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sexta-feira

MEU VIZINHO MAFIOSO

 


MEU VIZINHO MAFIOSO (The whole nine yards, 2000, Franchise Pictures, Lansdown Films, 98min) Direção: Jonathan Lynn. Roteiro: Mitchel Kapner. Fotografia: David Franco. Montagem: Tom Lewis. Música: Randy Edelman, Gary Gold. Figurino: Edi Giguere. Direção de arte/cenários: David L. Snyder/Mary Lynn Deacham. Produção executiva: George Edde, Elie Samaha, Andrew Stevens. Produção: Allan Kaufman, David Willis. Estreia: Bruce Willis, Matthew Perry, Natasha Henstridge, Amanda Peet, Rosanna Arquette, Kevin Pollak, Michael Clarke Duncan. Estreia: 17/02/2000

Às vezes um grande astro de cinema só gostaria de se divertir durante o trabalho - e se, de quebra, ainda divertir o espectador, o lucro é ainda maior. É o que acontece com "Meu vizinho mafioso": nitidamente um veículo para explorar o lado cômico do ator Bruce Willis - com a carreira ressuscitada pelo êxito de "O sexto sentido" (1999) -, o filme de Jonathan Lynn conquista justamente por sua despretensão e frescor. Tirando sarro de sua imagem de galã sem precisar de muito esforço, Willis mostra-se à vontade mesmo tendo que dividir a atenção com um colega de cena especialista em fazer rir. Em seu terceiro trabalho como protagonista no cinema, Matthew Perry - no auge do sucesso da série "Friends" - pela primeira vez tem espaço para oferecer à plateia o que sempre teve de melhor: um timing cômico nunca menos que impecável Em uma parceria inspirada - que levou Willis a fazer uma participação especial no seriado de Perry -, os dois atores valorizam e se sobressaem a um roteiro por vezes engessado (ainda que dotado de boas tiradas e alguns momentos genuinamente engraçados). Não bastasse isso, o elenco ainda conta com um inesperado destaque: a bela Amanda Peet, quase roubando a cena dos colegas mais experientes.

Primeira grande produção hollywoodiana filmada em Montreal (Canadá), "Meu vizinho mafioso" conta a história de Nicholas Oseransky (Matthew Perry), um dentista cuja vida doméstica é um inferno devido à sua impossibilidade de divorciar-se da esposa, Sophie (Rosanna Arquette), a filha de um antigo sócio. Com uma rotina entediante e sem perspectivas, ele se surpreende ao chegar do trabalho e dar de cara com o novo vizinho, que ele reconhece, apavorado, ser Jimmy Tudeski (Bruce Willis), um assassino de aluguel em liberdade condicional depois de ter delatado vários criminosos violentos. Surge entre eles uma inusitada amizade, que entra em conflito quando o pacato cidadão de bem se vê obrigado pela esposa a viajar até Chicago e dar a localização do ex-matador para o filho de seu antigo chefe, Janni Gogolak (Kevin Pollak). Disposto a ignorar as ordens da desagradável cônjuge, Nicholas se vê descoberto por um capanga de Gogolak, o assustador Frankie Figs (Michael Clarke Duncan) - e fica ciente de que ele mesmo está com a cabeça a prêmio. As coisas ficam ainda mais confusas quando ele se apaixona pela ex-mulher de Jimmy, a bela Cynhtia (Natasha Henstridge), e acaba sendo o centro de uma perigosa jogada que coloca os dois inimigos frente à frente. Como se não fosse suficiente, Jimmy se encanta pela secretária de Nicholas, a atraente Jill (Amanda Peet) - que também tem seus segredos bem guardados por trás da imagem de profissional dedicada.

 

Dirigido pelo mesmo Jonathan Lynn que levou Marisa Tomei ao Oscar de atriz coadjuvante por "Meu primo Vinny" (1992), "Meu vizinho mafioso" se escora em dois pilares supremos. O primeiro deles é a trama, repleta de reviravoltas, surpresas, personagens dúbios e uma série de possibilidades (nem todas exploradas pelo roteiro, diga-se de passagem). O outro é seu elenco, que mistura rostos conhecidos, gente nova, belas mulheres e dois atores no auge de seu talento cômico. A união dessas duas bases - tão cruciais mas frequentemente esquecidas pelos produtores - resulta em um filme simpático, do qual é fácil de se gostar mesmo que não consiga deixar de ser apenas uma sessão da tarde divertida e inconsequente. Lynn não é um diretor brilhante, mas acerta ao permitir que Matthew Perry explore seu dom em construir personagens de fácil empatia com a plateia e enfatize o charme cafajeste de Bruce Willis. Ainda que o roteiro se torne um tanto confuso no ato final - culpa do excesso de personagens e da edição pouco criativa  -, a produção cumpre com louvor o que promete, fazendo rir com o absurdo das situações deflagradas por um simples aperto de mão entre vizinhos.

Com uma renda de mais de 100 milhões de dólares coletados pelo mundo - a maior bilheteria da carreira cinematográfica de Matthew Perry -, "Meu vizinho mafioso" acabou sofrendo do mesmo mal dos inesperados sucessos comerciais, dando origem a uma sequência, lançada em 2004 e que fracassou fragorosamente mesmo contando com o mesmo elenco principal. Sinal de que o frescor de uma ideia muitas vezes é tão importante quanto atores na crista da onda. Com direção de Howard Deutch - de "A garota de rosa-shocking" (1986) -, "Meu vizinho mafioso 2" manchou as lembranças positivas de seu original, que felizmente se mantém como um entretenimento dos mais agradáveis.

quinta-feira

A FOGUEIRA DAS VAIDADES

 


A FOGUEIRA DAS VAIDADES (The bonfire of the vanities, 1990, Warner Bros, 125min) Direção: Brian DePalma. Roteiro: Michael Cristofer, romance de Tom Wolfe. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Bill Pankow, David Ray. Música: Dave Grusin. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Richard Sylbert/Joe Mitchell, Justin Scoppa. Produção executiva: Peter Guber, Christine Peters, Jon Peters. Produção: Brian DePalma. Elenco: Tom Hanks, Bruce Willis, Melanie Griffith, Morgan Freeman, Kim Catrall, Saul Rubinek, John Hancock, Rita Wilson, Kirsten Dunst. Estreia: 21/12/90

Sherman McCoy é um bem-sucedido magnata de Wall Street, bem casado e em franca ascensão profissional e financeira. Peter Fallow é um jornalista quase decadente, quase alcóolatra e quase em vias de abandonar a carreira. Uma noite, depois de um encontro, McCoy vê a amante atropelar um jovem negro em um bairro barra-pesada de Nova York e a incentiva a fugir do local, certo de que jamais serão descobertos. Por acaso, Fallow descobre a identidade do dono do veículo e, com a atenção da imprensa, não hesita em divulgá-lo e contar sua história. Exposto na mídia, McCoy se vê perdendo a a família, o respeito, a posição social e até mesmo a liberdade: bode expiatório de uma série de interesses políticos e advogados corruptos, ele se vê diante da ambição de gente como o demagogo reverendo de uma comunidade negra e um promotor público com ambições pouco louváveis. Enquanto sua descida é cada vez mais veloz, o caminho de Fallow rumo ao topo parece inevitável - e ele parece bastante disposto a pagar o preço do sucesso.

As expectativas a respeito da adaptação cinematográficas do best-seller "A fogueira das vaidades" - primeiro livro de ficção de Tom Wolfe - eram altas. Aplaudido pela imprensa e presença constante nas listas dos mais vendidos por meses, o romance de Wolfe - uma obra repleta de ironia e sarcasmo, sem herois e recheado de personagens dúbios e pouco agradáveis - soava como um desafio a quem quer que assumisse a responsabilidade de levá-lo às telas sem perder sua essência amoral. No entanto, desde sua gênese tudo apontava para um potencial desastre, justamente por seu tom pouco disposto a corroborar  a ideia do american way of life. Entre seguir a trama à risca - apostando na capacidade das plateias de abraçar ousadias temáticas e narrativas - e desfigurar a obra original como forma de alcançar uma bilheteria expressiva, a Warner Bros acabou por decidir-se pela segunda opção - o que resultou em críticas violentas e uma resposta ensurdecedora por parte do público: com pouco mais de 15 milhões de dólares de arrecadação mundial (contra um orçamento estimado em 47 milhões), a obra dirigida por Brian De Palma entrou para a história como um dos maiores fracassos de Hollywood, além de ser considerado um dos piores filmes das carreiras de todos os envolvidos - um grupo que conta com nomes poderosos da indústria, como Tom Hanks e Bruce Willis.

 


Antes de iniciar o processo de tornar-se um dos intérpretes mais respeitados de sua geração - com dois Oscar consecutivos de melhor ator -, Tom Hanks foi uma escolha inusitada e corajosa para viver o protagonista, Sherman McCoy, um bem-sucedido magnata de Wall Street, e só entrou em cena depois que Mike Nichols abandonou o barco e, com ele, levou Steve Martin, cujo perfil combinava bem mais com o personagem - antes ainda de Hanks outros nomes importantes chegaram a ser cotados, como Jon Voigt, Kevin Costner, Christopher Reeve e até John Lithgow (o preferido do diretor Brian De Palma) e Chevy Chase (que teria sido a escolha do próprio Tom Wolfe). A entrada de Hanks - assim como a de outros nomes chave do projeto, cortesia do então produtor Peter Guber  - acabou sendo um fator decisivo para o rumo da produção em direção a uma atmosfera bastante distinta do livro original, enfatizada pelo roteiro de Michael Cristofer (outro contratado por Guber): com sua aura de bom moço, Hanks suavizava a personalidade arrogante e amoral de McCoy e de certo modo equilibrava o cinismo do jornalista Peter Fallow, o segundo personagem central da trama - inglês no romance (assim como John  Cleese, que recusou o papel) e americano no cinema (o que não foi o suficiente para convencer Jack Nicholson a entrar no jogo). Em mais uma cartada para chamar a atenção do público, o estúdio ousou novamente e chamou Bruce Willis (em alta pelo sucesso de "Duro de matar", de 1988, mas sem maiores êxitos fora do cinema de ação). A surpreendente dupla formada por Hanks e Willis (mais o tititi em torno do livro de Wolfe) já seria o bastante para garantir notas de jornais, mas as esperadas filas nos cinemas ficaram apenas na vontade: o fiasco de bilheteria e as críticas impiedosas (cinco indicações ao Framboesa de Ouro, incluindo pior filme, atriz, roteiro e diretor) mostraram que nem grandes cineastas e atores de prestígio são imunes a erros gigantescos. Mas afinal de contas, passadas décadas de sua estreia, fica a pergunta crucial: "A fogueira das vaidades" é assim tão ruim?

Apesar de algumas ideias visuais interessantes - o plano-sequência de abertura, a fotografia pouco convencional - e do esforço de Brian De Palma em traduzir o tom artificial do romance através de atuações não naturalistas do elenco (que beira a histeria), o resultado final é decididamente frustrante. O roteiro de Michael Cristofer jamais consegue seduzir o público - talvez pela falta de um personagem com quem haja qualquer identificação, talvez por sua indecisão entre o drama e a comédia - e a escalação do elenco é flagrante ao menos exigente espectador. Tom Hanks é um ator excelente (como seria provado poucos anos depois), mas não acerta o tom de seu Sherman McCoy - não à toa o próprio ator o considera seu pior filme. Bruce Willis tem pouco a fazer com seu Peter Fallow - e quando o faz parece repetir os mesmos trejeitos de um de seus mais famosos personagens até então, na série de TV "A gata e o rato". E Melanie Griffith - escolha de De Palma, com quem havia trabalhado em "Dublê de corpo" (1984) - até tenta ser mais do que apenas uma mulher sensual, mas não alcança todas as nuances que lhe são exigidas - qualquer uma atriz considerada para o papel (Uma Thurman, Robin Wright, Kyra Sedwick) provavelmente teria se saído melhor. Juntos (ao lado de Morgan Freeman e F. Murray Abraham, também subaproveitados), eles parecem perdidos em cena, soterrados pelos artifícios técnicos do diretor e por suas tentativas infrutíferas de imprimir o tom de farsa da trama de Wolfe - deliciosa no papel, bastante problemática na tela.

Uma comédia farsesca que não atinge nem perto de seu potencial crítico, "A fogueira das vaidades" sofreu também com o erro primário de não ser direcionado para uma plateia mais sofisticada - os leitores da obra original - e tentar atingir um público médio que, via de regra, rejeita produções com conceitos menos maniqueístas. Ao deformar o romance de Wolfe para que coubesse em suas ambições comerciais, a Warner acabou com o que de havia de melhor no livro (a perspicaz leitura das ironias da sociedade) e o transformou em um produto mais "palatável" (leia-se superficial e sem nenhuma personalidade). O pífio resultado financeiro e o massacre da crítica apenas refletiram a profusão de equívocos acumulados desde sua concepção. Uma pena!

quarta-feira

A COR DA NOITE

 

A COR DA NOITE (Color of night, 1994, Cinergi Pictures Entertainment/Hollywood Pictures, 121min) Direção: Richard Rush. Roteiro: Matthew Chapman, Billy Ray, estória de Billy Ray. Fotografia: Dietrich Lohmann. Montagem: Jack Hofstra. Música: Dominic Frontiere. Figurino: Jacki Arthur. Direção de arte/cenários: James L. Schoppe/Cynthia McCormack. Produção executiva: Andrew G. Vajna. Produção: Buzz Feitshans, David Matalon. Elenco: Bruce Willis, Jane March, Ruben Blades, Brad Dourif, Lesley Ann Warren, Lance Henriksen, Scott Bakula, Kevin J. O'Connor, Andrew Lowery, Eriq La Salle, Kathleen Wilhoite. Estreia: 19/8/94

Uma trama policial com direito a reviravoltas e pistas falsas; um astro de grande apelo popular; uma jovem e promissora estrela com um cult movie no currículo; e cenas ousadas o bastante para incomodar aos mais conservadores e atrair o público ávido por ver nas telas sequências capazes de falar aos mais básicos instintos. Parecia não haver erro na receita de "A cor da noite", que unia o carisma de Bruce Willis, a sensualidade de Jane March - revelada no polêmico "O amante" (1992) - e um enredo que misturava violência, psicanálise e generosas doses de sexo. Porém, as coisas não saíram conforme o esperado: apesar da bela carreira posterior, no mercado de vídeo, o filme decepcionou - e muito - nas bilheterias e não foi exatamente bem recebido pela crítica. Considerado por March como o filme que atrapalhou sua trajetória como atriz, "A cor da noite" tem, na origem de seu fracasso comercial, um vigoroso embate de bastidores, que prejudicou e tornou ainda mais frágil um projeto arriscado por si só.

Produzido pelo bem-sucedido Andrew G. Vajna - cujos créditos à época já contavam com sucessos de bilheteria como os três primeiros filmes de Sylvester Stallone como Rambo e "O vingador do futuro" (1990), com Arnold Schwarzenegger, e de prestígio, como "Coração satânico" (1986) e "Alucinações do passado" (1990) -, "A cor da noite" chegou ao diretor Richard Rush como uma espécie de pedido de desculpas de Vajna pelos problemas ocorridos durante a produção de "Air América: loucos pelo perigo" (1990), quando o veterano cineasta e roteirista teve o projeto arrancado de suas mãos depois de anos de desenvolvimento. O que deveria ter sido uma bandeira branca, no entanto, piorou ainda mais a situação: ciente de que teria direito ao corte final, Rush descobriu, talvez tarde demais, que teria sua visão sobrepujada aos interesses do produtor. Pior ainda: foi quase demitido logo depois das filmagens (o que é proibido pelo sindicato de diretores) e viu seu trabalho retalhado ao chegar às telas. Com o fiasco do filme nas bilheterias, não demorou para que um jogo de empurra-empurra chegasse à imprensa, com um culpando o outro pelo naufrágio da produção e Rush defendendo sua versão 18 minutos mais longa do que a lançada comercialmente, que, segundo ele, apelava para a nudez gratuita e sufocava o enredo. Rush provavelmente sabia o que estava dizendo: uma comparação entre as duas versões, feita por alguns críticos e uma plateia selecionada em San Francisco concordou com o cineasta de que a sua edição melhorava - e muito - o resultado final.

 

A questão, no entanto, é que, deixada de lado a guerra entre Vajna e Rush, "A cor da noite" é um filme que não chega a se sustentar completamente. A trama central é interessante e sua resolução é até mesmo crível - dentro de seu universo dramático e ficcional -, mas é inegável que a produção soa um tanto artificial, com personagens clichês e sim, um foco na sexualidade que só se justifica pelo sucesso financeiro de filmes como "Instinto selvagem" (1992), que lotou as salas de cinema e transformou Sharon Stone no maior símbolo sexual feminino da década. O roteiro, criado por Billy Ray e re-escrito com Matthew Chapman (que posteriormente estaria por trás do script de "Flores raras", de Bruno Barreto) não consegue escapar das armadilhas comuns ao gênero, abrindo possibilidades intrigantes mas nem sempre aprofundando-as a contento - chega a ser risível a forma com que os pacientes do protagonista são apresentados, mal oferecendo a seus (bons) intérpretes a chance de melhor desenvolvê-los. Atores talentosos como Brad Dourif, Lance Henriksen e Lesley Ann Warren são desperdiçados em diálogos rasos e uma direção pouco criativa - para não dizer preguiçosa. E clímax, que se pretendia chocante e/ou surpreendente, esbarra no tom morno da atuação de Bruce Willis - um bom ator quando bem dirigido, como bem mostraram Quentin Tarantino e M. Night Shyamalan.

A trama de "A cor da noite" é, a princípio, empolgante: Bill Capa (Bruce Willis), um psicanalista de Nova York que, traumatizado com o suicídio de uma paciente diante de seus olhos, resolve passar um tempo com um colega de Los Angeles, Bob Moore (Scott Bakula). Quando Moore é assassinado violentamente, o detetive encarregado do caso, Hector Martinez (Rubén Blades), sugere a Capa que assuma o grupo de analisados da vítima, com o objetivo de descobrir se algum deles é o culpado. Mesmo temeroso em voltar a clinicar, Capa aceita a ideia e passa a prestar atenção nos cinco problemáticos pacientes de Moore, todos eles plenamente capazes de cometer um crime. Nesse meio tempo, Capa acaba seduzido pela bela e misteriosa Rose (Jane March), que pode ou não estar ligada ao caso, ainda que indiretamente.

Para quem procura um filme policial convencional, com alguns momentos de ação e um final relativamente surpreendente, "A cor da noite" é um programa e tanto. Porém, para o público mais exigente não deixa de ser uma decepção: não apenas as cenas de sexo são pouco inventivas como a trama falha em envolver de forma satisfatória - sem falar na armadilha criada pelo próprio enredo, quando precisa esconder algo que só faz sentido quando mostrado claramente. No final das contas, pode ser considerado, como bem disse a publicação oficial dos Framboesas de Ouro, um dos 100 filmes ruins mais divertidos já feitos.

sexta-feira

ENCONTRO ÀS ESCURAS


ENCONTRO ÀS ESCURAS (Blind date, 1987, TriStar Pictures, 95min) Direção: Blake Edwards. Roteiro: Dale Launer. Fotografia: Harry Stradling. Montagem: Robert Pergament. Música: Henry Mancini. Figurino: Tracy Tynan. Direção de arte/cenários: Rodger Maus/Carl Biddiscombe. Produção executiva: Gary Hendler, Jonathan D. Krane. Produção: Tony Adams. Elenco: Bruce Willis, Kim Basinger, John Larroquette, William Daniels. Estreia: 24/3/87

Em maio de 1986, quando começaram as filmagens de "Encontro às escuras", Bruce Willis ainda não era o astro de Hollywood que se tornou após a estreia e o estrondo de "Duro de matar" (1988), mas já tinha a seu favor a popularidade adquirida com o êxito de audiência da telessérie "A gata e o rato", que coestrelava com Cybil Sheppard e que lhe deu visibilidade o bastante para que arriscasse uma carreira no cinema. No entanto, mesmo que seu futuro na tela grande ainda fosse uma incógnita, sua escolha para o papel principal em um filme do festejado Blake Edwards foi uma aposta certeira do estúdio (TriStar Pictures): por mais que a sensualidade de Kim Basinger fosse um atrativo dos maiores (leia-se "9 1/2 semanas de amor"), é certo que o carisma de Willis foi um dos fatores preponderantes para o razoável sucesso da produção, uma comédia romântica despretensiosa que arrecadou perto de 40 milhões de dólares - apesar do pouco caso com que foi recebida pela crítica. Mesmo sendo dirigido por um veterano tão celebrado quanto Edwards (ou talvez justamente por isso), "Encontro às escuras" acabou decepcionando e hoje é mais lembrado por ter sido a estreia de Willis no cinema do que por suas qualidades cômicas - mas, visto sem grandes expectativas, é um filme leve, divertido e simpático, com um sabor delicioso de nostalgia.

A trama até lembra um pouco o sensacional "Depois de horas" (1984), de Martin Scorsese, ao colocar seu protagonista no centro de um furacão provocado pelo desejo por uma mulher - um inferno de tempo limitado (boa parte do filme se passa em uma única noite) e consequências imprevisíveis, com a violência sempre à espreita, ainda que retratada de forma cínica e irônica. No caso do filme de Edwards a vítima é Walter David, um típico yuppie dos anos 1980, um ambicioso executivo perto de ver seu sonho de promoção chegar a suas mãos. Justamente para agradar ao patrão conservador, Walter resolve não aparecer sozinho em um jantar de negócios - e aceita encontrar uma amiga da cunhada mesmo sem saber absolutamente nada a seu respeito (exceto o fato de que a beldade não pode beber "para não sair de si.") Assim como seu irmão, Walter entende equivocadamente a dica e só vai descobrir isso tarde demais. Encantado pela beleza e pelo charme de Nadia Gates (Kim Basinger, morena e com surpreendente timing cômico), Walter insiste em que ela beba alguns goles de champagne antes do compromisso formal com seu chefe. Para seu desespero, porém, o aviso da cunhada se revela um eufemismo, e a tímida Nadia, sob o efeito do álcool, libera uma personalidade tão festiva quanto irresponsável, capaz de destruir a imagem cuidadosamente construída por Walter diante de seus colegas de trabalho. Não bastasse isso, seu ex-noivo, David (John Larroquette), não parece disposto a aceitar tranquilamente o rompimento - e surge como uma sombra no caminho do novo casal.


 

Apostando tanto no humor visual (que tanto deu certo em seus filmes com Peter Sellers) quanto na tentativa de evocar uma atmosfera de pesadelo (mas sem o tom sinistro de uma produção de suspense), Blake Edwards demonstra uma irregularidade incômoda: não apenas a história demora a começar como sofre de uma queda brusca de ritmo no terço final. O roteiro de Dale Launer sofreu diversas alterações até chegar às telas, e o próprio roteirista rejeitou o produto final, que se mostra um cruzamento nem sempre bem-sucedido entre o já citado "Depois de horas", o nonsense "Totalmente selvagem", de Jonathan Demme (lançado em 1986) e as comédias românticas estreladas por Katharine Hepburn e Spencer Tracy. A química entre Bruce Willis e Kim Basinger é precisa, mas nem sempre é aproveitada a contento - a ponto de o casal ser separado por quase todo o último ato. Quando funciona, "Encontro às escuras" faz lembrar os melhores momentos de Blake Edwards. Quando não acontece, deixa um sentimento de frustração que explica a má recepção do filme junto à crítica. Não se pode deixar de perceber a falha do cineasta em manter um ritmo consistente ou construir um mínimo de profundidade em seus personagens, que agem sempre de forma imatura e inconsequente - ok, é uma comédia, mas até mesmo dentro das regras de um gênero específico é possível criar coerência e complexidade.

No início de sua produção, "Encontro às escuras" teria Madonna como atriz principal - na época em que a cantora estava flertando fortemente com o cinema, estrelando filmes divertidos como "Procura-se Susan desesperadamente" (1985) e "Quem é esta garota?" (1987). A substituição por Kim Basinger se deu quando a polêmica estrela pop descobriu que Bruce Willis já havia sido contratado como o astro do filme, o que a impediria de impor seu então marido Sean Penn no papel central. Não que Penn precisasse - hoje é um dos melhores atores em atividade em Hollywood -, mas o projeto em conjunto do casal talvez apagasse o fiasco de "Surpresa de Shangai", que fizeram em 1986 e pelo qual haviam sido apedrejados pela crítica e ignorados pelo público. É difícil dizer se o resultado seria melhor ou pior do que a versão estrelada por Bruce Willis e Kim Basinger - mas, a julgar por boa parte das produções lideradas por Madonna em suas incursões na tela grande, não teria sido um ponto alto de sua carreira. Para Willis, no entanto, foi um belo pontapé inicial de uma trajetória admirável que inclui sucessos acachapantes de bilheteria ("O sexto sentido", de 1999) e produções de extremo prestígio ("Pulp fiction: tempo de violência", de 1994).

 

segunda-feira

A GUERRA DE HART

A GUERRA DE HART (Hart's war, 2002, MGM Pictures, 125min) Direção: Gregory Hoblit. Roteiro: Billy Ray, Terry George, romance de John Katzenbach. Fotografia: Alar Kivilo. Montagem: David Rosenbloom. Música: Rachel Portman. Figurino: Elisabetta Beraldo. Direção de arte/cenários: Lilly Kilvert/Patrick Cassidy. Produção executiva: Wolfgang Glattes. Produção: David Foster, Gregory Hoblit, David Ladd, Arnold Rifkin. Elenco: Bruce Willis, Colin Farrell, Terrence Howard, Cole Hauser, Linus Roache, Marcel Iures, Vicellous Shannon, Sam Jaeger, Rory Cochrane, Sam Worthington, Adrian Grenier. Estreia: 15/02/02

Parecia que tudo estava no caminho certo: um ator veterano (Bruce Willis) com a carreira ressuscitada por um imenso sucesso comercial ("O sexto sentido", de 1999), um jovem astro em ascensão (Colin Farrell, revelado por Joel Schumacher em "Tigerland: a caminho da guerra", de 2000), um assunto sempre fascinante e capaz de despertar a atenção do público (a II Guerra Mundial) e um gênero querido pela plateia desde sempre (filmes de tribunal) - dirigido por um cineasta que já tinha experiência no ramo (Gregory Hoblit, que assinou o ótimo "As duas faces de um crime", de 1996). Alguma coisa, porém, não correu como o esperado para "A guerra de Hart": com um custo estimado de 70 milhões de dólares, o filme simplesmente se espatifou nas bilheterias americanas (rendeu menos de 20 milhões em toda a sua carreira comercial) e não cativou nem mesmo o público internacional (arrecadou pouco mais de 13 milhões em todo o mundo). Não bastasse o fracasso financeiro, a crítica igualmente não ficou entusiasmada com o resultado final - e a produção acabou sendo relegada a um tímido segundo plano nas trajetórias de seus dois atores principais. O pior é que, ao contrário de muitos fracassos injustos que volta e meia assombram Hollywood, "A guerra de Hart" mereceu seu destino: apesar dos valores de produção caprichados, é um filme preguiçoso e sonolento, que não acrescenta nada ao gênero.

Baseado em um romance de John Katzenbach - livro, aliás, que um dos roteiristas, Billy Ray, admite não ter lido, uma vez que embarcou no projeto quando várias versões da trama já existiam, escritas pelo veterano Terry George - e inspirado pelo tempo em que o pai do escritor, Nicholas Katzenbach, passou como prisioneiro durante a II Guerra Mundial, "A guerra de Hart" se ressente, também, de um foco narrativo mais claro. Ao misturar vários gêneros, acaba se perdendo em um emaranhado de reviravoltas e tentativas de clímax que, ao contrário de surpreender o espectador, apenas deixam a estória ainda mais confusa e sem sentido. Começa como um drama de guerra, transforma-se em um filme de tribunal e acaba com uma mistura muito estranha dos dois estilos - com um desfecho morno que desperdiça até mesmo o talento de coadjuvantes excelentes, como Terrence Howard e Marcel Iures, perdidos em um texto quase esquizofrênico.


A trama se passa no final da II Guerra, quando o jovem Tenente Tommy Hart (Colin Farrell) é capturado por soldados alemães e, depois de alguns dias preso e interrogado, é enviado a um campo de prisioneiros, onde trava contato com o Coronel William McNamara (Bruce Willis) - o oficial superior que ainda mantém sua autoridade sobre os soldados norte-americanos aprisionados. Não demora muito para que Hart, um burocrata da guerra, perceba a realidade do conflito mesmo dentro de sua estalagem - onde colegas não são exatamente exemplos de solidariedade e companheirismo. As coisas ficam ainda mais explosivas quando chegam ao local dois pilotos negros, Lincoln Scott (Terrence Howard) e Lamar Archer (Vicellous Reon Shannon), uma presença inesperada que deixa bem claro o tom racista dos soldados e oficiais. A morte injusta de Archer e a prisão de Scott - acusado de assassinar um colega - acentuam a tensão, especialmente quando McNamara convoca Hart (um estudante de Direito) a ser o advogado de defesa de Scott em uma corte marcial. O julgamento começa, sob a supervisão do comandante alemão Oberts Werner Visser (Marcel Iures) - mas nem tudo é exatamente o que parece, e Hart irá precisar de todo o seu código de ética para desviar-se de um veredicto já facilmente previsível.

A princípio um projeto de Alfonso Cuarón, "A guerra de Hart" acabou nas mãos de Gregory Hoblit quando o cineasta mexicano optou por uma produção mais pessoal, o elogiado "E sua mãe também" - que lhe valeu uma indicação ao Oscar de roteiro original. A entrada de Hoblit, porém, parecia um tiro certo - logo que entrou em cena, nomes como Edward Norton e Tobey Maguire foram cotados para integrar o elenco, no papel que mais tarde ficaria com Colin Farrell, um nome que começava a tornar-se conhecido do público, principalmente por dividir a tela com Tom Cruise em "Minority report: a nova lei", dirigido por ninguém menos que Steven Spielberg. Farrell, no entanto, não poderia imaginar que seria tão subaproveitado: sofrendo ao tentar dar dignidade e coerência a um roteiro indeciso, o ator irlandês não consegue nem ao menos demonstrar o carisma revelado em seus trabalhos anteriores, preso a uma direção frouxa e um personagem incapaz de conquistar a torcida do espectador - e também não ajuda ter Bruce Willis no piloto automático e um final decepcionante. No fim das contas, "A guerra de Hart" é um filme que tinha tudo para marcar época mas que terminou vítima de uma grave crise de identidade. Só recomendado para os fãs incondicionais dos atores!

domingo

PENSAMENTOS MORTAIS

PENSAMENTOS MORTAIS (Mortal thoughts, 1991, Columbia Pictures, 102min) Direção: Alan Rudolph. Roteiro: William Reilly, Claude Kerven. Fotografia: Elliot Davis. Montagem: Tom Walls. Música: Mark Isham. Figurino: Hope Hanafin. Direção de arte/cenários: Howard Cummings/Beth Kushnick. Produção executiva: Stuart Benjamin, Taylor Hackford. Produção: John Fiedler, Mark Tarlov. Elenco: Demi Moore, Bruce Willis, Glenne Headly, Harvey Keitel, John Pankow. Estreia: 19/4/91

Louvado desde sua estreia por sua sofisticação visual e pelo não convencionalismo de sua narrativa, exemplificados em filmes como "Choose me" (84) e "Moderns" (88), o cineasta Alan Rudolph, que começou a carreira como assistente de Robert Altman sempre foi considerado um estranho no ninho dentro da indústria de Hollywood. Por isso, não deixa de ser uma surpresa ver seu nome nos créditos de "Pensamentos mortais", um produto puramente comercial que, lançado em 1991, surfava na onda do sucesso e do prestígio de Demi Moore - recém saída do estrondoso sucesso de "Ghost: do outro lado da vida" (90). Um policial acadêmico e sem maiores arroubos de criatividade - ainda que contado de maneira razoavelmente envolvente -, o filme de Rudolph carece da personalidade própria de seu diretor, mas merece aplausos por tirar tanto Demi quanto seu então marido Bruce Willis de sua zona de conforto, apresentando personagens pouco simpáticos e desprovidos de glamour ou empatia. Com um custo irrisório de apenas 8 milhões de dólares, "Pensamentos mortais" não fez o sucesso esperado - rendeu menos de 20 milhões no mercado doméstico - e tampouco agradou à crítica. É um filme que fica em um incômodo meio-termo entre suas pretensões comerciais e seu desejo de sobressair-se artisticamente de outras produções do gênero.

Na verdade, Rudolph assumiu o comando depois que o diretor escolhido, Claude Kerven, um dos roteiristas, foi demitido, às vésperas do começo das filmagens. A essa altura do campeonato, outras mudanças já haviam sido efetuadas no projeto, como a entrada de Demi Moore como co-produtora e a subsequente escalação de Bruce Willis para o papel crucial - mas no primeiro tratamento de roteiro bastante pequeno - de James Urbanski, o pivô de toda a trama. Ficando com o papel que foi cogitado para Robin Wright, Demi não foi a única substituição do elenco: devido ao atraso no início dos trabalhos, Peter Gallagher pulou do barco e deu lugar a John Pankow para interpretar Arthur, o outro personagem masculino da história. Para viver a melhor amiga de Demi, foi escolhida Glenne Headly - recém-vinda do sucesso "Dick Tracy" - e na pele do detetive de polícia John Woods, ficou o veterano Harvey Keitel (em vias de embarcar no imenso êxito de "Thelma & Louise", de Ridley Scott). Equipe (bem) escolhida e uma corajosa escolha de tema - bem distante dos romances açucarados estrelados por Demi ou dos filmes de ação com Willis. Mas algo não deu certo na combinação de ingredientes.


Não que "Pensamentos mortais" seja um filme irremediavelmente ruim. Pelo contrário, tem algumas ideias muito boas, ainda que não necessariamente novas, como a utilização de flashbacks como forma principal de narrativa. Tal recurso, utilizado com razoável competência (em parte graças à edição de Tom Walls), é que serve de base para o desenvolvimento de um roteiro cujos personagens não são, a princípio, exatamente o que parecem ser. A ciranda de acontecimentos trágicos e inesperados que se sucedem conforme a trama vai se desenrolando é apresentada com um tom seco, apropriado à história, e mantém o interesse do espectador até os últimos minutos, quando finalmente toda a verdade vem à tona. É um enredo simples, tornado complexo pelas constantes reviravoltas. É um filme que cairia como uma luva nas mãos de um cineasta menos sutil, mais afeito ao roteiro do que ao estilo. Talvez Alan Rudolph seja cool demais para uma história tão sórdida, com personagens tão pequenos e rotinas tão mundanas. A impressão que se tem é que o diretor tenta enfeitar a crueldade e a aridez da trama com uma aura de cinema europeu - o que não apenas não funciona como acaba por estragar a maior qualidade do texto.

Tudo bem, Demi Moore tampouco funciona no papel principal, ainda que se esforce. Mas é louvável que tenta tentado fugir do estereótipo de símbolo sexual para viver Cynthia Kellogg, uma cabeleireira que é chamada à delegacia para dar seu depoimento a respeito de um violento homicídio. Não demora a ser revelado que a vítima é James Urbanski (Bruce Willis), o detestável marido de Joyce (Glenne Headly), sua sócia e melhor amiga. Aos poucos o detetive John Woods (Harvey Keitel) vai arrancando de Cynthia todos os detalhes da rotina doméstica do casal, recheada de brigas violentas, e chega até o dia do crime. Quem matou James? Por que? Em que circunstâncias? E o que Arthur (John Pankow), o marido de Cynthia, tem a ver com a história? Tentando responder a essas perguntas clássicas de um filme policial, o roteiro joga pistas e informações sem muita criatividade, seguindo apenas a estrutura clássica de gato e rato há muito consagrada pela literatura e pelo cinema. Bruce Willis é o grande destaque do elenco, excelente como o odioso James Urbanski, e é uma pena que sua participação seja tão curta. Mas ainda assim, a beleza de Demi e o final (mais ou menos) surpreendente fazem do resultado final um produto a que se assiste com facilidade - o problema é que, além de facilmente assistível, é também facilmente esquecível. Um Supercine de luxo!

terça-feira

MOONRISE KINGDOM

MOONRISE KINGDOM (Moonrise kingdom, 2012, Indian Paintbrush/American Empirical Pictures, 94min) Direção: Wes Anderson. Roteiro: Wes Anderson, Roman Coppola. Fotografia: Robert D. Yeoman. Montagem: Andrew Weisblum. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Kasia Walicka-Maimone. Direção de arte/cenários: Adam Stockhausen/Kris Moran. Produção executiva: Sam Hoffman, Mark Roybal. Produção: Wes Anderson, Jeremy Dawson, Steven Rales, Scott Rudin. Elenco: Jared Gilman, Kara Hayward, Bruce Willis, Edward Norton, Frances McDormand, Bill Murray, Tilda Swinton, Bob Balaban, Jason Schwartzman. Estreia: 16/5/12 (Festival de Cannes)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

O órfão Sam (Jared Gilman) foge do acampamento de escoteiros onde se sente deslocado e solitário e parte ao encontro da garota que ama, Suzy (Kara Hayward), uma menina negligenciada pelos pais advogados que administram a casa de forma rígida e pouco amorosa e a consideram uma criança-problema. Os dois pré-adolescentes - que enxergam um no outro o amor e a compreensão que tanto necessitam - resolvem refugiar-se no bosque, contando apenas com os truques aprendidos por Sam em seu período no escotismo e com o toca-discos e os livros fantasiosos de Suzy. Sua fuga, porém, abala os adultos que deveriam ser seus responsáveis, e uma busca aflita tem início, unindo os pais da jovem, o xerife local, o chefe dos escoteiros e até uma assistente social que precisa dar um rumo à vida do menino após a desistência de sua última família adotiva.

Fosse escrito e dirigido por um cineasta mais afeito às convenções das comédias românticas adolescentes, "Moonrise kingdom" fatalmente contaria sua história de forma convencional, sentimental e com um senso de humor óbvio e pasteurizado. No entanto, sob o comando de Wes Anderson, o resultado é completamente o oposto. Dono de uma obra no mínimo excêntrica - que inclui os elogiados "Três é demais" e "Os excêntricos Tenenbaums" - o cineasta americano usa e abusa de todas as características singulares que fazem de sua filmografia um estranho no ninho na indústria hollywoodiana (personagens bizarros, humor singular e uma narrativa com ênfase no visual extravagante) para transformar um singelo conto de amor juvenil em um filme que nada contra a corrente do gênero. Mesmo que tenha surgido das memórias afetivas de seu diretor - que divide o roteiro com Roman Coppola, filho de Francis e irmão de Sofia - "Moonrise kingdom" não se deixa dominar pela nostalgia e pela melancolia: é um produto típico de seu autor, capaz de encantar a quem busca um cinema menos comum ou aborrecer o espectador mais tradicional.


Situando sua trama na década de 60 - o que possibilita um espetáculo à parte no desenho de produção e figurinos - Wes Anderson foge habilmente do lugar-comum das histórias de amor por não apostar todas as suas fichas no romance entre os inábeis mas bem-intencionados Sam e Suzy. Dividindo o foco narrativo em duas frentes, ele equilibra a delicadeza de uma nascente história de amor com o humor sutil e inteligente que surge da busca frequentemente equivocada dos adultos por seu pátrio poder - mesmo que ele não venha necessariamente dos pais. Ao tratar os adolescentes como heróis da história e relegar os mais velhos a uma situação de quase absoluta insensatez, o roteiro indicado ao Oscar - perdeu para "Django livre", de Quentin Tarantino - oferece à audiência uma saudável reversão de expectativas que encontra em seu brilhante elenco um invejável respaldo artístico. Ao colaborador habitual do cineasta, Bill Murray (que interpreta o pai de Suzy), juntam-se Frances McDormand (como a mãe da garota, uma mulher que comanda a casa através de um megafone), Edward Norton (no papel do incompetente chefe dos escoteiros), Bruce Willis (como o bem-intencionado xerife que tem um caso com a mãe da jovem desaparecida) e Tilda Swinton (no papel pequeno mas crucial da assistente social que chega ao cenário para aumentar a confusão).

Filme que abriu o Festival de Cannes 2012, "Moonrise kingdom" é um perfeito exemplar da cinematografia de Wes Anderson, que logo em seguida finalmente seria consagrado com o fantástico "O Grand Hotel Budapeste". Longe de ser hermético ou visualmente excitante apenas por sê-lo, é um filme agradável, plasticamente ousado e leve como convém a uma comédia romântica. Mas é, também, inteligente e adorável. Peca em não aprofundar adequadamente seus personagens, mas é um detalhe de pouca relevância diante de outras qualidades tão óbvias.

domingo

A MORTE LHE CAI BEM

A MORTE LHE CAI BEM (Death becomes her, 1992, Universal Pictures, 104min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Martin Donovan, David Koepp. Fotografia: Dean Cundey. Montagem: Arthur Schmidt. Música: Alan Silvestri. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Rick Carter/Jackie Carr. Produção: Steve Starkey, Robert Zemeckis. Elenco: Meryl Streep, Goldie Hawn, Bruce Willis, Isabella Rossellini, Sydney Pollack. Estreia: 31/7/92

Vencedor do Oscar de Efeitos Visuais

Depois que mostrou que desenhos animados e atores poderiam conviver pacificamente em uma tela de cinema com o incrível sucesso de crítica e bilheteria de "Uma cilada para Roger Rabbit" (88) e que viagens no tempo poderiam ser incrivelmente divertidas com a trilogia "De volta para o futuro", encerrada em 1989, quase tudo era esperado do diretor Robert Zemeckis. Quase tudo, menos que ele partisse sem pestanejar pelo pantanoso terreno do humor negro - em especial com um filme que criticasse sem o menor pudor a busca desesperada pela eterna juventude que tanto alimenta a fogueira das vaidades do mundo artístico. De posse de efeitos visuais impecáveis que acabariam levando o Oscar do ano seguinte e um trio de atores respeitados e populares, Zemeckis, no entanto, encarou um banho de água fria quando seu "A morte lhe cai bem" estancou nas bilheterias ianques pouco abaixo dos 60 milhões de dólares - praticamente o orçamento final do projeto. Um dos típicos fracassos injustos de que a história de Hollywood está repleta, a história de inveja, vingança e competição entre duas inimigas que disputam o amor do mesmo homem - não por acaso um cirurgião plástico - às raias do absurdo é um primor de ironia, sarcasmo e mordacidade, interpretado como um filme de terror das antigas mas revestido de uma modernidade de que somente o cinemão mainstream americano seria capaz sem cair no ridículo.

A trama é puro nonsense: começa quando o bem-sucedido cirurgião Ernest Menville (Bruce Willis se divertindo em papel que seria de Kevin Kline) troca sua então noiva, Helen Sharp (Goldie Hawn), pela estrela dos palcos Madeline Ashton (Meryl Streep), mais interessada em seus talentos médicos do que exatamente por seu amor. Revoltada, Helen, que sempre manteve uma relação tumultuada com Madeline, a quem acusa de roubar sistematicamente seus namorados, se entrega à comida, engordando alucinadamente. Anos se passam e justamente quando o casamento entre Madeline e Ernest está em frangalhos - ele parou de clinicar por causa do álcool e trabalha maquiando cadáveres e ela está se sentindo cada vez mais velha, sendo desprezada até pelo amante mais jovem - Helen dá sinais de vida, mandando o convite para o lançamento de seu livro. Glamourosa, carismática, magra - e melhor ainda, dotada de uma jovialidade espantosa - ela acaba por seduzir novamente Ernest e planeja, com ele, a morte de sua maior rival. O que ela não esperava, no entanto, é o fato de Madeline ter encontrado uma nova fonte da juventude através da misteriosa Lisle Von Rhuman (Isabella Rossellini, linda). Dotada de uma nova força, ela se descobre imortal - mas também verá que tal benefício também tem seus pequenos problemas.


O tom gótico da brincadeira de Zemeckis está presente em cada minuto de celulóide - desde a chuva incessante, com direito a relâmpagos, que emoldura os momentos em que as duas rivais imortais se digladiam com espingardas, pás e agressões físicas das mais variadas, até nos mirabolantes cenários, que reconstituem mansões pra lá de sinistras. O roteiro brinca com a obsessão pela juventude e pela beleza na forma de uma fábula grotesca, sem heróis ou vilões e recheada de citações à cultura popular (entre os convidados da festa de Lisle, por exemplo, estão alguns de seus mais famosos clientes, facilmente reconhecíveis pelo público, mas que não convém revelar sob pena de estragar a surpresa aos ainda não-iniciados ao filme). Os efeitos especiais de primeira linha também chamam a atenção por se integrarem organicamente à história, divertindo o público pelo inusitado de seu visual: de repente, Meryl Streep, uma atriz respeitada e então vencedora de dois Oscar, está com o pescoço torcido ao contrário ou com a cabeça enterrada no corpo, e Goldie Hawn levanta da piscina com um rombo gigantesco no estômago, resultado de um tiro. Tais truques, realizados com perfeição, acabaram levando o Oscar da categoria, batendo filmes bem mais afeitos a tais artifícios, como "Alien 3" e "Batman, o retorno".

É lógico que o público acostumado com besteiras inconsequentes e filmes de ação descerebrados não gostou de "A morte lhe cai bem". Apesar de tudo, a obra de Zemeckis é sutil e inteligente, passando longe do humor fácil e previsível. É uma crítica pesada ao culto à beleza e à juventude, disfarçada de comédia gótica e repleta de piadas visuais e verbais que podem facilmente passar despercebidas ao espectador menos atento e informado dos bastidores da indústria do entretenimento. Para aqueles que buscam uma diversão menos superficial, porém, o filme é deliciosamente perverso, algo como uma versão high-tech de um filme estrelado por Bette Davis e Joan Crawford. Impagável!

terça-feira

ALPHA DOG

ALPHA DOG (Alpha dog, 2006, Sidney Kimmel Entertainment, 122min) Direção e roteiro: Nick Cassavetes. Fotografia: Robert Fraisse. Montagem: Alan Heim. Música: Aaron Zigman. Figurino: Sarah Jane Slotnick. Direção de arte/cenários: Dominic Watkins/Faince MacCarthy. Produção executiva: Robert Geringer, Marina Grasic, Andreas Grosch, Avram Butch Kaplan, Jan Korbelin, Steve Markoff. Produção: Sidney Kimmel, Chuck Pacheco. Elenco: Bruce Willis, Sharon Stone, Emile Hirsch, Justin Timberlake, Ben Foster, Shawn Hatosy, Anton Yelchin, Dominique Swain, Amanda Seyfried, Harry Dean Stanton, Lukas Haas. Estreia: 27/01/06 (Festival de Sundance)

Em 1994, Larry Clark tornou-se um nome quente dentro de Hollywood graças ao controverso "Kids", que narrava o estilo de vida de um grupo de adolescentes que passava os dias às voltas com drogas pesadas e sexo promíscuo. O filme - que lançou as carreiras de Rosario Dawson e Chloe Sevigny - chocou o público e despertou acaloradas discussões, mas falhava flagrantemente em ser bom cinema, talvez pela vocação de seu diretor, mais propenso ao escândalo do que a uma boa história. Reprovado no teste do tempo, "Kids" é, hoje em dia, no máximo o retrato cru de uma geração perdida. Em oposição a essa sua fragilidade narrativa, outro filme com temática semelhante - e lançado mais de uma década depois - consegue ser muito mais eficaz e impactante: "Alpha dog", escrito e dirigido por Nick Cassavetes, é contundente e tocante na mesma medida, proporcionando ao público tanto um filme policial angustiante quanto um drama familiar potente e dramaticamente sólido.

Baseado em um fato real - do qual Cassavetes foi obrigado a fazer pequenas alterações por motivos judiciais - "Alpha dog" é uma denúncia de grande impacto, sem nunca transformar-se, porém, em uma obra panfletária e vazia. Excepcional diretor de atores (herança de seu pai, o ator e diretor John Cassavetes), Nick arranca de seu elenco - tanto o veterano quanto o jovem - interpretações de grande intensidade, devido em parte ao roteiro realista e repleto de cenas que dão espaço a belos trabalhos de construção de personagens. Ben Foster, por exemplo, brilha como Jake Mazursky, jovem viciado em drogas explosivo e violento que acaba sendo o catalisador da tragédia ao dever dinheiro - e um tanto de respeito - ao traficante Johnny Truelove (Emile Hirsch, sensacional), filho de uma família de classe média desacostumado a ter seus caprichos negados. Furioso com a dívida e com as agressões de Mazursky, Truelove resolve, em um impulso inconsequente, sequestrar seu irmão caçula, Zach (Anton Yelchin, na medida exata de ingenuidade e docilidade), de apenas 15 anos. Enquanto a família do rapaz entra em desespero com seu desaparecimento, o traficante confia a seu melhor amigo, Frankie (Justin Timberlake), a posse do menino. Zach, um garotão virgem e em conflito com a mãe superprotetora (Sharon Stone), vê em Frankie e seu grupo - cercado de belas garotas e uma liberdade com que apenas sonha em sua casa - uma nova forma de vida e nem de longe percebe que, quanto mais o tempo passa, menores ficam suas chances de ser libertado.


Abrindo seu filme com vídeos caseiros de seus atores jovens ao som de "Over the rainbow" - e encerrando com a bela "Wild is the wind", na voz de David Bowie - Nick Cassavetes tem a sensibilidade ideal para contar uma história sufocante, que constrói sua tensão passo a passo, que permite à audiência entender os atos de seus protagonistas por mais equivocados que eles estejam. É certo que a simpatia da plateia fica com Zach, o inocente útil pego no meio de um furacão, mas o carisma de Justin Timberlake e Emile Hirsch consegue amenizar a falta de caráter de seus personagens - em especial de Frankie, criado por Timberlake com um misto de insegurança e compaixão que quase lhe transforma em mais uma vítima da violência que ele mesmo causa - voluntariamente ou não. E é fascinante a maneira como Cassavetes extrai de Sharon Stone seu melhor desempenho desde sua indicação ao Oscar por "Cassino", realizado onze anos antes: a entrevista de sua personagem no desfecho do filme é, provavelmente, uma das cenas mais emocionalmente brutais do cinema americano independente dos últimos anos.

"Alpha dog" é violento, é triste, é chocante. Conquista o público com personagens amorais e pouco simpáticos justamente por sua neutralidade ao falar de um estilo de vida irresponsável e cínico, capaz de destruir vidas sem grandes remorsos. E é o melhor trabalho de um cineasta que gosta de atores e de personagens de carne-e-osso, coisa rara na robotizada Hollywood das grandes bilheterias.

domingo

PLANETA TERROR


PLANETA TERROR (Grindhouse: Planet Terror, 2007, Dimension Films, 105min) Direção, roteiro, fotografia e música: Robert Rodriguez. Montagem: Ethan Maniquis, Robert Rodriguez. Figurino: Nina Proctor. Direção de arte/cenários: Steve Joyner/Jeanette Scott. Produção executiva: Sandra Condito, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Elizabeth Avéllan, Robert Rodriguez, Quentin Tarantino. Elenco: Freddy Rodriguez, Rose McGowan, Josh Brolin, Marley Shelton, Jeff Fahey, Michael Bihen, Bruce Willis, Naveen Andrews, Stacey Ferguson, Tom Savini. Estreia: 15/10/07

Dentro da indústria hollywoodiana existe um universo particular para os filmes de Quentin Tarantino e Robert Rodriguez. Amigos e partidários do mesmo estilo de fazer cinema, os dois cineastas encontraram em "Grindhouse" o projeto ideal. Fãs de filmes baratos antigos, eles tiveram a ideia de um programa duplo, como acontecia em alguns cinemas americanos nos anos 60 e 70, com produções violentas e sexies que faziam a festa de um público bastante específico. Seu plano - genial no papel e comemorado aos quatro ventos pelos admiradores de seu trabalho - não se mostrou tão bem-sucedido quando transposto para a vida real. Lançado nos cinemas ianques em outubro de 2007, o projeto espatifou-se nas bilheterias, o que ocasionou a divisão entre os dois filmes para lançamento mundial. Vistos juntos talvez realmente a coisa seja um tanto cansativa, mas separado de "À prova de morte", o filme de Robert Rodriguez, "Planeta Terror" é um programaço para quem gosta de cinemão trash.

Exercitando seu gosto por cinema barato, Rodriguez não deixa pedra sobre pedra nessa história bizarra sobre zumbis criados através de uma arma química - trama criada durante as filmagens de seu "Prova final", de 1998. Sem preocupar-se exageradamente com coerência e verossimilhança, o cineasta (que acumula as funções de diretor, roteirista, diretor de fotografia, produtor e autor da música original) assina uma brincadeira entre amigos repleta de sangue, vísceras expostas, feridas purulentas e personagens amorais. Apresentando um visual propositalmente sujo - o que talvez tenha causado estranheza aos frequentadores ocasionais do universo proposto por ele - "Planeta Terror" usa e abusa de ranhuras na imagem, granulação e efeitos visuais toscos, chegando ao cúmulo de pular uma sequência inteira (porque, segundo os exibidores fake do filme o rolo foi perdido). É preciso embarcar sem restrições na viagem de Rodriguez. Feito isso, é entretenimento de primeira.


O heroi de "Planeta Terror" é o misterioso El Wray, interpretado por Freddy Rodriguez, o Federico da série "Six feet under" - em mais uma ousadia louvável do cineasta, preferindo um protagonista atípico e sem o apelo comercial que normalmente se espera de uma produção com ambições de tornar-se um sucesso de bilheteria. Mais baixo do que os galãs da tela e praticamente desconhecido, Rodriguez é um trunfo artístico que não deixa a oportunidade passar batida. Ele vive um mecânico do Texas que se vê envolvido em uma apavorante experiência quando sua ex-namorada e ainda forte paixão Cherry (Rose McGowan) é atacada por um grupo de zumbis, que lhe arranca a perna direita. No hospital, ele percebe que a cidade está sendo tomada por esse grupo de monstros e se une a uma espécie de esquadrão disposto a eliminá-los. A situação ainda é mais complicada quando todos eles descobrem que tudo na verdade é consequência de um experimento químico do governo americano.

Está tudo presente em "Planeta Terror": mulheres fatais (e fortes), diálogos deliciosamente forçados, vilões crudelíssimos (em especial o médico interpretado por Josh Brolin), podreira extrema. Rodriguez se dá ao luxo inclusive de brincadeiras muito específicas para quem conhece o gênero grindhouse: para quem não sabe, era comum que os produtores utilizassem um astro conhecido para estampar os cartazes e chamar público, mesmo que eles participassem de pouquíssimas cenas (e normalmente filmada sem a participação de outros membros do elenco). Em seu filme, o homem que chamou a atenção por realizar "El Mariachi" com apenas 7 mil dólares em 1992 conseguiu com que Bruce Willis topasse entrar na jogada. Prestem atenção e percebam que Willis - em um papel pequeno mas crucial - não contracena diretamente com ninguém...

Brilhantemente editado e dotado de um senso de humor inteligente, "Planeta Terror" é um cult movie por excelência, que apresenta inclusive a icônica imagem de uma Cherry com uma arma no lugar a perna direita. Infelizmente na versão solitária não consta todos os falsos trailers criados por Tarantino e Rodriguez para acompanhar o filme. Resta apenas o sensacional "Machete" - que agradou tanto aos espectadores que ganhou uma produção inteira, estrelada pelo podreira Danny Trejo. Saiba do que se trata e se divirta de montão.

segunda-feira

SIN CITY, A CIDADE DO PECADO

SIN CITY, A CIDADE DO PECADO (Sin City, 2005, Dimenson Films, 124min) Direção: Frank Miller, Robert Rodriguez, Quentin Tarantino. Roteiro: HQ de Frank Miller. Fotografia e montagem: Robert Rodriguez. Música: John Debney, Graeme Revell, Robert Rodriguez. Direção de arte/cenários: Steve Joyner,Jeanette Scott/David Hack, Jeannette Scott. Produção executiva: Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Elizabeth Avellan. Elenco: Bruce Willis, Mickey Rourke, Benicio Del Toro, Clive Owen, Brittany Murphy, Michael Madsen, Rutger Hauer, Elijah Wood, Nick Stahl, Michael Clarke Duncan, Powers Boothe, Josh Hartnett, Jessica Alba, Rosario Dawson. Estreia: 28/3/05

Depois do sucesso estrondoso de "X-Men" e "Homem-aranha" as adaptações de histórias em quadrinhos para as telas de cinema viraram moeda corrente em Hollywood, com resultados os mais diversos, tanto em termos de qualidade quanto de bilheteria. Mas ninguém em sã consciência poderia imaginar que uma adaptação fosse tão longe em fidelidade quanto "Sin City, a cidade do pecado", dirigida, produzida, fotografada, editada e musicada (ufa!) por Robert Rodriguez, que, de posse de praticamente todo e qualquer controle sobre a obra, ainda teve a ousadia de co-assinar a direção com o criador das histórias em papel, Frank Miller. O sindicato de diretores não gostou e expulsou Rodriguez de seu quadro. A plateia náo se deu ao trabalho de se interessar por isso, encantada que estava com o resultado final do trabalho dos co-diretores (que ainda contaram com a luxuosa ajuda de Quentin Tarantino em uma cena). Mais do que a transição de uma história em quadrinhos para a tela de cinema, "Sin City, a cidade do pecado" - subtítulo absolutamente desnecessário - é uma pequena obra-prima dentro de um subgênero do qual provavelmente é o mais bem acabado produto.

Assim como nas publicações editadas, o filme "Sin City" é dividido em histórias independentes que vez ou outra se cruzam sutilmente. O primeiro segmento - que serviu como uma espécie de teste visual para o sinal verde dos produtores - é uma pequena cena estrelada pelo sempre péssimo Josh Hartnett, e nem ele consegue estragar o impacto que esses poucos minutos causam no espectador. A partir daí, o que se segue é um festival de violência, clima noir e uma sensação de ineditismo que faz das duas horas seguintes uma experiência rica e empolgante.



A trama começa pra valer quando o policial Hartigan (Bruce Willis, talvez um pouco novo demais para o papel) consegue impedir um jovem psicopata (vivido por um irreconhecível Nick Stahl) de matar uma garotinha e com isso ganha sua afeição eterna, que se revelará quase vinte anos depois, quando ela, já adulta (e interpretada com inegável sensualiade por Jessica Alba), parte com ele em busca de vingança por seus anos passados na cadeia por um crime que não cometeu. Outro que precisa provar sua inocência e encontrar os culpados por um violento assassinato é Marv (Mickey Rourke em impressionante caracterização), que busca vingar a morte de uma prostituta com quem passou a noite mais carinhosa de sua vida. O que ele sequer desconfia, porém, é que gente muito importante - em altos níveis de poder - não deseja que ele descubra a verdade. E Clive Owen - vindo do sucesso crítico de "Closer, perto demais" - vive Dwight, um homem disposto a qualquer coisa para proteger sua namorada, a garçonete Shellie (Brittany Murphy), de seu antigo amante, o truculento policial Jackie (Benicio Del Toro em um papel que despertou a cobiça de Adrien Brody), que tem uma perigosa relação com as prostitutas lideradas por Gail (Rosario Dawson).

Se fosse um filme policial comum, ainda assim "Sin City" seria imperdível, tão interessante é sua gama de personagens marginalizadas e suas histórias repletas de sangue e suor. Mas a obra de Robert Rodriguez é muito mais do que simples cinema. Visualmente impactante e dono de um roteiro com diálogos brilhantes - cortesia do texto enxuto e visceral de Frank Miller - o filme passa por cima do politicamente correto e do medo de mostrar a violência como ela é para, com a licença de ser literalmente quadrinhos no cinema, explicitar situações chocantes - pedofilia, cães comendo seres humanos - sem soar gratuito e/ou apelativo.

É difícil ficar indiferente a "Sin City". Seja por suas qualidades visuais - a fotografia belíssima lembra os clássicos do cinema noir e a maquiagem deixa os atores irreconhecíveis -, por suas histórias violentas ou por seu elenco de peso (em que até mesmo Mickey Rourke e Bruce Willis conseguem brilhar sem fazer esforço), o filme de Robert Rodriguez é, com certeza, um gigantesco passo à frente na tecnologia de unir - com talento e parcimônia - quadrinhos e cinema. Bravíssimo!

sexta-feira

VIDA BANDIDA

VIDA BANDIDA (Bandits, 2001, MGM Pictures, 123min) Direção: Barry Levinson. Roteiro: Harley Peyton. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Stu Linder. Música: Christopher Young. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Victor Kempster/Merideth Boswell. Produção executiva: Patrick McCormick, Harley Peyton, David Willis. Produção: Ashok Amritraj, Michele Berk, Michael Birnbaum, David Hoberman, Barry Levinson, Arnold Rifkin, Paula Weinstein. Elenco: Bruce Willis, Billy Bob Thornton, Cate Blanchett, Troy Garity, January Jones. Estreia: 12/10/01

Parece mentira que Barry Levinson, o sério diretor premiado com o Oscar pelo dramalhão "Rain Man" e indicado novamente ao prêmio pelo ambicioso "Bugsy" seja o diretor de "Vida bandida", uma divertida e despretensiosa comédia romântica de ação. Contando com um roteiro esperto e um elenco de sonhos, o filme remete a famosos títulos sobre golpes e assaltos que tanto sucesso fizeram nos anos 60 e 70, como "Butch Cassidy" e "Golpe de mestre", ambos estrelados por Robert Redford e Paul Newman. Aqui, Bruce Willis e Billy Bob Thornton (mais à vontade do que nunca) é que são os protagonistas, dois amigos e comparsas que se veem às voltas com o desejo e o amor atrapalhando (ou nem tanto assim) sua lealdade.

Foragidos de uma penitenciária, os amigos Joe Blake (Bruce Willis) e Terry Lee Collins (Billy Bob Thornton) passam a ser conhecidos como os "Criminosos que passam a noite", em referência à sua tática sui generis de assaltarem os bancos escolhidos: eles passam a noite na casa do gerente e só na manhã seguinte cometem os roubos. Seu trio, completo com Harvey (Troy Garity, filho de Jane Fonda na vida real), primo de Joe que sonha ser dublê em Hollywood vira quarteto quando entra em cena a dona-de-casa entediada Kate Wheeler (Cate Blanchett, linda), que, depois de atropelar Terry, se envolve romanticamente com os dois cúmplices. A harmonia do grupo ameça ruir quando Joe surge com a ideia de - clichê máximo do gênero - um último golpe, que os levará a seu tão sonhado hotel no México.



A edição ágil - com idas e vindas no tempo - o final abertamente contraventor (que pode possivelmente incomodar as feministas mais ferrenhas), o roteiro enxuto e principalmente a trilha sonora composta de clássicos contemporâneos como "Beautiful day", da banda U2, fazem de "Vida bandida" uma obra que nada contra a maré dos filmes de ação, ao privilegiar os diálogos em detrimento da adrenalina e dar mais valor às personagens do que a cenas de perseguição ou tiroteios ocos. Na verdade, é uma diversão compromissada, que tem em seu elenco o atrativo maior. Enquanto Bruce Willis desfila seu habitual charme cool, é Billy Bob Thornton (ainda casado com Angelina Jolie à época das filmagens) que mais chama a atenção da plateia, talvez em parte devido aos engraçados diálogos reservados à sua personagem hipocondríaca e um tanto quanto maníaco-obsessiva (manias essas que o aproximam da enloquecida personagem de Blanchett, fugindo dos papéis dramáticos a que estava confinada desde que tornou-se estrela, com o filme "Elizabeth").

Ainda que se estenda mais do que o necessário - uns bons quinze minutos a menos fariam muita diferença a favor - "Vida bandida" é uma delícia. Afinal de contas, não há como não simpatizar imediatamente com um filme que conta com dois hinos de Bonnie Tyler - "Total eclipse of the heart" e "Holding out for a hero" - sendo dublados por Cate Blanchett.

CORPO FECHADO

CORPO FECHADO (Unbreakable, 2000, Touchstone Pictures, 106min) Direção e roteiro: M. Night Shyamalan. Fotografia: Eduardo Serra. Montagem: Dylan Tichenor. Música: James Newton Howard. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Larry Fulton/Gretchen Rau. Produção executiva: Gary Barber, Roger Birnbaum. Produção: Barry Mendel, Sam Mercer, M. Night Shyamalan. Elenco: Bruce Willis, Samuel L. Jackson, Robin Wright-Penn, Spencer Treat Clark. Estreia: 14/11/00

O pior fardo que um filme pode carregar é uma expectativa errônea a seu respeito. E o pior que pode acontecer à carreira de um cineasta cujo primeiro real filme rendeu mais de 600 milhões de dólares mundo afora é justamente frustrar essas expectativas - ainda que o faça com as melhores intenções. Pois foi exatamente isso que aconteceu a M. Night Shyamalan. Depois do impressionante êxito comercial e crítico de "O sexto sentido", todos esperavam que o cineasta fosse dar continuidade a seu estilo e fazer uma réplica de seu enorme sucesso. Para surpresa de todos, porém, ele lançou "Corpo fechado", no qual ele se reinventou brilhantemente. Contando com o mesmo Bruce Willis no papel principal, o filme estreou com uma pesadíssima carga nas costas e o resultado decepcionou aos mais afoitos, em termos de bilheteria. Com menos de 100 milhões arrecadados em território americano, não chegou nem perto do impacto causado pela história do menino que via gente morta. No entanto, apesar dos pesares, "Corpo fechado" ganhou fãs incondicionais ao redor do planeta. E se não for lembrado como o melhor filme de Shyamalan é por um simples motivo comercial: um marketing equivocado.

Vendido pelo estúdio quase como se fosse uma continuação de "O sexto sentido" - o mesmo diretor, o mesmo astro, o mesmo clima de suspense - "Corpo fechado" é, na verdade, um excelente filme de super-heroi, que conta as origens do mocinho e do bandido como qualquer boa história baseada em quadrinhos. Sim, não se vê Bruce Willis voando em uniformes berrantes e nem tampouco o vilão tem planos megalomaníacos de dominar o mundo - ainda que seja doentio o bastante para tentar manipular o destino. Mas, ao gerar suas personagens sobre-humanas em um universo cotidiano, o cineasta criou uma das tramas mais instigantes e fascinantes do gênero (e de quebra imprimiu a ele seu estilo particular e intrigante). Bruce Willis (em ótima fase) vive David Dunn, um homem aparentemente normal que realiza a façanha de ser o único sobrevivente de um desastre de trem carregado de centenas de passageiros. Mais impressionante ainda é o fato de ter saído do acidente sem um arranhão sequer. Tentando reconstruir a vida ao lado da esposa Audrey (Robin Wright-Penn em papel oferecido a Julianne Moore) e do filho pequeno, ele conhece o milionário Elijah Price (mais um extraordinário desempenho de Samuel L. Jackson), um empresário fanático por histórias em quadrinhos que o procura com uma séria questão: por que somente ele sobreviveu ao acidente? Buscando a resposta em seu passado, Dunn - que trabalha como segurança em um estádio de futebol - relembra que nunca ficou doente na vida e que talvez tenha uma missão muito importante no mundo.



Apesar da premissa um tanto nerd, "Corpo fechado" é, sem dúvida, um trabalho criativo e inteligente de Shyamalan, mais uma vez utilizando seu talento para construir climas e personagens verossímeis apesar de sua natureza fora do normal. O Elijah vivido por Jackson, por exemplo, é chamado de Mr.Glass devido a uma rara doença que lhe quebra facilmente os ossos do corpo - e que dá origem a uma das cenas de abertura mais impressionantes da década e culmina com um final surpresa coerente e empolgante. A construção visual de Jackson (e do filme como um todo) reitera de forma inequívoca o cuidado do cineasta com cada detalhe do filme, o que lembra mais uma vez o refinamento e a sutileza de Alfred Hitchcock - de quem o diretor rouba inclusive a notória característica de fazer uma ponta em seus trabalhos (aqui ele aparece como um traficante de drogas).

"Corpo fechado" é um típico exemplo de filme que foi injustamente criticado por ter despertado as tais expectativas errôneas. Com o tempo fica mais fácil perceber suas inúmeras qualidades dramáticas e admirá-lo pelo que ele realmente é: um produto pop com uma inteligência muito acima da média.

terça-feira

A HISTÓRIA DE NÓS DOIS

A HISTÓRIA DE NÓS DOIS (The story of us, 1999, Castle Rock Entertainment, 95min) Direção: Rob Reiner. Roteiro: Alan Zweibel, Jessie Nelson. Fotografia: Michael Chapman. Montagem: Alan Edward Bell, Robert Leighton. Música: Eric Clapton, Marc Shaiman. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Lilly Kilvert/Sarah Jackson Burt, Kathy Lucas. Produção executiva: Frank Capra III, Jeffrey Stott. Produção: Jessie Nelson, Rob Reiner, Alan Zweibel. Elenco: Bruce Willis, Michelle Pfeiffer, Tim Matheson, Rita Wilson, Rob Reiner, Julie Hagerty, Paul Reiser. Estreia: 15/10/99

Não seria exagerar demais afirmar que, se as personagens de Billy Cristal e Meg Ryan em "Harry & Sally, feitos um para o outro" tivessem se casado, envelhecido alguns anos e tido um casal de filhos seriam mais ou menos como o casal central de "A história de nós dois", dirigido pelo mesmo Rob Reiner. Apesar da falta incomensurável que os diálogos sólidos e bem-humorados da roteirista Nora Ephron faz, pode-se dizer que este filme é uma cria mais madura de sua comédia romântica mais famosa, ainda que, obviamente, não tenha nem metade do charme de seu irmão mais velho.

Bruce Willis (com a carreira devidamente revigorada depois do impressionante êxito de "O sexto sentido") e Michelle Pfeiffer (impressionantemente bela) vivem Ben e Kate Jordan, um casal passando por uma crise quase irremediável. Cansados das infindáveis discussões quase diárias e da falta de romantismo de seu casamento, eles aproveitam a viagem dos filhos para uma colônia de férias para por sua relação na balança e chegarem a uma decisão sobre seu futuro. Enquanto ficam separados - e ela inicia um flerte com um recém-divorciado - eles tentam também descobrir em que momento de suas vidas os motivos que os levaram a se apaixonar um pelo outro tornaram-se o centro de suas frustrações.



O problema do roteiro de "A história de nós dois" é que ele não é engraçado e sardônico e nem ao menos profundo e maduro. Superficial, ele não investiga a contento todos os reveses de uma relação familiar e nem tampouco cria situações verdadeiramente engraçadas - e aqui faz muita falta um elenco de coadjuvantes fortes, como havia, por exemplo, em "Harry & Sally" (a comparação é inevitável, ainda que se tente fugir dela). Os diálogos entre Kate e suas amigas (dentre as quais se inclui Rita Wilson, a sra. Tom Hanks) e as conversas francas entre Ben e seus comparsas não encantam como deveriam. Fica-se claramente perceptível que apesar da ideia central ser muito boa, o desenvolvimento ficou muito aquém do que se pretendia.

Ainda que seja bastante fácil simpatizar com um casal atraente e carismático como o formado por Willis e Pfeiffer (que tem boa química e bom timing cômico), o filme de Rob Reiner nunca decola totalmente e nem atinge plenamente seus objetivos. Apesar de alguns bons momentos, não faz rir como deveria e não comove nas cenas mais emotivas (ainda que Michelle se esforce bastante em fazer de sua personagem algo mais do que uma mulher controladora e chata). Ainda assim - e ainda que pareça mais longo do que realmente é - é impossível não se encantar com seu charme e suas boas intenções.

"A história de nós dois" é um filme perfeito para ser visto a dois, especialmente quando se está passando ou se passou por uma crise semelhante. A despeito de sua falta de criatividade e ousadia, tem um final quase redentos, com uma edição de momentos vividos pelo casal que emociona pela simplicidade e vitalidade. Se o resto do filme tivesse seguido a mesma linha provavelmente seria menos esquecível - e a bela trilha sonora com canções de Eric Clapton tivesse sido mais festejada. Mesmo com todos os seus pecadilhos, porém, é um bom programa para quem sente falta de filmes espertos, feitos para um público adulto, que prescindem de efeitos visuais elaboradíssimos.

segunda-feira

O SEXTO SENTIDO

O SEXTO SENTIDO (The sixth sense, 1999, Hollywood Pictures/Spyglass Entertainment, 107min) Direção e roteiro: M.Night Shyamalan. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Andrew Mondshein. Música: James Newton Howard. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Larry Fulton/Douglas Mowatt. Produção executiva: Sam Mercer. Produção: Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Barry Mendel. Elenco: Bruce Willis, Olivia Williams, Haley Joel Osment, Toni Colette. Estreia: 06/8/99

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (M.Night Shyamalan), Ator Coadjuvante (Haley Joel Osment), Atriz Coadjuvante (Toni Colette), Roteiro Original, Montagem

Esqueça ectoplasmas arrastando correntes e mansões vitorianas assombradas. Depois de "O sexto sentido", os filmes de fantasmas atingiram um novo patamar de qualidade, deixando de lado os vícios perpetuados pelos filmes clássicos do gênero. Tirando a poeira do estilo e o arejando com uma modernidade que nunca lhe tira a tensão e o medo característicos, o filme de M. Night Shyamalan conquistou o mundo sem fazer muito esforço. Estreando com pouco alarde, o filme estrelado por Bruce Willis arrecadou mais de 600 milhões de dólares pelo mundo, conquistou seis indicações ao Oscar (inclusive as cobiçadas de filme, diretor e roteiro original) e de quebra revelou o garotinho Haley Joel Osment, que depois de ter protagonizado o encontro entre Steven Spielberg e Stanley Kubrick em "Inteligência artificial", desapareceu como a maioria dos atores mirins. Mas mais do que qualquer outra coisa, "O sexto sentido" devolveu ao espectador o prazer inigualável de assistir a uma história bem contada, inteligente e, o mais importante, extremamente humana, a despeito de ter algumas almas penadas como personagens.

O filme já começa com a adrenalina em alta. Voltando para casa depois de ser homenageado pela prefeitura da Filadélfia, onde mora, o psicólogo infantil Malcolm Crowe (Bruce Willis, muito eficiente) descobre que ela foi invadida por um ex-cliente, agora um jovem desequilibrado (um irreconhecível e assustador Donnie Wahlberg) que, em desespero lhe dá um tiro e se suicida em seguida. Alguns meses depois, Crowe encontra sua chance de redimir-se do fracasso em lidar com o jovem ao ter a possibilidade de tratar do pequeno Cole Sears (Haley Joel Osmente, nunca aquém de espetacular), um menino de oito anos que enfrenta problemas na escola e em casa. Isolado e solitário, Cole é criado pela mãe Lynn (Toni Colette, de "O casamento de Muriel", bem mais magra, ótima atriz e indicada ao Oscar de coadjuvante) e apresenta hematomas e comportamento arredio. Depois de algumas conversas com o garotinho, Malcolm descobre que seu problema não é doméstico: ele tem o dom (ou a maldição, dependendo do ponto de vista) de ver e falar com fantasmas, que lhe utilizam para resolver situações pendentes. Enquanto tenta ajudar Cole, o médico precisa também recuperar a relação com a esposa (Olivia Williams), abalada desde o atentado.

 

A maior inteligência do roteiro redondinho de Shyamalan - descendente de indianos cujo primeiro filme, "Olhos abertos" foi solenemente ignorado por todo mundo - é a sua opção em sugerir bem mais do que mostrar. Durante toda a sua primeira metade, "O sexto sentido" é lento, discreto, quase contemplativo, contando com uma trilha sonora impactante mas sutil de James Newton Howard. Após a revelação do dom de Cole, a trama atinge níveis de suspense e tensão capazes de arrepiar até o mais cético dos espectadores. É a partir daí que fantasmas cruzam a tela em momentos inesperados (ainda que pistas de sua aparição surjam constantemente) e que, de drama familiar, o filme passe a um terror psicológico dos melhores. A escolha por não exagerar em maquiagem e efeitos visuais também colabora para que o filme não fique datado e esteja tão fresco hoje quando de sua estreia, já há doze anos. Tudo isso somado ao talento do cineasta/roteirista em criar diálogos simples mas profundos e dirigir seus atores com maestria faz com que, mais do que um filme de terror feito para apavorar plateias, "O sexto sentido" atinja um outro nível emocional e artístico. Mesmo quem não gosta de levar sustos é capaz de se perceber chorando ao final da projeção, graças à delicadeza com que tudo se desenrola - e à cena magistral em que Cole finalmente conta seu segredo à sua mãe.

Já em "O sexto sentido" M. Night Shyamalan utilizava-se de algumas de suas marcas registradas (a importância dada à cor vermelha, a trilha sonora de James Newton Howard, a inteligência da edição de som, o cuidado com o desenvolvimento da trama). Criador ainda de uma outra obra-prima ("Corpo fechado"), um filme excelente ("Sinais") e vários filmes que dividiram crítica e público (entre eles o sofrível "A vila" e o subapreciado "A dama da água"), Shyamalan pode ser acusado de qualquer coisa, menos de ter sido elogiado à toa. "O sexto sentido" mereceu todo o sucesso que fez, por ter devolvido ao público a fé no bom cinema de suspense sem ter que apelar para a violência explícita.

domingo

OS 12 MACACOS

OS DOZE MACACOS (Twelve monkeys, 1995, Universal Pictures, 129min) Direção: Terry Gilliam. Roteiro: David Peoples, Janet Peoples, roteiro original de Chris Marker. Fotografia: Roger Pratt. Montagem: Mick Audsley. Música: Paul Buckmaster. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Jeffrey Beecroft/Crispian Sallis. Produção executiva: Robert Cavallo, Robert Kosberg, Gary Levinsohn. Produção: Charles Roven. Elenco: Bruce Willis, Madeleine Stowe, Brad Pitt, Christopher Plummer, David Morse, Christopher Meloni. Estreia: 27/12/95

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Brad Pitt), Figurino
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Brad Pitt)

Quando os estúdios de Hollywood passam por crises criativas - e isso ocorre com uma frequência alarmante - o jeito é apelar a qualquer ideia que possa transformar-se em um filme razoavelmente interessante. Refilmar obras estrangeiras, então, passou a ser uma opção recorrente para sanar os bloqueios artísticos ianques. Foi assim com "Sommersby, o retorno de um estranho", que diluiu o impacto do original com Gerard Depardieu e com "True lies", que melhorou bastante o original francês, adicionando muito mais humor e ação à sua trama original. Em 1995, o prestigiado Terry Gilliam provou que até mesmo cineastas mais conhecidos por sua ojeriza ao sistema também fazer concessões ao comercial. "Os doze macacos" é a releitura do curta-metragem francês "La jetèe", lançado em 1962, mas sob a ótica de um dos fundadores do Monthy Phyton - e realizador do onírico "Brazil, o filme" - apenas a ideia central do original se mantém intacta.

Gilliam nem mesmo assistiu ao curta francês, dando atenção exclusiva ao roteiro distópico de David e Janet Peoples, que amplia a ideia complexa de viagens no tempo. Livre das amarras de ter que realizar uma refilmagem no sentido mais pleno do termo, o cineasta encontra espaço o bastante para suas excentricidades visuais - que encontra a expressão exata na direção de arte claustrófica e no figurino de Julie Weiss, indicado merecidamente ao Oscar. Explorando com perfeição a fotografia expressionista de Roger Pratt e a trilha sonora vibrante de Paul Buckmaster - que conquista a plateia já nos créditos iniciais, com um tango arrebatador que retorna sempre nos momentos mais emocionantes -  Gilliam faz mais do que apenas divertir sua audiência: ele a faz exercitar o cérebro, deixando-a com um ponto de interrogação até suas (tensas) cenas finais.



De acordo com a trama do filme, a população da Terra será dizimada por um vírus fatal, que vitimará mais de 5 bilhões de pessoas no ano de 1996. Em um futuro não determinado, um grupo de cientistas resolve enviar um apenado para alguns meses antes da pandemia, para que ele colete dados que possibilitem uma reversão da tragédia. O escolhido é o violento James Cole (Bruce Willis), que, mesmo sem saber direito em que consiste sua missão, vai parar em Baltimore, Atlanta, no ano de 1990 por um erro de cálculo. Preso como indigente, ele trava conhecimento com a psiquiatra Kathryn (Madeleine Stowe) e, no hospital onde é internado, com o alucinado Jeffrey Goines (Brad Pitt), filho de um conhecido virólogo. Depois de um retorno antecipado a seu período de origem, logo Cole volta à Terra, dessa vez realmente para o ano correto. Ao lado de Kathryn, Cole tentará impedir que o exército de ecoterroristas liderados por Goines - chamado de 12 macacos - libere o vírus que destruirá a humanidade.

Propositalmente confuso - talvez como forma de identificar a plaeia com seu protagonista atônito e quase impotente diante de um cataclisma de proporções gigantescas - "Os 12 macacos" força o espectador a estar atento durante toda a sua duração, uma vez que dá detalhes visuais, auditivos e verbais de seu desfecho a cada instante. Cada linha de díálogo e cada imagem são importantíssimos para que a experiência seja compreendida de todo. E é bem possível que essa necessidade de comprometimento extra com o cérebro que tenha sido a responsável pela bilheteria abaixo do esperado no mercado norte-americano. Para um filme que unia Bruce Willis com o ascendente Brad Pitt - vindo de sucessos consecutivos - uma renda de menos de 60 milhões, ainda que respeitável, soou como um pequeno fracasso comercial. Fazer o que se o público prefere filmes-pipoca com roteiro qualquer nota?

"Os 12 macacos" é uma aventura de ficção científica que foge dos padrões a que todos estamos acostumados. Não busca a aprovação da plateia com sequências de tirar o fôlego nem tampouco a confunde com termos absurdos inventados por fãs de "Star Trek" ou "Star Wars". É um suspense aterrador, que, apesar do tom negativista que imprime em quase toda a sua duração - graças ao visual feio proposto pelo desenhista de produção - termina com uma lufada de otimismo e e alívio. E ainda mostrou que, além de um galã feito sob medida para o século XXI, Brad Pitt é também um ator seguro e competente, que não se importa em abdicar de sua beleza para construir uma personagem forte e marcante.

sábado

PULP FICTION - TEMPO DE VIOLÊNCIA

PULP FICTION, TEMPO DE VIOLÊNCIA (Pulp fiction, 1994, Miramax Films/Jersey Films/A Band Apart, 154min) Direção: Quentin Tarantino. Roteiro: Quentin Tarantino, histórias de Quentin Tarantino e Lawrence Bender. Fotografia: Andrzej Sekula. Montagem: Sally Menke. Figurino: Betsy Heinman. Direção de arte/cenários: David Wasco/Sandy Reynolds-Wasco. Produção executiva: Danny DeVito, Michael Shamberg, Stacey Sher. Produção: Lawrence Bender. Elenco: John Travolta, Bruce Willis, Samuel L. Jackson, Uma Thurman, Harvey Keitel, Christopher Walken, Tim Roth, Amanda Plummer, Maria de Medeiros, Ving Rhames, Frank Whaley, Quentin Tarantino, Alexis Arquette. Estreia: Maio de 1994 (Festival de Cannes)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Quentin Tarantino), Ator (John Travolta), Ator Coadjuvante (Samuel L. Jackson), Atriz Coadjuvante (Uma Thurman), Roteiro Original, Montagem
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Roteiro Original
Palma de Ouro no Festival de Cannes (Melhor Filme)

Já faz mais de quinze anos que "Pulp fiction" levou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e sua influência sobre o cinema americano - e mundial - ainda está longe de arrefecer. Primeiro filme de Quentin Tarantino depois de sua bombástica estreia - o violento "Cães de aluguel" - "Pulp fiction" pegou o mundo de surpresa ao subverter praticamente todas as regras pré-concebidas do cinemão comercial e apresentar um painel cru, engraçado e amoral de pessoas que circulam em um universo particularmente interessante ao cineasta. Desfilam pela tela - por cerca de duas horas e meia de duração - assassinos de aluguel, gângsteres de esquina, boxeadores fracassados e junkies irremediáveis. Vindo da cabeça de Tarantino - dono de um enciclopédico conhecimento sobre filmes B - não é de se estranhar nenhum detalhe de "Pulp fiction". O que é de deixar qualquer um surpreso é o fato do filme ter chegado pertinho de ganhar o Oscar máximo. Não chegou lá - ficou "apenas" com a estatueta de roteiro original - mas só concorrer ao lado de obras certinhas - excelentes, sem dúvida, mas pouco inovadoras - como "Forrest Gump" e "Um sonho de liberdade", já é motivo de choque.


Quentin Tarantino - assim como David Lynch e Pedro Almodovar - é uma espécie de deus de seu próprio universo. Em seus filmes qualquer coisa é possível, qualquer absurdo é compreensível e qualquer personagem é crível. Dentro de seu específico mundo - decorado e sonorizado com uma mistura de anos 60, 70 e 80 aparentemente sem nexo - ele conduz o espectador a situações bizarras sem dar espaço a questionamentos supérfluos. É somente dentro da obra sui generis do cineasta que matadores verborrágicos em vias de converter-se cruzam o caminho de foragidos ameaçados de morte que adiam a fuga para correr atrás de relíquias familiares - e que dão de cara com bizarros estupradores sadomasoquistas. Sim, isso é "Pulp fiction". Isso e muito mais.

Narrado fora de ordem cronológica - artifício que funciona à perfeição aqui, mas que virou quase uma praga em seu rastro, uma vez que qualquer filme "moderno" a utilizou sem parcimônia desde então - "Pulp fiction" começa apresentando um casal de assaltantes, Pumpkin (Tim Roth) e Honey Bunny (Amanda Plummer), que decide dar uma virada na vida e partir para ações mais ambiciosas e menos perigosas. Antes mesmo que sua história tenha um desfecho, o público é levado a conhecer Vincent Vega (John Travolta no mais consistente retorno de sua carreira) e Jules Winfield (Samuel L. Jackson), em vias de cumprir uma "missão" para seu chefe, o temível Marsellus Wallace (Ving Rhames). Tão logo o trabalho dos dois companheiros é finalizado, começa a história do encontro entre o desajeitado Vincent com Mia (Uma Thurman), a esposa de seu patrão, uma ex-atriz apaixonada por drogas pesadas que o leva a um pesadelo noturno ao sofrer uma overdose acidental. Em seguida, somos jogados na aventura de Butch Coolidge (Bruce Willis), um boxeador que, desafiando o combinado com seus contratadores - entregar uma importante luta - foge em disparada rumo aos braços da namorada, Fabienne (Maria de Medeiros), mas é obrigado a fazer uma retirada estratégica para recuperar o relógio de ouro que pertenceu a seu avô e a seu pai - só para ser vítima de um estranho sequestro ao lado de seu inimigo. E para finalizar tudo, Jules e Vincent são obrigados a chamar o eficiente Mr. Wolf (Harvey Keitel) para resolver um grave e sangrento acidente provocado com um tiro disparado sem querer.



Mesmo hoje, depois de dezenas de imitações baratas e sofríveis, "Pulp fiction" se mantém como revolucionário e impactante. Seu texto afiado (e principalmente repleto de uma naturalidade rara), sua trilha sonora sensacional (impossível não lembrar de sequências inteiras ao ouvir algumas de suas canções), sua absoluta falta de compromisso com o déja-vu e seu humor sardônico são marcas registradas de Tarantino e não são encontradas em quaisquer filmes que beberam de sua fonte. O estilo de Tarantino é legítimo, ao contrário de seus copiadores, e isso faz toda a diferença: o texto de "Pulp fiction soa orgânico e jamais forçado e encontra em seus atores os intérpretes ideais. E é nesse quesito que o cineasta mais influente da década de 90 se sobressai gritantemente: sem seu elenco, escalado a dedo, "Pulp fiction" provavelmente perderia muito de seu impacto.

Ainda que tenha sido John Travolta o mais festejado dos atores do filme - em um retorno que lhe deu uma merecida indicação ao Oscar - é difícil não se deixar fascinar pelos olhos hipnotizantes de Samuel L. Jackson (dono dos diálogos mais substanciais e cultuados da obra) ou seduzir pelo charme de Uma Thurman (que só aceitou fazer parte do elenco depois que o próprio diretor leu o roteiro todo pelo telefone). Tanto Jackson quanto Thurman concorreram à estatueta mais cobiçada do cinema e poderiam facilmente ter vencido. E é um duro golpe aos detratores que insistem em dizer que Tarantino não é bom diretor de atores ver o que ele consegue fazer com Bruce Willis, por exemplo, na melhor atuação de sua carreira, ou com Ving Rhames, um ator pouco conhecido alçado à categoria de assustador com sua performance como Marsellus Wallace - um gângster perigoso flagrado pelas câmeras hiperativas do cineasta em um momento de extrema fragilidade. E isso que nem é preciso falar de nomes consagrados como Harvey Keitel, Christopher Walken e Tim Roth, que apenas reiteram seu talento mesmo em pequenos papéis.

A força de "Pulp fiction" reside em suas inúmeras qualidades que, somadas, fazem dele o filme fundamental de sua época. Parte do inconsciente coletivo de uma legião de fãs da sétima arte, a obra-prima de Quentin Tarantino - se bem que quase todos os seus filmes o são - é um perfeito exemplo do quão inteligente, excitante e corajoso o cinema americano pode ser. Para ver, rever e trever, sempre com a mesma sensação de ineditismo.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...