuní-la com Jack Lemmon, mas a inesperada morte do maior símbolo sexual da história do cinema, em agosto de 1962, antes mesmo do início da produção, abriu caminho para MacLaine. Mesmo fisicamente bastante diferente do que Monroe poderia oferecer ao papel, a irmã de Warren Beatty entregou ao filme um tom de ironia e sarcasmo ingênuo que valoriza o roteiro escrito por Wilder e seu colaborador habitual I.A.L. Diamond. Atriz de grande inteligência e sensibilidade, ela faz de seu reencontro com Lemmon um espetáculo à parte.


Na trama criada por Alexandre Breffort, ela vive Irma La Douce, uma prostituta que vive de vender seu corpo em um bairro distante dos cartões-postais de Paris. Rodeada de corrupção por todos os lados - as autoridades fazem vista grossa às dezenas de contravenções praticadas no local, já que são bem pagos para isso - ela tem sua rotina transformada quando conhece o incorruptível Nestor Patou (Jack Lemmon), um novo e incorruptível policial que, para sua surpresa, se vê demitido ao desafiar as regras não-escritas de convivência pacífica entre criminosos e moradores locais. Perdidamente apaixonado por Irma, ele acaba defendendo-a de seu violento cafetão e, percebendo que ela não tem a menor intenção de abandonar a chamada vida fácil, aceita empresariá-la. O ciúme, porém, lança sua flecha preta, e logo Nestor se vê torturado com a possibilidade da amada estar nos braços de outros homens. Com a ajuda de Moustache (Lou Jacobi) - o dono do bar onde eles passam boa parte de seu tempo e que tem uma profusão de experiências profissionais em seu passado, mesmo que elas não dialoguem exatamente entre si - Nestor cria, então, um cliente falso para Irma. Disfarçado com bigode, cavanhaque, tapa-olho e sotaque inglês, ele assume a personalidade de Lord X, um homem com problemas sexuais que se oferece para ser cliente fixo da inocente garota de programa. O problema é que, para pagá-la, ele precisa se desdobrar em vários trabalhos - e seu cansaço faz com que ela passe a desconfiar de uma outra mulher em sua vida.

Levando a trama em tom de farsa, com direito a um toque de nonsense e romance, Billy Wilder mostra porque seus filmes mantem, ainda hoje, um frescor raro e delicioso. Recheando o roteiro com uma acidez que lhe é característica - e que está presente tanto em tramas românticas como "Sabrina" (54) como em tragédias como "A montanha dos sete abutres" (51) - o cineasta evita o excesso de açúcar que poderia surgir na história de amor entre os protagonistas e ainda dá um jeito de fazer rir da hipocrisia em relação ao sexo e da corrupção das autoridades. Com diálogos brilhantes - especialmente aqueles com a presença do ótimo Lou Jacobi, substituindo Charles Laughton, morto antes das filmagens, no papel de Moustache - "Irma La Douce" pode não chegar ao nível de qualidade dos melhores trabalhos de Wilder, mas é uma prova a mais de seu absurdo talento em inserir sua personalidade genial até mesmo em criações alheias. Difícil é sentir falta de qualquer número musical quando se está diante da química perfeita entre Jack Lemmon e Shirley MacLaine.

segunda-feira

O TERCEIRO TIRO

O TERCEIRO TIRO (The trouble with Harry, 1955, Alfred J. Hitchcock Productions, 98min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: John Michael Hayes, romance de John Trevor Story. Fotografia: Robert Burks. Montagem: Alma Macrorie. Música: Bernard Hermann. Figurino: Edith Head. Direção de arte/cenários: John Goodman, Hal Pereira/Sam Comer, Emile Kuri. Produção: Alfred Hitchcock. Elenco: Edmund Gwen, John Forsythe, Mildred Natwick, Mildred Dunnock, Shirley MacLaine. Estreia: 27/9/55


Quando resolveu filmar a adaptação do romance de Jack Trevor Story chamado “The trouble with Harry”, Alfred Hitchock havia acabado de filmar o ambicioso e luxuoso “Ladrão de casaca”, estrelado pelos glamourosos Grace Kelly e Cary Grant. Sua maior questão era realizar um filme sem grandes astros nos papéis centrais, como forma de avaliar a reação do público diante de uma narrativa que não tivesse a dose de previsibilidade que nomes mais conhecidos infalivelmente apresentam. Em termos de bilheteria seu teste não foi dos mais favoráveis, com uma bilheteria muito aquém da esperada nos EUA – apesar do sucesso surpreendente na Europa, em especial na Itália, na Inglaterra e na França, onde ficou em cartaz por mais de um ano. O filme, uma comédia de humor negro batizada no Brasil como “O terceiro tiro”, é, de certa forma, um corpo estranho na filmografia do mestre do suspense, mas, quando visto de perto, apresenta algumas das maiores características do cineasta.

Acostumado a injetar um senso de humor pouco comum a seus filmes, Hitchcock fez de “O terceiro tiro” sua obra mais leve, repleta de um frescor e de uma despretensão encantadores. Colorido ao extremo – as cores das árvores outonais chegaram a ser pintadas manualmente para melhor servir às intenções do diretor de macular com a morte uma paisagem viva e aparentemente inofensiva – e apresentando personagens mais facilmente encontráveis em comédias do que em obras de suspense, o filme foge do tradicional principalmente ao evitar os caminhos mais óbvios e surpreender o público a cada sequência, com reviravoltas bem-humoradas que jamais deixam o ritmo cair.


A primeira cena já dá uma amostra do que virá pela frente: o pequeno Arnie (Jerry Mathers), brincando na floresta que cerca seu pequeno vilarejo em Vermont, dá de cara com o corpo de um homem, atingido na cabeça. Antes que ele mostre o cadáver à sua mãe, a jovem Jennifer Rogers (Shirley MacLaine, estreando nas telas em grande estilo e tornando-se companheira de farras alimentícias do diretor), o veterano Capitão Albert Wiles (Edmund Gwenn) imagina ser o culpado pela morte do infeliz, graças aos três tiros que disparou em sua tentativa de caçar coelhos. Decidido a enterrar o corpo, ele não deixa que a inusitada situação o impeça de aceitar o convite da solteirona local, Ivy Gravely (Mildred Natwick), de tomar um chá com ela algumas horas mais tarde. Enquanto a vida do local segue a mesma rotina, outros moradores esbarram no defunto, como o distraído Dr. Greenbow (Dwight Marfield) – que não toma conhecimento do fato nem mesmo quando literalmente tropeça nele – e o pintor Sam Marlowe (John Forsythe), que, interessado na bela Jennifer, descobre que o nefasto acontecimento tem a ver com uma discussão entre ela e a vítima, que é seu ex-marido Harry. Aos poucos, porém, novas revelações são feitas, e o corpo do desconhecido é enterrado e desenterrado diversas vezes de acordo com o desenrolar dos fatos.

Primeira colaboração entre Hitchcock e o compositor Bernard Herrmann, “O terceiro tiro” segue uma estrutura quase teatral, centrada em diálogos ágeis e personagens construídos com um pé firme no surreal. Sem apelar para artifícios técnicos que chamassem mais a atenção que a trama, o diretor parece divertir-se ao contar uma história simples e em escala menor do que suas grandes e intrincadas obras-primas – ele chegou inclusive a declará-lo seu filme preferido. Brincando com um elenco de ótimos atores que exploram cada nuance de seus personagens – todos com seus segredos e segundas intenções, bem de acordo com as preferências do cineasta – Hitchcock atinge um dos pontos altos de sua brilhante carreira sem precisar recorrer a nada mais do que um roteiro conciso e quase cínico e seu talento superlativo em extrair o melhor de cada cena e cada diálogo. Uma pequena aula de cinema, mas um filme delicioso e extremamente agradável.

terça-feira

ELSA & FRED

ELSA & FRED (Elsa & Fred, 2014, Cuatro Plus Films/Defiant Pictures, 97min) Direção: Michael Radford. Roteiro: Michael Radford, Anna Pavignano. Fotografia: Michael McDonough. Montagem: Peter Boyle. Música: Luis Bacalov. Figurino: Gary Jones. Direção de arte/cenários: Stephanie Carroll/Alice Baker. Produção executiva: Aaron L. Gilbert, Jason Hewitt, Carsten H.W. Lorenz, Angel Losada Moreno, Gary Preisler, Osvaldo Ríos, Lane Sisung, Rob Weston. Produção: Matthias Ehrenberg, Ricardo Kleinbaum, José Levy, Edward Saxon, Nicolas Veinberg. Elenco: Shirley MacLaine, Christopher Plummer, Marcia Gay Harden, Scott Bakula, Chris Noth, George Segal, James Brolin. Estreia: 07/3/14 (Festival de Miami)

Que o público norte-americano tem ojeriza a filmes legendados não é novidade para ninguém. Portanto, nada mais natural e previsível que uma versão hollywoodiana de "Elsa & Fred", sucesso argentino dirigido por Marcos Carnevale. A única surpresa nesse caso foi a longa distância entre a estreia do filme original (2005) e o lançamento do remake, comandado por Michael Radford, conhecido do grande público pela direção do belo "O carteiro e o poeta", que lhe rendeu uma indicação ao Oscar em 1996. Nessa quase década que separa as duas versões, Radford não emplacou nenhum grande filme e nem mesmo seu prestígio unido aos nomes premiados e conhecidos de Shirley MacLaine e Christopher Plummer ajudou sua comédia romântica para a terceira idade a decolar nas bilheterias. Praticamente ignorada pelo público, a história de amor entre dois septuagenários com visões opostas da vida estreou nos EUA no Festival de Miami, passou por diversas outras mostras internacionais (inclusive no Rio de Janeiro) e acabou melancolicamente estreando comercialmente quase no final do ano - nos cinemas e no serviço de streaming. Mesmo não sendo exatamente uma obra-prima merecia melhor sorte.

A trama, para quem não viu o filme original, é simples e direta: depois de ficar viúvo de uma mulher com quem não tinha mais nenhum tipo de vínculo afetivo, o veterano Fred Barcroft (Christopher Plummer, recém-oscarizado por "Toda forma de amor") é transferido por sua filha, Lydia (Marcia Gay Harden), para um novo e mais confortável prédio, onde se vê obrigado a contar com a ajuda de uma cuidadora, Laverne (Erika Alexander). Desanimado com a vida e passando os dias deitado na cama assistindo à televisão, Fred tenta ignorar a alegria de sua vizinha, Elsa Hayes (Shirley MacLaine, luminosa como sempre), uma mulher de eterno alto-astral, fã incondicional de "A doce vida", de Fellini e mentirosa quase compulsiva. Aos poucos, porém, a energia positiva de Elsa vai transformando a personalidade de Fred e os dois se descobrem apaixonados, para surpresa de ambas as famílias - inclusive o ex-marido de Elsa, Max (James Brolin).


Usando e abusando do carisma de seu par central de atores, Michael Radford nem precisa se esforçar muito para fazer de "Elsa & Fred" um programa agradável e divertido. Mesmo que a trama não fuja dos clichês - com direito a reviravoltas dramáticas e tudo - a forma com que o cineasta conduz a narrativa torna tudo muito simpático e envolvente. As tramas paralelas, que retratam os problemas dos filhos do casal - ela tem dois filhos, um dos quais é um artista plástico constantemente atolado de dívidas e ele tem um genro que o pressiona a ajudá-lo em um novo negócio - são pouco interessantes, mas a homenagem ao clássico de Fellini (com MacLaine vestida de Anita Ekberg em plena Fontana de Trevi) dá um gostinho a mais ao cinéfilo mais apaixonado. Além disso, é impossível não se deixar conquistar pela esfuziante Elsa de Shirley MacLaine, uma das atrizes mais completas de Hollywood, infelizmente pouco explorada nos últimos anos. Sempre que está em cena, MacLaine ilumina tudo a seu redor, e não é difícil entender porque até mesmo o sisudo Fred de Christopher Plummer se deixa seduzir por tanta energia.

Leve, divertido, emocionante e extremamente simpático, "Elsa & Fred" é uma sessão da tarde descompromissada, mas valorizada (muito) por seu casal central e pela sutileza da direção de Michael Radford, que desvia do dramalhão com muita propriedade e evita descaracterizar a obra original, tão elogiada e querida pelo público que, ao contrário dos americanos, não tem resistência a filmes estrangeiros.

domingo

LEMBRANÇAS DE HOLLYWOOD

LEMBRANÇAS DE HOLLYWOOD (Postcards from the edge, 1990, Columbia Pictures, 101min ) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Carrie Fisher, livro de sua autoria. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Sam O'Steen. Música: Carly Simon. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Patrizia Von Brandestein/Chris A. Butler. Produção executiva: Robert Greenhut, Neil Machlis. Produção: John Calley, Mike Nichols. Elenco: Meryl Streep, Shirley MacLaine, Dennis Quaid, Gene Hackman, Richard Dreyfuss, Rob Reiner, Annette Bening, Simon Callow, CCH Pounder, Oliver Platt, Michael Ontkean, Anthony Heald. Estreia: 14/9/90

2 indicações ao Oscar: Atriz (Meryl Streep), Canção Original ("I'm checking out")

Carrie Fisher foi ao inferno e voltou - com um humor mordaz e venenoso à tiracolo. A eterna Princesa Leia da cinessérie "Star Wars" - filha de um ícone (Debbie Reynolds), ex-mulher de outro (Paul Simon), ídolo de uma (ou provavelmente mais de uma) geração de nerds - Fisher enfrentou um perigoso vício em drogas e sobreviveu para contar sua história. Disfarçada sob o rótulo de ficção, sua trajetória para recuperar sua carreira, aprender a conviver com as idiossincrasias da mãe estrela de cinema e de quebra fazer uma dura e mordaz crítica aos bastidores da indústria do cinema americano chegou às livrarias com o título de "Postcards from the edge" ("Cartões postais do abismo", em tradução literal) e, mais tarde, como não poderia deixar de ser, apesar da ironia, chamou a atenção dos produtores de Hollywood (que, sabidamente, adoram ser retratados nas telas, por pior que seja tal retrato). Dirigido pelo ótimo Mike Nichols - acostumado a lidar com os melindres da terra do cinema - "Lembranças de Hollywood" acabou resultando em uma agridoce comédia dramática que mesmo em seus momentos mais sentimentais nunca abandona sua tendência ao sarcasmo - em boa parte porque o roteiro ficou a cargo da própria Fisher, especialista em transformar aridez em saborosos diálogos.

E diálogos furiosos banhados a humor não faltam na história de Suzanne Vale, a protagonista interpretada com verve cômica por Meryl Streep (que obviamente concorreu ao Oscar por seu desempenho repleto de frescor e ironia). Famosa mais por seu vício em drogas e por ser filha da excêntrica, querida e popular Doris Mann (Shirley MacLaine, esplêndida), ela é obrigada a fazer um tratamento de desintoxicação como cláusula para ser contratada para um filme que ela nem mesmo está tão empolgada a fazer. O problema do tratamento é, além daqueles normalmente inerentes a ele, é a obrigação de voltar a conviver com a mãe, uma mulher carismática, adorada pelo público e de cuja sombra ela vem tentando sair há anos. Com seus próprios problemas de vício - dessa vez em álcool - Mann não chega a ser um exemplo para a filha, mas a convivência, apesar de difícil, passa a ser responsável por uma aproximação entre elas, principalmente quando demônios e traumas passados vem à tona. Não bastasse tudo isso, Suzanne ainda se vê diante de seus problemas amorosos, em especial quando se encanta por um ator metido a conquistador, Jack Faulkner (Dennis Quaid).


Lotado de participações especiais - Richard Dreyfuss como seu médico, Gene Hackman como um cineasta com o coração bem menos duro do que aparenta, o cineasta Rob Reiner como um produtor - "Lembranças de Hollywood" é um retrato tão sincero dos bastidores do cinema comercial americano que incomodou alguns (Lana Turner não gostou nem um pouco de ter sido citada em uma cena que a qualificava como uma má mãe), trouxe lembrnças a outros (Liza Minnelli encontrou ecos de sua relação com Judy Garland no filme) e despertou cobiça em outros tantos (Janet Leigh queria fazer o filme com a filha Jamie Lee Curtis e a própria Debbie Reynolds se interessou em interpretar Doris Mann). A coragem de Fisher em expor-se e seu mundo é admirável, em especial quando se nota que em momento algum existe resquícios de autopiedade ou sentimentalismo. Como uma metralhadora giratória, o roteiro brinca com o egocentrismo dos cineastas e atores, com o mundo de aparências em que vivem e até mesmo com o perigo do vício em entorpecentes (em vias de morrer de overdose, Suzanne se vê em um corredor decorado com fotos de Judy Garland, Elvis Presley, James Belushi e Marilyn Monroe). Mas é na problemática/amorosa/inconstante relação entre mãe e filha que está o âmago do filme de Mike Nichols, e é onde estão também seus maiores trunfos: Meryl Streep e Shirley MacLaine.

Se foi Streep quem concorreu ao Oscar - e perdeu para Kathy Bates em "Louca obsessão" - é MacLaine quem rouba a cena com sua histriônica Doris Mann, uma atriz capaz de fazer um mini-show em sua casa na festa que dá para comemorar o retorno da filha de uma clínica de reabilitação e de dar uma entrevista coletiva ao sair do hospital depois de ter sofrido um acidente por dirigir bêbada como se estivesse saindo de um espetáculo na Broadway. Os duelos entre as duas - repleto de farpas, rancores e uma indisfarçável inveja (a filha inveja o talento da mãe, a mãe queria a juventude da filha) - estão entre os melhores momentos do filme, a ponto de o público ficar constantemente querendo ver mais e mais arranca-rabos entre as duas. Mesmo que a diferença entre as duas atrizes não ultrapasse quinze anos, não existe dúvidas de que Nichols não poderia ter feito escolhas melhores para suas protagonistas: elas iluminam e dão calor humano a um filme que, a despeito de tratar de um assunto aparentemente tão distante da plateia que não é astro de cinema nem viciado em drogas, consegue atingir em cheio o coração e a mente do espectador graças a um belo roteiro, uma trilha sonora inspirada e duas atrizes extraordinárias.

sexta-feira

IDAS E VINDAS DO AMOR

IDAS E VINDAS DO AMOR (Valentine's Day, 2010, New Line Cinema, 125min) Direção: Garry Marshall. Roteiro: Katherine Fugate, estória de Katherine Fugate, Abby Cohn, Marc Silverstein. Fotografia: Charles Minsky. Montagem: Bruce Green. Música: John Debney. Figurino: Gary Jones. Direção de arte/cenários: Albert Brenner, K.C. Fox. Produção executiva: Samuel J. Brown, Michael Disco, Toby Emmerich, Diana Pokorny, Josie Rosen. Produção: Mike Karz, Wayne Rice. Elenco: Julia Roberts, Ashton Kutscher, Jessica Alba, Jessica Biel, Jamie Foxx, Patrick Dempsey, Shirley MacLaine, Hector Elizondo, Kathy Bates, Emma Roberts, Anne Hathaway, Topher Grace, Bradley Cooper, Queen Latifah, Eric Dane, Taylor Lautner, Taylor Swift, Jennifer Garner. Estreia: 08/02/10

Em 1990, o cineasta Garry Marshall transformou uma prostituta em Cinderela e alçou Julia Roberts ao status de mega-estrela com o filme "Uma linda mulher". E Roberts, hoje a atriz mais bem paga do planeta Hollywood, devolve o favor a Marshall, aparecendo em poucos minutos em sua comédia romântica "Idas e vindas do amor" ("Valentine's day" no original, em mais uma prova da criatividade das distribuidoras brasileiras em estragar títulos alheios). Seguindo a linha de filmes como "Nova York, te amo" e "Ele não está tão a fim de você", o filme acompanha cerca de meia dúzia de histórias de amor (nenhuma delas muito profunda, como convém ao gênero) que acontecem no Dia dos Namorados americano (14 de fevereiro). Analisando como diversão, o filme é uma delícia: um elenco de astros fotogênicos, cenários ensolarados, alguns diálogos bastante engraçados e um romantismo desbragado apropriado à data de seu lançamento nos EUA. Friamente, no entanto, "Idas e vindas do amor" é tão, mas tão doce e bonitinho que chega a incomodar àqueles que não são tão crentes no amor e afins.

Senão, vejamos: Anne Hathaway é uma jovem que faz bicos como atendente de tele-sexo e esconde esse pequeno segredo do namorado recente, vivido por Topher Grace, que vai receber conselhos de um desconhecido sábio (vivido pelo habitué dos filmes de Marshall, Hector Elizondo), que acaba de descobrir um caso antigo da esposa (Shirley MacLaine). Jennifer Garner é uma professora do primário que nem desconfia que o namorado médico (Patrick Dempsey) é casado e não acredita no fato nem quando seu melhor amigo (Ashton Kutscher) o revela depois de ter sido rejeitado pela namorada e quase noiva (Jessica Alba). Jamie Foxx é um repórter esportivo que tem a missão de realizar uma matéria sobre o Dia dos Namorados e cai de amores pela agente solteirona (Jessica Biel, se dá pra acreditar) de um jogador em vias de se aposentar. Enquanto isso, um casal de adolescentes prepara sua primeira noite de amor, um menino de oito anos tenta se declarar à sua amada (ecos de "Simplesmente amor"?) e uma capitã militar (Julia Roberts em pessoa) conhece um simpático solteiro (Bradley Cooper) durante uma viagem de avião.


Sendo honesto, o roteiro de "Idas e vindas" é divertido, passa rápido (ainda que pudesse ser um pouco mais curto) e cumpre sua função de arrecadar muito dinheiro (já rendeu mais de 60 milhões de dólares em pouco mais de uma semana em exibição) e divertir sua audiência. Mas sua visão de mundo é tão colorida e leve que sua credibilidade fica seriamente abalada. Tudo bem que ninguém entra em um filme chamado "Idas e vindas do amor" - cujo cartaz tem um coração enorme e tem Julia Roberts e Ashton Kutscher no elenco - esperando sérias elocubrações sobre sentimentos de perda, dor, solidão e carência. Mas para aqueles que estão em uma fase de descrença absoluta em finais felizes, chega a ser chocante assistir cenas que elevam o amor romântico à esfera que o filme eleva. Não desperta nem lágrimas, porque falar de amor eterno a quem não acredita nem mesmo em paixões de fim-de-semana equivale a narrar histórias de saci-pererê a um islandês que morou a vida toda em um iglu. Aqueles que estão em paz com o coração, porém, só podem gostar das tramas dirigidas por Marshall.

Se você está apaixonado e/ou acredita no amor acima de tudo, corra para assistir. Caso contrário, passe longe. Mas se puder não perca os créditos finais, que apresentam a melhor piada de todo o filme, estrelada por Julia e seu belo sorriso.

quinta-feira

DIZEM POR AÍ


DIZEM POR AÍ (Rumor has it, 2005, Warner Bros, 97min) Direção: Rob Reiner. Roteiro: T.M.Griffin. Roteiro: Peter Deming. Montagem: Robert Leighton. Música: Marc Shaiman. Figurino: Kym Barrett. Direção de arte/cenários: Tom Sanders/Jay R. Hart. Produção executiva: Len Amato, Bruce Berman, George Clooney, Jennifer Fox, Robert Kirby, Michael Rachmil, Steven Soderbergh. Produção: Ben Cosgrove, Paula Weinstein. Elenco: Jennifer Aniston, Kevin Costner, Mark Ruffalo, Shirley MacLaine, Richard Jenkins, Kathy Bates, Mena Suvari. Estreia: 25/12/05

Publicado em 1963, o romance "The graduate", escrito por Charles Webb chegou às telas dos cinemas em 1967, sob a direção premiada com o Oscar de Mike Nichols. Com o título nacional de "A primeira noite de um homem", o filme de Nichols e estrelado por Dustin Hoffman e Anne Bancroft em atuações consagradoras tornou-se imediato sucesso e ícone de uma geração. Quase quarenta anos depois, um filme que especula sobre até que ponto a história contada no livro era realmente fictícia comprova que charme não é algo que se pode forjar. Por mais talentosos que sejam os atores e o diretor de "Dizem por aí", falta ao filme o que dava um molho especial ao original: sutileza e relevância.

A protagonista de "Dizem por aí" é Sarah Huttinger (Jennifer Aniston, linda e boa atriz), uma jornalista que acaba de ficar noiva do amoroso advogado Jeff (Mark Ruffalo), com quem mantém uma relação carinhosa mas longe de apaixonada. Voltando à casa da família em Pasadena para o casamento da irmã caçula (Mena Suvari), ela reencontra o pai (Richard Jenkins) e a exuberante avó, Katharine Richelieu (Shirley MacLaine). Durante sua estada na cidade, porém, ela acaba, sem querer, ouvindo boatos de que o romance "A primeira noite de um homem" - e consequentemente o filme inspirado nele - é a descrição exata da história do triângulo amoroso que envolveu sua falecida mãe, sua avó e o sedutor Beau Burroughs (Kevin Costner). Apavorada com a possibilidade de não ser filha legítima de seu pai - a quem adora - ela procura o escritor e acaba se envolvendo com ele após ter certeza de que não é sua filha.



Levado em tom de comédia romântica contemporânea pelo diretor Rob Reiner - que assinou aquela que é a quintessência do gênero, "Harry & Sally, feitos um para o outro" - essa continuação informal do filme de Mike Nichols não tem outra intenção senão entreter sua plateia. Não existe nele nenhum tipo de tentativa de retratar sua época e seus jovens nem tampouco ambições secretas. Tudo é claro e um tanto óbvio no roteiro, excluindo a dubiedade e o quase cinismo do produto original. Mesmo que por vezes seja bem divertida - responsabilidade da atuação inspirada de Shirley MacLaine - a trama não se sustenta em seus momentos dramáticos, principalmente por causa das atitudes duvidosas de sua protagonista, um problema que nem mesmo o carisma de Jennifer Aniston consegue resolver. E Mark Ruffalo, coitado, não tem muito o que fazer, se tornando um coadjuvante de luxo logo que Kevin Costner entra em cena.

Aliás, é pertinente assumir que o trabalho de Costner é uma das melhores surpresas do filme de Reiner. Deixando de lado a persona megalomaníaca que quase enterrou sua carreira, o ex-maior astro de Hollywood no início dos anos 90 entrega um trabalho leve, charmoso e sedutor, tornando crível sua relação tanto com MacLaine quanto com Aniston. É ele um dos maiores destaques do filme e, assim como fez em "A outra face da raiva", agarra com as duas mãos uma dos papéis mais interessantes a surgir em sua frente depois de seus deslizes comerciais. Quando ele e MacLaine finalmente contracenam - já no final da projeção - faíscas saltam e ao público resta apenas lamentar que o encontro não tenha acontecido antes.

quarta-feira

EM SEU LUGAR

EM SEU LUGAR (In her shoes, 2005, 20th Century Fox, 130min) Direção: Curtis Hanson. Roteiro: Susannah Grant, romance de Jennifer Weiner. Fotografia: Terry Stacey. Montagem: Lisa Zeno Churgin, Craig Kitson. Música: Mark Isham. Figurino: Sophie De Rakoff. Direção de arte/cenários: John Warnke/Teresa Visinare. Produção executiva: Tony Scott. Produção: Lisa Ellzey, Carol Fenelon, Curtis Hanson, Ridley Scott. Elenco: Cameron Diaz, Toni Collette, Shirley MacLaine, Mark Feuerstein, Eric Balfour, Richard Burgi. Estreia: 14/9/05 (Festival de Toronto)

Definitivamente Curtis Hanson não é um cineasta que gosta de se repetir. Depois do merecido sucesso de crítica e público de sua obra-prima "Los Angeles, cidade proibida" - pelo qual chegou a concorrer ao Oscar - ele enveredou pela comédia dramática "Garotos incríveis" - adaptado de um romance de Michael Chabon e estrelado por grande elenco encabeçado por Michael Douglas - e pelo drama musical "8 mile, rua das ilusões", responsável pela estreia do rapper Eminem no cinema. E quem achava que sua versatilidade tinha chegado a seu ápice deve ter ficado de queixo caído com seu projeto seguinte: a adaptação de "Em seu lugar", livro de Jennifer Weiner que obteve grande êxito de vendas nos EUA e que, para surpresa de todos, é um perfeito exemplo daquilo que os americanos chamam de "chick-lit" e o resto do mundo de "livro de mulherzinha". Sim, o homem que narrou a violenta história de corrupção desbaratada pelo truculento Bud White e a trajetória de um cantor de rap rumo à fama agora conta a história de duas irmãs de personalidades opostas que precisam aprender a lidar com suas diferenças.

O primeiro mérito de Hanson em "Em seu lugar" foi a escolha da australiana Toni Collette para um dos principais papéis. Extremamente talentosa e rica de nuances, Collette chega a humilhar sua colega de cena, a fraca e careteira Cameron Diaz, que usa e abusa (no mau sentido) de todas as armas que lhe deram a posição (exagerada) de destaque dentro da indústria. Enquanto Collette utiliza de sutileza para transmitir seu recado, Diaz frequentemente cai nas armadilhas do roteiro, deixando sua personagem ainda mais chata do que na trama concebida por Weiner - e adaptada pela ótima Susannah Grant, que concorreu ao Oscar por "Erin Brockovich, uma mulher de talento". Na história que o filme conta, as duas são irmãs diferentes como a água e o vinho. Rosie (Collette) é uma bem-sucedida advogada, séria, responsável e dedicada que não dá sorte no amor enquanto Maggie (Diaz) passa seus dias e noites fazendo festas, bebendo e traçando qualquer homem que passe à sua frente. Um desses homens, porém, acabará sendo o culpado por um sério rompimento entre as duas, quando Maggie seduz o namorado da irmã. Furiosa - com toda a razão - Rosie expulsa a irmã de seu apartamento e vai seguir a vida. Maggie, sem rumo, acaba descobrindo que sua avó, Ella (Shirley MacLaine, ótima como sempre) está viva, ao contrário do que seu pai alega, e vai morar com ela na Flórida. Enquanto Rosie se envolve com um colega de firma, Simon (Mark Feuerstein), Maggie é incentivada pela avó a recomeçar a vida, trabalhando, mantendo-se sóbria e buscando a reconciliação com a irmã.



Apesar de fazer parte de uma linhagem menos nobre dentro de Hollywood - os filmes feitos para um público feminino, sem maiores ambições que não divertir a audiência por duas horas - "Em seu lugar" tem a seu favor a seriedade com que Curtis Hanson o trata. A relação entre Maggie e Rosie - ponto crucial da trama - é mostrada sem sentimentalismo barato, assim como os fantasmas do passado das irmãs, que retorna com o reaparecimento de sua avó. Apesar de estender-se demasiadamente - 130 minutos é quase um teste à paciência do público - o filme de Hanson mantém seu interesse por quase todo o tempo, pecando apenas por demorar demais em desenvolver as novas vidas das protagonistas quando separadas. A crise no relacionamento entre Rosie e Simon, por exemplo, não convence o bastante, apesar dos esforços do casal de atores. E não deixa de ser um tanto irritante a personagem de Cameron Diaz, que aborrece o espectador com sua absoluta falta de sensibilidade e respeito para com as pessoas à sua volta - falha do roteiro em explicar convincentemente seus motivos ou falha da atriz, incapaz de maiores voos de interpretação?

No cômputo final, "Em seu lugar" é um entretenimento de qualidade, dirigido com competência e que dá a oportunidade de rever Shirley MacLaine e aplaudir mais uma vez o talento de Toni Collette. Certamente agrada seu público-alvo, mas esbarra em suas próprias limitações temáticas. Vindo de um cineasta tão criativo quanto Hanson não deixa de ser um tanto frustrante.

domingo

FLORES DE AÇO

FLORES DE AÇO (Steel magnolias, 1989, Columbia Pictures, 117min) Direção: Herbert Ross. Roteiro: Robert Harling, peça teatral de sua autoria. Fotografia: John A. Alonzo. Montagem: Paul Hirsch. Música: Georges Delerue. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Gene Callahan, Edward Pisoni/Garrett Lewis, Lee Poll. Casting: Hank McCann. Produção executiva: Victoria White. Produção: Ray Stark. Elenco: Sally Field, Dolly Parton, Julia Roberts, Daryl Hannah, Shirley MacLaine, Olympia Dukakis, Tom Skerrit, Dylan McDermot, Sam Shepard. Estreia: 15/11/89

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Julia Roberts)
Golden Globe de Melhor Atriz Coadjuvante (Julia Roberts) 

Em 1977, o cineasta Herbert Ross esteve em seu auge, chegando a concorrer consigo mesmo ao Oscar de Melhor Filme - graças à comédia romântica "A garota do adeus" e ao drama de balé "Momento de decisão". Depois, teve uma carreira irregular, onde sucessos de bilheteria como "Footloose" e "O segredo do meu sucesso" dividiam espaço com obras bem menos consideradas, como o fraco "Dinheiro do céu". Em 1989 ele voltou a chamar a atenção da crítica e do público com um filme cujo grandioso elenco feminino seria praticamente impossível de ignorar: "Flores de aço", um dramalhão familiar disfarçado de comédia de costumes que hoje em dia só é realmente lembrado por ter sido a primeira real oportunidade da carreira de Julia Roberts, que foi indicada ao Oscar de coadjuvante.

Apesar de ser coadjuvante (e ter ficado com o papel oferecido a Winona Ryder e Meg Ryan), é a personagem de Roberts que serve como fio condutor e ponto em comum das personagens criadas pelo roteiro de Robert Harling (que escreveu a peça teatral que deu origem ao roteiro em homenagem à irmã, morta depois de uma cirurgia mal-sucedida). Pouco antes de ser alçada à condição de mega-estrela com sua participação em "Uma linda mulher" (que estrearia nos cinemas poucos meses depois), Roberts vive Shelby, uma jovem diabética que, nas primeiras cenas do filme, se casa com seu príncipe encantado, o charmoso Jackson (Dylan McDermott) e parte para uma vida distante da pequena cidade da Louisianna, onde vive sua família, liderada pela superprotetora M'Lynn (Sally Field). O filme conta a trágica história de Shelby - que tem diabetes e arrisca uma gravidez perigosa para formar uma família - através dos olhos de um grupo de mulheres que frequentam o salão de beleza da exuberante Truvy (Dolly Parton). As reuniões femininas que tem lugar na casa da esteticista acabam sendo o mais perto que todas elas tem de reuniões familiares - ainda que algumas delas realmente tenham uma família de verdade.



"Flores de aço" é um filme para mulheres e não é sexismo ou preconceito afirmar isso. As personagens masculinas pouco aparecem ou tem participação ativa na trama (ainda que o elenco conte com nomes importantes como Tom Skerrit e Sam Shepard), deixando que o "sexo frágil" mande no jogo o tempo todo. No entanto, o resultado final, apesar das promessas, não deixa de ser insatisfatório. Ao concentrar seu foco na relação entre M'Lynn e Shelby, Ross ganha em parte - porque Sally Field e Roberts dão conta do recado lindamente - mas perde por não dar oportunidade de brilho a outros membros do seu formidável elenco. Shirley MacLaine, por exemplo, tem o ingrato papel de uma matrona desagradável e mau-humorada e nem mesmo o inegável talento da atriz consegue tirar muito da superficialidade de sua personagem. E Daryl Hannah, enfeiada propositalmente para viver a cabeleireira, tem um dos trabalhos mais pálidos de sua carreira.

"Flores de aço" é considerada uma comédia dramática. Como drama funciona muito bem - apesar de exagerar na sacarina em seu final. Como comédia, no entanto, não desperta mais do que alguns sorrisos tímidos. Vale para ver Julia Roberts antes de virar a atriz mais bem paga de Hollywood.

sexta-feira

LAÇOS DE TERNURA


LAÇOS DE TERNURA (Terms of endearment, 1983, Paramount Pictures, 132min) Direção: James L. Brooks. Roteiro: James L. Brooks, romance de Larry McMurtry. Fotografia: Andrzej Bartkowiak. Montagem: Richard Marks. Música: Michael Gore. Figurino: Kristi Zea. Direção de arte/cenários: Polly Platt/Anthony Mondell, Tom Pedigo. Casting: Ellen Chenoweth, Juliet Taylor. Produção: James L. Brooks. Elenco: Shirley MacLaine, Debra Winger, Jack Nicholson, Jeff Daniels, John Lithgow, Danny De Vito. Estreia: 20/11/83

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (James L. Brooks), Atriz (Shirley MacLaine, Debra Winger), Ator Coadjuvante (John Lithgow, Jack Nicholson), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora, Direção de arte, Som
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (James L. Brooks), Atriz (Shirley MacLaine), Ator Coadjuvante (Jack Nicholson), Roteiro Adaptado
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Atriz/Drama (Shirley MacLaine), Ator Coadjuvante (Jack Nicholson), Roteiro


Poucos filmes são capazes de fazer rir e chorar com a mesma facilidade. E ainda menos filmes conseguem retratar seres humanos como eles são, com falhas de caráter e mesmo assim adoráveis, com rígidas normas morais e ainda assim capazes de atos condenáveis aos olhos alheios. Talvez por isso “Laços de ternura” tenha feito tanto sucesso e emocionado tanta gente. Ao dar vida aos personagens criados por Larry McMurtry em seu romance homônimo, o roteirista e diretor James L. Brooks fez deles tão humanos quanto os vizinhos. Em uma época de filmes tão fora da realidade quanto “O retorno de Jedi”, a história de amor e quase ódio entre mãe e filha foi um oásis de inteligência e sensibilidade.

Em uma atuação brilhante premiada com o Oscar, a veterana Shirley MacLaine vive Aurora Greenway, uma viúva autoritária que tem sérios problemas com sua única filha, a rebelde Emma (Debra Winger). Quando Emma resolve se casar com o professor universitário Flap (Jeff Daniels), o relacionamento entre elas, que nunca foi dos melhores, fica ainda pior. Enquanto Aurora se envolve aos poucos com seu vizinho, o sedutor ex-astronauta Garrett Breedlove (Jack Nicholson, em mais uma de suas irrepreensíveis atuações), Emma entra em crise em seu casamento, envolve-se com outro homem e descobre ter câncer.


Os direitos do romance de Larry McMurtry foram comprados pela atriz Jennifer Jones, que pensava em interpretar Aurora, com Sissy Spacek no papel de Emma. As mudanças no elenco, no entanto, não poderiam ter sido mais certeiras. Apesar de estar no auge de seu vício em cocaína - e que a levava a constantes brigas com MacLaine - Debra Winger entrega uma atuação comovente e delicada como uma mulher aprisionada em uma vida doméstica insatisfatória que busca refúgio em uma relação extra-conjugal. Indicada ao Oscar de melhor atriz, Winger herdou o papel depois da recusa de Jodie Foster - que preferiu continuar estudando, à época - e está inesquecível principalmente em suas cenas finais, onde sua personagem se despede dos filhos. Difícil segurar as lágrimas.

Mas talvez o maior mérito de “Laços de ternura” seja o de equilibrar brilhantemente o humor e o drama. O terço inicial do filme tem estrutura de uma leve comédia familiar, que aos poucos vai tornando-se um drama sentimental e quase piegas. Nas mãos de atores menos competentes e experientes provavelmente o filme descambaria para um novelão. No entanto, Brooks tem a seu favor um elenco impecável e em dias inspirados. Como mãe e filha, Shirley MacLaine e Debra Winger formam uma dupla de ouro, capazes de passar suas emoções com veracidade e naturalidade. Coadjuvadas por Jack Nicholson (com uma personagem criada especialmente para o filme)e com um texto enxuto e bem escrito para trabalhar em cima não tinha como dar errado. Pode ser choroso, sentimentalóide e até exagerado, mas “Laços de ternura” é provavelmente um dos filmes mais honestos a respeito do relacionamento entre mãe e filha já feitos até hoje. E deu a Shirley MacLaine a oportunidade máxima de sua carreira, merecidamente premiada com um Oscar.

sábado

MUITO ALÉM DO JARDIM


MUITO ALÉM DO JARDIM (Being there, 1979, United Artists, 130min) Direção: Hal Ashby. Roteiro: Jerzy Kosinski, romance de sua autoria. Fotografia: Caleb Deschanel. Montagem: Don Zimmerman. Música: Johnny Mandel. Figurino: May Routh. Direção de arte/cenários: James Schoppe/Robert Benton. Casting: Lynn Stalmaster. Produção executiva: Jack Schwartzman. Produção: Andrew Braunsberg. Elenco: Peter Sellers, Shirley MacLaine, Melvyn Douglas, Jack Warden, Richard Dysart. Estreia: 19/12/79

2 indicações ao Oscar: Ator (Peter Sellers), Ator Coadjuvante (Melvyn Douglas)
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Melvyn Douglas)
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Ator/Comédia ou Musical (Peter Sellers), Coadjuvante (Melvyn Douglas)


Considerado por muitos como um dos maiores gênios do humor no cinema, o inglês Peter Sellers passava por uma fase difícil de sua carreira nos anos 70. Depois de muito sucesso com a série de filmes da "Pantera cor-de-rosa" (iniciada em 1964 e retomada com sucesso em 1975, 76 e 78) ele demorou anos para convencer um estúdio a realizar um de seus projetos de estimação, a adaptação para o cinema do romance "Being there", de Jerzy Kosinski. Foi apenas com sua ressurreição comercial (com o filme "A vingança da pantera cor-de-rosa") que ele finalmente conseguiu tirar do papel a melancólica e quase surreal história de um jardineiro tido como gênio. Elogiado unaninemente pela crítica, o filme do autoral Hal Ashby acabou tornando-se um dos últimos trabalhos do genial ator, que morreu menos de um ano depois da estreia do filme nos cinemas americanos. Seu canto do cisne lhe deu uma última e merecida indicação ao Oscar de melhor ator.

Em uma inspirada e cuidadosa atuação, Sellers vive, em "Muito além do jardim" , uma das personagens mais sensíveis de sua carreira. Chance é um jardineiro quase obtuso, um homem que vive cercado de suas plantas e de seu aparelho de televisão, as duas paixões de sua vida. Chance não sabe ler, nem escrever nem manter uma conversa mais articulada, além de não ter nenhum registro oficial e não tem a menor noção de uma existência fora da mansão onde foi criado. Quando seu patrão morre, ele se vê, inesperadamente, frente a um universo absolutamente novo e com o qual não tem a menor noção de como lidar. Por obra do acaso, ele é atropelado pela limousine de Eve Rand (Shirley MacLaine), a esposa de um industrial milionário que está às portas da morte. Levado para o casarão onde o casal mora, servido por inúmeros empregados, ele conquista a todos com seu jeito calado e discreto. Suas frases - todas tiradas de programas de TV - e até mesmo seu silêncio constrangido são tidos como geniais tanto por Eve e seu marido Benjamin (Melvyn Douglas) quanto pelo próprio presidente dos EUA (Jack Warden), amigo da família. Aos poucos, Chance começa a influenciar a todos a sua volta, inclusive despertando a paixão de uma carente Eve.


"Muito além do jardim" é uma espécie de precursor de "Forrest Gump", uma vez que assim como no filme de Robert Zemeckis, o protagonista é um homem de QI abaixo do normal que consegue atingir um nível de sucesso inesperado. Ao contrário da obra estrelada por Tom Hanks, no entanto, o humor do filme de Ashby é muito menos óbvio, menos popular, digamos assim. Ao optar por um estilo mais sóbrio de fazer comédia, o roteiro escrito pelo mesmo autor do romance que o originou, Jerzy Kosinski, foge das gargalhadas e percorre um caminho mais denso e crítico. Simbólico ao extremo, é um trabalho tão rico em possibilidades de compreensão que dificilmente estaria em uma lista das maiores bilheterias da história. Quem se dispuser a assistí-lo, no entanto, pode ter uma grata surpresa.

Não é preciso dizer que o ritmo imposto por Ashby à sua narrativa é menos ágil do que se espera de uma comédia. Devagar e sem impor ao público uma edição veloz, ele dá a exata noção do comportamento de seu protagonista, um homem preso a um mundo particular, com seus próprios interesses e que é totalmente alheio ao que se passa a seu redor. Ironia é a palavra que melhor define o humor de "Muito além do jardim", que critica de forma não muito velada a mediocridade americana (e por que não mundial?) quando o assunto é escolher seus gurus e/ou ídolos. Buscando inspiração em "O idiota", de Dostoievsky, o filme final de Peter Sellers é uma espécie de alerta contra o conformismo, mas realizado de forma elegante e altamente simbólica.

"Muito além do jardim" não é um filme que seja citado corriqueiramente nas listas dos melhores, nem da crítica (que o elogiou muito em seu lançamento) e tampouco do público, que praticamente o relegou a um quase esquecimento. Mas tem uma inteligência e uma sutilezas raras, além de ser um belo testamento legado por um dos grandes atores de sua geração.

domingo

MOMENTO DE DECISÃO


MOMENTO DE DECISÃO (The turning point, 1977, 20th Century Fox, 119min) Direção: Herbert Ross. Roteiro: Arthur Laurents. Fotografia: Robert Surtees. Montagem: William Reynolds. Figurino: Tony Faso, Albert Wolski. Direção de arte/cenários: Albert Brenner/Marvin March. Casting: David Graham, Juliet Taylor. Produção executiva: Nora Kaye. Produção: Arthur Laurents, Herbert Ross. Elenco: Shirley MacLaine, Anne Bancroft, Tom Skerrit, Leslie Browne, Mikhail Baryshnikov, Martha Scott, Alexandra Danilova. Estreia: 14/11/77

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Herbert Ross), Atriz (Anne Bancroft, Shirley MacLaine), Ator Coadjuvante (Mikhail Baryshnikov), Atriz Coadjuvante (Leslie Browne), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Direção de arte, Som
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Herbert Ross)


No início de 1978, o cineasta americano Herbert Ross se viu em uma situação um tanto rara em seu meio, ainda que de certa forma bastante agradável. Seus dois trabalhos lançados no ano anterior concorriam ao Oscar de Melhor Filme, tornando-o rival dele mesmo. A comédia romântica "A garota do adeus" deu o prêmio de melhor ator a Richard Dreyfuss, enquanto sua maior aposta, o drama familiar "Momento de decisão" saiu da cerimônia de mãos abanando, apesar de suas generosas 11 indicações à estatueta. No entanto, sua fragorosa derrota - que faz dele, até hoje, empatado com "A cor púrpura", de Steven Spielberg, o maior perdedor da história do Oscar - no entanto, não espelha suas inúmeras qualidades. Tivesse tido mais sorte na noite que consagrou Woody Allen e seu "Noivo neurótico, noiva nervosa", o filme de Ross certamente estaria eternizado como um dos mais consistentes dramas sobre os bastidores do balé, mesmo que o utilize apenas como pano de fundo de uma história humana e envolvente.

Escrito por Arthur Laurents (o mesmo roteirista de "Nosso amor de ontem"), "Momento de decisão" conta a história de duas mulheres de mundos aparentemente diferentes mas que possuem dentro delas muito mais em comum do que aparentam. Shirley MacLaine (deixando de lado o frescor juvenil de filmes como "Se meu apartamento falasse") vive Deedee Rodgers, uma dona-de-casa que abandonou uma promissora carreira como bailarina profissional para dedicar-se à família. Ao lado do marido (Tom Skerrit), cuida de uma escola de dança, enquanto vê o tempo passar e os filhos - dois dos quais também nutrem a mesma paixão pelo balé - crescerem. Sua amiga de juventude, Emma Jacklin (Anne Bancroft, elegantíssima e a excelente atriz de sempre) é exatamente seu contrário. Ao abdicar da vida pessoal para cuidar da carreira, tornou-se uma admirada, famosa e invejada bailarina, protagonista dos maiores clássicos coreografados para os palcos. Quando as duas se reencontram, o conflito se instala logo que as doces lembranças começam a realmente soar como lembranças; Emilia (Leslie Browne) é aceita na companhia de Emma e resolve morar em Nova York. Temerosa com essa mudança tão radical na vida da filha, Deedee decide acompanhá-la, mas a proximidade com seu passado e com Emma a faz questionar suas escolhas, o que leva as duas a uma dura batalha emocional pelo amor e pela atenção da adolescente.


É notável a maneira com que Laurents consegue equilibrar os dois polos de seu roteiro sem torná-lo maniqueísta ou apelar para o dramalhão choroso. Suas duas protagonistas soam verdadeiras e honestas, sem o ranço dos melodramas familiares que poluem as telas de cinema em busca de premiações. Deedee é uma mulher realizada com sua vida familiar, mas que não consegue deixar de lado as dúvidas sobre a opção que fez para seu futuro, principalmente quando surge diante de seus olhos um dèja-vu de sua história, protagonizado por sua filha. Emma, por sua vez, atingiu o ápice de sua carreira, o máximo de sucesso que poderia almejar, mas esbarra no beco sem saída de um amanhã incerto quanto à dança e solitário quanto a relações familiares. Entre as duas, no epicentro do furacão, Emilia tenta seguir seu próprio caminho, que se complica quando ela se apaixona por Yuri (Mikhail Baryshnikov), um bailarino russo com quem divide os palcos e suas primeiras noites.

"Momento de decisão" tinha tudo para ser um daqueles filmes lacrimosos que testam a paciência do espectador. Mas Herbert Ross não foi indicado ao Oscar à toa. Contando com o estofo de suas grandes atrizes centrais (Audrey Hepburn chegou a cobiçar o papel que ficou com Anne Bancroft), ele criou uma história sobre sonhos destruídos, segundas chances e a força inquebrável da amizade sem abusar dos clichês que tinha à disposição. O clímax poderoso - que acontece logo depois dos belíssimos números musicais que contam inclusive com a participação da brasileira Marcia Haydée - apenas comprova a força de sua trama e de seu elenco. Elegante, sofisticado mas nunca chato ou aborrecido, é um filme que merece uma revisão, nem que seja para que seja feita justiça a sua dupla principal.

segunda-feira

INFÂMIA


INFÂMIA (The children's hour, 1961, United Artists, 107min) Direção: William Wyler. Roteiro: John Michael Hayes, baseado na peça teatral de Lillian Hellman. Fotografia: Franz F. Planer. Montagem: Robert Swink. Música: Alex North. Produção: William Wyler. Elenco: Audrey Hepburn, Shirley MacLaine, James Garner, Fay Bainter, Miriam Hopkins, Karen Balkin, Veronica Cartwright. Estreia: 19/12/61

5 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Fay Bainter), Fotografia P&B, Figurino, Direção de Arte, Som

Aqueles que acham que o mal escondido na infância tem em Macaulay Culkin em "O anjo malvado" seu maior representante - sem mencionar Demian e afins por razões óbvias - merece conhecer Mary Tilford, interpretada pela jovem Karen Balkin em "Infâmia". Tudo bem que a personagem de Culkin chega ao extremo do homicídio, mas o filme de Joseph Reuben é tão perto da realidade quanto os brasileiros representados em filmes de Hollywood. Em "Infâmia", pelo contrário, a maldade da personagem infantil é mais sutil, mas nem por isso menos perniciosa e destruidora. Um filme sobre os efeitos da mentira, "Infâmia" é uma obra-prima do drama psicológico, dirigida com maestria por William Wyler e estrelado pelas excepcionais Audrey Hepburn e Shirley MacLaine.

Depois de ganhar o Oscar de diretor por "Ben-hur" (assim como outras 10 estatuetas), Wyler estava em alta em Hollywood e não deixa de ser uma prova de sua coragem a opção por refilmar "Infâmia", que ele mesmo havia dirigido em 1936, com Merle Oberon e Miriam Hopkins nos papéis principais. Coragem porque, mesmo no início dos anos 60, um dos assuntos discutidos no roteiro não era exatamente palatável ao público médio nem tampouco agradava o Código de Censura que regia a produção cinematográfica: lesbianismo.

A peça "Infâmia" (cujo título original, bem menos sensacionalista, "The children's hour" saiu de uma poesia de Henry Wadsworth Longfellow) foi escrita por Lillian Hellman em 1934. Hellman (aquela mesma escritora e dramaturga que foi casada com Dashiel Hammett e interpretada por Jane Fonda no filme "Julia", de 1977) também roteirizou a primeira versão do filme, excluindo as menções à sexualidade das personagens, mas não ficou particularmente chateada por entender que o cerne da peça mantinha-se intacto. Não estava de toda errada, uma vez que são as consequências de uma falsa acusação que são o ponto principal do enredo, mas é pouco provável que a versão original seja tão forte e contundente quanto sua refilmagem.

Para o filme de 1961, Wyler contou com um roteiro de John Michael Hayes (que escreveu alguns dos melhores Hitchcock dos anos 50, "Janela indiscreta" entre eles). Sem medo de qualquer censura, Hayes não disfarçou o tom pessimista do trabalho de Hellman nem usou de subterfúgios para contar a trágica história de duas mulheres que tem suas vidas transformadas (para pior) devido a uma mentira contada de forma inconsequente.

Karen Wright (Hepburn, em seu último filme em preto-e-branco) e Martha Dobie (MacLaine, em extraordinária atuação) são amigas íntimas desde os 17 anos, e dividem a direção de uma escola para meninas localizada na Nova Inglaterra. Tentando dar a melhor educação possível a suas alunas, elas frequentemente entram em rota de colisão com a rebelde Mary Tilford (Karen Balkin), uma garota mimada, intransigente e de caráter duvidoso. Para vingar-se das professoras, que a haviam deixado de castigo, ela conta à sua avó milionária, Amelia Tilford (Fay Bainter) que testemunhou atos estranhos entre as duas, deixando bem claro para a velha senhora que existe um relacionamento amoroso entre elas. Chocada, Amelia - cujo sobrinho, o médico Joe Cardin (James Garner) é noivo de Karen - espalha a notícia e logo a escola está às moscas. Nem mesmo um julgamento por difamação consegue salvá-las da discriminação do povo da cidade, uma vez que não há testemunhas que possam desmentir a acusação da menina.


A força de "Infâmia" está principalmente em sua espinha dorsal: uma mentira que destrói inexoravelmente vidas inocentes. A acusação de Mary não apenas acaba com o sonho da escola, mas também abala o relacionamento de Karen e Joe e, pior ainda, suscita dúvidas cruéis na própria Martha, que se vê repentinamente frente a uma situação que tentava desesperadamente esconder. Quando a verdade finalmente vem à tona, tudo parece já estar destruído, sem chance de retorno: a sombra da dúvida e do escândalo sempre estará impedindo um futuro realmente luminoso e a tragédia que se anuncia na segunda metade do filme comprova de maneira dolorosa a potência destrutiva de uma calúnia.

Mas William Wyler não teria tido o mesmo sucesso em "Infâmia" se não fosse a certeira escalação de seu elenco. Apesar dos boatos que diziam que Doris Day havia sido sondada para viver uma das protagonistas (o que tornaria a polêmica ainda mais saborosa, haja visto a fama de moça de família de Day) não é fácil imaginar outras atrizes mais perfeitas para a dupla central. Audrey Hepburn, com seu jeitinho de mulher de classe, delicada, frágil é o contraponto exato à fortaleza que é Shirley MacLaine, em uma atuação que a distancia da sensível Fran Kubelik de "Se meu apartamento falasse", lançado um ano antes por Billy Wilder. Dona dos diálogos mais intensos do filme, MacLaine emociona, indigna e conquista com uma personagem dividida entre manter em segredo seus sentimentos e uma mulher apaixonada que explode quando não encontra mais meios de esconder-se. Não é à toa que é justamente Martha Dobie quem acaba se tornando a maior vítima da situação, por encontrar-se em um caminho sem volta em direção ao preconceito (vale lembrar que a peça foi escrita em 1934, muito antes que surgissem os movimentos gays organizados).

Não há como assistir-se a "Infâmia" e ficar incólume à sua mensagem. É impressionante a modernidade de sua narrativa, a delicadeza de sua direção e a intensidade de seu elenco. Tão atual hoje quanto há 50 anos, é um filme que merecia ser obrigatório em qualquer curso de ética e cidadania.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...