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terça-feira

O FILME DA MINHA VIDA

 


O FILME DA MINHA VIDA (O filme da minha vida, 2017, Bananeira Filmes/Globo Filmes/MGM, 113min) Direção: Selton Mello. Roteiro: Selton Mello, Marcelo Vindicato, romance "Um pai de cinema", de Antonio Skármeta. Fotografia: Walter Carvalho. Montagem: Marcio Hashimoto. Música: Plínio Profeta. Figurino: Kika Lopes. Direção de arte/cenários: Claudio Amaral Peixoto/Monica Delfino, René Padilha, Claudio Amaral Peixoto. Produção executiva: Vânia Catani, Selton Mello. Produção: Vânia Catani. Elenco: Johnny Massaro, Selton Mello, Vincent Cassel, Bruna Linzmeyer, Bia Arantes, Ondina Clais, Martha Nowill, Rolando Boldrin, Erika Januza. Estreia: 03/8/2017

A família é sempre um elemento crucial no cinema de Selton Mello. Desde que iniciou sua carreira como cineasta - com o denso "Feliz Natal" (2008) -, o também ator, roteirista e produtor passou a direcionar sua câmera a personagens mergulhados em dúvidas existenciais e questões mal resolvidas com aqueles que, dividindo o mesmo sangue ou não, fazem parte de seu entorno sentimental. Seja através da claustrofobia de seu primeiro trabalho ou da terna nostalgia de seu filme seguinte, "O palhaço" (2011), a filmografia de Selton espelha, de forma poética e por vezes dolorida, a preocupação com o mais íntimo de seus protagonistas, frequentemente atormentados por fantasmas pessoais. É o que acontece também em "O filme da minha vida", sua terceira incursão na cadeira de diretor: baseado no livro "Um pai de cinema", do chileno Antonio Skármeta, o filme é a história do amadurecimento (amoroso, sexual, profissional) de um jovem abalado pela inexplicável falta de um pai cuja ausência se faz sentida em cada momento. Esteticamente deslumbrante e e com extremo cuidado em cada detalhe, "O filme da minha vida" é um considerável passo à frente na carreira do Selton Mello diretor - tanto em termos visuais quanto narrativos.

Mais um protagonista assombrado por laços sanguíneos problemáticos, o jovem Tony Terranova (Johnny Massaro) retorna à sua Remanso, no ano de 1963, vindo da faculdade, e descobre que seu pai, Nicolas (Vincent Cassel) o está abandonando e à sua mãe para retornar à sua França natal. Atônito com tal situação, ele passa a dedicar seus dias à tentativa de descobrir os motivos que o levaram a atitude tão extrema. Nesse meio-tempo, sua rotina inclui aulas para pré-adolescentes em ebulição hormonal, sua fascinação pela bela Petra Madeira (Bia Arantes) - a ponto de não perceber a atração que exerce na irmã dela, Luna (Bruna Linzmeyer) - e conversas frequentes com Paco (Selton Mello), melhor amigo de seu pai, de quem tenta arrancar pistas sobre seu paradeiro e um exemplo de figura masculina. Misturando-se a lembranças felizes de sua infância, seu sentimento de inadequação o leva a questionar sua capacidade de servir como modelo a seus alunos, ansiosos por entrar na vida adulta.

 
 
 Filmado em cidades da serra gaúcha - local pródigo em locações deslumbrantes, captadas com extrema competência pelo veterano Walter Carvalho -, o terceiro trabalho de Mello seduz, a princípio, pelo visual acachapante, que mergulha o espectador em um mundo à parte, em uma atmosfera rarefeita onde seus personagens transitam de forma (positivamente) afetada. Ao abrir mão do naturalismo que virou marca registrada do cinema nacional, o diretor acaba por exigir mais do público, e lhe oferece em troca uma experiência rica em termos plásticos e emocionais. Com uma trilha sonora escolhida a dedo - com clássicos dos cancioneiros francês e brasileiro ilustrando sequências encantadoras - e um elenco brilhante (dos protagonistas aos menores coadjuvantes, especialmente os infantis), "O filme da minha vida" é o feliz encontro do calor do cinema brasileiro com a sofisticação quase cerebral do cinema europeu. Selton Mello conduz o espectador por um caminho fascinante, em que a emoção brota quando menos se espera - e sempre de forma elegante, como nos filmes assistidos pelo romântico Tony. Mesmo que o desfecho deixe a desejar (depois de uma reviravolta interessante em que o diretor/ator aproveita para fazer uma discreta homenagem ao cinema), as qualidades técnicas e artísticas do filme são tão consistentes que é difícil não se deixar conquistar por elas. Ciente das ferramentas de que poderia utilizar para contar sua história, Mello as aproveita como um veterano, equilibrando técnica e emoção nas medidas certas.

Expandindo o romance que lhe deu origem - escrito pelo mesmo Antonio Skármeta de "O carteiro e o poeta" -, o roteiro de "O filme da minha vida" corre sem pressa diante dos olhos do espectador. A bela paisagem gaúcha emoldura um ritual de passagem repleto de um humor ingênuo e sentimental - algo que também fez parte de "O palhaço" - e tem em Johnny Massaro sua figura de centro. Mesmo apático em alguns momentos, Massaro parece ter encarnado com perfeição o Tony Terranova criado pelos autores, intercalando uma melancolia quase incurável com olhos de esperança inevitável. Ao lado de Selton Mello (o ator em um personagem encantador em sua quase misantropia) e de um elenco que conta com o francês Vincent Cassel em uma participação especialíssima, Massaro prova o alto grau de excelência que o cinema nacional pode alcançar. Pode até não ser um filme para o público que gosta de blockbusters, mas é o cinema brasileiro em seu mais alto patamar artístico.

A FORMA DA ÁGUA


A FORMA DA ÁGUA (The shape of water, 2017, Fox Searchlights, 123min) Direção: Guillermo Del Toro. Roteiro: Guillermo Del Toro, Vanessa Taylor. Fotografia: Dan Laustsen. Montagem: Sidney Wolinsky. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Luis Sequeira. Direção de arte/cenários: Paul D. Austerberry/Jeffrey A. Melvin, Shane Vieau. Produção: J. Miles Dale, Guillermo Del Toro. Elenco: Sally Hawkins, Michael Shannon, Richard Jenkins, Octavia Spencer, Michael Stuhlbarg, Doug Jones. Estreia: 31/8/2017 (Festival de Veneza)

13 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Guillermo Del Toro), Atriz (Sally Hawkins), Ator Coadjuvante (Richard Jenkins), Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Mixagem de Som, Edição de Som

Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Guillermo Del Toro), Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários

Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Trilha Sonora Original

Quando tinha apenas seis anos de idade, o cineasta Guillermo Del Toro assistiu ao clássico "O monstro da lagoa negra" (1954) e não se conformou com o fato da mocinha do filme, interpretada por Julie Adams, não ter tido um final feliz com a criatura do título. Mais de quarenta anos depois, já consagrado como o diretor de filmes mundialmente aclamados -  "A espinha do diabo" (2001) e "O labirinto do fauno" (2006) - Del Toro pode finalmente contar a história a seu modo. Disfarçadamente, é claro - mas nem tanto - e com um toque de fantasia que dialoga diretamente com suas obras mais admiradas., "A forma da água" transformou-se, em pouco tempo, do projeto dos sonhos do realizador (e um de seus filmes mais pessoais) em um grande êxito de bilheteria e crítica. Vencedora do Leão de Ouro do Festival de Veneza e de quatro Oscar (incluindo melhor filme e diretor), a romântica história da relação entre uma tímida e sonhadora faxineira e uma criatura anfíbia tida como prisioneira em um laboratório do governo norte-americano durante a Guerra Fria, subverte as convenções de heroísmo, beleza e amor e entrega à plateia uma das mais deslumbrantes produções de seu tempo - calcada no capricho visual característico de Del Toro, em um roteiro que funciona como um passe de mágica e, principalmente, em um elenco escolhido a dedo, no qual se destaca a impecável Sally Hawking.

Primeira e única escolha do diretor para viver a delicada Elisa Esposito - "Eu queria que Elisa fosse bonita a seu próprio modo, não do modo de um comercial de perfume. Que você acreditasse que essa personagem, essa mulher poderia estar sentada a seu lado no ônibus. Mas que ao mesmo tempo tivesse uma luminosidade, uma beleza quase mágica, etérea...-, Sally Hawking entrega uma atuação fascinante, em que mescla inocência, inteligência e uma inusitada sensualidade. Indicada ao Oscar de melhor atriz, perdeu a estatueta para Frances McDormand em "Três anúncios para um crime", mas alcança, em seu trabalho, notas de uma sutileza ímpar. Interpretando uma personagem muda sem que se utilize dessa característica para forçar a simpatia do público, ela faz cada espectador acreditar não apenas na força que demonstra quando é obrigada a isso, mas também - e aí o mérito é dela e da direção delicada de Del Toro - de que seu amor redentor por um ser aparentemente inalcançável é passível de um final feliz. Tal ousadia do roteiro - a de eleger como herói romântico alguém que em outros tempos não seria mais do que o principal antagonista (ou até mesmo um vilão cujo destino esperado e desejado era a morte mais trágica possível) - faz de "A forma da água" uma história de amor e fantasia que embaralha as cartas dos gêneros para criar uma realidade alternativa doce e comovente.


Enquanto nos filmes clássicos de horror dos anos 1950 - época em que a Universal Pictures reinou absoluta com seus vampiros, lobisomens e cientistas lunáticos - a fórmula mandava que o monstro jamais fosse capaz de conquistar o amor da mocinha por quem se apaixonava perdidamente ("King Kong", "A bela e a fera") e preferencialmente encontrasse um desfecho que comprovasse a superioridade dos humanos em relação às bestas, no mundo invertido de Del Toro os pretensamente seres racionais é que sofrem de desvios graves de caráter (especialmente o detestável Richard Strickland interpretado com gosto por Michael Shannon) e são as minorias que não só demonstram uma humanidade à toda prova como são capazes de alterar destinos tidos como definitivos (o homossexual enrustido vivido pelo excelente Richard Jenkins, a faxineira negra criada por Octavia Spencer e a protagonista quase invisível de Hawking). O universo de Del Toro é um mundo à parte, desenhado com precisão - a vitória da equipe de direção de arte no Oscar não foi à toa: perdidos em um período da década de 1960, os cenários retratam uma visão particular e afetiva do diretor, um espaço no tempo em que o passado conservador estava em vias de se encontrar com um futuro que apontava a Lua e o espaço sideral. A paleta de cores - em que tons mais vivos vão surgindo conforme Elisa descobre a capacidade do amor em transformar a forma como ela vê o mundo até então cinzento - serve como comentário visual às ideias românticas da trama e deslumbra pela força com que envolve a audiência em sua espiral de fantasia e emoção.

E seria injusto não citar o trabalho de Doug Jones como um dos pontos fundamentais do sucesso de "A forma da água": na pele da criatura anfíbia que desperta a curiosidade, o carinho e posteriormente o amor de Elisa - e no caminho conquista seus amigos e mostra que a devoção que despertava "nos selvagens da América do Sul, que o idolatravam como a um deus" não era algo desproporcional -, Jones oferece um desempenho poucas vezes visto no cinema. Debaixo das claustrofóbicas roupas do ser anfíbio - um processo que lhe custava horas -, o ator impressiona com uma interpretação silenciosa mas extremamente expressiva. São comoventes todas as sequências em que ele e Elisa descobrem um ao outro sem trocar uma única palavra - cenas sublinhadas pela genialidade de Del Toro em utilizar-se do cinema como pano de fundo para o despertar do amor. Com um ritmo invejável - são duas horas que passam voando - e um dos finais mais poéticos que o cinema já proporcionou (ao menos nas últimas décadas), "A forma da água" é uma obra-prima indelével, o tipo de filme que já nasceu clássico e que provavelmente irá resistir bravamente à prova do tempo. É um filme para sonhadores - de todos os tipos, raças e espécies.

BERENICE PROCURA

 


BERENICE PROCURA (Berenice procura, 2017, EH Filmes, 90min) Direção: Allan Fiterman. Roteiro: Flávia Guimarães, romance de Luiz Alfredo Garcia-Roza. Fotografia: Azul Serra. Montagem: Fábio Jordão. Música: João Paulo Mendonça. Figurino: Tatiana Rodrigues. Produção: Elisa Tolomelli. Elenco: Cláudia Abreu, Eduardo Moscovis, Emílio Dantas, Vera Holtz, Caio Manhente, Valentina Sampaio. Estreia: 07/10/2017

O psicanalista Luiz Alfredo Garcia-Roza só estreou na literatura aos 60 anos de idade, quando seu "O silêncio da chuva" foi lançado, em 2006. A partir de então, tornou-se um dos nomes mais populares entre os leitores de romances policiais - um gênero que, no Brasil, consagrou Rubem Fonseca e Patrícia Melo. Dez anos depois, outro livro seu, "Achados e perdidos", foi adaptado para o cinema por José Joffily, com Antonio Fagundes no papel principal - e encontrou outro público, disposto a acompanhar audiovisualmente um gênero clássico da sétima arte mesclado com elementos de identidade nacional. Tal característica da obra do escritor - utilizar os cânones das histórias policiais em um universo tipicamente brasileiro (carioca, mais exatamente) - está nítida e assumida em "Berenice procura", segundo livro seu a fazer a transposição das páginas para as telas. Assinado por Allan Fiterman - conhecido diretor de telenovelas globais fazendo sua estreia como cineasta - e estrelado pela sempre competente Cláudia Abreu, o filme acerta em cheio ao jogar luz em um tema controverso e relevante (a violência contra os LGBTQ+) mas escorrega em um quesito que volta e meia atormenta o cinema nacional: o roteiro.

A trama criada por Garcia-Roza é repleta de personagens dúbios, pistas falsas, hipocrisias morais e meandros da vida noturna de Copacabana. São elementos que, em um romance, podem ser desenvolvidos sem pressa. Em um roteiro cinematográfico, porém, é crucial que tais ingredientes sejam inseridos de maneira orgânica, como forma de envolver o espectador sem que as engrenagens da trama soem óbvias. Não é o que acontece em "Berenice procura": a roteirista Flávia Guimarães peca em simplesmente jogar as informações diante do público, sem aprofundá-las ou dar a elas a devida importância. É preciso fazer um exercício mental para descobrir as relações entre alguns personagens - e até mesmo para compreender algumas subtramas de extrema importância para o desenvolvimento da história. A intenção pode até ser confundir (afinal, trata-se de um jogo de detetive), mas somado à edição irregular de Fábio Jordão, o roteiro peca por não oferecer à plateia (e até mesmo aos atores envolvidos no projeto) uma base mais sólida: cenas fortes são diluídas em um excesso de cortes e um distanciamento estilístico que impede uma maior empatia pelos personagens - um erro fatal em um enredo cuja maior força é justamente a emoção primordial.

O filme começa muito bem, com uma sequência belamente fotografada e que emula os melhores momentos do cinema de David Lynch: a câmera passeia pelo amanhecer na praia de Copacabana até dar de cara com o cadáver de uma bela mulher, encostado em uma árvore. Quem descobre o corpo é um menino acompanhado da babá, e logo o crime é notícia nacional - a cobertura local é feita pelo repórter Domingos (Eduardo Moscovis), misógino, preconceituoso e casado com Berenice (Cláudia Abreu), que dirige um táxi para ganhar o próprio dinheiro e não depender do marido, com quem vive uma relação apenas formal. O casal tem um filho adolescente, Thiago (Caio Manhente), que vive em seu mundo particular, longe dos olhos dos pais - e perto demais do universo da vítima do crime, a transexual Isabelle (a bela Valentina Sampaio, atriz trans que demonstra grande potencial). Em flashback, o filme mostra os últimos dias de Isabelle, desejada pelos clientes da boate dirigida pela rígida Greta (Vera Holtz), e que sonha em abandonar a prostituição - no que é apoiada pela mãe adotiva, Brigitte (Brigitte de Búzios) e pelo irmão, Russo (Emílio Dantas), um contraventor envolvido em uma série de pequenos roubos e que passa a ser acusado pelo homicídio. Através de Thiago, inconsolável pela morte da amiga, Berenice acaba se envolvendo na investigação do crime - uma decisão que a conduz a um mundo diametralmente oposto à sua rotina doméstica de classe média.

Muita coisa em "Berenice procura" parece capenga: o envolvimento da protagonista na investigação soa gratuito demais, a relação entre Thiago e Isabelle nunca fica exatamente clara, o desfecho é abrupto e anticlimático, alguns personagens coadjuvantes são simplesmente subaproveitados e o romance entre Berenice e Russo não convence (mais por problemas de roteiro do que pelo talento de Cláudia Abreu e Emílio Dantas). Porém, esses equívocos - que comprometem bastante a narrativa - são amenizados por algumas qualidades redentoras. Allan Fiterman acerta em boa parte das sequências na boate, com shows produzidos com bom gosto e com uma atmosfera bastante realista; o tratamento dado à transexualidade é respeitoso (todo preconceito vem de personagens de caráter duvidoso) e o elenco é um espetáculo à parte - principalmente Vera Holtz (tirando o máximo de uma personagem unidimensional) e Eduardo Moscovis (sempre ótimo em papéis duros). Mas o destaque é mesmo a bela Valentina Sampaio, que estreia no cinema com o pé direito - a cena com a avassaladora "Amor marginal", de Johnny Hooker, é deslumbrante e coloca o filme definitivamente no rol das mais importantes produções LGBTQ+ da história do cinema nacional. É um marco - mas que poderia estar em um filme menos apressado e genérico.

ASSASSINATO NO EXPRESSO DO ORIENTE (2017)


ASSASSINATO NO EXPRESSO DO ORIENTE (Murder on the Orient Express, 2017, 20th Century Fox, 114min) Direção: Kenneth Branagh. Roteiro: Michael Green, romance de Agatha Christie. Fotografia: Haris Zambarloukos. Montagem: Mick Audsley. Música: Patrick Doyle. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: Jim Clay/Rebecca Alleway, Caroline Smith. Produção executiva: Matthew Jenkins, Dillon Kilvo, James Prichard, Aditya Sood, Hilary Strong. Produção: Kenneth Branagh, Mark Gordon, Judy Hofflund, Simon Kinberg, Michael Schaefer, Ridley Scott. Elenco: Kenneth Branagh, Judi Dench, Michelle Pfeiffer, Penelope Cruz, Johnny Depp, Leslie Odom Jr., Derek Jacobi, Josh Gad, Olivia Colman, Willem Dafoe. Estreia: 03/11/2017

Publicado em 1934 e considerado por leitores e críticos como um dos maiores romances policiais de todos os tempos, "Assassinato no Expresso do Oriente" não apenas consagrou definitivamente a inglesa Agatha Christie como "a rainha do crime" como também se mantém no inconsciente coletivo há quase um século. Sua trama, repleta de pistas falsas, ritmo ágil e um desenvolvimento intrigante, mostra o detetive Hercule Poirot no auge de sua perspicácia e apresenta um desfecho antológico - dos mais surpreendentes da prolífica carreira da escritora. Clássico absoluto do gênero, o livro ganhou uma adaptação caprichada em 1974 - quarenta anos após seu lançamento -, sob a direção de Sidney Lumet e um elenco internacional recheado de astros - de Albert Finney como Poirot a uma verdadeira constelação que incluía Lauren Bacall, Sean Connery, Jacqueline Bissett, Anthony Perkins, Maggie Smith e Ingrid Bergman, premiada com um Oscar de atriz coadjuvante. Em 2010, chegou à televisão em um episódio da série britânica "Poirot" - com o famoso investigador interpretado por David Suchet e nomes como Jessica Chastain, Barbara Hershey e Toby Jones emprestando credibilidade ao resultado final. E é de se perguntar por que, mesmo diante de duas versões aplaudidas e fiéis à fonte original, o irlandês Kenneth Branagh considerou necessária uma nova releitura. Pior ainda: em que momento o outrora celebrado cineasta achou cabíveis as alterações criminosas que seu filme - lançado no final de 2017 - fez na história concebida pela mente genial de Christie?

Os (inúmeros) fãs da escritora ficaram revoltados com as liberdades que o roteiro de Michael Green tomou em relação à obra original - tanto em termos da história em si (com personagens amalgamados) quanto pela descaracterização radical do protagonista Hercule Poirot. Retratado nos romances como um senhor de idade avançada, de modos finos e radicalmente contra qualquer tipo de violência - além de privilegiar o cérebro em detrimento de embates físicos -, Poirot viu sua versão cinematográfica rejuvenescer, emagrecer, ter um amor do passado (mostrado apenas em fotografia) e, pior do que tudo, se envolver em lutas, tiroteios e perseguições. É de lamentar que Kenneth Branagh - um ator de talento e sensibilidade o suficientes para que fosse uma espécie de embaixador de Shakespeare na Hollywood dos anos 1990 - tenha se deixado levar pelo ego, a ponto de fazer de seu detetive um super-herói que muito pouco lembra o ídolo dos leitores do gênero. Enquanto no livro Poirot ia aos poucos desvendando todos os meandros que levaram a um misterioso homicídio ocorrido em um dos meios de transporte mais sofisticados do mundo, no filme as conclusões são jogadas, quase como se o personagem tivesse dons paranormais. E se Poirot era, antes de qualquer coisa, um cavalheiro, no filme de Branagh ele não hesita em levantar a voz quando necessário - mesmo que isso destoe radicalmente de sua real personalidade. Não é preciso dizer que, mesmo sendo um bom ator, o ex-marido de Emma Thompson erra violentamente em sua composição.

E não é apenas isso. Como forma de agradar à patrulha do politicamente correto de Hollywood, o roteiro consegue a proeza (negativa) de transformar o coronel Arbuthnot em um médico negro (em uma fusão com outro personagem do livro, Constantine): por mais que se saiba a necessidade atual de inserir representatividade na mídia, é no mínimo equivocada a ideia de que um homem negro pudesse ser o passageiro do Expresso do Oriente em 1934. A inclusão de Leslie Odom Jr. no elenco pode ter tido boas intenções, mas o tiro acabou saindo pela culatra: a novidade soa deslocada, inverossímil e, pior ainda, constrangedora em sua tentativa de soar atual. Também não deu certo substituir as nacionalidades de outros personagens cruciais: a sueca Greta Ohlsson (vivida por Ingrid Bergman em 1974) virou Pilar Estravados na nova adaptação (e ficou com o rosto de Penélope Cruz, subaproveitada como todo o elenco), e o italiano Hardman transmutou-se no espanhol Biniamino Marquez (para ser interpretado por Manuel Garcia-Rulfo). São diferenças que em nada acrescentam ao material original e apenas enfatizam a vontade quase imatura de forçar uma identidade - um desejo que se estende também ao visual estilizado, que compreende a fotografia cinza-azulada de Haris Zambarloukos (que funciona apenas em parte) e os ângulos inusitados de câmera (que evitam o convencional a todo custo e cansam em diversos momentos). A direção de arte e o figurinos são deslumbrantes, mas é pouco diante de tantos erros - que enfraquecem as boas ideias de Branagh, como utilizar-se de espelhos para ilustrar a dubiedade dos personagens/suspeitos.

A trama em si é conhecida por quase todo mundo (ao menos os fãs do gênero a conhecem de longa data): durante uma viagem no tradicional Expresso do Oriente, o misterioso e pouco simpático Edward Ratchett (Johnny Depp forçado como sempre) é violentamente assassinado a facadas. O crime é ainda mais intrigante quando se descobre que as facadas são de tamanhos e intensidades diferentes, e outras pistas incoerentes deixam o trabalho do famoso detetive particular Hercule Poirot (um passageiro de última hora) ainda mais complicado. Os suspeitos - um grupo variado de passageiros em determinado vagão - parecem não ter nada em comum e aparentemente todos tem álibis indestrutíveis. A ideia inicial - de que o homicídio foi resultado de uma vingança relacionada à máfia - é deixada de lado, no entanto, quando Poirot descobre que Ratchett é, na verdade, o responsável pelo sequestro e assassinato de um bebê, alguns anos antes: resta, então, descobrir quem, dentre os passageiros, também está mentindo quanto à sua identidade.

Desperdiçando um elenco excepcional - que inclui os veteranos Judi Dench e Derek Jacobi, os consagrados Willem Dafoe, Penélope Cruz e Michelle Pfeiffer - e apostando na modernização de uma trama que já nasceu clássica, Kenneth Branagh simplesmente destruiu a obra original, destroçando inclusive a revelação sobre o nome do assassino em uma sequência morna e com um desfecho sofrível. Em pensar que ele continuará sua missão em estragar outras obras de Christie - "Morte sobre o Nilo" é o próximo da lista e sua menção nos últimos minutos do primeiro filme já aponta para mais distorções imperdoáveis - chega a dar calafrios. Matar uma obra dessa forma deveria ser crime!

1922


1922 (1922, 2017, Netflix, Lighthouse Pictures/Campfire, 102min) Direção: Zak Hilditch. Roteiro: Zak Hilditch, história de Stephen King. Fotografia: Ben Richardson. Montagem: Merlin Eden. Música: Mike Patton. Figurino: Claudia Da Ponte. Direção de arte/cenários: Page Buckner/Jacquelin Miller. Produção executiva: Ian Bricke, Jamie Goehring, Zak Hilditch, Samantha Housman, Liz Kearney, Kevin Leeson, Shawn Williamson. Produção: Ross M. Dinerstein. Elenco: Thomas Jane, Molly Parker, Dylan Schmid, Kaitlyn Bernard, Neal McDonough, Brian D'Arcy James. Estreia: 23/09/201 (Fantastic Fest)

Levando-se em consideração que seu primeiro romance, "Carrie: a estranha" foi publicado em 1974, é de se admirar a longevidade de Stephen King no imaginário popular - tanto em termos literários quanto cinematográficos. Somente em 2017, nada menos que seis obras de sua autoria foram adaptadas para as telas, em forma de série ou filme. Duas dessas adaptações chegaram ao público pela Netflix - e ao menos uma delas merecia ter tido mais reconhecimento. Baseado na novela de mesmo nome publicada em 2010 no livro "Full dark, no stars", o drama psicológico "1922" está mais perto de obras densas como "Louca obsessão" (1990) e "Eclipse total" (1995) do que para equívocos sanguinolentos como "O apanhador de sonhos" (2003) e "Sonâmbulos" (1992). Segundo filme de Zak Hilditch - que estreou em longa-metragens com "As horas finais" (2013) - e terceiro encontro do ator Thomas Jane com a obra de King, "1922" é um mergulho na culpa, e se não consegue atingir todo o seu potencial, ao menos é uma produção acima da média no gênero - e muito melhor do que se poderia esperar de algo vindo da Netflix.

Com um desenho de produção caprichado e extremo cuidado na direção de atores, Hilditch surpreende ao criar uma atmosfera de tensão desde as primeiras cenas de seu filme, narrado em flashback pelo protagonista, Wilfred James (interpretado com razoável competência por Jane, que ainda não é um grande ator mas ao menos não compromete o resultado final). Em 1930, James, consumido pela culpa e pela solidão, escreve uma carta aberta, onde confessa a morte da esposa e a responsabilidade pelas tragédias que vieram em sua consequência. O roteiro (escrito pelo diretor) volta, então, ao ano de 1922, quando o ambicioso fazendeiro começa sua escalada rumo à loucura e à paranoia. Sonhando em aumentar sua propriedade na área rural do Nebraska, James esbarra na recusa da esposa, Arlette (Molly Parker) em desistir da ideia de vender a terra que herdou da família e tentar a sorte na cidade grande. Ao contrário do marido, Arlette não é feliz com a vida no campo e tem planos de montar uma loja de roupas em Omaha. Inconsolável com tal atitude e tal (segundo seu ponto de vista) egoísmo, James consegue convencer até mesmo o próprio filho adolescente, Henry (Dylan Schmid), a resolver a situação da forma mais cruel e definitiva possível: juntos, os dois tramam e cometem um violento homicídio, e ocultam o corpo no poço da fazenda, declarando à vizinhança que foram abandonados. O que parecia caso resolvido, no entanto, logo se transforma em um problema ainda maior quando Henry, cada vez mais atormentado pelo remorso, descobre que a jovem namorada, Shannon (Kaitlyn Bernard), está grávida - uma situação que acelera uma série de acontecimentos que o colocam em rota de colisão com o pai.


Mesmo que não hesite em apostar no suspense em momentos cruciais, - a sequência do assassinato de Arlette é muito bem dirigida e algumas alucinações de James atingem o tom exato de desespero -, o roteiro de Zak Hilditch se concentra muito mais na introspecção do que no explícito. A música - a cargo de Mike Patton (ex-Faith No More) - sublinha com precisão o tom claustrofóbico imposto pelo diretor, que aposta na tensão crescente como forma de envolver o público. Conforme Wilfred James vai se deixando levar pela culpa - com ratos surgindo diante de seus olhos como forma de lembrá-lo de que seu ato jamais lhe fugirá da memória -, mais e mais a direção de Hilditch se torna opressiva. A forma como o destino de Henry e Shannon se desenrola diante do espectador é um acerto a mais - inspirado em "Bonnie & Clyde: uma rajada de balas" (1967), seu romance marginal/elegante/trágico talvez até merecesse um pouco mais de tempo na tela. E se Thomas Jane cumpre sua missão sem maiores tropeços, a atuação de Molly Parker é digna de figurar na galeria de seus melhores trabalhos - poucos minutos em cena são suficientes para que ela se torne, ao mesmo tempo, uma potencial vilã e uma vítima inocente da ganância do marido, incapaz de conceber o tamanho da violência que lhe aguarda.  Neste embate entre Parker e Jane, o desempenho do jovem Dylan Schmid (da série "Expresso do amanhã") consegue sobressair-se em um misto de ingenuidade e melancolia - é um rapaz com um belo futuro pela frente.

Mesmo que destoe do que se espera de uma obra baseada em Stephen King - leia-se muito mais cerebral que física e sem suas costumeiras características -, "1922" pode ser considerado um filme digno de figurar entre suas adaptações acertadas. O público menos afeito a sutilezas talvez torça o nariz, esperando mais violência e sustos constantes, mas aqueles que se aventurarem certamente estarão diante de uma produção caprichada e, melhor ainda, que se leva a sério. Não é uma das obras mais conhecidas de King - mas pode surpreender por sua inteligência e - por que não? - elegância ao contar uma história tão pesada.

domingo

THE POST: A GUERRA SECRETA


THE POST: A GUERRA SECRETA (The Post, 2017, 20th Century Fox/Dreamworks Pictures/Reliance Entertainment, 116min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Liz Hannah, Josh Singer. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Sarah Broshar, Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Rick Carter/Rena DeAngelo. Produção executiva: Tom Karnoswski, Josh Singer, Adam Somner, Tim White, Trevor White. Produção: Kristie Macosko Krieger, Amy Pascal, Steven Spielberg. Elenco: Meryl Streep, Tom Hanks, Sarah Paulson, Bob Odenkirk, Tracy Letts, Bradley Whitford, Bruce Greenwood, Matthew Rhys, Alison Brie, Carrie Coon, Jesse Plemons, Michael Stuhlbarg. Estreia: 14/12/2017

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Meryl Streep

Até "A lista de Schindler" (1993) sair da cerimônia do Oscar 1994 com sete estatuetas - incluindo melhor filme e direção -, havia uma certa resistência da Academia em relação à filmografia de Steven Spielberg, um dos mais bem-sucedidos cineastas da história de Hollywood. Problemas deixados de lado, o diretor voltou a ser premiado, em 1999, graças ao comando do impecável "O resgate do soldado Ryan" - que chegou perto de também levar o troféu principal e acabou perdendo para "Shakespeare apaixonado", em uma das decisões mais polêmicas do prêmio - e tornou-se, desde então, um eterno indicado em potencial. Cada filme seu, independente do sucesso junto ao público, tem boas chances de estar na seleta lista dos melhores de cada temporada. Às vezes com justiça - caso dos ótimos "Munique"" (2005) e "Ponte dos espiões" (2015). Em outras ocasiões como resultado de uma quase alucinação coletiva - como o soporífero "Lincoln" (2012), que deu o terceiro Oscar de melhor ator a Daniel Day-Lewis. "The Post: A Guerra Secreta", lançado no final de 2017 com pretensões de seduzir a Academia, fica no meio do caminho: não chega nem perto de ser um dos destaques da sua celebrada filmografia, mas tampouco é tão difícil como seus trabalhos mais lentos.

Baseado em uma história real - e realizado com um impressionante grau de realismo -, "The Post" é um caso raro dentro da indústria: entre o começo de suas filmagens, em maio de 2017, e seu lançamento limitado, em dezembro do mesmo ano, passaram-se apenas sete meses. A pressa de Spielberg era justificada pelo clima político dos EUA, assolado (como em outros países) por ondas criminosas de fake news. Como forma de demonstrar um posicionamento a favor de imprensa livre e séria, o cineasta foi buscar no roteiro de Liz Hannah (coescrito por Josh Singer, que já havia lidado com o tema em "O quinto poder", de 2013, e "Spotlight: segredos revelados", que lhe rendeu um Oscar em 2015) o material ideal. Escrito com base em livros de memórias de seus dois protagonistas - e um terceiro, escrito por uma fonte crucial para a ação -, "The Post" é um thriller político com ecos nítidos de "Todos os homens do presidente" (1976) e, como tal, se esforça em ser o mais fiel possível na reconstituição dos fatos que levaram a um dos mais sérios dilemas éticos do jornalismo norte-americano do século XX. Por coincidência (ou não), no olho do furacão estava o mesmo Washington Post que, poucos anos depois, seria o responsável pelas reportagens que levaram à renúncia do então presidente Richard Nixon. Ao contrário do filme dirigido por Alan J. Pakula, no entanto, "The Post" centra seu foco menos nos repórteres e mais nos editores - mais nas dúvidas a respeito da publicação do que na busca pelas informações.


 Coadjuvante em "Todos os homens do presidente" - tanto que seu intérprete no filme, Jason Robards, levou o Oscar da categoria -, o editor-chefe Ben Bradlee assume, em "The Post", a co-protagonização, ao lado da diretora do jornal, Kay Adams, interpretada por Meryl Streep. Na pele de Tom Hanks (em sua quinta colaboração com Steven Spielberg), Bradlee é o que mais se aproxima de herói, no filme: ético, responsável, pai de família respeitável e bom amigo, ele é, também, a voz da consciência que permeia a narrativa, que inclui, de forma oportuna e inteligente, uma discussão muito bem-vinda sobre machismo. Ao herdar a direção do jornal depois do suicídio do marido, Kay precisa passar por cima de todo o preconceito em relação a seu gênero - o que inclui embates com financiadores e banqueiros pouco confiantes em seus talentos como administradora. "The Post" é, então, um filme com duas frentes dramáticas que se encontram na segunda (e superior) metade: se publicar os documentos secretos que confirmam um sistemático encobertamento do governo dos EUA em relação à guerra do Vietnã - um processo que envolveu vários presidentes -, o jornal pode sofrer consequências jurídicas que podem levá-lo à falência, mas sua posição em relação à liberdade de imprensa fatalmente será comprometida junto aos leitores. Essa questão - cada vez mais pertinente e atual - é o cerne do filme de Spielberg, mas demora a estabelecer-se, e essa morosidade quase estraga o resultado final.

Apesar da premissa ser eletrizante e apontar para um desenvolvimento ágil como se espera de um thriller, "The Post: a guerra secreta" sofre de um sério problema de ritmo em sua primeira metade. Não que sem sua segunda parte o filme abandone suas longas sequências de reuniões de escritório e bastidores burocráticos do jornalismo, mas é perceptível que a coisa só engrena de verdade quando o Washington Post assume as rédeas da narrativa, tomando para si a responsabilidade de desafiar o governo Nixon. Não é tão empolgante quanto seu irmão mais velho - novamente é preciso relembrar "Todos os homens do presidente" - e nem tão ágil quanto "Spotlight" (no qual o ator John Slattery interpreta o filho de Ben Bradlee, personagem de Hanks), mas consegue, de certa forma, explicar os motivos pelos quais encantou parte da crítica. Eleito o melhor filme de 2017 pelo National Board of Review e indicado a dois Oscar - incluindo a 21ª indicação de Streep, um recorde absoluto -, "The Post" pode não ser um dos melhores trabalhos de Spielberg, mas, como sempre, sua excelência técnica (fotografia, música, edição, elenco) o destaca positivamente dentre os filmes de sua geração. É uma bela homenagem à força feminina e à liberdade de imprensa - e seus defeitos de ritmo podem ser perdoados diante de tal importância histórica.

sexta-feira

NOSSAS NOITES


NOSSAS NOITES (Our souls at night, 2017, Netflix, 103min) Direção: Ritesh Batra. Roteiro: Scott Neustadter, Michael H. Weber, romance de Kent Haruf. Fotografia: Stephen Goldblatt. Montagem: John F. Lyons. Música: Elliot Goldenthal. Figurino: Wendy Chuck. Direção de arte/cenários: Jane Ann Stewart/Helen Britten. Produção executiva: Pauline Fischer, Ben Ormand. Produção: Finola Dwyer, Robert Redford, Erin Simms. Elenco: Jane Fonda, Robert Redford, Matthias Schoenaerts, Judy Greer, Bruce Dern, Phyllis Sommerville, Iain Armitage. Estreia: 01/9/2017 (Festival de Veneza)

O primeiro encontro profissional entre Jane Fonda e Robert Redford se deu em 1966, no filme "Caçada humana", dirigido por Arthur Penn e estrelado por Marlon Brando. No ano seguinte, estrelaram, no auge da beleza e da juventude, a comédia romântica "Descalços no parque", baseada em peça teatral de Neil Simon. Uma terceira parceria veio em 1979 com "O cavaleiro elétrico", dirigido por Sydney Pollack, e demorou quase quatro décadas para que uma nova colaboração chegasse até os fãs da dupla. Produzido pela Netflix, o drama romântico "Nossas noites" estreou no Festival de Veneza de 2017 e, se não fez o barulho que se poderia esperar de tal reunião isso se deve mais à despretensão do filme do que por sua possível falta de qualidades. Delicada e sensível, a adaptação do livro de Kent Haruf é um presente para um público em busca de histórias simples e bem contadas, com personagens com as quais é fácil se identificar de alguma maneira. E é claro que contar com a ajuda de Fonda e Redford não atrapalha em nada. Mesmo que não acrescente nada ao gênero e faça pouco pela carreira dos envolvidos, pode-se dizer, sem medo, que "Nossas noites" é um filme para aquecer o coração.

Sem medo de demonstrar a idade, Fonda e Redford são a principal fonte de interesse no filme dirigido pelo indiano Ritesh Batra, que ficou conhecido no Ocidente graças ao simpático "The lunchbox" (2013). Inteligente, Batra acerta em cheio a não tentar dissimular o tom quase melodramático da história e assumir seu dom para o romantismo exarcebado - ainda que pincelado com tons realistas e modernos. Fonda vive Addie Moore, uma viúva que, tentando amenizar a solidão, bate à porta de seu vizinho, Louis Waters (Redford), também viúvo, e faz a ele uma proposta inusitada: já que se conhecem há anos, ainda que superficialmente, por que não tentam dormir juntos na casa dela, como forma de fazer companhia um ao outro? A proposta é clara: não é sexo que Addie está procurando, e sim uma forma de conexão humana. Sem nada a perder, Louis aceita a nova amizade e os dois, aos poucos, começam a criar uma intimidade - ela ainda sofre com a morte precoce da filha, ainda criança, e ele tenta lidar com o sentimento de culpa de ter traído a esposa quando a filha ainda era pequena. Conforme vão se tornando mais próximos, porém, Abbie e Louis passam a ser o assunto da vizinhança - e não demoram a perceber que um sentimento muito forte está nascendo entre eles.


 

Como não poderia deixar de acontecer, no entanto, a felicidade do novo casal começa a incomodar, principalmente a Gene (Matthias Schoenaerts), filho de Abbie e ex-aluno de Louis: com o casamento em crise, Gene procura a mãe para pedir que ela fique um tempo com seu filho, Jamie (Iain Armitage), até que ele resolva sua vida. A presença do menino, ao contrário de afastá-la de seu novo amigo, faz com que Abbie o valorize ainda mais: juntos, os três formam uma nova e unida família, onde o respeito, o amor e o carinho são parte crucial da equação. Mas será que sua coragem em investir em um novo amor depois dos setenta anos valerá a pena? Ou os problemas do passado serão mais fortes que a busca pela felicidade já no outono da vida? O roteiro, escrito pelos mesmos Scott Neustadter e Michael H. Weber da comédia romântica "(500) dias com ela" (2009), não se aprofunda em tais questões, que surgem conforme a relação entre os protagonistas vai se tornando cada vez mais sincera. Assim como na vida, os problemas aparecem em cada esquina (e de tamanhos variados) e precisam ser resolvidos antes dos próximos passos, e os personagens lidam com eles sem grandes cenas dramáticas ou lágrimas desnecessárias. "Nossas noites" é um filme de pequenos momentos, de sentimentos reais e personagens que podem morar ao lado do espectador. Para uns é uma qualidade, para outros pode ser entediante.

A química entre Robert Redford - um dos produtores do filme - e Jane Fonda é preciosa. Despidos do glamour de estrelas de cinema, ambos entregam atuações comoventes, que envolvem o público sem fazer muito esforço. Apesar do início um tanto estranho - a proposta de Addie não é exatamente algo comum - e de certa demora em estabelecer obstáculos à nascente história de amor, "Nossas noites" entrega à audiência um produto com muito mais conteúdo do que boa parte de seus congêneres, normalmente dedicados à romances entre jovens fotogênicos em cenários paradisíacos. Addie e Louis vivem em uma cidadezinha do Colorado sem maiores atrativos e há muito não podem ser considerados símbolos sexuais, mas a história do escritor Kent Haruf, que morreu seis meses antes da publicação de seu livro - ressoa em qualquer lugar do mundo justamente por sua humanidade franca e honesta. Dirigido com sutileza e interpretado por dois dos maiores nomes do cinema hollywoodiano, "Nossas noites"" vale a pena. É como um chocolate quente no auge do inverno.

sábado

ME CHAME PELO SEU NOME


ME CHAME PELO SEU NOME (Call me by your name, 2017, Frenesy Film Company/RT Features, 12min) Direção: Luca Guadagnino. Roteiro: James Ivory, romance de André Aciman. Fotografia: Sayombhu Mukdeeprom. Montagem: Walter Fasano. Figurino: Giulia Piersanti. Direção de arte/cenários: Samuel Deshors/Sandro Piccarozzi. Produção executiva: Naima Abed, Margharete Baillou, Tom Dolby, Nicholas Kaiser, Sophie Mas, Francesco Melzi d'Eril, Lourenço Sant'Anna, Derek Simonds. Produção: Emilie Georges, Luca Guadagnino, James Ivory, Marco Morabito, Howard Rosenman, Peter Spears, Rodrigo Teixeira. Elenco: Timothée Chalamet, Armie Hammer, Michael Stuhlbarg, Amira Casar, Esther Garrel. Estreia: 22/01/2017 (Festival de Sundance)

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Timothée Chalamet), Roteiro Adaptado, Canção Original ("Mystery of love")

Vencedor do Oscar de Roteiro Adaptado

A Itália, com suas belas paisagens naturais, é cenário frequente para histórias de amor made in Hollywood. Desde clássicos absolutos, como "A princesa e o plebeu" (1954) e "Quando floresce o coração" até produções contemporâneas, como "Beleza roubada" (1996) e "Sob o sol da Toscana" (2003), o cinema sempre buscou o clima sensual da região para servir como um personagem a mais, capaz de, com seu ar romântico, ser o catalisador de paixões avassaladoras. "Me chame pelo seu nome" é um dos exemplos mais recentes dessa tendência já consagrada. Baseado em um livro de André Aciman publicado em 2007, o filme do italiano Luca Guadagnino conta um história arrebatadora, que ultrapassa o estigma de romance gay para se tornar uma das produções mais elogiadas e premiadas de sua temporada: de sua estreia no Festival de Sundance, em janeiro de 2017, até a cerimônia do Oscar, em fevereiro do ano seguinte - e passando pelo New York Film Festival, de onde saiu ovacionado pelo público -, "Me chame pelo seu nome" passou por diversos festivais de cinema, sempre aplaudido pela crítica e querido pelo público. Adaptado para as telas por James Ivory, o filme - que tem o brasileiro Rodrigo Teixeira entre seus produtores - deu ao veterano cineasta sua primeira estatueta da Academia, e foi generosamente indicado em outras três categorias, incluindo melhor filme e ator (o jovem Timothée Chalamet).

O caminho do livro de Aciman até sua estreia em Sundance - de onde foi comprado pela Sony Pictures antes mesmo de sua primeira exibição pública - não chegou a ser problemática como se poderia esperar de uma história de amor homossexual, não exatamente um chamariz de bilheteria (o próprio Armie Hammer, que vive um dos protagonistas sabe muito bem sobre o assunto, depois do fracasso financeiro de "J. Edgar", de 2011, no qual vivia o amante do protagonista, interpretado por Leonardo DiCaprio). Em setembro de 2015, James Ivory, um diretor respeitado e de bastante prestígio junto à crítica, anunciou que estava em vias de dirigir uma adaptação do romance - e chegou a dizer que Shia LaBeouf e Greta Scacchi estariam no elenco da produção. Oito meses depois, no entanto, as coisas tinham mudado: Ivory continuava a bordo, mas como produtor e roteirista; Luca Guadagnino assumiu o posto de diretor e LaBeouf foi substituído pelo novato Chalamet - a quem já conhecia há alguns anos e que lhe parecia a escolha certa para o papel. Hammer entrou no projeto também pelas mãos do diretor, impressionado com seu desempenho em "A rede social" (2010). Filmado praticamente em ordem cronológica em pouco mais de um mês na pequena cidade italiana de Crema, "Me chame pelo seu nome" emana, em suas imagens e clima, a sensação perfeita de um verão inesquecível - um clima que, segundo o elenco, refletia a tranquilidade das filmagens e a intimidade entre a equipe. 

 

A trama de "Me chame pelo seu nome" se passa no verão europeu de 1983, em uma pequena vila italiana, onde a família de Elio (Timothée Chalamet) passa a temporada. Seu pai (Michael Stuhlbarg) é um renomado professor de cultura greco-romana, e sua mãe, Annella (Amira Casar), uma tradutora. Elio é rodeado de pessoas cultas, inteligentes e sensíveis, mas nem mesmo ele poderia imaginar que ficaria tão impressionado com Oliver (Armie Hammer), um estudante que chega para ajudar o veterano professor em suas tarefas universitárias. Charmoso e educado, Oliver imediatamente desperta sentimentos até então desconhecidos para o adolescente - que tenta escondê-los iniciando um romance passageiro com uma amiga de sua idade. Elio, apesar de toda a sofisticação intelectual à sua volta, ainda é um adolescente inexperiente em matérias do coração, e se deixa seduzir pelo brilhantismo de Oliver, com quem não simpatiza em seus primeiros dias. Igualmente atraído por Elio, que desperta nele sentimentos contraditórios, Oliver se deixa levar pela sensualidade do cenário que o cerca, e surge um violento romance entre os dois. Um romance que, logicamente, tem data certa para acabar, já que Oliver deve ir embora em poucas semanas.

O que mais chama atenção em "Me chame pelo seu nome", além da adaptação bastante fiel de James Ivory - que, aos 89 anos, tornou-se a pessoa de mais idade a ganhar um Oscar competitivo -, é a direção fluida de Luca Guadagnino. Com filmes bastante elegantes no curriculo - como "Um sonho de amor" (2009) e "Um mergulho no passado" (2015) -, Guadagnino conduz a trama sem pressa, concentrando-se em detalhes, em sutilezas, em pequenos gestos que se tornam gigantescos no contexto em que são apresentados. A química entre Chalamet e Hammer é preciosa, especialmente quando sublinhada pelas belas canções de Surfjan Stevens - uma delas, "Mysteries of love", também chegou a ser indicada ao Oscar - e suas cenas mais quentes são dirigidas com bom gosto e delicadeza, utilizando o sexo mais como forma de comunhão entre os personagens do que como um meio de chamar a atenção do público. E se não bastasse toda a elegância promovida por Guadagnino, seus momentos finais são simplesmente devastadores: um pequeno monólogo do pai de Elio (que oferece uma atuação brilhante de Michael Sthulbarg) sobre entregar-se ao amor e a bela cena em que o adolescente relembra seu primeiro amor (sem diálogos, apenas com o talento de Chalamet em se fazer compreender sem precisar de palavras) fazem com que "Me chame pelo seu nome" fique marcado no coração do espectador. É uma pequena obra-prima, antológica desde seu nascimento.

domingo

MÃE!


MÃE! (mother!, 2017, Paramount Pictures, 127min) Direção e roteiro: Darren Aronofsky. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Andrew Wesiblum. Figurino: Danny Glicker. Direção de arte/cenários: Phillip Messina/Larry Dias, Martine Kazemirchuck. Produção executiva: Mark Heyman, Josh Stern, Jeff Waxman. Produção: Scott Franklin, Ari Handel. Elenco: Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer, Domhnall Gleeson, Brian Gleeson, Kristen Wiig. Estreia: 05/9/2017 (Festival de Veneza)

Darren Aronofsky tem no currículo filmes muito particulares, como o cultuado "Pi" (1998), o elogiado "Réquiem para um sonho" (2000) e o oscarizado "Cisne negro" (2010). Mesmo assim, com todas essas produções polêmicas na bagagem - sem falar no ambicioso "Fonte da vida", que desconcertou crítica e público em 2006 -, o cineasta nova-iorquino nunca foi alvo de tanta controvérsia quanto a despertada por "Mãe!", seu sétimo longa-metragem. Cercado de segredos até sua estreia no Festival de Veneza 2017, o filme já chegou ao mundo dividindo ferozmente as opiniões: tanto aplaudido quanto vaiado na Itália, seu trabalho seguiu caminho sendo apedrejado (por muitos) e incensado (por bem menos). Não deixa de ser esperado: alegórico ao extremo e violento em demasia, o filme apostou alto na inteligência e sensibilidade de um público mal-acostumado e alimentado por blockbusters vazios e descobriu, da pior maneira, que seu pesadelo febril estava longe de despertar a curiosidade da plateia. Com uma renda tímida de pouco mais de 17 milhões de dólares (contra um custo estimado de 30), "Mãe!" acabou por mostrar-se uma grande dor de cabeça para a Paramount, que herdou o projeto da Fox e de outros estúdios e viu que nem mesmo a presença de Jennifer Lawrence e Javier Bardem como protagonistas puderam salvar o filme do fracasso comercial. Aliás, para surpresa de todos - até mesmo daqueles que reconheciam o elenco como única qualidade do filme -, "Mãe!" chegou a ser indicado ao Framboesa de Ouro (o oposto do Oscar) nas categorias de pior ator e pior atriz.

Mas, afinal, por que tanto ódio por um filme? Se o próprio Aronofsky já tinha experimentado um pouco da fúria dos católicos por sua versão pouco religiosa do dilúvio em "Noé" (2014), foi com "Mãe!" que ele realmente mergulhou fundo em um tema tão inflamável quanto religião. Não que "Mãe!" seja um filme óbvio sobre Deus e seus profetas, mas assim que os símbolos do roteiro são decifrados, fica bastante claro que o cineasta não está disposto a poupar nem os personagens nem tampouco os espectadores. Sob uma direção claustrofóbica e em um tom onírico de causar inveja a David Lynch, Aronofsky conduz o público por um caminho repleto de fanatismo, violência e desespero, sublinhados pela fotografia imersiva de Matthew Libatique, que acompanha a protagonista em seu espiral de angústia, através de um cenário que é quase um personagem a mais. É compreensível que boa parte da audiência sinta-se desconfortável com a ousadia narrativa do diretor, mas é chocante o quanto uma parcela da crítica foi capaz de rechaçar o filme com tanta truculência - mesmo antes de sua estreia.

 


Envolto em aura de mistério desde sua fase de pré-produção, "Mãe!" viu os mais diversos boatos a seu respeito surgirem na indústria. Havia quem jurasse que se tratava de um remake do clássico "O bebê de Rosemary", dirigido por Roman Polanski em 1968 - uma informação completamente equivocada, como mais tarde se veria. Com o título provisório de "Day 6", o filme era a culminância de uma longa gestação - que incluiu ensaios por três meses antes das filmagens e uma reunião de Aronofsky com Jennifer Lawrence, que resultou não apenas em uma parceria profissional, mas também em um romance entre o diretor e sua estrela. Lawrence, uma das atrizes mais respeitadas e premiadas de sua geração, embarcou em um projeto potencialmente perigoso - o que conta muitos pontos a seu favor - e saiu dele com uma costela quebrada e uma experiência devastadora emocionalmente. Não à toa, tirou um ano de férias após o final dos trabalhos - e viu o massacre em cima do filme, que se tornou, também, seu maior fracasso de bilheteria de estreia, com apenas 7,5 milhões de dólares arrecadados no primeiro fim-de-semana em cartaz. Para efeito de comparação, um de seus filmes mais bem-sucedidos, o primeiro "Jogos vorazes" (2012) saiu de sua estreia com mais de 150 milhões.

É difícil resumir "Mãe!" sem privar o público da sensação de estar descobrindo aos poucos tudo que está acontecendo na tela. Sem estragar nada, pode-se dizer que a trama gira em torno de um casal cujos nomes nunca são mencionados - vividos por Lawrence e Javier Bardem - que, durante o processo de restauração de sua bela casa isolada, vê seu relacionamento ameaçado pela chegada de outro par - Ed Harris e Michelle Pfeiffer, ótimos - e, posteriormente, por convidados barulhentos e hostis. O dono da casa é um aclamado e egocêntrico poeta que não se importa com o estrago feito por seus fãs, enquanto sua esposa tenta impedir os estragos que estão destruindo seu lar e seu relacionamento. Pronto. Sabendo-se que Bardem interpreta uma versão particular de Deus e Lawrence dá voz à Natureza, o resto vai se revelando de forma aterradora. É só prestar atenção que tudo está lá: Adão e Eva, Caim e Abel, o dilúvio, a criação do Novo Testamento, guerras religiosas, o nascimento de Cristo... Aronofsky merece ser aplaudido por sua coragem em criar algo tão fora do comum e tão radicalmente controverso. Logicamente não é um filme para qualquer público, mas só o fato de assumir isso sem medo já é motivo mais que suficiente para considerá-lo uma das obras mais importantes do cinema norte-americano recente.

sexta-feira

LADY BIRD: A HORA DE VOAR


LADY BIRD: A HORA DE VOAR (Ladybird, 2017, A24, 94min) Direção e roteiro: Greta Gerwig. Fotografia: Sam Levy. Montagem: Nick Houy. Música: Jon Brion. Figurino: April Napier. Direção de arte/cenários: Chris Jones/Traci Spadorcia. Produção executiva: Lila Yacoub. Produção: Eli Bush, Evelyn O'Neil, Scott Rudin. Elenco: Saoirse Ronan, Laurie Metcalf, Tracy Letts, Lucas Hedges, Timothée Chalamet, Lois Smith, Beanie Feldstein, Odeya Rush. Estreia: 01/9/2017 (Festival de Telluride)

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Greta Gerwig), Atriz (Saoirse Ronan), Atriz Coadjuvante (Laurie Metcalf), Roteiro Original

Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme (Comédia/Musical), Atriz Comédia/Musical (Saoirse Ronan) 

Filmes que retratam o fim da adolescência e entrada na vida adulta são comuns, e frequentemente deslizam no sentimentalismo ou no humor grosseiro. Raramente surge uma produção que consegue unir sensibilidade, bom humor e inteligência. Talvez por isso "Lady Bird: a hora de voar" tenha se tornado um dos maiores sucessos de sua temporada. Realizado com um orçamento minúsculo (aproximadamente 10 milhões de dólares, o que não paga nem o cachê de nomes como Julia Roberts e Angelina Jolie), o filme de estreia da atriz Greta Gerwig como cineasta rendeu quase cinco vezes isso no mercado doméstico e chegou perto de 80 milhões em arrecadação internacional. Tal êxito - refletido também no aplauso unânime da crítica e das cerimônias de premiação, incluindo presença no Oscar e no Golden Globe - tem inúmeras explicações, mas talvez a maior delas seja justamente sua falta de pretensão: sem lances rocambolescos ou truques dramáticos lacrimosos, "Lady Bird" se desenrola diante do espectador como uma deliciosa crônica de amadurecimento pessoal, com uma protagonista adorável mas falível interpretada pela cada vez melhor Saiorse Ronan.

Revelada no elogiado "Desejo e reparação", que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante ainda na adolescência, Ronan conquistou a confiança da diretora logo de cara, ao fazer uma leitura do roteiro durante o Festival de Toronto de 2015. Ao deixar de lado o sotaque irlandês e assumir o visual de uma adolescente (mesmo que já tivesse passado dos vinte anos durante as filmagens), a jovem atriz dá continuidade a uma carreira que, apesar de ainda curta, já é uma das mais consistentes de Hollywood. Graças à direção segura de Gerwig, Ronan veste a personagem com naturalidade admirável e não teme soar desagradável de vez em quando - especialmente em sua relação com a mãe, Marion (Laurie Metcalf), e em suas tentativas de tornar-se popular mesmo sacrificando sua amizade com Julie (a ótima Beanie Feldstein, do igualmente ótimo "Fora de série"). Enquanto aguarda as respostas das universidades a que almeja, Lady Bird (cujo nome verdadeiro é Christine) ainda lida com os problemas inerentes à sua idade, como, por exemplo, sua busca por amor. Nessa busca, ela esbarra em Danny (Lucas Hedges), seu colega do grupo de teatro, e no personalíssimo Kyle (Timothée Chalamet).

 

A primeira versão do roteiro de Gerwig tinha, segundo a própria diretora, mais de 350 páginas - ou, se transformado em filme, algo em torno de seis horas de duração. Logicamente seu texto foi retrabalhado até chegar a aceitáveis 94 minutos. Nesse meio tempo, outro cineasta esteve envolvido nos bastidores da produção: namorado da atriz, a quem dirigiu em seu aplaudido "Frances Ha" (2012), Noah Baumbach chegou a se oferecer para comandar o filme - uma sugestão delicadamente rejeitada... e bem sucedida. Muito provavelmente Baumbach, a despeito de seu grande talento, não teria o mesmo carinho com que Gerwig trata suas criações. Mesmo quando mostra um lado pouco louvável dos personagens, o roteiro o faz com tanta verdade, tanto frescor, que é difícil não se deixar cativar. Lady Bird é uma adolescente cheia de falhas, mas também é repleta de qualidades - e é nessa dualidade, nessa complexidade que reside a genialidade do desempenho de Saoirse Ronan. Ela não cria uma personagem imaculada para conquistar a plateia, e sim um ser humano o mais perto possível do real, que envolve o público tanto por seus erros quanto por seus acertos.

"Lady Bird" estreou no Festival de Telluride, em setembro de 2017 e, a partir daí, tornou-se figurinha fácil em festivais de cinema e integrante fixo das listas de melhores filmes do ano. Levou pra casa os Golden Globes de melhor filme e melhor atriz (ambos na subcategoria musical ou comédia) e chegou à cerimônia do Oscar com cinco indicações importantíssimas, inclusive melhor filme e direção. Pode não ter sido feliz em converter as indicações em estatuetas, mas foi realizado o desejo de Gerwig em realizar um filme sobre a entrada na vida adulta de uma personagem feminina como contraponto aos bem-sucedidos "Boyhood: da infância à juventude" (2014) e "Moonlight: sob a luz do luar" (2016). Do primeiro traz o sabor de crônica do dia-a-dia, e do segundo, um tom de poesia e certa melancolia. De ambos, apresenta um produto final que mostra a força do cinema independente - e a coragem de nadar contra a maré e evitar o drama fácil. "Lady Bird: a hora de voar" é uma pérola. Um clássico instantâneo e atemporal.

A GRANDE JOGADA

 


A GRANDE JOGADA (Molly's game, 2017, STX Entertainment/The Mark Gordon Company, 140min) Direção: Aaron Sorkin. Roteiro: Aaron Sorkin, livro de Molly Bloom. Fotografia: Charlotte Brus Christensen. Montagem: Alan Baumgarten, Elliot Graham, Josh Schaeffer. Música: Daniel Pemberton. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: David Wasco/Patricia Larman, Sandy Reynolds-Wasco. Produção executiva: Oren Aviv, Felice Bee, Stuart M. Besser, Adam Fogelson, Leopoldo Goult, Robert Simonds, Donald Tang, Wang Zhongjun, Wang Zhonglei. Produção: Mark Gordon, Matt Jackson, Amy Pascal. Elenco: Jessica Chastain, Idris Elba, Kevin Costner, Michael Cera, Jeremy Strong, Chris O'Dowd, Graham Greene. Estreia: 08/9/2017 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de roteiro adaptado

Conhecido como um premiado dramaturgo e roteirista (vencedor do Oscar por "A rede social" e sempre lembrado por associações de críticos por seus trabalhos no cinema e na televisão), Aaron Sorkin até que demorou para estrear na direção. De seu primeiro script (a adaptação de sua própria peça teatral "Questão de honra", estrelado por Tom Cruise e Jack Nicholson em 1992) até "A grande jogada", seu primeiro filme como cineasta, se passaram 25 anos - e nesse meio-tempo ele acrescentou outras láureas a seu currículo, graças a produções como "O homem que mudou o jogo" (2011) e "Steve Jobs" (2015). Com tal histórico, não é de surpreender que Sorkin tenha escolhido a dedo o material para seu primeiro longa-metragem. "A grande jogada" é tudo que se pode esperar de um filme comandado pelo roteirista/diretor: inteligente, ágil e com personagens complexos, defendidos por um elenco coeso, no qual se destaca a sensacional Jessica Chastain.

Chastain, uma atriz superlativa que valoriza cada filme, por mais medíocre que seja, encontrou em Molly Bloom, a protagonista de "A grande jogada", um papel que toda grande intérprete sonha: cheia de camadas e dona de uma história interessante o bastante para prescindir de qualquer muleta (leia-se romances desnecessários, doenças redentoras, e tudo mais que os roteiristas criam para oferecer momentos dramáticos que justifiquem indicações ao Oscar e afins). Por esse motivo, é inacreditável que a Academia tenha ignorado seu impecável trabalho e a deixado de fora inclusive do páreo na categoria. Sem deixar de lado a beleza e o glamour de sua atriz central, Sorkin oferece à Chastain possibilidades ilimitadas - e a atriz tira todas de letra, dona absoluta do filme e de sua personagem. Molly Bloom - o mesmo nome da personagem criada por James Joyce em "Ulisses" - é uma mulher que não pede desculpas e tenta (nem sempre com sucesso) manipular o próprio destino. Logo, está fadada a enfrentar as consequências de desafiar um mundo feito por e para os homens. Sim, "A grande jogada" é, de uma certa forma, um filme feminista.


Não, não há nada de panfletário em "A grande jogada". O que faz dele um filme feminista é o fato de ter como protagonista uma mulher corajosa e que não baixa a cabeça diante dos homens que tentam mandar no jogo. Se seu advogado - vivido pelo ótimo Idris Elba - é quem vai tentar salvar sua pele, ele o faz de acordo com suas diretrizes, que incluem manter a ética profissional mesmo quando corre o risco de parar na cadeira. Molly Bloom não pede desculpas pelo que é - e essa força, que nem mesmo sua derrocada consegue apagar completamente. Atleta frustrada (com uma carreira de esquiadora interrompida por um acidente) e com sérios problemas de relacionamento com o pai (Kevin Costner) - um homem exigente e pouco dado a carinhos -, Molly descobre, quase acidentalmente, o submundo do pôquer, e, depois de um tempo como coadjuvante de uma série de jogos, decide tornar-se a coordenadora de grupos milionários de celebridades e empresários. Competente e discreta, ela se torna uma conhecida e respeitada gerente de jogos - até que se envolve, sem querer, com a perigosa máfia russa, o que a coloca na mira do FBI.

Contado através de flashbacks, através das conversas de Molly com seu advogado, Charlie Jaffey (Idris Elba), "A grande jogada" usa e abusa de artifícios visuais para seduzir o público, e para isso, conta com a edição inteligente e diálogos afiados, com certa dose de ironia e personagens bastante interessantes. Do início, com Molly explicando sua trajetória de aspirante a atleta olímpica a gerente de noitadas milionárias de pôquer, até o final, quando ela se vê obrigada a pagar por seus erros de estratégia, o filme de Sorkin apresenta ao espectador jogadores dos mais variados níveis de vício - inclusive um ator de cinema (interpretado por Michael Cera) que, segundo consta, era Tobey Maguire, que levava seu amigo Leonardo DiCaprio para noites de jogatina que enriqueciam - e muito - a renda da protagonista. E se o tom da produção vai ficando cada vez mais sombrio conforme Molly vai se encrencado com a máfia russa sem saber, melhor ainda o filme vai se tornando, demonstrando o domíno do roteirista transformado em cineasta. Se em seu primeiro filme ele já demonstra tal segurança, é de se imaginar como será sua próxima incursão na cadeira de diretor. "A grande jogada" é um filme de enormes qualidades, um entretenimento adulto de alto gabarito que merece ser descoberto e aplaudido.

domingo

EM RITMO DE FUGA

EM RITMO DE FUGA (Baby driver, 2017, TriStar Pictures, 113min) Direção e roteiro: EdgarWright. Fotografia: Bill Pope. Montagem: Jonathan Amos, Paul Machliss. Música: Steven Price. Figurino: Courtney Hoffman. Direção de arte/cenários: Marcus Rowland/Lance Totten. Produção executiva: James Biddle, Liza Chasin, Adam Merims, Rachel Prior, Edgar Wright, Michelle Wright. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Nira Park. Elenco: Ansel Elgort, Kevin Spacey, Jamie Foxx, Jon Hamm, Eiza González, John Bernthal, Lily James. Estreia: 11/3/2017 (South by Southwest Festival)

3 indicações ao Oscar: Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som

Em Hollywood nem tudo caminha com velocidade. Que o diga o cineasta/roteirista britânico Edgar Wright: foi em 1995 que ele começou a trabalhar no roteiro de um filme que misturava policial, romance e uma trilha sonora que, combinada com as sequências mais alucinantes, praticamente transformava o produto final em uma espécie de policial musical. De lá até o começo das filmagens, em 2016, Wright firmou seu nome em comédias como "Todo mundo quase morto" (2004), "Chumbo grosso"(2007) e "Scott Pilgrim contra o mundo" (2010), que brincavam com gêneros consagrados do cinema comercial - a saber, filmes de zumbis, tramas policiais e adaptações de HQ, respectivamente. Nesse meio tempo, sua ideia inicial foi transformada (ao menos sua primeira sequência) em um videoclipe de "Blue sky", da banda inglesa Mint Royale, em 2003, e somente em 2017 finalmente saiu do papel - quase uma década depois de ter recebido o sinal verde para tocar o projeto adiante - e chegou às telas como "Em ritmo de fuga", um dos melhores filmes da temporada, reconhecido com uma bilheteria inesperada de mais de 100 milhões de dólares no mercado doméstico (contra um custo baixo de pouco menos de 35 milhões) e três merecidíssimas indicações ao Oscar, que reconheceram algumas das maiores qualidades do filme - edição de som, mixagem de som e montagem.

A dupla de editores (Jonathan Amos e Paul Machliss) podem ter perdido o Oscar para "Dunkirk" (2017) - também um filme cuja edição é fator preponderante -, mas tiveram melhor sorte em outras disputas, como o BAFTA (o Oscar britânico) e as associações de críticos de Las Vegas, Los Angeles, São Francisco e Chicago. Não foram prêmios de consolação. A montagem de "Em ritmo de fuga" é das mais empolgantes realizadas em Hollywood em muito tempo - e não apenas porque é ágil e de tirar o fôlego do espectador, mas também (e principalmente) porque se utiliza de todos os elementos à sua disposição sem que se deixe deslumbrar pela forma em detrimento do conteúdo. A trama pode até parecer banal, mas Wright consegue a façanha de fazer com que soe extremamente original ao inserir um elemento crucial em seus momentos de mais adrenalina: ponto essencial para a narrativa de "Em ritmo de aventura", a música assume papel crucial na trajetória dos personagens (e, como forma de respeitá-la em absoluto, a própria edição se utiliza dela como base e ritmo). Por quase duas horas, o público é brindado com uma mistura exata entre músicas de primeira, perseguições milimetricamente calculadas pelo cineasta, personagens carismáticos e um tom que, mesmo diante da violência, nunca se torna sombrio em demasia. Ou seja, "Em ritmo de fuga" é o que se convenciona chamar de "filme de verão" do mercado norte-americano, mas está muitos degraus acima da média graças ao casamento perfeito entre suas partes.


Baby, o protagonista do filme, é um exímio motorista que, para pagar uma dívida contraída com um chefão do crime (interpretado por Kevin Spacey pouco antes de sua queda em desgraça na comunidade cinematográfica por acusações de assédio sexual), trabalha em assaltos planejados por ele: dotado de um talento preciso para fugas em alta velocidade, ele é o homem de confiança para tais eventos criminosos, mesmo que não seja um entusiasta a respeito. Enquanto se prepara para uma última missão antes de finalmente quitar seu débito, Baby se apaixona pela garçonete Debora (Lily James em papel que só não ficou com Emma Stone porque ela foi fazer "La La Land: cantando estações", que lhe rendeu o Oscar de melhor atriz). Debora acaba se tornando o principal motivo pelo qual Baby deseja abandonar de vez seu "emprego", mas, como normalmente acontece, o jovem se vê arrastado para um assalto que dá muito errado - em parte graças ao pouco confiável Bats (Jamie Foxx) - e precisa salvar a própria pele, assim como livrar sua namorada e seu pai adotivo da rota de vingança do violento Buddy (Jon Hamm, da série "Mad Men"). Se a trama parece derivativa, basta conferir como o roteiro de Wright consegue jogar com todos os clichês e torná-los parte de uma produção caprichadíssima e emocionante.

O principal mérito de "Em ritmo de fuga" - cujo título original, "Baby driver", soa muito melhor - é, além do roteiro esperto e de sua união perfeita de elementos simples, a escolha de seu ator principal. Revelado no romântico "A culpa é das estrelas" (2014), o jovem Ansel Elgort está absolutamente perfeito no papel do complexo Baby. Dono de características próprias - sofre de um problema de audição causado por um acidente que vitimou seus pais, mora com um pai adotivo surdo-mudo, é monossilábico quando em ação e costuma gravar as reuniões de "trabalho" para remixar com suas músicas preferidas -, Baby é o herói que todo espectador pediu a Deus. Carismático, competente e cheio de boas intenções (ainda que soterradas por um currículo pouco recomendável), é ele quem conduz a plateia por vibrantes fugas - todas filmadas em Atlanta e quase sem auxílio de CGI - e rege uma sinfonia de velocidade capazes de deixar qualquer um de queixo caído. Envolto em uma embalagem atraente até mesmo para o público mais jovem - e mais atraído por continuações e adaptações de quadrinhos -, "Em ritmo de fuga" é o entretenimento mais que perfeito, e que será, sem dúvida, reconhecido no futuro como uma das pequenas obras-primas de sua geração.

segunda-feira

EXTRAORDINÁRIO

EXTRAORDINÁRIO (Wonder, 2017, Lionsgate, 113min) Direção: Stephen Chbosky. Roteiro: Stephen Chbosky, Steven Conrad, Jack Thorne, romance de R.J. Palacio. Fotografia: Don Burgess. Montagem: Mark Livolsi. Música: Marcelo Zarvos. Figurino: Monique Prudhomme. Direção de arte/cenários: Kalina Ivanov/Shannon Gotlieb. Produção executiva: Michael Beugg, Qiuyun Long, R. J. Palacio, Jeff Skol, Alexander Young. Produção: David Hoberman, Todd Lieberman. Elenco: Julia Roberts, Owen Wilson, Jacob Tremblay, Mandy Patinkin, Izabela Vidovic, Noah Jupe, Daveed Diggs, Danielle Rose Russell, Sonia Braga. Estreia: 14/11/2017

Indicado ao Oscar de Maquiagem

Em 2012, o escritor Steven Chbosky realizou um feito raro na indústria do cinema, ao roteirizar e dirigir a adaptação cinematográfica de seu livro "As vantagens de ser invisível", que mesmo não se tornando um fenômeno de bilheteria, agradou seu público-alvo (adolescentes e afins) e arrancou elogios da maioria esmagadora dos críticos. Sua incursão seguinte na cadeira de diretor surgiu cinco anos mais tarde, com outra adaptação literária - dessa vez de um best-seller de R.J. Palacio - e com uma dose ainda maior de emoção e uma estrela de primeira grandeza no elenco. Com Julia Roberts à frente do elenco que contava ainda com Owen Wilson e Jacob Tremblay (o excelente ator mirim de "O quarto de Jack", de 2015), "Extraordinário" chegou às telas cercado de expectativas e, como raramente acontece, correspondeu a todas elas: não apenas conquistou os críticos mais ranzinzas como arrecadou mais de 300 milhões de dólares ao redor do mundo. Certamente a presença de Roberts ajudou muito na carreira comercial do filme, mas o que realmente faz dele uma produção acima da média é o conjunto de acertos: da direção ao elenco, da trilha sonora ao roteiro - passando pela escolha acertadíssima do material -, tudo funciona como um relógio, e até mesmo quando a produção escorrega no clichê, tudo soa tão verdadeira que é difícil não se deixar envolver.

O caminho de "Extraordinário" em direção ao cinema começou quando a escritora R.J. Palacio, acompanhada do filho, viu uma criança que sofria de uma condição chamada Treacher Collins Syndrome, na qual alguns ossos e tecidos do rosto não se desenvolvem: o menino, que impressionou o filho de Palacio, era um dos poucos pacientes do mundo a apresentar os sintomas da doença, que acomete um a cada cinquenta mil bebês. Sensibilizada com a visão da vítima e a reação do próprio filho, Palacio resolveu criar um personagem assim, imaginando como seria o dia a dia de uma família confrontada com uma situação tão extrema. Livro publicado (no Brasil pela Intrínseca) e sucesso de vendas - figurando na lista dos mais vendidos do New York Times - era apenas questão de tempo até que Hollywood percebesse seu potencial. Sob o controle de Chbosky, contratado depois que a primeira opção (Paul King) preferiu comandar o infantil "Paddington 2", a adaptação encontrou seu diretor ideal: mantendo o tom leve do livro e sua narrativa em diversos pontos de vista, o roteirista/cineasta sublinhou as maiores qualidades da obra, evitou a lágrima fácil e injetou um senso de humor muito bem-vindo. Contando ainda com a ajuda do carisma de Julia Roberts e o talento impressionante do pequeno Jacob Tremblay, "Extraordinário" não tinha como dar errado.


É claro que um filme como "Extraordinário" não consegue escapar completamente das armadilhas do sentimentalismo, mas o trabalho de Chbosky é tão honesto, que qualquer escorregadela é facilmente perdoável, principalmente graças ao carisma e talento do pequeno Jacob Tremblay, que, mesmo sob pesada maquiagem (que levava uma hora e meia para ficar pronta, e concorreu ao Oscar da categoria) é capaz de conquistar o mais empedernido espectador. Assim como em "O quarto de Jack" - que deu à Brie Larson o Oscar de melhor atriz em 2016 -, Tremblay chama a responsabilidade para si e encara sem medo o desafio de interpretar um personagem que poderia facilmente cair no exagero. No filme, ele vive Auggie Pullman, um menino cuja doença rara o afasta do cotidiano das crianças comuns. Depois de alguns anos estudando em casa, ele é matriculado em uma escola normal para começar a quinta série - uma situação que deixa sua dedicada mãe, Isabel (Julia Roberts), e seu amoroso pai, Nate (Owen Wilson), apreensivos mas um tanto orgulhosos. Na escola, Auggie faz amizade com um dos colegas, Jack Will (o encantador Noah Jupe), mas demora a sentir-se parte do grupo. Enquanto isso, sua irmã, Via (Izabela Vidovic), sofre com o afastamento da melhor amiga, Miranda (Danielle Rose Russell) - que também tem uma boa dose de problemas familiares.

A maior qualidade de "Extraordinário" - além de seu elenco impecável, que conta inclusive com uma simpática participação especial da brasileira Sonia Braga - é a forma com que o filme lida com as diversas situações envolvendo seus personagens, todos mais complexos do que parecem à primeira vista. É um alívio perceber que a irmã mais velha do protagonista não cai no lugar-comum de adolescente rebelde e revoltada - e, milagre dos milagres, é um porto seguro para o menino e não um motivo a mais para preocupações. Julia Roberts, generosamente, assume um papel quase de coadjuvante, e seu sorriso, como sempre, ilumina a tela. Focando sua atenção basicamente sobre Auggie e suas aventuras (e desventuras) escolares, "Extraordinário" é um filme para estampar sorrisos no público - e também algumas sinceras lágrimas. Fugindo do drama extremo - como o já clássico "Marcas do destino", estrelado por Cher em 1985 e vencedor do Oscar de maquiagem - e dotado de um otimismo inquebrantável, é daquelas produções que ficam marcadas no coração da plateia.

quinta-feira

BOM COMPORTAMENTO

BOM COMPORTAMENTO (Good time, 2017, Elara Pictures/Rhea Films, 101min) Direção e roteiro: Benny Safdie, Josh Safdie. Fotografia: Sean Price Williams. Montagem: Ronald Bronstein, Benny Safdie. Música: Oneothrix Point Never. Figurino: Miyako Bellizzi, Mordechai Rubinstein. Direção de arte/cenários: Sam Lisenco/Audrey Turner. Produção executiva: Jean-Luc De Fanti. Produção: Sebastian Bear-McClard, Oscar Boyson, Terry Douglas, Paris Kasidokostas Latsis. Elenco: Robert Pattinson, Benny Safdie, Buddy Duress, Jennifer Jason Leigh, Taliah Webster, Barkhad Abdi. Estreia: 25/5/17 (Festival de Cannes)

Fazer parte de um fenômeno cultural logicamente ajuda na carreira de um ator/atriz. Ao mesmo tempo, porém, pode transformar-se em uma prisão, especialmente quando tal fenômeno não alcança, em termos de prestígio, o tanto que alcançou comercialmente. É o que aconteceu com o elenco da saga "Crepúsculo", inspirada nos livros de Stephanie Meyer: desde que começaram a chegar aos cinemas, em 2008, suas adaptações lotaram salas de exibição mundo afora e deram instantaneamente a seus atores principais, Kristen Stewart e Robert Pattinson, status de estrelas. Mesmo bombardeados pela crítica, os filmes seguiram aplaudidos por milhares de adolescentes, encantados com o triângulo amoroso entre uma mortal, um vampiro melancólico e um lobisomem juvenil. Presos a personagens quase risíveis e entregando atuações constrangedoras, os jovens atores saíram da empreitada com seus currículos chamuscados e desacreditados diante de Hollywood. Demorou um bom tempo até que finalmente eles começassem a demonstrar que, por trás de ídolos juvenis, eles tinham talento suficiente para encarar desafios maiores. Kristen (que começou a ser notada como a filha de Jodie Foster em "O quarto do pânico", de  2002) foi a primeira, integrando o elenco de produções de peso, como a versão cinematográfica de "Na estrada", de Jack Kerouac - dirigida por Walter Salles em 2012 - e "Acima das nuvens" (2014), de Olivier Assayas, que lhe rendeu um César de atriz coadjuvante (ela foi a primeira atriz norte-americana a levar o prêmio, considerado o Oscar francês). Já seu colega de elenco - e também namorado por um determinado período de tempo, durante as filmagens da série - demorou um pouco mais a convencer além de seus fãs adolescentes.

Lembrado também como Cedric Diggory em "Harry Potter e o cálice de fogo" (2005), Pattinson já tinha vivido o pintor Salvador Dalí em "Poucas cinzas", de 2008, antes mesmo de interpretar o vampiro Edward Cullen, mas seu trabalho nas tramas de Meyer atrapalhou sua trajetória como ator sério. Suas participações em "Bel Ami: o sedutor" (baseado em Guy de Maupassant) e "Cosmópolis", dirigido por David Cronenberg, chamaram a atenção de alguns críticos, mas não chegaram a alterar a forma como o espectador médio o via. Até que "Bom comportamento", uma produção independente com orçamento de cerca de 4,5 milhões de dólares mudou tudo: aplaudidíssimo no Festival de Cannes 2017, o filme dos irmãos Benny e Josh Safdie lhe rendeu indicações a vários prêmios na temporada, elogios rasgados da imprensa e a chance de finalmente deixar para trás a imagem de galã púbere. A melhor notícia, no entanto, é que ele realmente faz esquecer as caras e bocas de seu mais célebre papel e convence com um personagem amoral e pouco confiável - escrito especialmente para ele depois que ele contatou os diretores/roteiristas e comunicou que queria trabalhar com eles.


Intrigado pelo cartaz do filme "Amor, drogas e Nova York" quando o viu pela Internet, Pattinson escreveu um email aos irmãos, demonstrando interesse em um projeto qualquer no futuro. Poucas semanas depois os três se encontraram, e os Safdie, sabendo que o nome do ator poderia abrir muitas portas para uma produção sem o apoio de grandes produtoras, não perderam tempo. Logo criaram Connie Nickas, um jovem criminoso que, movido pela força do amor que sente por seu irmão com problemas mentais, Nick (o próprio Benny Safdie, um dos diretores), se vê obrigado a entrar em uma perigosa jornada para tirá-lo do hospital em que se encontra internado desde que um assalto cometido pelos dois resultou em sua prisão. Para isso, ele conta com a ajuda de sua namorada, Corey (participação especial de Jennifer Jason Leigh) e com a adolescente Crystal (Taliah Lennice Webster), que se envolve quase sem querer na situação.

Situando sua trama em uma única noite (com poucos flashbacks), "Bom comportamento" não é, nem de longe, um filme perfeito. Apesar do esforço de Pattinson e alguns bons momentos de tensão, a trama não é forte o bastante para segurar a atenção da plateia sem que se torne cansativa. Um tanto superficial em seu desenvolvimento e com um roteiro que deixa coisas demais para a imaginação do espectador, tem um começo promissor, mas vai perdendo o gás com o decorrer do tempo - para retomá-lo, e mesmo assim sem a mesma força, na reta final. Desperdiçando o talento de Jennifer Jason Leigh e de Barkhad Abdi (indicado ao Oscar de coadjuvante por "Capitão Phillips", de 2013), "Bom comportamento" aposta todas as suas fichas no desempenho de seu ator central e no ritmo ágil: acerta no primeiro - Pattinson nunca esteve tão bem em cena -, mas tropeça no segundo, já que a agilidade da edição é, talvez, um dos calcanhares de Aquiles da produção: ao invés de complexa e inteligente, é apenas confusa. O filme seguinte dos cineastas, "Joias brutas", foi igualmente elogiado pela crítica e havia quem confiasse que a Academia iria lembrar de Adam Sandler entre seus indicados da temporada 2019 - e novamente pareceu mais uma alucinação coletiva, já que foi a produção foi solenemente ignorada pelo Oscar. Aparentemente, os irmãos tem talento, mas ainda precisam lapidá-lo antes de sua consagração. "Bom comportamento" apresenta boas ideias, mas está bem longe de estar acima da média.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...