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domingo

MÃE!


MÃE! (mother!, 2017, Paramount Pictures, 127min) Direção e roteiro: Darren Aronofsky. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Andrew Wesiblum. Figurino: Danny Glicker. Direção de arte/cenários: Phillip Messina/Larry Dias, Martine Kazemirchuck. Produção executiva: Mark Heyman, Josh Stern, Jeff Waxman. Produção: Scott Franklin, Ari Handel. Elenco: Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer, Domhnall Gleeson, Brian Gleeson, Kristen Wiig. Estreia: 05/9/2017 (Festival de Veneza)

Darren Aronofsky tem no currículo filmes muito particulares, como o cultuado "Pi" (1998), o elogiado "Réquiem para um sonho" (2000) e o oscarizado "Cisne negro" (2010). Mesmo assim, com todas essas produções polêmicas na bagagem - sem falar no ambicioso "Fonte da vida", que desconcertou crítica e público em 2006 -, o cineasta nova-iorquino nunca foi alvo de tanta controvérsia quanto a despertada por "Mãe!", seu sétimo longa-metragem. Cercado de segredos até sua estreia no Festival de Veneza 2017, o filme já chegou ao mundo dividindo ferozmente as opiniões: tanto aplaudido quanto vaiado na Itália, seu trabalho seguiu caminho sendo apedrejado (por muitos) e incensado (por bem menos). Não deixa de ser esperado: alegórico ao extremo e violento em demasia, o filme apostou alto na inteligência e sensibilidade de um público mal-acostumado e alimentado por blockbusters vazios e descobriu, da pior maneira, que seu pesadelo febril estava longe de despertar a curiosidade da plateia. Com uma renda tímida de pouco mais de 17 milhões de dólares (contra um custo estimado de 30), "Mãe!" acabou por mostrar-se uma grande dor de cabeça para a Paramount, que herdou o projeto da Fox e de outros estúdios e viu que nem mesmo a presença de Jennifer Lawrence e Javier Bardem como protagonistas puderam salvar o filme do fracasso comercial. Aliás, para surpresa de todos - até mesmo daqueles que reconheciam o elenco como única qualidade do filme -, "Mãe!" chegou a ser indicado ao Framboesa de Ouro (o oposto do Oscar) nas categorias de pior ator e pior atriz.

Mas, afinal, por que tanto ódio por um filme? Se o próprio Aronofsky já tinha experimentado um pouco da fúria dos católicos por sua versão pouco religiosa do dilúvio em "Noé" (2014), foi com "Mãe!" que ele realmente mergulhou fundo em um tema tão inflamável quanto religião. Não que "Mãe!" seja um filme óbvio sobre Deus e seus profetas, mas assim que os símbolos do roteiro são decifrados, fica bastante claro que o cineasta não está disposto a poupar nem os personagens nem tampouco os espectadores. Sob uma direção claustrofóbica e em um tom onírico de causar inveja a David Lynch, Aronofsky conduz o público por um caminho repleto de fanatismo, violência e desespero, sublinhados pela fotografia imersiva de Matthew Libatique, que acompanha a protagonista em seu espiral de angústia, através de um cenário que é quase um personagem a mais. É compreensível que boa parte da audiência sinta-se desconfortável com a ousadia narrativa do diretor, mas é chocante o quanto uma parcela da crítica foi capaz de rechaçar o filme com tanta truculência - mesmo antes de sua estreia.

 


Envolto em aura de mistério desde sua fase de pré-produção, "Mãe!" viu os mais diversos boatos a seu respeito surgirem na indústria. Havia quem jurasse que se tratava de um remake do clássico "O bebê de Rosemary", dirigido por Roman Polanski em 1968 - uma informação completamente equivocada, como mais tarde se veria. Com o título provisório de "Day 6", o filme era a culminância de uma longa gestação - que incluiu ensaios por três meses antes das filmagens e uma reunião de Aronofsky com Jennifer Lawrence, que resultou não apenas em uma parceria profissional, mas também em um romance entre o diretor e sua estrela. Lawrence, uma das atrizes mais respeitadas e premiadas de sua geração, embarcou em um projeto potencialmente perigoso - o que conta muitos pontos a seu favor - e saiu dele com uma costela quebrada e uma experiência devastadora emocionalmente. Não à toa, tirou um ano de férias após o final dos trabalhos - e viu o massacre em cima do filme, que se tornou, também, seu maior fracasso de bilheteria de estreia, com apenas 7,5 milhões de dólares arrecadados no primeiro fim-de-semana em cartaz. Para efeito de comparação, um de seus filmes mais bem-sucedidos, o primeiro "Jogos vorazes" (2012) saiu de sua estreia com mais de 150 milhões.

É difícil resumir "Mãe!" sem privar o público da sensação de estar descobrindo aos poucos tudo que está acontecendo na tela. Sem estragar nada, pode-se dizer que a trama gira em torno de um casal cujos nomes nunca são mencionados - vividos por Lawrence e Javier Bardem - que, durante o processo de restauração de sua bela casa isolada, vê seu relacionamento ameaçado pela chegada de outro par - Ed Harris e Michelle Pfeiffer, ótimos - e, posteriormente, por convidados barulhentos e hostis. O dono da casa é um aclamado e egocêntrico poeta que não se importa com o estrago feito por seus fãs, enquanto sua esposa tenta impedir os estragos que estão destruindo seu lar e seu relacionamento. Pronto. Sabendo-se que Bardem interpreta uma versão particular de Deus e Lawrence dá voz à Natureza, o resto vai se revelando de forma aterradora. É só prestar atenção que tudo está lá: Adão e Eva, Caim e Abel, o dilúvio, a criação do Novo Testamento, guerras religiosas, o nascimento de Cristo... Aronofsky merece ser aplaudido por sua coragem em criar algo tão fora do comum e tão radicalmente controverso. Logicamente não é um filme para qualquer público, mas só o fato de assumir isso sem medo já é motivo mais que suficiente para considerá-lo uma das obras mais importantes do cinema norte-americano recente.

sexta-feira

O REGRESSO

O REGRESSO (The revenant, 2015, Regency Enterprises, 156min) Direção: Alejandro González Iñárritu. Roteiro: Mark L. Smith, Alejandro González Iñárritu, livro de Michael Punke. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Stephen Mirrione. Música: Alva Noto, Ryuichi Sakamoto. Figurino: Jacqueline West. Direção de arte/cenários: Jack Fisk/Beauchamp Fontaine, Hamish Purdy. Produção executiva: Markus Barmettler, Jennifer Davisson, David Kanter, Philip Lee, Jake Myers, James Packer, Brett Ratner. Produção: Steve Golin, Alejandro González Iñárritu, Arnon Milchan, Mary Parent, Keith Redmon, James W. Skotchdopole. Elenco: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domnhall Gleeson, Lukas Haas, Thomas Guiry, Will Poulter, Forrestt Goodluck, Kristoffer Joner. Estreia: 16/12/15

12 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alejandro G. Iñárritu), Ator (Leonardo DiCaprio), Ator Coadjuvante (Tom Hardy), Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Maquiagem, Efeitos Visuais, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 3 Oscar: Diretor (Alejandro G. Iñárritu), Ator (Leonardo DiCaprio), Fotografia
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme (Drama), Diretor (Alejandro G. Iñárritu), Ator/Drama (Leonardo DiCaprio) 

As três estatuetas conquistadas por "O regresso" na cerimônia do Oscar 2016 são marcantes por si mesmas: Leonardo DiCaprio finalmente saiu-se vitorioso, para alívio dos fãs que clamavam por isso no mínimo desde "Titanic" (1997); Alejandro G. Iñárritu levou seu segundo prêmio consecutivo de diretor (depois do exótico "Birdman"); e Emmanuel Lubezki tornou-se a primeira pessoa a acumular três Oscar seguidos de fotografia. Mas, apesar de todas essas curiosidades, é preciso dizer que elas apenas refletem o que fica claro ao término de uma sessão: mais do que a epopeia de um homem em busca de sobrevivência e vingança e mais do que um filme feito com a intenção de arrebatar o Oscar, "O regresso" é a comprovação da tenacidade, da versatilidade e do talento de Iñárritu como homem de cinema. Completamente diferente de todos os seus filmes até então - boa parte deles ainda na fase de colaboração com o roteirista Guillermo Arriaga - e muito mais ambicioso do que eles, sua odisséia de som e fúria é uma impressionante tour de force, valorizada pelo trabalho irretocável de DiCaprio, por um visual estonteante e uma história quase inacreditável - mas que, por incrível que pareça, foi inspirada em fatos reais.

Contada no livro de Michael Punke (publicado no Brasil pela editora Intrínseca à época da estreia do filme no país), "O regresso" chegou aos cinemas com algumas alterações cruciais em relação à obra original, compreensíveis do ponto de vista narrativo - e de certa forma mais empolgantes do que seriam caso houvesse fidelidade total. A maior diferença entre livro (e realidade) e filme é a criação de Hawk (Forrest Goodluck), filho do protagonista Hugh Glass com uma índia e motivo de suas desavenças com parte de seu grupo de comerciante de peles, pouco afeitos à miscigenação racial: é a morte de Hawk que, no filme, empurra Glass em direção à vingança, sentimento que o mantém vivo apesar da série de acontecimentos trágicos pelos quais ele passa. Na verdade, não há nenhum registro de que Glass tenha sequer se casado, especialmente com uma indígena, apesar de proceder o fato principal da história: ele realmente foi deixado à própria sorte por seus companheiros depois de quase morrer atacado por um urso - e realmente foi atrás dos responsáveis por isso, enfrentando desafios impensáveis em um inverno particularmente gelado no ano de 1823. Para retratar a natureza em toda a sua magnitude (assim como sua violência involuntária), Iñárritu e Emmanuel Lubezki resolveram usar a luz natural o máximo possível - o resultado é deslumbrante, mas em compensação, tal capricho arrastou as filmagens por um período extremamente longo de nove meses, entre o Canadá e o sul da Argentina, e inchou o orçamento inicial (de 60 milhões de dólares) para 135 milhões, recuperados graças ao sucesso de bilheteria - quase surpreendente em se tratando de um filme razoavelmente difícil de vender - pelo mundo todo.


Seu sucesso comercial, no entanto (mais de 500 milhões arrecadados no total), deve-se, em grande parte, à presença de Leonardo DiCaprio, um ator tão talentoso quanto popular - e bastante inteligente na hora de escolher seus projetos. Para encarar as difíceis filmagens de "O regresso", que o esgotaram fisicamente e o obrigaram inclusive a sair de sua dieta vegetariana para encarar um pedaço de carne crua, o ator abriu mão de estrelar "Steve Jobs", dirigido por Danny Boyle: o papel ficou com Michael Fassbender, que, por ironia, disputou a estatueta da Academia com o próprio DiCaprio. Para ter DiCaprio em seu filme, Iñárritu também fez sacrifícios (ainda que muito bem recompensados): adiou o início da produção para que seu protagonista filmasse "O lobo de Wall Street" (2013) e realizou seu "Birdman" (2014), que lhe rendeu os Oscar de filme, direção e roteiro original. Comparado com a grandiosidade de "O regresso", a história do ator de cinema que busca a redenção artística produzindo teatro sério é quase minimalista: em nenhum momento de sua carreira até então o cineasta mexicano havia demonstrado uma pretensão artística tão grande, apesar da complexidade narrativa de alguns de seus trabalhos anteriores, como "Amores brutos" (2000), "21 gramas" (2003) e "Babel" (2006), todos em parceira com Arriaga. O fim de sua colaboração é sentida em "O regresso" - apesar de ser um filme de encher os olhos e prender a atenção até o final, falta a ele um elemento crucial: um roteiro mais coeso e claro (fato evidente por sua ausência na generosa lista de 12 indicações à estatueta dourada). É, por vezes, difícil acompanhar a história, contada em três linhas narrativas paralelas: nunca fica claro, por exemplo, os motivos das brigas entre índios e brancos, e tampouco as brigas dos indígenas entre si. É louvável que Iñárritu não coloque os índios como vilões sanguinários, mas sempre que o foco se desvia de Glass para as desavenças internas das tribos inimigas o filme perde força e ritmo.

Felizmente isso acontece poucas vezes, já que a trama é centrada basicamente em Hugh Glass: parte integrante de um grupo de comerciantes de peles animais no início do século XIV, ele é brutalmente atacado por um urso, que o deixa à beira da morte. Sem condições de carregá-lo de volta para casa, seu capitão, Andrew Henry (Domhnall Gleeson), propõe a três de seus homens que fiquem encarregados de cuidar dele - e dar-lhe um enterro digno quando chegar a hora. Os três homens que se dispõem a isso são o filho de Glass (o mestiço Hawk), o jovem Jim Bridger (Will Poulter) e o ambicioso John Fitzgerald (Tom Hardy) - o único dos três a aceitar a missão puramente por dinheiro. Não demora muito, porém, para que Fitzgerald seja flagrado por Hawk tentando matar Glass e o resultado é trágico: o rapaz é assassinado diante dos olhos do pai, que é enterrado vivo por Fitzgerald, que mente à Bridger a respeito de sua morte. Surpreendentemente vivo - depois de violentamente ferido pelo urso e esfaqueado por seu novo inimigo - Glass encontra forças para sair de sua cova e partir em busca de revanche, enquanto um grupo de índios Arikara procura a filha de seu chefe, sequestrada por um homem branco.

Iñárritu não poupa a plateia de sequências de tirar o fôlego - seja pela beleza natural dos cenários, magistralmente fotografados, seja pela violência extrema de algumas cenas. Amparado por uma atuação devastadora de Leonardo DiCaprio e um Tom Hardy assustador roubando todas as cenas em que aparece - sua indicação ao Oscar de coadjuvante foi absolutamente merecida -, "O regresso" é um filme empolgante, apesar de sua duração excessiva (provavelmente oriunda de seu desejo óbvio de ser um grande épico) que o torna um tanto cansativo, e de sua falha em criar uma conexão mais sólida entre o protagonista e o público: o diretor está tão interessado em mostrar que é capaz de provocar espanto com seu visual que deixa de lado o desenvolvimento dos personagens. Um pecado que até pode não incomodar àqueles que se deixam deslumbrar pelas belas imagens, mas que o impede de ser ainda maior. Ainda assim é um ponto alto na carreira de todos os envolvidos.

quarta-feira

EX-MACHINA: INSTINTO ARTIFICIAL





EX-MACHINA: INSTINTO ARTIFICIAL (Ex Machina, 2014, Universal Pictures International, 108min) Direção e roteiro: Alex Garland. Fotografia: Rob Hardy. Montagem: Mark Day. Música: Geoff Barrow, Ben Salisbury. Figurino: Sammy Sheldon Differ. Direção de arte/cenários: Mark Digby/Michelle Day. Produção executiva: Eli Bush, Tessa Ross, Scott Rudin. Produção: Andrew Macdonald, Allon Reich. Elenco: Domhnall Gleeson, Oscar Isaac, Alicia Vikander, Sonoya Mizuno. Estreia: 16/12/14

2 indicações ao Oscar: Roteiro Original, Efeitos Visuais
Vencedor do Oscar de Efeitos Visuais


A cerimônia do Oscar 2016 não foi exatamente surpreendente, com as esperadas vitórias de Leonardo DiCaprio, Brie Larson e "Spotlight: segredos revelados" nas principais categorias e o arrastão proporcionado por "Mad Max: Estrada da fúria". Mas mesmo assim, a Academia sempre guarda um trunfo para não deixar a noite tão previsível e nessa ocasião o susto, em especial para as grandes produções que concorriam ao prêmio de efeitos visuais, foi imenso: concorrendo contra pesos-pesados como "Star Wars: o despertar da força", "Mad Max" e "O regresso" (todos com orçamentos acima dos 150 milhões de dólares), o pequeno "Ex-machina: instinto artificial", com seu custo irrisório de 15 milhões, levou a estatueta e reafirmou sua posição de Davi contra Golias. Pouco visto nos cinemas americanos (ao menos em comparação com seus oponentes diretos) e lançado sem muito alarde, a estreia do roteirista e escritor Alex Garland como cineasta é uma instigante e curiosa fantasia a respeito do alcance da Ciência em um futuro não muito distante. Usando os efeitos especiais como parte integrante da narrativa e não como um espetáculo à parte, o filme envolve a plateia em um jogo de manipulação que só fará sentido completamente nos minutos finais. Ao não subestimar a inteligência do espectador, Garland criou uma pequena pérola, uma ficção científica que tem apelo até mesmo àquele que torcem o nariz em relação ao gênero.

Tudo começa quando o jovem programador Caleb Smith (Domhnall Gleeson, cada vez mais presente nas telas) é escolhido para passar uma semana na propriedade isolada do misterioso e misantropo Nathan Bateman (Oscar Isaac), dono da empresa de informática onde ele trabalha. Introvertido e quase antissocial, o órfão e solitário Caleb ouve do próprio Nathan - um homem tanto excêntrico quanto genial - o motivo de sua visita: o que o milionário deseja é testar o quão longe foi em suas pesquisas a respeito de inteligência artificial. Para isso, apresenta a seu jovem funcionário à bela Ava (Alicia Vikander), um robô com aparência quase humana e inteligência acima da média. Sendo obrigado a dar um parecer depois de apenas algumas sessões a sós com Ava, o desajeitado Caleb acaba se deixando envolver pelo fascínio de estar diante de uma invenção humana e, aos poucos, começa a questionar as reais intenções de Nathan - sendo impelido por Ava a duvidar da honestidade do programa.


Como um jogo de gato e rato engenhoso e brilhantemente executado, "Ex-machina" é fascinante e hipnotizante: cada detalhe da direção de arte minimalista é crucial para o desenvolvimento da trama e suas inteligentes metáforas visuais. Com uma estética clean, quase desprovida de elementos mais elaborados, Garland cria uma atmosfera de suspense e expectativa que mantém a atenção até o final: as conversas entre Caleb e Ava são um perfeito exemplo da técnica do cineasta novato: ela é a experiência, mas a cada sessão quem mais se percebe preso e confinado é ele. A fotografia de Rob Hardy contribui para o clima opressivo, assim como a trilha sonora quase imperceptível, que enfatiza a solidão dos três protagonistas, cada um afogado em seus próprios dilemas éticos, morais e pessoais - o que inclui até (e principalmente) Ava. Misturando discussões filosóficas a uma trama por si só bastante interessante e questionadora, o roteiro foge do óbvio sempre que parece estar em vias de cair nas armadilhas das produções do gênero, levando o público mais longe do que se poderia supor em seus minutos iniciais. Fazendo uso de seu talento como escritor - é ele o autor do romance "A praia", que deu origem ao filme de Danny Boyle estrelado por Leonardo DiCaprio em 2000 - e merecidamente indicado ao Oscar de roteiro original, Alex Garland brinca com as percepções da plateia, desenvolve com precisão a personalidade de cada um de seus personagens e cria um desfecho poético e quase perturbador.

E se o roteiro e a direção de Alex Garland revelam um cineasta inteligente e sensível, seus atores não poderiam estar melhores. Domhnall Gleeson aos poucos vai traçando um caminho bastante consistente em Hollywood, marcando presença em sucessos de bilheteria e crítica, como "O regresso", "Invencível" - dirigido por Angelina Jolie - e "Anna Karenina" - a versão estrelada por Keira Knightley e Jude Law: seu estilo suave de interpretação cabe como uma luva em Caleb, um jovem desconfortável na própria pele e que se apaixona por uma inteligência artificial. Oscar Isaac - que Madonna praticamente revelou em "W/E: o romance do século" (2011) e depois seguiu um caminho de grande personalidade artística - constrói um Nathan Bateman exótico em seu brilhantismo, isolado e quase paranoico como a maioria dos gênios. E Alicia Vikander - às vésperas de levar um Oscar de coadjuvante por "A garota dinamarquesa" (2015) - seduz a plateia sem dificuldade, em uma atuação que mescla com maestria trejeitos robóticos e humanos e se revela, em seu final, o trabalho mais impressionante do filme. Uma feliz conjunção de fatores - elenco, direção, roteiro, técnica - e despretensão, "Ex-machina: instinto artificial" é um dos mais admiráveis filmes de sua temporada (e uma das melhores ficções científicas da década).

sábado

BROOKLYN

BROOKLYN (Brooklyn, 2015, BBC Films/Wildgaze Films, 117min) Direção: John Crowley. Roteiro: Nick Hornby, romance de Colm Tóibín. Fotografia: Yves Bélanger. Montagem: Jake Roberts. Música: Michael Brook. Figurino: Odile Dicks-Mireaux. Direção de arte/cenários: François Séguin/Jenny Oman, Louise Tremblay. Produção executiva: Hussain Amarshi, Rory Gilmartin, Zygi Kamasa, Christine Langan, Alan Moloney, Beth Pattinson, Thorsten Schumacher. Produção: Finola Dwyer, Amanda Posey. Elenco: Saoirse Ronan, Julie Walters, Jim Broadbent, Dohmnall Gleeson, Emory Cohen. Estreia: 26/01/25 (Festival de Sundance)

3 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Saoirse Ronan), Roteiro Adaptado

Delicadeza. Simplicidade. Pureza. Com esses três elementos em mão - mais o belo roteiro do escritor Nick Hornby, adaptado do romance de Colm Tóibín - o cineasta John Crowley conseguiu em seu quarto longa-metragem o que muitos diretores mais experientes jamais alcançaram: uma indicação ao Oscar de melhor filme. Desde sua estreia e ovação no Festival de Sundance, em janeiro de 2015, o singelo "Brooklyn" passou a colecionar prêmios da crítica e de festivais, cativados por sua extrema facilidade em transmitir uma imensa gama de sentimentos sem apelar para o dramalhão. Ao contar uma história de autodescoberta e amadurecimento, o filme, estrelado pela ótima Saoirse Ronan - a adolescente inconsequente de "Desejo e reparação" (2007) - é um oásis de inteligência e sutileza em uma época na qual orçamentos gigantescos e desnecessárias continuações mandam e desmandam nas bilheterias. Não por acaso, disputou a estatueta principal com "Mad Max: estrada da fúria", de George Miller e "Perdido em Marte", de Ridley Scott - dois sucessos comerciais que, apesar das inúmeras qualidades, passam longe de qualquer tipo de delicadeza ou despretensão.

A protagonista do filme - verossímil, real, falível e por isso mesmo apaixonante - é Eilis, uma jovem irlandesa que aproveita a chance de viajar para a Nova York pós-guerra (o ano em que a ação começa é 1952) para tentar uma vida melhor, mais próspera e promissora em termos profissionais. Amparada pela ajuda do Padre Flood (Jim Broadbent) e hospedada na pensão da atenciosa Sra. Kehoe (Julie Walters), ela começa a trabalhar em uma loja de departamentos, enquanto estuda para uma carreira como escriturária. Sua vida pacata e repleta de saudades de casa começa a mudar quando ela conhece Tony (Emory Cohen), um descendente de italianos que trabalha como encanador e que se apaixona perdidamente por ela. O romance faz com que Eilis finalmente comece a sentir-se em casa em um país estranho, mas um acontecimento inesperado a leva de volta para a Irlanda, onde ela conhece outro rapaz, Jim (Dohmnall Gleeson), o que a faz questionar seus sentimentos e suas ambições.


Contando sua história sem atropelos e sem grandes reviravoltas, "Brooklyn" conquista o espectador aos poucos, conforme vai apresentando todas as suas qualidades, com um ritmo próprio e suave. Coerente com a proposta do diretor em apostar no minimalismo emocional e visual, a reconstituição de época é detalhista sem jamais chamar a atenção para si em detrimento da trama ou dos personagens - o figurino é sensacional - e a fotografia de Yves Bélanger explora com sensibilidade a beleza dos olhos de sua atriz central, expressivos a ponto de revelarem sozinhos boa parte do turbilhão de sentimentos que a assolam. Para isso é essencial o talento superlativo de Saoirse Ronan, que consegue destacar-se mesmo sem apoiar-se em cenas grandiloquentes ou lacrimosas: quando Eilis sofre, sua angústia é compreensível e verdadeira; quando está feliz, seu brilho é contagiante e sincero. E quando toma atitudes talvez duvidosas, é impossível não perdoá-la e torcer para sua redenção. Com desenvoltura de veterana, Ronan fez por merecer sua indicação ao Oscar: ela consegue fugir de todas as armadilhas do roteiro com extrema segurança, e conquista a empatia do público justamente por assumir para si a responsabilidade de tornar inesquecível uma trama que, a despeito de seu desenvolvimento poético e fluido, não apresenta nenhuma novidade. E talvez seja justamente essa a chave para seu sucesso.

Tomando poucas liberdades em relação ao romance de Tóibín, o roteiro de Nick Hornby - que perdeu o Oscar para o chato "A grande aposta" - mantém seu tom lírico e nostálgico, calcado mais nos personagens do que nas situações dramáticas expostas durante a narrativa. Inteligente e com um sutil senso de humor, o desenvolvimento da ação se concentra em Eilis e naqueles que a rodeiam, desde as colegas de pensão - que para surpresa do espectador NÃO se tornam inimigas da protagonista como acontece normalmente em filmes do gênero - até sua família, cerne de suas preocupações e saudades. O triângulo amoroso formado no ato final do filme também soa orgânico, especialmente devido à química entre Ronan e seus dois colegas de cena, principalmente o encantador Emory Cohen - revelado no seriado "Smash" - na pele de um rapaz pouco instruído que ganha o coração não apenas da personagem principal, mas também da plateia. O romance pueril, ingênuo e sincero dos personagens contrasta com a incipiente relação da garota com Jim, centrado em um futuro mais prático e realista - uma mudança de perspectiva facilmente constatável na palheta de cores utilizada pela fotografia de Bélanger e pelos cenários e figurinos, que vão se tornando mais coloridos conforme a percepção de mundo de Eilis vai mudando. Esse cuidado a pequenos detalhes - quase invisíveis em um primeiro olhar - é que impressiona e seduz em "Brooklyn", um pequeno grande filme capaz de deixar qualquer um com um enorme sorriso estampado no rosto.

domingo

INVENCÍVEL

INVENCÍVEL (Unbroken, 2014, Legendary Pictures, 137min) Direção: Angelina Jolie. Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen, Richard LaGravenese, William Nicholson, livro de Laura Hillebrand. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: William Goldenberg, Tim Squyres. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Louise Frogley. Direção de arte/cenários: Jon Huttman/Lisa Thompson. Produção executiva: Mick Garris, Jon Jashni, Thomas Tull. Produção: Matthew Baer, Angelina Jolie, Erwin Stoff, Clayton Townsend. Elenco: Jack O'Connell, Domhnall Gleeson, Garrett Hedlund, Miyavi, Finn Witrock, Jai Courtney. Estreia: 17/11/14 (Sydney)

3 indicações ao Oscar: Fotografia, Edição de Som, Mixagem de Som

Quando se sabe dos detalhes da vida do norte-americano Louis Zamperini – contada na biografia escrita por Laura Hildebrand – uma das primeiras histórias que veem à mente é a do sofredor Jó, que, testado pelo inclemente Deus do Velho Testamento, pagou seus pecados com juros altíssimos, sentindo na pele a ira (ou o sadismo) do Criador. Porém, “Invencível” – segunda incursão da atriz Angelina Jolie como cineasta e a versão para as telas do livro de Hildebrand – não tem a intenção de fazer um paralelo religioso entre as agruras do jovem atleta feito prisioneiro de um campo de trabalhos forçados no Japão da II Guerra Mundial e qualquer personagem bíblico. Ainda que algumas imagens do filme remetam à ícones cristãos – Zamperini erguendo um pesado corte de madeira sob a supervisão cruel de um comandante inimigo, por exemplo – e sua mensagem final glorifique o perdão como um dos mais nobres sentimentos, “Invencível” é apenas, em uma visão mais direta e óbvia, um grande drama de guerra, com todos os elementos necessários para conquistar os fãs do gênero.
Emolduradas pela impecável fotografia do veterano Roger Deakins (indicado ao Oscar pelo trabalho) e embaladas pela trilha sonora discreta e eficiente de Alexandre Desplat, as desventuras de Zamperini servem de matéria-prima para um filme que é um passo à frente na carreira da bela Jolie como diretora. Depois do pouco visto “Na terra do amor e do ódio”, falado em bósnio e relativamente bem-sucedido junto à crítica - já que até uma indicação ao Golden Globe de melhor filme em língua estrangeira arrebatou – Jolie demonstra uma segurança ímpar ao contar uma história tão recheada de lances dramáticos que até parece mentira. Sem ousadias narrativas ou lapsos de brilhantismo, a atriz vencedora do Oscar de coadjuvante por “Garota, interrompida” (99) constrói um filme de estrutura clássica e linear, explorando mais a via-crúcis de seu protagonista do que artifícios técnicos e/ou sentimentalistas. Apesar de sua tendência em enfatizar talvez em excesso a força do espírito humano diante das adversidades – que parece ser o tema subjacente de toda a trama – Jolie consegue se manter à margem do piegas na maior parte do tempo, contando para isso com a ajuda de um roteiro enxuto e direto escrito pelos experientes irmãos Coen (Joel e Ethan) e William Goldenberg.
Muito criticado por não acrescentar nada de novo a um gênero já apinhado de clássicos considerados além do bem e do mal, “Invencível” decepcionou àqueles que viam nele um forte candidato ao Oscar 2015 – a Academia, que adora histórias de superação pessoal e filmes passados durante os duros anos da II Guerra, praticamente ignorou a produção, indicando-a apenas a alguns prêmios técnicos não convertidos em estatuetas. A recepção bem menos calorosa do que o esperado não faz jus à beleza do filme, no entanto. Cercada por uma equipe de profissionais de primeira linha, Angelina Jolie conta sua história com delicadeza feminina, suavizando até mesmo momentos de extrema violência com enquadramentos que buscam a beleza como forma de atenuar a dor e a crueldade. Longe da crueza de filmes que retratam o mesmo período, “Invencível” se destaca por ver a torpeza aflorada em homens no seu limite envernizada por uma beleza plástica irretocável e quase poética. Mesmo sem poupar a plateia de cenas decididamente fortes, a sra. Brad Pitt o faz com elegância e uma sinceridade de que só cineastas ainda não tornados cínicos pela indústria de Hollywood conseguem manter.

E talvez essa visão ainda romântica e generosa de Jolie é que tenha lhe aproximado da história de Louis Zamperini, um homem que, apesar de todas as provações pelas quais passou, ainda manteve a fé em Deus e na bondade humana. Criança problema tornada um promissor jovem atleta – chegou a correr nas Olimpíadas de 1940 – Zamperini foi convocado para defender os EUA na II Guerra. Seu primeiro revés foi ver seu avião abatido pelas forças inimigas e passar mais de 45 dias em mar aberto, ao lado de dois companheiros, passando fome e sede, lutando contra o medo de tubarões e sofrendo de constantes insolações. O segundo talvez tenha sido ainda pior: resgatado por uma embarcação japonesa, viu-se, ao lado de outros soldados, prisioneiro em um campo de trabalhos forçados: vítima constante de espancamentos e humilhações por parte do comandante Watanabe (o astro pop japonês Miyavi, cuja androginia torna seus confrontos com o protagonista ainda mais interessantes), Zamperini agarra-se à sua crença religiosa para manter-se de pé e vivo até o fim do conflito. Corajoso e íntegro, ele chega a recusar, por lealdade a seu país, a oportunidade de deixar o campo e aliar-se aos inimigos.
Interpretado pelo ótimo Jack O’Connell – ator irlandês desconhecido do grande público mas dono de um talento que lhe aponta um futuro alvissareiro – Louis Zamperini é um personagem de proporções épicas, um herói moderno que luta pela vida e pela dignidade sem precisar usar de superpoderes além da fé e da resiliência quase inacreditável. O’Connell transmite a sensação exata de dor e força do personagem com a segurança de um veterano, carregando nas costas toda a responsabilidade de convencer o público de sua garra inabalável. Sua transformação de promessa do esporte à prisioneiro de guerra é crível e impressionante – ajudada pela maquiagem discreta e eficaz – e é inegável que boa parte da credibilidade da história passa por suas mãos. Mais um crédito para Jolie, que escolheu acertadamente seu ator central e soube dirigí-lo com a firmeza necessária para impedir exageros grotescos ou minimalismos enfadonhos. Diante de O’Connell fica difícil ao espectador não se deixar envolver e torcer por um final feliz.
Mesmo não sendo um filme perfeito – o ritmo em determinados momentos cai um pouco e os flashbacks iniciais soam deslocados da narrativa, uma vez que não voltam a acontecer no decorrer da história – “Invencível” é uma obra digna de figurar entre os melhores dramas de guerra já realizados em Hollywood. Tecnicamente impecável (até mesmo nas cenas de ação aérea a atriz demonstra habilidade e competência) e dramaticamente eficiente, conquista pela força da trama, pela inteligência na escolha de seus profissionais e principalmente pela mensagem de tolerância e paz em um mundo tão necessitado de tais sentimentos. Não se poderia esperar menos de uma atriz tão militante em relação à paz mundial. “Invencível” é um belo drama de guerra que termina deixando o espectador pensando somente na paz. Um belo exemplo.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...