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terça-feira

MELINDA E MELINDA


MELINDA E MELINDA (Melinda and Melina, 2004, Fox Searchlight Pictures, 99min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem,: Alisa Lepselter. Figurino: Judy Ruskin Howell. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Regina Graves. Produção executiva: Stephen Tenenbaum. Produção: Letty Aronson. Elenco: Radha Mitchell, Chloe Sevigny, Jonny Lee Miller, Will Ferrell, Amanda Peet, Wallace Shawn, Brooke Smith, Steve Carrell, Chiwetel Ejiofor, Josh Brolin. Estreia: 17/9/2004 (Festival de San Sebastian)

A carreira de Woody Allen é repleta de altos e baixos. Para cada "Noivo neurótico, noiva nervosa" e "Crimes e pecados", ele entrega produções pouco memoráveis como "Trapaceiros" e "Dirigindo no escuro" - que, por mais simpáticas que sejam, estão longe de seu auge criativo. "Melinda e Melinda", lançado em 2004, infelizmente faz parte do rol de seus trabalhos menos brilhantes. Com um roteiro pouco inspirado (escrito em um mês) e um elenco de bons atores subaproveitados, seu 33° longa falha tanto no drama quanto na comédia - e sim, sua estrutura é totalmente baseada nessa dicotomia que é, a rigor, o centro da obra do cineasta nova-iorquino. Prejudicado ainda pela falta de carisma de Radha Mitchell - que substituiu Winona Ryder em um momento complicado junto aos investidores -, o filme foi solenemente ignorado pelas cerimônias de premiação e, apesar do potencial de sua ideia central, é frustrante e apático (o que raramente pode ser dito de uma produção do diretor).

Como em quase todos os filmes de Allen, "Melinda e Melinda" usa e abusa de diálogos rápidos, com personagens que transitam no sofisticado mundo cultural e social de sua filmografia - mas que aqui soa um tanto pedante, sem a autocrítica de seus melhores trabalhos. O ponto de partida da trama é uma discussão aparentemente banal a respeito da superioridade do drama em relação à comédia - talvez uma cutucada do cineasta quanto à sempre relevante polêmica que relega produções mais leves ao limbo das premiações e do prestígio da indústria. Max (Larry Pine) é um dramaturgo especializado em tragédias e seu amigo, Sy (Wallace Shawn), é famoso por suas comédias. Durante um jantar ao lado de outros amigos, surge a questão sobre qual dos gêneros teatrais melhor sintetiza a natureza humana. Como uma espécie de exercício de imaginação, Al conta ao grupo a história de Melinda Robicheaux (Radha Mitchell), uma mulher problemática que surge inesperadamente à porta de um casal de amigos durante um importante jantar de negócios. Separada do homem por quem terminou um casamento e com um histórico de tentativas de suicídio, Melinda transforma, mesmo involuntariamente, a vida daqueles que entram em seu caminho, e não é diferente em sua nova fase. 

 

A chegada de Melinda ao lar de Laurel (Chloe Sevigny) e Lee (Jonny Lee Miller) acontece durante um jantar oferecido a um produtor teatral que pode escalar o jovem para uma de suas próximas peças. Passando a morar com o casal, Melinda tenta firmar-se na vida procurando emprego e um novo amor - que pode surgir na figura do músico Ellis Moonsong (Chiwetel Ejiofor), caso a própria Laurel não se descubra interessada no rapaz. Em outra versão da história, Melinda interrompe o jantar de seus vizinhos Hobie (Will Ferrell) e Susan (Amanda Peet) - uma cineasta que busca investidores para seu novo filme, no qual ela espera poder empregar o marido. Passando por uma crise no casamento, Hobie se vê atraído por Melinda - que, por sua vez, vê no bem-sucedido Greg Earlinger (Josh Brolin) a última chance de uma vida relativamente normal. Enquanto a primeira Melinda tem sua história contada por um viés dramático, a segunda é apresentada com um tom de humor - ainda que bastante sutil.

O principal problema de "Melinda e Melinda" é sua incapacidade de criar qualquer tipo de empatia por sua personagem central - uma questão que mina completamente sua ambição de emocionar ou fazer rir. Apesar de escolhida pelo próprio Woody Allen depois de seu trabalho em "Ten tiny love stories" (2002), Radha Mitchell não encontra o tom certo em seu desempenho, não oferecendo diferenças entre a Melinda dramática e a cômica - mesmo contando com atores como Will Ferrell e Steve Carell, seu timing de comédia fica muito aquém do esperado, o que torna sua personagem apenas desinteressante e cansativa. Conhecido também por conceber personagens coadjuvantes marcantes - e frequentemente premiados ou indicados ao Oscar -, dessa vez Allen falhou em criar papéis fortes o bastante para sustentar uma história frágil por si só. Para sua sorte (e dos fãs), seu projeto seguinte seria o extraordinário "Match point: ponto final", que lhe devolveria o prestígio e o sucesso de seus melhores filmes.

 

segunda-feira

W.

W. (W., 2008, Lionsgate, 129min) Direção: Oliver Stone. Stanley Weiser. Fotografia: Phedon Papamichael. Montagem: Alexis Chavez, Joe Hutsching, Julie Monroe. Música: Paul Cantelon. Figurino: Direção de arte/cenários: Derek R. Hill/Mel Cooper. Produção executiva: Teresa Cheung, Elliot Ferwerda, Peter Graves, Johnny Honn, Christopher Mapp, Tom Ortenberg, Thomas Stertchi, Matthew Street, David Whealey, Albert Yeung. Produção: Bill Block, Moritz Borman, Paul Hanson, Eric Kopeloff. Elenco: Josh Brolin, James Cromwell, Richard Dreyfuss, Elizabeth Banks, Ellen Burstyn, Scott Glenn, Jeffrey Wright, Thandie Newton, Toby Jones, Jason Ritter, Noah Whyle, Ioan Gruffudd, Jesse Bradford. Elenco: 16/8/08 (Festival de Austin)


Levando-se em conta as simpatias democratas de Oliver Stone e sua falta de meias-palavras quando o assunto é política, não deixa de ser surpreendente o quanto “W.”, sua cinebiografia do presidente norte-americano George W. Bush, é relativamente suave e quase benevolente em relação ao protagonista. Tudo bem que o próprio cineasta já havia relutado em contar sua trajetória tão prematuramente – em 2004 ele mesmo declarou que ainda era muito cedo para perspectivas históricas sobre o então candidato à reeleição -, mas nada fazia prever que seu filme fugiria de maiores polêmicas, principalmente quando se trata do autor de obras tão inflamáveis quanto “JFK” (91) e “Assassinos por natureza” (94), que despertaram furor na crítica e no público. Contado de forma a não utilizar os artifícios narrativos comuns à filmografia de Stone, “W.” é uma biografia convencional, acadêmica e, por vezes, bastante tediosa. Nem de longe lembra os melhores momentos do diretor – ainda que conte com uma atuação surpreendente de Josh Brolin no papel central.

Substituindo Christian Bale – que abandonou o projeto pouco antes do começo das filmagens -, Brolin aproveitou-se de uma ótima fase de sua então renascida carreira para ser escolhido por Stone para viver Bush. Vindo dos sucessos de crítica “O gânster” e “Onde os fracos não tem vez” (ambos de 2007), o outrora astro juvenil demonstra segurança ímpar em dar vida a um personagem ambíguo, complexo e pouco carismático, mas que assumiu importância absoluta no comando dos EUA por dois mandatos consecutivos – e protagonizou algumas das passagens mais sombrias da história do país, como o atentado às Torres Gêmeas e a guerra a Saddam Hussein. Não necessariamente parecido fisicamente com Bush, o ator incorpora o personagem em sotaque, expressão corporal e maneirismos sutis – e brilha sempre que o roteiro lhe permite. Tem mais sorte que o restante do (vasto e conhecido) elenco, que parece estar em cena apenas como meros figurantes: apenas James Cromwell como George Bush pai tem chances de mostrar serviço, enquanto nomes como Ellen Burstyn (como Barbara Bush), Thandie Newton (Condoleeza Rice) e Richard Dreyfuss (o vice-presidente Dick Cheney) soam perdidos em meio à edição vai-e-volta (único resquício do velho Oliver Stone): Dreyfuss, inclusive, teve sérios problemas com o cineasta e nenhum deles parece disposto a repetir a parceria – talvez a primeira opção para o papel, Robert Duvall, fosse menos complicada para a produção.



Se em “Nixon” (95) o foco de Oliver Stone foi, como se poderia esperar, o escândalo Watergate (que servia como ponto de convergência para uma narrativa fora de ordem cronológica), em “W.” o cineasta escolhe como ponto de partida a crise estabelecida pelo trauma pós-11 de setembro, quando Bush se vê obrigado a lidar com a ameaça terrorista em pleno solo pátrio – e responder à altura de um líder de sua importância. O presidente precisa tomar a atitude certa, não apenas para demonstrar seu controle sobre a situação, mas também para conquistar o que mais lhe importa na vida: o aplauso de seu próprio pai. É essa odisseia de Bush – a busca pela aprovação e respeito paterno – a base do roteiro de Stanley Weiser: mais do que esmiuçar os bastidores da política americana, o filme de Oliver Stone investiga (sem maior profundidade, mas com respeito e sensibilidade quase inesperadas) a carência de seu protagonista e sua necessidade quase doentia de provar-se capaz aos olhos do pai. Por ele, o jovem Bush é capaz de abandonar a vida no Texas e partir rumo a Washington com a esposa, Laura (Elizabeth Banks), para ajudar em sua campanha para presidente – mas nem ele é motivo suficiente para demover o ambicioso político a desistir da candidatura a governador, alguns anos mais tarde. Essa dubiedade entre a vontade de agradar ao pai e a ambição de ascender ao poder é um dos pontos mais interessantes da trama, e é sublinhada por algumas belas tomadas de Bush flertando com seu sonho de tornar-se jogador de beisebol. Infelizmente o roteiro não se aprofunda nessa questão e nem tampouco em sua relação com Jeb (Jason Ritter), seu irmão caçula e principal responsável por sua imagem quase patética diante do pai. Quando juntos em cena, Josh Brolin e James Cromwell estão impecáveis, mas Stone perde a oportunidade de explorar com mais ênfase a relação entre os dois, sugerindo bem mais do que mostrando.

É impossível negar que “W.” é um produto com tudo de melhor que Hollywood pode oferecer: da fotografia inspirada de Phedon Papamichael à trilha sonora de Paul Cantelon, tudo funciona como deveria, todas as peças estão no devido lugar. O problema, para choque de todos, é justamente o que poderia ser maior trunfo: a direção de Oliver Stone. A quilômetros de distância de seus momentos mais provocativos, Stone parece estar no piloto automático, sem a contundência habitual ou até mesmo a ferocidade em questionar uma das personalidades mais controversas de sua geração. Não à toa, o filme passou em brancas nuvens tanto nas bilheterias quanto nas cerimônias de premiação, uma situação pouco comum na carreira do cineasta. Fica a impressão de um filme que tinha tudo para marcar época, mas que teve medo de explorar todas a sua potencialidade. Ainda que não seja ruim, é muito pouco perto do talento de seu realizador.

sexta-feira

AVE, CÉSAR

AVE, CÉSAR! (Hail, Caesar!, 2016, Working Title Films, 106min) Direção e roteiro: Ethan Coen, Joel Coen. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Roderick Jaynes. Música: Carter Burwell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Nancy Haigh. Produção executiva: Robert Graf. Produção: Tim Bevan, Ethan Coen, Joel Coen, Eric Fellner. Elenco: George Clooney, Josh Brolin, Channing Tatum, Ralph Fiennes, Scarlett Johansson, Alden Ehreinreich, Tilda Swinton, Frances McDormand, Jonah Hill, Alison Pill, David Krumholtz. Estreia: 01/02/16

Indicado ao Oscar de Direção de Arte/Cenários

Não é a primeira vez que os irmãos Coen brincam com os bastidores do cinema: em 1992 eles realizaram "Barton Fink: delírios de Hollywood", onde o dramaturgo interpretado por John Turturro (melhor ator no Festival de Cannes) se via diante de um inédito bloqueio criativo justamente quando é contratado para escrever o roteiro de um filme. Em "Ave, César", porém, eles vão ainda mais longe em seu retrato do mundo de ilusões construído pela capital do entretenimento - mais especificamente aquele erguido dentro do sistema dos grandes estúdios na década de 50. Sem deixar de lado seu humor cáustico e a preferência por personagens à margem do sistema (mesmo quando inserido nele), a dupla de cineastas faz uma das mais consistentes homenagens à indústria realizadas nos últimos anos, repleta de citações a astros e gêneros de um dos períodos mais ricos de Hollywood. Injustamente esquecido pelo Oscar e demais cerimônias de premiação da temporada (concorreu a uma única estatueta, por sua impecável direção de arte), "Ave, César" pode até ser considerado por muitos críticos como uma obra menor da dupla de diretores e roteiristas, mas jamais deixa de ser uma excelente opção para quem procura diversão inteligente.

Apesar de George Clooney ser o maior astro do elenco - e parceiro frequente dos cineastas, tendo trabalhado em "E aí, meu irmão, cadê você?" (2001), "O amor custa caro" (2003) e "Queime depois de ler" (2008) - o protagonista da história é interpretado por Josh Brolin, em mais uma atuação inspiradíssima. Ele interpreta Eddie Mannix, que vive de resolver crises nos bastidores de um grande estúdio da Hollywood dos anos 50, a Capitol Pictures. A trama se passa em um único dia, em que Mannix parece sobrecarregado de problemas alheios: o maior nome do estúdio, Baird Whitlock (George Clooney) - que está no final das filmagens de um milionário épico religioso - acaba de ser sequestrado por um grupo chamado "Nós somos o futuro" (na verdade, um grupo de roteiristas comunistas frustrados com o pagamento pífio que recebem por seu trabalho); a atriz DeeAnna Moran (Scarlett Johansson) está grávida e precisa esconder a situação dos fãs e da imprensa (que também não podem saber de sua vasta coleção de ex-maridos); o jovem astros de westerns Hobie Doyle (Alden Ehrenreich) está com dificuldades em fazer a transição para filmes dramáticos, para desespero do diretor Laurence Laurentz (Ralph Fiennes); e a dupla de irmãs colunistas de fofocas Thora e Thessaly Thacker (Tilda Swinton) ameaça por a boca no trombone e publicar uma história que em nada beneficia Whitlock. Sua única forma de escapar é aceitar a proposta de investir em uma companhia aérea que lhe oferece uma tentadora opção de vida.


Sem uma trama forte o bastante para sustentar seus 106 minutos, "Ave, César" (título do filme religioso estrelado por Baird Whitlock) constrói sua narrativa através da jornada de Mannix em busca da solução para os problemas que lhe são apresentados. Costura-se, assim, de forma orgânica e ágil, uma seleção de sequências fascinantes que vão formando um rico e empolgante panorama do cinema americano dos anos 50, com suas estrelas cintilantes e suas produções gigantescas. Nitidamente apaixonados por sua arte, os irmãos Coen conduzem o espectador por cenas que remetem diretamente aos espetáculos aquáticos de Esther Williams - através da personagem de Scarlett Johansson - e aos musicais de Gene Kelly - Channing Tatum mostra todo o seu dom de dançarino em uma bela sequência que em nada fica a dever aos clássicos do período. Até mesmo o épico produzido pelo estúdio fictício tem ecos de "Ben-hur"- e é hilariante a cena em que Mannix se reune com lideranças de várias religiões tentando encontrar um denominador comum que não ofenda a ninguém. Josh Brolin brilha com uma performance ao mesmo tempo irônica e desesperada, encontrando o tom exato de um personagem típico da dupla de diretores, que cutucam desde o poder dos estúdios sobre seus contratados até a histeria comunista que tomava conta do país no período. Contando ainda com participações especiais de Frances McDormand e Jonah Hill e uma reconstituição de época primorosa, "Ave, César" é uma comédia que substitui as gargalhadas pelo sorriso, mas é difícil não considerá-la uma das melhores produções do gênero na temporada.

Repleto de uma ironia deliciosa que se mistura com naturalidade à sincera homenagem à era de ouro de Hollywood, "Ave, César" conquista os fãs de cinema justamente por oferecer-lhes uma visão tanto romântica quanto satírica de suas entranhas. Enquanto o protagonista caminha pelos desvãos da indústria, o público acompanha, fascinado, os bastidores de um mundo à parte, construído por trás das câmeras e que move milhares de pessoas, muitas vezes anônimas. Ao virar sua câmera para o lado menos glamouroso do showbizz, o filme desmascara, com bom humor e sarcasmo, as aparências de um universo milimetricamente forjado para agradar um público ainda muito conservador, que rejeitava mães solteiras e galãs homossexuais mas consumia vorazmente qualquer fofoca a seu respeito. A força irresistível de tanto poder fica clara nas cenas finais, que parecem dizer que, apesar dos pesares, a arte sempre vale a pena. Uma comédia iluminada e sofisticada, "Ave, César" é um dos trabalhos mais fascinantes dos irmãos Coen. E, de quebra, um dos mais divertidos relatos sobre os bastidores do cinema.

segunda-feira

SICÁRIO: TERRA DE NINGUÉM

SICÁRIO: TERRA DE NINGUÉM (Sicario, 2015, Black Label Media/Lionsgate, 121min) Direção: Denis Villeneuve. Roteiro: Taylor Sheridan. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Joe Walker. Música: Johann Johansson. Figurino: Renée April. Direção de arte/cenários: Patrice Vermette/Jan Pascale. Produção executiva: Erica Lee, Ellen H. Schwartz, John H. Starke. Produção: Basil Iwanyk, Thad Luckinbill, Trent Luckinbill, Molly Smith. Elenco: Emily Blunt, Benicio Del Toro, Josh Brolin, Victor Garber, Jon Bernthal, Daniel Kaluuya, Jeffrey Donovan. Estreia: 19/5/15 (Festival de Cannes)

3 indicações ao Oscar: Fotografia, Trilha Sonora Original, Edição de Som

O cineasta Denis Villeneuve surpreendeu muita gente quando, depois de ser indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro pelo devastador "Incêndios" (2011) e realizar dois filmes estrelados por Jake Gyllenhaal - o suspense "Os suspeitos" (2013) e o estranho "O homem duplicado" (2013), baseado no romance de José Saramago - decidiu dar sua contribuição à polêmica questão do tráfico de drogas entre EUA e México. Optando por uma narrativa seca e semi-documental, ele explora o roteiro do também ator Taylor Sheridan como mapa para um mundo violento e com regras próprias, sem espaço para sentimentalismos ou delicadezas. Fotografado em tons secos por Roger Deakins (que arrebatou uma indicação ao Oscar por seu trabalho) e editado com precisão cirúrgica, "Sicário: terra de ninguém" estreou no Festival de Cannes 2015 e não demorou em coletar elogios da crítica mundo afora. Mesmo com uma bilheteria tímida e o fracasso em conquistar estatuetas na temporada de premiações, Villeneuve marcou mais um gol em sua carreira ainda impecável, com um thriller impactante e relevante que prende o espectador na poltrona do início ao fim sem apelar para a violência gratuita.

O tom sério de "Sicário" já fica claro em sua sequência de abertura, onde um grupo de agentes do FBI especializados em sequestros - e liderado pela corajosa Kate Macer (Emily Blunt) - invade uma casa no estado do Arizona e descobre dezenas de corpos escondidos nas paredes, em estado de decomposição. A missão acaba em tragédia, mas Macer chama a atenção de Matt Graver (Josh Brolin), que a convida a juntar-se a seu time na caça por Manuel Diaz (Bernardo P. Sacarino), líder de um cartel de tráfico de drogas - e dono da propriedade onde ela localizou os cadáveres. Com a promessa de colocar na cadeia o responsável pelos crimes, a jovem agente aceita o desafio de unir-se à equipe de Graver, que inclui o misterioso policial federal Alejandro (Benicio Del Toro), um mexicano calado e cujos métodos pouco ortodoxos irão chocar-se com seu rígido código de conduta. Conforme vai se envolvendo mais e mais com a incansável busca de seus colegas, porém, Macer descobre que está em um terreno minado, onde as leis são mutáveis e tudo que aprendeu em sua carreira até então pode ser posto de lado em situações consideradas extremas.


Depois de dois filmes contando com protagonistas masculinos, em "Sicário" Denis Villeneuve volta a investir na força da mulher, elegendo como personagem principal alguém com cujos valores morais e éticos a plateia pode facilmente se identificar. Kate Macer é uma agente do FBI, acostumada com a violência e a criminalidade, mas ainda mantém dentro de si uma rigorosa ordem moral que a impede de compactuar com as barbaridades que testemunha conforme vai avançando na chaga social que é o tráfico de drogas na fronteira EUA/México. Ao lado do colega Reggie (Daniel Kaluuya), ela começa a perder uma espécie de inocência que ainda lhe resta ao ser obrigada a compactuar com atitudes jamais pensadas e torna-se, ao mesmo tempo, caça e caçadora, virando alvo dos criminosos a que persegue e até mesmo de alguns colegas que veem nela uma ameaça à continuidade da operação. É aí que entra em cena o silencioso Alejandro, um homem com um passado dramático a ponto de deixar público e protagonista em constante dúvida sobre suas reais motivações. Fazendo alterações fundamentais no roteiro original de Taylor Sheridan - que explicitava as intenções do personagem logo de cara - o ator Benício Del Toro transforma Alejandro em um enigma até o terço final, criando um suspense que dá ao filme uma textura a mais e justifica sua indicação ao BAFTA de ator coadjuvante (assim como diversas outras homenagens dos críticos). Juntos em cena, Del Toro e Emily Blunt - que já haviam estrelado "O lobisomem" (2010) - são fascinantes e elevam "Sicário" a um nível bem acima do tradicional thriller: o filme de Villeneuve é, também, um poderoso drama sobre escolhas e a impotência diante de algo maior que a própria lei.

Um cineasta preocupado com a complexidade dos personagens que retrata, Denis Villeneuve encontra, em "Sicário", uma excelente plataforma para demonstrar suas qualidades como diretor. Não apenas apresenta um domínio técnico invejável - com fotografia, edição e desenho de som espetaculares - como também explora com inteligência o grande talento de seus atores. Como em seus trabalhos anteriores, Villeneuve oferece ao público um filme que fica na memória mesmo após os créditos finais, graças a um roteiro forte e um cuidadoso trabalho de direção e interpretação. É uma produção que tem muito mais a dizer do que simplesmente entreter o público por duas horas: é um belo exemplo de como fazer um filme de ação inteligente e cerebral mesmo sem tornar-se chato e enfadonho. Bravo, Villeneuve!

domingo

REFÉM DA PAIXÃO

REFÉM DA PAIXÃO (Labor day, 2013, Indian Paintbrush, 111min) Direção: Jason Reitman. Roteiro: Jason Reitman, romance de Joyce Maynard. Fotografia: Eric Steelberg. Montagem: Dana E. Glauberman. Música: Rolfe Kent. Figurino: Danny Glicker. Direção de arte/cenários: Steve Saklad/Tracey A. Doyle. Produção executiva: Michael Beugg, Steven M. Rales, Mark Roybal. Produção: Helen Estabrook, Lianne Halfon, Jason Reitman, Russell Smith. Elenco: Kate Winslet, Josh Brolin, Gattlin Griffith, Tobey Maguire, JK Simmons, Tom Lipinski, James Van Der Beek, Maika Monroe, Clark Gregg, Brooke Smith. Estreia: 30/8/13 (Festival de Telluride)
De um sujeito que assinou filmes como o cínico “Obrigado por fumar” (06), o sarcástico “Juno” (07), o cruel “Amor sem escalas” (09) e o ácido “Jovens adultos” (11) pode-se esperar qualquer coisa menos que escolha dirigir uma história de amor daquelas bem recheadas de clichês românticos e personagens heroicos, certo? Errado. Jason Reitman, talvez justamente para não ficar marcado por filmes que não retratam os seres humanos exatamente com simpatia resolveu fazer de seu quinto longa-metragem a adaptação do livro “Refém da paixão”, de Joyce Maynard, uma história de amor bem recheada de clichês românticos e personagens heroicos. A boa notícia? Ele consegue utilizar todos os lugares-comuns da trama a seu favor, construindo um romance delicado, simples e extremamente eficiente, ainda que nunca brilhante ou genial. Contando com atuações acima da média da sua dupla central – o que não é surpresa quando ela é formada por Kate Winslet e Josh Brolin – e revelando o ótimo Gattlin Griffith em um papel crucial, Reitman acerta mais uma vez e conquista o público com sobriedade e sensibilidade.
Situando sua trama no feriado do Dia do Trabalho de 1987 – um dos mais quentes da história – e em um cenário pouco explorado pelo cinemão americano – New Hampshire – Reitman, também autor da adaptação do romance de Maynard, apresenta um conto que apresenta, sem tentativas de soar original ou surpreendente, temas como solidão, depressão, perda da inocência e o despertar do sexo. São elementos já utilizados à exaustão por Hollywood e filmes de todas as nacionalidades, mas com um certo frescor e uma seriedade que torna impossível ao espectador resistir a eles. Justamente por adotar uma narrativa clássica apropriada à história que quer contar, o filho do também diretor Ivan Reitman conduz com simplicidade e sem sobressaltos um filme que em outras mãos menos talentosas certamente esbarraria na monotonia ou na previsibilidade. “Refém da paixão” é escorado em um ritmo que reflete com precisão a temperatura extrema que circunda os personagens – indolente, sexy e por vezes claustrofóbico.
Vivida por uma bela e intensa Kate Winslet, a protagonista do filme é Adele, uma dona-de-casa oprimida por uma depressão crônica tornada ainda pior com o abandono do marido, que a trocou pela secretária. Vivendo em companhia do filho único, o pré-adolescente Henry (Gattlin Griffith) e quase sem sair de casa, Adele resolve romper sua inércia justamente no dia em que Frank Chambers (Josh Brolin), um homem condenado a 18 anos de prisão por assassinato, foge do Hospital onde foi internado para tratar de uma apendicite. Na loja de departamentos onde vai comprar roupas novas para o início das aulas do filho, Adele é obrigada por Frank – sangrando mas nitidamente ameaçador – a levá-lo para sua casa e escondê-lo até a noite, quando então poderá continuar sua fuga. A princípio temerosa – por motivos mais do que óbvios – Adele aos poucos percebe, assim como Henry, que Frank não tem intenções criminosas em relação a eles e surge, então, uma relação amistosa. Assumindo o papel de homem da casa – consertando o carro, a calha, os degraus – e até enfrentando a cozinha – com uma já antológica cena em que os três, como uma família, assam uma torta de pêssegos – Frank acaba por encantar Adele, uma mulher solitária que vê nele uma figura masculina diferente do marido pouco confiável. Henry não demora a notar o interesse da mãe em Frank – e vice-versa – e luta internamente com a felicidade de ver a mãe reagindo ao mundo depois de muito tempo e o medo em relação ao destino de Frank, afinal de contas um foragido da Justiça.

Logicamente, como se trata de uma história de amor, o passado de Frank também é revolvido pelo roteiro, e conta com uma saudável cota de decepções e injustiças. Com flashbacks rápidos entremeados à trama central – e que apresenta Tom Lipinski, um ator idêntico a Josh Brolin fazendo seu papel na juventude – Reitman mostra à plateia que não há motivo para medo: Frank é um homem bom, e é permitido torcer para um final feliz entre ele e Adele. Esse tom de melodrama do filme, ao contrário do que se poderia esperar, funciona à perfeição. Como um bom contador de histórias, o cineasta quer que o público se afeiçoe a seus personagens e o faz com maestria. Fica difícil à plateia não se deixar envolver pelo romance entre Frank e Adele, especialmente porque a química entre Josh Brolin e Kate Winslet transborda pela tela.

Sem que seja preciso apelar para uma cena sequer de sexo, Jason Reitman inunda todas as sequências entre Winslet e Brolin com uma sensualidade à beira do inflamável. São olhares expressivos, toques delicados de mãos, sessões de cozinha e aulas de dança que orquestram a relação perigosa/apaixonada entre os personagens, e tal condição não escapa aos olhos do introvertido Henry, que justamente nesse momento está passando pela fatídica fase de despertar para o sexo oposto – que surge na figura de uma nova moradora da cidade, rebelde e ousada. O contraponto entre a mãe (redescobrindo o prazer e a paixão) e o filho (caminhando para o primeiro amor) surge como uma interessante subtrama, aprofundando os laços entre os dois e confirmando o talento do jovem Griffith em transmitir muito sem precisar falar quase nada. Intercaladas com alguns momentos de suspense bem dosados – o roteiro nunca deixa de lembrar que Frank é um criminoso – as cenas românticas de “Refém da paixão” buscam o familiar, a normalidade e a paz mesmo quando retrata uma situação muito longe da corriqueira. A família postiça de Henry – com um pai bem mais digno do título do que o verdadeiro – lhe oferece mais amor e exemplos do que a original: um contraste inteligente que eleva o filme acima da média do gênero.
Depois de sua metade, quando Adele e Frank resolvem fugir juntos, “Refém da paixão” perde um pouco o ritmo – que recupera no terço final, onde o suspense assume a protagonização em detrimento do romance. Mesmo assim fica difícil não perceber o cuidado da direção em manter uma coerência narrativa e no desenho dos personagens, construídos de forma a jamais trair suas concepções originais. Por mais que possa parecer a princípio, o amor entre a dupla central convence – como o encontro de duas almas torturadas finalmente vendo diante de si a possibilidade de carinho e compreensão. Essa verdade que transparece graças às atuações calorosas de Kate Winslet e Josh Brolin consegue até mesmo deixar perdoável o final um tanto abrupto em que Tobey Maguire assume o papel de Henry na fase adulta e serve como ponte para o desfecho que todos esperavam. É bonito, é coerente e é romântico até a medula. Mas funciona que é uma beleza.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...