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sábado

ARTISTA DO DESASTRE

ARTISTA DO DESASTRE (The disaster artist, 2017, Warner Bros/New Line Cinema, 104min) Direção: James Franco. Roteiro: Scott Neustadter, Michael H. Weber, livro "The disaster artist: my life inside 'The room', the greatest bad movie ever made", de Greg Sestero, Tom Bissell. Fotografia: Brandon Trost. Montagem: Stacey Shroeder. Música: Dave Porter. Figurino: Brenda Abbandandolo. Direção de arte/cenários: Chris Spelman/Susan Lynch. Produção executiva: Richard Brener, Michael Disco, Joe Drake, Toby Emmerich, Nathan Kahane, Kelli Konop, Roy Lee, Alexandria McAtee, John Powers Middleton, Dave Neustadter, Scott Neustadter, Hans Ritter, Michael H. Weber, Erin Westerman. Produção: James Franco, Evan Golberg, Vince Jolivette, Seth Rogen, James Weaver. Elenco: James Franco, Dave Franco, Seth Rogen, Allison Brie, Megan Mullally, Melanie Grifith, Sharon Stone, Ari Graynor, Jackie Weaver, Zac Efron, Josh Hutcherson, Bob Odenkirk. Estreia: 11/9/17 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de roteiro adaptado
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator em Comédia/Musical: James Franco

Excêntrico no modo de vestir, falar e se comportar, Tommy Wiseau convida o melhor (e talvez único) amigo, Greg Sesteros, para ir com ele a Hollywood e tentar carreira no cinema. Depois de vários meses batalhando por uma chance - que nem mesmo o bem-apessoado Greg consegue -, o misterioso Wiseau (que esconde a verdadeira idade e a fonte de seu dinheiro) resolve arrombar a porta da indústria e fazer seu próprio filme. Dedica-se a escrever um roteiro e, quando ele fica pronto, parte para a ação: com ele e Greg nos papéis principais, "The room" começa a ser filmado - apesar das idiossincrasias de seu criador e de sua absoluta falta de talento em todas as funções (ator, diretor, roteirista e produtor). Depois de meses enervando a equipe do filme - incrédulos quanto à possível qualidade do filme -, a produção finalmente tem sua estreia marcada. Mas como será que os espectadores irão reagir diante de tanto amadorismo?

Tommy Wiseau é um personagem riquíssimo: sempre vestido de forma bizarra, com um sotaque indefinível e absolutamente reservado em relação à sua vida, ele age de maneira errática e se acredita muito mais talentoso do que realmente é - desde suas aulas de teatro até seu estrelato em "The room", um filme muito aquém de trash e hoje um cult movie por excelência. Apesar de ser pouco verossímil, Wiseau existe de verdade - e é sobre a produção de seu filme que trata "Artista do desastre", uma das comédias mais engraçadas e inteligentes dos últimos anos. Com ecos de "Ed Wood" (1994), de Tim Burton - especialmente no carinho com que o protagonista é retratado - e uma série de participações especiais valiosas, o filme agradou em cheio a crítica e poderia ter chegado facilmente às principais categorias do Oscar se não fosse um escândalo de assédio sexual que atingiu seu diretor, produtor e ator principal, James Franco. Vencedor do Golden Globe de melhor ator em comédia/musical e elogiado unanimemente, Franco acabou sendo deixado de lado pela Academia - que reconheceu com uma indicação apenas seu roteiro, adaptado por Scott Neustadter e Michael H. Weber do livro escrito pelo próprio Greg Sesteros, testemunha oficial dos fatos.


A exclusão de Franco da lista de indicações ao Oscar pode até ter sido surpresa, mas ninguém pode negar que seu filme é uma pérola. A segunda metade especialmente, quando começa a produção repleta de momentos bizarros de "The room", é simplesmente impossível não gargalhar. Ao contrário da maioria das comédias produzidas em Hollywood - algumas inclusive estreladas pelo próprio James Franco e seu colega de elenco, Seth Rogen -, "Artista do desastre" extrai seu humor não da escatologia, mas sim do absurdo de suas situações. De sua primeira aparição em cena - em uma interpretação no mínimo sui generis de Stanley Kowalski, de "Uma rua chamada pecado" - até seu final, de certa forma emocionante aos fãs de cinema -, Wiseau é uma figura absolutamente imprevisível, capaz tanto de gestos generosos (como abrigar Sesteros em sua chegada em Los Angeles) quanto de uma mesquinharia inacreditável (como não proporcionar água no set de filmagem, quente a ponto de levar uma atriz ao desmaio). James Franco encarna Wiseau com nítido prazer, entregando uma performance brilhante, que eclipsa até mesmo seu irmão, Dave, que ficou com o papel de Greg Sesteros: enquanto Sesteros é, de um modo, a voz da razão na dupla, Wiseau é um vulcão de sentimentos contraditórios - e pode, inclusive, suscitar a compaixão do público.

E se não fosse tão engraçado quanto é, "Artista do desastre" ainda tem o bônus de contar com inúmeras participações especiais, para deleite do espectador. Melanie Griffith, Sharon Stone, Megan Mullally, Bryan Cranston, Bob Odenkirk, Zac Efron, Josh Hutcherson, Jackie Weaver, Kevin Smith, Adam Scott e outros aparecem em pequenos papéis - ou em depoimentos falsos antes do filme começar (uma referência a "Reds", de Warren Beatty, lançado em 1981). É um prazer a mais identificá-los enquanto se acompanha a trajetória do protagonista em busca do lançamento de seu filme e sua esperada entrada no mercado cinematográfico de Hollywood. Seu filme,"The room", estreou em 2003, e, para não estragar a surpresa de quem ainda não sabe o final da história, basta dizer que, em determinado nível, ele conseguiu projetar-se na indústria e tornar-se famoso - mesmo que não exatamente do jeito que procurava. "The room" pode ser considerado um dos piores filmes da história do cinema, mas seu filho, "Artista do desastre", é um brilhante documento de sua realização.

domingo

ESCOBAR: PARAÍSO PERDIDO

ESCOBAR: PARAÍSO PERDIDO (Escobar: Paradise Lost, 2014, Chapter 2/Jaguar Films/Nexus Factory, 120min) Direção: Andrea Di Stefano. Roteiro: Andrea Di Stefano, adaptação de Andrea Di Stefano, Francesca Marciano. Fotografia: Luis David Sansans. Montagem: David Brenner, Maryline Monthieux. Música: Max Richter. Figurino: Marilyn Fitoussi. Direção de arte/cenários: Carlos Conti/Camila Arocha. Produção executiva: Benicio Del Toro, Josh Hutcherson, Luis Pacheco. Produção: Dimitri Rassam. Elenco: Benicio Del Toro, Josh Hutcherson, Brady Corbet, Claudia Traisac, Ana Girardot, Carlos Bardem. Estreia: 06/9/14 (Festival de Toronto)

O colombiano Pablo Escobar é um dos personagens mais fascinantes da história moderna. Não à toa, é o protagonista da série de TV "Narcos" - onde é interpretado pelo brasileiro Wagner Moura - e dá título à estreia de Andrea Di Stefano (ator que fez o papel do padre que quase enlouquecia com os questionamentos do protagonista de "As aventuras de Pi") como cineasta. Na pele de Benicio Del Toro - que assina o filme como produtor executivo, assim como seu colega de elenco Josh Hutcherson - o traficante de drogas mais famoso do mundo nem é o protagonista de "Escobar: paraíso perdido", mas sua onipresença (temida e ao mesmo admirada por boa parte de seus conterrâneos) é que norteia e dá o tom de suspense de uma produção que merecia ter tido uma acolhida mais generosa por parte da plateia e da crítica. Mesmo não sendo uma história verídica - os elementos reais estão misturados a uma trama fictícia criada pelo diretor e por Francesca Mariano - é um filme de prender o espectador na cadeira até os minutos finais, graças a um roteiro esperto, uma direção eficiente e um elenco surpreendente, liderado pelo jovem Josh Hutcherson, que segura praticamente sozinho os dois terços finais da narrativa com uma força de veterano.

Hutcherson - que ainda na infância estrelou o singelo "ABC do amor" e depois virou astro ao lado de Jennifer Lawrence na série "Jogos vorazes" - interpreta o canadense Nick, que chega à Colômbia no final dos anos 80 acompanhado do irmão, Dylan (Brady Corbet), para realizar o sonho de viver perto da natureza e do surf. Logo que chega ao país, ele conhece a bela Maria (Claudia Traisac), com quem inicia um apaixonado relacionamento. Não demora muito para que ele seja apresentado, então, ao tio dela, o político local Pablo Escobar (Benicio Del Toro), adorado pela população mais humilde graças a seus esforços em melhorar-lhes as condições de vida. Sabendo do carinho de Maria pelo tio, Nick acaba por fechar os olhos para o fato do dinheiro da família vir do tráfico de cocaína - e até para a chocante evidência de que Escobar é capaz de matar seus desafetos sem piscar os olhos. Algum tempo depois, quando a polícia descobre a origem da renda de Escobar e ele entra em guerra com o governo do país, Nick resolve ir embora junto com Maria, o irmão e a cunhada, mas um pedido do tio o obriga a mudar seus planos.


Em um esperto flashback que anuncia ao espectador que o paraíso de Nick em terras comandadas por Escobar tem os dias contados, o filme de Di Stefano começa realmente depois de mais de uma hora de projeção - o que não quer dizer que antes disso não seja interessante, muito pelo contrário, já que estabelece com competência todas as regras para seu terço final. É somente depois que Nick se vê obrigado a acatar as ordens do traficante (e elas não são nada agradáveis, como se poderia prever) que "Escobar: paraíso perdido" mostra realmente a que veio. Sem apelar para a violência explícita, o cineasta mergulha o espectador em um pesadelo de tensão e suspense capaz de deixar qualquer um sem fôlego. Escorado basicamente na atuação do jovem Hutcherson - que se mostra à altura do desafio - Di Stefano constroi uma narrativa sufocante e imprevisível, que vai crescendo até atingir um grau de emoção que não deixa de ser inesperada no filme de um diretor estreante. Não é um filme impecável, mas para uma primeira tentativa não deixa de ser muito admirável.

E quanto a Benicio Del Toro não é preciso falar muito. Um dos atores mais talentosos de sua geração, Del Toro comanda a ação mesmo quando não fala nada, com seu olhar amedrontador e seu vozeirão. Pablo Escobar aparece pouco, se comparado com o real protagonista, o jovem Nick, mas não é preciso muito tempo de tela para que o espectador saiba exatamente o perigo que seu personagem representa, a força que ele tem e o poder que ele emana. Coisas que só grandes atores conseguem fazer. E é impossível assistir-se à "Escobar: paraíso perdido" sem tremer sempre que Benicio entra em cena - e até mesmo quando sai dela. Uma excelente pedida.

terça-feira

JOGOS VORAZES - EM CHAMAS

JOGOS VORAZES: EM CHAMAS (The Hunger Games: Catching Fire, 2013, LionsGate, 146min) Direção: Francis Lawrence. Roteiro: Simon Beaufoy, Michael deBruyn, romance de Suzanne Collins. Fotografia: Jo Willems. Montagem: Alan Edward Bell. Música: James Newton Howard. Figurino: Trish Summerville. Direção de arte/cenários: Philip Messina/Larry Dias. Produção executiva: Suzanne Collins, Joseph Drake, Michael Paseornek, Louise Rosner, Ali Shearmur. Produção: Nina Jacobson, Jon Kilik. Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Philip Seymour Hoffman, Donald Sutherland, Woody Harrelson, Elizabeth Banks, Stanley Tucci, Lenny Kravitz, JeffreY Wright, Amanda Plummer, Jena Malone, Toby Jones, Lynn Cohen. Estreia: 18/11/13

Já está virando meio tradição dentro da indústria hollywoodiana: talvez por não precisar apresentar seus personagens e poder partir direto pra ação, talvez porque seus criadores sabem que a exigência do público aumenta ou talvez porque existe uma maior familiaridade com o material, os segundos capítulos da maioria das franquias cinematográficas contemporâneas conseguem ser melhores que o original. Foi assim com o "Homem-aranha 2" de Sam Raimi, com o "Batman, o cavaleiro das trevas", de Christopher Nolan e com "X-Men 2", de Bryan Singer. E foi assim também com "Jogos vorazes, em chamas", continuação do mega bem-sucedido filme de 2012 , baseado na trilogia escrita por Suzanne Collins. Agora sob a batuta de Francis Lawrence - cujo currículo inclui o interessante "Constantine" e a adaptação de "Eu sou a lenda" com Will Smith - a história de Katniss Everdeen em sua luta pela sobrevivência em um jogo de vida ou morte cada vez mais violento (e com intenções sociopolíticas nada justas) e empolgante.

Conforme dito acima, "Em chamas" tem a vantagem de não precisar perder tempo explicando sua trama e apresentando seus personagens - e para isso é crucial que a audiência já tenha assistido ao primeiro capítulo. Quando o filme começa, com eventos que acontecem um ano após o término do filme original, Katniss (Jennifer Lawrence, tornada queridinha de Hollywood pelo Oscar de melhor atriz conquistado por "O lado bom da vida") e seu parceiro Peeta Mellark (Josh Hutcherson), vencedores da 74ª edição dos jogos do título, começam uma turnê por todos os distritos, como forma de aproximar-se da população e dar credibilidade ao governo. Porém, ao perceber a desilusão do povo em relação os problemas sociais que os cercam, o casal (forjado para vencer os jogos) passa a questionar a liderança do Presidente Snow (Donald Sutherland). Temendo uma revolução liderada por Katniss, o presidente cria uma nova regra, que obriga todos os vencedores prévios a lutar novamente - sua intenção é acabar com a vida da jovem, impedindo assim que ela se torne a voz de um levante popular.



Acrescentando à série rostos conhecidos - Amanda Plummer, Jeffrey Wright, Jena Malone como novos competidores e Philip Seymour Hoffman como o novo diretor do torneio - "Em chamas" é mais violento do que seu primeiro capítulo, já apontando a direção que os dois últimos filmes tomarão: cada vez mais acossado, o vilão vivido por Donald Sutherland não hesita em transformar seu governo em uma carnificina e os jogos em uma série de armadilhas cruéis e traiçoeiras. Enquanto aprofunda também a relação entre Katniss e Peeta, o roteiro embaralha as cartas de forma a confundir a plateia até os minutos finais: em um golpe de mestre, a trama cerca a protagonista de aliados e inimigos sem deixar claro nem a ela nem ao público quem é quem - e qual é a sua real missão para acabar com os desmandos de um governo exponencialmente mais sádico. Para isso cresce a importância de Haymitch Abernathy (Woody Harrelson), que deixa de ser apenas um mentor bêbado para mostrar sua verdadeira face em relação à revolução - enquanto outros personagens transitam entre o bem e o mal aguardando a oportunidade de tomar um partido definitivo.

Sob a forma de um filme de ação direcionado ao público infanto-juvenil - o que explica a violência apenas moderada considerando as possibilidades da trama - Lawrence aproveita a história de Suzanne Collins para, exatamente como aconteceu no primeiro, discutir temas de relevância, como desigualdade social, fascismo e manipulação por parte da mídia. Logicamente, por tratar-se de uma produção cujo público-alvo não estar exatamente disposto a querelas políticas, o subtema é tratado apenas superficialmente (ainda que seja bastante claro para qualquer pessoa minimamente esclarecida), como pano de fundo para uma obra que oferece exatamente aquilo que sua plateia deseja: cenas de ação bem realizadas, um triângulo amoroso eficiente, personagens cativantes (interpretados por atores de qualidade inquestionável, como Philip Seymour Hoffman e Jeffrey Right) e um ritmo incapaz de cansar, apesar dos longos 146 minutos de projeção. Somadas a um criativo visual - refletido no figurino irreverente de Trish Summerville - e um roteiro redondinho - co-escrito por Simon Beaufoy, vencedor do Oscar por "Quem quer ser um milionário?" - essas qualidades fazem com que o único problema do filme seja justamente ter que esperar até o próximo capítulo - que, segundo mais uma nova tradição imposta pela busca por lucros, será dividido em dois filmes.

quinta-feira

JOGOS VORAZES



JOGOS VORAZES (The hunger games, 2012, LionsGate, 142min) Direção: Gary Ross. Roteiro: Gary Ross, Suzanne Collins, Billy Ray, romance de Suzanne Collins. Fotografia: Tom Stern. Montagem: Christopher S. Capp, Stephen Mirrione, Juliette Wellfling. Música: James Newton Howard. Figurino: Juddiana Makovsky. Direção de arte/cenários: Philip Messina/Larry Dias. Produção executiva: Robin Bissell, Suzanne Collins, Louise Rasner-Meyer. Produção: Nina Jacobson, Jon Kilik. Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Heinsworth, Donald Sutherland, Woody Harrelson, Stanley Tucci, Elizabeth Banks, Wes Bentley. Estreia: 12/3/12

Com o final da série "Harry Potter" e a iminente chegada do último capítulo da saga "Crepúsculo" - dividido em dois filmes para aproveitar até a última gota das aventuras vampiras estreladas pelos tenebrosos Kristen Stewart e Robert Pattinson - os estúdios de Hollywood estavam desesperadamente ansiosos por uma nova possibilidade de franquia infanto-juvenil. Pois os executivos não demoraram a poder dormir tranquilos: com mais de 150 milhões de dólares arrecadados em seu fim-de-semana de estreia, o filme "Jogos vorazes", adaptado de uma trilogia escrita por Suzanne Collins já foi considerado um enorme sucesso logo de cara - e suas continuações só encheram ainda mais os cofres dos produtores.. A melhor notícia, porém, é que o filme é muito bom. Apesar de ter como público-alvo uma plateia adolescente (idade dos protagonistas), é capaz de agradar aos adultos dispostos a um bom entretenimento por acrescentar à receita ingredientes que nunca estiveram presentes nos filmes de Bella e Edward: inteligência, talento e discussões bem mais sérias do que se poderia esperar de um passatempo hollywoodiano.

Dirigido por Gary Ross - que dirigiu o encantador "A vida em preto-e-branco" e o correto mas superestimado "Seabiscuit, alma de herói" - "Jogos vorazes" tem a seu favor uma heroína carismática (interpretada pela ótima Jennifer Lawrence, já então indicada ao Oscar por "Inverno da alma" e prestes a ser premiada por "O lado bom da vida"), um assunto momentoso (a febre dos reality shows + a violência) e uma história interessante o bastante para manter a plateia atenta durante toda a sua longa duração (mais de 140 minutos que passam rapidamente diante dos olhos do público). Ainda que demore a realmente começar - o que só acontece pela metade da projeção - o faz de maneira a apresentar devidamente suas personagens centrais e coadjuvantes (uma coleção de tipos bizarros vividos por gente do calibre de Donald Sutherland, Stanley Tucci e Woody Harrelson) antes da pancadaria. E para aqueles pais que se preocupam com o excesso de violência dos livros, um aviso: está tudo muito bem dosado no roteiro, sem exagero de nenhuma espécie - a Lionsgate não seria irresponsável de arriscar uma classificação etária que prejudicasse sua bilheteria, afinal de contas...


Para quem não sabe, "Jogos vorazes" se passa em um futuro distópico onde não existe mais a América do Norte e sim uma grande nação dividida em distritos. Como castigo pela rebelião ocorrida décadas antes - e que resultou em uma guerra - cada um de 12 distritos deve, anualmente, ceder um casal de adolescentes para participar de um reality show com o mesmo nome do filme: nesse jogo, eles não lutam por dinheiro ou glória, e sim pelas próprias vidas, sendo assistidas fielmente por milhares de espectadores. Na edição de número 74 dos famigerados jogos, a adolescente Katniss Everdeen (Lawrence) entra como voluntária, para impedir a irmã caçula de participar da caçada humana. A seu lado entra o jovem Peeta Mellark (Josh Hutcherson, de "Minhas mães e meu pai"), apaixonado por ela mas sem esperanças de ser correspondido. Conforme o jogo avança, porém, os dois percebem que forjar um romance pode ajudá-los a chegar ao final da disputa.

Qualquer semelhança com os Big Brothers da vida não é apenas casual. A crítica feroz que os livros de Collins fazem ao gênero não é disfarçada no filme de Ross, apesar do relativo senso de humor com que o tema é tratado em alguns momentos (em especial quando está em cena o sempre competente Stanley Tucci no papel de um Pedro Bial mais exótico e menos chato). Filmado em ângulos ousados para um produto que poderia facilmente ser tratado apenas como tal e com uma escolha de elenco acima de qualquer crítica (Woody Harrelson novamente rouba as cenas em que parece), "Jogos vorazes" mereceu todo o sucesso que fez. O roteiro se equilibra bem entre a ação, o romance e o drama, conduzindo tudo para um final devidamente climático e uma porta escancarada para os capítulos seguintes. Quem leu os livros sabe o que esperar.

quarta-feira

MINHAS MÃES E MEU PAI

MINHAS MÃES E MEU PAI (The kids are all right, 2010, Focus Features, 106min) Direção: Lisa Cholodenko. Roteiro: Lisa Cholodenko, Stuart Blumberg. Fotografia: Igor Jadue-Lillo. Montagem: Jeffrey M. Werner. Música: Carter Burwell. Figurino: Mary Claire Hannan. Direção de arte/cenários: Julie Berghoff/David Cook. Produção executiva: J. Todd Harris, Neil Katz, Riva Marker, Anne O'Shea, Andrew Sawyer, Steven Saxton, Christy Cashman, Ron Stein. Produção: Gary Gilbert, Jordan Horowitz, Celine Rattray, Daniela Taplin Lundberg. Elenco: Julianne Moore, Annette Bening, Mark Ruffalo, Mia Wasikowska, Josh Hutcherson. Estreia: 25/01/10 (Festival de Sundance)

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Annette Bening), Ator Coadjuvante (Mark Ruffalo), Roteiro Original
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme (Comédia/Musical), Atriz Comédia/Musical (Annette Bening)

Levando-se em consideração o quão conservadora e fechada a ousadias em relação a sexo (especialmente entre iguais) a Academia de Hollywood pode ser – principal razão pela qual preferiram premiar o hipócrita “Crash: no limite” ao invés do infinitamente superior “O segredo de Brokeback Mountain” na cerimônia de 2006 – não deixou de ser uma (boa) surpresa a inclusão da comédia dramática “Minhas mães e meu pai” na lista dos indicados a melhor filme de 2010. A história de um casal de lésbicas que encontra o homem que doou o esperma para a concepção de seus filhos adolescentes e vê sua família entrar em curto-circuito não é exatamente o tipo de produção que os rígidos membros eleitores costumam homenagear – vale lembrar, por exemplo, que neste mesmo ano eles encheram de láureas o tenebroso “O discurso do rei” mesmo com os bem mais criativos “A origem”, “Cisne negro” e “A rede social” no páreo – mas entrou na lista final em quatro categorias importantes (filme, atriz, ator coadjuvante e roteiro original). Não ganhou nada, como se poderia esperar, mas deu ao filme de Lisa Cholodenko uma visibilidade merecida e que, a julgar pela (ainda) impermeabilidade do mercado quando se fala de homossexualidade de forma séria e adulta, ficaria restrita ao mercado GLBT.
Sem transformar seu roteiro – em parceria com Stuart Blumberg, que posteriormente estrearia como diretor com o simpático “Terapia do sexo” – em palanque, Cholodenko acerta em cheio a rechear sua história com momentos de humor e dar a seus personagens uma complexidade rara no cinema americano, dotando-os de qualidades e defeitos na exata medida. É difícil não acreditar em todos os atos que eles cometem, por mais absurdos que a princípio possam parecer, principalmente porque, além do roteiro exemplar, a diretora ainda teve o mérito de juntar um elenco impecável, sem elos fracos e que transmite com exatidão o tom realista proposto pela trama sem nunca cair na armadilha do dramalhão ou da comédia de erros. Um filme basicamente calcado no equilíbrio entre todas as partes de sua equação, “Minhas mães e meu pai” é capaz de conquistar até ao mais renitente conservador.
A médica Nic (Annette Bening, indicada ao Oscar de melhor atriz) e a paisagista Jules (Julianne Moore, injustamente esquecida pela Academia) vivem um casamento pleno e feliz há mais de duas décadas. A harmonia de seu relacionamento – baseado nas diferenças essenciais entre as duas – se reflete em seu casal de filhos, Joni (Mia Wasikowska) e Laser (Josh Hutcherson), dois adolescentes centrados e de mente aberta concebidos através de inseminação artificial. Aos 18 anos de idade e em vias de viajar para a universidade, Joni cede aos pedidos do curioso irmão caçula e resolve entrar em contato com o banco de sêmen que permitiu a gravidez de suas mães e descobre a identidade de seu “pai”. Para sua surpresa, Paul (Mark Ruffalo, que perdeu o Oscar de coadjuvante para Christian Bale em “O vencedor”), o dono de um restaurante de comida orgânica, mostra-se uma pessoa afável, inteligente e comunicativa, que acaba por conquistar a amizade dos dois irmãos. Porém, quem não gosta nada da ideia de ver os filhos se aproximando do que considera uma ameaça à paz de sua família é Nic, uma mulher controladora e acostumada a ditar as regras de sua casa. Mas nem mesmo ela consegue impedir que não apenas os meninos se tornem amigos de Paul: contratada por ele para cuidar da paisagem de um terreno de sua propriedade, Jules acaba sucumbindo a seu charme e pondo em risco seu casamento até então inabalável.




Ao contrário de muitos filmes de temática homossexual que se utilizam de um elemento externo para abalar as convicções de algum dos protagonistas, “Minhas mães e meu pai” não se aproveita de Paul para tal propósito. Sua chegada ao universo anteriormente pacífico e estruturado da família de Nic não tem intenções dramáticas de questionar a sexualidade de Jules, e sim sua situação como alguém que se viu, aos poucos, sendo deixada de lado como mulher e indivíduo. De forma passiva, Jules viu Nic tomar conta de todo o lado prático da família, obrigando os filhos a normas de comportamento social quase sufocantes e pegando para si o papel de provedora (o que em um mundo heteronormativo corresponderia ao papel masculino). A chegada intempestiva e inesperada de Paul lhe oferece não apenas a confiança em sua capacidade criativa e profissional como também volta a lhe despertar o instinto sexual que a rotina doméstica havia tolhido. Não é uma questão de homo ou heterossexualidade: é uma questão de humanidade, e o roteiro faz questão de tratar a infidelidade de Jules com a devida naturalidade. A questão não é o gênero, e sim a lealdade ou falta dela, a busca pela felicidade, a insegurança e a insatisfação com a realidade. Jules é tanto vítima quanto algoz, assim como a personalidade avassaladora de Nic também o é. E Paul, no meio delas, é apenas o catalisador de uma discussão há muito tentando vir à tona.
O que é melhor em “Minhas mães e meu pai” é a absoluta naturalidade com que seus temas são tratados. O roteiro não pisa em ovos ao falar de homossexualidade, famílias modernas, infidelidade, sexo ou uso de drogas. Cholodenko e Blumberg conseguem criar um universo saudável onde tudo isso convive tranquilamente com uma rotina absolutamente corriqueira. Solar, bem-humorado e desprovido de julgamentos morais, o filme aproxima público e personagens sem apelar para piadas rasteiras ou momentos sentimentaloides, ainda que faça rir em algumas sequências e possa emocionar em outras. E não é difícil perceber que boa parte desse sucesso se deve ao elenco irretocável escolhido pela diretora. Annette Bening tem o papel mais complicado, menos simpático e consequentemente menos propenso a conquistar a simpatia da plateia, mas desincumbe-se com maestria do desafio. Julianne Moore foge com destreza das tentações de fazer uma Jules frágil em excesso e mais uma vez mostra porque é uma das grandes atrizes de sua geração, conquistando a cumplicidade do público sem fazer esforço. Mark Ruffalo – conquistando sua primeira indicação ao Oscar – exercita novamente sua persona agradável e alto-astral, justificando o furacão que provoca na família e Josh Hutcherson demonstra que pode vir a ser um grande ator em um futuro próximo. Até mesmo a normalmente apática e inexpressiva Mia Wasikowska está bem, o que confirma a qualidade da direção de atores de Cholodenko.
Engraçado, leve, sério e desprovido de neuras, “Minhas mães e meu pai” é um dos melhores filmes de temática gay a surgir na primeira década do século XXI. Sem fazer propaganda ou levantar bandeiras, trata seus personagens com o carinho e o respeito que merecem, e oferecem ao público um desenho acurado e sentimental – mas nunca açucarado em excesso – de um novo formato familiar, cheio de idiossincrasias e conflitos, mas ainda mais repleto de amor e compreensão. Um belo filme, sem contra-indicações.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...