Mostrando postagens com marcador STEPHEN REA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador STEPHEN REA. Mostrar todas as postagens

quinta-feira

CAFÉ DA MANHÃ EM PLUTÃO


CAFÉ DA MANHÃ EM PLUTÃO (Breakfast on Pluto, 2005, Pathé Pictures International, 128min) Direção: Neil Jordan. Roteiro: Neil Jordan, Pat McCabe, romance de Patrick McCabe. Fotografia: Declan Quinn. Montagem: Tony Lawson. Música: Anna Jordan. Figurino: Elmer Ní Mhaoldomhnaigh. Direção de arte/cenários: Tom Conroy/Crispian Sallis, Sara Wan. Produção executiva: François Ivernel, Brendan McCarthy, Cameron McCracken, Mark Woods. Produção: Neil Jordan, Alan Moloney, Stephen Wooley. Elenco: Cillian Murphy, Liam Neeson, Ruth Negga, Stephen Rea, Brendan Gleeson. Estreia: 03/9/2005 (Festival de Telluride)

Em 1993, o cineasta Neil Jordan ganhou o Oscar de roteiro original por "Traídos pelo desejo", uma história de amor fora do comum que surpreendeu plateias pelo mundo todo. Quatro anos mais tarde, viu seu "Michael Collins: o preço da liberdade" dar a Liam Neeson o prêmio de melhor ator no Festival de Berlim - por interpretar ninguém menos que o fundador do IRA, o famigerado Exército Republicano Irlandês que por décadas se manteve nas manchetes internacionais devido a seus atos contra o domínio britânico na ilha. Sendo assim, o espectador que estranhar a união desses dois fatores - o político e o sexual - em "Café da manhã em Plutão", está no mínimo desavisado. Mestre em mesclar temas polêmicos com personagens excêntricos, Jordan encontrou no livro de Patrick McCabe o material ideal para seguir-se ao pouco visto (e pouco lembrado) "Lance de sorte", lançado em 2002: sem pesar a mão no tom político da obra e concentrando seu foco na trajetória de um protagonista sui generis, o diretor/roteirista/produtor comprova seu talento em transitar por diferentes gêneros sem jamais abdicar de suas características artísticas. Sim, "Café da manhã em Plutão" não é apenas um drama político, nem tampouco somente uma produção destinada ao público LGBTQ+: apresenta também elementos de musical, comédia e romance, sempre amparado em uma atuação primorosa de Cillian Murphy.

Indicado ao Golden Globe de melhor ator em comédia/musical e aplaudido unanimemente pela crítica internacional, Murphy encontrou em Patrick Braden o personagem de uma carreira. Adotando um ar ingênuo e doce que contrasta violentamente com os incidentes que atravessam o caminho de seu protagonista, o ator-amuleto de Christopher Nolan foge radicalmente dos clichês que poderiam transformá-lo em caricatura e entrega um desempenho memorável. Desviando habilmente das armadilhas do roteiro, Murphy evita o sentimentalismo (sem evitar mergulhar nos momentos mais comoventes), o exagero (apesar da natureza inerentemente festiva de parte de sua ambientação) e o humor fácil (mesmo nas situações surreais  e personagens bizarras criadas por McCabe, ). Comandando um elenco coadjuvante que conta com nomes fortes como Liam Neeson, Stephen Rea, Brendan Gleeson, Ruth Negga (mais de uma década antes de concorrer ao Oscar por "Loving: uma história de amor", de 2016) e Dominic Cooper (em participação não creditada), o protagonista da série "Peaky Blinders" assume sem medo um lado não apenas queer - Patrick Braden, também conhecido como Patricia, não se limita a rótulos simples de gênero e sexualidade, mas jamais deixa de ser crível e apaixonante.


Dividido em 26 capítulos curtos que tornam a narrativa quase episódica, o roteiro de "Café da manhã em Plutão" segue com extrema fidelidade o romance de Patrick McCabe - autor também do livro "Nó na garganta", adaptado pelo mesmo Neil Jordan em 1997. Narrado em primeira pessoa por Patrick, o filme apresenta seu protagonista desde seu nascimento - abandonado na porta de uma igreja sem saber a identidade de seus pais - e segue seu caminho rumo à auto-aceitação ou, na pior das hipóteses, às suas raízes. Rejeitado pela família adotiva que não aceita seus trejeitos e interesses femininos, Patrick encontra abrigo, como era de se esperar, junto aos párias ao seu redor, às pessoas que, assim como ele, se escoram em semelhantes para manter a dignidade e o amor-próprio. Fortalecido pela compreensão de seu novo grupo, ele resolve partir em busca de seus pais e, enquanto acaba se envolvendo em ações do IRA, bandas de rock, prisões inglesas e shows eróticos, descobre sua real identidade: Patricia. Logicamente, enquanto não finaliza sua missão, vai acumulando decepções e encontros fortuitos que desafiam seu otimismo e ingenuidade.

Neil Jordan é um cineasta que sabe explorar dramas humanos - ou nem tão humanos assim, haja visto sua bem-sucedida adaptação do best-seller "Entrevista com o vampiro" (1995) - com elegância e sensibilidade. Aproveitando com maestria o tom irônico e iconoclasta do livro de McCabe, constrói, em "Café da manhã em Plutão", uma obra que flerta ao mesmo tempo com a melancolia e o bom-humor. Trata de temas densos - transexualidade, política, igreja - sem pesar a mão e se imprime à narrativa um ritmo ágil que envolve o espectador sem maiores esforços. Utilizando-se de uma trilha sonora pop de primeira qualidade e elementos lúdicos que surpreendentemente não destoam da atmosfera pretensamente séria (mas nunca aborrecida), Jordan cria uma pequena obra-prima, uma pérola delicada e dotada de um humanismo raro, que conquista pela sinceridade que escorre de cada fotograma e pela interpretação precisa de um Cillian Murphy em dias de inspiração absoluta!

quarta-feira

CIDADÃO X

CIDADÃO X (Citizen X, 1995, HBO Pictures, 105min) Direção: Chris Gerolmo. Roteiro: Chris Gerolmo, livro de Robert Cullen. Fotografia: Robert Fraisse. Montagem: William Goldenberg. Música: Randy Edelman. Figurino: Maria Hruby. Direção de arte/cenários: Jószef Romvári/Lóránt Jávor. Produção executiva: Laura Bickford, Matthew Chapman, David R. Ginsburg. Produção: Timothy Marx. Elenco: Stephen Rea, Donald Sutherland, Max Von Sydow, Jeffrey DeMunn, Imelda Staunton, Joss Ackland. Estreia: 25/02/95

Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Coadjuvante em Filmes, Séries ou Minisséries (Donald Sutherland)

O mais famoso e cruel assassino serial da história da Rússia, Andrei Chikatilo, acumulou mais de 50 mortes no período compreendido entre 1978 e 1992. Suas vítimas eram predominantemente menores de idade, meninos e meninas que violentava, assassinava e mutilava enquanto era incansavelmente caçado pela polícia, incapaz de acreditar que seu país pudesse ser o cenário de tamanhas atrocidades. Finalmente preso e condenado, Chikatilo virou manchete pelo mundo todo, e não demorou para que sua história se mostrasse material ideal para uma adaptação para o cinema. Para surpresa de muitos, porém, quem passou à frente dos grandes estúdios de Hollywood foi a televisão: produzido pela HBO - anos antes de tornar-se uma marca famosa pela qualidade de seus produtos - o telefilme "Cidadão X" estreou nos EUA exatamente um ano depois do desfecho da aterrorizante trajetória do monstro russo, e, com um elenco de grandes atores e a ousadia de não aliviar a violência da trama, acabou por mostrar-se uma bela opção de entretenimento para os fãs do gênero.


Fazendo algumas modificações na história original - principalmente em relação à dinâmica entre o principal investigador do caso e seus superiores - o roteiro de "Cidadão X" começa com a descoberta do corpo de uma adolescente em uma floresta. Insatisfeito com a forma com que sua equipe lidou com o caso, o dedicado Viktor Bukarov (Stephen Rea) pede que façam uma busca mais rigorosa no local do crime, à procura de mais indícios. Para sua surpresa, outros sete corpos são localizados enterrados nas proximidades, o que logo lhe deixa claro de que são todas vítimas de um mesmo assassino. Disposto a investigar a fundo o caso, ele conta com o apoio do Coronel Mikhail Fetisov (Donald Sutherland), que, sabendo como lidar com os meandros da política comunista e suas idiossincrasias, lhe oferece toda a ajuda possível, inclusive um encontro com um experiente psiquiatra, Alexandr Bukhanovsky (Max Von Sydow), que traça o perfil psicológico do criminoso a ser caçado, a quem passam a chamar de Cidadão X. Anos e anos se passarão, no entanto, antes que Viktor finalmente consiga por as mãos no monstruoso homicida, que se esconde sob a personalidade de um respeitável homem comum, funcionário de uma fábrica e discreto pai de família.



Ao optar por revelar a identidade do assassino logo no começo do filme - em impressionante atuação de Jeffrey DeMunn - e focar na quase obsessiva investigação de Viktor e seus problemas com as autoridades policiais russas, "Cidadão X" corria o risco de ver seu suspense diluído e, portanto, o interesse diminuído por parte da plateia. Porém, com um roteiro inteligente e uma edição sóbria - que sublinha os momentos de tensão sem que pareçam óbvios ou excessivamente sanguinolentos - a trama é conduzida sem sobressaltos, se equilibrando entre o enredo policial e uma (nem tão) sutil crítica à burocracia da Rússia comunista pré-Perestroika. Stephen Rea mais uma vez brinda o espectador com uma interpretação minimalista, sem maiores arroubos de genialidade, mas consistente o bastante para servir como os olhos da plateia diante da série de horrores que testemunha. Donald Sutherland ganhou um Golden Globe por seu desempenho como o chefe de Rea, mas é Max Von Sydow que praticamente rouba a cena, mesmo aparecendo em poucas mas cruciais sequências: seu embate com o cruel Chikatilo, já no terço final do filme, é de arrepiar, assim como todas as cenas em que o vilão se prepara para dar o bote em suas presas. Mesmo sem inovar na estética ou na narrativa, Chris Gerolmo consegue manter a tensão até o minuto final, que mostra o destino do serial killer com extrema elegância e sutileza.

Apesar da linguagem televisiva - e de conseguir driblar suas limitações com criatividade e bom senso - "Cidadão X" é, antes de tudo, uma excelente história, contada de forma correta e sóbria, com um elenco acima de qualquer crítica. Pode incomodar àqueles que procuram uma obra-prima do gênero, mas aqueles que o encararem como o que ele realmente é - um telefilme acima da média, realizado com extremo cuidado e talento - podem se surpreender e ver que a HBO já estava, na metade dos anos 90, a caminho de sua excelência técnica e criativa. Uma bela opção para quem gosta do gênero.

sábado

MICHAEL COLLINS - O PREÇO DA LIBERDADE

MICHAEL COLLINS, O PREÇO DA LIBERDADE (Michael Collins, 1996, Geffen Pictures/Warner Bros, 124min) Direção e roteiro: Neil Jordan. Fotografia: Chris Menges. Montagem: J. Patrick Duffner, Tony Lawson. Música: Elliot Goldenthal. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Anthony Pratt/Josie MacAvin. Produção: Stephen Wooley. Elenco: Liam Neeson, Alan Rickman, Aidan Quinn, Julia Roberts, Stephen Rea, Ian Hart, Brendan Gleeson. Estreia: 28/8/96 (Festival de Veneza)

2 indicações ao Oscar: Fotografia, Trilha Sonora Original

Foi preciso o Oscar de roteiro original por "Traídos pelo desejo" e o sucesso de bilheteria de "Entrevista com o vampiro" para que o cineasta Neil Jordan finalmente conseguisse que Hollywood lhe permitisse realizar um sonho acalentado desde a década de 80: contar nas telas de cinema a história do homem que fundou um dos mais importantes grupos revolucionários do mundo, o IRA - Exército Republicano Irlandês. Apesar do tema não ser os mais atraentes (leia-se comerciais), o produtor David Geffen comprou a ideia de Jordan - ele mesmo nascido na Irlanda, portanto, grande interessado no assunto - e transformou o que poderia ser uma produção apática estrelada por Kevin Costner (que chegou a ser cotado como protagonista em determinado momento) em um thriller violento, passional e esplendidamente dirigido: "Michael Collins, o preço da liberdade", estrelado por um visceral Liam Neeson premiado no Festival de Cinema de Veneza por seu desempenho.

Previsível fracasso de bilheteria nos EUA mas um grande êxito na Irlanda - onde sua história tem maior peso e ressonância política - "Michael Collins" recebeu elogios unânimes da crítica, que louvou principalmente sua parte técnica, realmente admirável. Da belíssima fotografia do veterano Chris Menges até a impecável reconstituição de época, tudo funciona perfeitamente no filme de Jordan, emoldurando uma trama repleta de conspirações, traições e discussões políticas que, graças a um roteiro cadenciado, jamais esbarra nem no didatismo quase inevitável nem na complexidade histórica que muitas vezes condena obras do gênero ao limbo dos filmes "engajados". Nitidamente simpático à causa do IRA, Neil Jordan evita, inclusive, exagerar no desenho das qualidades de seu protagonista, mesmo que por vários momentos deixe a plateia vislumbrar sua admiração por sua personalidade carismática e intensa. Definindo seu arco dramático no período de tempo que compreende o início da luta de Collins contra o Império Britânico e pela liberdade de sua Irlanda natal até seu assassinato - cometido depois de um ato de traição que o filme torna ainda mais odioso - o diretor/roteirista equilibra seu filme entre tensas discussões táticas, violentas sequências de terrorismo (como um ataque surpresa a um jogo de rugbi) e até mesmo arruma espaço para um triângulo amoroso que coloca o protagonista e seu melhor amigo, Harry Boland (Aidan Quinn), lutando pelo amor da moderna Kitty Kiernan (Julia Roberts, cujo nome não ajudou a levantar a renda do filme no mercado americano).


Mesmo com o fato de ter como protagonista um dos pais do terrorismo moderno, "Michael Collins" jamais apela para a violência gratuita ou excessiva. Certamente não falta ao roteiro um grande número de sequências sanguinolentas, afinal trata-se de um filme sobre o surgimento de um exército que pegou em armas pesadas para garantir a independência de seu país, mas Neil Jordan é um diretor inteligente e sensível, que faz poesia de muitas de suas imagens, por mais paradoxal que a afirmação possa parecer.  Remexendo nas entranhas políticas da época em que se passa a história e explicitando o jogo de interesses que sempre existiu dentro das camadas próximas ao poder, o roteiro de certa forma justifica o uso da clava forte ao invés da justiça das palavras e do diálogo, amenizando, assim, o que poderia ser tratado como gratuidade por um cineasta mal-intencionado. Auxiliado pela fotografia de Menges - acinzentada como os céus da Irlanda em tempos de guerra - e pela trilha sonora de Elliot Goldenthal (únicas indicações do filme ao Oscar em um ano dominado pelo romantismo derramado de "O paciente inglês" e o cinismo debochado de "Fargo"), "Michael Collins" é cinema político de verdade, que transborda ideologia em cada fotograma. Talvez por isso tenha sido virtualmente ignorado pelo grande público.

Realizado com capricho e paixão, "Michael Collins" é um filme para poucos. Não põe panos quentes em um tema politicamente controverso, não deixa de mostrar sua simpatia pela busca da liberdade e nem tem medo de ser uma produção desprovida de atrativos comerciais - vale lembrar que a estrela de Julia Roberts estava em baixa durante a produção do filme. Mas é uma obra valorosa, inteligente e importante para a compreensão do mundo como é hoje.

V DE VINGANÇA

V DE VINGANÇA (V for Vendetta, 2005, Warner Bros, 132min) Direção: James McTeigue. Roteiro: Andy Wachowski, Lana Wachowski, HQ de David Lloyd. Fotografia: Adrian Biddle. Montagem: Martin Walsh. Música: Dario Marianelli. Figurino: Sammy Sheldon. Direção de arte/cenários: Owen Paterson/Peter Walpole. Produção executiva: Benjamin Waisbren. Produção: Grant Hill, Joel Silver, Andy Wachowski, Larry Wachowski. Elenco: Natalie Portman, Hugo Weaving, Stephen Rea, John Hurt, Stephen Fry, Rupert Graves, Sinead Cusack. Estreia: 11/12/05

Em 1999, os irmãos Wachowski mudaram o cenário dos filmes de ficção científica com o megasucesso "Matrix", que rendeu duas continuações e colocou seu nome na estratosfera da indústria hollywoodiana. Demorou seis anos, porém, para que eles voltassem a chamar a atenção do público e da crítica, dessa vez como roteiristas. Ao adaptar para as telas a graphic novel "V for Vendetta", de David Lloyd, os irmãos mais esquisitos do cinema americano entregaram a direção nas mãos dao australiano James McTeigue, estreando na função. Não é preciso ser muito esperto para perceber, no entanto, que, apesar do nome de McTeigue estar na cadeira de diretor é a concepção dos Wachowski que predomina nessa fascinante crítica ao fascismo - que chegou a ser proibida na China devido a seu conteúdo "subversivo".

Passado em uma Grã-Bretanha distópica que vive sob um governo fascista, "V de vingança"não tem medo de descrever uma tirania violenta e arbitrária, capaz de prender e torturar cidadãos sem o menor pudor - desmandos nada estranhos a quem já passou por ditaduras sangrentas. O público é jogado na trama sob o ponto de vista da jovem Eve (Natalie Portman pegando o papel cobiçado por Scarlett Johansson e Keira Knightley), que é salva de um estupro por um misterioso mascarado que a leva para casa e revela a ela um plano mirabolante para uma revolução popular. A princípio chocada e temerosa a respeito de seu anfitrião - que a aprisiona e chega a lhe raspar o cabelo - Eve aos poucos passa a simpatizar com sua causa, principalmente quando entra em contato com histórias tenebrosas a respeito do regime. Em pouco tempo, ela se alia ao estranho V (Hugo Weaving) e torna-se militante ativa da revolução.



É difícil resumir "V de vingança", um filme que tem como seu maior atrativo o clima de desesperança transformado em combustível para o levante popular - o que certamente incomodou o governo de países em situação similar. Criado com um visual que equilibra a escuridão do regime com a busca por uma luz no fim do túnel - que tem em sua sequência final o clímax absoluto - o filme de McTeigue também não deixa de lado a construção psicológica de suas personagens, dando a Portman e Weaving oportunidades enormes para o brilho. Enquanto o ator - que atingiu o ápice da carreira como o vilão Mr. Smith da série "Matrix" e assumiu o papel central depois da demissão de James Purefoy - convence plenamente como V mesmo sem tirar sua máscara em momento algum, Portman atinge outro ponto alto da carreira, mesclando docilidade, revolta e dor na medida exata. E seria injusto louvar também a maneira com que o roteiro dá igual espaço a cenas de ação e violência e à delicadeza da história de amor entre duas mulheres - que empurra Eve definitivamente para o lado da oposição ao governo: é uma trama paralela forte e comovente que serve também para conquistar de vez a audiência.

Em um período em que filmes de ação servem unicamente como diversão escapista que sacrifica o cérebro do espectador, "V de vingança" consegue fazer pensar ao mesmo tempo em que entretém. Mesmo que em determinados momentos o ritmo caia - talvez devido à inexperiência do diretor - o resultado final é forte, impactante e memorável. Um dos mais importantes filmes de sua época!

terça-feira

FIM DE CASO


FIM DE CASO (The end of the affair, 1999, Columbia Pictures, 102min) Direção: Neil Jordan. Roteiro: Neil Jordan, romance de Graham Greene. Fotografia: Roger Pratt. Montagem: Tony Lawson. Música: Michael Nyman. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Anthony Pratt/John Bush, Joanne Woolard. Produção: Neil Jordan, Stephen Wooley. Elenco: Ralph Fiennes, Julianne Moore, Stephen Rea, Ian Hart, Jason Isaacs. Estreia: 02/12/99

2 indicações ao Oscar: Atriz (Julianne Moore), Fotografia

Publicado em 1951 e adaptado por Hollywood já em 1955 com Deborah Kerr e Van Johson, com o nome de "Pelo amor de meu amor", o romance "Fim de caso", do inglês Graham Greene é conciso (tem pouco mais de 230 páginas), mas dotado de uma grande força dramática. Quem percebeu isso foi o cineasta irlandês Neil Jordan, que em 1999 lançou sua própria versão cinematográfica da obra. Elogiadíssimo pela crítica e indicado a dois Oscar, o filme não foi bem-sucedido comercialmente, como normalmente acontece com bons filmes direcionados ao público maduro - nem chegou a cobrir, no mercado americano, seu orçamento de 23 milhões de dólares - mas é um espetáculo imperdível. Adaptado pelo próprio Jordan, o filme não é apenas uma pungente e arrasadora história de amor. É também um estudo sobre o ciúme, a fidelidade, a fé e, pode-se dizer sem medo, Deus. Realizado com sensibilidade e inteligência, "Fim de caso" é o tipo de obra que qualquer cineasta de bom gosto adoraria assinar.

A trama começa no final dos anos 40, quando o escritor Maurice Bendrix (Ralph Fiennes em atuação mais do que inspirada) reencontra um amigo, o político Henry Miles (Stephen Rea), em uma noite de chuva torrencial. Miles está plenamente convencido de que sua esposa, a bela Sarah (Julianne Moore, indescritível), o está traindo, e Bendrix, solícito, se oferece para contratar um detetive para seguí-la. Na verdade, o escritor tem seus próprios motivos para o interesse: descobrir o motivo que levou Sarah a abandonar, sem nenhuma razão aparente, o romance secreto que eles mantinham durante a guerra. Quando põe os olhos no diário da mulher que ainda ama desesperadamente, Bendrix descobre que o fim do caso entre eles tem uma razão aparentemente banal, mas extremamente forte em seu íntimo.



Elegante sem ser chato, romântico sem ser piegas, quente sem ser pornográfico e comovente ao extremo sem ser apelativo, “Fim de caso” é um filme feito para quem gosta de uma boa história, contada com categoria e talento. Tudo funciona às mil maravilhas no conjunto. A primorosa fotografia de Roger Pratt, a belíssima música de Michael Nyman, a reconstituição de época impecável e a montagem inteligente de Tony Lawson tecem um quadro tão coeso e admirável que não deixa de ser empolgante e até mesmo chocante. São vários detalhes deixados cuidadosamente por Jordan em cada cena que, em seu final, fazem um sentido avassalador. A bela sequência em que Bendrix finalmente descobre o porquê de ter sido abandonado, por exemplo, é de uma simplicidade tocante, com um diálogo belo porque simples e recitado por um casal de atores em seus melhores dias. Não à toa Julianne Moore foi indicada ao Oscar por sua magnífica performance. Quando o filme assume seu ponto de vista, na segunda metade, a audiência experimenta um dos mais dolorosos romances da década de 90.

A adaptação de Jordan não chega a ser extremamente fiel ao livro de Greene – e algumas diferenças até podem incomodar os fãs da obra literária, ainda que a versão cinematográfica suscite algumas discussões muito interessante sobre fé – mas é impossível ficar indiferente à química explosiva entre Ralph Fiennes e Julianne Moore, em atuações antológicas. O único problema de “Fim de caso” é que raramente produções tão boas chegam às telas e fica difícil assistir aos romances pasteurizados que desfilam pelas telas sem fazer comparações com sua força.

ENTREVISTA COM O VAMPIRO

ENTREVISTA COM O VAMPIRO (Interview with the vampire: The vampire chronicles, 1994, Geffen Pictures, 123min) Direção: Neil Jordan. Roteiro: Anne Rice, romance de sua autoria. Fotografia: Phillippe Rousselot. Montagem: Mick Audsley, Joke Van Wijk. Música: Elliot Goldenthal. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Dante Ferretti/Francesa Lo Schiavo. Produção: David Geffen, Stephen Woolley. Elenco: Tom Cruise, Brad Pitt, Kirsten Dunst, Christian Slater, Antonio Banderas, Stephen Rea, Thandie Newton. Estreia: 11/11/94

2 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Direção de arte/cenários

Desde que a escritora americana Anne Rice publicou o livro "Entrevista com o vampiro", em 1976, muitas tentativas de adaptá-lo para o cinema foram frustradas, pelos mais variados motivos. No final dos anos 70, por exemplo, o projeto foi engavetado devido ao fracasso de três filmes sobre vampirismo - "Drácula", com Frank Langella, "Nosferatu", com Klaus Kinski e "Amor à primeira mordida", com George Hamilton. Na época, o nome mais cotado para protagonizar o filme era o ator - então em alta - John Travolta, ainda que a própria escritora tivesse o holandês Rutger Hauer em mente quando criou a personagem central do livro. Mais de uma década se passou até que finalmente a história das aventuras dos vampiros Lestat, Louis e Claudia chegasse às telas. Dirigido pelo irlandês Neil Jordan - cineasta inteligente e de extremo bom-gosto - o filme estreou cercado de expectativas e polêmicas, mas surpreeendentemente agradou à maioria da crítica e o que é mais importante, dos fãs da obra literária.

Escrito por Anne Rice como forma de terapia depois da morte da filha pequena, vítima de leucemia - e homenageada no livro na pele da vampira-mirim Claudia - "Entrevista com o vampiro" arrebatou milhares de fãs mundo afora, que espernearam violentamente quando foi anunciado o nome do ator que viveria o sedutor protagonista, Lestat de Lioncourt. Acostumado a viver galãs heróicos - e levar multidões aos cinemas - Tom Cruise era o último nome que os leitores desejavam ver na pele do malévolo vampiro-mor criado por Rice e a própria escritora manifestou-se ferozmente contra a escolha dos produtores. A morte de River Phoenix - que viveria o jovem repórter que faz a entrevista do título - não colaborou para animar os ânimos e tudo parecia apontar para um fiasco de grandes proporções. Felizmente a história do cinema é repleta de surpresas, e "Entrevista com o vampiro" é uma delas. Mesmo que ignore algumas importantes nuances do livro, a adaptação para as telas - feita por Anne Rice em pessoa - não faz feio em comparação com sua origem. E, por incrível que pareça, Tom Cruise é um de seus maiores destaques.



Tentando fugir da imagem de bom moço, Cruise entrega em "Entrevista com o vampiro" uma de suas atuações menos previsíveis, ainda que às vezes escorregue descaradamente para o overacting - levando-se em consideração, porém, que Lestat é uma personagem teatral e propensa a exageros, dá pra deixar de lado as críticas mau-humoradas e divertir-se com sua interpretação. Debochado, cruel e politicamente incorreto, Lestat é o contraponto perfeito ao melancólico Louis, vivido por um Brad Pitt em vias de transformar-se em sensação absoluta junto ao imaginário feminino.

Tudo começa em São Francisco, quando um jovem jornalista (papel que Christian Slater herdou de River Phoenix) é procurado por um rapaz de aparência sinistra. Apresentando-se como Louis de Pointe du Lac, ele revela ao repórter que é um vampiro e, depois de convencê-lo disso, conta a ele sua inacreditável história, que tem início em Nova Orleans no ano de 1791. Devastado pela morte da esposa e do filho recém-nascido, Louis é um jovem fazendeiro que desafia a morte diariamente. Um dia ela aparece à sua frente na figura do misterioso Lestat (Tom Cruise), um vampiro que o leva para o mundo das trevas. Incapaz de matar seres humanos e alimentando-se do sangue de pequenos animais, Louis incomoda Lestat a ponto de ambos resolverem sair pelo mundo em busca de outros iguais a eles. Logo junta-se a eles a menina Claudia (Kirsten Dunst), que, órfã, é mordida por Lestat para acompanhá-los. As inúmeras viagens dos três são marcadas por eventos trágicos, principalmente quando Louis e Claudia se voltam contra a insensibilidade de Lestat.

Dirigindo com elegância mas sem maiores lances de criatividade, Neil Jordan teve sorte de cercar-se de gente extremamente talentosa. A fotografia sombria de Philippe Rousselot dá o tom exato ao clima de melancolia e tragédia que perpassa toda a história - vale lembrar que, no livro, Louis não perde a mulher e o filho e sim o melhor amigo, o que dá à trama um tom homoerótico absolutamente limado da versão cinematográfica. A trilha sonora de Elliot Goldenthal (indicada ao Oscar) mistura o gótico com o moderno, ainda que não fuja do óbvio ao eleger Rolling Stones para os créditos finais. E, se Brad Pitt não consegue se desvencilhar do básico em seu trabalho como Louis (transformado no roteiro em um chato sem pró-atividade), é Kirsten Dunst que brilha, na mais sensacional revelação do filme. Garfando um papel para o qual foram testadas Christina Ricci, Julia Stiles e Evan Rachel Wood, a futura namorada do Homem-aranha já demonstra, em seu primeiro papel de verdade, um talento que se comprovaria em filmes como "As virgens suicidas" e "Maria Antonieta".

Para quem não leu o livro, "Entrevista com o vampiro" é um excelente filme do gênero, com personagens bem construídos e interpretados por atores de verdade - ao contrário de coisas como a saga "Crepúsculo", que enterrou a mitologia vampiresca de forma aparentemente indelével. Para os leitores - que não se conformaram com a simplificação de temas como a depressão, a morte e até mesmo a bissexualidade dos protagonistas - não chega a ser a decepção anunciada. E para o público em geral, que gosta de um bom filme, é um programa de qualidade, dirigido por um cineasta incapaz de assinar qualquer trabalho.

sábado

TRAÍDOS PELO DESEJO

TRAÍDOS PELO DESEJO (The crying game, 1992, Miramax Films, 112min) Direção e roteiro: Neil Jordan. Fotografia: Ian Wilson. Montagem: Kant Pan. Música: Anne Dudley. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Jim Clay/Martin Childs. Casting: Susie Figgis. Produção executiva: Nik Powell. Produção: Stephen Wooley. Elenco: Stephen Rea, Miranda Richardson, Forest Whitaker, Jaye Davidson, Jim Broadbent. Estreia: 26/9/92

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Neil Jordan), Ator (Stephen Rea), Ator Coadjuvante (Jaye Davidson), Roteiro Original, Montagem
Vencedor do Oscar de Roteiro Original

No biênio 92/93, um dos filmes mais comentados entre os cinéfilos de bom gosto era uma produção irlandesa, realizada com uns trocados, sem astros nos papéis centrais e com uma polêmica reviravolta na sua segunda parte. Dirigido pelo talentoso mas não célebre Neil Jordan, "Traídos pelo desejo" pegou o mundo de surpresa ao provar que, antes de astros musculosos e efeitos visuais, uma história bem contada é o ingrediente mais importante de qualquer produção. Hollywood seria muito mais interessante se seu filme fosse regra e não exceção.


Indicado a 6 importantes Oscar - e vencedor merecido do prêmio de roteiro original - "Traídos pelo desejo" é um dos mais fascinantes estudos sobre lealdade e paixão que o cinema já proporcionou. Imprevisível, forte, adulto e interpretado com garra, o filme de Jordan conduz o público a um labirinto de emoções a que somente um roteiro consistente e um diretor com mão firme conseguem. Tudo começa quando Jody (Forest Whitaker), um soldado inglês, é sequestrado pelo IRA, em represália ao governo. Enquanto espera o desenlace da situação, ele inicia uma espécie de amizade com um dos seus carrascos, o sensível Fergus (Stephen Rea, indicado ao Oscar de melhor ator), e fala a ele sobre sua paixão pela namorada. Depois de um trágico fim para o sequestro, Fergus abandona a luta armada e tenta levar uma vida normal. Consumido pela culpa, ele procura a namorada do soldado, a cabeleireira Dil (Jaye Davidson) e aos poucos eles iniciam um relacionamento. Depois de uma chocante revelação - que muda totalmente a visão de Fergus e da plateia em relação à moça - o passado do rapaz volta a atormentá-lo: sua colega de exército, Judy (Miranda Richardson, absolutamente fabulosa) o procura e exige que ele faça parte de uma nova ação.



As idas e vindas do roteiro de "Traídos pelo desejo" são absolutamente surpreendentes e não parecem forçadas em momento algum, graças principalmente à inteligência de Neil Jordan em não apressar as situações. Tudo acontece no momento certo, da forma correta, e o elenco escalado por ele não poderia estar em melhores dias. Stephen Rea é um ator extraordinário, que consegue dividir suas cenas com generosidade ímpar: ele joga bem com Whitaker, com Richardson e principalmente com Davidson, em um papel cruel e ingrato, mas que lhe dá a oportunidade de uma carreira. E Miranda Richardson rouba qualquer cena em que aparece, equilibrando um ar psicopata com uma determinação ferrenha de cumprir sua missão - e de quebra reconquistar o amor de Fergus.

Mas e quanto ao grande segredo preparado por Jordan? Apesar de ser o divisor de águas do roteiro - e redirecionar a trama de maneira indelével - a reviravolta na história de amor entre Fergus e Dil é apenas um elemento a mais, ainda que importante, de uma história contada com sutileza e sobriedade. Causou controvérsia, e discussões são sempre saudáveis, mas relegar "Traídos pelo desejo" a um nicho específico de cinema é emburrecer a audiência. "Traídos pelo desejo" é um filme que melhora a cada revisão - e na segunda sessão já não há mais a tal surpresa, o que apenas comprova sua enorme qualidade. Humano, sério e fascinante.Como todo bom cinema!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...