Mostrando postagens com marcador SANDRA BULLOCK. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador SANDRA BULLOCK. Mostrar todas as postagens

quarta-feira

PREMONIÇÕES


PREMONIÇÕES (Premonition, 2007, TriStar Pictures/MGM, 96min) Direção: Mennan Yapo. Roteiro: Bill Kelly. Fotografia: Torsten Lippstock. Montagem: Neil Travis. Música: Klaus Badelt. Figurino: Jill Ohanneson. Direção de arte/cenários: Dennis Washington/Raymond Pulmilia. Produção executiva: Nick Hamson, Andrew Sugerman, Lars Sylvest. Produção: Ashok Amritraj, Jennifer Gibgot, Jon Jashni, Sunil Perkash, Adam Shankman. Elenco: Sandra Bullock, Julian McMahon, Nia Long, Kate Nelligan, Peter Stormare, Shyann McClure, Courtney Taylor Burness. Estreia: 12/3/2007

Quando "Premonições" estreou, no começo de 2007, a carreira de Sandra Bullock estava em uma encruzilhada. Seus dias como "a nova Julia Roberts" já estavam encerrados - sua última comédia a levar multidões às salas de exibição, "Miss Simpatia" já tinha sete anos de idade - e ela ainda não havia se reinventado como a atriz séria que levaria um Oscar por "Um sonho possível" (2009). Nesse meio do caminho entre a popularidade e o prestígio, alguns filmes buscavam um novo sucesso com artifícios variados, como continuações ("Miss Simpatia 2: armada e poderosa", de 2005) e o reencontro com Keanu Reeves ("A casa do lago", de 2006). Dirigida pelo alemão Mennan Yapo - conhecido pelo sucesso "Adeus, Lênin" (2000) -, a trama de suspense com lances místicos não chegou a ser um estouro de bilheteria, mas rendeu quatro vezes seu orçamento de 20 milhões de dólares e, se não agradou completamente à crítica, se mostrou acima da média dentro de um gênero perigosamente à beira do esgotamento.

Usando e abusando das caras e bocas que lhe renderam fama e dinheiro, Bullock interpreta Linda Hanson, a feliz esposa do executivo Jim (Julian McMahon) e mãe de duas pré-adolescentes no auge da energia. Sua rotina em uma bela casa no subúrbio é radicalmente alterada quando ela recebe a trágica notícia de que seu marido morreu em um acidente de carro. Devastada e inconsolável, Linda está prestes a entrar em uma severa depressão quando, para sua surpresa, acorda no dia seguinte ao funeral de Jim e descobre que ele está vivo. Sua confusão aumenta ainda mais nos dias seguintes, que parecem alternar-se em duas realidades alternativas: em uma delas, é preciso lidar com a dor da perda e descobertas a respeito das mentiras que sustentavam seu casamento; em outra, a vida como ela conhece permanece a mesma, sem o fantasma do acidente pairando sobre suas cabeças. O que na verdade está acontecendo - e Linda chega a essa conclusão mesmo sendo considerada desequilibrada pelos amigos e familiares - é que, por alguma razão, os dias estão fora de ordem cronológica, e ela precisa encontrar uma maneira de reverter o triste destino de sua história de amor.


 

Feliz em estabelecer sua intrigante premissa, o roteiro de Bill Kelly - autor da comédia "De volta para o presente", estrelado por Brendan Fraser e Alicia Silverstone em 1999 - falha, no entanto, em oferecer uma explicação plenamente satisfatória a ela. Apelando para um misticismo que pode não agradar a todos, deixa no ar uma sensação de potencial não completamente desenvolvido, apesar do terço final relativamente tenso e com um clímax surpreendente. Sandra Bullock exagera em boa parte dos 96 minutos de sessão, intercalando expressões de tristeza e assombro sem maiores nuances ou sutileza, mas é inegável que seu status de estrela segura bastante o interesse pela trama, assim como a presença de Julian McMahon, então astro da série "Nip/Tuck", que pouco tem a fazer em cena além de desfilar charme. Com personagens pouco aprofundados, tanto ele quando Bullock fazem o possível para dar-lhes uma consistência e uma coerência que muito faz falta no resultado final.

Para quem é fã de Sandra Bullock ou de produções de suspense com tons místicos e/ou sobrenaturais, "Premonições" é um prato cheio. Conduzido com segurança por Yapo - que resiste à tentação do caminho mais fácil e dribla com destreza os clichês do roteiro (mesmo que por momentos os utilize de forma sutil) - e recusando o tom de ironia que muitas vezes enfraquece as produções do gênero, o filme instiga o espectador desde os minutos iniciais com uma história que fala sobre amor, perdão e segundas chances. Não chega a ser brilhante, mas cumpre boa parte do que promete e deu a Sandra Bullock a oportunidade de mostrar-se competente o suficiente para uma nova (e mais séria) fase na carreira.

 

DA MAGIA À SEDUÇÃO


DA MAGIA À SEDUÇÃO (Practical magic, 1998, Warner Bros, 104min) Direção: Griffin Dunne. Roteiro: Robin Swicord, Akiva Goldsman, Adam Brooks, romance de Alice Hoffman. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Elizabeth Kling. Música: Alan Silvestri. Figurino: Judianna Makovksy. Direção de arte/cenários: Robin Standefer/Claire Jenora Bowin. Produção executiva: Bruce Berman. Produção: Denise Di Novi. Elenco: Sandra Bullock, Nicole Kidman, Aidan Quinn, Dianne Wiest, Stockard Channing, Goran Visnjic, Marc Feuerstein, Evan Rachel Wood, Margo Martindale, Chloe Webb. Estreia: 16/10/98

Quando "Da magia à sedução" chegou aos cinemas, Nicole Kidman ainda não era a estrela que viria a se tornar depois do sucesso de "Moulin Rouge: o amor em vermelho" e "Os outros" - ambos lançados em 2001 - nem tampouco tinha o prestígio que o Oscar por "As horas" (2002) lhe traria. Em outubro de 1998, data da estreia, a maior estrela do projeto era Sandra Bullock, em franca ascensão desde que chamou a atenção do público pela primeira vez, em "Velocidade máxima" (1994). A união das duas atrizes, porém, ao contrário do que se poderia esperar, decepcionou. Com menos de 50 milhões de dólares arrecadados nas bilheterias mundiais, o filme dirigido pelo também ator Griffin Dunne - e baseado em um best-seller de Alice Hoffman - ficou em um estranho meio-termo entre uma comédia romântica com tons sobrenaturais e um suspense fantástico com elementos típicos das histórias de amor que enchem os olhos dos fãs do gênero. Escorado no carisma de suas estrelas e com o apoio luxuoso de um elenco coadjuvante impecável, "Da magia à sedução" funciona como um passatempo acima da média - mas inegavelmente sofre com sua atmosfera um tanto indecisa.

De acordo com um dos roteiristas, o premiado Akiva Goldsman - Oscar por "Uma mente brilhante" (2001) - a primeira versão do filme privilegiava o lado mais sombrio da história criada por Hoffman e publicada em 1995. O marketing promovido pela Warner, porém, conduziu a produção a um resultado mais leve, de olho em um público mais amplo. Sendo assim, a saga de duas jovens irmãs lidando com seus dons de feitiçaria encontrou, no filme de Dunne, um viés mais lúdico e menos mórbido. Se por um lado é um acerto, ao explorar o talento cômico de suas atrizes, também deixa no ar a sensação de um resultado final híbrido, que não atinge todo o seu potencial dramático. Tal problema de foco respingou inclusive na trilha sonora original de Michael Nyman, que foi substituída, depois de exibições-teste, por uma música considerada menos "europeia e intrusiva", composta por Alan Silvestri. Com intenções mais comerciais, a versão que finalmente chegou às telas acabou por decepcionar o estúdio - mas tornou-se cult com o passar do tempo, principalmente devido à presença de Kidman e Bullock.

 

As duas atrizes vivem, respectivamente, Gillian e Sally Owens, irmãs que, órfãs, vivem desde a infância em uma pequena ilha na costa de Massachussets, criadas por suas tias, Frances (Stockard Channing) e Jet (Dianne Wiest). Descendentes de uma longa linhagem de bruxas, elas sabem que são amaldiçoadas para o amor e se ressentem de terem passado a vida toda sofrendo o preconceito dos outros moradores locais. Chegando à idade adulta, porém, sua união é posta à prova pelas radicais diferenças entre suas personalidades. Enquanto Sally - introvertida e romântica - desafia sua sina e vive um casamento feliz e realizado com Michael (Mark Feuerstein), Gillian - rebelde e sensual - foge da cidade com o objetivo de viver a vida longe dos olhos maldosos dos conterrâneos. A maldição que as une, no entanto, parece mais forte do que qualquer coisa: Sally fica viúva depois de um trágico acidente, e Gillian se envolve em um relacionamento tóxico e violento com o perigoso Jimmy Angelow (Goran Visjnic) - uma relação cujos desdobramentos trágicos a obriga a retornar ao lar e apresenta as duas irmãs o detetive de polícia Gary Hallet (Aidan Quinn). Sua reunião abala a tranquilidade da pequena cidade - mas pode, paradoxalmente, ajudá-las a superar o preconceito que cerca sua família e suas origens.

O que pode ser dito a respeito de "Da magia à sedução" é que, apesar dos problemas, o produto final é um delicioso programa para os menos exigentes. No auge da beleza, Nicole Kidman rouba a cena como a tresloucada e irresponsável Gillian - um contraponto aos dramas de Sally, interpretada por uma Sandra Bullock competente mas repetindo os trejeitos que fizeram dela uma grande estrela. Stockard Channing e Dianne Wiest brilham a cada aparição e a direção de Griffin Dunne faz o possível para extrair o melhor de um roteiro cuja mudança de tom no terço final prejudica mais do que ajuda. Para os fãs de suas atrizes centrais é imperdível - mas fica no ar a sensação de que poderia ter sido melhor, mais memorável ou até mesmo mais corajoso.

segunda-feira

TREM-BALA


TREM-BALA (Bullet train, 2022, Sony Pictures Entertainment, 127min) Direção: David Leitch. Roteiro: Zak Olkewicz, romance de Kôtarô Isaka. Fotografia: Jonathan Sela. Montagem: Elisabet Ronaldsdóttir. Música: Dominic Lewis. Figurino: Sarah Evelyn. Direção de arte/cenários: David Scheunemann/Elizabeth Keenan. Produção executiva: Brent O'Connor, Ryosuke Saegusa, Kat Samick, Yuma Terada. Produção: Antoine Fuqua, David Leitch, Kelly McCormick. Elenco: Brad Pitt, Aaron Taylor-Johnson, Joey King, Brian Tyree-Henry, Andrew Koji, Hiroyuki Sanada, Michael Shannon, Bad Bunny, Logan Lerman, Sandra Bullock. Estreia: 18/7/2022 (Paris)

Publicado no Japão em 2010, o livro "Trem-bala", escrito por Kôtarô Isaka, tornou-se um fenômeno, com mais de 700 mil exemplares vendidos, e acabou, como não poderia deixar de ser, chamando a atenção de Hollywood. Com os direitos adquiridos pela Sony Pictures e produzido com um orçamento de 90 milhões de dólares, a intrincada história de cinco assassinos profissionais cujas missões se cruzam em uma inusitada viagem chegou às telas com um elenco de primeira linha, um diretor acostumado a sequências recheadas de adrenalina e a responsabilidade de devolver ao público o hábito de ir às salas de exibição depois do longo hiato provocado pela Covid-19. Com uma renda acumulada de quase 240 milhões de dólares internacionalmente, é difícil dizer que fracassou em seu intento - mas dividiu a crítica e não fez o barulho que se poderia esperar. Mesmo assim, o resultado final é um delicioso filme de ação, com inspirados momentos de humor e um visual dos mais caprichados dos últimos anos.

Na direção, que ficaria a cargo de Antoine Fuqua, o cineasta David Leitch, cujo currículo apresenta produções extremamente comerciais, como "Deadpool 2" (2018) e "Velozes e furiosos: Hobbs & Shaw (2019) - além do subestimado e estiloso "Atômica" (2017) - deixou de lado o tom mais sério proposto no projeto original para assumir sem medo o caos, o deboche e a ironia. Com diálogos rápidos, idas e vindas no tempo, cenas de luta empolgantes e personagens excêntricos, o roteiro de "Trem-bala" nem sempre é rigorosamente fiel a seu material original, mas até mesmo as alterações feitas na trama do livro servem com perfeição à visão iconoclasta de Leitch, que prescinde das definições levianas de heróis e vilões, algozes e vítimas: durante as pouco mais de duas horas de duração do filme, nada que é dito é completamente confiável e nenhuma verdade é absoluta. Tal opção pelo dúbio e pela diversão ao invés da sobriedade faz de "Trem-bala" um produto raro, um respiro muito bem-vindo a um gênero que normalmente falha em tal equilíbrio. E se a presença de Brad Pitt parece apontar para um filme calcado em um grande astro - e caro, com um cachê milionário de 20 milhões de dólares -, o desenvolvimento do roteiro insiste em sua principal característica: não há um personagem central além do trem que dá nome ao filme. 

A princípio até pode parecer que Pitt é o personagem principal da trama, já que é o maior nome do cartaz e o primeiro a surgir na tela, mas não demora para que fique perceptível que seu Ladybug é apenas uma peça em um tabuleiro repleto delas. Escalado por sua superior (cuja intérprete-surpresa surge apenas nos momentos finais) a recuperar uma maleta em um trem-bala que viaja de Tóquio a Kyoto, Ladybug - que está passando por momentos difíceis na carreira, sendo acusado de não conseguir lidar com a agressividade - embarca no veículo sem ter a menor ideia de que sua missão está longe de ser simples como parece. No mesmo local, estão outros dois assassinos de aluguel, Tangerine (Aaron Taylor-Johnson) e Lemon (Bryan Tyree Henry), e a misteriosa Prince (Joey King) - que apesar do nome, esconde uma identidade feminina e um violento trauma familiar. Contratados pelo infame mafioso White Death (Michael Shannon) para salvar seu jovem filho das mãos de sequestradores, Lemon e Tangerine acabam por cruzar o caminho de outros criminosos beligerantes e cruéis - e, no decorrer do caminho, alianças são feitas e desfeitas, fatos do passado são trazidos à tona, reviravoltas acontecem a cada parada e até uma cobra assassina parece fazer parte de uma trama cujos desdobramentos remetem a coincidências das mais bizarras.

"Trem-bala" é um filme com inúmeras qualidades, mas justamente elas podem incomodar parte dos espectadores. Seu humor - um tanto macabro e violento - não é exatamente convencional. A estrutura do roteiro - repleta de flashbacks e flash forwards -  obriga a uma atenção extra que poucos estão dispostos a conceder diante do cinema quase preguiçoso que vem sendo oferecido pelos grandes estúdios. A falta de um herói - por mais que Ladybug seja uma espécie de fio condutor da trama ele não é o protagonista absoluto - talvez confunda àqueles que buscam uma narrativa mais simples. E o visual elaborado (cortesia da fotografia admirável de Jonathan Sela) pode soar como excessivamente colorido e kitsch. Mas o fato é que, somadas todas as características que fazem dele um filme de ação que tenta fugir da pasteurização do gênero, o resultado é uma produção muito acima da média, que não perde o ritmo em momento algum, que apresenta personagens interessantes interpretados por um elenco impecável e que não hesita em oferecer sequências coreografadas com precisão cirúrgica. É divertido, inteligente e produzido com extrema competência. Quanto ao fato de ser baseado em um livro japonês e contar com atores ocidentais é uma outra discussão, mais séria e mais profunda que em nada atrapalha o prazer de ser envolvido por um filme por 127 minutos de entretenimento puro.

sábado

TÃO FORTE, TÃO PERTO

TÃO FORTE, TÃO PERTO (Extremely loud & incredibly close, 2011, Warner Bros, 129min) Direção: Stephen Daldry. Roteiro: Eric Roth, romance de Jonathan Safran Foer. Fotografia: Chris Menges. Montagem: Claire Simpson. Mùsica: Alexandre Desplat. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: K.K. Barrett/George De Titta Jr. Produção executiva: Celia Costas, Mark Roybal, NOra Skinner. Produção: Scott Rudin. Elenco: Tom Hanks, Sandra Bullock, Thomas Horn, Max Von Sydow, Viola Davis, Jeffrey Wright, John Goodman, Zoe Campbell. Estreia: 25/12/11

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Max Von Sydow)

O inglês Stephen Daldry tem uma boa folha de serviços prestados ao cinema desde sua estreia com o lírico “Billy Elliot” (00), que de cara lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor diretor. Depois, voltou ao páreo pelo brilhante “As horas” (02) – que deu à Nicole Kidman a estatueta de melhor atriz – e pelo dramático “O leitor” (08) – que também premiou sua protagonista, Kate Winslet, com uma estatueta dourada. De seus três primeiros (e ótimos) filmes, dois foram homenageados pela Academia com uma indicação ao Oscar máximo, o que encheu o público e a crítica de expectativas em relação a seu quarto trabalho. A estreia de “Tão forte e tão perto”, no entanto, mostrou que todo mundo corre o risco de errar. Mesmo arrebatando uma quase inexplicável indicação ao Oscar de melhor filme – um quase que pode ser compreendido pelos humores da parcela mais conservadora da Academia – e tendo conquistado alguns críticos, o filme de Daldry é uma decepção quase total, principalmente por ter como seu maior e mais irrecuperável defeito a péssima escolha de seu ator principal. Ao contrário do que aconteceu quando Jamie Bell saiu do anonimato para dar vida e alma ao menino que sonhava com o balé em “Billy Elliot”, a opção pelo novato Thomas Horn para protagonizar “Tão forte, tão perto” arruinou todo o projeto de Daldry. Descoberto em um programa de perguntas e respostas da TV americana, Horn faz com que assistir-se ao filme se torne uma tortura quase insuportável. E não é preciso ser cientista da NASA para saber que quando um protagonista (a base de qualquer filme, afinal) não tem empatia com o público, não há marketing milagroso o suficiente para salvá-lo da ruína.
Ok, “Tão forte e tão perto” não chega a ser uma ruína completa – Daldry é um diretor de muito talento para perder tanto a mão, e os coadjuvantes são admiráveis (inclui-se aqui Tom Hanks em uma participação especial mas essencial ao estabelecimento da trama, Max Von Sydow em uma interpretação indicada ao Oscar e Viola Davis injetando humanidade em cada cena que aparece). Mas para cada qualidade que apresenta – a edição de Claire Simpson, com momentos brilhantes e a bela trilha sonora de Alexandre Desplat – existe uma série de problemas que impedem o espectador de mergulhar sem reservas na história criada pelo escritor Jonathan Safran Foer. O primeiro deles – e o maior, a ponto de praticamente anular o que o filme tem de bom – é, como afirmado anteriormente, o protagonista. Não apenas o personagem é chato, irritante, mimado e histérico, como seu intérprete consegue – ao invés de diluir tais características pouco louváveis – ampliá-las ainda mais. A cada cena em que Thomas Horn aparece na pele do herói da história, Oskar Schell, gritando, esperneando e xingando quem aparece em sua frente, é uma tentação imensa não abandonar a trama, por mais interessante que ela pudesse ter parecido em seu princípio.
E, é preciso reconhecer, o pontapé inicial é instigante: o atentado às Torres Gêmeas em onze de setembro de 2001 deixa órfão de pai o excêntrico Oskar Schell, um menino com problemas em interatividade social – a ponto de ter sido considerado suspeito de portar a Síndrome de Asperger – e que, devido a seu modo especial de comportamento, dedica-se a atividades que requerem o máximo de atenção e método. A perda da referência paterna joga Oskar em um estado ainda mais particular de existência – as caças ao tesouro promovidas por Thomas (Tom Hanks) pela cidade de Nova York e pelo Central Park cessam por completo e ele não consegue ligar-se satisfatoriamente com a mãe, Linda (Sandra Bullock, que não ajuda nem atrapalha). A chance de reconectar-se com o passado surge, porém, quando o menino encontra, sem querer, uma chave guardada dentro de um pequeno envelope dirigido a alguém com o nome Black. Crente de que tal objeto faz parte de mais um enigma proposto por Thomas, o menino começa então uma jornada detalhada – e matematicamente assustadora – para tentar localizar o dono da chave. No caminho, encontra todo tipo de pessoa, o que o irá obrigar a lidar com uma realidade com a qual ele nunca antes havia tido contato.

A busca de Oskar pela resolução do enigma da chave misteriosa e da identidade de Black é interessante: o roteiro do premiado Eric Roth (Oscar por “Forrest Gump: o contador de histórias”) é bem amarrado e prende como pode a atenção da plateia, com personagens coadjuvantes irresistíveis como a doce Abby (interpretada por Viola Davis) e outros que, mesmo sem uma linha de diálogo, conseguem emocionar com seus dramas pessoais. Quando Max Von Sydow entra em cena, então, tudo parece que vai finalmente deslanchar: surdo-mudo graças a um trauma pessoal, seu personagem (que paga pelo aluguel em um quarto na casa da avó de Oskar e junta-se a ele na peregrinação em busca de respostas) rouba o filme em poucos minutos – mas então seu silêncio esbarra na histeria do protagonista juvenil e tudo vai por água abaixo. O primeiro encontro entre os dois – quando o menino conta sua história ao calado interlocutor – poderia ser empolgante, com seu texto inteligente e montagem ágil: na voz irritante de Thomas Horn é quase uma tortura. E se levarmos em consideração o quão frágil é o clímax do filme, o final da sessão dá uma violenta sensação de tempo perdido.
Mas é apenas uma sensação. “Tão forte e tão perto” é bem dirigido, bem escrito, bem editado e tem algumas qualidades quase redentoras, como Von Sydow, Viola e Tom Hanks. A história é interessante, há momentos de real emoção e – o que ainda é raro no cinema americano – o trauma do 11/9 é tratado sob um viés humano e sensível. Mas, levando-se em conta o quão boa poderia ter sido a união de tanta gente talentosa, não deixa de ser um filme frustrante e bastante chato. Um escorregão na carreira até então brilhante de Stephen Daldry.

CÁLCULO MORTAL

CÁLCULO MORTAL (Murder by numbers, 2002, Warner Bros/Castle Rock Entertainment, 115min) Direção: Barbet Schroeder. Roteiro: Tony Gayton. Fotografia: Luciano Tovoli. Montagem: Lee Percy. Música: Clint Mansell. Figurino: Carol Oditz. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/Hilton Rosemarin. Produção executiva: Sandra Bullock, Jeffrey Stott. Produção: Richard Crystal, Susan Hoffman, Barbet Schroeder. Elenco: Sandra Bullock, Ben Chaplin, Ryan Gosling, Michael Pitt, Agnes Bruckner, Chris Penn. Estreia: 19/4/02

Se alguém estranhar a presença de Sandra Bullock no papel principal do suspense policial "Cálculo mortal" basta dar uma olhada nos créditos de abertura para descobrir que ela é também um dos produtores executivos do filme de Barbet Schroeder: somente assim dá pra entender porque a atriz - que até funciona em comédias românticas ou papéis mais leves mas é incapaz de convencer interpretando personagens dramáticos (apesar do Oscar inexplicável por "Um sonho possível" em 2010). Na pele da detetive Cassie Mayweather, uma mulher traumatizada por um trágico acontecimento no passado que tenta desvendar o assassinato aparentemente sem motivos de uma jovem encontrada morta à beira de um rio, Bullock mais uma vez apresenta seu arsenal de caras, bocas e trejeitos, enfraquecendo uma história já banhada em clichês. Seu trabalho pouco inspirado só não consegue diluir totalmente o suspense da trama porque Schroeder consegue tirar leite de pedra e porque um dos atores jovens do elenco, Ryan Gosling, já demonstra, em um de seus primeiros filmes, que seu talento em roubar a cena.

Anos antes de tornar-se um galã requisitado e um ator dos mais elogiados de sua geração, Gosling chama a atenção pela intensidade que empresta ao jovem estudante Richard Haywood, cujo carisma petulante (e os pais milionários) sempre ajudaram a conquistar qualquer coisa. Por puro tédio e para provar a teoria de que o crime perfeito existe, ele se une a um colega de escola, Justin Pendleton (Michael Pitt, sempre estranho), um nerd desajustado e tímido que vê nele um ídolo e um modelo a ser seguido. Juntos, eles tramam a morte de uma desconhecida, planejam com antecedência cada passo e, como chave de ouro, deixam junto ao corpo traços que levam os detetives ao faxineiro da escola, Ray Feathers (Chris Penn), previamente condenado por agressão e tráfico de drogas. Quem não compra a solução do caso é Cassy, uma policial dedicada que desconfia quase obsessivamente de Richard e desafia seus superiores e seu parceiro, Sam Kennedy (Ben Chaplin), na tentativa desesperada de provar seu ponto de vista.


O ponto de partida de "Cálculo mortal" é dos melhores e mais inspiradores: dois jovens tentando praticar o crime perfeito - algo que lembra bastante "Festim diabólico", de Alfred Hitchcock, inclusive com alguns tons homoeróticos não explorados por Schroeder. O problema é que o roteiro acaba se desviando de sua premissa inicial sempre que passa a explorar os dramas pessoais de Cassie, fantasmas que não necessariamente tem conexão com a trama e que servem apenas para frear o ritmo da narrativa e dar à Sandra Bullock a chance de tentar mostrar-se capaz de segurar um papel com consistência dramática - o que ela não consegue, a não ser que se considere uma boa interpretação um trabalho recheado de esgares nitidamente forçados e gemidos exagerados para demonstrar medo e fragilidade (coisas que ela fez também em "Gravidade" e pelo qual conseguiu uma nova indicação ao Oscar). Sempre que a trama muda de foco e sai da investigação do crime para explorar os dramas pessoais de Cassie, o filme cai perigosamente no tédio e no lugar-comum, que culmina com a protagonista dormindo com o colega de trabalho apenas para mostrar que é descolada e independente. Mais chavão impossível. Interpretado por Sandra Bullock, então, chega às raias do insuportável.

Felizmente há mais elementos em "Cálculo mortal" do que sua mocinha sonolenta. O plano criado pelos dois rapazes é empolgante e a relação entre eles, ainda que pouco aprofundada pelo roteiro, é muito mais interessante do que o drama da policial que os investiga. Além do mais, Schroeder - diretor de filmes de prestígio como "O reverso da fortuna" e de sucessos de bilheteria como "Mulher solteira procura..." - é um cineasta inteligente, que tenta, mesmo quando o roteiro não lhe permite, contar suas histórias de forma a manter o interesse da plateia até o último minuto. Aqui, há inclusive uma reviravolta final, que, mesmo não sendo genial, consegue surpreender e livrar o espectador da sensação de tempo perdido. Pode não ser inesquecível, mas é um filme policial decente e que cumpre o que promete. Apesar de Sandra Bullock.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...