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segunda-feira

INTRIGAS DE ESTADO

INTRIGAS DE ESTADO (State of play, 2009, Universal Pictures/Working Title Films, 127min) Direção: Kevin MacDonald. Roteiro: Matthew Michael Carnahan, Tony Gilroy, Billy Ray, série de televisão de Paul Abbott. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Justine Wright. Música: Alex Heffes. Figurino: Jacqueline West. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Cheryl Carasik. Produção executiva: Paul Abbott, Liza Chasin, Debra Hayward, E. Benneth Walsh. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Andrew Hauptman. Elenco: Russell Crowe, Ben Affleck, Rachel McAdams, Helen Mirren, Robin Wright, Jason Bateman, Jeff Daniels, Viola Davis, David Harbour. Estreia: 17/4/09

Na falta de bons roteiros originais, ou ao menos na falta de coragem de investir em ideias novas, Hollywood constantemente volta sua atenção para materiais já previamente testados, seja em livros, histórias em quadrinhos ou até mesmo em clássicos queridos pelo público. Nessa ânsia por encontrar boas histórias, nem ao menos programas de televisão são poupados. Um exemplo dessa afirmação é "Intrigas de estado", uma produção de primeira linha, com atores famosos e consagrados, um estúdio tradicional (Universal Pictures) e um diretor promissor que tem origem em uma série da BBC inglesa, levada ao ar em 2003. Com uma sutil mudança em um crucial detalhe da trama - substituiu-se uma companhia de petróleo por uma agência militar - e a tentativa de condensar seis episódios em palatáveis duas horas de duração, o filme de Kevin MacDonald (de "O último rei da Escócia", que deu o Oscar de melhor ator a Forest Whitaker em 2007), o filme acabou por passar quase em branco nos EUA e não conquistar nem mesmo a boa vontade da crítica, apesar de contar com um elenco de primeira e com um tema bastante inflamável em um país ainda em estado de nervos com os constantes conflitos no Oriente Médio.

Aliás, o escocês Kevin MacDonald nem foi a primeira escolha do estúdio para comandar "Intrigas de estado", cuja pré-produção foi uma verdadeira dança das cadeiras. O primeiro nome cotado para a direção foi o de Edward Zwick, que nem chegou a manter-se por muito tempo no cargo. Antes de MacDonald finalmente assinar com o estúdio, nomes tão díspares quanto Ang Lee, Richard Linklater, Jim Jarmusch e Brian DePalma foram sondados - e, obviamente, cada um deles certamente daria um enfoque e um estilo diferentes ao roteiro. Com um cineasta como MacDonald (competente mas sem a força suficiente para chamar público por si só) à frente do projeto, apenas um elenco de peso poderia equilibrar as coisas - e nesse ponto nenhum produtor estava disposto a brincadeiras. A princípio o filme reuniria Brad Pitt e Edward Norton quase dez anos depois de seu cultuado "Clube da luta" (1999), o que imediatamente acendeu o interesse de todo mundo. Porém, uma greve de roteiristas tirou Pitt do filme (o ator queria que partes do roteiro fossem reescritas) e o atraso acabou por também afastar Norton. Ben Affleck imediatamente embarcou em seu lugar, mas antes que Russell Crowe assumisse o lugar de Brad, outros astros foram cogitados para o papel - mais precisamente Nicolas Cage, Johnny Depp e Tom Hanks. Com Robin Wright (ainda Penn) e Rachel McAdams nos principais papéis femininos e Helen Mirren substituindo o conterrâneo Bill Nighy na pele da editora-chefe do Washigton Globe, tudo parecia garantir uma vitória certa. Porém, a bilheteria tímida de pouco mais de 37 milhões de dólares no mercado doméstico mostrou que nem sempre uma receita de sucesso funciona como o esperado. E nesse caso específico, somente a aversão das plateias a qualquer trama remotamente ligada às guerras do governo Bush pode explicar.


Não há nada de flagrantemente errado em "Intrigas de estado": o roteiro é inteligente e com um bom número de reviravoltas; a direção de MacDonald é sóbria e competente (ainda que sem brilho); o elenco é homogêneo (apesar das caras e bocas de Ben Affleck) e o ritmo é eficiente, mérito da edição ágil de Justine Wright, da fotografia precisa de Rodrigo Prieto e da trilha sonora de Alex Heffes. Então por que a receptividade tão morna (ou até mesmo fria)? Talvez seja mesmo o fato de que produções que tem as guerras no Oriente Médio nunca conquistarem boas bilheterias - nem mesmo quando juntam um time como Matt Damon e o diretor Paul Greengrass, que apesar do sucesso de seus filmes sobre Jason Bourne amargaram o naufrágio de "Zona verde" em 2010. Mas é também preciso reconhecer que, apesar da reunião de talentos e da história instigante, "Intrigas de estado" é um filme apenas correto, sem aquele tempero que transforma um mero entretenimento em um filme inesquecível. Talvez seja a falta de química entre Russell Crowe (ótimo ator mas em modo piloto automático) e Ben Affleck (péssimo ator que mata a dubiedade de seu personagem graças às suas limitações dramáticas). Talvez seja o foco confuso - afinal, qual das tramas é realmente a mais importante? Ou talvez seja mesmo porque a história simplesmente falha em cativar o interesse da plateia e seus personagens sejam desprovidos de qualquer carisma.

O filme até que começa bem: pelas ruas de Washington, um homem é perseguido por outro e, quando finalmente se vê encurralado, morre a tiros. Um ciclista que passava no local também é atingido pelo criminoso e, no dia seguinte, a jovem Sonia Baker (Maria Thayer) morre em um misterioso acidente no metrô da cidade. Sua morte é manchete, uma vez que ela fazia parte de uma comissão que investigava a fundo uma empresa privada em vias de tornar-se a responsável pela segurança militar dos EUA. Seu trágico e inesperado fim também revela um romance secreto com Stephen Collins (Ben Affleck), um senador casado que é um dos principais integrantes da comissão. O "acidente" chama a atenção da jovem e ambiciosa repórter Della Frye (Rachel McAdams), que vê no caso a oportunidade de mudar de status dentro do Washington Globe. Para isso, ela conta com a ajuda do veterano Cal McAffrey (Russell Crowe), que, não apenas tem interesse jornalístico no caso: ele é amigo pessoal de Collins - e viveu um apaixonado romance com a esposa dele, Ann (Robin Wright Penn). Conforme as investigações avançam, McAffrey chega à conclusão de que terá de decidir entre acreditar ou não no velho amigo, que pode ter muito mais responsabilidade nas mortes do que aparenta.

A questão é: vale a pena gastar duas horas assistindo a "Intrigas de estado"? Sim e não. O produto final é um filme obviamente bem produzido, com uma equipe acima de qualquer suspeita e uma história com desdobramentos certamente surpreendente - em especial ao espectador menos escolado. Porém, o filme soa frio, quase distante da audiência, sem um personagem no qual o público pode se espelhar. Mesmo o heroico jornalista vivido por Russell Crowe não consegue conectar-se com a plateia, em parte pela quase antipatia que o ator neozelandês transmite no papel. Rachel McAdams faz o que pode com uma personagem bem chatinha, e Ben Affleck é o Ben Affleck de sempre, com uma gama de nuances rasa e apática. Só mesmo as presenças de Helen Mirren e Robin Wright conseguem sobressair-se - mesmo em papéis pequenos as duas atrizes são uma delícia de ver.

sábado

OS SUSPEITOS

OS SUSPEITOS (Prisoners, 2013, Alcon Entertainment, 153min) Direção: Denis Villeneuve. Roteiro: Aaron Guizowski. Fotografia: Roger A. Deakins. Montagem: Joel Cox, Gary Roach. Música: Jóhan Jóhansson. Figurino: Renée April. Direção de arte/cenários: Patrice Vermette/Frank Galline. Produção executiva: Stephen Levinson, Edward L. McDonnell, Robyn Meisinger, John H. Starke, Mark Wahlberg. Produção: Kira Davis, Broderick Johnson, Adam Kolbrenner, Andrew A. Kosove. Elenco: Hugh Jackman, Jake Gyllenhaal, Paul Dano, Melissa Leo, Terrence Howard, Maria Bello, Viola Davis. Estreia: 30/8/13 (Festival de Telluride)

Indicado ao Oscar de Fotografia

Realizar um filme de gênero é sempre um desafio para um grande diretor: é preciso jogar com os elementos clássicos de forma inteligente, de maneira a prender a atenção de um público mal-acostumado com os clichês e ainda assim imprimir uma marca que o distingua de dezenas de outros lançamentos. Para sorte dos cinéfilos, vários mestres conseguiram esse feito: Pedro Almodovar fez isso magistralmente em "Má educação". David Fincher também, em "Zodíaco". Scorsese idem, em "A época da inocência" e Woody Allen em "Match point, ponto final". A lista, agora, tem um novo nome: Denis Villeneuve, o canadense do sublime "Incêndios", indicado ao Oscar de filme estrangeiro em 2011. Seu "Os suspeitos" foge da simples definição de filme policial para transformar-se, em suas mãos, em um sério e claustrofóbico estudo sobre a culpa, a justiça pelas próprias mãos e o sentimento de perda.

O título original - "Prisoners" - pra variar tem muito mais camadas do que a tradução preguiçosa escolhida pela distribuidora, que já havia batizado outro grande filme, dirigido por Bryan Singer em 1995 e que deu o primeiro Oscar a Kevin Spacey. No filme de Villeneuve, os protagonistas são realmente prisioneiros, cada um a seu modo, das consequências do desaparecimento de duas meninas no feriado de Ação de Graças em Boston. O pai de uma delas, Keller Dover (Hugh Jackman) parte em uma busca obsessiva por seu paradeiro, que ele julga ser de conhecimento de Alex Jones (Paul Dano), um rapaz com problemas mentais visto nas redondezas do rapto. O policial Locki (Jake Gyllenhaal), encarregado do caso, sente-se em dívida de honra com o desesperado pai, especialmente quando o principal suspeito é liberado apesar de sua promessa de mantê-lo sob vigilância. E, logicamente, as duas famílias também estão aprisionadas à dúvida sobre a vida ou morte de suas crianças.


Os desdobramentos da trama, criada pelo roteirista Aaron Guzikowski, não valem a pena ser mencionados, sob pena de estragar a diversão - se é que "diversão" é o adjetivo adequado a um filme que mantém a tensão da plateia à flor da pele. No pleno domínio de seu trabalho como cineasta, Villeneuve constroi um suspense crescente, espalhando pistas sobre a resolução do caso (quase simplista, mas coerente) pelas cenas, dirigidas com economia de movimentos de câmera e atenção redobrada aos detalhes. A fotografia úmida e noir do mestre Roger Deakins colabora para o tom sombrio da narrativa, que não dá espaço para momentos desnecessários (e o faz com tanta competência que as duas horas e meia passam sem que se perceba). O roteiro segue o padrão que todos conhecem - o crime, a investigação, as pistas falsas, o clímax, o desenlace - mas o faz com uma propriedade ímpar, que faz com que tudo soe como novidade aos olhos da plateia, principalmente por dar uma importância rara às consequências dramáticas dos atos de seus personagens.

Ao contrário da maioria dos filmes policiais, onde os personagens existem somente para empurrar a história, em "Os suspeitos" é a história que empurra os personagens. Interessa a Villeneuve, cineasta com um olho cuidadoso para as mazelas do ser humano, mais a violência psicológica que se passa no subterrâneo da mente de Dover, Jones e Locki do que a violência física que porventura possa estar ocorrendo no cativeiro das meninas sequestradas. É a forma com que o pai angustiado e o policial dedicado lidam com o caso que eleva o filme a um patamar acima de seus congêneres, e para tal conta com um elenco brilhante, liderado por Hugh Jackman na melhor atuação de sua carreira - muito superior à sua interpretação indicada ao Oscar pelo modorrento "Os miseráveis" - e Jake Gyllenhaal, que constrói seu Locki com uma expressão corporal sutil e eficaz. O cada vez melhor Paul Dano e a oscarizada Melissa Leo também tem interpretações de destaque, em papéis que exploram a contento suas melhores qualidades.

Forte, intenso e digno de figurar entre os indicados ao próximo Oscar - o que infelizmente não deve ocorrer, haja visto sua ausência nas listas divulgadas até o momento - "Os suspeitos" é uma estreia alvissareira do diretor Dennis Villeneuve em Hollywood. Que se mantenha assim.

TÃO FORTE, TÃO PERTO

TÃO FORTE, TÃO PERTO (Extremely loud & incredibly close, 2011, Warner Bros, 129min) Direção: Stephen Daldry. Roteiro: Eric Roth, romance de Jonathan Safran Foer. Fotografia: Chris Menges. Montagem: Claire Simpson. Mùsica: Alexandre Desplat. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: K.K. Barrett/George De Titta Jr. Produção executiva: Celia Costas, Mark Roybal, NOra Skinner. Produção: Scott Rudin. Elenco: Tom Hanks, Sandra Bullock, Thomas Horn, Max Von Sydow, Viola Davis, Jeffrey Wright, John Goodman, Zoe Campbell. Estreia: 25/12/11

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Max Von Sydow)

O inglês Stephen Daldry tem uma boa folha de serviços prestados ao cinema desde sua estreia com o lírico “Billy Elliot” (00), que de cara lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor diretor. Depois, voltou ao páreo pelo brilhante “As horas” (02) – que deu à Nicole Kidman a estatueta de melhor atriz – e pelo dramático “O leitor” (08) – que também premiou sua protagonista, Kate Winslet, com uma estatueta dourada. De seus três primeiros (e ótimos) filmes, dois foram homenageados pela Academia com uma indicação ao Oscar máximo, o que encheu o público e a crítica de expectativas em relação a seu quarto trabalho. A estreia de “Tão forte e tão perto”, no entanto, mostrou que todo mundo corre o risco de errar. Mesmo arrebatando uma quase inexplicável indicação ao Oscar de melhor filme – um quase que pode ser compreendido pelos humores da parcela mais conservadora da Academia – e tendo conquistado alguns críticos, o filme de Daldry é uma decepção quase total, principalmente por ter como seu maior e mais irrecuperável defeito a péssima escolha de seu ator principal. Ao contrário do que aconteceu quando Jamie Bell saiu do anonimato para dar vida e alma ao menino que sonhava com o balé em “Billy Elliot”, a opção pelo novato Thomas Horn para protagonizar “Tão forte, tão perto” arruinou todo o projeto de Daldry. Descoberto em um programa de perguntas e respostas da TV americana, Horn faz com que assistir-se ao filme se torne uma tortura quase insuportável. E não é preciso ser cientista da NASA para saber que quando um protagonista (a base de qualquer filme, afinal) não tem empatia com o público, não há marketing milagroso o suficiente para salvá-lo da ruína.
Ok, “Tão forte e tão perto” não chega a ser uma ruína completa – Daldry é um diretor de muito talento para perder tanto a mão, e os coadjuvantes são admiráveis (inclui-se aqui Tom Hanks em uma participação especial mas essencial ao estabelecimento da trama, Max Von Sydow em uma interpretação indicada ao Oscar e Viola Davis injetando humanidade em cada cena que aparece). Mas para cada qualidade que apresenta – a edição de Claire Simpson, com momentos brilhantes e a bela trilha sonora de Alexandre Desplat – existe uma série de problemas que impedem o espectador de mergulhar sem reservas na história criada pelo escritor Jonathan Safran Foer. O primeiro deles – e o maior, a ponto de praticamente anular o que o filme tem de bom – é, como afirmado anteriormente, o protagonista. Não apenas o personagem é chato, irritante, mimado e histérico, como seu intérprete consegue – ao invés de diluir tais características pouco louváveis – ampliá-las ainda mais. A cada cena em que Thomas Horn aparece na pele do herói da história, Oskar Schell, gritando, esperneando e xingando quem aparece em sua frente, é uma tentação imensa não abandonar a trama, por mais interessante que ela pudesse ter parecido em seu princípio.
E, é preciso reconhecer, o pontapé inicial é instigante: o atentado às Torres Gêmeas em onze de setembro de 2001 deixa órfão de pai o excêntrico Oskar Schell, um menino com problemas em interatividade social – a ponto de ter sido considerado suspeito de portar a Síndrome de Asperger – e que, devido a seu modo especial de comportamento, dedica-se a atividades que requerem o máximo de atenção e método. A perda da referência paterna joga Oskar em um estado ainda mais particular de existência – as caças ao tesouro promovidas por Thomas (Tom Hanks) pela cidade de Nova York e pelo Central Park cessam por completo e ele não consegue ligar-se satisfatoriamente com a mãe, Linda (Sandra Bullock, que não ajuda nem atrapalha). A chance de reconectar-se com o passado surge, porém, quando o menino encontra, sem querer, uma chave guardada dentro de um pequeno envelope dirigido a alguém com o nome Black. Crente de que tal objeto faz parte de mais um enigma proposto por Thomas, o menino começa então uma jornada detalhada – e matematicamente assustadora – para tentar localizar o dono da chave. No caminho, encontra todo tipo de pessoa, o que o irá obrigar a lidar com uma realidade com a qual ele nunca antes havia tido contato.

A busca de Oskar pela resolução do enigma da chave misteriosa e da identidade de Black é interessante: o roteiro do premiado Eric Roth (Oscar por “Forrest Gump: o contador de histórias”) é bem amarrado e prende como pode a atenção da plateia, com personagens coadjuvantes irresistíveis como a doce Abby (interpretada por Viola Davis) e outros que, mesmo sem uma linha de diálogo, conseguem emocionar com seus dramas pessoais. Quando Max Von Sydow entra em cena, então, tudo parece que vai finalmente deslanchar: surdo-mudo graças a um trauma pessoal, seu personagem (que paga pelo aluguel em um quarto na casa da avó de Oskar e junta-se a ele na peregrinação em busca de respostas) rouba o filme em poucos minutos – mas então seu silêncio esbarra na histeria do protagonista juvenil e tudo vai por água abaixo. O primeiro encontro entre os dois – quando o menino conta sua história ao calado interlocutor – poderia ser empolgante, com seu texto inteligente e montagem ágil: na voz irritante de Thomas Horn é quase uma tortura. E se levarmos em consideração o quão frágil é o clímax do filme, o final da sessão dá uma violenta sensação de tempo perdido.
Mas é apenas uma sensação. “Tão forte e tão perto” é bem dirigido, bem escrito, bem editado e tem algumas qualidades quase redentoras, como Von Sydow, Viola e Tom Hanks. A história é interessante, há momentos de real emoção e – o que ainda é raro no cinema americano – o trauma do 11/9 é tratado sob um viés humano e sensível. Mas, levando-se em conta o quão boa poderia ter sido a união de tanta gente talentosa, não deixa de ser um filme frustrante e bastante chato. Um escorregão na carreira até então brilhante de Stephen Daldry.

quinta-feira

HISTÓRIAS CRUZADAS

HISTÓRIAS CRUZADAS (The help, 2011, Dreamworks SKG/Reliance Entertainment, 146min) Direção: Tate Taylor. Roteiro: Tate Taylor, romance de Kathryn Stockett. Fotografia: Stephen Goldblatt. Montagem: Hughes Winborne. Música: Thomas Newman. Figurino: Sharen Davis. Direção de arte/cenários: Mark Ricker/Rena DeAngelo. Produção executiva: Mohamed Mubarak Al Mazrouei, Nate Berkus, Jennifer Blum, L. Dean Jones Jr., John Norris, Mark Radcliffe, Jeff Skoll, Tate Taylor. Produção: Michael Barnathan, Chris Columbus, Brunson Green. Elenco: Emma Stone, Viola Davis, Octavia Spencer, Bryce Dallas Howard, Jessica Chastain, Sissy Spacek, Allison Janney, Mary Steenburgen, Cicely Tyson. Estreia: 09/8/11

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Viola Davis), Atriz Coadjuvante (Jessica Chastain, Octavia Spencer)
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer) 

É preciso ser honesto: somente a quase histeria em relação ao politicamente correto pode justificar todo o oba-oba em torno do drama "Histórias Cruzadas", adaptado do romance de Kathryn Stockett (publicado no Brasil pela editora Bertrand com o título "A resposta"). Apesar de seu elenco impecável, de alguns momentos realmente emocionantes (sempre proporcionados pela arrasadora Viola Davis) e do assunto sempre relevante (independente de época e geografia), o filme de Tate Taylor não consegue escapar da impressão de ser mais um filme-fórmula, esbarrando em clichês e, pior ainda, apelando para uma desnecessária escatologia que disfarça como humor, para cativar seu público. Sua calorosa receptividade, tanto em termos comerciais - mais de 170 milhões de dólares arrecadados somente nos EUA - quanto críticos - cinco indicações ao Golden Globe e outras quatro para o Oscar, incluindo melhor filme - parece dizer muito mais sobre o sentimento de culpa da América sobre a forma com que os negros sempre foram tratados em sua história (e na do cinema em si) do que sobre suas qualidades cinematográficas. Mas então o filme é ruim? Não, claro que não. Mas também não é essa maravilha que tanto se alardeou por aí à época de seu lançamento.

A trama em si é, no mínimo, impactante: em plena efervescência na luta pelos direitos civis dos negros, nos anos 60, a recém-formada Skeeter (Emma Stone) retorna à sua cidade natal, Jackson, no Mississipi, com o objetivo de adquirir experiência como jornalista antes de aventurar-se pela imprensa nova-iorquina. Insatisfeita com a coluna de dicas domésticas no jornal local, ela percebe, esperta e revolucionária, que há, na atmosfera da cidade, a história que poderá alavancar sua carreira e ajudar na vida de dezenas de mulheres negras que, vítimas de uma segregação violenta e cruel, são obrigadas a manter-se caladas diante de injustiças diárias e de diversos tamanhos (desde a impossibilidade de usar o banheiro das casas onde trabalham e usar os mesmos talheres até o fato de criarem as mesmas crianças brancas que crescerão e lhes tratarão com o mesmo desrespeito). Com  a ajuda da sofrida Aibileen Clark (a sempre sensacional Viola Davis, indicada ao Oscar de melhor atriz) e de outras domésticas que vão se juntando à sua narrativa mesmo correndo o risco de cadeia - nas leis do Estado do Mississipi qualquer tentativa de ir contra a segregação era crime passível de prisão - a jovem faz um painel triste e doloroso da situação, perpetuada por jovens como a insensível e detestável Hilly Holbrook (Bryce Dallas Howard).


Na verdade, é fácil para o público médio gostar de "Histórias Cruzadas". Suas personagens são carismáticas (ainda que em nenhum momento consigam esconder um maniqueísmo barato e quase preguiçoso em seu desenho) e seu tom leve é um alívio, em especial quando a história poderia tranquilamente descambar para o melodrama pesado. Porém, ao tentar não ser tão exagerado no dramalhão, Taylor incorre em um pecado bastante grave, dando um espaço maior do que deveria a um humor quase infantil. Em alguns momentos, histórias como a vingança de Minny Jackson (vivida pela ótima Octavia Spencer, vencedora do Golden Globe e do Oscar de coadjuvante) desviam a atenção da plateia para tramas bem mais interessantes, como a relativa à morte do filho de Aibileen Clark (a sempre sensacional Viola Davis) e a luta de Skeeter (Emma Stone) por sua liberdade de expressão e pensamento. Some-se a isso o fato de o filme ser mais longo do que precisava (146 minutos são um exagero, o que é culpa de sua tentativa de estender abranger várias tramas ao mesmo tempo), contar histórias paralelas desinteressantes (como o namoro de Skeeter com um jovem que não aceita sua liberdade de pensamento e a rivalidade entre duas socialites) e fica difícil se apaixonar por ele como tanta gente fez - especialmente com a ideia um tanto incômoda de eleger uma branca como a salvadora da pátria em um filme com tantas personagens negras fortes e interessantes.

Logicamente "Histórias cruzadas" tem muitas qualidades, sendo o elenco a principal delas. Emma Stone é uma delícia de se ver, assim como Viola Davis e Octavia Spencer, e Bryce Dallas Howard, surpreendente como a jovem vilã Hilly Holbrook, mesmo que o roteiro lhe obrigue a ser uma personagem unidimensional. No entanto, a festejada Jessica Chastain, normalmente certeira, sai um pouco do tom com sua perua Celia Foote, talvez culpa da direção sem sutilezas de Taylor que aposta em um registro acima para proporcionar o tal "humor" que tanto mina as forças do filme como um todo - mesmo assim Chastain foi indicada ao Oscar de coadjuvante, provavelmente mais uma homenagem à sua versatilidade do que a seu trabalho específico aqui. E, justiça seja feita, a produção é delicada e eficaz, em especial a trilha sonora de Thomas Newman, que pontua cada cena com discrição, e a fotografia ensolarada de Stephen Goldblatt, que contrasta com a violência psicológica sofrida por suas protagonistas.

Resumindo, "Histórias cruzadas" é um bom filme, ideal para emocionar àqueles que gostam do gênero. Mas está a anos-luz da intensidade e da crueza de "A cor púrpura", por exemplo. Emociona, mas não marca.

domingo

PARANOIA

PARANOIA (Disturbia, 2007, DreamWorks SKG, 105min) Direção: D.J. Caruso. Roteiro: Christopher Landon, Carl Ellsworth, estória de Christopher Landon. Fotografia: Rogier Stoffers. Montagem: Jim Page. Música: Geoff Zanelli. Figurino: Marie-Sylvie Deveau. Direção de arte/cenários: Tom Southwell/Maria Nay. Produção executiva: Tom Pollock, Ivan Reitman. Produção: Jackie Marcus, Joe Medjuck, E. Benneth Walsh. Elenco: Shia LaBeouf, David Morse, Carrie-Anne Moss, Sarah Roemer, Aaron Yoo, Viola Davis. Estreia: 04/4/07

Uma versão adolescente e moderna de "Janela indiscreta" poderia parecer desnecessária para uns, mercenária para outros e até blasfêmia para os mais exaltados. No entanto, é praticamente isso que "Paranoia", dirigido pelo mesmo D.J. Caruso de "Roubando vidas", é. O mais surpreendente de tudo, porém, não é o fato de uma versão puramente comercial de um clássico do suspense ter sido um sucesso de bilheteria (mais de 80 milhões de dólares arrecadados no mercado doméstico) nem de ter o dedo milionário de Steven Spielberg na produção (através de seu estúdio DreamWorks): o mais admirável é que o filme de Caruso funciona muito bem. Desde a escolha do elenco - o jovem Shia LaBeouf ainda não havia estrelado o blockbuster "Transformers", mas já demonstrava fôlego para segurar produções mais ambiciosas - até a direção dotada de ritmo e tensão, tudo se encaixa à perfeição para criar um entretenimento despretensioso, capaz de agradar até ao mais ferrenho defensor do "purismo cinematográfico".

Levando-se em conta que até mesmo a justiça americana considerou inválida a ação perpetrada pelos detentores dos direitos autorais do conto de Cornell Woolrich que deu origem ao filme de Hitchcock - por perceber no roteiro de "Paranoia" diferenças em número suficiente para dar-lhe uma identidade original - os tais puristas deveriam relaxar e aproveitar 105 minutos de diversão descompromissada e tecnicamente bem-cuidada, como tudo que leva a mão de Spielberg - que mais tarde daria a LaBeouf o papel de filho do arqueólogo mais famoso do cinema, em "Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal". Inteligente e com altas doses de adrenalina, "Paranoia" é uma sessão da tarde turbinada, que requer apenas uma plateia disposta a embarcar na trama junto com os protagonistas e uma bom combo de pipoca e refrigerante. Não muda a história do cinema, mas é divertido e muito competente.


Antes de tornar-se mais um jovem ator-problema de Hollywood, Shia LaBeouf vive Kale, um adolescente de 17 anos, órfão de pai - morto em um recente acidente de carro - que, depois de agredir um professor, é condenado a três meses de prisão domiciliar. Sem poder recorrer ao velho e bom video-game e à Internet - cortados por sua mãe, Julie (Carrie-Anne Moss, a Trinity da trilogia "Matrix") - resta a ele acompanhar a rotina diária de sua vizinhança através de um binóculo. Tal rotina torna-se extremamente interessante, porém, quando a bela Ashley (Sarah Roemer) muda-se para uma casa próxima e lhe dá, mesmo sem saber, shows diários de banhos de sol e trocas de roupa em seu quarto. Sua paixão pela nova vizinha ele compartilha com seu melhor amigo, Ronnie (Aaron Yoo), mas logo esse sentimento de paz e amor é ameaçado quando evidências passam a apontar que um outro vizinho, o misterioso Turner (David Morse), é o assassino de uma série de mulheres e que fez uma das vítimas em sua casa. O trio passa então, a investigar o caso, mesmo que Kale não possa afastar-se do quintal de sua propriedade.

Contando sua história aos poucos, sem apressar o ritmo e em tensão crescente, D.J. Caruso mantém o interesse da audiência aceso do início ao fim, equilibrando momentos de puro suspense com outros mais leves, onde explora o romance nascente entre Kale e Ashley - o que leva o filme aos domínios da plateia adolescente, público-alvo da produção, afinal de contas - e dá inevitável espaço para o humor, na figura de Ronnie, que, felizmente, não serve apenas para arrancar risos e também põe a mão na massa na hora de provar a culpa do vilão, vivido com gosto por David Morse, um ator que tem o tipo certo para o personagem e tira de letra a missão de bater de frente com um trio de adolescentes bisbilhoteiros que atrapalham sua trajetória criminosa. Sem poupar ninguém, o suspeito - logo tornado culpado - mostra que não é preciso ser um mascarado atrapalhado para dar sustos na plateia jovem (e nem mesmo naquela nem tão jovem assim). Com um vilão apavorante, um protagonista carismático e uma trama razoavelmente consistente, "Paranoia" é um programa dos bons. Basta não esperar uma obra-prima como o filme que lhe inspirou.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...