Mostrando postagens com marcador QUENTIN TARANTINO. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador QUENTIN TARANTINO. Mostrar todas as postagens

quinta-feira

ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD


ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD (Once upon a time in... Hollywood, 2019, Sony Pictures, 161min) Direção e roteiro: Quentin Tarantino. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Fred Raskin. Figurino: Arianne Phillips. Direção de arte/cenários: Barbara Ling/Nancy Haigh. Produção executiva: Jeffrey Chan, Georgia Kacandes, Yu Dong. Produção: David Heyman, Shannon McIntosh, Quentin Tarantino. Elenco: Leonardo DiCaprio, Brad Pitt, Margot Robbie, Emile Hirsch, Margaret Qualley, Timothy Olyphant, Dakota Fanning, Bruce Dern, Al Pacino, Luke Perry, Costa Ronin, Lena Dunham, Kurt Russell, Rafal Zawierucha, Damon Herriman. Estreia: 21/5/2019 (Festival de Cannes)

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Quentin Tarantino), Ator (Leonardo DiCaprio), Ator Coadjuvante (Brad Pitt), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários. Edição de Som, Mixagem de Som

Vencedor de 2 Oscar: Ator (Brad Pitt), Direção de Arte/Cenários

Vencedor de 3 Golden Globe Melhor Filme Comédia/Musical, Ator Coadjuvante (Brad Pitt), Roteiro

Foi na madrugada de 6 de agosto de 1969 que um crime - violento e chocante em sua gratuidade - acabou, segundo a escritora Joan Didion, com o movimento hippie, a era do amor livre e a atmosfera dos anos 60 como um todo. Um grupo de seguidores do messiânico Charles Manson invadiu a casa da atriz Sharon Tate, grávida de oito meses do cineasta Roman Polanski (em alta com o sucesso de seu "O bebê de Rosemary", lançado no ano anterior) e a assassinou, juntamente com um grupo de amigos, deixando no local uma série de detalhes macabros que alimentaram as manchetes dos jornais por meses a fio. A investigação do crime, a prisão dos responsáveis e o julgamento midiático ocuparam a mente do mundo - e em especial dos EUA - por anos e ainda permanecem como uma lembrança trágica de uma época encerrada abruptamente com um banho de sangue. O trauma foi tanto que demorou meio século para que um grande estúdio de Hollywood finalmente rompesse o silêncio a respeito do assunto - e mesmo assim somente com o aval de um nome de prestígio, com coragem o suficiente para mexer em um vespeiro mantido sob uma redoma de respeito pelos envolvidos e pelo medo de um fracasso de bilheteria. Foi somente quando Quentin Tarantino anunciou que seu filme seguinte ao western "Os oito odiados" (2016) teria Sharon Tate como uma de suas personagens principais que a história (até então contada mal e porcamente em documentários e telefilmes de pouca repercussão) voltou a povoar o imaginário mundial - e despertar uma curiosidade que só fez aumentar conforme chegava a data de estreia.

Pensando em marcar a estreia de "Era uma vez em... Hollywood" para 6 de agosto de 2019, data em que o crime completaria 50 anos, Tarantino foi voto vencido quando a Sony Pictures - que ganhou os direitos de distribuição em uma disputa acirradíssima com a Warner, a Universal, a Paramount, a Lionsgate e Annapurna Pictures - preferiu adiantar a data para 26 de julho, pouco mais de dois meses depois do lançamento da produção no Festival de Cannes. Até que tal evento acontecesse, porém, muito foi dito, inventado, polemizado e misteriosamente escondido a respeito do filme. Com um roteiro secreto (lido apenas por parte da equipe de filmagem, como forma de evitar os dissabores que quase cancelaram "Os oito odiados" depois do vazamento de seu script) e notícias que chegavam aos poucos, "Era uma vez em... Hollywood" já era, muito antes de chegar às telas, uma das produções mais comentadas e esperadas da temporada - por inúmeras razões. Além do marketing espontâneo que qualquer trabalho de Tarantino gera, não era nada mal ter Brad Pitt e Leonardo DiCaprio nos papéis principais em uma trama que misturava, da forma como apenas o cineasta consegue fazer sem soar prolixo, a trajetória de Sharon Tate, a desilusão de um astro da antiga indústria com os novos tempos, a decadência de um gênero específico (o western), bastidores do cinema pelos olhos de um dublê e diálogos preciosos. Tido por Tarantino como seu filme mais pessoal - algo como "Roma" foi em relação a Alfonso Cuarón - e escrito em um período de cinco anos (nos quais o cineasta também o transformou em um romance, lançado em seguida à estreia), "Era uma vez em... Hollywood" provou que a espera valeu a pena, tanto em termos artísticos quanto comerciais. Com uma renda internacional que ultrapassou os 370 milhões de dólares, dez indicações ao Oscar (e duas categorias no bolso), o filme pode até não ter agradado a todo mundo - algo corriqueiro na filmografia de Tarantino -, mas é, inegavelmente, uma das obras cinematográficas mais importantes de seu tempo.


 Com um título inspirado em Sergio Leone e seus "Era uma vez no Oeste" (1968) e "Era uma vez na América" (1984), o nono filme de Tarantino - se as duas partes de "Kill Bill" forem consideradas apenas um único projeto - quase foi realizado em preto-e-branco e poderia ter estreado com uma duração de 4 horas e 20 minutos. Mas cinema é uma arte de concessões e do jeito que está, o filme é uma pequena obra-prima (mais uma na carreira do Tarantino diretor ). Tudo funciona perfeitamente - até mesmo o que parece gratuito tem ressonâncias bem mais profundas do que aparenta. Por trás dos longos diálogos (característica inconfundível do Tarantino roteirista) e das referências que podem soar como grego ao público médio, a trama é uma pérola de nostalgia, melancolia e pitadas generosas de uma ironia tão fina que pode até passar despercebida - ao menos até o clímax, tão inesperado e surpreendente que foi objeto de um pedido especial dos realizadores para que não fosse comentado pela imprensa ou pela plateia. Justificável: assim como em "Bastardos inglórios" (2009), Tarantino rege seu próprio universo, manda em seus próprios domínios, subverte as próprias regras e a história, se for preciso. Longe de desagradar aos puristas, encontra uma maneira de fazer com que a magia do cinema sempre se sobressaia - e sublinhe seu talento em encantar e decepcionar com a mesma intensidade.

O filme se passa em 1969, quando a Era de Ouro de Hollywood está em seus estertores. Longe de ainda ter a relevância que tinha na década de 1950, quando estrelava populares séries de western na televisão, Rick Dalton (vivido por Leonardo DiCaprio) paira sob uma Los Angeles a que mal reconhece, tentando encontrar uma maneira de manter uma carreira já tida como acabada. Vizinho do cineasta Roman Polanski (praticamente um símbolo de uma nova indústria, moderna e jovem), Dalton luta contra o próprio instinto de autodestruição enquanto relembra seus melhores momentos, ao lado de grandes atores e cercado de respeito e adulação. Invariavelmente acompanhado de seu dublê, Cliff Booth (Brad Pitt, vencedor do Oscar de ator coadjuvante) - bem mais confortável com as novas regras do jogo, a ponto de quase deixar-se envolver com um grupo de hippies bem mais jovens -, o ex-astro vê, aos poucos, uma nova Hollywood surgir diante de seus olhos. Enquanto isso, sua deslumbrante vizinha, Sharon Tate (Margot Robbie), começa a sentir o gostinho da fama e vislumbrar um brilhante futuro, tanto na carreira quanto na vida doméstica. Com visões distintas de sua época e de sua profissão, Dalton e Tate terão suas vidas cruzadas de forma totalmente inesperada e violenta.

Lançado no mesmo Festival de Cannes que 25 anos antes deu a Tarantino a Palma de Ouro e o aval necessário para que se tornasse um dos autores mais prestigiados do cinema norte-americano, "Era uma vez em... Hollywood" não saiu ileso a críticas e polêmicas. Se Debra Tate, irmã de Sharon, viu sua resistência ao projeto ruir ao encontrar Margot Robbie e reconhecer nela qualidades que a faziam lembrar da saudosa atriz, o mesmo não pode ser dito em relação às queixas de Shannon Lee, filha do ator Bruce Lee que não achou graça nenhuma na forma como o roteiro retratou seu pai - bastou uma única sequência para que Shannon considerasse tudo um insulto à memória do ator. Também foi alvo de críticas as liberdades artísticas tomadas pelo cineasta em relação à uma trama crucial para o roteiro: ao criar personagens novos na famigerada Família Manson (ou mesclar personagens reais com fictícios), Tarantino incomodou os puristas que esperavam uma descrição real dos crueis fatos de 6 de agosto de 1969 - que não tiveram interesse em perceber as reais intenções do diretor ao unir a realidade (ainda que alterada) com a fantasia: "Era uma vez em... Hollywood" não é um documentário sobre os assassinatos cometidos naquela fatídica noite - é uma comédia dramática sobre a união de dois mundos, sobre os meandros do destino e sobre a inexorabilidade do tempo até mesmo dentro de um universo que vende fantasia. É um filme com a cara de seu diretor - para o bem ou para o mal - e uma inteligente homenagem a uma atriz cujo futuro foi interrompido pela força do fanatismo. Como qualquer filme de Tarantino, não é para todos os públicos. Mas é sensacional!

domingo

OS OITO ODIADOS

OS OITO ODIADOS (The hateful eight, 2015, Double Feature Films, 187min) Direção e roteiro: Quentin Tarantino. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Fred Raskin. Música: Ennio Morricone. Figurino: Courtney Hoffman. Direção de arte/cenários: Yohei Taneda/Rosemary Brandenburg. Produção executiva: Georgia Kacandes, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Richard N. Gladstein, Shannon McIntosh, Stacey Sher. Elenco: Kurt Russell, Samuel L. Jackson, Jennifer Jason Leigh, Walter Goggins, Bruce Dern, Michael Madsen, Tim Roth, Demián Bichir, James Parks, Channing Tatum. Estreia: 07/12/15

3 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Jennifer Jason Leigh), Fotografia, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Melhor Trilha Sonora Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Trilha Sonora Original 

Já nem é mais novidade: a cada filme novo de Quentin Tarantino que chega às telas o mundo se divide entre aqueles que o incensam como um dos mais originais e inventivos cineastas norte-americanos já existentes e aqueles que questionam seu talento e criatividade, lançando mãos de críticas que - vá lá - até fazem certo sentido sob determinados pontos de vista. Porém, a verdade é que, independente do fato de gravitar sempre em um universo todo particular (aparentemente localizado em algum lugar entre os anos 70 e 80 e povoado de filmes de baixo orçamento e roteiros pra lá de bizarros), Tarantino é um dos poucos diretores em atividade no cinema americano ainda capazes de suscitar tanta discussão e despertar tanto interesse da mídia, do público e da crítica. E não poderia ser diferente em relação a "Os oito odiados", seu oitavo longa, que correu o sério risco de jamais ver a luz dos projetores quando teve seu roteiro vazado antes mesmo da fase de pré-produção. Furioso com o imprevisto - e coberto de razão - Tarantino quase desistiu do projeto mas, convencido pelo amigo Samuel L. Jackson (apaixonado pela história e pelos personagens), voltou atrás na decisão. Sorte dos fãs inveterados (que encontrarão no filme, em versão exagerada, tudo que o diretor sempre ofereceu em seus trabalhos anteriores) e azar dos detratores (que, se arriscarem uma sessão, podem correr o risco de uma overdose de longos diálogos, sangue aos borbotões e maneirismos técnicos que a tantos agrada e a tantos outros repele).

Revisitando um gênero caro à sua memória afetiva, o western (que já havia homenageado com propriedade no ótimo "Django livre"), Tarantino acrescenta a "Os oito odiados" um clima de mistério à Agatha Christie e um tom teatral que enfatiza como nunca sua facilidade absurda de criar diálogos inspiradíssimos e personagens antológicos em situações extremas. Situando sua trama em um período imediatamente posterior à Guerra de Secessão, o diretor joga o público direto no gélido frio do Wyoming, onde a diligência do caçador de recompensas John Ruth (Kurt Russell em um grande momento da carreira) encontra um concorrente, o famoso Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson mostrando porque é um dos maiores atores americanos de sua geração, especialmente quando dirigido por Tarantino). Warren pede que Ruth lhe dê uma carona (e aos cadáveres que ele pretende trocar por uma gorda quantia de dólares) até a cidade de Red Rock e não demora para juntar-se a ele e à sua prisioneira, Daisy Domergue (a sensacional Jennifer Jason Leigh) na difícil viagem rumo a seu destino. Domergue é uma assassina procurada que Ruth tem a intenção de entregar ao carrasco de Red Rock e todos eles se surpreendem quando, ainda no caminho em direção à cidade, eles dão de cara com Chris Mannix (Walton Goggins), que alega ser o novo xerife do local e que também pede ajuda para chegar até lá.

No meio do caminho, devido a uma nevasca, a diligência se vê obrigada a fazer uma parada inesperada na estalagem de Minnie Mink (Dana Gourrier), uma conhecida de Warren que, em viagem para visitar a mãe, deixou o local aos cuidados do mexicano Bob (Demian Bichir). Juntando-se aos demais hóspedes também presos na hospedaria - o carrasco Oswaldo Mobray (Tim Roth), o lacônico Joe Gage (Michael Madsen) e o veterano General Sandy Smithers (Bruce Dern) - os novos visitantes não demoram a perceber um clima de tensão e desconfiança no ar. O que ninguém sabe, porém, é que os comparsas de Daisy não tem a menor intenção de permitir que ela seja entregue e enforcada, e que tem um plano elaborado para resgatá-la antes de sua chegada a Red Rock. Caberá então ao perspicaz Major Warren descobrir quem do grupo reunido na hospedaria está ao lado da temida e debochada assassina.


"Os oito odiados" é Tarantino do primeiro frame - os créditos com o mesmo design dos letreiros já trai suas origens - ao último minuto - que chega somente depois de quase três horas de duração. Muitos reclamam da demora em começar a ação propriamente dita (tiros, sangue, violência), mas é difícil sentir-se incomodado ao ver em cena atores tão fantásticos - Samuel L. Jackson, Michael Madsen, Tim Roth, Bruce Dern e Jennifer Jason Leigh (os três primeiros repetindo a parceria com o diretor e Jennifer merecidamente indicada ao Oscar de coadjuvante) - desfilando seu talento pela tela. Com o auxílio luxuoso da bela fotografia de Robert Richardson (também indicada ao Oscar) e da sensacional trilha sonora do veterano Ennio Morricone (vencedor de sua primeira estatueta por seu trabalho), o filme realmente aparenta ter um problema de ritmo - só depois de uma hora e meia é que as coisas realmente começam a acontecer - mas basta olhar com atenção para perceber que nada é por acaso, nenhum diálogo é supérfluo e a longa duração serve para mergulhar o espectador na tensão indispensável ao clímax sanguinolento, de dar inveja à carnificina de "Cães de aluguel", filme de estreia de Tarantino e que o colocou, de primeira, no coração dos cinéfilos e da crítica.

Com uma violência estilizada que enfatiza seu humor nigérrimo - Jennifer Jason Leigh passa o filme inteiro sendo espancada, para horror das feministas - e o tom politicamente incorreto que sempre caracterizou a obra do diretor, "Os oito odiados" é a cara de seu criador. Seus diálogos são longos e expressivos. Sua violência é um misto de crueza e humor negro. Seu linguajar é cortante e realista, Não é uma obra-prima como "Pulp fiction, tempo de violência" ou "Bastardos inglórios", mas é mais uma declaração incontestável de um estilo cinematográfico que já está indelevelmente marcado na cultura popular norte-americana e mundial há pelo menos duas décadas, quer se goste ou não. Falem bem ou falem mal, é impossível ficar indiferente a um filme de Quentin Tarantino. E de quantos artistas se pode dizer o mesmo hoje em dia?

sábado

DJANGO LIVRE

DJANGO LIVRE (Django unchained, 2012, The Weinstein Company/Columbia Pictures, 165min) Direção e roteiro: Quentin Tarantino. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Fred Raskin. Figurino: Sharen Davis. Direção de arte/cenários: J. Michael Riva/Leslie Pope. Produção executiva: Shannon McIntosh, Michael Shamberg, James W. Skotchdopole, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Reginald Hudlin, Pilar Savone, Stacey Sher. Elenco: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Kerry Washington, Samuel L. Jackson, Don Johnson, James Remar, James Russo, Bruce Dern, Franco Nero, Robert Carradine, Quentin Tarantino. Estreia: 25/12/12

 5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Christoph Waltz), Roteiro Original, Fotografia, Edição de Som
Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Christoph Waltz), Roteiro Original
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator Coadjuvante (Christoph Waltz), Roteiro Original

 Quentin Tarantino é um cineasta que não nega suas influências. Elas estão sempre espalhadas por sua obra, seja explicitamente (como em "Jackie Brown" ou nos dois volumes de "Kill Bill") ou discretamente (pero no mucho) como em "Pulp Fiction, tempo de violência". Por isso não é de estranhar que "Django livre", seu mais uma vez incensado trabalho seja coalhado de homenagens e piadas internas. Sorte do grande público é que, além de todas essas reverências o homem é também um roteirista de mão cheia (como comprova sua vitória nos Golden Globes e no Oscar) e um diretor que consegue SEMPRE arrancar atuações antológicas de seus atores. Se alguém ainda tinha dúvidas a esse respeito (e alguém tinha?) é altamente recomendável que esse alguém assista, sem desculpa de nenhuma espécie, a esse misto de faroeste/filme sobre escravidão: nele não apenas o cineasta mais cultuado de sua geração lega ao cinema mais um grande filme como mostra que mesmo em filmes de gêneros diversos ao que se acostumou a assinar ele consegue manter-se fiel a seu estilo bastante peculiar e imediatamente reconhecível.

Provocando o desprezo do cineasta Spike Lee - que vê no filme um "desrespeito a seus ancestrais" - Quentin Tarantino fez de "Django livre" uma enciclopédia de todas as suas marcas registradas, somada à sua homenagem rasgada aos westerns-spaghetti menos conhecidos do grande público (ao invés de Sergio Leone e afins, suas influências atendem pelos nomes de Sergio Corbucci e Tonino Valeri, entre outros). Nas duas horas e quarenta cinco minutos de projeção estão espalhados diálogos ácidos, humor negro, personagens deliciosamente complexos e uma carnificina exagerada que não deixa nada a dever ao hiperviolento "Cães de aluguel", o filme de estreia que imediatamente o fez cair nas graças da crítica. Mesmo que demore a engrenar - a impressão que se tem é que a história só começa mesmo depois da primeira hora, quando os protagonistas chegam à fazenda de Calvin Candie (um Leonardo DiCaprio exercitando seu overacting em busca de Oscar) - a história do escravo Django (Jamie Foxx, espetacular) que se torna caçador de recompensas e parte ao lado do alemão King Schultz (Christoph Waltz, premiado pela segunda vez com um Oscar de coadjuvante por um filme de Tarantino, e também vencedor do Golden Globe) em busca de sua esposa Broomhilda (Kerry Washington) utiliza elementos tão díspares quanto a luta "mandingo" (chupada de um filme de 1975) quanto referências à ópera "O anel dos Nibelungos", de Richard Wagner. Mas é tudo misturado de  maneira tão orgânica que é difícil imaginar que o diretor/roteirista (e ator em uma sequência perto do final) vá criando sua trama durante a escrita do roteiro. E é difícil acreditar também que outro elenco pudesse ser melhor do que o escolhido para o projeto.


Ainda que Will Smith tenha sido o primeiro nome a passar pela cabeça de Tarantino para protagonizar seu filme, o trabalho impecável de Jamie Foxx no papel central é digno de figurar entre os melhores de sua carreira já premiada com o Oscar por seu desempenho na cinebiografia "Ray" (2004). Christoph Waltz novamente dá um banho de interpretação com seu complexo Schultz - que é dono de algumas das melhores falas. Até mesmo Franco Nero - o Django do filme de 1966 - encontra espaço para uma participação afetiva, assim como Don Johnson faz com que se mantenha a tradição do diretor de recuperar a carreira de nomes deixados de lado pelo cinema comercial. E se Leonardo DiCaprio repete os maneirismos de sempre em sua atuação como o vilão Calvin Candie, seu escravo fiel - e surpreendentemente racista ao extremo - vivido por Samuel L. Jackson rouba a cena descaradamente, em uma interpretação que merecia ter sido lembrada pelo Oscar.

Violento como poucos filmes da atualidade - com sangue jorrando aos borbotões, escravos sendo devorados por cães e tiroteios ensandecidos - "Django livre" comprova novamente o talento e a criatividade de seu diretor. Porém, faz pensar o quanto ele ainda tem a oferecer dentro do universo um tanto restrito - ainda que passível de grandes expansões narrativas - em que gravita. Em 2015 ele vem com um novo e aguardado filme - "The hateful eight" - e será a hora de o público mais uma vez se render a sua maestria ou demonstrar sinais de cansaço. O tempo dirá, mas "Django livre" sempre se manterá como um excelente exemplo de seu estilo de fazer grande cinema.

quarta-feira

UM DRINK NO INFERNO

UM DRINK NO INFERNO (From dusk till dawn, 1996, Dimension Films, 104min) Direção: Robert Rodriguez. Roteiro: Quentin Tarantino. Fotografia: Guillermo Navarro. Montagem: Robert Rodriguez. Música: Graeme Revell. Figurino: Graciela Mazón. Direção de arte/cenários: Cecilia Montiel/Felipe Fernandez del Paso. Produção executiva: Lawrence Bender, Robert Rodriguez, Quentin Tarantino. Produção: Gianni Nunnari, Meir Teper. Elenco: Harvey Keitel, George Clooney, Juliette Lewis, Quentin Tarantino, Ernest Liu, Salma Hayek, Cheech Marin, John Hawks, Danny Trejo, Tom Savini, Kelly Preston, Michael Parks. Estreia: 19/01/96

Em 1995, o ator George Clooney estava começando a sentir o gostinho da fama: graças ao charmoso pediatra Doug Ross, seu personagem na telessérie "ER - Plantão médico", o sobrinho da cantora Rosemary Clooney finalmente era reconhecido nas ruas e era festejado pelo público - coisas que outros trabalhos em seu currículo anterior, como o trash "A volta dos tomates assassinos" (88), não havia permitido até então. Sabendo que o próximo passo em direção ao reconhecimento artístico seria fazer a difícil transição para o cinema, ele demonstrou um raro senso de oportunidade durante as gravações do último episódio da primeira temporada, "Maternidade", fazendo amizade com seu diretor. O diretor, que havia sido incensado em seu filme de estreia, estava a caminho de ganhar a Palma de Ouro no Festival de Cannes com seu novo trabalho - que também lhe daria o Oscar de roteiro original - e não demorou para que uma nova oportunidade de parceria surgisse entre eles. O diretor era Quentin Tarantino e quando um de seus futuros projetos ficou sem ator principal - depois que John Travolta, Tim Roth, Steve Buscemi e Christopher Walken o recusaram por problemas de agenda - o nome de Clooney surgiu como uma possibilidade a ser considerada.

Deixando de lado a ideia de dirigir seu roteiro de "Um drink no inferno" - o tal novo projeto no qual ele acumularia os créditos de roteirista e ator - Tarantino passou a bola para seu amigo Robert Rodriguez, outro prodígio que a indústria hollywoodiana incorporou depois do sucesso de um filme feito com apenas sete mil dólares ("El mariachi"). Entusiasta do cinema trash, feito com poucos recursos e muita imaginação, Rodriguez comprou a ideia de ter Clooney como protagonista e, com base em um roteiro que misturava bandidos cruéis e vampiros ainda mais sanguinolentos, criou um cult movie instantâneo, que tornou-se, guardadas as devidas proporções, o primeiro grande sucesso do galã da televisão em sua carreira cinematográfica - que, a partir daí, seria uma das mais sólidas e respeitadas de Hollywood. Já Tarantino, na ocasião da estreia do filme, já estava consagrado com o sucesso incontestável de "Pulp fiction, tempo de violência".


Na verdade, se olharmos com atenção, "Um drink no inferno" é uma espécie de prévia do que Tarantino e Rodriguez fariam em 2010, com o fracassado "Grindhouse" - uma sessão dupla de filmes baratos que naufragou nas bilheterias americanas e foi distribuído pelo resto do mundo como produtos isolados: é um filme que muda radicalmente de gênero, estilo de narrativa e heróis a partir de sua segunda metade, pegando o público de surpresa de uma tal forma que não lhe permite nem ao menos pensar a respeito. É como se a primeira parte fosse dirigida por Tarantino - estão ali muitas de suas características, desde longos diálogos até a forma politicamente incorreta de tratar seus personagens - e a segunda conduzida pelo insano Rodriguez - também facilmente reconhecível com sua tendência ao kitsch, à violência gráfica mas claramente fictícia e a escalação de nomes como Cheech Marin e o mestre da maquiagem Tom Savini. O melhor de tudo, porém, é que o que poderia se tornar um samba do criolo doido funciona que é uma beleza. "Um drink no inferno" é uma deliciosa viagem bagaceira ao deserto americano, com direito a muitos tiros, sangue e um humor pra lá de negro.

Mas o que pode ser dito a respeito da trama de "Um drink no inferno" sem que aqueles que nunca o assistiram percam o sabor de surpresa? Bem, a trama começa apresentando os irmãos Gecko, dois assaltantes de banco pouco afeitos a sutilezas na hora de cometer seus crimes: Seth (Clooney) ainda é menos violento, mas Richard (Quentin Tarantino) é um psicopata estuprador que não pensa duas vezes antes de deixar que seus instintos assassinos aflorem. A caminho do México, onde vão entregar o produto de seu último trabalho a um sócio, eles sequestram a família de Jacob Fuller (Harvey Keitel), pastor que abandonou o ministério após a morte da esposa. Prometendo libertar a ele e seus dois filhos - incluindo a jovem Kate (Juliette Lewis), por quem Richard sente-se inevitavelmente atraído - assim que chegarem à fronteira, Seth acaba entrando, junto com todos, no Titty Twister, um bar de aparência decadente com shows eróticos e frequentadores com cara de poucos amigos. E é justamente nesse bar que uma reviravolta - no roteiro e na trajetória de todos - transforma a viagem em uma aventura das mais bizarras.

Engraçado, violento, exagerado e mostrando uma Salma Hayek nos limites da sensualidade, "Um drink no inferno" é um deleite para quem busca entretenimento e diversão atípicos. É só deixar o senso crítico de lado e se entregar à competente bobagem orquestrada por Tarantino e Rodriguez.

segunda-feira

BASTARDOS INGLÓRIOS

BASTARDOS INGLÓRIOS (Inglourious basterds, 2009, ) Direção e roteiro: Quentin Tarantino. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Sally Menke. Figurino: Anna B. Sheppard. Direção de arte/cenários: David Wasco/Sandy Reynolds-Wasco. Produção executiva: Lloyd Phillips, Erica Steinberg, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Lawrence Bender. Elenco: Brad Pitt, Christoph Waltz, Melanie Laurent, Diane Kruger, Michael Fassbender, Eli Roth, Mike Meyers, Daniel Bruhl, B.J. Novak, Denis Menochet, Julie Dreyfuss. Estreia: 20/5/09 (Festival de Cannes)

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Quentin Tarantino), Ator Coadjuvante (Christoph Waltz), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Christoph Waltz)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Christoph Waltz)
Vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes: Melhor Ator (Christoph Waltz)

Em 1978, um filme italiano chamado "O expresso blindado da S.S. Nazista" estreou nos EUA com o título "The inglourious bastards". Dirigido por Enzo G. Castellari, o filme se passava na França ocupada pelos alemães e tinha como protagonistas um grupo de homens dispostos a qualquer sacrifício para completar sua perigosa missão de cruzar a fronteira com a Suíça. O filme - não exatamente um êxito comercial ou crítico - poderia ter desaparecido com o tempo se Quentin Tarantino, dono de uma prodigiosa memória cinematográfica adquirida de seus tempos como funcionário de um videolocadora não o tivesse ressuscitado... à sua maneira. Mantendo apenas seu título ianque - com uma pequena alteração na grafia - e uma participação especial do diretor Castellari, um dos cineastas mais cultuados da moderna Hollywood inventou uma história que casa com perfeição a violência dos filmes de guerra, o humor negro característico de suas obras anteriores e uma trama capaz até mesmo de alterar o desfecho da II Guerra Mundial.

Provando seu prestígio no mundo do cinema, Tarantino estreou seu "Bastardos inglórios" no Festival de Cannes de 2009, quinze anos depois que abocanhou a Palma de Ouro com seu incensado "Pulp fiction, tempo de violência" e novamente viu os jurados conquistados por seu jeito particular de contar histórias: na pele de Hans Lauda, o oficial nazista que dedica sua vida à caça aos judeus, o austríaco Christoph Waltz levou o prêmio de melhor ator, em uma interpretação impecável que também lhe rendeu o Oscar de coadjuvante no ano seguinte. Roubando a atenção com um personagem que frequentemente se equilibra entre o carisma irônico dos vilões tarantinescos e a crueldade inerente a seus atos de violência, Waltz consegue a proeza até mesmo de sobressair-se ao maior astro do filme, Brad Pitt, que, como o Tenente Aldo Raine, esbanja charme cínico, timing cômico e o carisma que lhe caracterizam e fizeram dele um dos mais confiáveis atores de Hollywood.


Porém, apesar do nome de Pitt estampar com destaque o cartaz de "Bastardos inglórios", o ator divide a atenção com um elenco vasto, que deita e rola no universo criado por Tarantino em sua reimaginação do período. Dividido em capítulos, o filme apresenta seus personagens aos poucos, dando a cada um deles a devida importância, até que todos se encontram no grand finale, a pré-estreia de um filme de propaganda nazista estrelado pelo soldado tornado ator Fredrick Zoller (Daniel Bruhl) - cuja arrogância nascente o impede de perceber que a mulher por quem está interessado (Mélanie Laurent), a dona do cinema, que tem um trágico passado a suas costas, não tem a menor intenção de acatar seus desejos. Sobrevivente de uma família judia exterminada por Landa, a jovem Shosanna imagina uma vingança em grande estilo, que vai de encontro com as intenções dos Bastardos Inglórios e seus comparsas - e que acaba reescrevendo a história de uma das maneiras mais criativas do cinema americano.

Repleto de citações subliminares - como é tradicional na filmografia do diretor - "Bastardos inglórios" é a prova da maturidade de Quentin Tarantino. Sem abrir mão dos longos diálogos que caracterizam sua obra, ele cria uma narrativa que mescla um senso de humor raro com uma tensão constante desde a primeira sequência até seu clímax, de um absurdo nonsense que só faz mesmo sentido dentro do universo do cineasta. Inteligente, engraçado, violento e moderno, "Bastardos inglórios" poderia tranquilamente ter levado o Oscar de Melhor Filme que foi entregue à "Guerra ao terror", mas provavelmente a forma como tratou de um tema delicado junto à Academia deve ter lhe tirado muitos votos. Ainda assim, deve entrar na história como um dos grandes filmes de guerra de seu tempo.

À PROVA DE MORTE


À PROVA DE MORTE (Grindhouse: Death proof, 2007, Dimension Films, 113min) Direção, roteiro e fotografia: Quentin Tarantino. Montagem: Sally Menke.Figurino: Nina Proctor. Direção de arte/cenários: Steve Joyner/Jeanette Scott. Produção executiva: Shannon McIntosh, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Elizabeth Avellán, Robert Rodriguez, Erica Steinberg, Quentin Tarantino. Elenco: Kurt Russell, Rosario Dawson, Zoe Bell, Rose McGowan, Quentin Tarantino, Eli Roth, Vanessa Ferlito. Estreia: 15/10/07



Boa parte das características que fizeram de Quentin Tarantino um dos mais influentes cineastas de sua geração estão presentes em “À prova de morte”: a ressurreição de um astro esquecido (aqui representado por Kurt Russell), os longos diálogos recheados de referências à cultura pop, o fetiche declarado aos pés femininos (sublinhados por inúmeros closes), a violência explícita e a trilha sonora escolhida a dedo entre clássicos perdidos em algum lugar entre os anos 60 e 80 são algumas delas. Por uma dessas razões insondáveis, porém, ao contrário dos bem-sucedidos filmes anteriores do diretor, essa sua incursão pelos filmes de ação não encontrou seu público à época de sua exibição nos cinemas americanos – a ponto de sua estreia no Brasil ter acontecido com um atraso de três anos. Tudo bem que o filme sofre de uma irregularidade por vezes enfadonha (é, sem dúvida, o trabalho menos interessante de Tarantino), mas a melhor explicação para seu naufrágio comercial na verdade atende pelo nome de “Grindhouse”.
“Grindhouse” era um projeto um tanto ambicioso e um tanto arriscado de Tarantino e de Robert Rodriguez, seu amigo de fé e irmão camarada. Os dois cineastas – conhecidos pela criatividade, pelo talento e pela coragem de encarar gêneros tidos como malditos pela indústria de Hollywood – queriam lançar, no mesmo pacote, dois filmes de estética e temática B, nos moldes dos programas duplos que faziam a glória dos cinemas-poeira americanos da década de 70, separados apenas por meia-dúzia de trailers fakes de filmes tão bregas quanto – por ironia, um desses trailers lançou um insuspeito herói de ação chamado Machete. Rodriguez se encarregou de um filme de terror protagonizado por zumbis asquerosos e violência de ketchup – o ultra-divertido “Planeta Terror”, com Bruce Willis e Josh Brolin – e Tarantino aproveitou a oportunidade para brincar de diretor de ação, inspirado em clássicos onde automóveis eram mais importantes do que os atores. Seu “À prova de morte” não pouparia sangue, corpos mutilados e atuações pra lá de amadoras – exatamente como acontecia com suas fontes de inspiração. Acontece que o filme estreou... e foi praticamente ignorado pelo mal-acostumado público norte-americano. Tal destino, obviamente, influenciou em sua distribuição mundial. No final das contas, os dois filmes estrearam no mercado externo como produtos independentes – o que de certa forma são – e sem o charme extra do clima decadente que cercava a ideia inicial. Sem essa referência quase imprescindível, “À prova de morte” (mais ainda do que “Planeta Terror”) acaba por tornar-se capenga, insuficiente por si próprio. Mas ainda assim – o que mostra que Tarantino sempre tem cartas na manga – é um filme com grandes momentos de tensão e é dirigido com uma inteligência visual admirável.
 Autor de papéis femininos de extrema força – vide A Noiva de “Kill Bill” e a protagonista de “Jackie Brown” – Quentin Tarantino fez de seu “À prova de morte” um filme francamente feminista, a despeito do que pode fazer pensar sua primeira metade, quando apresenta ao público um grupo de amigas irritantemente autossuficientes que saem pela noite de uma pequena cidade do Texas em busca de diversão antes de pegarem a estrada rumo a um sítio afastado. Na liderança delas está a radialista Jungle Julia (Sydney Poitier), que pretende encontrar, antes da viagem, o rapaz com quem está vivendo (ao menos segundo o que ela acha) um romance. Como forma de diversão, ela desafia sua amiga, ..., que não mora na cidade, a aceitar o desafio proposto em seu programa de rádio – que oferece ao corajoso espécime masculino que lhe pagar uma bebida e declamar-lhe o trecho de determinada poesia uma dança erótica. Quem se aproxima e reivinidica o prêmio é o misterioso Stuntman Mike (Kurt Russell, apavorante), um dublê de filmes de ação que dirige um assustador carro negro com uma caveira desenhada no capô. Desafio aceito e pago, é hora de todos irem embora. Mike oferece carona à ... (Rose McGowan, também presente em “Planeta Terror”, como a protagonista que tem a perna substituída por uma metralhadora) e todos partem em direção a seu destino. Acontece que Mike não é tão gentil quanto sua oferta de carona pode aparentar, e uma tragédia encerra a primeira metade do filme com uma cena de deixar qualquer um de queixo caído – poucas vezes o cinema americano foi tão gráfico e explícito em retratar um acidente automobilístico.



A segunda parte do filme começa mais de um ano depois dos acontecimentos da primeira. Na cidade de Líbano, no Mississipi, outro grupo de amigas – todas com profissões ligadas ao cinema – aproveitam o dia de folga para procurar, em uma cidade próxima, o proprietário de um carro raro, astro de uma conhecida produção de ação chamado “Corrida contra o destino”. A ideia é de uma dublê que chega da Austrália disposta a refazer, com sua leal amiga, uma cena clássica do filme. Ideia vendida, ideia realizada. Junto com a atriz e modelo Lee (Mary Elizabeth Winstead) e a maquiadora (Rosario Dawson), as duas amigas chegam até o cobiçado veículo e convencem o dono a deixá-las fazer um test-drive. E o que poderia ser um momento da mais pura diversão e adrenalina torna-se um pesadelo quando elas encontram no caminho o psicótico Stuntman Mike – que parece disposto a fazer com elas o mesmo que fez com outras mulheres anteriormente.



É quando começa o embate – violento, tenso, perigoso, angustiante e paradoxalmente empolgante – entre Mike e suas corajosas pretensas vítimas que “À prova de morte” faz esquecer seus longos tempos mortos. Os diálogos intermináveis e (dessa vez) nem sempre interessantes escritos por Tarantino são imediatamente deixados de lado quando sua câmera literalmente joga o espectador em uma perseguição alucinante pelas estradas do Mississipi, sem direito a pausas ou alívio cômico. É como se o diretor estivesse escondendo o jogo para finalmente, em seus vinte minutos finais, resolvesse pôr todas as suas cartas na mesa, ganhando o jogo de virada. Se até então o público já estava saturado das conversas inconsequentes de suas protagonistas – um grupo francamente desagradável e sem carisma – elas tornam-se, num piscar de olhos, as heroínas máximas do filme, desafiando apenas com a coragem uma ameaça das mais aterradoras, uma espécie de alma gêmea do caminhão de “Encurralado” (73, de Steven Spielberg). Brilhantemente editada, essa longa sequência é a salvação do filme, o que acorda o espectador que porventura estivesse bocejando diante dos intermináveis bate-papos de suas personagens.
Exagerando na conversa e economizando na ação – ao menos até seu explosivo final – “À prova de morte” parece, na verdade, um filme com sérios problemas de identidade. De um lado, a tendência quase irrefreável do diretor em criar quilométricos diálogos – o que funcionou muito bem em outras obras suas mas que aqui soa como uma forma de preencher tempos mortos; de outro, a vontade de assinar um filme de extrema violência psicológica e física sem apelar para tiroteios e afins (no que é extremamente feliz, diga-se de passagem). De um lado, um filme abertamente feminista no sentido de eleger mulheres como heroínas, mesmo que muitas vezes o excesso de sensualização do roteiro soe como voyeurismo barato; do outro o paradoxo de, mesmo com essa escolha de lado, fazer do vilão da história, um homem, o absurdamente mau Stuntman Mike, o personagem mais interessante e marcante da trama. Quentin Tarantino é um cineasta inteligente e sabe como poucos lidar com a dualidade de personagens extremamente idiossincráticos e pouco convencionais, mas aqui, talvez propositalmente, haja visto o conceito do projeto, optou por deixar de lado qualquer aprofundamento psicológico. Mesmo com toda a violência, seu filme é diversão pura e desvinculada de qualquer seriedade e/ou compromissos com a verdade. Como parte de seu universo particular – com sua estética frequentemente kitsch e de um sincretismo cultural à toda prova – é uma obra que exige do espectador uma quase permissão para fugir à realidade pura e simples. No mundo de Tarantino – e em especial em “À prova de morte” – a sensualidade prescinde de corpos perfeitos ou cenários glamourosos, o perigo está à espreita tanto em estacionamentos escuros quanto em ensolaradas estradas paradisíacas e a virilidade ostensiva está sempre a um passo de pedir misericórdia ao “sexo frágil”. Tarantino brinca com as expectativas o tempo todo. Nem sempre acerta, mas quando o faz, atinge em cheio o alvo.
No final das contas, “À prova de morte” é um filme nitidamente irregular, que intercala momentos decididamente chatos entre duas cenas de grande impacto visual e emocional. Mas ainda assim é um trabalho de personalidade forte e inconfundível – Tarantino e seu cinema altamente referencial é parte da cultura pop americana e mundial desde sua estreia, com “Cães de aluguel”, de 1993. Uma pena que algumas das brincadeiras do filme – como contar com alguns dos mesmos atores e personagens de outros trabalhos seus e de Rodriguez, incluindo “Planeta Terror” – passe em brancas nuvens para quem não teve a oportunidade de vê-los conforme o planejado. É, apesar dos elogiados rasgados da prestigiada “Cahiérs du Cinéma”, que o considerou como um dos melhores filmes do ano, o trabalho menos feliz de seu realizador, que ainda assim saiu incólume do fracasso.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...