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quarta-feira

BENNY & JOON: CORAÇÕES EM CONFLITO

 


BENNY & JOON: CORAÇÕES EM CONFLITO (Benny & Joon, 1993, Metro Goldwyn Mayer, 98min) Direção: Jeremiah S. Chechik. Roteiro: Barry Berman, estória de Barry Berman, Leslie McNeil. Fotografia: John Schwartzman. Montagem: Carol Littleton. Música: Rachel Portman. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: Neil Spisak/Barbara Munch. Produção executiva: Bill Badalato. Produção: Susan Arnold, Donna Roth. Elenco: Johnny Depp, Mary Stuart Masterson, Aidan Quinn, Julianne Moore, Oliver Platt, William H. Macy, CCH Pounder, Dan Hedaya, Joe Grifasi. Estreia: 16/4/93

No começo dos anos 1990 o nome de Johnny Depp já era sinônimo de excentricidade em Hollywood - em boa parte devido ao sucesso de sua performance em "Edward Mãos de Tesoura", dirigido por seu amigo Tim Burton. Por isso, não foi surpresa para ninguém quando ele foi escalado para interpretar um dos papéis centrais do drama romântico "Benny & Joon: corações em conflito": na pele do esquisitão Sam, fã de Chaplin e Buster Keaton, calado, semianalfabeto e dono de uma grande capacidade de amar, Depp confirmou sua persona dentro da indústria (que exploraria seu estilo em outras produções de relativo êxito) e foi, provavelmente, o maior responsável pelas críticas positivas do segundo filme do diretor Jeremiah Chechik. Sensível, honesta e despretensiosa, a história de amor entre duas pessoas à margem da sociedade - e a forma com que tal romance afeta as pessoas a sua volta - não chegou a fazer grande barulho nas bilheterias, mas tornou-se cult justamente pela presença do ator, particularmente inspirado em seu desempenho. Discreto em sua forma de suscitar emoções - e evitando a todo custo o melodrama barato -, "Benny & Joon" é um pequeno grande filme, que encontrou em Depp (e no resto do elenco) sua tradução perfeita.  

Ao contrário do que o subtítulo em português dá a entender, Benny e Joon não formam a dupla romântica central do filme. Benjamin e Juniper Pearl são, na verdade, irmãos, que vivem uma vida quase medíocre em uma pequena cidade de Washington. Ele (vivido por Aidan Quinn) é um mecânico solitário que abdicou de qualquer tipo de relacionamento amoroso para cuidar dela (interpretada por Mary Stuart Masterson) desde a morte de seus pais, em um acidente de carro. Juniper (ou Joon, como é conhecida pelos amigos e vizinhos) é uma jovem com deficiência intelectual - e dom para as artes - e exige do irmão, mesmo involuntariamente, dedicação quase absoluta. Depois do abandono de várias cuidadoras - incapazes de lidar com a inconstância de seu comportamento -, ela corre o sério risco de ser posta em um lar especializado quando um acontecimento inesperado muda os rumos de sua existência. Depois de perder em um jogo de cartas, Joon é obrigada por um amigo a abrigar em sua casa o estranho Sam (Johnny Depp) e, para sua surpresa - e de um atônito Benny - os dois acabam se apaixonando.

 

Projeto relativamente antigo da MGM, "Benny & Joon" quase teve, liderando seu elenco, a dupla de astros Tom Hanks e Julia Roberts (ainda que hoje seja difícil imaginá-los nos papéis). Depois de tentar também o então casal Tim Robbins e Susan Sarandon (outro par inusitado), as coisas pareciam finalmente ter entrado nos eixos com a escalação de Depp e sua namorada, Winona Ryder (começando uma trajetória ascendente em Hollywood). O fim do namoro acarretou na saída de Winona, que foi substituída por Laura Dern (recém saída de uma indicação ao Oscar por "As noites de Rose") ao mesmo tempo em que Woody Harrelson assumia o papel de Benny. Porém, tudo mudaria mais uma vez graças a dois acontecimentos fortuitos: Dern não gostou de saber que seu nome estaria em terceiro lugar nos créditos, e Harrelson foi convidado pela Paramount para ser o marido de Demi Moore em "Proposta indecente" (1993). Com Depp ainda firme no projeto, surgiram os nomes de Mary Stuart Masterson e Aidan Quinn, ambos promissores e, como mostra o resultado final, extremamente adequados aos personagens. Com a direção pouco invasiva de Chechik (em seu segundo longa-metragem) e um roteiro delicado e repleto de uma honestidade cativante, o filme acabou por agradar em cheio aos fãs de Depp - e, por consequência, a todos que procuravam escapar dos clichês do gênero.

A maior qualidade de "Benny & Joon" - além do elenco escalado com precisão - é o modo discreto com que Jeremiah Chechik conduz sua trama, sem pressa e com uma delicadeza surpreendente vinda de quem começou sua carreira no cinema com o pouco sutil "Férias frustradas de Natal" (1989) e que chegou a ser indicado a um Framboesa de Ouro pelo medonho "Os vingadores" (1999). Com um ritmo que leva o espectador a acompanhar vidas simples e personagens com sentimentos reais, o cineasta abraça o prosaico como forma de encantar.e emocionar (porém sem apelar para o sentimentalismo barato). E, se não bastasse tal cuidado, ainda há uma das primeiras aparições de Julianne Moore no cinema, como a garçonete e ex-atriz que se envolve com Benny a despeito de seus problemas familiares. Um motivo a mais para conhecer uma produção das mais simpáticas de seu tempo.

quinta-feira

ALIANÇA DO CRIME

 


ALIANÇA DO CRIME (Black Mass, 2015, Cross Creek Pictures, 123min) Direção: Scott Cooper. Roteiro: Mark Mallouk, Jez Butterworth, livro de Dick Lehr, Gerard O'Neill. Fotografia: Masanobu Takayanagi. Montagem: David Rosenbloom. Música: Tom Holkenborg. Figurino: Kasia Walicka Maimone. Direção de arte/cenários: Stefania Cella/Tracey Doyle. Produção executiva: Brett Granstaff, Gary Granstaff, Phil Hunt, Peter Mallouk, Ray Mallouk, Steven Mnuchin, James Packer, Brett Ratner, Compton Ross, Christopher Woodrow. Produção: Scott Cooper, John Lesher, Patrick McCormick, Brian Oliver, Tyler Thompson. Elenco: Johnny Depp, Joel Edgerton, Benedict Cumberbatch, Dakota Johnson, Kevin Bacon, Peter Sarsgaard, Jesse Plemons, Rory Cochrane, David Harbour, Adam Scott, Corey Stoll, Julianne Nicholson, Juno Temple. Estreia: 04/9/2015 (Festival de Veneza)

É difícil assistir a qualquer cena de "Aliança do crime" sem que o cinema de Martin Scorsese surja na memória do espectador. Não por sua qualidade (apenas razoável), mas porque, de uma forma ou outra, o cineasta nova-iorquino criou uma espécie de cânone em relação ao subgênero de filmes de gângster - ao menos aqueles menos épicos - do qual poucos diretores conseguem escapar. E, apesar da violência de sua trajetória e do número de vítimas que deixou em seu caminho, James "Whitey" Bulger - protagonista do filme de Scott Cooper - jamais poderia ser considerado um personagem glamoroso. Provavelmente o mais notável criminoso da história de South Boston (e irmão de um senador) foi beneficiado, durante anos, por um acordo com o FBI - que permitiu a ele expandir seus negócios escusos e aumentar sua lista de homicídios - e, em mãos ousadas como as de Scorsese poderia render uma pequena obra-prima (não por acaso há ecos de sua história em "Os infiltrados", vencedor do Oscar de 2007). Comandado por Scott Cooper, porém, o roteiro baseado no livro de Dick Lehr e Gerard O'Neill acabou esbarrando em uma direção quase apática - tão influenciada por outras produções semelhantes que acaba por tornar-se pouco memorável, apesar do caprichado trabalho de Johnny Depp no papel central.

Substituindo Guy Pearce - que abandonou o projeto - e dedicando a ele um cuidado que chegou a planejar um encontro (nunca realizado) com o verdadeiro Bulger, Depp impressionou os consultores do filme, antigos associados do criminoso, parte da imprensa especializada (que o indicou a um Critic's Choice Awards) e de seus colegas de ofício (que o fizeram concorrer a um prêmio do Sindicato de Atores). Seu desempenho é realmente potente, enfatizado por uma caracterização impecável, que inclui a maquiagem, o figurino e a expressão corporal que o afastam de boa parte dos personagens exóticos que marcam sua carreira: por incrível que pareça, apesar da monstruosidade de seus atos, Bugler encontra, no trabalho de seu protagonista, um tom que evita o maniqueísmo absoluto - algo que nem mesmo o roteiro morno consegue impedir. Em um elenco repleto de ótimos atores - dentre os quais Benedict Cumberbatch, Kevin Bacon, Jesse Plemons e Joel Edgerton - o normalmente exagerado Depp consegue destacar-se sem apelar para a caricatura e entrega sua melhor atuação desde "Donnie Brasco" (1997) - coincidentemente outro filme sobre um infiltrado na máfia. Desta vez do lado do crime, o ator preferido de Tim Burton deita e rola com seu personagem, mesmo que o ritmo imposto por Cooper - que dirigiu "Coração louco" (2009) e deu a Jeff Bridges seu merecido Oscar - seja contemplativo demais para uma produção do gênero.

 

Assim como em seu "Tudo por justiça" (2013), em que a ação transcorria em um ritmo próprio, sem pressa e concentrado mais em seus personagens do que na narrativa propriamente dita, Scott Cooper imprime a "Aliança do crime" uma pegada menos ágil e mais dramática. Ainda há violência - é um filme sobre gângsters, afinal de contas -, mas ela não se restringe apenas a tiros, sangue e agressões físicas: interessa mais ao cineasta o turbilhão emocional de seus personagens, afetados (ou não) pela tensão constante à sua volta. Bulger não é uma ilha, e cercado por familiares e associados, enreda a todos em sua rotina de fora da lei, desde a mulher, Lindsey Cyr (Dakota Johnson) - um relacionamento fadado a uma tragédia que envolve o filho pequeno - até o irmão, Billy (Benedict Cumberbatch), senador que põe a própria carreira em risco devido a seus laços de sangue. É, aliás, o relacionamento de Bulger com o agente do FBI John Connolly (Joel Edgerton em papel herdado de Tom Hardy) que empurra a trama: amigo de infância do temido bandido, Connolly convence seus superiores a fazer um acordo com ele, dando-lhe relativa liberdade de ação em troca de informações sobre a máfia local (um inimigo em comum). Aos poucos Bulger vai se tornando mais e mais poderoso - mas as coisas mudam quando um novo procurador é designado para a área. Disposto a não mais fechar os olhos para os crimes do gângster, Fred Whysack (Corey Stoll) dá início à derrocada de um império.

Mesmo que o ritmo de "Aliança do crime" fuja da agilidade esperada de um filme do gênero - especialmente quando o público já está devidamente acostumado à adrenalina de obras como "Os bons companheiros" (1990) -, o filme de Scott Cooper cumpre boa parte do que promete. O roteiro por vezes confunde com seu excesso de personagens e a edição repleta de flashbacks do experiente David Rosenbloom nem sempre dá conta de lidar com tanta informação, mas é inegável que a atuação hipnotizante de Johnny Depp e a trama em si (inacreditável por natureza) são elementos fortes o bastante para sustentar uma produção que tem o cuidado de recriar a Boston dos anos 1970 com precisão - aplausos também para o figurino caprichado de Kasia Walicka Maimone (que depois faria parceria com Steven Spielberg em "Ponte dos espiões", de 2015) e a trilha sonora, que inclui Rolling Stones, Fletwood Mac, Blondie e Ella Fitzgerald. No saldo final, "Aliança do crime" pode não ser uma obra-prima, mas oferece ao espectador um conjunto suficiente de elementos para mantê-lo diante da tela e aproveitar suas inúmeras qualidades.

sábado

CHOCOLATE


CHOCOLATE (Chocolate, 2000, Miramax, 121min) Direção: Lasse Halstrom. Roteiro: Robert Nelson Jacobs, romance de Joanne Harris. Fotografia: Roger Pratt. Montagem: Andrew Mondshein. Música: Rachel Portman. Figurino: Renée Ehrlich Kalfus. Direção de arte/cenários: David Gropman/Stephenie McMillan. Produção executiva: Alan C. Blomquist, Meryl Poster, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: David Brown, Kit Golden, Leslie Holleran. Elenco: Juliette Binoche, Judi Dench, Johnny Depp, Lena Olin, Alfred Molina, Carrie-Anne Moss, Peter Stormare, Leslie Caron, Victoire Thivisol. Estreia: 15/12/2000

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Juliette Binoche), Atriz Coadjuvante (Judi Dench), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original

 Dentre os indicados ao Oscar de melhor filme do ano de 2000 - com produções aplaudidas pela crítica ("Traffic" e "O tigre e o dragão") e sucessos de bilheteria ("Erin Brockovich: uma mulher de talento" e o grande vencedor, "Gladiador") -, a presença do apenas correto "Chocolate", dirigido pelo sueco Lasse Halstrom, pegou muita gente de surpresa. Porém, não era preciso pensar muito para descobrir os motivos de sua lembrança pelos membros da Academia: com uma campanha agressiva que caracterizava sua produtora, a Miramax (responsável pelo sucesso de "Shakespeare apaixonado" contra o superior "O resgate do soldado Ryan", da temporada 1998), os então todo-poderosos Bob e Harvey Weinstein fizeram de um drama convencional e simpático o candidato da temporada preferido dos mais românticos - e de quebra arrancou ainda indicações importantes, como atriz (Juliette Binoche), atriz coadjuvante (Judi Dench) e roteiro adaptado. Porém, a verdade é que, se não fosse o belo empurrão dos irmãos Weinstein, o filme adaptado do romance de Joanne Harris até poderia encantar o público, mas dificilmente chegaria ao páreo final. Isso não significa, no entanto, que o filme de Halstrom seja medíocre - ele é apenas pouco memorável, apesar da união de enormes talentos.

A trama se passa em uma pequena cidade francesa, em 1959. É lá que chega a misteriosa e sedutora Vianne Rocher (Juliette Binoche), acompanhada de sua pequena filha, Anouk (Victoire Thivisol). As duas chegam às vésperas da Semana Santa com o objetivo de abrir uma chocolateria - e o fato de desafiarem - ainda que inconscientemente - os dogmas religiosos da cidade, esmagadoramente católica e liderada com mão de ferro pelo prefeito, Conde de Reynaud (Alfred Molina), um homem de preceitos morais rígidos e que é assombrado pelo desaparecimento da esposa, anos antes. Espontânea e independente, Vianne divide opiniões na pequena cidade: enquanto boa parte da população segue a opinião equivocada de Reynaud, outros habitantes se deixam seduzir por seus belos e deliciosos chocolates e por seus conselhos - que abalam o até então pacato local. É Vianne, por exemplo, que aproxima sua locatária, Amande Voizin (Judi Dench), de seu neto, mantido afastado por obra de sua filha, Caroline (Carrie-Anne Moss), e incentiva a submissa Josephine Muscat (Lena Olin) a dar um basta em casamento com o abusivo Serge (Peter Stormare). Como se não bastasse tantos problemas, a situação fica ainda pior com a chegada de um grupo de nômades, que reacendem os preconceitos dos moradores. Quando seu líder, Roux (Johnny Depp) se envolve romanticamente com Vianne não é apenas a magia de seus doces que passa a perturbar Reynaud e a parcela conservadora do local: tratados com rispidez e intolerância, resta a eles lutarem por seus direitos ou partir para outra cidade.


 

A atmosfera romântica e lúdica de "Chocolate" é seu maior trunfo: a fotografia suave de Roger Pratt e a trilha sonora de Rachel Portman conduzem o espectador a um universo quase de contos-de-fada, valorizado pela cuidadosa reconstituição de época. A presença de Juliette Binoche - em papel recusado por Gwyneth Paltrow (queridinha dos irmãos Weinstein) - é outro achado do filme: mesmo que não tenha necessitado utilizar-se de todo seu potencial, a atriz francesa oferece ao espectador o carisma necessário para envolver o público em uma trama que, se não apresenta maiores novidades, tampouco decepciona aos fãs do gênero. Explorando com delicadeza o clichê da forasteira misteriosa que altera a dinâmica de uma sociedade conservadora, a trama de Joanne Harris - adaptada por Robert Nelson Jacobs, indicado ao Oscar da categoria - brinda o público com personagens fascinantes (ainda que não devidamente aprofundados) interpretados por atores acima de qualquer crítica. Lena Olin (casada com o diretor Lasse Halstrom) brilha na pele de uma mulher descobrindo sua própria força, soterrada em um casamento tóxico. Alfred Molina exercita sua persona de vilão com um Conde Reynaud com sentimentos escondidos sob uma carcaça insensível. E Judi Dench, excelente como sempre, mereceu sua indicação ao Oscar de atriz coadjuvante como a aparentemente ríspida Amande - que se revela uma mulher ansiando pelo reencontro com a família que lhe foi tirada pela própria filha.

Acertando em colocar o romance entre Vienna e Roux como trama secundária - preferindo focar a relação da doceira com os preconceitos locais em primeiro plano -, "Chocolate" é um filme que, assim como o doce que lhe dá título, oferece conforto e satisfação, ao menos durante as duas horas de sua duração. Mas é inegável que, apesar de ser vendido como uma produção ao estilo europeu, não consegue disfarçar certa superficialidade em seu roteiro e até mesmo na direção quase mecânica de Halstrom - que pouco antes havia brindado os cinéfilos com o doce "Regras da vida" (1999). Esteticamente caprichado e com um elenco de sonhos, "Chocolate" é o filme ideal para quem procura um drama mais leve e com um pé na fantasia - elemento sublinhado pela narração em off, que lhe empresta um tom de fábula apropriado e delicado. Talvez não tenha merecido um lugar entre os melhores filmes de um ano que deu ao mundo "Billy Elliot", "Quase famosos" e "Réquiem para um sonho", mas é difícil não se deixar seduzir pelo menos enquanto dura a sessão.

terça-feira

ASSASSINATO NO EXPRESSO DO ORIENTE (2017)


ASSASSINATO NO EXPRESSO DO ORIENTE (Murder on the Orient Express, 2017, 20th Century Fox, 114min) Direção: Kenneth Branagh. Roteiro: Michael Green, romance de Agatha Christie. Fotografia: Haris Zambarloukos. Montagem: Mick Audsley. Música: Patrick Doyle. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: Jim Clay/Rebecca Alleway, Caroline Smith. Produção executiva: Matthew Jenkins, Dillon Kilvo, James Prichard, Aditya Sood, Hilary Strong. Produção: Kenneth Branagh, Mark Gordon, Judy Hofflund, Simon Kinberg, Michael Schaefer, Ridley Scott. Elenco: Kenneth Branagh, Judi Dench, Michelle Pfeiffer, Penelope Cruz, Johnny Depp, Leslie Odom Jr., Derek Jacobi, Josh Gad, Olivia Colman, Willem Dafoe. Estreia: 03/11/2017

Publicado em 1934 e considerado por leitores e críticos como um dos maiores romances policiais de todos os tempos, "Assassinato no Expresso do Oriente" não apenas consagrou definitivamente a inglesa Agatha Christie como "a rainha do crime" como também se mantém no inconsciente coletivo há quase um século. Sua trama, repleta de pistas falsas, ritmo ágil e um desenvolvimento intrigante, mostra o detetive Hercule Poirot no auge de sua perspicácia e apresenta um desfecho antológico - dos mais surpreendentes da prolífica carreira da escritora. Clássico absoluto do gênero, o livro ganhou uma adaptação caprichada em 1974 - quarenta anos após seu lançamento -, sob a direção de Sidney Lumet e um elenco internacional recheado de astros - de Albert Finney como Poirot a uma verdadeira constelação que incluía Lauren Bacall, Sean Connery, Jacqueline Bissett, Anthony Perkins, Maggie Smith e Ingrid Bergman, premiada com um Oscar de atriz coadjuvante. Em 2010, chegou à televisão em um episódio da série britânica "Poirot" - com o famoso investigador interpretado por David Suchet e nomes como Jessica Chastain, Barbara Hershey e Toby Jones emprestando credibilidade ao resultado final. E é de se perguntar por que, mesmo diante de duas versões aplaudidas e fiéis à fonte original, o irlandês Kenneth Branagh considerou necessária uma nova releitura. Pior ainda: em que momento o outrora celebrado cineasta achou cabíveis as alterações criminosas que seu filme - lançado no final de 2017 - fez na história concebida pela mente genial de Christie?

Os (inúmeros) fãs da escritora ficaram revoltados com as liberdades que o roteiro de Michael Green tomou em relação à obra original - tanto em termos da história em si (com personagens amalgamados) quanto pela descaracterização radical do protagonista Hercule Poirot. Retratado nos romances como um senhor de idade avançada, de modos finos e radicalmente contra qualquer tipo de violência - além de privilegiar o cérebro em detrimento de embates físicos -, Poirot viu sua versão cinematográfica rejuvenescer, emagrecer, ter um amor do passado (mostrado apenas em fotografia) e, pior do que tudo, se envolver em lutas, tiroteios e perseguições. É de lamentar que Kenneth Branagh - um ator de talento e sensibilidade o suficientes para que fosse uma espécie de embaixador de Shakespeare na Hollywood dos anos 1990 - tenha se deixado levar pelo ego, a ponto de fazer de seu detetive um super-herói que muito pouco lembra o ídolo dos leitores do gênero. Enquanto no livro Poirot ia aos poucos desvendando todos os meandros que levaram a um misterioso homicídio ocorrido em um dos meios de transporte mais sofisticados do mundo, no filme as conclusões são jogadas, quase como se o personagem tivesse dons paranormais. E se Poirot era, antes de qualquer coisa, um cavalheiro, no filme de Branagh ele não hesita em levantar a voz quando necessário - mesmo que isso destoe radicalmente de sua real personalidade. Não é preciso dizer que, mesmo sendo um bom ator, o ex-marido de Emma Thompson erra violentamente em sua composição.

E não é apenas isso. Como forma de agradar à patrulha do politicamente correto de Hollywood, o roteiro consegue a proeza (negativa) de transformar o coronel Arbuthnot em um médico negro (em uma fusão com outro personagem do livro, Constantine): por mais que se saiba a necessidade atual de inserir representatividade na mídia, é no mínimo equivocada a ideia de que um homem negro pudesse ser o passageiro do Expresso do Oriente em 1934. A inclusão de Leslie Odom Jr. no elenco pode ter tido boas intenções, mas o tiro acabou saindo pela culatra: a novidade soa deslocada, inverossímil e, pior ainda, constrangedora em sua tentativa de soar atual. Também não deu certo substituir as nacionalidades de outros personagens cruciais: a sueca Greta Ohlsson (vivida por Ingrid Bergman em 1974) virou Pilar Estravados na nova adaptação (e ficou com o rosto de Penélope Cruz, subaproveitada como todo o elenco), e o italiano Hardman transmutou-se no espanhol Biniamino Marquez (para ser interpretado por Manuel Garcia-Rulfo). São diferenças que em nada acrescentam ao material original e apenas enfatizam a vontade quase imatura de forçar uma identidade - um desejo que se estende também ao visual estilizado, que compreende a fotografia cinza-azulada de Haris Zambarloukos (que funciona apenas em parte) e os ângulos inusitados de câmera (que evitam o convencional a todo custo e cansam em diversos momentos). A direção de arte e o figurinos são deslumbrantes, mas é pouco diante de tantos erros - que enfraquecem as boas ideias de Branagh, como utilizar-se de espelhos para ilustrar a dubiedade dos personagens/suspeitos.

A trama em si é conhecida por quase todo mundo (ao menos os fãs do gênero a conhecem de longa data): durante uma viagem no tradicional Expresso do Oriente, o misterioso e pouco simpático Edward Ratchett (Johnny Depp forçado como sempre) é violentamente assassinado a facadas. O crime é ainda mais intrigante quando se descobre que as facadas são de tamanhos e intensidades diferentes, e outras pistas incoerentes deixam o trabalho do famoso detetive particular Hercule Poirot (um passageiro de última hora) ainda mais complicado. Os suspeitos - um grupo variado de passageiros em determinado vagão - parecem não ter nada em comum e aparentemente todos tem álibis indestrutíveis. A ideia inicial - de que o homicídio foi resultado de uma vingança relacionada à máfia - é deixada de lado, no entanto, quando Poirot descobre que Ratchett é, na verdade, o responsável pelo sequestro e assassinato de um bebê, alguns anos antes: resta, então, descobrir quem, dentre os passageiros, também está mentindo quanto à sua identidade.

Desperdiçando um elenco excepcional - que inclui os veteranos Judi Dench e Derek Jacobi, os consagrados Willem Dafoe, Penélope Cruz e Michelle Pfeiffer - e apostando na modernização de uma trama que já nasceu clássica, Kenneth Branagh simplesmente destruiu a obra original, destroçando inclusive a revelação sobre o nome do assassino em uma sequência morna e com um desfecho sofrível. Em pensar que ele continuará sua missão em estragar outras obras de Christie - "Morte sobre o Nilo" é o próximo da lista e sua menção nos últimos minutos do primeiro filme já aponta para mais distorções imperdoáveis - chega a dar calafrios. Matar uma obra dessa forma deveria ser crime!

sexta-feira

DONNIE BRASCO

DONNIE BRASCO (Donnie Brasco, 1997, Sony Pictures/Mandalay Entertainment, 127min) Direção: Mike Newell. Roteiro: Paul Attanasio, livro de Joseph D. Pistone, Richard Woodley. Fotografia: Peter Sova. Montagem: Jon Gregory. Música: Patrick Doyle. Figurino: Aude Bronson-Howard, David Robinson. Direção de arte/cenários: Donald Graham Burt/Leslie Pope. Produção executiva: Alan Greenspan, Patrick McCormick. Produção: Louis DiGiaimo, Mark Johnson, Barry Levinson, Gail Mutrux. Elenco: Al Pacino, Johnny Depp, Michael Madsen, James Russo, Anne Heche, Bruno Kirby, Zeljko Ivanek, Paul Giamatti, Tim Blake Nelson. Estreia: 24/02/97

Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado

Durante seis anos, entre 1978 e 1984, o agente especial do FBI Joseph Pistone trabalhou infiltrado entre os mafiosos de Nova York, quase sem contato com a própria família e conquistando a confiança de um dos integrantes do grupo, que passou a considerá-lo como um filho. Tal história, com seus desdobramentos talvez previsíveis mas sempre interessantes, estava pronta para ser contada no cinema desde o lançamento do livro "Donnie Brasco: my undercover life with the Mafia", publicado nos EUA em 1988. Escrito pelo próprio Pistone (cuja cabeça ainda está a prêmio) e o jornalista Richard Woodley, o livro estava nos planos de Hollywood a um bom tempo quando o inglês Mike Newell entrou no projeto: celebrado pelo enorme sucesso de seu "Quatro casamentos e um funeral" (94), Newell chegou com moral, substituindo outro britânico até então considerado para o trabalho (Stephen Frears) e injetando no filme uma elegância e uma sobriedade que possivelmente um cineasta americano não seria capaz de imprimir. Com o elenco liderado por Al Pacino e Johnny Depp - dois nomes populares e de prestígio junto ao público e à crítica - e pronto para estrear no Natal de 1996, "Donnie Brasco" acabou sendo vítima do próprio estúdio: com três outros filmes de grande visibilidade entrando em cartaz quase ao mesmo tempo (e lutando por indicações ao Oscar), a Sony empurrou seu lançamento para fevereiro de 1997. Deu mais ou menos certo: mesmo lançado longe da temporada de premiações, o filme de Newell arrebatou uma indicação na categoria de roteiro adaptado quase um ano depois de sua estreia - e as outras produções da Sony foram relativamente recompensadas pela Academia, em especial "Jerry Maguire: a grande virada", que levou a estatueta de ator coadjuvante (Cuba Gooding Jr.).

Se "Donnie Brasco" tinha mais chances de convencer a Academia do que seus irmãos de estúdio - "O espelho tem duas faces" (96) e "O povo contra Larry Flynt" (96) - é difícil dizer, especialmente em um ano em que as produções independentes foram mais felizes no resultado final. Mas é óbvio que, levando-se em consideração seu tema, seus valores de produção e os vastos elogios da crítica especializada, o filme de Newell tinha tudo para ter uma sorte bem maior se tivesse sido lançado no período adequado - inclusive nas bilheterias, já que não fez muito barulho em casa mas rendeu mais de 120 milhões pelo mundo, em grande parte devido à presença de Johnny Depp, então um jovem astro em ascensão, e Al Pacino, um dos maiores atores do cinema americano. Sua química é um dos motivos que fazem do filme uma das produções mais interessantes do final dos anos 90 - uma narrativa séria e minimalista que lembra os policiais da década de 70 (não por acaso também estrelados por Pacino). Cineasta pouco afeito a malabarismos estéreis, Newell se concentra em caprichar na ambientação e no desenvolvimento dos personagens - cortesia também do roteiro de Paul Attanasio, que equilibra admiravelmente a trama policial com os problemas domésticos do protagonista. Com um elenco coadjuvante igualmente brilhante, "Donnie Brasco" foge facilmente da limitação de gênero, alcançando níveis dramáticos que o elevam acima da média. 


A trama é centrada basicamente no relacionamento entre o jovem agente Joseph Pistone - que assume o pseudônimo de Donnie Brasco e é vivido por Johnny Depp de forma discreta, sem os habituais exageros que se tornaram característica de seus desempenhos - e o mafioso Lefty Ruggiero (Al Pacino), que, apesar de não ser o chefão do grupo, lhe serve como ponte de acesso a nomes, crimes e detalhes dos delitos cometidos por outros integrantes do bando, especialmente Sonny Black (Michael Madsen), que se torna o líder durante a temporada do rapaz como infiltrado. Enquanto vai se tornando parte integrante da quadrilha, Donnie vai se afastando da esposa, Maggie (Anne Heche) e das filhas, ao mesmo tempo em que fortalece laços de amizade e quase lealdade com Ruggiero - até que o cerco se fecha e ele precisa redobrar os cuidados para não ser desmascarado e completar sua missão (que inclui, obviamente, mandar seu mentor para a cadeia).

Narrado de forma correta e sem sobressaltos, "Donnie Brasco" é um filme que substitui as cenas de ação alucinantes por um tom de mais densidade psicológica e dramática. Seu registro quase cerebral pode aborrecer a quem procura um filme policial nos moldes mais tradicionais (leia-se tiroteios, perseguições e violência extrema), mas é justamente essa opção de Mike Newell que faz toda a diferença. Seria bastante diferente, por exemplo, se outros nomes cotados para o projeto tivessem assumido o papel central - como Alec Baldwin, Nicolas Cage ou John Cusack, que certamente dariam outro estilo à produção. Dotado de um ritmo atípico, é um filme que envolve o espectador aos poucos, o mergulhando gradativamente em uma trama que fala de amizade, dever, traição e paranoia em doses exatas e tratadas com o máximo de talento. Apesar de se alongar desnecessariamente nos minutos finais, é uma obra pela qual é difícil não se deixar conquistar, senão por sua história incrível, ao menos por sua direção elegante e pelo elenco em ótimo momento. Um dos grandes filmes de Pacino pós-Oscar - e talvez um dos mais subestimados de sua brilhante carreira.

domingo

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS (Alice in Wonderland, 2010, Walt Disney Pictures, 108min) Direção: Tim Burton. Roteiro: Linda Woolverton, romances de Lewis Carroll. Fotografia: Darius Wolski. Montagem: Chris Lebenzon. Música: Danny Elfman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Robert Stromberg/Karen O'Hara. Produção executiva: Chris Lebenzon, Peter Tobyansen. Produção: Joe Roth, Jennifer Todd, Suzanne Todd, Richard D. Zanuck. Elenco: Mia Wasikowska, Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Anne Hathaway, Christopher Lee, Crispin Glover. Estreia: 05/3/10

Vencedor de 2 Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários

Primeiro, a pergunta que não quer calar: por que mais uma versão para o cinema do clássico livro de Lewis Carroll, imortalizado na memória coletiva pela animação dos estúdios Disney lançada em 1951? Depois, uma questão ainda mais pertinente: por que escolher para protagonista uma jovem da idade de Mia Wasikowska e não uma criança, como se poderia esperar de uma adaptação fiel? Ambas as perguntas tem a mesma resposta, que fica clara logo nos primeiros minutos da versão Tim Burton de "Alice no País das Maravilhas": ao transpor para as telas os dois livros de Carroll estrelados por Alice - suas aventuras no País das Maravilhas e Através do Espelho - o excêntrico cineasta por trás de obras essenciais do cinema americano dos anos 90, como "Ed Wood" e "A fantástica fábrica de chocolates", resolveu expandir o universo criado pelo escritor, inventando uma história nova que fizesse uma Alice adulta revisitar seu passado justamente em um momento crucial de seu amadurecimento. Sendo assim, apesar dos personagens clássicos da obra estarem presentes no filme - a Rainha de Copas, o Chapeleiro Maluco, o Gato - o público que esperava uma versão fiel da famosa história se viu diante de um filme visualmente excitante (característica indissociável da obra do diretor) mas bem diferente do previsto. Pior ainda, uma obra desprovida de encanto: sob o comando de Tim Burton, "Alice no País das Maravilhas" é um filme lindo de se ver, mas chatíssimo de acompanhar.

Prejudicado por uma atriz central insossa e sem carisma, "Alice no País das Maravilhas" tem a seu favor todo o esmero que sempre acompanha uma produção com a assinatura de Tim Burton. Do figurino de Colleen Atwood (premiado com o Oscar) à direção de arte (também premiada pela Academia), passando pela fotografia caprichada de Darius Wolszki e pela caracterização visual de todos os personagens, tudo no filme é espetacular e brilhantemente executado. Uma pena, porém, que todo esse cuidado não se reflete no roteiro, confuso e enfadonho a ponto de deixar o público totalmente indiferente à sorte da protagonista bem antes do clímax - uma batalha centrada basicamente em efeitos visuais e desprovida de qualquer emoção. Em sua tentativa de dar um espaço mais generoso ao Chapeleiro Maluco (provavelmente para aumentar a participação de seu habitual colaborador e amigo Johnny Depp) Burton acabou por esvaziar a importância de Alice, transformando-a em um atônito peão em um jogo de xadrez violento e sem muita razão de ser entre duas rainhas irmãs e rivais, vividas por Helena Bonham Carter e Anne Hathaway - aliás, os dois únicos acertos do elenco.


Trabalhando pela sexta vez com o então marido, Bonham Carter mais uma vez rouba a cena, dessa vez na pele da enlouquecida Rainha Vermelha - misturada aqui com a Rainha de Copas, em uma fusão no mínimo ousada, mas eficaz. Fazendo uso de sua tendência ao exotismo, a atriz que trocou os babados dos filmes baseados na literatura inglesa clássica - como "Uma janela para o amor" e "Retorno a Howards End" - pela excentricidade do cinema moderno - como a doentia Marla de "Clube da luta" ou suas colaborações anteriores com Tim Burton - parece estar se divertindo aos montes em cena, em uma composição que mistura o excesso das histórias em quadrinhos com a pop art de Andy Wharol. Sempre que está em cena, ela engole tudo à sua volta, em um desempenho louvável, que encontra eco somente na doçura e serenidade emprestada por Anne Hathaway à sua Rainha Branca - um contraste interessante que poderia ter rendido cenas antológicas não fosse a preguiça do roteiro em aprofundar quaisquer das tramas que propõe durante o caminho de sua protagonista.

Quando a trama começa, a Alice que todos conhecem já está com 19 anos de idade e apavorada com a possibilidade de ser obrigada a casar-se com um homem a quem não ama e com quem não tem a menor ligação. Antes que seja obrigada a dar uma resposta ao pedido de casamento, porém, ela acaba por surpreender a todos os convidados da festa promovida para tal ocasião ao sair correndo atrás de um coelho que julga já conhecer de outro lugar. Em sua busca, ela acaba caindo em um buraco que a leva a uma misteriosa terra chamada Underland. Lá, fazendo contato com seres estranhos que conhece através de vários sonhos que a perseguem há anos, ela descobre que é peça fundamental na batalha entre as duas rainhas que disputam o poder. Além disso, descobre também que já esteve em tal lugar, quando ainda era uma criança.

Fascinante em sua concepção visual e decepcionante em sua construção dramática, "Alice no País das Maravilhas" acabou conquistando o público mesmo com seus sérios defeitos de roteiro e rendeu mais de 300 milhões de dólares pelo mundo. Uma prova (mais uma) de que nem sempre os melhores filmes são os mais bem-sucedidos comercialmente.

quinta-feira

SWEENEY TODD, O BARBEIRO DEMONÍACO DA RUA FLEET

SWEENEY TODD - O BARBEIRO DEMONÍACO DA RUA FLEET (Sweeney Todd: the demon barber of Flet Street, 2007, Warner Bros/DreamWorks SKG, 116min) Direção: Tim Burton. Roteiro: John Logan, musical de Hugh Wheeler, adaptação musical de Christopher Bond. Fotografia: Darius Wolszki. Montagem: Chris Lebenzon. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Dante Ferretti/Francesca LoSchiavo. Produção executiva: Patrick McCormick. Produção: John Logan, Laurie MacDonald, Walter Parkes, Richard D. Zanuck. Elenco: Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Alan Rickman, Timothy Spall, Sacha Baron Cohen. Estreia: 03/12/07

3 indicações ao Oscar: Ator (Johnny Depp), Figurino, Direção de Arte & Cenários
Vencedor do Oscar de Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme (Comédia/Musical), Ator Comédia/Musical (Johnny Depp) 

Depois que "Moulin Rouge, o amor em vermelho" recolocou os filmes musicais em alta no mercado hollywoodiano - e "Chicago" abocanhou seis cobiçadas estatuetas da Academia, incluindo melhor filme - o gênero voltou a frequentar as telas de cinema com assiduidade, para alegria dos fãs e desgosto dos detratores. Logicamente, a Broadway tornou-se a fonte mais rica de inspiração para os estúdios, que não viam como uma produção bem-sucedida nos palcos não poderia repetir o êxito nas telas - e nem o fracasso de crítica do pretensamente infalível "O fantasma da ópera" (que Joel Schumacher transformou em uma tortura musical em 2004 a despeito das belas canções de Tim Rice e Andrew Lloyd Webber) alterou essa percepção. Não foi surpresa de ninguém, no entanto, quando a Warner e a Dream Works se uniram para lançar "Sweeney Todd, o barbeiro demoníaco da Rua Fleet", adaptação da peça de Hugh Wheeler e Stephen Sondheim que desde 1979 levava multidões aos teatros. Cobiçado pelos estúdios desde sua estreia, o musical quase chegou às telas por diversas vezes, e a lista de atores que quase interpretaram o papel-título incluía nomes tão diversos quanto William Hurt, Harrison Ford, Dustin Hoffman, Robert Redford, Warren Beatty, Al Pacino, Jack Nicholson, Robert DeNiro, Steve Martin e até Gene Hackman. Quando finalmente o projeto recebeu o sinal verde do próprio Sondheim, o cineasta Sam Mendes pulou para a cadeira de diretor, com Russell Crowe no papel central. Felizmente, as coisas deram mais uma vez para trás (felizmente não por causa de Mendes, um grande diretor, mas por causa de Crowe, cujos dotes vocais mostrados posteriormente em "Os miseráveis" não deixam dúvidas de que sua escolha teria sido a sentença de morte para o filme).

Sem Mendes e Crowe na liderança da produção, chegou a vez daquele que provavelmente era o nome certo para comandar o barco: Tim Burton, com sua visão criativa e seu reconhecido gosto pelo bizarro e pelo lado sombrio da humanidade, agarrou com unhas e dentes a chance de realizar seu primeiro musical e, com ele, como era esperado, entraram em cena Johnny Depp (parceiro artístico em cinco outros projetos anteriores) e Helena Bonham Carter (sua esposa e, conforme descoberto em meio às filmagens, grávida de seu segundo filho). Mas, comprovando que suas escolhas não tinham nada a ver com nepotismo (mesmo porque o papel de Carter era disputado por gente como Kate Winslet, Nicole Kidman, Annette Bening e Toni Collette), Burton buscou a aprovação de Sondheim em pessoa antes mesmo de rodar a primeira cena. O resultado final chegou ao público no final de 2007 e toda e qualquer dúvida a respeito das opções de Burton dissiparam-se imediatamente. Mesmo que não tenha se tornado um sucesso arrasador de bilheteria, "Sweeney Todd" encantou a crítica e deu a Depp sua terceira indicação ao Oscar de melhor ator em cinco anos - além de ter conquistado o Golden Globe de melhor comédia/musical do ano. E, mesmo aqueles que não tem muito entusiasmo por musicais tem de reconhecer que, a despeito das características inerentes ao gênero, há muito mais a apreciar do que reclamar no filme de Burton.


Aqueles que se chateiam com a cantoria interminável dos filmes musicais - e "Sweeney Todd" é daqueles praticamente todo narrado através de canções - podem deliciar-se com a fotografia irrepreensível de Dariusz Wolski, que capta o tom soturno de uma Londres pouco afável e bastante sufocante (e, por contraste, ilumina com cores brilhantes o período áureo do protagonista e os sonhos dourados de sua parceira de negócios/crimes). Podem ficar encantados com a reconstituição de época impecável de Dante Ferretti e Francesca LoSchiavo - colaboradores frequentes de Scorsese e que ganharam o Oscar por seu trabalho. Podem surpreender-se com o tom de violência explícita das imagens imaginadas pelo cineasta, que fez questão de manter o sangue aos borbotões propostos na história como forma de enfatizar a catarse emocional que cada morte tem para seu personagem-título. E podem, principalmente, reconhecer o excelente trabalho dramático de Johnny Depp e Helena Bonham Carter, provavelmente em algumas de suas melhores interpretações: Depp deixa de lado sua tendência a suavizar o personagem com tiques cômicos e sai-se muito bem cantando, e Carter consegue demonstrar toda a gama de emoções de sua personagem com uma sutileza raras vezes vista em sua carreira. Não bastasse tudo isso, o final trágico e inesperado fecha com inteligência uma trama sangrenta e sufocante que destoa dos normalmente sadios e alegres ambientes do gênero.

Baseado em uma lenda inglesa e na peça teatral de Christopher Bond - de onde saíram os detalhes sobre a origem do personagem - o musical de Wheeler e Sondheim conta a história de Benjamin Barker (Depp), um jovem barbeiro londrino que, por armações do invejoso Juiz Turpin (Alan Rickman), se vê condenado a quinze anos de prisão na Austrália, longe da esposa e da filha recém-nascida. Quando retorna à sua cidade natal, emocionalmente abalado e repleto de ódio, ele descobre que sua amada mulher, depois de ter sido violentada pelo juiz, tomou veneno e teve sua filha arrancada de seu convívio. Com o objetivo de vingar-se de Turpin, Barker assume o nome de Sweeney Todd, torna-se o mais conhecido barbeiro da cidade e, com o conluio de sua senhoria, Sra. Lovett (Bonham Carter), passa a matar seus clientes para transformá-los em matéria-prima para as tortas servidas por ela em seu restaurante. Enquanto isso, sua filha, Johanna (Jayne Weisener) faz de tudo para fugir das garras de seu "tutor", especialmente quando se apaixona pelo jovem marinheiro Anthony (Jamie Campbell Bower).

Visualmente deslumbrante e tratado com a seriedade apropriada, "Sweeney Todd, o barbeiro demoníaco da Rua Fleet" é um musical sério, intenso e realizado com uma perfeição técnica admirável. Pode não agradar a todos por causa do gênero, mas merece ser aplaudido por suas inúmeras qualidades, que o elevam a grande cinema.

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATES

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATES (Charlie and the Chocolate Factory, 2005, Warner Bros/Village Roadshow Pictures, 115min) Direção: Tim Burton. Roteiro: John August, romance de Roald Dahl. Fotografia: Philippe Rousselot. Montagem: Chris Lebenzon. Música: Danny Elfman. Figurino: Gabriella Pescucci. Direção de arte/cenários: Alex McDowell/Peter Young. Produção executiva: Bruce Berman, Graham Burke, Felicity Dahl, Patrick McCormick, Michael Siegel. Produção: Brad Grey, Richard D. Zanuck. Elenco: Johnny Depp, Freddie Highmore, Helena Bonham Carter, Noah Taylor, Missi Pyle, James Fox, Deep Roy, Christopher Lee, David Kelly, Adam Godley. Estreia: 10/7/05

Indicado ao Oscar de Figurino

Quando foi anunciado que a Warner planejava um remake de "A fantástica fábrica de chocolate" - cuja primeira versão, estrelada por Gene Wilder em 1971, havia se tornado um clássico instantâneo e cult por excelência - uma torrente de boatos inundou as páginas de jornais que cobriam Hollywood. Segundo tais notícias, nomes como Martin Scorsese, Robert Zemeckis, Barry Levinson e Gary Ross estavam em negociação com os produtores para comandar o projeto - antes que Tim Burton, talvez a escolha desde sempre mais apropriada, fosse formalmente anunciado como diretor e garantisse seu ator preferido, Johnny Depp, como dono do papel principal, o excêntrico Willy Wonka, que Wilder imortalizou no início da década de 70. Com Depp dentro do barco, acabaram-se as especulações também a respeito de quem lideraria o elenco adulto da adaptação - uma briga que incluía tanto atores previsíveis, como Nicolas Cage, Jim Carrey, Bill Murray, Mike Meyers e Michael Keaton quanto absurdos inimagináveis, como Brad Pitt, Patrick Stewart, John Cleese, Leslie Nielsen, Robert DeNiro e... Dwayne Johson (até o cantor Marilyn Manson declarou interesse no papel) - e também com a briga pelo papel do ingênuo e sonhador Charlie Bucket, o protagonista infantil: Depp recomendou a Burton o talentoso Freddie Highmore, com quem havia trabalhado no sensível "Em busca da Terra do Nunca" e na tela, parece impossível que o escritor inglês Roal Dahl tenha pensado em outro ator quando escreveu seu romance (mesmo que Highmore, à época, nem estivesse planejando nascer).

Exterminando o tom kitsch do filme original, Tim Burton cercou-se de um respeitável time de profissionais para levar às telas a história de Dahl - com muito mais fidelidade do que a versão de 1971 e sob as bênçãos da família do escritor. Além de seus habituais colaboradores - Chris Lebenzon na edição e Danny Elfman na trilha sonora - o cineasta ainda contou com o talento da figurinista Gabriella Pescucci (Oscar por "A época da inocência" e que acabou recebendo uma nova indicação ao prêmio por seu trabalho em vestir Wonka e cia) e do desenhista de produção Alex McDowell (que criou um mundo fascinante e colorido que é uma festa para os olhos da audiência e um universo dos sonhos para as crianças). Substituindo o exército de atores que interpretavam os Oompa-Loompas do primeiro filme (os operários pigmeus da fábrica) por um único ator (o extraordinário Deep Roy, uma revelação que quase rouba a cena interpretando centenas de extravagantes criaturas) e imprimindo seu estilo visual inconfundível a cada sequência, Tim Burton literalmente reinventa (e quase ignora) o filme de Mel Stuart.


A trama, logicamente, é a mesma, e o roteiro de John August (que também escreveu "Peixe grande" para Tim Burton) é brilhante, equilibrando com precisão a ironia, o sentimentalismo e o apelo ligeiramente bizarro do livro de Dahl: Willy Wonka (Johnny Depp exercitando sua tendência ao exagero em papel sob medida para seu histrionismo) é o recluso e singular dono de uma gigantesca fábrica de chocolate que, anos depois de tê-la fechado a qualquer contato humano após atos de traição, resolve lançar um concurso que agita consumidores do mundo inteiro. Para escolher uma criança para ganhar um grande e misterioso prêmio, ele distribui cinco convites dourados dentro de suas barras de chocolate, que dão direito a uma visita guiada à fábrica, acompanhados de um dos pais. É assim que o guloso Augustus Gloop, a mimada Veruca Salt, a competitiva Violet Beauregarde e o nerd Mike Teavee conseguem - cada um por um meio duvidoso e/ou antiético - seu passaporte para o programa, ao contrário do que acontece com o ingênuo Charlie Bucket, de família extremamente humilde e cujo pai acaba de perder o emprego. Cada um com seu interesse, todos se reunem diante da imponente fábrica no dia marcado e, sob os auspícios de Wonka - que teve uma infância complicada e ainda sofre com os traumas relativos a seu pai dentista (participação especialíssima do veterano Christopher Lee) - fazem uma excursão inesquecível por um colorido mundo de fantasia.

Mesmo sendo um cineasta com tendência ao exagero - e tendo como protagonista um ator com igual pendor - Tim Burton consegue o que parecia impossível com sua versão de "A fantástica fábrica de chocolate": agradar a gregos e troianos, ou seja, a todos àqueles que assistiram à primeira versão da história e também à gorda fatia de público que nunca teve acesso à tresloucada atuação de Gene Wilder (e bota gorda nisso, já que o filme de 2005 faturou mais de 200 milhões de dólares nas bilheterias americanas). Sua visão do livro é feérica, engraçada, frequentemente cafona e impossível de desagradar. É Tim Burton em um de seus melhores momentos sem nunca deixar de lado a origem literária da história ou perder de vista o tom infantil da trama - e ainda é fascinante para qualquer tipo de audiência. Uma vitória.

quarta-feira

DO INFERNO

DO INFERNO (From hell, 2001, 20th Century Fox, 122min) Direção: Albert Hughes, Allen Hughes. Roteiro: Terry Hayes, Rafael Yglesias, graphic novel de Alan Moore, Eddie Campbell. Fotografia: Peter Deming. Montagem: George Bowers, Dan Lebental. Música: Trevor Jones. Figurino: Kym Barrett. Direção de arte/cenários: Martin Childs/Jill Quertier. Produção executiva: Thomas M. Hammell, Albert Hughes, Allen Hughes. Produção: Jane Hamsher, Don Murphy. Elenco: Johnny Depp, Heather Graham, Ian Holm, Robbie Coltrane, Ian Richardson, Jason Flemyng, Joanna Page, Mark Dexter. Estreia: 08/9/01 (Festival de Veneza)

Um dos personagens mais fascinantes da crônica policial universal - e que deu origem a livros, filmes, peças de teatro, estudos, teses e todo tipo de material possível e imaginável - não poderia deixar de ser retratado em uma das manifestações artísticas mais cultuadas do final do século XX, as graphic novels. Tendo Jack, o Estripador como personagem principal - e revelando sua identidade logo nas primeiras páginas, com base em uma teoria que muitos consideram incorreta e sem sentido - o livro "Do inferno", escrito e desenhado por Alan Moore e Eddie Campbell chegou às livrarias em 1991, com mais de 570 páginas recheadas de informações e detalhes históricos capazes de fazer salivar qualquer interessado no assunto, por mais cético que seja a respeito de suas conclusões. Centrando sua trama nos pensamentos de Jack e em suas razões para assassinar as prostitutas londrinas que frequentavam a zona pobre da Londres de 1888, o livro parecia um desafio a qualquer roteirista de cinema, que se veria em maus lençóis para adaptar ao gosto do público médio uma história tão sangrenta e, pior ainda, sem um herói para se torcer. No entanto, como a terra do cinema tem seus meios - e um tema assim não poderia passar em brancas nuvens pelos ambiciosos produtores - o Festival de Veneza de 2001 serviu de plataforma para o lançamento de sua versão cinematográfica, dirigida por dois irmãos afro-americanos (Albert e Allen Hughes) e estrelada por um dos atores mais populares do cinema americano, Johnny Depp. Não, Depp - queridinho das adolescentes desde que fazia a telessérie "Anjos da lei" - não interpretava Jack. Aliás, Jack nem era mais o protagonista da história. Na versão da 20th Century Fox quem dava as cartas era Frederick Abberline, um dos inspetores responsáveis pela caça ao serial killer. Coisas de Hollywood.

No filme dos Irmãos Hughes - estiloso, plasticamente estonteante e visceralmente violento, ainda que disfarce tal violência com uma fotografia apropriadamente escurecida - Abberline assume a protagonização da história, sendo promovido de sua função no livro e tendo sua personalidade alterada, uma vez que chamou para si características de outro personagem importante da narrativa literária (um vidente chamado Robert Lees que foi limado do roteiro final). Interpretado por Depp, o inspetor ganhou novas nuances (vício em ópio, por exemplo, o que cai como uma luva na mania do ator em sempre interpretar excêntricos ou drogados) e até uma insinuação de romance com a prostituta Mary Kelly (Heather Graham), que, a despeito da descrição de suas colegas feitas em todo e qualquer artigo escrito sobre o assunto, é bonita, limpa e jovem. Assumindo o papel que foi oferecido anteriormente a Daniel Day Lewis, Jude Law, Brad Pitt e até Sean Connery, Depp oferece ao filme o que a graphic novel não tinha - um herói com passado dramático com quem o público possa se identificar - mas tira do projeto o que ele poderia ter de melhor: personalidade.


Ao optar por um ritmo repleto de camadas que exploravam todas as linhas investigativas do caso de Jack, os autores da graphic novel criaram uma obra única e fascinante, mas os fãs do livro tiveram que contentar-se com uma adaptação narrativa nos moldes clássicos, ou seja, sem maiores ousadias ou surpresas. Na Londres de 1888, uma série de assassinatos mexe com a imaginação popular e com a segurança pública: prostitutas estão sendo violentamente mortas e mutiladas por um criminoso que parece ter conhecimento de anatomia humana e tem um sombrio senso de humor, deixando recados à polícia a respeito de seus feitos. Auto-intitulado Jack, o Estripador, ele acaba por tornar-se a missão do Inspetor Abberline (Depp) - cujos métodos pouco ortodoxos de investigação incluem visões promovidas pelo uso constante de ópio. Seguindo as pistas deixadas pelo psicopata, ele chega até Sir William Gull (Ian Holm), médico da família real e membro da comunidade maçônica londrina que aparenta saber muito mais do que deixa antever seu cuidado excessivo com o jovem príncipe Edward Albert (Mark Dexter) - que mantém uma misteriosa relação com uma jovem prostituta chamada Ann Crook (Joanna Page) e pode ser a chave do mistério.

Apesar de diluir todas as informações da obra original para que elas caibam em um filme de duas horas e de tirar dela sua essência, a versão para o cinema de "Do inferno" tem muitas qualidades, especialmente quando o assunto é visual. A fotografia de Peter Deming e a reconstituição de época que praticamente esfrega na cara do público a pobreza e a tristeza de um lado menos turístico de Londres são excepcionais, assim como a noção dos irmãos Hughes em explorar da melhor maneira possível os detalhes históricos da trama mesmo que seu desfecho não seja reconhecido como verdadeiro. Uma adaptação fiel seria genial, mas dentro do cinema comercial e suas exigências, é um filme policial clássico - com direito até mesmo a um final açucarado que quase põe tudo a perder e alguns exageros facilmente perdoáveis - capaz de agradar a quem tem paciência para produtos com ritmo menos alucinante. E nem Johnny Depp e seus excessos conseguem estragar o programa.

ANTES DO ANOITECER

ANTES DO ANOITECER (Before night falls, 2000, El Mar Pictures/Grandview Pictures, 133min) Direção: Julian Schnabel. Roteiro: Cunningham O'Keefe, Lazaro Gomez Carriles, Julian Schnabel, livro de Reinaldo Arenas e documentário "Havana", de Jana Bokova. Fotografia: Xavier Pérez Grobet, Guillermo Rosas. Montagem: Michael Berenbaum. Música: Carter Burwell. Figurino: Mariestela Fernández. Direção de arte/cenários: Salvador Parra/Laurie Friedman. Produção executiva: Olatz Lopez Garmendia, Julian Schnabel. Produção: Jon Kilik. Elenco: Javier Bardem, Johnny Depp, Sean Penn, Diego Luna, Olivier Martinez. Estreia: 03/9/00 (Festival de Veneza)

Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Javier Bardem)

Poeta, escritor e dramaturgo cubano que abandonou a ilha devido à perseguição do governo de Fidel Castro - que não aceitava sua homossexualidade aberta e seus ataques explícitos à revolução - Reinaldo Arenas encontrou em Nova York, onde se estabeleceu no início da década de 80, o lugar ideal para usufruir de sua liberdade pessoal e intelectual, até que o vírus da AIDS interrompeu uma importante trajetória literária, cujo auge foi sua autobiografia, lançada dez anos depois de sua morte. Retratada em sua poesia dura e melancólica, a vida de Arenas, repleta de lances dramáticos é a base da versão para as telas de seu livro póstumo, "Antes do anoitecer", que, sob a direção sensível e igualmente lírica de Julian Schnabel - cujo currículo já incluía "Basquiat, traços de uma vida" (96), cinebiografia do artista plástico que também foi vítima da AIDS - se equilibra entre a narrativa convencional e rasgos de criatividade que nem sempre convivem em harmonia dentro do resultado final.

Apesar de contar a história de Arenas desde sua infância, no interior do país e sem a presença paterna, "Antes do anoitecer" concentra-se principalmente na juventude do escritor, quando, já em Havana, vê florescer em si seu talento como escritor, sua sexualidade pouco conveniente à sociedade conservadora de Cuba e sua tendência em lutar contra o governo (mesmo que a princípio tenha sido favorável à revolução) - fatores que o levam a uma sistemática perseguição que resultou em constantes prisões e torturas. Mantendo-se fiel à autobiografia de Arenas, um livro de memórias atípico que mistura passagens de uma crueza ímpar a poesia, narração de sonhos e pesadelos alucinantes, o filme de Schnabel convida o espectador a uma viagem recheada de imagens cuidadosamente planejadas - a fotografia em tons ocres transmite com perfeição o clima quente da capital cubana e a trilha sonora (que tem o reforço de Lou Reed e Laurie Anderson) ilustra com inteligência o tênue equilíbrio entre a liberdade da personalidade de Arenas com a repressão do governo de Fidel - até mesmo nas sequências em que o protagonista é preso e interrogado (em uma participação especial de um Johnny Depp tentando controlar sua tendência ao excesso) o cineasta jamais perde a mão em sua busca de evitar a violência, optando pelo lirismo e pela fantasia, felizmente encontrando um intérprete genial em Javier Bardem, merecidamente indicado ao Oscar por seu desempenho.


Mesclando fragilidade e um estoicismo que faz de Reinaldo Arenas uma força da natureza, Bardem - então um ator conhecido apenas no mercado espanhol, o que deixa sua lembrança pela Academia ainda mais impressionante - domina a cena do filme de Schnabel mesmo que em vários momentos o roteiro, em sua obsessão de manter-se fiel ao livro que lhe deu origem, careça de um foco mais definido e dilua os dramas de seu protagonista em sequências desnecessariamente longas, como aquela que mostra a tentativa de fuga de um grupo de cubanos através de um balão, antecedida por uma cena que reflete o tom de festa constante do submundo cubano que funciona poeticamente mas quebra o ritmo cinematográfico. Também é um pecado do roteiro não deixar claro o tipo de relacionamento entre Arenas e Lázaro (Olivier Martinez), que se torna seu leal e compreensivo companheiro de apartamento em Nova York até sua angustiante morte, com a AIDS o obrigando a abreviar uma trajetória que poderia ser ainda mais brilhante e provocativa.

Dono de uma personalidade própria, que o distingue das cinebiografias convencionais, "Antes do anoitecer" deve seu bom-gosto ao diretor Julian Schnabel, que imprime em cada cena um visual que aproxima o espectador da história que está sendo contada. A interpretação intensa de Javier Bardem - convincente em sua fase adolescente e avassalador em seus dias adultos - apresenta Reinaldo Arenas ao público como um homem sensível mas disposto a enfrentar qualquer luta, seja no âmbito pessoal e sexual ou no contexto social. O equilíbrio atingido por Schnabel entre esse dois polos é admirável, mesmo quando tal decisão soe algumas vezes como falta de foco. Porém, é preciso lembrar que o próprio livro de Arenas caracteriza-se por tal estrutura e é louvável o trabalho do diretor em transferir para as telas as palavras doloridas do escritor cubano. O ritmo pode não ser dos mais ágeis, mas "Antes do anoitecer" é um belo exemplo de cinema poético e sensorial que o cineasta aprimoraria no belo "O escafandro e a borboleta", lançado em 2007.

quinta-feira

EM BUSCA DA TERRA DO NUNCA




EM BUSCA DA TERRA DO NUNCA (Finding Neverland, 2004, Miramax Films, 106min) Direção: Marc Foster. Roteiro: David Magee, peça teatral "The man who was Peter Pan", de Allan Knee. Fotografia: Robert Schaefer. Montagem: Matt Cheesee. Música: Jon A. P. Kaczmarek. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: Gemma Jackson/Trisha Edwards. Produção executiva: Gary Binkow, Neal Israel, Michelle Shy, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Nellie Bellflower, Richard N. Gladstein. Elenco: Johnny Depp, Kate Winslet, Dustin Hoffman, Julie Christie, Radha Mitchell, Freddie Highmore, Kelly McDonald, Ian Hart. Estreia: 04/9/04 (Festival de Veneza)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Johnny Depp), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Montagem, Figurino, Direção de arte/cenários
Vencedor do Oscar de Melhor Trilha Sonora Original

É fácil emocionar a plateia quando se fala de temas comoventes como fantasia, doenças fatais e crianças em busca da felicidade e inocência eternas. Mas é difícil tocar nesses assuntos sem escorregar rumo à pieguice e ao sentimentalismo barato. Por isso não deixa de ser louvável o fato de Marc Foster – do econômico “A última ceia” – ter transformado “Em busca da Terra do Nunca”, um roteiro repleto de armadilhas emocionais, em um filme delicado sem exageros e em uma obra ingênua sem ser simplória. Indicado a sete Oscar – inclusive de Melhor Filme – a adaptação da peça teatral de Allan Knee levou apenas a estatueta de Trilha Sonora, mas ganhou audiências do mundo inteiro graças a suas qualidades inegáveis.

A trama se passa em Londres, em 1903, quando o dramaturgo James Barrie (um Johnny Depp controlado mas inexplicavelmente indicado ao Oscar de melhor ator) está amargando um grande fracasso de crítica e público. Pressionado por seu empresário (uma simpática participação de Dustin Hoffman) e por sua esposa Mary (Radha Mitchell), ele passa horas de seu dia em um parque da cidade, aguardando por inspiração. Ela surge de maneira imprevisível quando ele conhece a bela viúva Sylvia Llewelyn Davies (Kate Winslet excelente como sempre) e seus quatro filhos pequenos. Fascinado pela família que luta contra suas dificuldades financeiras, Barrie começa a escrever uma peça de teatro em que conta a história de um menino que se recusa a crescer, unindo a suas idéias elementos bastante diferentes como fadas, piratas e crocodilos. Quando a estréia está prestes a acontecer, o escritor tem que lidar com a doença fatal de Sylvia e de como esse fato irá repercutir junto ao pequeno Peter (a revelação Freddie Highmore), o mais sensível e carente de seus filhos.

         

É quase impossível não render-se à simpatia de “Em busca da Terra do Nunca”. O roteiro equilibrado de David Magee conquista pelo humor, pela delicadeza e até mesmo pela emoção, passando perto de tornar-se lacrimoso. Graças à engenhosidade do diretor e do editor Matt Chesse, as histórias de Barrie e sua esposa e de sua relação com a família Davies nunca chegam a se atropelar, e o mundo de fantasia criado pelo escritor junto às crianças serve como metáfora de uma forma de escape do mundo injusto e triste a que elas são obrigadas a submeter-se. Ancorado em um elenco em plena sintonia, o roteiro prende a atenção do público, para então entregar-lhe um final arrasador, de arrancar lágrimas do mais empedernido ser humano.

Pode até parecer bobinho, superficial e sentimentaloide, mas "Em busca da Terra do Nunca" é muito mais do que isso: é uma obra centrada em pessoas, seres humanos buscando fugir de uma realidade triste e acinzentada em busca de um lugar colorido, onde fadas convivem harmoniosamente com crianças que não querem nunca crescer e descobrir sua finitude. Uma pequena obra-prima!

segunda-feira

A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA

A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA (Sleepy hollow, 1999, Paramount Pictures, 105min) Direção: Tim Burton. Roteiro: Andrew Kevin Walker, história de Kevin Yagher, Andrew Kevin Walker, romance de Washington Irving. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Chris Lebenzon, Joel Negron. Música: Danny Elfman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Rick Heinrichs/Peter Young. Produção executiva: Francis Ford Coppola, Larry Franco. Produção: Scott Rudin, Adam Schroeder. Elenco: Johnny Depp, Christina Ricci, Christopher Walken, Miranda Richardson, Casper Van Dien, Michael Gambon, Jeffrey Jones, Lisa Marie, Christopher Lee. Estreia: 19/11/99

3 indicações ao Oscar: Fotografia, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Direção de Arte/Cenários

Um conto gótico de terror, estrelado por um detetive exótico, coadjuvado por bruxas e que contata com um vilão sem cabeça só poderia mesmo ser contado por Tim Burton. Em “A lenda do cavaleiro sem cabeça”, o cineasta buscou em uma história clássica americana a inspiração para mais um trabalho autoral, visualmente arrebatador. Dessa vez, porém, ele não conseguiu atingir a força de suas duas obras-primas “Edward Mãos de Tesoura” (1990) e “Ed Wood” (1994), sintomaticamente estreladas pelo mesmo Johnny Depp que aqui completa sua terceira colaboração com Burton.

Dessa vez Depp não interpreta um ser com tesouras no lugar das mãos nem mesmo um cineasta sem talento mas apaixonado por sua arte. Na história escrita no século XIX por Irving Washington e roteirizada por Andrew Kevin Walker (autor de “Seven”) ele vive Ichabod Crane, um detetive de métodos exóticos e passado traumático que é enviado de Nova York para uma cidadezinha do interior chamada Sleepy Hollow para investigar uma série de violentos crimes, onde as vítimas são decapitadas. Chegando no local, Crane logo fica sabendo que todos no vilarejo sabem que o culpado pelas mortes é um temido Cavaleiro Sem Cabeça, que quer vingar seu trágico fim. Sua investigação, no entanto, o leva a crer que os poderosos da cidade sabem bem mais do que revelam e ele então passa a correr sério risco de vida, enquanto se encanta com a doce Katrina (Christina Ricci), que também parece esconder segredos.



O visual de “A lenda do cavaleiro sem cabeça” é espetacular. Não há um ângulo sequer fotografado por Emmanuel Lubezki que não pareça uma pintura. A direção de arte (premiada com o Oscar da categoria) é impecável e algumas cenas são sublimes, apesar da violência. Apesar de tudo, falta ao filme um coração. Talvez por não ser uma história própria, onde poderia aproveitar sua criatividade a toda prova, Burton parece tímido, com medo de envolver-se emocionalmente na trama contada, o que fez muita diferença em seus trabalhos anteriores com Depp, aqui mais uma vez em sua persona cool, ainda que com os mesmos maneirismos de sempre e a eterna mania de parecer diferente e acrescentar um humor duvidoso à sua atuação, o que dilui consideravelmente a tensão da história.

Aliás, a opção de Burton em fugir da seriedade é que de certa forma estraga o prazer que se poderia tirar de "A lenda do cavaleiro sem cabeça". Se tivesse escolhido seguir um caminho mais dark, certamente o diretor faria jus à beleza plástica de sua obra, dando um toque de classe e sobriedade a um gênero que anda sempre perigosamente na corda bamba entre o grotesco e o patético. Nem mesmo a resolução do caso - quando os culpados são finalmente revelados e punidos - empolga dramaticamente, apesar de contar com um elenco de peso, onde destacam-se Miranda Richardson, Jeffrey Jones e um assustador Christopher Walken, que nem precisa falar para impressionar. A impressão que fica ao final da sessão é que algo muito importante ficou faltando. Não resta a menor dúvida de que Tim Burton é um cineasta de enorme talento e energia, mas “A lenda do cavaleiro sem cabeça” tem visual de mais pra história de menos.

sexta-feira

ED WOOD

ED WOOD (Ed Wood, 1994, Touchstone Pictures, 127min) Direção: Tim Burton. Roteiro: Larry Alexander, Scott Karaszewski, livro "Nightmare of ecstasy", de Rudolph Grey. Fotografia: Stefan Czapsky. Montagem: Chris Lebenzon. Música: Howard Shore. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Tom Duffield/Cricket Rowland. Produção executiva: Michael Lehmann. Produção: Tim Burton, Denise Di Novi. Elenco: Johnny Depp, Martin Landau, Patricia Arquette, Sarah Jessica Parker, Bill Murray, Jeffrey Jones, Lisa Marie, George "The Animal" Steele, Vincent D'Onofrio. Estreia: 28/9/94

Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Martin Landau), Maquiagem
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Martin Landau)

Edward D. Wood Jr. nasceu em 10 de outubro de 1924 e morreu em 10 de dezembro de 1978. Veterano da II Guerra Mundial, costumava combater vestido com roupas íntimas femininas e, graças a essa particularidade, realizou seu primeiro filme como cineasta, em 1953: "Glen ou Glenda?" A partir daí, pegou gosto pela coisa e, com a ajuda de seu fiel grupo de amigos e do veterano ator Bela Lugosi - em fim de carreira, viciado em morfina e falido - dirigiu alguns dos mais terríveis filmes vistos nas telas, e assumiu, com o passar dos anos, o título de pior diretor da história do cinema. Sem a menor noção de como fazer um filme - e realizando-os com o dinheiro de quem quisesse produzí-los - Wood é uma das personalidades mais fascinantes do lado B de Hollywood, e virou assunto de um dos trabalhos mais pessoais e sensíveis de Tim Burton. Estrelado pelo excêntrico Johnny Depp, "Ed Wood" não encontrou seu público - rendeu menos de 6 milhões de dólares nas bilheterias americanas - mas encantou a crítica e os fãs de bom cinema. Tudo devido à inteligência do roteiro, ao elenco impecável e ao carinho explícito do diretor pelo material.

Levemente inspirado na biografia "Nightmare of ecstasy", escrita pelo músico Rudolph Grey, "Ed Wood" não é exatamente uma cinebiografia, uma vez que concentra-se unicamente na carreira de cineasta do protagonista, deixando de lado sua vida antes de sua chegada ao cinema. Tudo começa em 1953, quando Wood (vivido com gosto por Johnny Depp), arrasado com as críticas negativas feitas a uma peça teatral que ele dirigiu, resolve iniciar uma nova fase em sua vida, realizando filmes para o cinema. O fracasso de seu primeiro filme - que contava a história de um homem em crise de identidade sexual, interpretado por ele mesmo - não o impede de manter-se esperançoso, principalmente quando conhece, por acaso, o ator Bela Lugosi (Martin Landau, impressionante e vencedor do Oscar de coadjuvante). Decadente e considerado ultrapassado, Lugosi se une a Wood em seus absurdos projetos cinematográficos, iniciando um relacionamento de amizade e admiração sinceras. Enquanto o jovem diretor insiste em filmar histórias sem pé nem cabeça - utilizando como atores médicos quiropratas, investidoras sem talento e filhos dos produtores - seu relacionamento com a namorada Dolores Fuller (Sarah Jessica Parker) vai pro brejo e ele inicia um romance com a dedicada Kathy O'Hara (Patricia Arquette).




Extraordinariamente fotografado em preto-e-branco por Stefan Czapsky (vencedor de importantes prêmios da crítica americana por seu trabalho), "Ed Wood" foge do tradicional esquema das cinebiografias também por permitir-se brincar com a personalidade de seu homenageado. Ao narrar com bom-humor e ironia as aventuras de Wood em busca de reconhecimento e sucesso - ele se comparava a Orson Welles - Burton utiliza os elementos a seu dispor com maestria. A trilha sonora de Howard Shore - substituindo pela única vez o parceiro constante do diretor, Danny Elfman - estabelece o clima sombrio/divertido do filme logo nos créditos iniciais (que, dizem, custaram sozinhos mais do que qualquer filme de Ed Wood). A espirituosa maquiagem vencedora do Oscar faz sua parte sem apelar para exageros e o elenco não poderia estar em dias mais inspirados.

Acostumado a papéis de maluquetes, Johnny Depp criou um Ed Wood completamente obcecado por sua carreira, capaz dos atos mais inacreditáveis para transformar suas ideias malucas em filmes, mas ao mesmo tempo consegue humanizar a personagem em suas cenas com Martin Landau, que foge magnificamente das armadilhas de interpretar alguém tão conhecido como Bela Lugosi. O sotaque empregado por Landau convenceu até mesmo o filho de Lugosi e sua cadavérica aparência casa com exatidão com as intenções de Tim Burton em realizar um filme que orgulharia Wood. E seria injusto esquecer um Bill Murray hilariante e um Jeffrey Jones sempre em vias de roubar a cena. Todos os momentos em que a equipe de Ed Wood está reunida são sublimes em sua visão romântica e apaixonada do ato de fazer cinema.

"Ed Wood" é isso! Uma homenagem carinhosa, romântica, sensível, engraçada e comovente a um dos artistas mais originais e apaixonados que o cinema americano produziu. Ed Wood pode ter sido o pior diretor da história, mas inspirou o melhor filme de um cineasta que provavelmente nasceu para contar sua história.

domingo

EDWARD MÃOS DE TESOURA

EDWARD MÃOS DE TESOURA (Edward Scissorhands, 1990, 20th Century Fox, 105min) Direção: Tim Burton. Roteiro: Caroline Thompson, história de Tim Burton e Caroline Thompson. Fotografia: Stefan Czapsky. Montagem: Richard Halsey. Música: Danny Elfman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Bo Welch/Cheryl Carasik. Casting: Victoria Thomas. Produção executiva: Richard Hashimoto. Produção: Tim Burton, Denise Di Novi. Elenco: Johnny Depp, Winona Ryder, Dianne Wiest, Anthony Michael Hall, Alan Arkin, Kathy Baker, Vincent Price. Estreia: 14/12/90

Indicado ao Oscar de Maquiagem

O que David Lynch e Tim Burton tem em comum? Aparentemente nada, diriam os mais apressados. Mas basta um olhar mais atento em "Edward Mãos de Tesoura" para perceber que ambos os cineastas tem visões críticas e irônicas em relação à sociedade em que vivem. Mas enquanto Lynch brinca de forma ácida e cruel em relação a isso, Burton prefere um viés mais romântico e delicado, ainda que bastante contundente. Em tom de fábula, "Edward" é o melhor filme do diretor, um trabalho que agrada tanto pelo impressionante visual quanto por sua história, ingênua e delicada como raramente se vê em tempos de efeitos visuais utilizados para mostrar apenas violência e destruição.


A história criada por Burton e sua roteirista Caroline Thompson é simples e eficiente: no fim de um exaustivo dia de trabalho como revendedora de cosméticos, a dona-de-casa Peggy Boggs (Dianne Wiset) chega a um castelo aparentemente abandonado. Lá dentro, encontra o tímido Edward (Johnny Depp), que vive sozinho e isolado desde a morte de seu criador (o veterano Vincent Price em seu último trabalho), um cientista que criou-o com todas as características humanas mas que morreu antes de dar-lhe mãos, substituídas por tesouras. Penalizada com a situação do rapaz, ela o leva para casa, no subúrbio de uma cidadezinha americana. Lá, Edward toma contato com as vizinhas de Peggy - tornando-se atração da região -, sua família e principalmente com sua filha adolescente, Kim (Winona Ryder), por quem se apaixona. No entanto, nem tudo são flores, e o fascínio que ele inicialmente causava transforma-se em preconceito, especialmente quando ele se envolve em um assalto imaginado pelo namorado marginal de Kim (Anthony Michael Hall).




A primeira parceria entre Burton e Johnny Depp (que fala menos de 200 palavras o filme inteiro) é uma fábula deslumbrantemente concebida, tanto em termos visuais quanto emocionais. Narrada em tom de conto de fadas, a história de Edward - variação do bom selvagem - e sua paixão por Kim, é comovente, engraçada e graças principalmente à trilha sonora inspirada de Danny Elfman, tem ares de eterna. Tem cenas hilariantes, momentos de uma ternura palpável e um visual estarrecedor, cortesia principalmente da fotografia de Stefan Czapsky. A direção de arte de Bo Welch também colabora para criar a atmosfera de fantasia imaginada pelo diretor, um artista criativo e que aproveitou o sucesso absoluto de seu "Batman" para legar à plateia uma história de amor e pureza. 

Johnny Depp começou aqui sua fama como ator de personagens excêntricos, em sua mais marcante e memorável caracterização (ajudado pela ótima maquiagem de Stan Winston, indicado ao Oscar da categoria). Winona Ryder - que apaixonou-se por ele durante as filmagens - está bela e etérea, um contraponto perfeito a seu trabalho, em uma atuação delicada e sensível. E além de tudo, "Edward Mãos de Tesoura" faz pensar e seu roteiro é uma pouco disfarçada metáfora sobre os males que a sociedade é capaz de fazer à inocência.

Simbolismos e metáforas de lado, "Edward Mãos de Tesoura" é um belo filme, um oásis de inteligência em meio a um deserto de boas ideias. Emocionante e delicado, é a obra-prima de Tim Burton, capaz de conquistar o mais empedernido dos corações.

segunda-feira

PLATOON


PLATOON (Platoon, 1986, Orion Pictures, 120min) Direção e roteiro: Oliver Stone. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Claire Simpson. Música: Georges Delerue. Direção de arte: Bruno Rubeo. Casting: Pat Golden, Warren McLean, Bob Morones. Produção executiva: John Daly, Derek Gibson. Produção: Arnold Kopelson. Elenco: Charlie Sheen, Tom Berenger, Willem Dafoe, Keith David, Forest Whitaker, Kevin Dillon, Johnnny Depp. Estreia: 19/12/86

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Oliver Stone), Ator Coadjuvante (Tom Berenger, Willem Dafoe), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Som
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Oliver Stone), Montagem, Som
Festival de Berlim: Melhor Diretor (Oliver Stone)
Vencedor de 3 Golden Globes: Filme/Drama, Diretor (Oliver Stone), Ator Coadjuvante (Tom Berenger)


Até 1986, a visão do público americano frequentador de cinema sobre a guerra do Vietnã havia sido do teor intimista de Michael Cimino e do estilo lisérgico de Francis Ford Coppola. Foi preciso que um ex-combatente de nome Oliver Stone (vencedor de um Oscar de roteiro por "O expresso da meia-noite") comandasse um filme sobre o assunto para que finalmente a plateia tivesse uma visão realista do conflito. Os elogios rasgados da crítica, o sucesso de bilheteria e os 4 Oscar conquistados (inclusive de filme e direção) por seu "Platoon" mostraram que já estava mais do que na hora.

Utilizando de sua experiência em combate e de suas lembranças pessoais, Stone carregou "Platoon" de um humanismo e uma violência física e psicológica que, ao contrário de filmes como "O franco-atirador" e "Apocalypse now" não busca subterfúgios românticos ou psicodélicos: seu ponto de vista da guerra mais vergonhosa perdida pelos EUA é seco e contundente, ainda que não totalmente desprovido de uma espécie de sentimentalismo que fala direto ao coração do público - em especial o americano.

"Platoon" é narrado através do ponto de vista do novato Chris Taylor (Charlie Sheen em papel que ecoa o trabalho de seu pai Martin em "Apocalypse"), um jovem voluntário que, tão logo chega ao Camboja, em setembro de 1967, vê o tamanho da encrenca em que se meteu. A princípio descrevendo o tédio e os horrores que dividem seu tempo em cartas à avó, ele desiste de mantê-la informada da real face da guerra quando percebe que, mais do que um violento conflito entre dois países, ele está testemunhando um drama bem mais pessoal: uma rixa pessoal entre o beligerante Sargento Barnes (Tom Berenger) e o ético Sargento Elias (Willem Dafoe).


O mais inteligente no roteiro de "Platoon" é a sua capacidade de equilibrar a disputa entre Barnes e Elias pela "alma" de Taylor e a maneira com que o rapaz vai tomando contato com toda a truculência e inutilidade da guerra. Cenas de grande impacto visual e emocional são apresentadas por Stone sem sentimentalismo, em tom quase documental, conduzindo o espectador a uma viagem sem escalas rumo a um inferno real e, pior ainda, quase palpável, graças à fotografia de Robert Richardson. A edição, também premiada com um Oscar, dá um ritmo angustiante à narrativa, assim como a trilha sonora escolhida pelo cineasta, que dialoga magistralmente com as imagens ora úmidas ora sufocantes captadas pela câmera nervosa de Stone.

Mas é em seu elenco que "Platoon" brilha ainda mais intensamente. Espertamente, Oliver Stone embaralhou as cartas na hora de escolher seus protagonistas, oferecendo ao galã Tom Berenger o papel mais odioso - um homem raivoso, cheio de cicatrizes e impiedoso - e ao normalmente vilão Willem Dafoe a compreensiva e honrada personagem que retratava o bem. Nitidamente à vontade, os dois conquistaram indicações ao Oscar por seu trabalho, e fascinam a audiência sempre que estão em cena.

"Platoon" é um dos melhores filmes de guerra da história do cinema - e abriu a trilogia do diretor sobre o Vietnã (completada com "Nascido em 4 de julho" e "Entre o céu e a terra"). Feito com o coração mais do que com a técnica, é uma experiência que transcende o gosto da platéia pelo gênero: é cinema da mais alta qualidade.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...