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segunda-feira

O PODER DO AMOR

 


O PODER DO AMOR (Something to talk about, 1995, Warner Bros, 106min) Direção: Lasse Hallstrom. Roteiro: Callie Khouri. Fotografia: Sven Kykvist. Montagem: Mia Goldman. Música: Graham Preskett, Hans Zimmer. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Roberta J. Holinko. Produção executiva: Goldie Hawn. Produção: Anthea Sylbert, Paula Weinstein. Elenco: Julia Roberts, Dennis Quaid, Robert Duvall, Kyra Sedgwick, Gena Rowlands, Brett Cullen. Estreia: 20/7/95

Nem sempre o encontro de talento, prestígio e popularidade resulta em um grande sucesso. "O poder do amor" é um exemplo claro dessa afirmação: mesmo com a união do celebrado diretor Lasse Hallstrom (então já indicado ao Oscar por "Minha vida de cachorro", de 1987), da roteirista Callie Khouri (oscarizada por "Thelma & Louise", de 1991) e da atriz Julia Roberts, o filme ficou muito aquém do esperado nas bilheterias e tampouco entusiasmou a crítica. Vendida como uma comédia romântica quando na verdade é um drama familiar quase sonolento, e lançado em um período de crise na carreira de Roberts - que vinha acumulando fracassos comerciais que ameaçavam seu status de grande estrela - a produção da Warner decepcionou tanto o estúdio (que esperava um estouro financeiro) quanto seus fãs, ansiosos por rever seu belo sorriso e seu carisma milionário, o que só voltaria a acontecer com "O casamento do meu melhor amigo", lançado dois anos mais tarde.

Além da direção burocrática de Hallstrom, "O poder do amor" sofre, basicamente, pela absoluta falta de humor de seu roteiro - uma surpresa quando se trata de Khouri - e por personagens que falham em despertar a simpatia do espectador. Até mesmo a protagonista, uma mulher traída e tentando refazer a vida, sofre com um desenvolvimento pouco interessante. Grace Bichon (interpretada no piloto automático por Julia Roberts) administra o haras de seu pai, Wyly King (Robert Duvall), e vive um casamento aparentemente perfeito com o sedutor Eddie (Dennis Quaid). Sua frágil felicidade sofre um baque, no entanto, quando ela descobre que seu marido tem um romance com uma colega de trabalho. Humilhada e ressentida, Grace vai morar com a irmã caçula, Emma Rae (Kyra Sedgwick) e, se recusando a qualquer contato com o ex-marido, passa a questionar o sistema de quase submissão a que as mulheres de sua família se sujeitam em relação aos homens que a cercam. Tal comportamento chega até sua mãe, Georgia (Gena Rowlands), que até então jamais havia percebido tal situação em seu relacionamento.

 

O roteiro de Callie Khouri, como não poderia ser diferente, oferece às personagens femininas um destaque maior do que aos homens da história. Isso não significa, no entanto, que elas sejam capazes de conquistar a plateia. Com diálogos frequentemente enfadonhos e que soam artificiais até mesmo recitados por atrizes do porte de Roberts, Rowlands e Sedgwick, a trama anda em círculos, dá espaço para histórias paralelas pouco atraentes - que envolvem o haras da família e um novo relacionamento pouco crível à protagonista - e sofre com uma indesculpável falta de charme. Nem mesmo os belos cenários, os imponentes cavalos e o elenco carismático são suficientes para disfarçar o ritmo claudicante imposto pela direção - uma surpresa, uma vez que o sueco Hallstrom tem enorme talento para sublinhar as características mais emocionais de seus filmes, como mostrou em "Regras da vida" (1999), que lhe rendeu uma segunda indicação ao Oscar. E se não bastasse o fato do desperdício de suas atrizes, o filme oferece oportunidades ainda menores a seus atores, relegados a segundo plano e com personagens quase patéticos - se tal opção é proposital para enfatizar a força das mulheres há formas menos simplórias de atingir seu objetivo do que fazer dos maridos da família King/Bichon dois babacas machistas e unidimensionais.

É uma pena que "O poder do amor" fique tão aquém das possibilidades de sua equipe de talentos. Seu marketing desastroso - certamente o público esperava uma comédia romântica leve e agradável e encontrou um pretensioso drama com ambições de emular o cinema europeu - foi apenas um dos culpados por fazer dele um dos trabalhos menos marcantes de Julia Roberts. Sem nenhuma cena marcante, uma trama pouco inventiva e uma narrativa cujo ritmo jamais permite o envolvimento do espectador, o filme só não é um desastre completo porque, apesar de tudo, seu elenco esforçado faz valer seus longos 106 minutos de duração - mesmo que a história seja esquecida pouco tempo depois do final da sessão.

quarta-feira

COLORS: AS CORES DA VIOLÊNCIA

COLORS: AS CORES DA VIOLÊNCIA (Colors, 1988, Orion Pictures, 120min) Direção: Dennis Hopper. Roteiro: Michael Schiffer, estória de Michael Schiffer, Richard DiLello. Fotografia: Haskell Wexler. Montagem: Robert Estrin. Música: Herbie Hancock. Direção de arte/cenários: Ron Foreman/Ernie Bishop. Produção: Robert H. Solo. Elenco: Sean Penn, Robert Duvall, Maria Conchita Alonso, Don Cheadle, Damon Wayans, Leon, Mario Lopez. Estreia: 15/4/88

No final da década de 80, a cidade de Los Angeles enfrentava, em seu dia-a-dia, um fenômeno dos mais perigosos: a proliferação de gangues, que agiam nos subúrbios, provocavam ondas de violência e batiam de frente com a força policial - dedicada e corajosa, mas praticamente impotente diante da abissal desigualdade numérica. Enquanto os policiais contavam com uma equipe de cerca de 250 homens e mulheres, os membros de gangues chegavam a 70.000 (espalhados em quase 600 grupos diferentes). Diante desse quadro aterrador, Dennis Hopper não viu outra solução senão modificar o roteiro original de Michael Schiffer - que versava sobre traficantes de drogas em Chicago - para retratar, com o máximo de frieza e realismo, o embate entre os dois lados da lei em seu quarto longa-metragem como diretor (e oito anos depois de sua última incursão na função, com "Anos de rebeldia"). Com o cenário e o pano de fundo modificados por Schiffer, surgia então "Colors: as cores da violência", um sucesso inesperado de bilheteria que esfregava na cara do espectador uma realidade até então conhecida apenas através de telejornais ou romantizações vindas de Hollywood. Com membros de gangues contratados como extras e seguranças da equipe, "Colors" conseguiu o feito raro de promover um cessar-fogo provisório durante as filmagens - e reacendeu a polêmica da violência no cinema quando, em algumas salas de exibição, provocou tumultos e distúrbios.

A crueza do tema e da realização de Hopper - que filma quase como um documentário, com cenas que mal se conectam entre si e são fotografadas de forma nervosa e urgente - espalhou-se também para os bastidores da produção, quando seu astro, Sean Penn, foi preso e passou trinta e três dias na cadeia por ter agredido um paparazzo (vale lembrar que, na época, ele era casado com Madonna, e os dois frequentavam os tabloides sensacionalistas com assiduidade quase religiosa). Da mesma forma, um ataque a tiros em um funeral (em uma cena crucial do filme) foi praticamente repetida a poucos metros de distância da filmagem, para descrédito de alguns críticos um tanto quanto céticos em relação ao realismo da sequência. A despeito de tal grau de realismo, porém, o resultado final do filme não deixa de ser surpreendentemente morno - uma quase decepção, especialmente por ser dirigido por um dos ícones da rebeldia no cinema e autor de um dos filmes seminais da contracultura, o clássico "Sem destino" (69). 





"Colors", apesar do visual sujo e do tom naturalista, peca por não envolver o público em sua trama, preferindo a denúncia social ao desenvolvimento dramático de seu roteiro, que dificilmente escapa dos clichês e tampouco apresenta personagens carismáticos o bastante para conquistar a plateia. Tanto o novato Danny McGavin (Sean Penn, bom ator como sempre) quanto o veterano Bob Hodges (Robert Duvall) parecem criados seguindo a regra consagrada pela série "Máquina mortífera", em que dois parceiros de personalidades diferentes se unem em prol do mesmo objetivo e passam a se admirar e respeitar mutuamente. Não há uma química muito consistente entre McGavin e Louisa (Maria Conchita Alonso), por exemplo: fica a impressão de que seu envolvimento acontece unicamente para acrescentar um obstáculo a mais no conflito entre o jovem policial e os integrantes das gangues - assim como a família feliz de Hodges serve como contraponto ao caos urbano e tenta dar densidade a um personagem que, não fosse o talento de Robert Duvall, seria igual a tantos outros já retratados pelo cinema norte-americano. Sem buscar novidades em sua narrativa, "Colors" destaca-se mesmo é pelo tema pulsante e pelo desempenho de seus atores principais.

Longe de ser um grande filme - as cenas de ação são formulaicas e editadas sem ritmo, falta empatia aos protagonistas e o roteiro é simplista ao extremo -, "Colors" se beneficia (e muito) do talento de Sean Penn e Robert Duvall. Atores extremamente competentes, eles conseguem extrair o que há de bom no roteiro e disfarçar a superficialidade da trama - basicamente a tentativa dos policiais de Los Angeles em acabar com a guerra entre gangues, mais especificamente entre os Bloods e os Crisps. Enquanto o mais experiente Hodges faz isso através do diálogo e de uma malandragem adquirida com os anos de prática, seu colega McGavin prefere apelar para a violência e a ameaça física. Nada que seja particularmente empolgante ou criativo a ponto de tornar-se memorável. É um filme que cumpre o que promete, mas deixa no ar a sensação de que poderia ter sido bem melhor, dados os talentos envolvidos. À época de seu lançamento teve seu impacto, mas não resistiu tão bem ao tempo e hoje dificilmente é capaz de surpreender aos espectadores mais exigentes.

O JUIZ

O JUIZ (The judge, 2014, Warner Bros/Team Downey, 141min) Direção: David Dobkin. Roteiro: Nick Schenck, Bill Dubuque, estória de David Dobkin, Nick Schenck. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Mark Livolsi. Música: Thomas Newman. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Mark Ricker/Rena DeAngelo. Produção executiva: Bruce Berman, Robert Downey Jr., Herb Gains, Jeff Kleeman. Produção: David Dobkin, Susan Downey, David Gambino. Elenco: Robert Downey Jr., Robert Duvall, Billy Bob Thornton, Vera Farmiga, Vincent D'Onofrio, Jeremy Strong, Balthazar Getty, David Krumholtz, Grace Zabriskie, Denis O'Hare. Estreia: 04/9/14 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Robert Duvall)

Para marcar a estreia de sua produtora em sociedade com a esposa, Susan, o ator Robert Downey Jr. deixou de lado os heróicos personagens que vinham marcando sua carreira nos últimos anos - Sherlock Holmes e Homem de Ferro - para viver um homem comum, rodeado de problemas pessoais e que se vê, inesperadamente, diante de circunstâncias que não apenas o desafiam no lado profissional mas principalmente o obrigam a lidar com fatos familiares de um passado pouco agradável. Primeiro filme dramático do cineasta David Dobkin - que tem no currículo as comédias "Penetras bons de bico" e "Eu queria ter a sua vida" - e um filme de tribunal com todos os ingredientes necessários para conquistar a atenção do público, "O juiz" estreou sem muito alarde nos EUA, mas recobrou o fôlego com a indicação de Robert Duvall ao Oscar de coadjuvante. Mesmo que o veterano ator tenha tido poucas chances de faturar sua segunda estatueta - a primeira veio em 1983 por "A força do carinho" - seu desempenho como Joseph Palmer, o rígido juiz de uma pequena cidade do interior que é acusado de assassinato e passa a ser defendido pelo filho com quem mantém uma relação de estranhamento, é o maior destaque de um filme correto, mas que sofre de uma narrativa simples e esquemática ao extremo.

Downey Jr., bom ator como sempre, vive Hank Palmer, um bem-sucedido advogado de Chicago, nem sempre afeito às regras éticas que deveriam reger sua profissão. No meio de um caso importante, ele recebe a notícia da morte de sua mãe, a quem não vê há anos, e viaja para acompanhar seu funeral. Passando por um complicado caso de divórcio, Hank não tem a menor intenção de ficar com sua família, mas vê seus planos mudarem radicalmente quando seu pai - respeitado e, sem que ninguém saiba, morrendo de câncer - é acusado de matar um homem a quem havia condenado no passado. Mesmo contra a vontade do veterano jurista, com quem tem uma relação complicada que remete à sua juventude rebelde, ele assume sua defesa, o que acaba por forçá-los a uma nova etapa de seu relacionamento.


Equilibrando - nem sempre com muito sucesso - o drama familiar com a trama policial que envolve o julgamento, "O juiz" peca em muitos momentos por desviar o foco da história com tramas paralelas pouco interessantes, como aquela que envolve Hank com uma namorada de adolescência, Samantha (Vera Farmiga). Esses desvios da rota central não apenas tornam o filme mais longo do que o necessário - quase duas horas e meia de projeção - como enfraquecem o que a obra tem de mais forte (ainda que um tanto clichê): o relacionamento entre pai e filho, afastados pelos temperamentos arredios e reunidos pela paixão pela lei e pelo direito. Robert Duvall dá mais um show como o independente e por vezes seco Joseph Palmer, um homem forte que, por forças das circunstâncias acaba dependendo justamente do filho com quem tem mais arestas a aparar, e Downey Jr. comprova o que todo mundo sempre soube: é um ator que sai-se bem tanto em blockbusters descerebrados quanto em dramas que exigem mais do que simplesmente efeitos visuais.

Um filme capaz de agradar a todos os tipos de público, "O juiz" não ofende a inteligência de ninguém e pode até emocionar aos mais sensíveis. Quando foca na relação familiar, apresenta um show de atuações, mas quando parte para o filme de tribunal não apresenta maiores novidades. No fim das contas, não é um grande filme, mas é um digno representante do gênero.

sexta-feira

CORAÇÃO LOUCO

CORAÇÃO LOUCO (Crazy heart, 2009, Fox Searchlight Pictures, 112min) Direção: Scott Cooper. Roteiro: Scott Cooper, romance de Thomas Nobb. Fotografia: Barry Markowitz. Montagem: John Axelrad, Mary Vernieu. Música: Stephen Bruton, T Bone Burnett. Figurino: Doug Hall. Direção de arte/cenários: Waldemar Kalinowski/Carla Curry. Produção executiva: Leslie Belzberg, Eric Brenner, Jeff Bridges, Michael A. Simpson. Produção: T Bone Burnett, Judy Cairo, Rob Carliner, Scott Cooper, Robert Duvall. Elenco: Jeff Bridges, Maggie Gyllenhaal, Robert Duvall, Colin Farrell. Estreia: 06/12/09

3 indicações ao Oscar: Ator (Jeff Bridges), Atriz Coadjuvante (Maggie Gyllenhaal), Canção ("The weary kind")
Vencedor de 2 Oscar: Ator (Jeff Bridges), Canção ("The weary kind")
Vencedor de 2 Golden Globes:
Ator (Jeff Bridges), Canção ("The weary kind")

 Jeff Bridges é um cara do bem! Mesmo após tantas anos de carreira, nunca se soube de um escândalo envolvendo seu nome, e embora nem sempre ele tenha acertado nas suas escolhas profissionais (vide coisas como "Contagem regressiva" e "Nadine"), tem um currículo respeitável e íntegro. Por isso não seria injusto a Academia resolver lhe conceder um Oscar em homenagem ao conjunto de sua obra, como normalmente faz (e quase sempre com as pessoas erradas). Mas seria injusto - pra dizer o mínimo - afirmar que foram razões políticas que fizeram com que Briges tenha levado sua estatueta de melhor ator, em 2010. Ao contrário do que aconteceu com Sandra Bullock (que foi premiada mais por seus méritos de chamariz de público do que por seu talento como atriz), o trabalho do caçula do clã Bridges em "Coração louco" é irretocável e, caso perdesse a disputa era bem provável que a credibilidade dos eleitores do Oscar ficasse seriamente comprometida (se é que já não está com a vitória de Bullock).

Despido de qualquer vaidade, Bridges entrega o trabalho de sua carreira no papel de Bad Blake, um cantor country em franca decadência, que paga as contas fazendo shows em espeluncas de beira de estrada, onde aproveita para dar vazão a seu alcoolismo galopante e sua vida desregrada vida sexual. Recusando-se a vender-se ao sistema - leia-se aceitar abrir os shows de um astro milionário do gênero, o popular Tommy Sweet (um Colin Farrell contido e mostrando talento também como cantor) - Blake também tem uma relação mal-resolvida com o filho que não vê desde o fim de sua relação com sua mãe e acaba por encontrar uma luz no fim do túnel que vem sendo sua existência quando conhece a jovem repórter Jean Craddock (Maggie Gyllenhaal), mãe solteira de um adorável menino de quatro anos: aos poucos os dois iniciam um relacionamento apaixonado, que passa a ser ameaçado pela vida irresponsável de Blake e pelo medo dela em se entregar a um novo amor tão volátil e propenso a crises. Por causa de Jean, porém, o rebelde Blake resolve mudar de vida: aceita cantar com Tommy, volta a compor e decide parar de beber. Mas será que vontade é suficiente para enterrar seus problemas emocionais?



Apesar de trama de "Coração louco" esbarrar perigosamente no clichê em alguns momentos, seu diretor Scott Cooper demonstra segurança bastante para evitar que eles dominem sua narrativa tranquila, plácida e carregada de uma melancolia quase palpável. A trilha sonora, repleta de belas canções country (uma delas chegou a levar o Oscar da categoria) ajuda a emoldurar a atuação fascinante de Jeff Bridges, que foge magistralmente da armadilha de provocar pena na plateia. Sua personagem é falível, constantemente decepcionante, mas nunca deixa de parecer humano e encantador, além de possuir uma força própria que o talento de seu intérprete sublinha com perfeição. O que se vê, em "Coração louco" é a fotografia sem retoques da alma de um homem perdido dentro de seu instinto de autodestruição mas que consegue vislumbrar uma nesga de sol dentro de sua escuridão, mesmo que talvez seja tarde demais - dependendo do ponto de vista.

Contando com a ajuda pontual de Maggie Gyllehaal (indicada ao Oscar de coajduvante), Robert Duvall (co-produtor do filme) e Colin Farrell, Bridges apresenta ao público uma prova inconteste de seu imenso talento. Felizmente seu esforço foi percebido e um filme pequeno como "Coração louco" chegou aos cinemas e aos corações de seu público. Não é uma obra-prima, mas cumpre o que promete e vai além do esperado, em um final coerente e, de certa forma, inesperado.

segunda-feira

NA CORDA BAMBA

NA CORDA BAMBA (Sling blade, 1996, Shooting Gallery/Miramax, 135min) Direção: Billy Bob Thornton. Roteiro: Billy Bob Thornton, peça teatral homônima de sua autoria. Fotografia: Barry Markowitz. Montagem: Hughes Wainborne. Música: Daniel Lanois. Figurino: Douglas Hall. Direção de arte/cenários: Clark Hunter/Traci Kirshbaum. Produção executiva: Larry Meistrich. Produção: David L. Bushell, Brandon Rosser. Elenco: Billy Bob Thornton, Lucas Black, Dwight Yoakam, J.T. Walsh, John Ritter, Natalie Carneday, Robert Duvall. Estreia: 30/8/96 (Festival de Telluride)

2 indicações ao Oscar: Ator (Billy Bob Thornton), Roteiro Adaptado
Vencedor do Oscar de Roteiro Adaptado 

Em 1997, o drama romântico "O paciente inglês" chegou à cerimônia de entrega do Oscar disposto a trucidar a concorrência. Conseguiu. Com o impressionante número de nove estatuetas - incluindo melhor filme e diretor - a adaptação do romance de Michael Ondaatje (antes considerado infilmável) tornou-se um dos maiores campeões da história da Academia. Mesmo assim, sendo premiado até mesmo em categorias técnicas (melhor som?), o Golias estrelado por Ralph Fiennes e Kristin Scott-Thomas caiu de joelhos diante de um Davi a quem poucos haviam dado atenção justamente em um dos prêmios mais importantes da noite: "Na corda bamba", escrito, dirigido e estrelado por Billy Bob Thornton deu uma rasteira em Anthony Minghella e saiu da festa com a cobiçada láurea de melhor roteiro adaptado - também disputada com gente de peso, como Arthur Miller ("As bruxas de Salem"), Kenneth Branagh ("Hamlet") e John Hodge ("Trainspotting"). Como ele conseguiu essa façanha? Só Deus, os eleitores da Academia e os votantes do sindicato de roteiristas, que haviam lhe conferido a mesma homenagem poucos dias antes, podem explicar.

Versão estendida de um curta-metragem do mesmo Thornton, lançado em 1994 - "Some folks called it a sling blade" - "Na corda bamba" teve o apoio nada modesto de Harvey Weinstein, então chefão da Miramax, a mais importante distribuidora independente de Hollywood à época, que desembolsou 10 milhões de dólares pelos direitos do filme. Com esse empurrão muito bem-vindo, o filme chamou a atenção da crítica e acabou sendo eleito um dos dez melhores do ano pela conceituada National Board of Review, o que pavimentou seu caminho para a disputa em terrenos mais arenosos. Na pele de Karl Childers, o protagonista de seu filme, Billy Bob também disputou o Oscar - mas assim como já havia acontecido com o prêmio do sindicato de atores, perdeu para Geoffrey Rush, por "Shine - brilhante". Nada mais justo, já que sua atuação soa perigosamente caricata, prejudicando bastante o resultado final de uma obra que, apesar dos louvores, não ultrapassa o limite do razoável.


Talvez seja a falta de carisma de Thornton, mas o personagem central de "Na corda bamba", apesar de sua inocência e caráter reto, jamais consegue conquistar a simpatia da plateia. Seus trejeitos - um trabalho de composição bastante elogiado mas que frequentemente esbarra na caricatura excessiva - dificultam a identificação junto ao público, transformando o que deveria ser um personagem trágico e melancólico em um tipo realizado com a clara intenção de comover audiências e arrancar prêmios. Mesmo que tenha sido cuidadosamente montado - modo de andar, falar, a voz, o corpo - Karl Childers não envolve como poderia, e isso acaba destruindo a estrutura relativamente sólida do roteiro, que além de tudo, é bastante previsível. Não é preciso ser estudante de cinema nem vidente para adivinhar com léguas de distância como toda a história vai ser encerrada.

Karl Childers, o personagem de Billy Bob, é um homem com sérios problemas de retardamento mental que ficou décadas preso em uma instituição depois de ter assassinado sua mãe e o amante. Tido como uma pessoa dócil e recuperada depois de todo esse tempo, ele é libertado e volta para a cidade do interior onde vivia quando criança. Com a ajuda de alguns moradores, ele arruma trabalho consertando máquinas agrícolas e, inocente como um menino, faz amizade com Frank Wheatley (Lucas Black), um garoto órfão de pai que mora com a mãe, Linda (Natalie Carneday), e sofre com a violência do namorado dela, o cruel Doyle (Dwight Yoakam). O relacionamento entre Karl - um homem com mente de criança - e Frank - um menino obrigado a lidar com problemas que sua idade ainda não lhe ensinou - é, de certa forma, o ponto forte o filme, mas ainda assim sofre de uma superficialidade inegável. O ator mirim Lucas Black - que depois faria um dos episódios da cinessérie "Velozes e furiosos" - sai-se muito bem no papel, enfrentando de frente um ator mais experiente e que é também o diretor e roteirista do filme. É ele, e não Billy Bob Thornton, o maior destaque de "Na corda bamba", um filme superestimado que, não fosse um inesperado Oscar, passaria batido pelas videolocadoras da vida.

sexta-feira

A ESTRADA





A ESTRADA (The road, 2009, Dimension Films, 111min) Direção: John Hillcoat. Roteiro: Joe Penhall, romance de Cormac McCarthy. Fotografia: Javier Aguirresarobe. Montagem: Jon Gregory. Música: Nick Cave, Warren Ellis. Figurino: Margot Wilson. Direção de arte/cenários: Chris Kennedy/Robert Greenfield. Produção executiva: Marc Butan, Mark Cuban, Rudd Simmons, Todd Wagner. Produção: Paula Mae Schwartz, Steve Schwartz, Nick Wechsler. Elenco: Viggo Mortensen, Kodi Smith-McPhee, Charlize Theron, Robert Duvall, Guy Pearce. Estreia: 03/9/09 (Festival de Veneza)


Se existe uma coisa que deixa qualquer cinéfilo feliz da vida é assistir a um filme do qual não se espera muito e sair do cinema encantado. Depois de tanto ter que engolir péssimos exemplos cinematográficos vindo de uma Hollywood que adora pasteurizar sentimentos, os fãs de bom cinema foram surpreendido com um dos melhores filmes de 2009 e que, sintomaticamente, passou batido pelas cerimônias de premiação que renderam louvores a lixos como "Um sonho possível". Dirigido pelo relativamente novato John Hillcoat, "A estrada" é um petardo emocional dos mais sinceros, que equilibra com presteza elementos de um filme de suspense aterrador com um drama familiar de partir o coração.

Adaptado de um romance de Cormac McCarthy (escritor que teve sorte até agora com as transições de seus livros para o cinema, uma vez que é também o autor da trama de "Onde os fracos não tem vez"), "A estrada" não é exatamente um filme fácil, e exige do público uma entrega quase total a seu universo, já que não oferece respostas imediatas nem soluções comuns à audiência. A história se passa em uma época não definida, em um lugar também não declarado. Só o que se sabe é que, por alguma razão, poucas pessoas estão vivas e vagam perdidas pelas estradas, em busca de alimento e moradia segura. Algumas dessas pessoas apelam para o canibalismo como forma de sobrevivência e é nesse ambiente que um homem (Viggo Mortensen) tenta proteger o único filho (Kodi Smith-McPhee) da violência que os cerca, ao mesmo tempo em que lhe ensina como manter-se são e perspicaz a tudo que lhes rodeia. Seu objetivo é reencontrar a esposa que os abandonou (Charlize Theron) e, no meio do caminho, cruza com vândalos, assassinos, indigentes e um homem idoso (Robert Duvall, irreconhecível e em uma atuação estupenda) que perdeu o filho devido à tragédia que os jogou, a todos, no mesmo barco de desesperança.

A belíssima fotografia de Javier Aguirresarobe, a trilha sonora discreta de Nick Cave e Warren Ellis e a maquiagem assustadora de Mandi Crane acabam se tornando elementos-chave nas mãos do diretor, que reitera a máxima de que o importante não é o destino e sim a viagem. Durante o processo de fuga/busca entre os protagonistas, a relação entre pai e filho chama mais a atenção do que os angustiantes momentos de tensão que perpassam o filme - mesmo que esses sejam filmados com extrema eficácia. É o carinho que move o pai desesperançoso e o filho dono de uma inocência sempre em vias de acabar que eleva o filme a uma categoria especial: é difícil não emocionar-se com o rosto ingênuo da sensacional revelação Kodi Smith-McPhee tentando devolver ao pai (vivido com garra por um Viggo Mortensen melhor ator do que nunca) a fé na bondade e na compaixão, assim como é virtualmente impossível acabar a sessão sem a certeza absoluta de ter-se assistido a uma obra corajosa, forte e comovente.

"A estrada" é um filmaço, feito com uma competência assustadora e que aponta a seu diretor um futuro bem menos distópico do que o representado por ele em 120 minutos de projeção.

segunda-feira

OBRIGADO POR FUMAR

OBRIGADO POR FUMAR (Thank you for smoking, 2005, Room 9 Entertainment, 92min) Direção: Jason Reitman. Roteiro: Jason Reitman, romance de Christopher Buckley. Fotografia: James Whitaker. Montagem: Dana E. Glauberman. Música: Rolfe Kent. Figurino: Danny Glicker. Direção de arte/cenários: Steve Saklad/Kurt Meisenbach. Produção executiva: Michael Beugg, Alessandro Camon, Max Levchin, Elon Musk, Edward R. Pressman, John Schmidt, Peter Thiel, Mark Woolway. Produção: David O. Sacks. Elenco: Aaron Eckhart, Katie Holmes, Maria Bello, Cameron Bright, Robert Duvall, Todd Louiso, J.K. Simmons, Kim Dickens, William H. Macy, Sam Elliot, Adam Brody, Rob Lowe, Melora Hardin. Estreia: 09/9/05 (Festival de Toronto)

Em uma época tão ridiculamente apegada a uma risível onda de correção política não deixa de ser um motivo de grandes comemorações que um filme como "Obrigado por fumar" tenha chegado às telas. Cínico, debochado e sardônico, o filme de estreia do cineasta Jason Reitman - filho do diretor Ivan e que se tornaria queridinho da crítica com seu filme seguinte, o hypado e inferior "Juno" - é um tapa na cara das convenções sociais dos EUA do início do século XXI, ao eleger como seu protagonista um anti-herói desprovido de moralidade e ética e que, apesar disso (ou talvez até mesmo por causa disso) é total e absolutamente carismático. Interpretado por um Aaron Eckhart mais à vontade do que nunca, Nick Naylor, lobista da indústria tabagista americana, é provavelmente uma das personagens mais interessantes a surgir na comédia ianque em muito tempo.

Criado pelo escritor Christopher Buckley no livro que deu origem ao filme, Naylor é o vice-presidente da Academia dos Estudos do Tabaco e, como tal, é um aguerrido defensor de seu produto, o que o torna de cara uma persona non grata por uma parcela do Congresso americano, em especial o senador Ortolan Finistirre (William H. Macy, ótimo), que propõe que todo e qualquer maço de cigarro seja vendido com a imagem mundial de veneno (uma caveira com dois ossos cruzados). Sendo constantemente agredido pela patrulha politicamente correta, Naylor ainda precisa lidar com a possibilidade de seu único filho, Joey (Cameron Bright) desprezar seu trabalho. Para evitar isso - e desafiar a ex-mulher - ele resolve então levar o menino em uma viagem a negócios, onde lhe mostrará o outro lado de seu emprego. Nesse meio tempo - que envolve uma viagem a produtores de Hollywood e a um ex-garoto propaganda que está morrendo de câncer de pulmão - ele ainda se envolverá com uma ambiciosa repórter, Heather Holloway (Katie Holmes), cuja maior intenção é fazer com ele uma reportagem pouco amável.



O maior mérito de "Obrigado por fumar" - além da veia cafajeste de Eckhart voltar a aflorar depois do polêmico "Na companhia de homens" - é o roteiro esperto de Reitman, que esbanja sarcasmo e tiradas engraçadíssimas a respeito do american way of life. São particularmente inspirados os diálogos que incluem Naylor e seus melhores amigos - auto-denonimados como os Mercadores da Morte - que representam as indústrias de arma e álcool e ficam disputando quem é o recordista de óbitos no país. A visita do protagonista ao executivo de cinema vivido por Rob Lowe também é hilariante - dando um vislumbre de como são as reuniões que resultam em filmes já originados como bombas - e nem mesmo o que em tese deveria ser levado a sério - a doença do símbolo da masculinidade imposta pelo cigarro (em uma atuação inspirada de Sam Elliott)  - é retratado com sobriedade. E justamente essa coragem em não se deixar contaminar pelo corriqueiro é que eleva o filme de Reitman a um nível superior às comédias que emburrecem o espectador.

No fim das contas, "Obrigado por fumar" é uma comédia das mais inteligentes produzidas no cinema americano em muito tempo. Não arranca gargalhadas histéricas, mas mexe com o cérebro e com a percecpção da audiência a respeito de um assunto que já foi tratado anteriormente com seriedade e contundência no ótimo "O informante". Assistir aos dois na corrida provavelmente seria muito mais útil do que muitos comerciais apelativos transmitidos pela TV.

A QUALQUER PREÇO

A QUALQUER PREÇO (A civil action, 1998, Touchstone Pictures/Paramount Pictures/Wildwood Enterprises, 115min) Direção: Steven Zaillian. Roteiro: Steven Zaillian, romance de Jonathan Harr. Fotografia: Conrad L. Hall. Montagem: Wayne Wahrman. Música: Danny Elfman. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: David Gropman/Tracey A. Doyle. Produção executiva: David Wisnievitz, Steven Zaillian. Produção: Rachel Pfeffer, Robert Redford, Scott Rudin. Elenco: John Travolta, Robert Duvall, Tony Shalhoub, William H. Macy, Zeljko Ivanek, John Lithgow, Kathleen Quinlan, James Gandolfini, Dan Hedaya, Stephen Fry, Sydney Pollack. Estreia: 25/12/98

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Robert Duvall), Fotografia
Vencedor do Screen Actors Guild: Ator Coadjuvante (Robert Duvall)

Cerca de dois anos antes que Julia Roberts ganhasse o Oscar por seu trabalho em "Erin Brokovich, uma mulher de talento", uma história semelhante já havia sido levada às telas, sob a competente direção de Steven Zaillian, premiado pela Academia pelo roteiro de "A lista de Schindler". Baseado em um livro de Jonathan Harr - por sua vez inspirado em um fato real - "A qualquer preço" é um eficiente drama de tribunal, que compensa sua falta de maiores emoções por uma narrativa enxuta e sóbria, valorizada pela bela fotografia do veterano Conrad L. Hall e pelo trabalho sutil de John Travolta.

Tentando manter a boa fase da carreira - fase essa que começou com a indicação ao Oscar por "Pulp fiction" - Travolta tem uma atuação discreta como Jan Schlichtmann, um advogado bem-sucedido de Boston que vê cair em suas mãos um caso que pode lhe dar fama e dinheiro: oito famílias o procuram com o objetivo de processar um curtume responsável por poluir um rio que lhes proporciona a água potável que consomem. Dessas famílias, crianças morreram de leucemia e, através de uma das mães, Anne Anderson (Kathleen Quinlan), ele toma contato com todos os problemas causados pela empresa (na figura de seu dono, vivido por um perfeito Dan Hedaya). Indo para os tribunais, Jan enfrenta o advogado Jerome Facher (Robert Duvall) e fica meses a fio em um julgamento complicado que acaba com todo o dinheiro de sua firma. Mesmo falido, ele transforma o caso em uma espécie de obsessão.


O roteiro, escrito pelo próprio Zaillian, foge como o diabo da cruz das armadilhas de transformar o filme em um drama lacrimoso - assim como o fez Francis Ford Coppola em "O homem que fazia chover" - e prefere centrar seu foco nos problemas financeiros de seu protagonista, mais um exemplar de personagem que sofre uma transformação ética no decorrer do processo. John Travolta segura bem a gradual mudança na personalidade de Schlichtmann, nunca ultrapassando os limites da discrição. Seu trabalho encontra eco em William H. Macy (como seu contador) e Kathleen Quinlan, que também se destaca pelo minimalismo, apesar do fato de apenas Robert Duvall ter sido lembrado pelas cerimônias de premiação (o veterano ator chegou a ser indicado ao Oscar). Em um filme que dá mais importância a seus atores do que a qualquer outro quesito, "A qualquer preço" encontra em seu elenco o maior trunfo.

Pecando por evitar maiores reviravoltas ou grandes cenas dramáticas que fazem a glória dos filmes de tribunal, "A qualquer preço" é um programa que agrada aos fãs do gênero justamente por evitar seus maiores clichês. É um tanto longo demais, mas vale uma conferida.

sábado

UM DIA DE FÚRIA

UM DIA DE FÚRIA (Falling down, 1993, Warner Bros, 113min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Ebbe Roe Smith. Fotografia: Andrzej Bartkowiak. Montagem: Paul Hirsch. Música: James Newton Howard. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Barbara Ling/Cricket Rowland. Casting: Marion Dougherty. Produção executiva: Arnon Milchan. Produção: Timothy Harris, Arnold Kopelson, Herschel Weingrod. Elenco: Michael Douglas, Robert Duvall, Rachel Ticotin, Barbara Hershey, Tuesday Weld, Frederic Forrest, Lois Smith, Raymond J. Barry. Estreia: 26/02/93

É difícil de acreditar, mas Joel Schumacher, o mesmo sujeito que deu ao mundo obras tão descartáveis quanto "O primeiro ano do resto de nossas vidas" e "Tudo por amor" é o mesmo cineasta por trás de "Um dia de fúria", sem dúvida nenhuma um dos filmes mais inflamáveis já produzidos em Hollywood. Exagero? Vá dizer isso ao público que ficou semanas discutindo a obra em jornais americanos e às minorias retratadas, se não negativamente, ao menos de maneira pouco lisonjeira durante as duas horas do filme.

Michael Douglas, que dá um braço para participar de filmes polêmicos - haja visto "Atração fatal" e "Instinto selvagem", por exemplo - tem aqui a interpretação de sua carreira. Ele vive um homem aparentemente comum que, durante um engarrafamento em uma rodovia de Los Angeles, em um dia de calor, simplesmente vai à loucura. No caminho para o aniversário da filha pequena, que vive com a mãe, ainda temerosa pelo comportamento do ex-marido (vivida por uma correta Barbara Hershey), este homem, conhecido pela polícia como D-Fens - a placa de seu carro - vai cruzando com comerciantes coreanos, latinos membros de gangues, milionários insensíveis e até um neonazista (todos estereotipados como convém). A cada encontro, sua revolta contra o estado das coisas nos EUA vai aumentando, o que o leva perigosamente a uma tragédia.

 

Por incrível que pareça, "Um dia de fúria" foge com louvor dos clichês que são parte obrigatória dos dramas policiais americanos. Até mesmo a visão estereotipada que o roteiro apresenta das minorias retratadas serve como uma espécie de ironia e crítica ácida à maneira como a maioria dos americanos enxerga os estrangeiros. E tudo bem que o oficial em vias de se aposentar vivido com maestria por Robert Duvall não é uma personagem exatamente original, mas as razões que levam seu Prendergast à aposentadoria e a maneira com que ele age em relação a seu trabalho e seus colegas é distante anos-luz dos tradicionais policiais engraçadinhos e/ou valentões que infestam o gênero. Nem mesmo o final, em que D-Fens finalmente cria um nome civil - William Foster - e tenta fugir de seu destino infeliz, consegue estragar "Um dia de fúria", que toca com contundência em feridas bem abertas na consciência americana e por que não?, mundial.

Não há como negar que minorias existem em qualquer lugar do mundo - e o filme possa soar um tanto fascista e preconceituoso. Mas Joel Schumacher faz com que, após os créditos finais, muita coisa permaneça na cabeça do público. Quem diria!

quarta-feira

APOCALYPSE NOW


APOCALYPSE NOW (Apocalypse now, 1979, United Artists/Miramax, 202min) Direção e produção: Francis Ford Coppola. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Lisa Fruchtman, Gerald B. Greenberg, Walter Murch. Música: Carmine Coppola e Francis Ford Coppola. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/George R. Nelson. Casting: Terry Liebling, Vic Ramos. Elenco: Marlon Brando, Martin Sheen, Robert Duvall, Dennis Hopper, Sam Bottoms, Laurence Fishburne, Harrison Ford. Estreia: 10/5/79

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator Coadjuvante (Robert Duvall), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Direção de arte, Som
Vencedor de 2 Oscar: Fotografia, Som
Vencedor da Palma de Ouro em Cannes: Melhor Filme
Vencedor de 3 Golden Globes: Diretor (Francis Ford Coppola), Ator Coadjuvante (Robert Duvall), Trilha Sonora


Alguns filmes tem bastidores tão ou mais interessantes do que o produto que chega às telas dos cinemas. Um exemplo óbvio dessa afirmação é "Apocalypse now", que, lançado no festival de Cannes de 1979 tornou-se o primeiro - e até hoje único - filme a abocanhar a Palma de Ouro sem estar terminado. E se for levado em consideração que as filmagens começaram em 1976 nas Filipinas e que foram mais turbulentas que a própria guerra do Vietnã que retrata, percebe-se claramente que a adaptação livre de Francis Ford Coppola do livro "O coração das trevas", de Joseph Conrad é uma das mais problemáticas que se tem notícia. O inferno, no entanto, nesse caso, levou ao paraíso. Eleito em 2007 pelo American Film Institute como o 30º melhor filme da história, além de frequentar com assiduidade as listas dos melhores de qualquer instituição especializada em cinema, "Apocalypse now" é um dos filmes mais importantes realizados em Hollywood, e uma prova do poder de fogo de seu diretor.

Cheio de moral graças ao sucesso merecido dos dois primeiros capítulos da série "O poderoso chefão", Coppola viajou para as Filipinas - mesmo indo contra os conselhos de Roger Corman - para transformar a África do livro de Conrad no Vietnã, cuja guerra estava recém acabada e ainda dolorosamente na vida dos americanos. Seu plano era passar seis semanas filmando. Acabou passando 16 meses de crises pessoais, atrasos no cronograma, estouro de orçamento, imprevistos técnicos e artísticos e principalmente graves problemas de saúde - o ator principal, Martin Sheen, chegou a ter um enfarte (aos 36 anos), devidamente escondido dos executivos que produziam o filme. A epopeia de Coppola em realizar seu filme acabou devidamente registrado por sua esposa, Eleanor, que em 1991 lançou o documentário "O apocalipse de um cineasta", um precioso retrato de uma das mais complicadas filmagens da história do cinema.


Antes que Coppola assumisse o posto de diretor, "Apocalypse now" correu o sério risco de ser assinado por um George Lucas pré-"Star Wars", até que a demora em sua produção acabou empurrando o filme para seu colo. A demora em encontrar um protagonista - Steve McQueen, Al Pacino, Jeff Bridges e um entusiasmado Nick Nolte foram cogitados - seria o menor dos problemas que Coppola iria enfrentar. Mesmo com a saída de Harvey Keitel (substituído por Martin Sheen), as coisas não davam a impressão de que iriam transformar-se no rolo compressor que se tornaram; Sam Bottoms fez a maioria de suas cenas chapado (de speed, LSD ou maconha), Laurence Fishburne mentiu a idade para entrar no elenco(tinha apenas 14 anos), James Caan cobrou demais para participar (um jovem Harrison Ford assumiu seu papel) e Marlon Brando, escalado para o crucial papel de Kurtz foi provavelmente a causa maior do fato do cineasta ter pensado seriamente em suicídio.

A história de "Apocalypse now" começa em 1969. O capitão Benjamin Willard (Martin Sheen) recebe a missão (absolutamente secreta) de localizar, no Cambodja, o Coronel Kurtz (Marlon Brando), um genial e condecorado soldado americano que, alegam seus superiores, perdeu a sanidade mental e, liderando um grupo de nativos, vem armando atos de violência e terrorismo nas florestas asiáticas. Willard não apenas tem de encontrar Kurtz, mas também matá-lo. Acompanhado de um grupo de soldados, ele atravessa um rio que não conhece absolutamente - testemunhando atos enlouquecidos de guerra - e chega até as matas onde está seu alvo. Surpreendido e pego como refém, ele vê no homem que procura o retrato do absurdo do conflito.

Na pele do Coronel Kurtz, Marlon Brando mostra porque é um nome ímpar na história da sétima arte. Ao chegar às Filipinas muitos quilos mais gordo, careca e sem ter lido uma única linha do romance de Conrad, o ator despertou a ira de Coppola, mas é inegável que, no momento em que entra em cena, na escuridão planejada por Vittorio Storaro (vencedor do Oscar de fotografia), ele rouba o filme descaradamente. Recitando T.S. Elliot, assustadoramente perturbado e expressando física e psicologicamente os horrores da guerra, seu Coronel Kurtz imediatamente gruda no inconsciente do público como uma das performances mais fascinantes do cinema, dando sentido ao que antes parecia uma viagem alucinógena de Coppola e cia.

Mas afinal de contas, "Apocalypse now" é realmente uma obra-prima? Sim. E não. Sim, porque qualquer filme que apresentasse a atuação arrebatadora de Brando e a fotografia deslumbrante de Storaro e gravasse na memória da audiência sequências tão brilhantes como o ataque aéreo ao som da "Cavalgada das Valquírias", de Wagner mereceria o título. E não, porque obras-primas com falhas dificilmente podem ser chamadas assim. E "Apocalypse" tem algumas falhas. Entre os momentos de brilho absoluto encontram-se cenas simplesmente aborrecidas e lentas, que quebram o ritmo da narrativa - e nem mesmo a versão "Redux" lançada em Cannes em 2001 consegue salvar esses momentos. Seus trinta minutos finais - justamente aqueles em que Brando bota o filme no bolso, apesar do trabalho excelente de Martin Sheen, Dennis Hopper (como um fotógrafo de guerra) e Robert Duvall (como um militar metido a surfista) - compensam qualquer sono, mas ainda assim é um filme que requer mais paciência do que o habitual.

Claustrofóbico, lisérgico, aterrador... são palavras que descrevem o inferno imaginado por Francis Ford Coppola. Mas é a voz de Marlon Brando como Coronel Kurtz que nunca mais sai da mente da audiência: "O horror... o horror..." E dizem que este é o filme que mais perto chega da verdadeira guerra do Vietnã...

domingo

O PODEROSO CHEFÃO - PARTE II


O PODEROSO CHEFÃO - PARTE II (The godfather - Part II, 1974, Paramount Pictures, 200min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Francis Ford Coppola, Mario Puzo, baseado no romance de Mario Puzo. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Barry Malkin, Richard Marks, Peter Ziner. Música: Nino Rota. Figurino: Theadora Von Runkle. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/George R.Nelson. Casting: Jane Feinberg, Michael Fenton, Vic Ramos. Produção: Francis Ford Coppola. Elenco: Al Pacino, Robert DeNiro, Robert Duvall, John Cazale, Diane Keaton, Talia Shire, Lee Strasberg, Bruno Kirby, Troy Donahue, Michael V. Gazzo. Estreia: 20/12/74

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator (Al Pacino), Ator Coadjuvante (Robert DeNiro, Michael V.Gazzo, Lee Strasberg), Atriz Coadjuvante (Talia Shire), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte
Vencedor de 6 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator Coadjuvante (Robert DeNiro), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Direção de Arte
Vencedor de 6 Golden Globe: Melhor Filme/Drama, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator/Drama (Al Pacino), Roteiro, Trilha Sonora, Most Promising Newcomer (Lee Strasberg)


Continuações de filmes de sucesso são, via de regra, caça-níqueis realizados para salvar estúdios da bancarrota ou alimentar ainda mais seus cofres. A preocupação com a integridade obra original inexiste na maioria esmagadora dos casos, uma vez que normalmente as sequências de campeões de bilheteria esgotam a ideia central dos filmes e humilham suas personagens sem pena nem dó. Felizmente, toda regra tem exceção e, neste caso, nenhuma exceção é mais gloriosa do que "O poderoso chefão - Parte II" - , que, lançado meros dois anos depois da estreia de seu primeiro capítulo, não só o superou em sucesso artístico - inclusive dobrando o número de Oscar recebidos - como comprovou o talento e o gênio de seu diretor, roteirista e produtor Francis Ford Coppola. Em "O poderoso chefão - Parte II", ele não apenas continuou contando a trajetória de Michael Corleone rumo ao poder absoluto; ele intercalou a ela o início de toda a família, apresentando ao público a juventude do patriarca Don Vito Corleone, aqui interpretado por um jovem e já excelente Robert DeNiro.

Apesar de ter ganho o Oscar de roteiro adaptado, a segunda parte da saga Corleone não é totalmente baseada no livro "O chefão", que inspirou o filme original. Apenas um capítulo do livro, que conta a chegada de Vito à Nova York, em 1901, e o início de seu caminho ao poder já estabelecido no primeiro filme, foi utilizado no script do diretor e do autor do livro, Mario Puzo. Toda a trama envolvendo Michael Corleone e a família em Las Vegas e Cuba foi criado especificamente para o filme, e fortalece o conceito de máfia insinuado em 1972 e aqui abertamente declarado em cenas que mostram uma CPI a respeito das atividades dos Corleone. A genialidade desse segundo filme reside principalmente na divisão da história em dois núcleos separados que juntos, formam uma unidade coesa e sólida.

"O poderoso chefão - Parte II", começa em 1958, em Lake Tahoe, Nevada, na festa da primeira comunhão de Anthony, o filho mais velho de Michael (Al Pacino) e Kay (Diane Keaton). A reunião - não apenas familiar, mas que também junta no mesmo ambiente os diversos colaboradores do clã - ecoa o casamento de Connie (Talia Shire), que abria o primeiro "Chefão". Nessa festa, fica-se sabendo dos negócios de Michael em Las Vegas, dirigidos com mão não muito firme por Fredo (John Cazale), seu irmão mais velho. Enquanto tenta lidar com uma traição por parte do próprio irmão, Michael se vê cada vez mais solitário e afastando-se das pessoas que ama, além de participar ativamente da revolução cubana. Paralelamente, o filme narra a chegada de Vito Corleone (Robert DeNiro) aos EUA. Chegado da Sicília com apenas nove anos de idade, na juventude mesmo ele trava conhecimento com Clemenza (Bruno Kirby), um vizinho metido com tramoias escusas e que se tornará seu homem de confiança quando ele mata o chefe do bairro e assume seu lugar, dando origem a toda a saga contada por Coppola e Puzo.


Um pouco mais longo do que seu antecessor, mas ainda assim dono de um invejável ritmo, "O poderoso chefão - Parte II", tornou-se a primeira sequência a ganhar o Oscar de Melhor Filme (feito repetido apenas 30 anos depois com "O Senhor dos anéis - O retorno do rei"). E motivos para tal homenagem não faltam; poucas vezes o cinema conseguiu ser tão fascinante quanto aqui, com um primoroso roteiro que privilegia os detalhes mais do que a grandiosidade que um projeto dessa envergadura poderia pressupor. Da maneira como Coppola conta sua história os olhares são mais pungentes do que os tiros, o subtexto é mais claro do que discursos e as relações familiares são muito mais importantes do que os negócios financeiros - mesmo que essa teoria seja de certa forma derrubada com as cenas finais, dignas da mais trágica peça vitoriana.

E é aqui, em "O poderoso chefão - Parte II", que Michael Corleone assume de vez sua persona shakespereana. Envolvido em uma paranoia cada vez mais avassaladora, o rapaz idealista que defendeu seu país na II Guerra começa seu caminho indelével para a solidão. É admirável a maneira com que o diretor consegue equilibrar - sem perder o interesse da audiência - sequências absurdamente violentas (visual e psicologicamente falando) e cenas de partir o coração, interpretadas por atores no auge de seu domínio artístico. Na pele de um juvenil Vito Corleone, Robert DeNiro já demonstra o imenso talento que viria a consagrá-lo nos anos subsequentes como o melhor ator de sua geração, e o Oscar de ator coadjuvante apenas coroou seu desempenho irretocável. John Cazale, como Fredo, tem algumas das melhores cenas de sua curta carreira, em uma memorável e comovente atuação. Diane Keaton também tem, aqui, as maiores oportunidades de sua personagem na série e os dois veteranos atores que conquistaram indicações ao Oscar de coadjuvante (Lee Strasberg e Michael V.Gazzo) fazem jus a sua fama de mestres: Strasberg é, inclusive, um dos fundadores do Actors Studio, que formou nomes como os próprios Brando, DeNiro e Pacino.

Mas é Al Pacino o corpo e a alma de "O poderoso chefão - Parte II". Em uma interpretação silenciosa, raivosa, paranoica e melancólica, o ator transmite a variada gama de nuances de sua complexa personagem sem jamais perder sua essência. Michael Corleone e Al Pacino formam o exemplo mais impressionante de casamento entre ator e personagem da história do cinema. Ainda bem que se pode assistir a isso sempre que der vontade.

quarta-feira

O PODEROSO CHEFÃO


O PODEROSO CHEFÃO (The godfather, 1972, Paramount
Pictures, 175min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Francis Ford Coppola, Mario Puzo, baseado no romance de Mario Puzo. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: William Reynolds, Peter Zinner. Música: Nino Rota. Figurino: Anna Hill Johnstone. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/Philip Smith. Casting: Louis DiGiaimo, Andrea Eastman, Fred Roos. Produção: Albert S. Ruddy. Elenco: Marlon Brando, Al Pacino, James Caan, Robert Duvall, Diane Keaton, John Cazale, Richard Castelano, Talia Shire, Sterling Hayden, John Marley, Al Lettieri, Abe Vigoda, Gianni Russo, Morgana King, Simonetta Stefanelli. Estreia: 24/3/72


11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator (Marlon Brando), Ator Coadjuvante (James Caan, Robert Duvall, Al Pacino), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Som
Vencedor de 3 Oscar: Melhor Filme, Ator (Marlon Brando), Roteiro Adaptado
Vencedor de 5 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator/Drama (Marlon Brando), Roteiro, Trilha Sonora


Quantas vezes é preciso que um filme seja assistido para que deixe de hipnotizar sua audiência ou mesmo perca seu sabor de novidade? Se o filme em questão for "O poderoso chefão" ainda não existe uma resposta satisfatória a essa questão. Mesmo passados 38 anos de seu lançamento, a adaptação de Francis Ford Coppola para o livro de Mario Puzo ainda mantém intactos seu vigor, sua inteligência e sua aura de obra-prima absoluta. Um dos melhores filmes da história do cinema - se não O melhor - o início da saga da família Corleone é o mais perfeito exemplo de tudo que um filme deve ser para ficar marcado no inconsciente coletivo de forma indelével. Mas foi preciso muito esforço para que ele ficasse como é conhecido hoje em dia.

Não é novidade para ninguém a brava luta de Coppola para conseguir fazer com que a Paramount concordasse com as escalações de Marlon Brando como Vito Corleone - papel-chave na trama - e Al Pacino como Michael - o estúdio parecia querer qualquer um menos Pacino no papel do filho caçula do clã de mafiosos mais fascinante da história do cinema. Esse "qualquer um" incluía, entre outros, Warren Beatty, Jack Nicholson e Dustin Hoffman, além de James Caan, que ficou com o papel do filho mais passional de Don Corleone, Sonny. Toda a árdua batalha para Coppola finalmente fazer o filme do seu jeito está detalhada no disco de extras da exemplar edição comemorativa da saga, lançada em dvd, e, se por si só são interessantes o bastante para grudar o espectador no sofá de casa, servem apenas de aperitivo para o que realmente importa: a majestade do filme em si.


Pra quem ainda não sabe, "O poderoso chefão" começa em 1945, logo após o final da II Guerra Mundial. O jovem soldado Michael (Al Pacino no papel de sua vida) retorna à Nova York acompanhado da namorada, a professora Kay Adams (Diane Keaton), e chega a tempo do casamento de sua irmã caçula, Connie (Talia Shire, irmã do diretor) com o mau-caráter Carlo Rizzi (Gianni Russo). Sua chegada enche de alegria seu pai, Don Vito Corleone (um Marlon Brando com meros 47 anos e uma caracterização antológica), o chefão de uma das famílias mafiosas mais importantes da cidade. Quando Don Vito se recusa a juntar-se a outras famílias em negócios envolvendo drogas, acaba sofrendo um grave atentado que quase lhe tira a vida. Mesmo não querendo envolver-se nos negócios escusos do pai e dos irmãos, Michael não hesita em assassinar seus rivais e fugir para a Itália, onde se casa com a bela Apolonia (Simonetta Stefanelli). Quando mais uma vez retorna a seu país e sua casa, percebe estarrecido que não há como escapar da sina violenta de seu sangue, e assume a liderança dos Corleone.

Escolher a melhor cena de "O poderoso chefão" é tarefa ingrata e impossível. Coppola construiu seu filme como uma ópera grandiosa, grandiloquente, recheada de momentos de extrema violência ao lado de cenas dramaticamente estruturadas e interpretadas por um elenco onde ninguém está menos do que espetacular (não foi por acaso que 3 de seus coadjuvantes foram indicados ao Oscar). A fotografia escura de Gordon Willis (outro item questionado pelos executivos do estúdio durante as filmagens) expressa com maestria as ideias do roteiro, escrito a quatro mãos pelo diretor e pelo autor do romance em que baseia, Mario Puzo. A edição enxuta nunca deixa que se perceba que se trata de um épico de três horas de duração - que voam diante dos olhos incrédulos da plateia. A trilha sonora de Nino Rota é de uma pungência indescritível e até mesmo o glamour que o filme transmite - e que foi alvo de algumas críticas que não tinham do que reclamar da obra como um todo - tem um charme e um poder que muitos cineastas de hoje em dia dariam um braço para conseguir.

Qualquer coisa que se diga sobre "O poderoso chefão" é desnecessário. Inesquecível na pele de Don Corleone - que lhe deu o segundo Oscar, recusado através de uma índia mais falsa que nota de três dólares -, Marlon Brando é a cara dessa primeiro capítulo tão impecável que exigiu dois novos capítulos, em 1974 e 1990. A saga da família Corleone é mais do que simplesmente um filme de gângster. É o filme que mais se aproxima da perfeição em termos cinematográficos, e o culto a seu nome - por parte da crítica e do público - apenas confirma suas inumeráveis qualidades.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...