A BELA DA TARDE (Belle de jour, 1967, Robert et Raymond Hakim Productions, 100min) Direção: Luis Buñuel. Roteiro: Luis Buñuel, Jean-Claude Carrière, romance de Joseph Kessel. Fotografia: Sacha Vierny. Montagem: Louisette Houtecoeur. Figurino: Hélène Noury. Direção de arte/cenários: Robert Clavel. Produção: Raymond Hakim, Robert Hakim. Elenco: Catherine Deneuve, Jean Sorel, Michel Piccoli, Geneviève Page, Pierre Clementi, Françoise Fabian. Estreia: 24/5/67
Não é difícil entender o fascínio que "A bela da tarde" vem despertando nos cinéfilos do mundo inteiro desde sua estreia, em 1967. Além de contar com a beleza estonteante de Catherine Deneuve - no auge da carreira - e ser dirigido pelo prestigiado Luis Buñuel, mestre do surrealismo no cinema, o filme, que ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza, ficou décadas longe dos olhos do público, devido a problemas de direitos autorais e, até 1995, através de uma campanha liderada por Martin Scorsese, manteve inalterada sua aura de filme cult. Quando voltou a seu lugar de direito - os braços da plateia e o coração dos críticos - ganhou uma nova geração de fãs e reabriu discussões a respeito de seus simbolismos e questionamentos. Maior sucesso comercial da carreira de Buñuel e admirado até mesmo por Alfred Hitchcock - o que não é nenhuma surpresa, haja visto o histórico do cineasta inglês a respeito de louras sensuais -, "A bela da tarde" é, também, o mais acessível dos trabalhos do diretor espanhol: mesmo que faça uso de elementos narrativos pouco convencionais em alguns momentos, é uma produção muito menos complexa do que, por exemplo, "O anjo exterminador" ou "Esse obscuro objeto do desejo" (77), dois dos mais ambíguos de seus filmes - e, sintomaticamente, dois de seus maiores êxitos profissionais.
Polêmico e sensual, "A bela da tarde" é, também, um presente para estudantes de psicologia, que vem, desde seu lançamento, se prestando a longos debates a respeito de suas metáforas visuais e sonoras - além da riqueza de seus personagens, desde a protagonista até os coadjuvantes mais efêmeros na trama. Construído alternando uma atmosfera de sonho com uma realidade crua, o roteiro de Buñuel e Carrière segue uma estrutura convencional, mas que abre espaço para digressões psicanalíticas e/ou sexuais que casavam com perfeição com o momento histórico e social pelo qual passava o mundo (e mais precisamente a Europa) no final dos anos 60. Retratando a hipocrisia da alta sociedade e questionando o papel da mulher como puro objeto, o filme subverte as expectativas e apresenta uma heroína que vai contra os ideais femininos mais clássicos. Séverine (interpretada por uma Catherine Deneuve no limite entre a castidade e o furor) pode até parecer como a mais devotada e compreensiva esposa, mas por dentro é um vulcão de desejos secretos, os quais exorciza primeiro em forma de sonhos eróticos pouco banais, e depois através de uma atitude radical: a prostituição de luxo. O que pode parecer apenas a realização de voyeurismo barato, porém, torna-se material rico de possibilidades nas mãos inteligentes e iconoclastas de Buñuel.
Fotografado com requinte pelo experiente Sacha Vierny, "A bela da tarde" já mostra a que veio na primeira sequência, em que um idílico momento entre um atraente e jovem casal dá lugar a uma situação de violência e submissão sexual. Logo se descobre que o acontecimento é apenas parte dos sonhos de Séverine, que vive uma relação tranquila e asséptica com o marido, Pierre (Jean Sorel). Os dois chegam a dormir em camas separadas, e seu casamento é o retrato do tédio amoroso - o que não reflete os constantes desejos da esposa, recheados de fetiches pouco triviais. A solução que ela encontra para dar vazão a tais sentimentos sem que precise acabar com seu relacionamento surge na figura de Madame Anais (Geneviève Page), a dona de uma casa de alta prostituição, que a recebe de braços abertos. Linda, sexy e exalando classe, Séverine recebe a alcunha de A Bela da Tarde - ela necessariamente precisa deixar o trabalho às cinco da tarde para voltar à vida normal. Nos períodos em que passa na casa de Madame Anais, Séverine entra em contato com clientes com os mais variados tipos de fantasia - até que encontra Marcel (Pierre Clementi), um marginal do submundo que se torna obcecado por ela e ameaça quebrar a harmonia entre as aparências e a realidade.
Com simbolismos facilmente decodificáveis até para o menos experiente dos espectadores, Luis Buñuel conduz a trajetória de Séverine como uma espécie de coleção de anedotas a respeito de seus clientes - todos levemente bizarros e ao menos um francamente assustador - e suas aspirações sensuais. Apesar da beleza de Deneuve, o filme não se permite em ser um inventário de taras e cenas de sexo gratuitas, muito pelo contrário: a atriz só aparece nua em uma cena (envolta em um véu preto) e o erotismo é apenas sugerido, nunca explícito. Através de sons e imagens cuidadosamente escolhidas, o cineasta convida a plateia a penetrar em um mundo tanto excitante quanto sombrio - mesmo que o filme jamais pese a mão na violência e no estudo da psique humana. Ao optar por apenas contar uma história e apresentar seus personagens, sem julgá-los ou forçar uma compreensão óbvia, "A bela da tarde" consegue ser, ao mesmo tempo, um belo e elegante drama sobre sexo e uma obra de arte que atravessou gerações e continua, ainda hoje, atual e visualmente atraente. Seu final, em aberto, apenas confirma tudo que foi mostrado antes: uma obra inteligente e perspicaz, mas nem por isso vazia e superficial. Um belo e indispensável filme - uma porta de entrada para a curiosa filmografia de seu irrequieto diretor.
Filmes, filmes e mais filmes. De todos os gêneros, países, épocas e níveis de qualidade.
Mostrando postagens com marcador CATHERINE DENEUVE. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador CATHERINE DENEUVE. Mostrar todas as postagens
quinta-feira
quarta-feira
FOME DE VIVER
FOME DE VIVER (The hunger, 1983, MGM, 97min) Direção: Tony Scott. Roteiro: Ivan Davis, Michael Thomas, romance de Whitley Strieber. Fotografia: Stephen Golblatt. Montagem: Pamela Power. Música: Denny Jaeger, Michel Rubini. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Brian Morris/Ann Mollo. Produção: Richard A. Sheperd. Elenco: Catherine Deneuve, David Bowie, Susan Sarandon, Dan Hedaya, Beth Ehlers, Cliff De Young. Estreia: 29/4/83
Se existe um filme que já nasceu com a vocação de tornar-se cult, esse filme é "Fome de viver". Lançada dois anos depois da publicação do romance que lhe deu origem, escrito por Whitley Strieber, a produção dirigida pelo inglês Tony Scott - irmão de Ridley, recém saído da fria recepção a outro que logo se transformaria em objeto de culto, "Blade Runner: o caçador de androides" (82) - reunia logo em sua receita três ingredientes infalíveis para chamar a atenção do público dos ainda novos anos 80: o tema do vampirismo (jamais mencionado claramente, mas ainda assim bastante óbvio visualmente), a estética típica da geração MTV (ambientes enfumaçados, fotografia caprichada, edição ágil) e o elenco que juntava a europeia beleza glacial de Catherine Deneuve e a aura misteriosa e galante do roqueiro David Bowie (além da presença da então pouco conhecida, mas já bastante sensual Susan Sarandon). Longe de conquistar a unanimidade da crítica, incomodada justamente por seu cuidado extremo com o visual em detrimento da história, "Fome de viver" encontrou respaldo, porém, junto à uma parte da plateia que deixou-se seduzir pelo fascinante tom gótico do filme e o adotou calorosamente.
Sem precisar utilizar a palavra "vampiro" uma única vez durante todo o filme, Tony Scott acabou por conceber visualmente uma das mais perenes e impressionantes traduções de um tema clássico. Com escolhas certeiras - como a canção "Bela Lugosi's dead", da banda inglesa Bauhaus como ilustração da instigante sequência inicial - e uma atmosfera ao mesmo tempo sombria e erótica, o cineasta construiu um universo repleto de simbolismos a respeito de vida, morte, longevidade e sexo, iluminado pela fotografia deslumbrante de Stephen Goldblatt, de uma elegância que reflete o tom de extrema sutileza proposto pela trama criada por Strieber e roteirizada por Michael Thomas, que transfere para a Nova York do final do século XX o mundo fascinante e intrigante dos mortos-vivos sem apelar para a violência excessiva e utilizando os clichês do gênero de maneira criativa e moderna. Inserindo elementos contemporâneos à narrativa - uma das protagonistas é uma médica em busca da cura para a progeria, uma doença que causa o envelhecimento precoce - e apostando na sutileza em detrimento do horror explícito, Scott conseguiu o que parecia impossível: atualizar uma mitologia secular sem cair no ridículo ou no grotesco e ainda cativar uma nova geração de fãs.
Linda, sedutora e esbanjando elegância, Catherine Deneuve surge em cena como Miriam Blaylock, uma misteriosa mulher que se aproxima da dra. Sarah Roberts (Susan Sarandon) em uma sessão de autógrafos. Sua intenção é ajudar o marido, o músico John Baylock (David Bowie), que está sofrendo de uma condição que causa envelhecimento muito mais acelerado do que o normal - a ponto de tornar-se um senhor de mais de oitenta anos em poucas horas. Dedicada ao estudo clínico de uma possível cura para a doença do marido da bela estranha, Sarah nem de longe desconfia da verdade a respeito do bizarro casal: Miriam é uma centenária vampira egípcia que subsiste do sangue de seus amantes, a quem troca periodicamente, justamente quando eles começam a envelhecer. Seu relacionamento com John, que já dura mais de duzentos anos, está chegando ao destino final de todos os anteriores, e uma atração irresistível surge entre ela e a jovem médica, que sucumbe à tentação mesmo correndo o risco de tornar-se apenas mais uma amante/fonte de sangue da fria e estonteante Miriam. Enquanto isso, John tenta desesperadamente manter-se vivo e ao lado da mulher que ama - mesmo que para isso precise apelar para seus sensos mais primitivos e crueis, o que significa apelar para a concessão a seus instintos mortais.
Quem esperar um filme de terror convencional, ou até mesmo um conto vampiresco na acepção mais tradicional do termo pode até se decepcionar com "Fome de viver", uma vez que o filme de Tony Scott se afasta dos clichês mais óbvios do gênero - ao mesmo em que os abraça e os apresenta sob uma nova perspectiva narrativa. Em seu filme, não há um heroi em busca de redenção ou uma heroína em apuros sendo ameaçada por criaturas da noite com objetivos pura e simplesmente malévolos: seus protagonistas são os próprios vampiros, em conflito com sua realidade predadora ao mesmo tempo em que aproveitam os benefícios da juventude eterna (ou ao menos no caso dos amantes de Miriam, bem mais estendida do que o normal). Para ilustrar essa sensação de prazer constante ameaçado por um certo tédio blasé, a fotografia, a direção de arte e todos os elementos de cena (fumaça, pombos, cortinas esvoaçantes) são usados e abusados, para deleite de uns e desprezo de outros. A estética videoclipe, que encontrou na década de 80 um terreno fértil e hospitaleiro, é ingrediente crucial na receita do diretor, que mergulha sem medo na possível breguice de tal opção para imprimir uma marca registrada à história. Deu certo, mas só até determinado ponto: "Fome de viver" é, sem dúvida, um filme marcante por sua beleza, mas tropeça em um roteiro por vezes excessivamente frio e distante, que mais oferece perguntas do que respostas e que não desenvolve a contento todas as nuances de seus protagonistas, interpretados por um ícone do rock, uma diva europeia e uma grande atriz em começo de carreira. É uma mistura incendiária e interessante, que tanto pode encantar quanto aborrecer. É só tomar partido - e se deliciar com alguns dos momentos mais intensos da carreira de Scott - que depois embarcou no cinema de ação sem cérebro até suicidar-se em 2012, um trágico e irônico final para quem começou a carreira na sétima arte falando de vida eterna e escuridão.
Se existe um filme que já nasceu com a vocação de tornar-se cult, esse filme é "Fome de viver". Lançada dois anos depois da publicação do romance que lhe deu origem, escrito por Whitley Strieber, a produção dirigida pelo inglês Tony Scott - irmão de Ridley, recém saído da fria recepção a outro que logo se transformaria em objeto de culto, "Blade Runner: o caçador de androides" (82) - reunia logo em sua receita três ingredientes infalíveis para chamar a atenção do público dos ainda novos anos 80: o tema do vampirismo (jamais mencionado claramente, mas ainda assim bastante óbvio visualmente), a estética típica da geração MTV (ambientes enfumaçados, fotografia caprichada, edição ágil) e o elenco que juntava a europeia beleza glacial de Catherine Deneuve e a aura misteriosa e galante do roqueiro David Bowie (além da presença da então pouco conhecida, mas já bastante sensual Susan Sarandon). Longe de conquistar a unanimidade da crítica, incomodada justamente por seu cuidado extremo com o visual em detrimento da história, "Fome de viver" encontrou respaldo, porém, junto à uma parte da plateia que deixou-se seduzir pelo fascinante tom gótico do filme e o adotou calorosamente.
Sem precisar utilizar a palavra "vampiro" uma única vez durante todo o filme, Tony Scott acabou por conceber visualmente uma das mais perenes e impressionantes traduções de um tema clássico. Com escolhas certeiras - como a canção "Bela Lugosi's dead", da banda inglesa Bauhaus como ilustração da instigante sequência inicial - e uma atmosfera ao mesmo tempo sombria e erótica, o cineasta construiu um universo repleto de simbolismos a respeito de vida, morte, longevidade e sexo, iluminado pela fotografia deslumbrante de Stephen Goldblatt, de uma elegância que reflete o tom de extrema sutileza proposto pela trama criada por Strieber e roteirizada por Michael Thomas, que transfere para a Nova York do final do século XX o mundo fascinante e intrigante dos mortos-vivos sem apelar para a violência excessiva e utilizando os clichês do gênero de maneira criativa e moderna. Inserindo elementos contemporâneos à narrativa - uma das protagonistas é uma médica em busca da cura para a progeria, uma doença que causa o envelhecimento precoce - e apostando na sutileza em detrimento do horror explícito, Scott conseguiu o que parecia impossível: atualizar uma mitologia secular sem cair no ridículo ou no grotesco e ainda cativar uma nova geração de fãs.
Linda, sedutora e esbanjando elegância, Catherine Deneuve surge em cena como Miriam Blaylock, uma misteriosa mulher que se aproxima da dra. Sarah Roberts (Susan Sarandon) em uma sessão de autógrafos. Sua intenção é ajudar o marido, o músico John Baylock (David Bowie), que está sofrendo de uma condição que causa envelhecimento muito mais acelerado do que o normal - a ponto de tornar-se um senhor de mais de oitenta anos em poucas horas. Dedicada ao estudo clínico de uma possível cura para a doença do marido da bela estranha, Sarah nem de longe desconfia da verdade a respeito do bizarro casal: Miriam é uma centenária vampira egípcia que subsiste do sangue de seus amantes, a quem troca periodicamente, justamente quando eles começam a envelhecer. Seu relacionamento com John, que já dura mais de duzentos anos, está chegando ao destino final de todos os anteriores, e uma atração irresistível surge entre ela e a jovem médica, que sucumbe à tentação mesmo correndo o risco de tornar-se apenas mais uma amante/fonte de sangue da fria e estonteante Miriam. Enquanto isso, John tenta desesperadamente manter-se vivo e ao lado da mulher que ama - mesmo que para isso precise apelar para seus sensos mais primitivos e crueis, o que significa apelar para a concessão a seus instintos mortais.
Quem esperar um filme de terror convencional, ou até mesmo um conto vampiresco na acepção mais tradicional do termo pode até se decepcionar com "Fome de viver", uma vez que o filme de Tony Scott se afasta dos clichês mais óbvios do gênero - ao mesmo em que os abraça e os apresenta sob uma nova perspectiva narrativa. Em seu filme, não há um heroi em busca de redenção ou uma heroína em apuros sendo ameaçada por criaturas da noite com objetivos pura e simplesmente malévolos: seus protagonistas são os próprios vampiros, em conflito com sua realidade predadora ao mesmo tempo em que aproveitam os benefícios da juventude eterna (ou ao menos no caso dos amantes de Miriam, bem mais estendida do que o normal). Para ilustrar essa sensação de prazer constante ameaçado por um certo tédio blasé, a fotografia, a direção de arte e todos os elementos de cena (fumaça, pombos, cortinas esvoaçantes) são usados e abusados, para deleite de uns e desprezo de outros. A estética videoclipe, que encontrou na década de 80 um terreno fértil e hospitaleiro, é ingrediente crucial na receita do diretor, que mergulha sem medo na possível breguice de tal opção para imprimir uma marca registrada à história. Deu certo, mas só até determinado ponto: "Fome de viver" é, sem dúvida, um filme marcante por sua beleza, mas tropeça em um roteiro por vezes excessivamente frio e distante, que mais oferece perguntas do que respostas e que não desenvolve a contento todas as nuances de seus protagonistas, interpretados por um ícone do rock, uma diva europeia e uma grande atriz em começo de carreira. É uma mistura incendiária e interessante, que tanto pode encantar quanto aborrecer. É só tomar partido - e se deliciar com alguns dos momentos mais intensos da carreira de Scott - que depois embarcou no cinema de ação sem cérebro até suicidar-se em 2012, um trágico e irônico final para quem começou a carreira na sétima arte falando de vida eterna e escuridão.
sexta-feira
REPULSA AO SEXO
REPULSA AO SEXO (Repulsion, 1965, Compton Films, 105min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Roman Polanski, Gerard Brach, adaptação de David Stone. Fotografia: Gilbert Taylor. Montagem: Alastair McIntyre. Música: Chico Hamilton. Direção de arte: Seamus Flannery. Produção: Gene Gutowski. Elenco: Catherine Deneuve, Ian Hendry, John Fraser, Yvonne Furneaux, Patrick Wymark. Estreia: 19/5/65 (Festival de Cannes)
A intenção do cineasta Roman Polanski e do roteirista Gerard Brach era simples e clara: eles queriam realizar um filme bem-sucedido comercialmente que lhes desse financiamento para aquele que consideravam um projeto mais pessoal e ambicioso, o suspense "Armadilha do destino". Para isso, aceitaram a encomenda de uma produtora de filmes pornô - a Compton Films - para que criassem um filme de terror que mudasse um pouco sua imagem diante do público. Com um orçamento ínfimo de 270 mil dólares, uma atriz francesa ainda iniciante chamada Catherine Deneuve liderando o elenco e uma trama que se utilizava da auto-repressão sexual como ponto de partida, "Repulsa ao sexo" saiu do Festival de Berlim de 1965 com o Prêmio Especial do Júri e representou o início de uma relação de admiração e prestígio da crítica em relação ao diretor. Em seu primeiro filme em língua inglesa, Polanski já deixava claro seu interesse quase obsessivo pelo lado escuro da vida, uma marca inconfundível de sua filmografia futura - e demonstrava que, como poucos cineastas de sua geração, sabia como manipular o suspense sem apelar para o susto fácil.
A trama de "Repulsa ao sexo" se passa em Londres, mas uma Londres em preto-e-branco bem distinta da capital inglesa da geração flower power ou do amor livre. É por ruas sem glamour ou alegria que passa todos os dias a caminho do seu trabalho em uma clínica de estética a tímida e discreta Carol Ledoux (vivida com graça e competência por uma Catherine Deneuve no auge da beleza). Avessa a qualquer tipo de aproximação masculina - inclusive do eterno pretendente, Colin (John Fraser) - e a todo tipo de menção a fatos relacionados a sexo e relacionamentos, Carol sente-se desconfortável com a constante presença do amante de sua irmã, Helen (Yvonne Furneaux), no apartamento alugado que dividem. Para ela, não é apenas o fato de Michael (Ian Hendry) ser casado que a incomoda, e sim sua proximidade e sua ostensiva felicidade sexual, que a afrontam e deixam aflorar, pouco a pouco, um desequilíbrio só perceptível em detalhes como a apatia e a tensão intermitente. Quando Helen e Michael viajam juntos e a deixam sozinha em casa, Carol começa a escorregar definitivamente para a loucura: sofrendo de alucinações de todo tipo (como braços que saem das paredes para agarrá-la) e o medo cada vez mais patológico de qualquer contato com homens (sejam eles amigáveis como Colin ou desprezíveis como o senhorio que vai cobrar o aluguel e a assedia sexualmente), a jovem perde de vez o vínculo com a sanidade mental.
Sem apostar em psicologismos baratos para explicar as razões de sua protagonista - as conclusões podem ser tiradas de acordo com a bagagem do espectador - Roman Polanski prefere conduzir sua narrativa de forma a mergulhar o espectador na aterrorizante jornada de Carol sem buscar subterfúgios que não os visuais. E para isso, ele conta com a brilhante fotografia de Gilbert Taylor - que investe em lentes grandes angulares para distorcer tanto o ponto de vista da personagem quanto a maneira com que o mundo à sua volta vai se tornando gradualmente mais expressionista e claustrofóbico - e a direção de arte inteligente, que cria um cenário aparentemente banal (um apartamento barato) para transformá-lo, no decorrer da história, no palco de uma tragédia quase anunciada, com direito a sangue, a carne de um coelho que vai apodrecendo lentamente e um clima de tensão absoluta, pontuado pela trilha sonora discreta de Chico Hamilton, que evita invadir desnecessariamente as cenas, explodindo apenas quando torna-se essencial.
É especialmente interessante a maneira com que Polanski espalha, pelo filme, referências fálicas que enfatizam ainda mais o estado de espírito doentio de sua protagonista. São escovas de dente dentro de copos, cigarros em cinzeiros e edifícios que atormentam Carol em seu dia-a-dia, preenchidos ainda com as reclamações de suas colegas de trabalho a respeito dos homens, trabalhadores de obras que não hesitam em passar-lhe cantadas e uma rotina profissional tediosa que não a impede de afundar sem proteção em seu desatino. É brilhante a metáfora das paredes rachadas no apartamento - que refletem com exatidão a fragmentação da personalidade de Carol e a inevitabilidade de seu desmoronamento. O roteiro de Polanski e Brach não poupa nem a personagem nem o público, sufocando-os com um manto de angústia e solidão que encontra amparo na atuação perfeita de Catherine Deneuve, que consegue o feito de conquistar a plateia com sua aflição e fazê-la inclusive perdoar seus atos de violência. Primeiro filme da "trilogia do apartamento" de Roman Polanski - que se completa com "O bebê de Rosemary" (68) e "O inquilino" (76), estrelado pelo próprio diretor - "Repulsa ao sexo" é um suspense psicológico exemplar, tanto do ponto de vista formal e estético quanto de narrativa. Para ver e rever.
A intenção do cineasta Roman Polanski e do roteirista Gerard Brach era simples e clara: eles queriam realizar um filme bem-sucedido comercialmente que lhes desse financiamento para aquele que consideravam um projeto mais pessoal e ambicioso, o suspense "Armadilha do destino". Para isso, aceitaram a encomenda de uma produtora de filmes pornô - a Compton Films - para que criassem um filme de terror que mudasse um pouco sua imagem diante do público. Com um orçamento ínfimo de 270 mil dólares, uma atriz francesa ainda iniciante chamada Catherine Deneuve liderando o elenco e uma trama que se utilizava da auto-repressão sexual como ponto de partida, "Repulsa ao sexo" saiu do Festival de Berlim de 1965 com o Prêmio Especial do Júri e representou o início de uma relação de admiração e prestígio da crítica em relação ao diretor. Em seu primeiro filme em língua inglesa, Polanski já deixava claro seu interesse quase obsessivo pelo lado escuro da vida, uma marca inconfundível de sua filmografia futura - e demonstrava que, como poucos cineastas de sua geração, sabia como manipular o suspense sem apelar para o susto fácil.
A trama de "Repulsa ao sexo" se passa em Londres, mas uma Londres em preto-e-branco bem distinta da capital inglesa da geração flower power ou do amor livre. É por ruas sem glamour ou alegria que passa todos os dias a caminho do seu trabalho em uma clínica de estética a tímida e discreta Carol Ledoux (vivida com graça e competência por uma Catherine Deneuve no auge da beleza). Avessa a qualquer tipo de aproximação masculina - inclusive do eterno pretendente, Colin (John Fraser) - e a todo tipo de menção a fatos relacionados a sexo e relacionamentos, Carol sente-se desconfortável com a constante presença do amante de sua irmã, Helen (Yvonne Furneaux), no apartamento alugado que dividem. Para ela, não é apenas o fato de Michael (Ian Hendry) ser casado que a incomoda, e sim sua proximidade e sua ostensiva felicidade sexual, que a afrontam e deixam aflorar, pouco a pouco, um desequilíbrio só perceptível em detalhes como a apatia e a tensão intermitente. Quando Helen e Michael viajam juntos e a deixam sozinha em casa, Carol começa a escorregar definitivamente para a loucura: sofrendo de alucinações de todo tipo (como braços que saem das paredes para agarrá-la) e o medo cada vez mais patológico de qualquer contato com homens (sejam eles amigáveis como Colin ou desprezíveis como o senhorio que vai cobrar o aluguel e a assedia sexualmente), a jovem perde de vez o vínculo com a sanidade mental.
Sem apostar em psicologismos baratos para explicar as razões de sua protagonista - as conclusões podem ser tiradas de acordo com a bagagem do espectador - Roman Polanski prefere conduzir sua narrativa de forma a mergulhar o espectador na aterrorizante jornada de Carol sem buscar subterfúgios que não os visuais. E para isso, ele conta com a brilhante fotografia de Gilbert Taylor - que investe em lentes grandes angulares para distorcer tanto o ponto de vista da personagem quanto a maneira com que o mundo à sua volta vai se tornando gradualmente mais expressionista e claustrofóbico - e a direção de arte inteligente, que cria um cenário aparentemente banal (um apartamento barato) para transformá-lo, no decorrer da história, no palco de uma tragédia quase anunciada, com direito a sangue, a carne de um coelho que vai apodrecendo lentamente e um clima de tensão absoluta, pontuado pela trilha sonora discreta de Chico Hamilton, que evita invadir desnecessariamente as cenas, explodindo apenas quando torna-se essencial.
É especialmente interessante a maneira com que Polanski espalha, pelo filme, referências fálicas que enfatizam ainda mais o estado de espírito doentio de sua protagonista. São escovas de dente dentro de copos, cigarros em cinzeiros e edifícios que atormentam Carol em seu dia-a-dia, preenchidos ainda com as reclamações de suas colegas de trabalho a respeito dos homens, trabalhadores de obras que não hesitam em passar-lhe cantadas e uma rotina profissional tediosa que não a impede de afundar sem proteção em seu desatino. É brilhante a metáfora das paredes rachadas no apartamento - que refletem com exatidão a fragmentação da personalidade de Carol e a inevitabilidade de seu desmoronamento. O roteiro de Polanski e Brach não poupa nem a personagem nem o público, sufocando-os com um manto de angústia e solidão que encontra amparo na atuação perfeita de Catherine Deneuve, que consegue o feito de conquistar a plateia com sua aflição e fazê-la inclusive perdoar seus atos de violência. Primeiro filme da "trilogia do apartamento" de Roman Polanski - que se completa com "O bebê de Rosemary" (68) e "O inquilino" (76), estrelado pelo próprio diretor - "Repulsa ao sexo" é um suspense psicológico exemplar, tanto do ponto de vista formal e estético quanto de narrativa. Para ver e rever.
Assinar:
Postagens (Atom)
OS AGENTES DO DESTINO
OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...
-
SOMMERSBY, O RETORNO DE UM ESTRANHO (Sommersby, 1993, Warner Bros, 114min) Direção: Jon Amiel. Roteiro: Nicholas Meyer, Sarah Kernochan, h...
-
EVIL: RAÍZES DO MAL (Ondskan, 2003, Moviola Film, 113min) Direção: Mikael Hafstrom. Roteiro: Hans Gunnarsson, Mikael Hafstrom, Klas Osterg...
-
O SILÊNCIO DOS INOCENTES (The silence of the lambs, 1991, Orion Pictures, 118min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: Ted Tally, romance de ...


