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quinta-feira

ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD


ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD (Once upon a time in... Hollywood, 2019, Sony Pictures, 161min) Direção e roteiro: Quentin Tarantino. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Fred Raskin. Figurino: Arianne Phillips. Direção de arte/cenários: Barbara Ling/Nancy Haigh. Produção executiva: Jeffrey Chan, Georgia Kacandes, Yu Dong. Produção: David Heyman, Shannon McIntosh, Quentin Tarantino. Elenco: Leonardo DiCaprio, Brad Pitt, Margot Robbie, Emile Hirsch, Margaret Qualley, Timothy Olyphant, Dakota Fanning, Bruce Dern, Al Pacino, Luke Perry, Costa Ronin, Lena Dunham, Kurt Russell, Rafal Zawierucha, Damon Herriman. Estreia: 21/5/2019 (Festival de Cannes)

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Quentin Tarantino), Ator (Leonardo DiCaprio), Ator Coadjuvante (Brad Pitt), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários. Edição de Som, Mixagem de Som

Vencedor de 2 Oscar: Ator (Brad Pitt), Direção de Arte/Cenários

Vencedor de 3 Golden Globe Melhor Filme Comédia/Musical, Ator Coadjuvante (Brad Pitt), Roteiro

Foi na madrugada de 6 de agosto de 1969 que um crime - violento e chocante em sua gratuidade - acabou, segundo a escritora Joan Didion, com o movimento hippie, a era do amor livre e a atmosfera dos anos 60 como um todo. Um grupo de seguidores do messiânico Charles Manson invadiu a casa da atriz Sharon Tate, grávida de oito meses do cineasta Roman Polanski (em alta com o sucesso de seu "O bebê de Rosemary", lançado no ano anterior) e a assassinou, juntamente com um grupo de amigos, deixando no local uma série de detalhes macabros que alimentaram as manchetes dos jornais por meses a fio. A investigação do crime, a prisão dos responsáveis e o julgamento midiático ocuparam a mente do mundo - e em especial dos EUA - por anos e ainda permanecem como uma lembrança trágica de uma época encerrada abruptamente com um banho de sangue. O trauma foi tanto que demorou meio século para que um grande estúdio de Hollywood finalmente rompesse o silêncio a respeito do assunto - e mesmo assim somente com o aval de um nome de prestígio, com coragem o suficiente para mexer em um vespeiro mantido sob uma redoma de respeito pelos envolvidos e pelo medo de um fracasso de bilheteria. Foi somente quando Quentin Tarantino anunciou que seu filme seguinte ao western "Os oito odiados" (2016) teria Sharon Tate como uma de suas personagens principais que a história (até então contada mal e porcamente em documentários e telefilmes de pouca repercussão) voltou a povoar o imaginário mundial - e despertar uma curiosidade que só fez aumentar conforme chegava a data de estreia.

Pensando em marcar a estreia de "Era uma vez em... Hollywood" para 6 de agosto de 2019, data em que o crime completaria 50 anos, Tarantino foi voto vencido quando a Sony Pictures - que ganhou os direitos de distribuição em uma disputa acirradíssima com a Warner, a Universal, a Paramount, a Lionsgate e Annapurna Pictures - preferiu adiantar a data para 26 de julho, pouco mais de dois meses depois do lançamento da produção no Festival de Cannes. Até que tal evento acontecesse, porém, muito foi dito, inventado, polemizado e misteriosamente escondido a respeito do filme. Com um roteiro secreto (lido apenas por parte da equipe de filmagem, como forma de evitar os dissabores que quase cancelaram "Os oito odiados" depois do vazamento de seu script) e notícias que chegavam aos poucos, "Era uma vez em... Hollywood" já era, muito antes de chegar às telas, uma das produções mais comentadas e esperadas da temporada - por inúmeras razões. Além do marketing espontâneo que qualquer trabalho de Tarantino gera, não era nada mal ter Brad Pitt e Leonardo DiCaprio nos papéis principais em uma trama que misturava, da forma como apenas o cineasta consegue fazer sem soar prolixo, a trajetória de Sharon Tate, a desilusão de um astro da antiga indústria com os novos tempos, a decadência de um gênero específico (o western), bastidores do cinema pelos olhos de um dublê e diálogos preciosos. Tido por Tarantino como seu filme mais pessoal - algo como "Roma" foi em relação a Alfonso Cuarón - e escrito em um período de cinco anos (nos quais o cineasta também o transformou em um romance, lançado em seguida à estreia), "Era uma vez em... Hollywood" provou que a espera valeu a pena, tanto em termos artísticos quanto comerciais. Com uma renda internacional que ultrapassou os 370 milhões de dólares, dez indicações ao Oscar (e duas categorias no bolso), o filme pode até não ter agradado a todo mundo - algo corriqueiro na filmografia de Tarantino -, mas é, inegavelmente, uma das obras cinematográficas mais importantes de seu tempo.


 Com um título inspirado em Sergio Leone e seus "Era uma vez no Oeste" (1968) e "Era uma vez na América" (1984), o nono filme de Tarantino - se as duas partes de "Kill Bill" forem consideradas apenas um único projeto - quase foi realizado em preto-e-branco e poderia ter estreado com uma duração de 4 horas e 20 minutos. Mas cinema é uma arte de concessões e do jeito que está, o filme é uma pequena obra-prima (mais uma na carreira do Tarantino diretor ). Tudo funciona perfeitamente - até mesmo o que parece gratuito tem ressonâncias bem mais profundas do que aparenta. Por trás dos longos diálogos (característica inconfundível do Tarantino roteirista) e das referências que podem soar como grego ao público médio, a trama é uma pérola de nostalgia, melancolia e pitadas generosas de uma ironia tão fina que pode até passar despercebida - ao menos até o clímax, tão inesperado e surpreendente que foi objeto de um pedido especial dos realizadores para que não fosse comentado pela imprensa ou pela plateia. Justificável: assim como em "Bastardos inglórios" (2009), Tarantino rege seu próprio universo, manda em seus próprios domínios, subverte as próprias regras e a história, se for preciso. Longe de desagradar aos puristas, encontra uma maneira de fazer com que a magia do cinema sempre se sobressaia - e sublinhe seu talento em encantar e decepcionar com a mesma intensidade.

O filme se passa em 1969, quando a Era de Ouro de Hollywood está em seus estertores. Longe de ainda ter a relevância que tinha na década de 1950, quando estrelava populares séries de western na televisão, Rick Dalton (vivido por Leonardo DiCaprio) paira sob uma Los Angeles a que mal reconhece, tentando encontrar uma maneira de manter uma carreira já tida como acabada. Vizinho do cineasta Roman Polanski (praticamente um símbolo de uma nova indústria, moderna e jovem), Dalton luta contra o próprio instinto de autodestruição enquanto relembra seus melhores momentos, ao lado de grandes atores e cercado de respeito e adulação. Invariavelmente acompanhado de seu dublê, Cliff Booth (Brad Pitt, vencedor do Oscar de ator coadjuvante) - bem mais confortável com as novas regras do jogo, a ponto de quase deixar-se envolver com um grupo de hippies bem mais jovens -, o ex-astro vê, aos poucos, uma nova Hollywood surgir diante de seus olhos. Enquanto isso, sua deslumbrante vizinha, Sharon Tate (Margot Robbie), começa a sentir o gostinho da fama e vislumbrar um brilhante futuro, tanto na carreira quanto na vida doméstica. Com visões distintas de sua época e de sua profissão, Dalton e Tate terão suas vidas cruzadas de forma totalmente inesperada e violenta.

Lançado no mesmo Festival de Cannes que 25 anos antes deu a Tarantino a Palma de Ouro e o aval necessário para que se tornasse um dos autores mais prestigiados do cinema norte-americano, "Era uma vez em... Hollywood" não saiu ileso a críticas e polêmicas. Se Debra Tate, irmã de Sharon, viu sua resistência ao projeto ruir ao encontrar Margot Robbie e reconhecer nela qualidades que a faziam lembrar da saudosa atriz, o mesmo não pode ser dito em relação às queixas de Shannon Lee, filha do ator Bruce Lee que não achou graça nenhuma na forma como o roteiro retratou seu pai - bastou uma única sequência para que Shannon considerasse tudo um insulto à memória do ator. Também foi alvo de críticas as liberdades artísticas tomadas pelo cineasta em relação à uma trama crucial para o roteiro: ao criar personagens novos na famigerada Família Manson (ou mesclar personagens reais com fictícios), Tarantino incomodou os puristas que esperavam uma descrição real dos crueis fatos de 6 de agosto de 1969 - que não tiveram interesse em perceber as reais intenções do diretor ao unir a realidade (ainda que alterada) com a fantasia: "Era uma vez em... Hollywood" não é um documentário sobre os assassinatos cometidos naquela fatídica noite - é uma comédia dramática sobre a união de dois mundos, sobre os meandros do destino e sobre a inexorabilidade do tempo até mesmo dentro de um universo que vende fantasia. É um filme com a cara de seu diretor - para o bem ou para o mal - e uma inteligente homenagem a uma atriz cujo futuro foi interrompido pela força do fanatismo. Como qualquer filme de Tarantino, não é para todos os públicos. Mas é sensacional!

sexta-feira

ECLIPSE DE UMA PAIXÃO

ECLIPSE DE UMA PAIXÃO (Total eclipse, 1995, FIT Productions/Portman Productions, 111min) Direção: Agnieszka Holland. Roteiro: Christopher Hampton. Fotografia: Yorgos Arvanitis. Montagem: Isabel Lorente. Música: Jan A.P. Kaczmarek. Figurino: Pierre-Yves Gayraud. Direção de arte/cenários: Dan Weil/Françoise Benoit-Fresco. Produção executiva: Staffan Ahrenberg, Jean-Yves Asselin, Pascale Faubert. Produção: Jean-Pierre Ramsay Levi. Elenco: Leonardo DiCaprio, David Thewlis, Romane Bohringer, Dominique Blanc. Estreia: 03/11/95

No final de 1995, o muito jovem Leonardo DiCaprio já havia sido indicado ao Oscar de coadjuvante por "Gilbert Grape - aprendiz de sonhador" (1993) e caminhava para tornar-se o galã da vez do público adolescente, graças ao sucesso de "Romeu + Julieta" (1996) e principalmente "Titanic" (1997). Antes, porém, de ser rotulado como o melhor ator de sua geração (a despeito da febre que se tornou sua presença), ele parecia já saber que uma das maiores qualidades de um artista é a coragem para embarcar em projetos considerados "perigosos". Sem desconfiar que sua imagem estava em vias de decorar as paredes juvenis do mundo inteiro, ele apostou em uma produção polêmica que dificilmente seria a escolha de atores menos autoconfiantes. Em "Eclipse de uma paixão", dirigido pela polonesa Agniesza Holland, ele viveu um dos mais viscerais poetas da história, o francês Arthur Rimbaud. Assim como ídolos do rock, Rimbaud tinha um comportamento selvagem e iconoclasta, misturava álcool e drogas enquanto produzia sua obra e, talvez o fator mais polêmico para uma plateia conservadora, mergulhava em um romance homossexual obsessivo com Paul Verlaine, outro poeta célebre, mais velho, casado e esperando o primeiro filho.

O papel de Rimbaud - complexo e pouco simpático - teria sido de River Phoenix, caso o jovem astro em ascensão não tivesse morrido precocemente em outubro de 1993. Assim como Phoenix, DiCaprio também já se caracterizava por buscar desafios e desafiar a trajetória que se esperava de um ator com pretensões de estrelato. Enquanto os atores em começo de carreira fugiam como o diabo da cruz de papéis de gays, DiCaprio enfrentou o desafio com um personagem que, não bastasse ser homossexual - um perigo para a carreira de qualquer um -, ainda era egoísta, pouco afeito a regras de convivência social e rebelde como qualquer astro de rock seria mais de um século depois. Fugindo do arquetípico gay de Hollywood - doce, afável e frequentemente servindo de alívio cômico -, Rimbaud já seria um desafio suficiente para um ator experiente: nas mãos de DiCaprio, já um bom ator mas ainda precisando ser lapidado pelo tempo, o personagem soa muitas vezes desagradável e arrogante. Ou seja, tinha todas as características que atormentavam qualquer ator que prezasse por seus cachês milionários. Corajoso, DiCaprio já fazia antever o excelente ator que se tornaria com a idade, mas, vez ou outra, apresenta uma atuação um tanto exagerada. Culpa dele, do personagem excêntrico ou da direção?


Agnieszka Holland entende de polêmicas. Em 1990 ela lançou o controverso "Filhos da guerra" e foi rechaçada pelo governo e pela mídia alemãs, que não gostaram de ver na tela uma história que o país preferiria esquecer (o filme falava sobre um jovem germânico se fazendo passar por judeu na II Guerra Mundial). Quem assistiu ao filme - e foram muitos espectadores, uma vez que ele tornou-se um grande sucesso de bilheteria nos EUA e foi premiado com o Golden Globe de melhor produção estrangeira - pode perceber a sensibilidade da cineasta em tocar em assuntos delicados. Algo em "Eclipse de uma paixão", porém, não deu assim tão certo. Mesmo com um roteirista competente - Christopher Hampton, oscarizado por "Ligações perigosas", de 1988 - e atores talentosos, seu filme falha em conquistar o espectador. Com protagonistas francamente desagradáveis (Rimbaud é retratado como um moleque irascível e Verlaine como um homem capaz de espancar a esposa grávida) e pouca atenção dada a seus poemas, o filme parece estar mais interessado no romance gay do que no talento dos dois poetas. O roteiro de Hampton, inclusive, aposta mais na obsessão entre os dois do que em qualquer outro aspecto possível. Cabe então a DiCaprio e Thewlis (substituindo John Malkovich, o primeiro a ser cogitado para o papel) minimizar os estragos, mas nem mesmo eles conseguem deixar seus personagens menos desprezíveis.

"Eclipse de uma paixão" se passa na Paris do século XIX: o renomado poeta Paul Verlaine convida o talentoso e iniciante Arthur Rimbaud para passar uma temporada em sua casa, junto a ele e sua esposa, Mathildte (Romane Bohring), grávida do primeiro filho do casal. Encantado com o trabalho do jovem escritor, Verlaine logo se vê atraído por um novo estilo de vida, boêmia e irresponsável. Ao lado de Rimbaud, ele passa a frequentar a noite parisiense e mergulha no alcoolismo, para angústia de Mathiltde. As coisas ficam ainda piores quando mentor e aprendiz transformam a amizade em romance: obcecado pela jovialidade e coragem de Rimbaud, Verlaine arrisca o casamento, a carreira e o renome para assumir uma história não apenas de amor, mas também de dor e violência. Ao enfatizar os atos inconsequentes de seus personagens, o roteiro simplesmente deixa de lado o que talvez seja o mais importante: cadê a poesia de Rimbaud e Verlaine? Por mais que seja atraente viajar pelos bastidores da criação literária dos dois protagonistas, há um vácuo imperdoável quando o espectador acaba a sessão sabendo mais sobre suas vidas pessoais do que sobre sua importância para a poesia francesa e mundial. "Eclipse de uma paixão" é, portanto, bem mais sensacionalista do que informativo. Era de se esperar mais de todo o conjunto!

quinta-feira

DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE

DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE (The Basketball Diaries, 1995, New Line Cinema, 102min) Direção: Scott Kalvert. Roteiro: Bryan Goluboff, livro de Jim Carroll. Fotografia: David Phillips. Montagem: Dana Congdon. Música: Graeme Revell. Figurino: David C. Robinson. Direção de arte/cenários: Christopher Nowack/Harriet Zucker. Produção executiva: Chris Blackwell, Dan Genetti. Produção: Liz Heller, John Bard Manulis. Elenco: Leonardo DiCaprio, Mark Wahlberg, Lorraine Bracco, Bruno Kirby, James Madio, Patrick McGaw, Juliette Lewis. Estreia: 27/01/95 (Festival de Sundance)
 
Quando "Diário de um adolescente" estreou, no Festival de Sundance de 1995, Leonardo DiCaprio já tinha no currículo uma indicação ao Oscar de coadjuvante - pelo filme "Gilbert Grape: aprendiz de sonhador" (1993) - mas ainda não era o ídolo juvenil no qual se tornou após o sucesso de "Romeu + Julieta" (1996) e "Titanic" (1997). Isso explica porque o filme de Scott Kalvert não arrebentou nas bilheterias e chamou muito mais a atenção da crítica do que do público. Baseada em um cultuado livro de Jim Carroll - adorado pelo ator River Phoenix, por exemplo, que, segundo boatos, era um nome considerado para o papel central -, a produção serviu principalmente para confirmar que DiCaprio já era, ainda bastante jovem, um ator muito acima da média. Mesmo que nem sempre ele consiga escapar do exagero em alguns momentos de sua atuação, na pele do rebelde e desajustado Jim ele se sobressai a ponto de mal dar espaço aos companheiros de cena - dentre os quais estão Juliette Lewis (em uma participação especial como uma prostituta juvenil) e Mark Wahlberg (começando na carreira de ator depois da consagração como o rapper Marky Mark e das campanhas de cuecas Calvin Klein).

Publicado em 1978 e imediatamente alçado a cult, o livro de memórias de Jim Carroll - que faz uma participação especial no filme, em uma cena com DiCaprio - virou também um símbolo da contracultura, com sua descrição corajosa e sem romantismo de uma adolescência regada a drogas, bebida, prostituição e contravenções pesadas. Sua adaptação tem o mérito de tentar manter-se fiel ao estilo iconoclasta de Carroll, mas a inexperiência do cineasta em longas-metragens faz com que sua estrutura quase episódica afaste o público de um envolvimento maior com seu protagonista, um jovem francamente pouco simpático que apenas o carisma de Leonardo DiCaprio consegue deixar menos desagradável. Jim é um rapaz que vive sozinho com a mãe (Lorraine Bracco), em um bairro barra pesada de Nova York. Apesar das dificuldades financeiras, estuda em um bom colégio, faz parte do time de basquete e leva uma vida cujos maiores sobressaltos dizem respeito a suas aventuras com um grupo de amigos que, assim como ele, passam o dia provocando autoridades (pais, professores, treinador) em busca de adrenalina. Essa busca acaba levando Jim aos braços da heroína e à decadência física e moral - tudo devidamente registrado em seus escritos pessoais, que descrevem todas as sensações de sua viagem ao inferno.





Vindo do universo dos videoclipes (vários de Marky Mark, inclusive, além de trabalhos com Cyndi Lauper, New Kids on the Block e Rod Stewart), o diretor Scott Kalvert é, como se poderia esperar, mais afeito às imagens do que às palavras, o que lhe permite criar algumas sequências bastante criativas visualmente - especialmente nos delírios do protagonista, que vão desde chacinas no ambiente escolar até alucinações causadas pela abstinência. DiCaprio se esforça em transmitir todas as nuances de seu complexo personagem, mas nem sempre a direção de Kalvert consegue atingir todas as possibilidades dramáticas do texto de Carroll. Explorando ao máximo a fotografia crua e sem glamour de David Phillips, o cineasta despe Nova York de qualquer beleza ou charme, desviando sua câmera para becos sujos, ruas mal iluminadas e paisagens pouco convidativas. Fugindo ao máximo de qualquer traço de sentimentalismo, ele só se curva à emoção nas cenas de Jim com seu melhor amigo, Bobby (Michael Imperioli), que está morrendo de leucemia no hospital: antes de seu casamento com as drogas pesadas, são os únicos momentos em que o protagonista dá mostras de ser menos do que um adolescente irascível e desagradável - uma característica que dificulta a empatia da plateia e quase prejudica o filme como um todo.

Realizado com coragem e verdade, "Diário de um adolescente" peca, apesar disso, pelo fato de não apresentar nada de novo em relação a seu tema principal. A trajetória de Jim rumo ao fundo do poço pode ter sido lançada antes dos junkies niilistas de "Trainspotting: sem limites" (1996), mas está longe de ser novidade para o público que testemunhou o pesadelo de Christiane F. no filme alemão de 1981 - este sim um petardo chocante e angustiante em sua realidade nua. Com uma direção mais firme - que explorasse o talento de DiCaprio e controlasse seus excessos de iniciante - e uma produção que soasse menos amadora, o filme seria inesquecível. Como está, é um bom cartão de visitas para o jovem ator e uma adaptação fiel de um clássico de seu tempo. Nada mal, mas aquém do que poderia ser.

sexta-feira

O REGRESSO

O REGRESSO (The revenant, 2015, Regency Enterprises, 156min) Direção: Alejandro González Iñárritu. Roteiro: Mark L. Smith, Alejandro González Iñárritu, livro de Michael Punke. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Stephen Mirrione. Música: Alva Noto, Ryuichi Sakamoto. Figurino: Jacqueline West. Direção de arte/cenários: Jack Fisk/Beauchamp Fontaine, Hamish Purdy. Produção executiva: Markus Barmettler, Jennifer Davisson, David Kanter, Philip Lee, Jake Myers, James Packer, Brett Ratner. Produção: Steve Golin, Alejandro González Iñárritu, Arnon Milchan, Mary Parent, Keith Redmon, James W. Skotchdopole. Elenco: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domnhall Gleeson, Lukas Haas, Thomas Guiry, Will Poulter, Forrestt Goodluck, Kristoffer Joner. Estreia: 16/12/15

12 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alejandro G. Iñárritu), Ator (Leonardo DiCaprio), Ator Coadjuvante (Tom Hardy), Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Maquiagem, Efeitos Visuais, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 3 Oscar: Diretor (Alejandro G. Iñárritu), Ator (Leonardo DiCaprio), Fotografia
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme (Drama), Diretor (Alejandro G. Iñárritu), Ator/Drama (Leonardo DiCaprio) 

As três estatuetas conquistadas por "O regresso" na cerimônia do Oscar 2016 são marcantes por si mesmas: Leonardo DiCaprio finalmente saiu-se vitorioso, para alívio dos fãs que clamavam por isso no mínimo desde "Titanic" (1997); Alejandro G. Iñárritu levou seu segundo prêmio consecutivo de diretor (depois do exótico "Birdman"); e Emmanuel Lubezki tornou-se a primeira pessoa a acumular três Oscar seguidos de fotografia. Mas, apesar de todas essas curiosidades, é preciso dizer que elas apenas refletem o que fica claro ao término de uma sessão: mais do que a epopeia de um homem em busca de sobrevivência e vingança e mais do que um filme feito com a intenção de arrebatar o Oscar, "O regresso" é a comprovação da tenacidade, da versatilidade e do talento de Iñárritu como homem de cinema. Completamente diferente de todos os seus filmes até então - boa parte deles ainda na fase de colaboração com o roteirista Guillermo Arriaga - e muito mais ambicioso do que eles, sua odisséia de som e fúria é uma impressionante tour de force, valorizada pelo trabalho irretocável de DiCaprio, por um visual estonteante e uma história quase inacreditável - mas que, por incrível que pareça, foi inspirada em fatos reais.

Contada no livro de Michael Punke (publicado no Brasil pela editora Intrínseca à época da estreia do filme no país), "O regresso" chegou aos cinemas com algumas alterações cruciais em relação à obra original, compreensíveis do ponto de vista narrativo - e de certa forma mais empolgantes do que seriam caso houvesse fidelidade total. A maior diferença entre livro (e realidade) e filme é a criação de Hawk (Forrest Goodluck), filho do protagonista Hugh Glass com uma índia e motivo de suas desavenças com parte de seu grupo de comerciante de peles, pouco afeitos à miscigenação racial: é a morte de Hawk que, no filme, empurra Glass em direção à vingança, sentimento que o mantém vivo apesar da série de acontecimentos trágicos pelos quais ele passa. Na verdade, não há nenhum registro de que Glass tenha sequer se casado, especialmente com uma indígena, apesar de proceder o fato principal da história: ele realmente foi deixado à própria sorte por seus companheiros depois de quase morrer atacado por um urso - e realmente foi atrás dos responsáveis por isso, enfrentando desafios impensáveis em um inverno particularmente gelado no ano de 1823. Para retratar a natureza em toda a sua magnitude (assim como sua violência involuntária), Iñárritu e Emmanuel Lubezki resolveram usar a luz natural o máximo possível - o resultado é deslumbrante, mas em compensação, tal capricho arrastou as filmagens por um período extremamente longo de nove meses, entre o Canadá e o sul da Argentina, e inchou o orçamento inicial (de 60 milhões de dólares) para 135 milhões, recuperados graças ao sucesso de bilheteria - quase surpreendente em se tratando de um filme razoavelmente difícil de vender - pelo mundo todo.


Seu sucesso comercial, no entanto (mais de 500 milhões arrecadados no total), deve-se, em grande parte, à presença de Leonardo DiCaprio, um ator tão talentoso quanto popular - e bastante inteligente na hora de escolher seus projetos. Para encarar as difíceis filmagens de "O regresso", que o esgotaram fisicamente e o obrigaram inclusive a sair de sua dieta vegetariana para encarar um pedaço de carne crua, o ator abriu mão de estrelar "Steve Jobs", dirigido por Danny Boyle: o papel ficou com Michael Fassbender, que, por ironia, disputou a estatueta da Academia com o próprio DiCaprio. Para ter DiCaprio em seu filme, Iñárritu também fez sacrifícios (ainda que muito bem recompensados): adiou o início da produção para que seu protagonista filmasse "O lobo de Wall Street" (2013) e realizou seu "Birdman" (2014), que lhe rendeu os Oscar de filme, direção e roteiro original. Comparado com a grandiosidade de "O regresso", a história do ator de cinema que busca a redenção artística produzindo teatro sério é quase minimalista: em nenhum momento de sua carreira até então o cineasta mexicano havia demonstrado uma pretensão artística tão grande, apesar da complexidade narrativa de alguns de seus trabalhos anteriores, como "Amores brutos" (2000), "21 gramas" (2003) e "Babel" (2006), todos em parceira com Arriaga. O fim de sua colaboração é sentida em "O regresso" - apesar de ser um filme de encher os olhos e prender a atenção até o final, falta a ele um elemento crucial: um roteiro mais coeso e claro (fato evidente por sua ausência na generosa lista de 12 indicações à estatueta dourada). É, por vezes, difícil acompanhar a história, contada em três linhas narrativas paralelas: nunca fica claro, por exemplo, os motivos das brigas entre índios e brancos, e tampouco as brigas dos indígenas entre si. É louvável que Iñárritu não coloque os índios como vilões sanguinários, mas sempre que o foco se desvia de Glass para as desavenças internas das tribos inimigas o filme perde força e ritmo.

Felizmente isso acontece poucas vezes, já que a trama é centrada basicamente em Hugh Glass: parte integrante de um grupo de comerciantes de peles animais no início do século XIV, ele é brutalmente atacado por um urso, que o deixa à beira da morte. Sem condições de carregá-lo de volta para casa, seu capitão, Andrew Henry (Domhnall Gleeson), propõe a três de seus homens que fiquem encarregados de cuidar dele - e dar-lhe um enterro digno quando chegar a hora. Os três homens que se dispõem a isso são o filho de Glass (o mestiço Hawk), o jovem Jim Bridger (Will Poulter) e o ambicioso John Fitzgerald (Tom Hardy) - o único dos três a aceitar a missão puramente por dinheiro. Não demora muito, porém, para que Fitzgerald seja flagrado por Hawk tentando matar Glass e o resultado é trágico: o rapaz é assassinado diante dos olhos do pai, que é enterrado vivo por Fitzgerald, que mente à Bridger a respeito de sua morte. Surpreendentemente vivo - depois de violentamente ferido pelo urso e esfaqueado por seu novo inimigo - Glass encontra forças para sair de sua cova e partir em busca de revanche, enquanto um grupo de índios Arikara procura a filha de seu chefe, sequestrada por um homem branco.

Iñárritu não poupa a plateia de sequências de tirar o fôlego - seja pela beleza natural dos cenários, magistralmente fotografados, seja pela violência extrema de algumas cenas. Amparado por uma atuação devastadora de Leonardo DiCaprio e um Tom Hardy assustador roubando todas as cenas em que aparece - sua indicação ao Oscar de coadjuvante foi absolutamente merecida -, "O regresso" é um filme empolgante, apesar de sua duração excessiva (provavelmente oriunda de seu desejo óbvio de ser um grande épico) que o torna um tanto cansativo, e de sua falha em criar uma conexão mais sólida entre o protagonista e o público: o diretor está tão interessado em mostrar que é capaz de provocar espanto com seu visual que deixa de lado o desenvolvimento dos personagens. Um pecado que até pode não incomodar àqueles que se deixam deslumbrar pelas belas imagens, mas que o impede de ser ainda maior. Ainda assim é um ponto alto na carreira de todos os envolvidos.

sábado

O LOBO DE WALL STREET

O LOBO DE WALL STREET (The wolf of Wall Street, 2013, Paramount Pictures, 180min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Terence Winter, livro de Jordan Belfort. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Thelma Schoonmaker. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Bob Shaw/Ellen Christiansen. Produção executiva: Danny Dimbort, Joel Gotler, Georgia Kacandes, Alexandra Milchan, Irwin Winkler, Rick Yorn. Produção: Riza Aziz, Leonardo DiCaprio, Joey McFarland, Martin Scorsese, Emma Tillinger Koskoff. Elenco: Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Matthew McConaughey, Kyle Chandler, Margot Robbie, Rob Reiner, Jon Bernthal, Jean Dujardin, Shea Whigham, Ethan Suplee. Estreia: 17/12/13

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Martin Scorsese), Ator (Leonardo DiCaprio), Ator Coadjuvante (Jonah Hill), Roteiro Adaptado
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Comédia/Musical (Leonardo DiCaprio)


Quando “O lobo de Wall Street”, 30º longa-metragem de Martin Scorsese – contando-se os documentários e sua participação no episódico “Contos de Nova York”, ao lado de Francis Ford Coppola e Woody Allen – foi classificado como comédia pelos jornalistas estrangeiros que elegem os vencedores dos cobiçados Golden Globes (que só perdem para o Oscar em termos de importância no mercado norte-americano), muita gente estranhou – até mesmo seu ator principal, Leonardo DiCaprio, que ganhou a disputa da estatueta em sua categoria. Porém, o que talvez poucos tenham notado é que, da maneira como foi filmada por Scorsese – no auge de uma energia aparentemente inesgotável – a trajetória de altos e baixos (mais altos do que baixos) do protagonista Jordan Belfort é, definitivamente, uma comédia. Histérica, cruel, de humor nigérrimo e pouco dada a concessões ao riso fácil, mas uma comédia. Das boas. E das mais inteligentes que se pode conceber em uma indústria tão dada a suscetibilidades pudicas quanto a de Hollywood.
A história de Belfort – contada em sua autobiografia, aqui adaptada com verve e extrema ironia por Terence Winter, merecidamente indicado ao Oscar – não é engraçada, pelo menos pelos parâmetros oficiais do termo: sua ascensão no mercado de ações, regada a muita droga, corrupção e orgias das mais variadas e sua queda vertiginosa rumo às malhas da lei, recheada de associações escusas e a perda da própria família, são contundentes e tão violentas quanto aquelas mostradas pelo mesmo Scorsese em “Os bons companheiros” (90), mas o cineasta nova-iorquino dessa vez resolveu optar por um caminho menos óbvio e linear de retratá-las. Sai de cena a crueldade sanguinolenta dos becos sórdidos do Bronx e entram em cena o luxo e o glamour de mansões paquidérmicas. A ameaça não é mais representada por rivais na disputa pela primazia no tráfico de drogas e sim por agentes da Receita Federal pouco afeitos a negociatas. A paranoia, consequência do abuso de tóxicos não mais assusta ou mata, e sim dá lugar a absurdas sequências de um humor tão negro que até mesmo os mais atentos espectadores demoraram a percebê-lo em sua totalidade. “O lobo de Wall Street” não faz rir através de piadas fáceis. É preciso embarcar em sua visão particular de comédia para chegar ao âmago de sua ironia iconoclasta e devastadora. Scorsese não quer arrancar gargalhadas apelando para a vulgaridade – e quando joga diante do espectador cenas explodindo de sexo e excessos de toda a espécie, é uma forma de, através de uma lente de aumento, sublinhar o quão patética a ambição e a decadência podem soar. Se no cinema do diretor nunca faltou descomedimento, em “O lobo de Wall Street” ele é ainda mais explícito e crucial. É um meio magistralmente manipulado para se chegar a um fim de inegável impacto e genialidade.
Deixando de lado a inocência de seu filme anterior, o poético e deslumbrante “A invenção de Hugo Cabret”, Martin Scorsese faz, em “O lobo de Wall Street” um inventário impiedoso e barulhento de toda a parafernália amoral e inescrupulosa da mais individualista do século XX, os insensíveis anos 80 que tão bem foram definidos por Gordon Geko, o personagem do oscarizado Michael Douglas em “Wall Street: poder e cobiça” (87): do alto de sua arrogância yuppie, ele declarava, com um sorriso cínico estampado, que “ganância é bom!”. E ganância é a palavra-chave na história de Jordan Belfort, interpretado na linha exata entre o deboche escrachado a fina ironia por um Leonardo DiCaprio no auge de sua colaboração com o diretor. Recebido em Wall Street como um rapaz ambicioso mas ainda ingênuo que escapa de ser devorado por homens como seu mentor Mark Hannah (Matthew McConaughey) graças a um apurado instinto de sobrevivência, Belfort se vê repentinamente no meio de uma crise financeira que o faz perder o emprego e quase aniquila com suas esperanças. Porém, utilizando-se dos conhecimentos adquiridos em sua rápida passagem pelo alto mercado financeiro, ele logo encontra um jeito de arrumar uma recolocação ainda mais promissora: em pouco tempo, ele passa de empregado de uma corretora de fundo-de-quintal (dirigida pelo também cineasta Spike Jonze em ponta não-creditada) a dono de uma empresa de ações. Desprovidos de qualquer tipo de ética, Belfort e seu sócio, Donnie (Jonah Hill, indicado ao Oscar de ator coadjuvante), junto com um grupo de amigos, tornam-se milionários da noite para o dia – e com os dólares em profusão vem também a possibilidade de queda.



Entregando-se sem medo a exorbitâncias materiais, sexuais e alucinógenas, Jordan abandona a esposa, casa-se com a bela Naomi LaPaglia (Margot Robbie) e, cada vez mais rico, chama a atenção da Receita Federal e do FBI, na figura do honesto e implacável Patrick Denham (Kyle Chandler). Começa, então, uma corrida para manter a salvo sua liberdade, sua reputação e principalmente sua fortuna. Em uma edição progressivamente mais ágil e febril – a cargo da habitual parceira de Scorsese, a veterana Thelma Schoonmaker, vencedora do Oscar por “Touro indomável” (80) e “Os infiltrados” (06) – o filme vai se tornando a cada cena mais histérico (no bom sentido) e alucinado. Brincando com o tempo de forma genial, Scorsese e Schoonmaker comprimem meses em rápidos segundos e se dão ao luxo de gastar vários minutos em uma única cena aparentemente simples – e ainda oferecem à plateia uma longa sequência e divertidíssima sequência em que Belfort, sentindo o resultado de uma vasta quantidade de anfetaminas ingeridas como balas, se vê repentinamente vítima de uma temporária paralisia cerebral: o resultado da cena e suas consequências mostram o total domínio técnico do cineasta e sua inteligência em modelar o roteiro a seu estilo inconfundível (mas sempre imprevisível) de filmar. Não à toa, mesmo com a profusão de cenas de sexo e consumo de drogas de seu filme – uma afronta à moral e aos bons costumes pregados pela Academia – Scorsese acabou concorrendo ao Oscar por seu trabalho (junto com as indicações a melhor filme, roteiro, ator e ator coadjuvante).
 Implacável no retrato debochado de um estilo de vida em que o glamour convive lado a lado com uma inconfundível cafonice, Scorsese fez de “O lobo de Wall Street” uma obra-prima do sarcasmo. Contando com um elenco coadjuvante que se dá ao luxo de ter os também cineastas Jon Favreau e Rob Reiner (na pele do irascível pai do protagonista) e o oscarizado Jean Dujardin (de “O artista” (11)) em pequenos papéis, ele brinca com a falta de moralidade ianque e tira sarro da suposta sobriedade do mercado financeiro mais importante do mundo. Não é à toa que poucos acharam graça na brincadeira.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...