segunda-feira

SOMENTE ELAS


SOMENTE ELAS (Boys on the side, 1995, Warner Bros, 115min) Direção: Herbert Ross. Roteiro: Don Roos. Fotografia: Donald E. Thorin. Montagem: Michael R. Miller. Música: David Newman. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Ken Adam/Rick Simpson. Produção executiva: Patricia Karlan, Don Roos. Produção: Arnon Milchan, Steven Reuther, Herbert Ross. Elenco: Whoopi Goldberg, Mary-Louise Parker, Drew Barrymore, Matthew McConaughey, James Remar, Estelle Parsons. Estreia: 03/02/95

Não seria exagero afirmar que o cineasta Herbert Ross tinha um jeito todo especial de falar sobre mulheres em seus filmes. Duas de suas mais conhecidas obras, por exemplo, tem personagens femininas fortes e podem ser considerados "filmes de mulher": "Momento de decisão", que punha Shirley MacLaine e Anne Bancroft frente a frente para resolver diferenças do passado, e "Flores de aço", drama choroso com grande elenco de atrizes e que deu a primeira indicação ao Oscar de Julia Roberts. "Somente elas", seu último filme, também, como o título sugere, concentra toda sua atenção em representantes fortes do sexo frágil. No rastro do bem-sucedido "Thelma & Louise", que ressuscitou o interesse do público por mulheres em situações menos "domésticas", o filme escrito por Don Roos - que depois partiria para a carreira de diretor dos injustamente desconhecidos "O oposto do sexo" e "Finais felizes" - mistura elementos de humor, drama e road-movie em um resultado bastante agradável e competente, ainda que longe de ser brilhante.

Quando o filme começa, a cantora Jane de Luca (Whoopi Goldberg) acaba de abandonar o bar onde fazia suas apresentações - e era ignorada pela plateia - e, desejando mudar-se para a Califórnia, responde a um anúncio de jornal da jovem Robin (Mary-Louise Parker), que precisa de companhia na viagem. No meio do caminho, as duas encontram a amalucada Holly (Drew Barrymore), amiga de Jane que acaba de descobrir-se grávida - sem saber se o pai é ou não seu namorado drogado e violento. Quando o namorado de Holly é encontrado morto, as três apressam a jornada, mas resolvem estabelecer-se em uma cidade do Texas. A vida simples e tranquila das três amigas sofre uma reviravolta quando Holly cai de amores por Abe (Matthew McConaughey), um policial honesto e dedicado e Jane se descobre apaixonada por Robin, que é soropositiva e tenta fugir das lembranças da morte do irmão pequeno.



"Somente elas" não foge dos clichês do gênero, mas os apresenta de maneira leve e fluente, sem forçar a barra, ao menos até seu terço final, quando a doença de Robin avança e todas são obrigadas a lidar com as consequências da morte do namorado de Holly. Esse terceiro ato talvez seja o que mais se aproxima dos dramalhões que o cinema americano adora produzir, mas não convenceu muito a crítica, falhando no que talvez fosse seu maior objetivo: ganhar certas estatuetas. Mary-Louise Parker é uma boa atriz, como a série de TV "Weeds" viria a comprovar, mas soa repetitiva em muitos momentos, não conquistando a plateia com sua personagem, ao contrário do que acontece com Drew Barrymore, dona de uma simpatia e um carisma irresistíveis que disfarçam suas pequenas falhas como atriz dramática: sua Holly parece ter sido escrita para ela, tamanha a identificação com o papel. E Whoopi Goldberg dispensa comentários. Dona de um perfeito timing cômico e um grande talento dramático, é ela quem conduz com maestria o filme de Ross, fazendo com o que o público perdoe certos exageros da trama.

E o que falar da trilha sonora, então? Como o próprio título sugere, até mesmo as canções escolhidas para "Somente elas" são femininas. Desde a versão interpretada por Goldberg de "Piece of my heart" até sua devastadora interpretação de "You got it", de Roy Orbison (cuja gravação na voz de Bonnie Rait encerra o filme), o público é brindado com uma primorosa seleção de músicas cantadas por mulheres. Estão presentes Annie Lennox, Cranberries, Sheryl Crow, Pretenders e Indigo Girls, dentre outras menos conhecidas, o que faz com que "ouvir" o filme seja tão bom quanto assistí-lo.

"Somente elas" é um perfeito drama para quem gosta de encharcar lenços de papel. A amizade entre as três protagonistas parece real, ainda que aconteça de forma quase abrupta na primeira metade, e a química entre as atrizes é excelente. Alguns diálogos são bastante espertos - cortesia do humor corrosivo de Don Roos - e até mesmo o final quase depressivo (só não o é totalmente porque existe o eterno ciclo da vida se renovando com o bebê de Holly) funciona e atinge seus objetivos. Não é uma obra-prima, mas vale a pena ser visto, nem que seja para conferir o trabalho de equipe de Goldberg, Parker e Barrymore.

sábado

ANTES DO AMANHECER


ANTES DO AMANHECER (Before sunrise, 1995, Castle Rock Entertainment, 105min) Direção: Richard Linklater. Roteiro: Richard Linklater, Kim Krizan. Fotografia: Lee Daniel. Montagem: Sandra Adair. Música: Fred Frith. Figurino: Florentina Welley. Direção de arte: Florian Reichmann. Produção executiva: John Sloss. Produção: Anne Walker-McBay. Elenco: Ethan Hawke, Julie Delpy. Estreia: 27/01/95

Filmes românticos made in Hollywood seguem, via de regra, a mesma estrutura desde tempos imemoriais: rapaz encontra moça, os dois se apaixonam, sofrem as agruras de um amor quase sempre proibido e no final encontram (ou não, se o roteirista tiver instintos sádicos) a felicidade. Normalmente o público sabe o que o espera e nem exige muito mais do que isso. Em compensação, esquece o que viu assim que sai da sala de cinema. Por isso, quando surge um filme como "Antes do amanhecer" há que se soltar fogos de artifício. E por um motivo bastante simples: o roteiro do também diretor Richard Linklater não busca o tentacular, o diferente, o criativo. Mas toca o coração por falar de gente de verdade, com sentimentos reais e não plastificados. E além do mais que atire a primeira pedra quem nunca sonhou em viver um romance como o de Jesse e Celine.

Jesse (vivido por um Ethan Hawke pré-Uma Thurman)é um americano que acabou de ser deixado pela namorada e está voltando aos EUA depois de uma viagem sem destino pela Europa. Celine (a bela e delicada Julie Delpy) é uma jovem francesa que está indo visitar a avó. Os dois se encontram em um trem, conversam, trocam algumas ideias e isso basta para que Celine aceite o convite de Jesse para que desça em Viena e fique conversando com ele até a hora de seu trem de volta pra casa. Na capital austríaca, os dois passam a noite se conhecendo melhor, falando de seus sonhos e objetivos, rindo de seu passado, revelando seus medos e fantasmas... e se apaixonando.



O impressionante no filme de Linklater é a sua opção em não forçar nenhuma situação. Não existe vilões - com exceção do cruel tempo cronológico -, não existem revelações surpreendentes, nem ao menos um final trágico. Jesse e Celine não se apaixonam porque são lindos, maravilhosos, sexies e desejáveis (ainda que o sejam, não fazem caras e bocas para o parecerem). Eles se apaixonam porque se olham nos olhos, porque são verdadeiros um com o outro - o que só é permitido, por assim dizer, porque tem a consciência de provavelmente nunca mais se verão - porque são de países diferentes, com histórias diferentes, com personalidades diferentes. Eles se apaixonam principalmente porque não tem a necessidade de usar máscaras frente um ao outro. É um amor fantasioso? Talvez, porque quantas pessoas você conhece que se conheceram em um trem na Europa? Mas e se não fosse em um trem? E se fosse em um bar, em uma festa, em uma entrevista de emprego? O que importa em "Antes do amanhecer" não é a geografia - ainda que Viena nunca tenha sido tão belamente fotografada - e sim os sentimentos, a paixão, a sensação de que a vida é bela.

Em "Antes do amanhecer" vivenciamos, através de seus protagonistas, aquele desejo que temos de sermos desejados pelo que somos, sem a necessidade de fingir, de criar um personagem, de seduzir deliberadamente. Se como plateia nos é impossível não nos apaixonarmos por Jesse e Celine, como eles não se apaixonariam um pelo outro? E como românticos que somos - ainda que incubados - como não cairmos de amores por sua bela história de amor?

Publicado primeiramente no blog "Lennys' mind" em 01 de fevereiro de 2010.

ASSASSINATO EM PRIMEIRO GRAU

ASSASSINATO EM PRIMEIRO GRAU (Murder in the first, 1995, Warner Bros, 122min) Direção: Marc Rocco. Roteiro: Dan Gordon. Fotografia: Fred Murphy. Montagem: Russell Livingstone. Música: Christopher Young. Figurino: Sylvia Vega Vasquez. Direção de arte/cenários: Kirk M. Petruccelli/Greg Grande. Produção executiva: Marc Rocco, David L. Wolper. Produção: Marc Frydman, Mark Wolper. Elenco: Kevin Bacon, Christian Slater, Gary Oldman, Embeth Davidtz, William H. Macy, Stephen Tobolowsky, Brad Dourif, R.Lee Ermey. Estreia: 20/01/95

Um dos mais famosos presídios do mundo, Alcatraz foi o tema central de um dos mais conhecidos filmes de Clint Eastwood, "Alcatraz, fuga impossível", de 1979. Considerado um dos presídios mais seguros do planeta, localizado em uma ilha perto de San Francisco e construída em 1934 (sobreviveu como instituição penal até 1963), Alcatraz passou, ao menos na sétima arte, de cenário a personagem. Em "Assassinato em primeiro grau", ele foi, inclusive, acusado de cumplicidade em um homicídio. Baseado em uma história real, o filme de Marc Rocco - que ficou com um projeto inicialmente pensado para Oliver Stone - tem boas intenções (denunciar o sistema penitenciário e a violação de direitos humanos), mas esbarra na total falta de sutileza de seu diretor.

Nos anos 30, quando Alcatraz estava no auge de sua fama como um local de fuga impossível, o jovem Henry Young (Kevin Bacon) tenta escapar, em companhia de outros presidiários. Capturado em seguida, ele é mandado para a solitária, ficando sem sol, sem luz e sem contato com quaisquer seres humanos pelo absurdo prazo de 3 anos e 2 meses - sendo que o máximo permitido por lei para tal castigo é de apenas 19 dias. Brutalizado pelo superindentente do lugar, o frio Milton Glenn (Gary Oldman), ele sai do buraco onde esteve encarcerado e tenta voltar à vida normal de condenado. No entanto, ele mata violentamente o delator de seu plano de fuga e volta ao banco dos réus, sob risco de ser condenado à morte - sendo que foi preso pela primeira vez por roubar 5 dólares de um posto de correio. Para defendê-lo, é designado o jovem e idealista James Stamphill (Christian Slater), que surpreende a audiência ao afirmar que o principal culpado do crime não é Young, e sim o sistema carcerário de Alcatraz.


Como convém a um filme com pretensões comerciais, "Assassinato em primeiro grau" toma algumas liberdades poéticas para contar sua história, a principal delas em relação a um de seus protagonistas, o apenado Henry Young. Retratado no roteiro de Dan Gordon como uma vítima absoluta do sistema e da sociedade (como normalmente acontece com filmes com intenções de provocar discussões), o verdadeiro Young não era tão desprovido de maldade e nem tão puro assim, tendo cometido roubo a banco, violência contra um refém e até mesmo um assassinato ANTES de ser encarcerado em Alcatraz. Não justifica nenhuma violência cometida contra ele, é claro, mas é um truque um tanto sujo dos produtores, que forçam assim uma empatia óbvia com ele. E talvez seja justamente nesse ponto que a receita desanda.

Dirigindo com mão pesada uma história por si só trágica e absurda, Marc Rocco - que não assinou mais nenhum filme desde então - peca principalmente por não permitir ao público as discussões que tenta suscitar. Não há espaço para argumentos, uma vez que, no maniqueísta roteiro, o bem e o mal estão claramente delineados. Henry Young é puro, virgem, injustiçado e torna-se um herói involuntário da mídia. James Stamphill é idealista, íntegro e corajoso, capaz de lutar contra todo o sistema apenas para ver a justiça prevalecer. E Milton Glenn, que dirige o presídio, é frio, cruel, arrogante e incapaz de um sentimento nobre. Essa pobreza de nuances é o calcanhar de Aquiles do projeto, que se salva da mediocridade graças a seu elenco.

Apesar de Christian Slater ser sempre o mesmo, ele divide a cena com dois atores que, de maneiras diferentes, atigem seus objetivos. Enquanto Kevin Bacon luta claramente para dar credibilidade a seu Henry Young, mesmo caindo na armadilha do exagero em alguns momentos (sua entrega ao papel é louvável), Gary Oldman não parece precisar de muito esforço para sobressair-se. Seu olhar impenetrável, seu tom monocórdio e sua expressão de rocha dizem muito mais do que a trilha sonora exagerada e os diálogos empolados e repleto de frases de efeito do roteiro. Nem mesmo a fotografia - aparentemente claustrofóbica mas na verdade apenas escura e sem criatividade - chama a atenção, sendo tão comum quanto o resultado final do filme.

A história de "Assassinato em primeiro grau" é interessante. O elenco convence. Mas o filme é desnecessariamente longo e aborrecido. Um diretor mais talentoso talvez o salvasse de ser tão comum e tão historicamente discutível!

quinta-feira

MINHA AMADA IMORTAL

MINHA AMADA IMORTAL (Immortal beloved, 1995, Icon Entertainment International/Majestic Films International, 121min) Direção e roteiro: Bernard Rose. Fotografia: Peter Suschitzky. Montagem: Dan Rae. Figurino: Maurizio Millenotti. Direção de arte/cenários: Jirí Hlupý/John Myhre. Produção executiva: Stephen McEveety. Produção: Bruce Davey. Elenco: Gary Oldman, Jeroen Krabbé, Isabella Rosselini, Valeria Golino, Johanna ter Steege, Marco Hofschneider, Christopher Fulford, Miriam Margolyes. Estreia: 06/01/95

"Minha amada imortal" é o primo pobre de "Amadeus"! Enquanto a obra de Milos Forman sobre Mozart esbanjava opulência, pompa e circunstância, o filme de Bernard Rose sobre um determinado período da vida de Beethoven se concentra menos no visual luxuoso e mais nas relações do compositor austríaco com a família - na figura do irmão caçula e do sobrinho - e com a sociedade de sua época. Ainda que seu pontapé inicial seja historicamente questionável, é pouco provável que o público não se deixe seduzir principalmente pela - mais uma vez - sublime atuação de Gary Oldman no papel principal. Assim como encarnou com veracidade o roqueiro Sid Vicious na cinebiografia "Sid & Nancy, o amor mata", o ator inglês vai muito além do chamado do dever na pele do autor da 9ª Sinfonia, a ponto de ter aprendido a tocar piano com o máximo de precisão possível.

Assim como "Amadeus", "Minha amada imortal" começa com o funeral de Beethoven e a trama desenrola-se justamente a partir da morte do compositor, quando um de seus melhores amigos, Anton Schindler (Jeroen Krabbé) descobre, entre os objetos pessoais do músico um testamento legando todo o seu patrimônio a uma misteriosa mulher chamada apenas de "minha amada imortal" - a quem também é endereçada uma carta de amor. Na tentativa de descobrir quem é essa mulher que conquistou o coração de seu amigo, Schindler chega a duas belas apaixonadas por ele no passado: Giulietta Guicciardi (Valeria Golino), que foi obrigada a abandoná-lo por pressões familiares e a Condessa Anna Marie Erdody (Isabella Rosselini), cuja vida repleta de tragédias pessoais (como a perda de um filho) aproximou-a do artista. A busca de Schindler é intercalada com o retrato da difícil relação de Beethoven com seu irmão, Kaspar (Christopher Fulford) e a esposa deste, Johanna (Johanna ter Steege), com quem ele inicia uma guerra pela guarda do sobrinho, Karl (Marc Hofschneider).


A opção do roteiro do cineasta em manter o foco na busca de Schindler pela amada de Beethoven - ao invés de realizar uma cinebiografia convencional - é louvável, porque impede o filme que caia na extrema superficialidade. No entanto, ao contar uma história não exatamente comprovada, corre o risco de tornar-se uma ficção desvairada. Felizmente Bernard Rose conta com alguns trunfos que fazem toda a diferença: além da impecável atuação de Oldman, o filme apresenta alguns momentos de beleza ímpar (em especial em sua reta final, quando a personagem de Isabella Rosselini lembra da ocasião em que encontrou com o compositor pela primeira vez, em uma sequência belíssima pontuada pela música indescritível da personagem principal).

É também muito interessante salientar o sucesso de Rose em apresentar à audiência algumas passagens da vida de Beethoven que talvez não fossem de domínio público, como a rejeição popular à sua pessoa, os fatos que ocasionaram sua surdez e até mesmo a relação paternal que ele criou com o único sobrinho, em quem ele depositava grande fé artística. É uma pena que o diretor não seja muito bom com atores: se Oldman atinge o equilíbrio perfeito entre todas as nuances de sua personagem (um ser humano repleto de falhas, mas um artista genial), o mesmo não pode ser dito de outros atores. Isabella Rossellini e Jeroen Krabbé defendem bem seus papéis, mas Valeria Golino e principalmente Johanna ter Steege (esta última em um papel crucial) são bastante medíocres, enfraquecendo algumas cenas que, em outras mãos, poderiam elevar a qualidade do resultado final.

Em todo caso, vale a pena assistir-se a "Minha amada imortal". Pela música espetacular, pela história envolvente e surpreendente e principalmente pelo trabalho irretocável de Gary Oldman. Sem comparar com "Amadeus" pode ser um programa interessante.

quarta-feira

LENDAS DA PAIXÃO

 

LENDAS DA PAIXÃO (Legends of the fall, 1994, TriStar Pictures, 133min) Direção: Edward Zwick. Roteiro: Susan Shilliday, William D. Wittliff, romance de Jim Harrison. Fotografia: John Toll. Montagem: Steven Rosenblum. Música: James Horner. Figurino: Deborah Scott. Direção de arte/cenários: Lilly Kilvert/Dorree Cooper. Produção executiva: Patrick Crowley. Produção: Marshall Herskovitz, William D. Wittliff, Edward Zwick. Elenco: Brad Pitt, Anthony Hopkins, Aidan Quinn, Julia Ormond, Henry Thomas, Karina Lombard, Christina Pickles. Estreia: 16/12/94

3 indicações ao Oscar: Fotografia, Direção de arte/cenários, Som
Vencedor do Oscar de Fotografia

Se naqueles livros que ensinam como escrever roteiros para cinema existisse um capítulo chamado "Como transformar um livro de homem em uma telenovela para mulheres" provavelmente ele estaria ilustrado com uma foto enorme do filme "Lendas da paixão". Baseado em um romance do escritor Jim Harrison - famoso por criar personagens fortes e rudes, que lidam com as adversidades do mundo rural de forma estóica - o filme de Edward Zwick transformou a história da família Ludlow e suas tragédias em um dramalhão água-com-açúcar cujo principal objetivo parece ser elevar o então ascendente Brad Pitt a astro de primeira grandeza. A julgar pela bilheteria generosa, pelos baldes de lágrimas vertidos pela plateia e pelo sucesso do ator junto ao público feminino, a missão foi plenamente cumprida. Pena que o resultado final enterre o espírito do livro junto com todas as personagens que morrem no decorrer do filme.

"Lendas da paixão" começa no início da I Guerra Mundial, quando o jovem Samuel Ludlow (Henry Thomas, o menininho de "ET", crescido e mau-ator) retorna à fazenda onde vivem seu pai, o Coronel aposentado William Ludlow (Anthony Hopkins) e seus dois irmãos mais velhos, o correto e maduro Alfred (Aidan Quinn) e o selvagem e rebelde Tristan (Brad Pitt). Mesmo ciente das contrariedades do pai a respeito do conflito que começa a tomar o mundo, o rapaz decide alistar-se e partir para a guerra. Para proteger o caçula, tanto Alfred quanto Tristan juntam-se a ele, mas a união aparentemente inquebrantável dos três irmãos sofre um abalo quando Alfred se apaixona por Susanna (Julia Ormond), a noiva de Samuel, que, por sua vez, não resiste aos encantos do indomável Tristan. Quando uma tragédia no campo de batalha muda drasticamente as relações entre Tristan e Alfred, a família inteira se vê envolvida em uma história de amor, lealdade e traição.



É inegável o cuidado da produção: a fotografia deslumbrante de John Toll - premiada com o Oscar - dá o tom exato entre o clima claustrofóbico da guerra e a vastidão das montanhas de Nevada (filmadas no Canadá). A imponente música de James Horner comenta a ação de maneira eficientíssima e a reconstituição de época é discreta e eficaz (não à toa também concorreu ao prêmio da Academia). Mas não dá para ignorar o fato de que Zwick, ao invés de privilegiar a interrelação entre os irmãos preferiu dar vazão ao romance entre Tristan e Susanna. Enquanto Pitt faz pouco mais do que deixar a longa cabeleira ao vento para seduzir a mulherada a péssima Julia Ormond tenta convencer a audiência de que uma mulher tão sem graça e sem carisma possa ter conquistado todos os homens da família Ludlow. Esse defeito é a maior pedra no sapato de "Lendas da paixão" e a que mais atrapalha em suas intenções de ser um trabalho inesquecível.

Projetado como veículo para Sean Connery e Tom Cruise - ou seja, poderia ser muito pior - "Lendas da paixão" é um filme que emociona e enche os olhos. Apesar de Anthony Hopkins estar no pior momento de sua carreira, o elenco conta com o ótimo Aidan Quinn, que tenta dar dignidade e consistência a uma personagem relegada a um melancólico segundo plano - ainda que seja responsável por algumas das mais comoventes cenas do filme. É um dramalhão realizado com tudo de melhor que Hollywood pode oferecer, mas que prefere o caminho mais fácil para atingir seu público. É bonito, mas poderia ter sido inesquecível!

terça-feira

ENTREVISTA COM O VAMPIRO

ENTREVISTA COM O VAMPIRO (Interview with the vampire: The vampire chronicles, 1994, Geffen Pictures, 123min) Direção: Neil Jordan. Roteiro: Anne Rice, romance de sua autoria. Fotografia: Phillippe Rousselot. Montagem: Mick Audsley, Joke Van Wijk. Música: Elliot Goldenthal. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Dante Ferretti/Francesa Lo Schiavo. Produção: David Geffen, Stephen Woolley. Elenco: Tom Cruise, Brad Pitt, Kirsten Dunst, Christian Slater, Antonio Banderas, Stephen Rea, Thandie Newton. Estreia: 11/11/94

2 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Direção de arte/cenários

Desde que a escritora americana Anne Rice publicou o livro "Entrevista com o vampiro", em 1976, muitas tentativas de adaptá-lo para o cinema foram frustradas, pelos mais variados motivos. No final dos anos 70, por exemplo, o projeto foi engavetado devido ao fracasso de três filmes sobre vampirismo - "Drácula", com Frank Langella, "Nosferatu", com Klaus Kinski e "Amor à primeira mordida", com George Hamilton. Na época, o nome mais cotado para protagonizar o filme era o ator - então em alta - John Travolta, ainda que a própria escritora tivesse o holandês Rutger Hauer em mente quando criou a personagem central do livro. Mais de uma década se passou até que finalmente a história das aventuras dos vampiros Lestat, Louis e Claudia chegasse às telas. Dirigido pelo irlandês Neil Jordan - cineasta inteligente e de extremo bom-gosto - o filme estreou cercado de expectativas e polêmicas, mas surpreeendentemente agradou à maioria da crítica e o que é mais importante, dos fãs da obra literária.

Escrito por Anne Rice como forma de terapia depois da morte da filha pequena, vítima de leucemia - e homenageada no livro na pele da vampira-mirim Claudia - "Entrevista com o vampiro" arrebatou milhares de fãs mundo afora, que espernearam violentamente quando foi anunciado o nome do ator que viveria o sedutor protagonista, Lestat de Lioncourt. Acostumado a viver galãs heróicos - e levar multidões aos cinemas - Tom Cruise era o último nome que os leitores desejavam ver na pele do malévolo vampiro-mor criado por Rice e a própria escritora manifestou-se ferozmente contra a escolha dos produtores. A morte de River Phoenix - que viveria o jovem repórter que faz a entrevista do título - não colaborou para animar os ânimos e tudo parecia apontar para um fiasco de grandes proporções. Felizmente a história do cinema é repleta de surpresas, e "Entrevista com o vampiro" é uma delas. Mesmo que ignore algumas importantes nuances do livro, a adaptação para as telas - feita por Anne Rice em pessoa - não faz feio em comparação com sua origem. E, por incrível que pareça, Tom Cruise é um de seus maiores destaques.



Tentando fugir da imagem de bom moço, Cruise entrega em "Entrevista com o vampiro" uma de suas atuações menos previsíveis, ainda que às vezes escorregue descaradamente para o overacting - levando-se em consideração, porém, que Lestat é uma personagem teatral e propensa a exageros, dá pra deixar de lado as críticas mau-humoradas e divertir-se com sua interpretação. Debochado, cruel e politicamente incorreto, Lestat é o contraponto perfeito ao melancólico Louis, vivido por um Brad Pitt em vias de transformar-se em sensação absoluta junto ao imaginário feminino.

Tudo começa em São Francisco, quando um jovem jornalista (papel que Christian Slater herdou de River Phoenix) é procurado por um rapaz de aparência sinistra. Apresentando-se como Louis de Pointe du Lac, ele revela ao repórter que é um vampiro e, depois de convencê-lo disso, conta a ele sua inacreditável história, que tem início em Nova Orleans no ano de 1791. Devastado pela morte da esposa e do filho recém-nascido, Louis é um jovem fazendeiro que desafia a morte diariamente. Um dia ela aparece à sua frente na figura do misterioso Lestat (Tom Cruise), um vampiro que o leva para o mundo das trevas. Incapaz de matar seres humanos e alimentando-se do sangue de pequenos animais, Louis incomoda Lestat a ponto de ambos resolverem sair pelo mundo em busca de outros iguais a eles. Logo junta-se a eles a menina Claudia (Kirsten Dunst), que, órfã, é mordida por Lestat para acompanhá-los. As inúmeras viagens dos três são marcadas por eventos trágicos, principalmente quando Louis e Claudia se voltam contra a insensibilidade de Lestat.

Dirigindo com elegância mas sem maiores lances de criatividade, Neil Jordan teve sorte de cercar-se de gente extremamente talentosa. A fotografia sombria de Philippe Rousselot dá o tom exato ao clima de melancolia e tragédia que perpassa toda a história - vale lembrar que, no livro, Louis não perde a mulher e o filho e sim o melhor amigo, o que dá à trama um tom homoerótico absolutamente limado da versão cinematográfica. A trilha sonora de Elliot Goldenthal (indicada ao Oscar) mistura o gótico com o moderno, ainda que não fuja do óbvio ao eleger Rolling Stones para os créditos finais. E, se Brad Pitt não consegue se desvencilhar do básico em seu trabalho como Louis (transformado no roteiro em um chato sem pró-atividade), é Kirsten Dunst que brilha, na mais sensacional revelação do filme. Garfando um papel para o qual foram testadas Christina Ricci, Julia Stiles e Evan Rachel Wood, a futura namorada do Homem-aranha já demonstra, em seu primeiro papel de verdade, um talento que se comprovaria em filmes como "As virgens suicidas" e "Maria Antonieta".

Para quem não leu o livro, "Entrevista com o vampiro" é um excelente filme do gênero, com personagens bem construídos e interpretados por atores de verdade - ao contrário de coisas como a saga "Crepúsculo", que enterrou a mitologia vampiresca de forma aparentemente indelével. Para os leitores - que não se conformaram com a simplificação de temas como a depressão, a morte e até mesmo a bissexualidade dos protagonistas - não chega a ser a decepção anunciada. E para o público em geral, que gosta de um bom filme, é um programa de qualidade, dirigido por um cineasta incapaz de assinar qualquer trabalho.

segunda-feira

ALMAS GÊMEAS

ALMAS GÊMEAS (Heavenly creatures, 1994, Wingnut Films, 108min) Direção: Peter Jackson. Roteiro: Peter Jackson, Frances Walsh. Fotografia: Alun Bollinger. Montagem: James Selkirk. Figurino: Ngila Dickinson. Direção de arte/cenários: Grant Major/Jill Cormack. Produção executiva: Hanno Huth. Produção: Jim Booth. Elenco: Kate Winslet, Melanie Linskey, Sarah Peirse, Diana Kent, Clive Merrison, Simon O'Connor. Estreia: 16/11/94

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Antes de tornar-se milionário com a trilogia "O Senhor dos Anéis" - cujo último filme lhe rendeu inclusive um cobiçado Oscar de diretor - o neozelandês Peter Jackson mostrou ao mundo que, além de comandar batalhas grandiosas e convencer plateias a respeito da existência de hobbits, ele sabia falar de seres humanos. É difícil acreditar que o mesmo homem por trás do tenebroso "Fome animal" - um terror podreira repleto de vísceras e humor negro - é o mesmo responsável por "Almas gêmeas", um filme que mantém uma delicadeza feminina e etérea até mesmo em seus momentos mais crus e tensos. Baseado em um fato real e indicado ao Oscar de roteiro original - que perdeu para o incensado "Pulp fiction" - "Almas gêmeas" é a obra-prima de um cineasta cujas criatividade e imaginação são absolutamente inegáveis.

A história de "Almas gêmeas" se passa em Christchurch, uma pequena cidade da Nova Zelândia, e começa em 1952. A adolescente Pauline Parker (Melanie Lynskey), tímida e retraída, conhece e se encanta por sua cosmopolita colega de classe, a bela, milionária e culta Juliet Hulme (Kate Winslet). Entre as duas nasce uma imediata identificação, apesar de seus modos de vida totalmente opostos - enquanto Pauline vive em uma pensão de propriedade de seus pais, Juliet conhece o mundo todo graças a seus pais, parte da alta sociedade do país. A amizade entre elas começa a ficar mais intensa à medida em que elas entram em uma sintonia cada vez maior, a ponto de criarem um mundo à parte, onde podem exercitar sua imaginação fértil e um tanto distorcida. No entanto, quando os pais de Juliet resolvem se divorciar e consequentemente separar as duas amigas, o relacionamento entre as duas adolescentes começa a preocupá-los. Decididas a nunca mais se separarem, Juliet e Pauline tem, então, uma terrível ideia: acreditando que o maior obstáculo a sua relação é Honora (Sarah Peirse), a mãe de Pauline, elas tomam a decisão de assassiná-la. Todos os detalhes do plano são contados por Pauline em seu diário.

O roteiro do filme, co-escrito por Jackson e Frances Walsh é de uma inventividade ímpar. Ao invés de simplesmente narrar os acontecimentos que levaram à tragédia, os roteiristas dissecam as personalidades doentias, românticas e desesperadas de suas protagonistas com um carinho tétrico, um olhar assombrado mas fascinado e principalmente deixam-se levar pela mais alucinada fantasia. Juliet e Pauline tem um universo particular, o Quarto Mundo, onde, segundo elas, só existe lugar para o prazer e a arte, esta última representada pela Santíssima Trindade - o tenor Mario Lanza, o ator James Mason e o adorado Orson Welles, por quem elas nutrem uma relação de amor e ódio (a sequência em que elas imaginam estar sendo perseguidas pela personagem de Welles no filme "O terceiro homem" é extraordinária e resulta em uma das mais criativas cenas de sexo dos anos 90.

As extraordinárias ideias de Jackson, porém, seriam inúteis se ele não estivesse cercado de gente de muito talento. Tendo a sorte de realizar seu filme na Nova Zelândia, livre de qualquer pressão de executivos tacanhos e mercenários, ele pode escolher seu elenco da maneira que bem quis e o resultado é avassalador: a estreante Melanie Lynskey (escolhida poucos dias antes do início das filmagens) consegue ser fria, assustadora e emotiva de acordo com o momento, comprovando que beleza não põe mesa. E Kate Winslet, que poucos anos depois se tornaria estrela de primeira grandeza (e uma das atrizes mais respeitadas de sua geração) faz uma estreia auspiciosa, injetando força e fragilidade a sua complexa personagem (que hoje em dia é uma escritora de livros policiais, chamada Anne Perry).

"Almas gêmeas" não é e nem quer ser um filme comum. Fala de um relacionamento homossexual, mas passa longe de ser um filme de apelo somente ao mundo GLS. Apresenta um assassinato cruel, mas jamais poderia ser taxado de um filme de suspense. Tem cenas de lágrimas, choros e desespero, mas enquadrá-lo como um drama podaria grande parte de seu poder de fascínio. É um filme para quem gosta de cinema e para quem se dispõe a, por duas horas, se deixar fascinar, encantar e chocar por uma história bem contada.

domingo

FRANKENSTEIN DE MARY SHELLEY

FRANKENSTEIN DE MARY SHELLEY (Mary Shelley's Frankenstein, 1994, TriStar Pictures, 123min) Direção: Kenneth Branagh. Roteiro: Frank Darabont, Steph Lady, romance de Mary Shelley. Fotografia: Roger Pratt. Montagem: Andrew Marcus. Música: Patrick Doyle. Figurino: James Acheson. Direção de arte/cenários: Tim Harvey/Martin Childs. Produção executiva: Fred Fuchs. Produção: Francis Ford Coppola, James V. Hart, John Veitch. Elenco: Kenneth Branagh, Robert De Niro, Helena Bonham Carter, Ian Holm, Aidan Quinn, Tom Hulce, John Cleese, Hugh Bonneville, Richard Briers. Estreia: 04/11/94

Indicado ao Oscar de Maquiagem

Entusiasmado com o sucesso de bilheteria e crítica de "Drácula de Bram Stoker" - sua visão opulenta e operística de um clássico absoluto - o cineasta Francis Ford Coppola teve a ideia de reapresentar a um público carente de boas produções do gênero alguns outros "monstros" da literatura de terror. Antes de desistir de um filme sobre lobisomens (mesmo porque o tenebroso "Lobo", de Mike Nichols, matou qualquer interesse no assunto), o diretor de "O poderoso chefão" produziu,  através de sua Zoetrope, a versão mais intensa e fiel de um dos livros mais conhecidos do estilo. No entanto, dirigido pelo irlandês Kenneth Branagh (em alta depois de ser considerado um novo Laurence Olivier, graças a suas adaptações de obras de Shakespeare), "Frankenstein de Mary Shelley" não atingiu as altas expectativas em torno de si: fracassou nas bilheterias e não empolgou a crítica.

Assim como em "Drácula de Bram Stoker" o filme de Branagh começa com um prólogo que suas versões anteriores dispensaram: no final do século XVIII, o explorador Robert Walton (Aidan Quinn) tenta descobrir novas terras, ignorando os perigos que a aventura proporciona. Durante uma viagem, ele encontra Victor Frankenstein (Kenneth Branagh), que lhe conta, sôfrego e apavorado, sua trágica história de desafio à ordem natural das coisas. Órfão de mãe desde a infância, ele sempre tentou encontrar uma maneira de reverter o processo da morte. Durante seu curso de Medicina - e depois de testemunhar a cruel morte de um mestre - ele finalmente tem a oportunidade que esperava: utilizando anotações de um professor, ele dá vida a uma criatura juntando partes de diversos corpos. Depois de rejeitá-la por considerá-la um erro, ele tenta continuar com sua vida normal ao lado da amada Elizabeth (Helena Bonham-Carter), mas o monstro criado por ele (Robert DeNiro) resolve vingar-se da rejeição da única maneira que conhece: com violência.

A história criada por Mary Shelley em uma única noite (segundo reza a lenda) tem inúmeras ressonâncias filosóficas e éticas que o roteiro de Steph Lady e Frank Darabont - este último diretor do ótimo "Um sonho de liberdade" - tenta manter, sem muito sucesso. O belo visual impresso pela fotografia imponente de Roger Pratt impressiona, mas a direção de Branagh esbarra em um erro crasso: a falta absoluta de sutileza. Não há espaço, nessa versão quase histérica, para momentos de silêncios ou discrição. Do início ao fim do filme, por exemplo, o ator Branagh surge em cena gritando, correndo e suando, enquanto seus colegas de elenco apenas tentam seguir seu ritmo acelerado (e não ágil, entenda-se). Helena Bonham-Carter, uma excelente atriz, pouco tem a fazer com sua Elizabeth, que nunca passa de uma expectadora passiva dos trágicos acontecimentos que ocorrem à sua volta até que torna-se vítima da ambição do amado. E Robert DeNiro, cujo currículo dispensa qualquer tipo de comentário, está no pior momento de sua carreira, restrito a caras e bocas exageradas que nem mesmo a maquiagem asquerosa (que concorreu merecidamente ao Oscar) consegue salvar.


Mas, então, o que "Frankenstein de Mary Shelley" tem de bom, que justifique uma sessão? Longe de ser uma porcaria, o filme de Branagh (diretor do interessante "Voltar a morrer" e da genial adaptação de "Hamlet" feita logo em seguida) não é uma obra-prima como "Drácula de Bram Stoker" mas está longe de ser de todo ruim. Como já foi dito, o visual é arrebatador, desde a fotografia sombria até a direção de arte caprichada e a trilha sonora de Patrick Doyle é sensível o suficiente para amenizar algumas sequências mais pesadas. E a história de Shelley por si mesma já é boa o bastante para prender a atenção, sem contar em algumas ideias muito interessantes do cineasta - a criação do monstro, por exemplo, apresenta uma espécie de útero em tamanho descomunal, com direito a líquido amniótico e tudo. Porém, a concepção do filme é melhor do que seu resultado final, conforme o próprio Coppola admitiu, retirando-se da divulgação do produto.

No final de contas, "Frankenstein de Mary Shelley" vale a pena por seu visual barroco e por sua história atemporal e repleta de questionamentos. Mas sem dúvida poderia ter sido um filme bem melhor.

sábado

PULP FICTION - TEMPO DE VIOLÊNCIA

PULP FICTION, TEMPO DE VIOLÊNCIA (Pulp fiction, 1994, Miramax Films/Jersey Films/A Band Apart, 154min) Direção: Quentin Tarantino. Roteiro: Quentin Tarantino, histórias de Quentin Tarantino e Lawrence Bender. Fotografia: Andrzej Sekula. Montagem: Sally Menke. Figurino: Betsy Heinman. Direção de arte/cenários: David Wasco/Sandy Reynolds-Wasco. Produção executiva: Danny DeVito, Michael Shamberg, Stacey Sher. Produção: Lawrence Bender. Elenco: John Travolta, Bruce Willis, Samuel L. Jackson, Uma Thurman, Harvey Keitel, Christopher Walken, Tim Roth, Amanda Plummer, Maria de Medeiros, Ving Rhames, Frank Whaley, Quentin Tarantino, Alexis Arquette. Estreia: Maio de 1994 (Festival de Cannes)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Quentin Tarantino), Ator (John Travolta), Ator Coadjuvante (Samuel L. Jackson), Atriz Coadjuvante (Uma Thurman), Roteiro Original, Montagem
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Roteiro Original
Palma de Ouro no Festival de Cannes (Melhor Filme)

Já faz mais de quinze anos que "Pulp fiction" levou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e sua influência sobre o cinema americano - e mundial - ainda está longe de arrefecer. Primeiro filme de Quentin Tarantino depois de sua bombástica estreia - o violento "Cães de aluguel" - "Pulp fiction" pegou o mundo de surpresa ao subverter praticamente todas as regras pré-concebidas do cinemão comercial e apresentar um painel cru, engraçado e amoral de pessoas que circulam em um universo particularmente interessante ao cineasta. Desfilam pela tela - por cerca de duas horas e meia de duração - assassinos de aluguel, gângsteres de esquina, boxeadores fracassados e junkies irremediáveis. Vindo da cabeça de Tarantino - dono de um enciclopédico conhecimento sobre filmes B - não é de se estranhar nenhum detalhe de "Pulp fiction". O que é de deixar qualquer um surpreso é o fato do filme ter chegado pertinho de ganhar o Oscar máximo. Não chegou lá - ficou "apenas" com a estatueta de roteiro original - mas só concorrer ao lado de obras certinhas - excelentes, sem dúvida, mas pouco inovadoras - como "Forrest Gump" e "Um sonho de liberdade", já é motivo de choque.


Quentin Tarantino - assim como David Lynch e Pedro Almodovar - é uma espécie de deus de seu próprio universo. Em seus filmes qualquer coisa é possível, qualquer absurdo é compreensível e qualquer personagem é crível. Dentro de seu específico mundo - decorado e sonorizado com uma mistura de anos 60, 70 e 80 aparentemente sem nexo - ele conduz o espectador a situações bizarras sem dar espaço a questionamentos supérfluos. É somente dentro da obra sui generis do cineasta que matadores verborrágicos em vias de converter-se cruzam o caminho de foragidos ameaçados de morte que adiam a fuga para correr atrás de relíquias familiares - e que dão de cara com bizarros estupradores sadomasoquistas. Sim, isso é "Pulp fiction". Isso e muito mais.

Narrado fora de ordem cronológica - artifício que funciona à perfeição aqui, mas que virou quase uma praga em seu rastro, uma vez que qualquer filme "moderno" a utilizou sem parcimônia desde então - "Pulp fiction" começa apresentando um casal de assaltantes, Pumpkin (Tim Roth) e Honey Bunny (Amanda Plummer), que decide dar uma virada na vida e partir para ações mais ambiciosas e menos perigosas. Antes mesmo que sua história tenha um desfecho, o público é levado a conhecer Vincent Vega (John Travolta no mais consistente retorno de sua carreira) e Jules Winfield (Samuel L. Jackson), em vias de cumprir uma "missão" para seu chefe, o temível Marsellus Wallace (Ving Rhames). Tão logo o trabalho dos dois companheiros é finalizado, começa a história do encontro entre o desajeitado Vincent com Mia (Uma Thurman), a esposa de seu patrão, uma ex-atriz apaixonada por drogas pesadas que o leva a um pesadelo noturno ao sofrer uma overdose acidental. Em seguida, somos jogados na aventura de Butch Coolidge (Bruce Willis), um boxeador que, desafiando o combinado com seus contratadores - entregar uma importante luta - foge em disparada rumo aos braços da namorada, Fabienne (Maria de Medeiros), mas é obrigado a fazer uma retirada estratégica para recuperar o relógio de ouro que pertenceu a seu avô e a seu pai - só para ser vítima de um estranho sequestro ao lado de seu inimigo. E para finalizar tudo, Jules e Vincent são obrigados a chamar o eficiente Mr. Wolf (Harvey Keitel) para resolver um grave e sangrento acidente provocado com um tiro disparado sem querer.



Mesmo hoje, depois de dezenas de imitações baratas e sofríveis, "Pulp fiction" se mantém como revolucionário e impactante. Seu texto afiado (e principalmente repleto de uma naturalidade rara), sua trilha sonora sensacional (impossível não lembrar de sequências inteiras ao ouvir algumas de suas canções), sua absoluta falta de compromisso com o déja-vu e seu humor sardônico são marcas registradas de Tarantino e não são encontradas em quaisquer filmes que beberam de sua fonte. O estilo de Tarantino é legítimo, ao contrário de seus copiadores, e isso faz toda a diferença: o texto de "Pulp fiction soa orgânico e jamais forçado e encontra em seus atores os intérpretes ideais. E é nesse quesito que o cineasta mais influente da década de 90 se sobressai gritantemente: sem seu elenco, escalado a dedo, "Pulp fiction" provavelmente perderia muito de seu impacto.

Ainda que tenha sido John Travolta o mais festejado dos atores do filme - em um retorno que lhe deu uma merecida indicação ao Oscar - é difícil não se deixar fascinar pelos olhos hipnotizantes de Samuel L. Jackson (dono dos diálogos mais substanciais e cultuados da obra) ou seduzir pelo charme de Uma Thurman (que só aceitou fazer parte do elenco depois que o próprio diretor leu o roteiro todo pelo telefone). Tanto Jackson quanto Thurman concorreram à estatueta mais cobiçada do cinema e poderiam facilmente ter vencido. E é um duro golpe aos detratores que insistem em dizer que Tarantino não é bom diretor de atores ver o que ele consegue fazer com Bruce Willis, por exemplo, na melhor atuação de sua carreira, ou com Ving Rhames, um ator pouco conhecido alçado à categoria de assustador com sua performance como Marsellus Wallace - um gângster perigoso flagrado pelas câmeras hiperativas do cineasta em um momento de extrema fragilidade. E isso que nem é preciso falar de nomes consagrados como Harvey Keitel, Christopher Walken e Tim Roth, que apenas reiteram seu talento mesmo em pequenos papéis.

A força de "Pulp fiction" reside em suas inúmeras qualidades que, somadas, fazem dele o filme fundamental de sua época. Parte do inconsciente coletivo de uma legião de fãs da sétima arte, a obra-prima de Quentin Tarantino - se bem que quase todos os seus filmes o são - é um perfeito exemplo do quão inteligente, excitante e corajoso o cinema americano pode ser. Para ver, rever e trever, sempre com a mesma sensação de ineditismo.

sexta-feira

ED WOOD

ED WOOD (Ed Wood, 1994, Touchstone Pictures, 127min) Direção: Tim Burton. Roteiro: Larry Alexander, Scott Karaszewski, livro "Nightmare of ecstasy", de Rudolph Grey. Fotografia: Stefan Czapsky. Montagem: Chris Lebenzon. Música: Howard Shore. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Tom Duffield/Cricket Rowland. Produção executiva: Michael Lehmann. Produção: Tim Burton, Denise Di Novi. Elenco: Johnny Depp, Martin Landau, Patricia Arquette, Sarah Jessica Parker, Bill Murray, Jeffrey Jones, Lisa Marie, George "The Animal" Steele, Vincent D'Onofrio. Estreia: 28/9/94

Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Martin Landau), Maquiagem
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Martin Landau)

Edward D. Wood Jr. nasceu em 10 de outubro de 1924 e morreu em 10 de dezembro de 1978. Veterano da II Guerra Mundial, costumava combater vestido com roupas íntimas femininas e, graças a essa particularidade, realizou seu primeiro filme como cineasta, em 1953: "Glen ou Glenda?" A partir daí, pegou gosto pela coisa e, com a ajuda de seu fiel grupo de amigos e do veterano ator Bela Lugosi - em fim de carreira, viciado em morfina e falido - dirigiu alguns dos mais terríveis filmes vistos nas telas, e assumiu, com o passar dos anos, o título de pior diretor da história do cinema. Sem a menor noção de como fazer um filme - e realizando-os com o dinheiro de quem quisesse produzí-los - Wood é uma das personalidades mais fascinantes do lado B de Hollywood, e virou assunto de um dos trabalhos mais pessoais e sensíveis de Tim Burton. Estrelado pelo excêntrico Johnny Depp, "Ed Wood" não encontrou seu público - rendeu menos de 6 milhões de dólares nas bilheterias americanas - mas encantou a crítica e os fãs de bom cinema. Tudo devido à inteligência do roteiro, ao elenco impecável e ao carinho explícito do diretor pelo material.

Levemente inspirado na biografia "Nightmare of ecstasy", escrita pelo músico Rudolph Grey, "Ed Wood" não é exatamente uma cinebiografia, uma vez que concentra-se unicamente na carreira de cineasta do protagonista, deixando de lado sua vida antes de sua chegada ao cinema. Tudo começa em 1953, quando Wood (vivido com gosto por Johnny Depp), arrasado com as críticas negativas feitas a uma peça teatral que ele dirigiu, resolve iniciar uma nova fase em sua vida, realizando filmes para o cinema. O fracasso de seu primeiro filme - que contava a história de um homem em crise de identidade sexual, interpretado por ele mesmo - não o impede de manter-se esperançoso, principalmente quando conhece, por acaso, o ator Bela Lugosi (Martin Landau, impressionante e vencedor do Oscar de coadjuvante). Decadente e considerado ultrapassado, Lugosi se une a Wood em seus absurdos projetos cinematográficos, iniciando um relacionamento de amizade e admiração sinceras. Enquanto o jovem diretor insiste em filmar histórias sem pé nem cabeça - utilizando como atores médicos quiropratas, investidoras sem talento e filhos dos produtores - seu relacionamento com a namorada Dolores Fuller (Sarah Jessica Parker) vai pro brejo e ele inicia um romance com a dedicada Kathy O'Hara (Patricia Arquette).




Extraordinariamente fotografado em preto-e-branco por Stefan Czapsky (vencedor de importantes prêmios da crítica americana por seu trabalho), "Ed Wood" foge do tradicional esquema das cinebiografias também por permitir-se brincar com a personalidade de seu homenageado. Ao narrar com bom-humor e ironia as aventuras de Wood em busca de reconhecimento e sucesso - ele se comparava a Orson Welles - Burton utiliza os elementos a seu dispor com maestria. A trilha sonora de Howard Shore - substituindo pela única vez o parceiro constante do diretor, Danny Elfman - estabelece o clima sombrio/divertido do filme logo nos créditos iniciais (que, dizem, custaram sozinhos mais do que qualquer filme de Ed Wood). A espirituosa maquiagem vencedora do Oscar faz sua parte sem apelar para exageros e o elenco não poderia estar em dias mais inspirados.

Acostumado a papéis de maluquetes, Johnny Depp criou um Ed Wood completamente obcecado por sua carreira, capaz dos atos mais inacreditáveis para transformar suas ideias malucas em filmes, mas ao mesmo tempo consegue humanizar a personagem em suas cenas com Martin Landau, que foge magnificamente das armadilhas de interpretar alguém tão conhecido como Bela Lugosi. O sotaque empregado por Landau convenceu até mesmo o filho de Lugosi e sua cadavérica aparência casa com exatidão com as intenções de Tim Burton em realizar um filme que orgulharia Wood. E seria injusto esquecer um Bill Murray hilariante e um Jeffrey Jones sempre em vias de roubar a cena. Todos os momentos em que a equipe de Ed Wood está reunida são sublimes em sua visão romântica e apaixonada do ato de fazer cinema.

"Ed Wood" é isso! Uma homenagem carinhosa, romântica, sensível, engraçada e comovente a um dos artistas mais originais e apaixonados que o cinema americano produziu. Ed Wood pode ter sido o pior diretor da história, mas inspirou o melhor filme de um cineasta que provavelmente nasceu para contar sua história.

quinta-feira

UM SONHO DE LIBERDADE


UM SONHO DE LIBERDADE (The Shawshank Redemption, 1994, Castle Rock Entertainment, 142min) Direção: Frank Darabont. Roteiro: Frank Darabont, conto "Rita Hayworth and the Shawshank Redemption", de Stephen King. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Richard Francis-Bruce. Música: Thomas Newman. Figurino: Elizabeth McBride. Direção de arte/cenários: Terence Marsh/Michael Sierton. Produção executiva: Liz Glotzer, David Lester. Produção: Niki Marvin. Elenco: Tim Robbins, Morgan Freeman, Bob Gunton, Clancy Brown, James Whitmore, Gil Bellows. Estreia: 23/9/94

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Morgan Freeman), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Som

Ainda bem que dinheiro não compra tudo, nem mesmo em uma terra tão gananciosa quanto Hollywood. Apaixonado pela adaptação feita por Frank Darabont do conto "Rita Hayworth and the Shawshak redemption", que Stephen King publicou em seu livro "Quatro estações", o cineasta Rob Reiner ofereceu 2,5 milhões de dólares ao roteirista para que pudesse dirigí-lo. Proposta devidamente recusada - o que salvou o mundo de um filme com Harrison Ford e Tom Cruise juntos - o roteiro chegou às telas dirigido pelo próprio Darabont com o nome de "Um sonho de liberdade" e, se não fez um estrondo nas bilheterias, hoje é considerado um dos melhores filmes de prisão de todos os tempos, adorado pela crítica e pelo público, que nem se importa se as sete indicações ao Oscar jamais tenham se convertido em estatuetas - é bom lembrar que concorreu com o incensado "Forrest Gump, o contador de histórias" e com o cultuado "Pulp fiction, tempo de violência".

Realizado com uma competência avassaladora - em especial se for levado em consideração que é o filme de estreia de Darabont - "Um sonho de liberdade" conquista o público por não cair na armadilha de ser apenas "um filme de prisão" e nem tampouco apelar para a violência explícita. Apesar de contar com o nome de Stephen King nos créditos pouca coisa denuncia que o escritor - mais conhecido por suas tramas de terror - seja o autor de uma história tão humana (ainda que do mesmo livro tenha saído o conto que deu origem ao belo "Conta comigo").  Ao deixar de lado criaturas do além, fantasmas e cachorros raivosos, King criou personagens que seduzem a audiência aos poucos e, com a ajuda do belo roteiro de Darabont, de maneira irremediável. Mesmo que chegue perto de duas horas e meia de duração, "Um sonho de liberdade" jamais cansa o espectador, graças principalmente ao enorme talento de todos os envolvidos.

A história de "Um sonho de liberdade" começa nos anos 40, quando o banqueiro Andy Dufresne (Tim Robbins) é condenado a uma pena dupla de prisão perpétua, acusado de ter assassinado sua esposa e o amante dela. Mesmo dizendo-se inocente, ele vai parar no presídio de Shawshank, no Maine (cenário habitual das histórias de King). Lá, ele faz amizade com Red Redding (Morgan Freeman), que há anos tenta uma liberdade condicional e é conhecido por conseguir levar qualquer coisa para dentro dos muros da prisão. Enquanto o relacionamento entre os dois vai se aprofundando com o passar dos anos - e das décadas - Andy testemunha várias histórias: algumas comoventes, como a do veterano bibliotecário Brooks Hatlen (o sensacional James Whitmore), que não consegue sobreviver em liberdade e outras trágicas, como a do jovem Tommy (Gil Bellows), única pessoa capaz de revelar a verdade sobre o crime que aprisionou Andy.



O impressionante roteiro - e o conto em si - não tem pressa em construir as relações entre as personagens nem tampouco atropela os acontecimentos, que vão se desenrolando frente aos olhos do público de maneira delicada. Todas os detalhes da trama vão sendo apresentadas de forma sutil, para que em seu final absolutamente inesquecível façam todo o sentido. Nada no filme é desnecessário ou supérfluo: cada linha de diálogo, cada cena é extremamente necessária. As surpresas, mais do que simples truques baixos para manter acesa a audiência, são realmente convincentes e utilizadas com parcimônia, nos momentos apropriados e casam com perfeição no clima proposto pela fotografia cinzenta de Roger Deakins e pela edição tranquila de Richard Francis-Bruce.

Talvez a maior qualidade de "Um sonho de liberdade" seja, no entanto, sua opção em brincar carinhosamente com todos os clichês dos filmes de prisão com inteligência ímpar. Estão na receita comandantes sádicos (um Clancy Brown impecável em sua frieza), apenados violentos e ameaçadores, planos mirabolantes de fuga e a crueldade de seu diretor (Bob Gunton). Mas algumas cenas criadas por Darabont e companhia são de lavar a alma e emocionam os espectadores por sua absoluta originalidade, em especial quando Dufresne se tranca na sala do diretor e oferece aos colegas prisioneiros a possibilidade de ouvir alguns minutos de ópera. Também é comovente o desfecho da história de Brooks Hantley, que sai da cadeia depois de décadas e percebe que o mundo fora das grades não lhe pertence.

Como dupla, Tim Robbins e Morgan Freeman não poderiam estar melhores. Freeman - que ficou com uma personagem que no conto de King é irlandês e branco - foi indicado ao Oscar, mas Robbins poderia tranquilamente também ter concorrido à estatueta, uma vez que a delicadeza de sua interpretação tem o tom perfeito exigido por sua personagem silenciosa e contemplativa. Juntos, ele e Morgan Freeman são a cara do filme, dando à história a complexidade e a humanidade que ela precisa. Somados ao roteiro preciso e à trilha sonora discreta mas eficiente de Thomas Newman, eles fazem de "Um sonho de liberdade" a adaptação mais brilhante de uma obra de Stephen King.

sábado

ASSASSINOS POR NATUREZA

ASSASSINOS POR NATUREZA (Natural born killers, 1994, Warner Bros/Regency Enterprises, 118min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, David S. Veloz, Richard Rutowski, história de Quentin Tarantino. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Brian Berdan, Hank Corwin. Música: Brent Lewis. Figurino: Richard Hornung. Direção de arte/cenários: Victor Kempster/Merideth Boswell. Produção executiva: Arnon Milchan, Don Murphy, Clayton Townsend. Elenco: Woody Harrelson, Juliette Lewis, Robert Downey Jr., Tommy Lee Jones, Tom Sizemore, Rodney Dangerfield, Arliss Howard, Balthazar Getty. Estreia: 26/8/94

Não existe nada parecido com "Assassinos por natureza". Vagamente baseado em uma história original de Quentin Tarantino, bastante modificada no roteiro final, a história de um casal de assassinos que torna-se fenômeno da mídia encontrou no polêmico Oliver Stone seu diretor ideal. Mesmo acostumado com controvérsias - afinal, ele tem "Nascido em 4 de julho" e "JFK" no currículo - Stone jamais poderia imaginar o verdadeiro escândalo que seu ... longa causaria junto à imprensa, à crítica e até mesmo à justiça. Eleito pela revista americana Premiere como "O Filme Mais Perigoso de Todos os Tempos", "Assassinos por natureza" chegou a colocar seu diretor no banco dos réus, acusado de incitar a violência e inspirar assassinatos. Mas, afinal de contas, é ou não um filme tão perigoso quanto pintam?

Sem dúvida, "Assassinos por natureza" é um filme diferente de tudo que foi visto no cinema comercial americano, e passados 16 anos de sua estreia, mantém sua extrema capacidade de surpreender, chocar e fazer pensar. Utilizando 18 formatos diferentes de filmagem e quase 3000 cortes - que tomaram 11 meses de trabalho dos editores Brian Berdan e Hank Corwin - a trajetória sanguinária de Mickey e Mallory Knox foge dos padrões convencionais de se contar uma história e, com isso, conseguiu tanto fãs inveterados quanto detratores tão violentos quanto seus protagonistas. O escritor John Grisham, por exemplo, comprou briga com Oliver Stone ao acusá-lo de ser o responsável indireto por uma tentativa de homicídio cuja vítima era seu amigo: o casal que atirou na vítima havia assistido ao filme depois de uma sessão de alucinógenos e, depois de matar uma pessoa, deixou outra presa em uma cadeira de rodas. Stone foi absolvido somente em 2002, mas o episódio apenas reitera o poder do filme junto a audiência. O fato de ter sido solenemente ignorado nas cerimônias de premiação do ano - apesar de muitas críticas entusiasmadas - é sintomático: mesmo no ano em que "Pulp fiction" (não exatamente um filme familiar) chegou perto de ganhar o Oscar, "Assassinos por natureza" foi rechaçado e julgado transgressor além da conta.  O que, de certa forma, não deixa de ser um elogio e tanto...

Narrado de forma não-convencional, "Assassinos por natureza" conta a história de Mickey e Mallory Knox, vividos com intensidade e com uma química explosiva por Woody Harrelson e Juliette Lewis. Depois de matarem os pais da jovem - que abusava sexualmente dela -, eles partem em uma viagem pelos EUA, cometendo assassinatos a esmo e tornando-se conhecidos da população graças principalmente a programas sensacionalistas de TV. Transformados em ídolos de uma parcela da audiência jovem e desiludida não apenas americana, mas mundial, eles acabam sendo presos pelo igualmente psicótico Jack Scagnetti (Tom Sizemore) - traumatizado pela morte violenta da mãe. Às vésperas de ser mandado para uma lobotomia, Mickey aceita dar uma entrevista exclusiva e ao vivo para o repórter Wayne Gale (Robert Downey Jr., espetacular), a ser transmitida direto do presídio de segurança máxima onde está preso a um ano. Durante o programa, uma rebelião começa e, com a câmera na mão, Gale acompanha Mickey e Mallory em sua eletrizante fuga, mostrada ao vivo para o país inteiro.

Dividido claramente em duas partes, "Assassinos por natureza" tem ritmos distintos para cada uma delas, que se completam com maestria. Na primeira hora do filme, a audiência acompanha os fatos que levaram o casal à prisão, narrados de forma quase anárquica e psicodélica por Stone e seus editores - a profusão de cores, de sons e de efeitos que distorcem as imagens soam como a maneira com que os protagonistas vêem o mundo. A entrevista de Mickey com Wayne Gale é fotografada com claridade e cores vivas e a rebelião em um claustrofóbico preto-e-branco. É seguro dizer que, apesar de ter detestado o roteiro do filme, o premiado Robert Richardson - vencedor do Oscar por "JFK" - realizou aqui um dos melhores e mais desafiadores trabalhos de sua carreira. Alternando-se entre formatos dos mais variados - até mesmo animação e super 8 - a fotografia é mais um dos pontos altos do filme, uma vez que a visão de Stone é muito particular, em especial a quase afirmar, através de imagens quase surreais, que Mickey e Mallory são na verdade anjos exterminadores em um mundo caótico - e o hipnotizante diálogo entre o assassino e seu entrevistador reitera essa posição.

 

E se a maneira sui generis de Oliver Stone enxergar seus protagonistas encontra excelência na fotografia e na edição, é impossível negar que sua criatividade atinge o ápice em algumas das geniais sequências criadas por seu roteiro delirante. A sofrida vida doméstica de Mallory antes de seu encontro com Mickey, por exemplo, é retratada em forma de um episódio de sitcom (com direito a gargalhadas fake ao fundo e palavrões omitidos), com o humorista Rodney Dangerfield no papel de um pai escroto e cruel. A busca de Mickey por soro antiofídico em uma drogaria deserta é mostrada em forma de desenho animado. E, inseridos entre cenas de violência explícita, comerciais de Coca-cola e imagens de arquivo da televisão americana dos anos 60. Misturadas a uma trilha sonora pulsante - que inclui desde Patti Smith, Nine Inch Nails e Bob Dylan a um extraordinário Leonard Cohen (cujas canções abrem e encerram o filme) essas ideias fora do comum demonstram o poder de Oliver Stone em passar, através de seus filmes, ideologias e discursos no mínimo polêmicos.
 
Mas falar de "Assassinos por natureza" sem tecer loas a seu elenco seria no mínimo injusto, uma vez que é crucial para o filme que ele seja interpretado da maneira correta, sob pena de sair da sátira e da crítica para transformar-se em uma comédia involuntária. Sendo assim, a escolha por Woody Harrelson (saindo imediatamente de "Proposta indecente") e Juliette Lewis (nunca menos do que fantástica) mostrou-se muito acertada, assim como dar ao ótimo Robert Downey Jr. o crucial papel de Wayne Gale (que o autor da história, Quentin Tarantino, queria para si nos primórdios do projeto). Por incrível que pareça é o premiado Tommy Lee Jones quem destoa do conjunto. Oscarizado por "O fugitivo", ele parece confundir ironia com palhaçada, quase estragando o clímax do filme com uma atuação exagerada e fora de contexto. Felizmente sua participação é relegada a segundo plano quando a violência e a tensão assumem a protagonização da história, em detrimento de seu sarcasmo.
 
Crítica ácida à forma como a mídia transforma vilões em heróis, "Assassinos por natureza" não é um filme para qualquer público, mas justamente sua ousadia temática e visual é que faz dele uma das obras fundamentais do cinema americano dos anos 90.

segunda-feira

PRISCILLA, A RAINHA DO DESERTO

 

PRISCILLA, A RAINHA DO DESERTO (The adventures of Priscilla, queen of the desert, 1994, Polygram Filmed Entertainment, 104min) Direção e roteiro: Stephan Elliott. Fotografia: Brian J. Breheny. Montagem: Sue Blainey. Música: Guy Gross. Figurino: Lizzy Gardiner, Tim Chappell. Direção de arte: Owen Paterson. Produção executiva: Rebel Penfold-Russell, Sue Seeary. Produção: Al Clark, Michael Hamlyn. Elenco: Terence Stamp, Hugo Weaving, Guy Pearce, Bill Hunter. Estreia: 10/8/94

Vencedor do Oscar de Melhor Figurino

Nos anos 60, o britânico Terence Stamp chegou a ser considerado o homem mais bonito do mundo. Astro do polêmico "Teorema", do italiano Pier Paolo Pasolini, amante de nomes como Julie Christie e Brigitte Bardot e capa do single "What difference does it make", do grupo The Smiths, foi dirigido por nomes como Federico Fellini, Howard Hawks e Stephen Frears. Praticamente desconhecido da geração de cinéfilos acostumados a filmes-evento, Stamp reapareceu sob os holofotes depois dos 50 anos em um papel surpreendente: Bernardette, um transexual amargurado e devastado pela morte do amante na comédia australiana "Priscilla, a rainha do deserto". Discreta, cheia de classe e dona de um humor irônico e sarcástico, Bernardette é provavelmente uma das personagens mais marcantes de sua carreira.

Escrito e dirigido por Stephan Elliot, "Priscilla, a rainha do deserto" foi um dos mais interessantes filmes da onda que colocou a cinematografia australiana no mapa, durante os anos 90. Engraçado sem ser bobo e tocando com bom humor em temas polêmicos e até mesmo pesados - como preconceito e violência doméstica - o roteiro de Elliot oferece a seus três atores centrais papéis que surpreendem pela naturalidade e veracidade. Como agradecimento, todos eles tem performances impecáveis, o que suas subsequentes carreiras comprovaram. Além da ressurreição da carreira de Stam - que surpreendentemente foi quem menos se beneficiou do sucesso do filme, haja visto a quantidade de títulos pálidos e sem expressão dos quais participou depois - o filme deu um senhor empurrão para Hugo Weaving (vilão da série "Matrix") e Guy Pearce (que participou dos excelentes "Los Angeles, cidade proibida" e "Amnésia").

Na verdade o protagonista de "Priscilla" é Ticky (Hugo Weaving), que trabalha de drag-queen em casas noturnas de Sydney, nem sempre obtendo o sucesso e o respeito que deseja. Quando ele recebe o convite de uma amiga - na verdade, ex-mulher e mãe de seu filho - para uma série de shows no hotel em que ela trabalha, ele vê a chance de tentar uma nova oportunidade na carreira. Para isso, ele convida a amiga Bernardette (Stamp, genial), um transexual de meia-idade que acaba de perder o amante, para acompanhá-lo na viagem. A eles junta-se o jovem, impetuoso e debochado Adam (Guy Pearce), que imediatamente inicia uma relação de implicância com Bernardette. Comprando um ônibus - que batizam com o nome do filme - eles embarcam em uma viagem pelo deserto da Austrália, enfrentando o preconceito dos moradores de cidades do interior, abismando os mais conservadores e, por incrível que pareça, fazendo inimagináveis amizades.



A exuberância e a irreverência dos protagonistas - refletidas principalmente no espirituoso e criativo figurino vencedor do Oscar - talvez sejam os principais atrativos de "Priscilla", e são certamente os maiores responsáveis pelo sucesso do filme até mesmo junto a uma parcela do público que não é exatamente o alvo dos produtores. Espertamente, Stephan Elliot brinca com a imagem e os ícones gays para passar uma mensagem de tolerância e respeito, sem denegrir nem idealizar nada nem ninguém - ao menos de forma inconsequente e rasa. A convivência forçada entre suas personagens principais - de personalidades bem marcadas mas nunca previsíveis - serve como reflexo de uma sociedade ainda preconceituosa e que precisa lidar com a diversidade (seja ela pessoal, sexual ou de qualquer tipo). É uma metáfora inteligente e sutil, ainda que retratada de maneira propositalmente exagerada.

E falar de "Priscilla, a rainha do deserto" sem mencionar sua trilha sonora seria um crime hediondo. Dançantes e alto-astral, as músicas escolhidas por Stephan Elliot são o que há de melhor no que convencionou-se chamar de "música gay": ABBA, Pet Shop Boys e Gloria Gaynor batem o ponto, normalmente em cenas que tornaram-se clássicas justamente pela combinação perfeita das canções, das coreografias e das roupas pra lá de extravagantes que pontuam uma narrativa alegre, de bem com a vida e capaz de comprovar a vitalidade do cinema australiano.

Quem nunca assistiu a "Priscilla, a rainha do deserto" não sabe o que está perdendo! É diversão certa, com atores perfeitamente escalados - Guy Pearce é um show à parte com sua desaforada Felicia - e um clima de festa mesmo em seus momentos mais delicados.

terça-feira

O CLIENTE

O CLIENTE (The client, 1994, Warner Bros, 119min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Akiva Goldsman, Robert Getchel, romance de John Grisham. Fotografia: Tony Pierce-Roberts. Montagem: Robert Brown. Música: Howard Shore. Figurino: Ingrid Ferrin. Direção de arte/cenários: Bruno Rubeo/Anne D. McCulley. Produção: Arnon Milchan, Steven Reuther. Elenco: Susan Sarandon, Tommy Lee Jones, Brad Renfro, Anthony LaPaglia, Mary-Louise Parker, Will Patton, William H. Macy, Anthony Edwards, Anthony Heald, Bradley Whitford. Estreia: 20/7/94. Bilheteria EUA: U$ 92.115.211

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Susan Sarandon)

Do alto de seu prestígio como um dos mais bem-sucedidos escritores de ficção do início dos anos 90, John Grisham tinha o poder de dar a palavra final a respeito do elenco das adaptações cinematográficas de suas obras e, ao contrário do que se poderia supor, tinha certo talento para isso. Recusando-se terminantemente a aceitar qualquer criança-prodígio para protagonizar "O cliente" - por achar que minaria a credibilidade da trama - ele obrigou o diretor Joel Schumacher a realizar centenas de testes antes de escolher Brad Renfro, então com 10 anos de idade. A escolha não poderia ter sido melhor. Renfro demonstrou, logo em sua estreia, uma segurança ímpar, que o fez contracenar, sem medo, com nomes consagrados como Susan Sarandon e Tommy Lee Jones. Sua morte, aos 25 anos, em janeiro de 2008, não deixa de ter sido uma lamentável perda, ainda que ele estivesse longe de ter se tornado o astro que poderia ter sido.

Em "O cliente", Renfro vive Mark Sway, um menino que mora em um trailer ao lado da mãe constantemente desempregada e sem maiores talentos para a ternura (Mary-Louise Parker) e do irmão caçula. Uma tarde, ao sair para fumar escondido, ele testemunha o suicídio de um mau-encarado advogado que, antes de dar um tiro na boca, revela a ele a localização do corpo de um senador, assassinado por seu cliente, o mafioso Barry Muldano (Anthony LaPaglia). Pressionado pelo FBI - na figura do excêntrico Roy Foltrigg (Tommy Lee Jones) - que tem a alcunha de Reverendo por citar a Bíblia nos tribunais - o menino procura a ajuda da advogada Reggie Love (Susan Sarandon), a quem confunde, pelo nome, com um homem. A princípio hesitante em confiar em uma mulher, ele aos poucos passa a confiar na advogada - que teve problemas com a bebida e perdeu a guarda do filho por causa disso. Enquanto luta para defender o garoto dos interesses perigosos do FBI e da própria máfia, ela vê nele a possibilidade de dar o amor que é impedida de dar ao filho verdadeiro. Surge então, entre elas, uma delicada relação materna.

Vindo das melhores críticas de sua carreira graças ao filme "Um dia de fúria", aqui Joel Schumacher assume quase que um papel de testemunha silenciosa, deixando que a história fale por si mesma. Discreta e fluente, sua condução da trama permite que tudo se desenvolva de maneira tranquila, proporcionando a Sarandon e Renfro que brilhem em atuações extremamente eficientes. Sarandon, inclusive, concorreu ao Oscar por seu desempenho, uma prova do prestígio que desfrutava então junto à Academia - prestígio esse que converteu-se em uma merecida estatueta no ano seguinte, pelo contundente "Os últimos passos de um homem". O trabalho inteligente e repleto de nuances de Sarandon encontra, porém, na atuação de Tommy Lee Jones um empecilho: com maneirismos e exageros que se avolumariam com o tempo - em "Assassinos por natureza", por exemplo, seriam quase insuportáveis - Lee Jones foge do tom naturalista imposto pelo diretor entregando uma atuação bastante fraca. Felizmente o roteiro de Akiva Goldsman e Robert Getchel dá preferência à história de identificação entre Reggie Love e Mark Sway, deixando toda a batida trama de máfia vs FBI em um segundo plano que só assume a protagonização de verdade no terceiro e último ato.



O final de "O cliente", aliás, é o mais excitante dentre as adaptações da obra de Grisham até então - depois do correto "A firma" e do chatinho "O dossiê Pelicano". Mesmo que Joel Schumacher não seja um diretor dos mais inspirados em cenas de ação - que o digam suas versões vexatórias de Batman lançadas poucos anos depois - ele não chega a estragar o clímax do livro, entregando à plateia um desfecho coerente e redondo, ainda que um tanto previsível. A renda de mais de 90 milhões de dólares provou que as escolhas realmente foram acertadas.

"O cliente" pode não ser a melhor adaptação de um livro de John Grisham - título que "Tempo de matar", dirigido pelo mesmo Joel Schumacher adquiriu, um ano depois - mas é interessante, bem interpretado e com a dose certa de emoção e sensibilidade, além de ser extremamente fiel à sua origem literária. E Susan Sarandon sempre vale uma bela espiada.

segunda-feira

TRUE LIES

TRUE LIES (True lies, 1994, 20th Century Fox/Lighstorm Entertainment, 141min) Direção: James Cameron. Roteiro: James Cameron, basedo no roteiro "La totale", de Claude Zidi, Simon Michael, Didier Kaminka. Fotografia: Russell Carpenter. Montagem: Conrad Buff, Mark Goldblatt, Richard A. Harris. Música: Brad Fiedel. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Peter Lamont/Cindy Carr. Produção executiva: Lawrence Kasanoff, Rae Sanchini, Robert Shriver. Produção: Stephanie Austin, James Cameron. Elenco: Arnold Schwarzenegger, Jamie Lee Curtis, Tom Arnold, Bill Paxton, Tia Carrére, Charlton Heston, Art Malik, Grant Heslov. Estreia: 15/7/94. Bilheteria EUA: U$ 146.261.000

Indicado ao Oscar de Efeitos Visuais
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Comédia/Musical (Jamie Lee Curtis)

Em 1994 a carreira de Arnold Schwarzenegger estava por um fio. O fracasso comercial de "O último grande herói", em que ele brincava com sua imagem de astro de filmes de ação o havia colocado em uma situação delicada dentro de uma indústria onde tudo é medido por dólares. Para recuperar seu prestígio - e uma bilheteria respeitável - ele reuniu-se ao cineasta que melhor havia sabido lidar com seu talento dramático limitado em seus maiores êxitos financeiros, os dois capítulos iniciais de "O exterminador do futuro". Com James Cameron na direção e Schwarza na liderança do elenco não havia como "True lies" dar errado. E não deu. Mesmo com um orçamento de 120 milhões de dólares, a refilmagem da desconhecida comédia francesa "La totale" - obviamente inchada com efeitos visuais de primeira qualidade - devolveu ao ator seu status de grande herói das telas, além de ter brindado o público com um dos mais divertidos filmes de sua carreira.

Brincando de James Bond, Schwarzenegger tem em "True lies" seu melhor papel, no qual ele consegue ultrapassar suas limitações e atingir um patamar inédito em sua carreira. Como Harry Tasker, um agente secreto do governo americano envolvido em uma perigosa trama de terrorismo nuclear, o monossilábico Exterminador não apenas explode automóveis, mas anda a cavalo pelo Central Park (e dentro de um elevador), pilota um avião de caça, fala árabe e dança tango. Tudo enquanto tenta salvar seu casamento.

Tasker é um agente do governo americano que esconde até mesmo da família sua verdadeira profissão. Sob o disfarce de um tedioso vendedor de computadores, ele leva uma vida repleta de adrenalina enquanto sua esposa, Helen (Jamie Lee Curtis) acredita que ele é um burocrata sonolento. Durante um de seus perigosos trabalhos, no entanto, Harry descobre que sua mulher está se envolvendo com outro homem, em busca de mais emoção para sua vida. Para salvar seu casamento, ele inventa uma missão para ela, mas eles acabam tendo que lidar de verdade com uma ameaça de terroristas árabes.


"True lies" é tudo que o cinema de entretenimento holywoodiano pode oferecer. É divertido do início ao fim, equilibrando com maestria sequências de ação realmente empolgantes com momentos extremamente engraçados. Jamie Lee Curtis - merecidamente premiada com o Golden Globe de melhor atriz em comédia ou musical - rouba a cena descaradamente, explorando cada diálogo e cada possibilidade de sua personagem. A cena em que Helen precisa forjar um striptease, por exemplo, é um primor de bom humor e tanto Curtis quanto Schwarzenegger deitam e rolam na pele de personagens que parecem feitos sob medida.  Tom Arnold e Bill Paxton, em papéis coadjuvantes, também colaboram para o alto astral do filme que, mesmo falando sobre assuntos um tanto polêmicos jamais deixa de ser o que se propõe: uma aventura delirante, alucinante e muito, muito cara.

O orçamento milionário de "True lies", ao contrário do que acontece em muitos filmes, é plenamente justificável quando se assiste a cada uma de suas cenas. Cada centavo gasto por Cameron - um cineasta com grande tendência à megalomania - é visível nas telas. Os 120 milhões gastos - que dariam para produzir quase quatro filmes como "Velocidade máxima" - nunca parecem supérfluos nas mãos de Cameron, que cuida de cada detalhe com mão de ferro. Pode ser um inferno para quem trabalha com ele, mas para o público que assiste a seus filmes, esse detalhismo todo faz toda a diferença.

É impossível não gostar de "True lies". Quem procura uma comédia irá dar altas gargalhadas com as desventuras do casal Tasker. Quem busca um filme de ação ficará grudado na poltrona ao assistir sequências criativas e aparentemente impossíveis. E quem gosta de esquecer dos problemas por duas horas de duração vai ter 140 minutos da diversão mais competente que o dinheiro pode comprar. Se todos os filmes de ação fossem como "True lies" o mundo seria um lugar mais inteligente.

JADE

  JADE (Jade, 1995, Paramount Pictures, 95min) Direção: William Friedkin. Roteiro: Joe Eszterhas. Fotografia: Andrzej Bartkowiak. Montagem...