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domingo

O COLECIONADOR DE OSSOS

O COLECIONADOR DE OSSOS (The bone collector, 1999, Universal Pictures/Columbia Pictures, 118min) Direção: Philip Noyce. Roteiro: Jeremy Iacone, romance de Jeffery Deaver. Fotografia: Dean Semler. Montagem: William Hoy. Música: Craig Armstrong. Figurino: Odette Gaudory. Direção de arte/cenários: Nigel Phelps/Marie-Claude Gosselin, Susan C. MacQuarrie, Harriet Zucker. Produção executiva: Dan Jinks, Michael Klawitter. Produção: Martin Bregman, Michael Bregman, Louis A. Stroller. Elenco: Denzel Washington, Angelina Jolie, Queen Latifah, Michael Rooker, Luis Guzman, Mike McGlone, Leland Orser, Ed O'Neil, Bobby Cannavale. Estreia: 29/8/99 (Festival de Montreal)

O ano de 1999 foi movimentado para Denzel Washington e Angelina Jolie: antes mesmo que passassem a acumular elogios e prêmios por suas atuações em "Hurricane, o furacão" e "Garota, interrompida", respectivamente, os dois atores tiveram o gostinho de brincar de gato e rato no suspense policial "O colecionador de ossos", baseado em livro do escritor Jeffery Deaver. Uma espécie de "O silêncio dos inocentes" sem ambições psicológicas maiores do que as necessárias para prender a atenção da plateia, o filme tem a seu favor a intensidade dramática de Washington - um dos atores mais confiáveis de Hollywood - e a direção segura de Philip Noyce, mas esbarra em tantas implausibilidades e em um final tão anti-climático que nem mesmo os esforços da produção caprichada conseguem disfarçar a fragilidade de sua trama.

O protagonista vivido por Washington no piloto automático é Lincoln Rhyme, um policial tornado famoso por seus métodos investigativos heterodoxos e pelos livros que escreveu sobre o assunto. Tetraplégico após um acidente de trabalho mas ainda ajudando a polícia mesmo preso a uma cama que limita seus movimentos - e que o faz flertar seriamente com a eutanásia mesmo contra a vontade de sua enfermeira, Thelma (Queen Latifah) - ele é procurado por seu ex-parceiro, Paulie Selitto (Ed O'Neill) para colaborar na caça a um psicopata que, caçando suas vítimas em seu táxi, anda deixando pistas que remetem a algo que os detetives nova-iorquinos não conseguem compreender em sua totalidade. Sentindo-se desafiado, Rhyme aceita o desafio, mas exige a ajuda de Amelia Donaghy (Angelina Jolie), uma jovem policial que está em vias de abandonar as ruas para dedicar-se a uma carreira menos violenta dentro da corporação. A princípio hesitante - por não ter experiência e nem estômago para coletar as evidências, além de ter um passado traumático - ela muda de ideia e torna-se o corpo de Lincoln nas cenas dos crimes. Juntos, eles partem em busca da identidade e dos motivos do serial killer, que, entre outras delicadezas, arranca pedaços dos ossos de suas vítimas.


Philip Noyce acerta em cheio no clima que propõe a "O colecionador de ossos", exalando tensão em cada sequência, principalmente por conta da trilha sonora do veterano Craig Armstrong e da fotografia soturna do oscarizado Dean Semler - vencedor da estatueta por "Dança com lobos". O problema resume-se basicamente à trama, inverossímil e carente da intensidade psicológica que separa os filmes apenas corretos daqueles que se tornam clássicos inesquecíveis. É difícil, por exemplo, acreditar nas epifanias de Rhyme: por mais genial que ele seja ou por mais experiência que tenha, a facilidade com que ele entra na mente do assassino - e entende todas as suas motivações e antecipa seus próximos passos - soa forçada demais até mesmo para um público acostumado a explosões e efeitos visuais sem sentido. As revelações finais sobre o nome do assassino também soam artificiais e apressadas, como se fosse extremamente necessário surpreender a plateia com um desfecho inesperado (e carente de lógica). Mesmo que esse exagero venha do romance de Deaver - um escritor respeitado e querido por um público fiel - em cinema é quase impossível comprar a premissa básica, o que acaba por comprometer fatalmente o resultado final, por mais esforço que haja por parte da direção e do talentoso elenco.

Prejudicada por uma personagem sem maiores justificativas dramáticas que não sejam comerciais - e desprovida de qualquer traço da sensualidade que se tornaria uma de suas maiores características - Angelina Jolie faz o que pode em cena, transmitindo a seriedade exigida pelo papel mesmo quando o exagero toma conta da história. Queen Latifah brilha sempre que entra em cena, com uma presença que ficaria evidente com sua indicação ao Oscar de coadjuvante, por "Chicago", três anos depois. E Denzel Washington, do alto de sua consagração como um dos mais importantes atores negros do cinema americano, impõe respeito e credibilidade a um personagem que, em mãos menos eficientes, poderia resvalar facilmente ou para a caricatura ou para o dramalhão excessivo. Econômico e sutil, ele dá sustentação a um filme eficiente, mas exagerado demais em suas tentativas de chocar o público. Assistível, mas facilmente esquecível.

sexta-feira

IDAS E VINDAS DO AMOR

IDAS E VINDAS DO AMOR (Valentine's Day, 2010, New Line Cinema, 125min) Direção: Garry Marshall. Roteiro: Katherine Fugate, estória de Katherine Fugate, Abby Cohn, Marc Silverstein. Fotografia: Charles Minsky. Montagem: Bruce Green. Música: John Debney. Figurino: Gary Jones. Direção de arte/cenários: Albert Brenner, K.C. Fox. Produção executiva: Samuel J. Brown, Michael Disco, Toby Emmerich, Diana Pokorny, Josie Rosen. Produção: Mike Karz, Wayne Rice. Elenco: Julia Roberts, Ashton Kutscher, Jessica Alba, Jessica Biel, Jamie Foxx, Patrick Dempsey, Shirley MacLaine, Hector Elizondo, Kathy Bates, Emma Roberts, Anne Hathaway, Topher Grace, Bradley Cooper, Queen Latifah, Eric Dane, Taylor Lautner, Taylor Swift, Jennifer Garner. Estreia: 08/02/10

Em 1990, o cineasta Garry Marshall transformou uma prostituta em Cinderela e alçou Julia Roberts ao status de mega-estrela com o filme "Uma linda mulher". E Roberts, hoje a atriz mais bem paga do planeta Hollywood, devolve o favor a Marshall, aparecendo em poucos minutos em sua comédia romântica "Idas e vindas do amor" ("Valentine's day" no original, em mais uma prova da criatividade das distribuidoras brasileiras em estragar títulos alheios). Seguindo a linha de filmes como "Nova York, te amo" e "Ele não está tão a fim de você", o filme acompanha cerca de meia dúzia de histórias de amor (nenhuma delas muito profunda, como convém ao gênero) que acontecem no Dia dos Namorados americano (14 de fevereiro). Analisando como diversão, o filme é uma delícia: um elenco de astros fotogênicos, cenários ensolarados, alguns diálogos bastante engraçados e um romantismo desbragado apropriado à data de seu lançamento nos EUA. Friamente, no entanto, "Idas e vindas do amor" é tão, mas tão doce e bonitinho que chega a incomodar àqueles que não são tão crentes no amor e afins.

Senão, vejamos: Anne Hathaway é uma jovem que faz bicos como atendente de tele-sexo e esconde esse pequeno segredo do namorado recente, vivido por Topher Grace, que vai receber conselhos de um desconhecido sábio (vivido pelo habitué dos filmes de Marshall, Hector Elizondo), que acaba de descobrir um caso antigo da esposa (Shirley MacLaine). Jennifer Garner é uma professora do primário que nem desconfia que o namorado médico (Patrick Dempsey) é casado e não acredita no fato nem quando seu melhor amigo (Ashton Kutscher) o revela depois de ter sido rejeitado pela namorada e quase noiva (Jessica Alba). Jamie Foxx é um repórter esportivo que tem a missão de realizar uma matéria sobre o Dia dos Namorados e cai de amores pela agente solteirona (Jessica Biel, se dá pra acreditar) de um jogador em vias de se aposentar. Enquanto isso, um casal de adolescentes prepara sua primeira noite de amor, um menino de oito anos tenta se declarar à sua amada (ecos de "Simplesmente amor"?) e uma capitã militar (Julia Roberts em pessoa) conhece um simpático solteiro (Bradley Cooper) durante uma viagem de avião.


Sendo honesto, o roteiro de "Idas e vindas" é divertido, passa rápido (ainda que pudesse ser um pouco mais curto) e cumpre sua função de arrecadar muito dinheiro (já rendeu mais de 60 milhões de dólares em pouco mais de uma semana em exibição) e divertir sua audiência. Mas sua visão de mundo é tão colorida e leve que sua credibilidade fica seriamente abalada. Tudo bem que ninguém entra em um filme chamado "Idas e vindas do amor" - cujo cartaz tem um coração enorme e tem Julia Roberts e Ashton Kutscher no elenco - esperando sérias elocubrações sobre sentimentos de perda, dor, solidão e carência. Mas para aqueles que estão em uma fase de descrença absoluta em finais felizes, chega a ser chocante assistir cenas que elevam o amor romântico à esfera que o filme eleva. Não desperta nem lágrimas, porque falar de amor eterno a quem não acredita nem mesmo em paixões de fim-de-semana equivale a narrar histórias de saci-pererê a um islandês que morou a vida toda em um iglu. Aqueles que estão em paz com o coração, porém, só podem gostar das tramas dirigidas por Marshall.

Se você está apaixonado e/ou acredita no amor acima de tudo, corra para assistir. Caso contrário, passe longe. Mas se puder não perca os créditos finais, que apresentam a melhor piada de todo o filme, estrelada por Julia e seu belo sorriso.

terça-feira

MINHA VIDA

MINHA VIDA (My life, 1993, Columbia Pictures, 117min) Direção e roteiro: Bruce Joel Rubin. Fotografia: Peter James. Montagem: Richard Chew. Música: John Barry. Figurino: Judy Ruskin. Direção de arte/cenários: Neil Spisak/Anne D. McCulley. Produção executiva: Gil Netter. Produção: Hunt Lowry, Bruce Joel Rubin, Jerry Zucker. Elenco: Michael Keaton, Nicole Kidman, Queen Latifah, Bradley Whitford, Michael Constantine, Haing S. Ngor. Estreia: 12/11/93

Depois que ganhou o Oscar de roteiro original por "Ghost, do outro lado da vida", Bruce Joel Rubin achou que já era hora de capitalizar em cima do prestígio e assinar seu primeiro filme como diretor. Mantendo o principal elemento que deu certo no sucesso estrelado por Patrick Swayze e Demi Moore - o sentimentalismo - Rubin acabou dando com os burros n'água. Sem a experiência de Jerry Zucker ou o carisma de Swayze, Demi e Whoopi Goldberg para segurar as pontas, "Minha vida" fracassou nas bilheterias e foi francamente ignorado pela crítica - quando não extremamente malhado. O pior de tudo é saber que, apesar de alguns nomes envolvidos no projeto, o filme realmente mereceu o fracasso: é chato, previsível, superficial e dramaticamente capenga.

Os problemas de "Minha vida" começam com Michael Keaton, um dos atores mais sem graça produzidos por Hollywood - e ainda colhendo os frutos pelo êxito de seus dois Batman dirigidos pelo amigo Tim Burton. No filme de Rubin ele vive Bob Jones, um profissional da publicidade que, desenganado pelos médicos e com poucos meses de vida, resolve gravar vários vídeos para o filho prestes a nascer. Enquanto segue com sua missão auto-imposta, ele é pressionado pela esposa, Gail (Nicole Kidman, ainda conhecida apenas como esposa de Tom Cruise) a reaproximar-se da família - com quem mantém uma relação problemática - e tentar terapias alternativas, o que o faz conhecer Mr. Ho (Haing S. Ngor, de "Os gritos do silêncio").  É o veterano massagista oriental que o fará descobrir dentro de si as mágoas que o prendem em sua carapaça de frieza e o empurrará para uma nova fase de sua vida. Keaton, com sua habitual falta de carisma, não conquista a simpatia do público, um erro fatal para a eficácia da trama.


É impressionante como Rubin - um roteirista que demonstrou um impecável senso de ritmo em seu filme mais famoso - tropeça constantemente nos clichês em seu primeiro trabalho como diretor. Desde a primeira cena o espectador percebe a causa dos problemas familiares do protagonista, e, por conseguinte, não demora a adivinhar o desfecho da história. A transformação de Bob de um homem sisudo e fechado em uma pessoa mais leve e sensível é brusca, quase inverossímil. A relação entre ele e Gail não transmite emoção, e as cenas que envolvem seus conflitos com os pais e o irmão (Bradley Whitford) soam dèja-vu total. Só o que funciona um pouco - e mesmo assim é pouco desenvolvida em detrimento da mudança de Bob - são as cenas em que o protagonista dá conselhos ao filho ainda em gestação: são os únicos momentos um pouco interessantes.

Tivesse desenvolvido melhor seu roteiro e escolhido um ator central menos apático, Bruce Joel Rubin poderia ter repetido o sucesso de "Ghost". Como está, "Minha vida" é apenas um Supercine de luxo, com todo o jeitão de filme feito para a tv.

quarta-feira

HAIRSPRAY, EM BUSCA DA FAMA


HAIRSPRAY, EM BUSCA DA FAMA (Hairspray, 2007, New Line Cinema, 117min) Direção: Adam Shankman. Roteiro: Leslie Dixon, roteiro original de John Waters, peça musical de Mark O'Donnell, Thomas Meehan. Fotografia: Bojan Bazelli. Montagem: Michael Tronick. Música: Marc Shaiman. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: David Gropman/Gordon Sim. Produção executiva: Toby Emmerich, Jennifer Gigbot, Garrett Grant, Mark Kaufman, Michael Lynne, Marc Shaiman, Adam Shankman, Bob Shaye. Produção: Neil Meron, Craig Zadan. Elenco: John Travolta, Michelle Pfeiffer, Christopher Walken, Queen Latifah, Zac Efron, James Marsden, Amanda Bynes, Brittany Snow, Nikki Blonsky. Estreia: 13/7/07

O caminho natural de um produto artístico quando resolve mudar de mídia raramente é alterado. Às vezes um filme vira peça de teatro ou musical da Broadway e em alguns casos o contrário também acontece. O que é raro, mas também acontece, é o caminho tortuoso de "Os produtores" - inspirada no filme "Primavera para Hitler", de Mel Brooks, transformou-se em musical nos palcos e depois chegou às telas em 2005 estrelado por Nathan Lane, Matthew Broderick e Uma Thurman. "Hairspray, em busca da fama" faz parte desse seleto grupo. Inspirado no "clássico" de John Waters, o musical fez enorme sucesso no teatro e voltou a seu lar de origem, o cinema, cheio de moral. Com uma renda de quase 120 milhões de dólares de arrecadação nas bilheterias americanas, o filme de Adam Shankman - que exagerou na sacarose em "Um amor para recordar" e no humor pasteurizado em "Doze é demais 2" - agradou também à crítica (foi indicado a 3 Golden Globes) e surpreendeu o mundo ao mostrar um John Travolta extremamente à vontade cantando e dançando... no papel de uma dona-de-casa fora de forma.

No filme original - onde a característica de Waters de exagerar no kitsch era elevada à décima potência de deboche - a rotunda Edna Turnblad era interpretada pelo travesti Divine, um dos atores-símbolo de sua filmografia. Nessa versão século XXI, a ideia de manter um ator no papel mostrou-se novamente acertada. Além do choque de dar de cara com Travolta - um dos maiores símbolos sexuais do cinema nos anos 70/80 - bem acima do peso e na pele de uma personagem feminina, a decisão mostra com perfeição o espírito despido de preconceitos com que o filme chega a seu público. Nada mais adequado, aliás, já que a trama central fala justamente sobre discriminação. Apesar do tema, porém, que não se espere nenhum tratado sociológico. Com um registro leve e engraçado, "Hairspray" conquista pelo bom-humor e por seu compromisso único e exclusivo com a diversão.


Apesar de ser a presença sempre magnética de Travolta que mais chama a atenção do filme, sua Edna Turnblad não é a protagonista. O posto de personagem central ficou nas mãos da novata Nikky Blonsky, que interpreta a sonhadora Tracy, adolescente gordinha da pequena cidade de Baltimore que, no ano de 1962 (ou seja, no auge da luta pelos direitos civis dos afrodescendentes) passa os dias obcecada com "The Corny Collins Show", programa musical de TV que, para sua esperança, sofre um desfalque em seu elenco de dançarinas. Certa de que tem chances de ganhar a vaga - a ser disputada em um concurso - Tracy conta com a ajuda de seu amigo Seaweed (Elijah Kelley), que lhe ensina passos novos, discriminados como dança de gueto. Durante sua campanha para a vaga, Tracy toma contato com a discriminação racial do programa - que conta apenas com dançarinos brancos, dando espaço aos jovens negros apenas uma vez por mês - e do país como um todo, chamando a atenção da mídia e de Link Larkin (Zac Efron), jovem galã integrante do programa que se apaixona por ela, para desespero de sua "namorada" Amber Von Tessle (Brittany Snow). Quem também não gosta nada dessas novidades todas é a mãe de Amber, Velma (Michelle Pfeiffer), que também é gerente de programação da emissora que transmite o programa de Collins.

Conquistando desde seus créditos de abertura que mostram Tracy a caminho da escola, "Hairspray" tem a seu favor o ritmo adequado e o humor quase ingênuo, que reflete a época na qual se passa. Mesmo quando falam de temas sérios, o roteiro e a música fazem questão de lembrar o espectador de que eles estão assistindo a apenas uma comédia musical, sem maiores pretensões que não entreter. É essa sua falta de pretensão sua maior qualidade, além do elenco inspiradíssimo. Além de Travolta - que se diverte notadamente em cena e tem uma química invejável com seu marido na tela, Christopher Walken - a bela Michelle Pfeiffer mostra que não tem nada a temer com a idade, ficando com um papel que quase foi oferecido a Meryl Streep e Madonna. Zac Efron e Nikky Blonsky estão ótimos em seus papéis e se Queen Latifah não chega a ser totalmente aproveitada, ao menos não desparece diante de alguns números musicais realmente empolgantes.

Engraçado, divertido e leve, "Hairspray, em busca da fama" só perde um pouco seu ritmo em seu terço final - ainda que o recupere bravamente em seu desfecho. Mas é um entretenimento de primeira.

sexta-feira

MAIS ESTRANHO QUE A FICÇÃO



MAIS ESTRANHO QUE A FICÇÃO (Stranger than fiction, 2006, Columbia Pictures, 113min) Direção: Marc Forster. Roteiro: Zach Helm. Fotografia: Roberto Schaefer. Montagem: Matt Cheese. Música: Britt Daniel, Brian Reitzel. Figurino: Frank Fleming. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/Ford Wheeler. Produção executiva: Joe Drake, Nathan Kahane, Eric Kopeloff. Produção: Lindsay Doran. Elenco: Will Ferrell, Maggie Gyllenhaal, Emma Thompson, Dustin Hoffman, Queen Latifah. Estreia: 05/10/06 (Festival de Chicago)

Em uma área árida de boas e criativas ideias como Hollywood, um roteiro original e fresco é motivo de grandes celebrações. Não foi à toa que Charlie Kaufman tornou-se um dos mais celebrados autores da primeira década do século, graças a filmes como "Quero ser John Malkovich", "Confissões de uma mente perigosa", "Adaptação" e "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" - que lhe rendeu um justíssimo Oscar. E em sua busca desesperada por nomes capazes de sacudir a indústria, a capital do cinema logo se assanhou com Zach Helm, autor do script de "Mais estranho que a ficção": ao mesclar com inteligência e bom humor a metalinguagem com os conhecidos ingredientes da comédia, o jovem roteirista encantou a crítica especializada, que lhe concedeu o prêmio do National Board Review. Não foi sem motivos, já que seu roteiro é a maior qualidade do filme dirigido por Marc Forster, o homem por trás de obras tão díspares quanto "Em busca da Terra do Nunca", "A última ceia" e "A passagem".

Demonstrando um insuspeito senso de humor, Forster deixa que o roteiro de Helm e seu elenco de sonhos brilhe mais do que sua direção, o que por si só já é um mérito dos maiores. Sem interferir com ângulos complicados ou inovadores, o cineasta é apenas o sóbrio narrador da trajetória de Harold Crick (Will Ferrell no melhor papel de sua carreira), um auditor da Receita Federal que, de uma hora pra outra descobre ser a personagem de um livro que, para seu desespero, está em vias de morrer. Sua descoberta - através da narração de uma voz feminina que ele passa a ouvir repentinamente - o leva a uma busca angustiada atrás de uma solução que ele nem mesmo sabe se existe. Tentando descobrir quem é a autora do romance que narra a sua tediosa vida, ele chega até o veterano professor de Literatura Jules Hilbert (Dustin Hoffman, divertindo-se notadamente no papel), que passa a guiar sua investigação. Enquanto isso, Crick tenta levar sua vida normalmente, mas se apaixona por Ana Pascal (Maggie Gyllenhaal), a dona de uma confeitaria que tem suas próprias ideias a respeito dos impostos cobrados em seu país. Sua nova paixão e a consciência de seu fim próximo levam o antes certinho executivo a mudar a sua vida.


Além de contar com a ajuda preciosa de Ferrell e Hoffman, "Mais estranho que a ficção" tem ainda uma trama paralela tão interessante (ou até mais) do que as desventuras de Harold Crick. Na pele de uma Emma Thompson sem maquiagem e desprovida do humor ácido que a caracteriza, a escritora Karen Eiffel é talvez a melhor personagem criada por Zach Helm. Mentora do romance que conta a vida de Crick, ela é insegura, melancólica e utiliza sua profissão e talento em criar ficção para fugir de sua própria existência um tanto solitária e é genial a maneira com que a narrativa do filme vai inserindo o espectador dentro de sua mente, imaginando o desfecho trágico que se anuncia no início do filme - e que pode ou não ser alterado de acordo com a imaginação da autora.

Fugindo das gargalhadas óbvias - o que a presença de Will Ferrell como protagonista poderia fazer pressupor - "Mais estranho que a ficção" é quase uma comédia de humor negro com toques de uma melancolia muito bem-vinda. Ao utilizar com propriedade ingredientes de outros gêneros caros ao público - comédia romântica e até um pouco de suspense - o filme de Forster o confirma como um cineasta pau-pra-toda-obra, característica também de seu contemporâneo James Mangold. Logo depois desse híbrido um tanto estranho mas muito eficaz, ele assinaria o drama "O caçador de pipas" e o 007 "Quantum of solace". Nada mal para um diretor chamado pejorativamente de "sem estilo".

CHICAGO

CHICAGO (Chicago, 2002, Miramax Films, 113min) Direção: Rob Marshall. Roteiro: Bill Condon, peça teatral de Maurine Dallas Watkins, músicas de Bob Fosse, Fred Ebb. Fotografia: Dion Beebe. Montagem: Martin Walsh. Música: Danny Elfman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: John Myhre/Gord Sim. Produção executiva: Jennifer Berman, Sam Crothers, Julia Goldstein, Neil Meron, Meryl Poster, Bob Weinstein, Harvey Weinstein, Craig Zadan. Produção: Martin Richards. Elenco: Renée Zellweger, Richard Gere, Catherine Zeta-Jones, John C. Reilly, Queen Latifah, Colm Feore, Taye Diggs, Dominic West, Christine Baranski, Lucy Liu. Estreia: 27/12/02

13 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Rob Marshall), Atriz (Renée Zellweger), Ator Coadjuvante (John C. Reilly), Atriz Coadjuvante (Queen Latifah, Catherine Zeta-Jones), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Canção ("I move on"), Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor de 6 Oscar: Melhor Filme, Atriz Coadjuvante (Catherine Zeta-Jones), Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Ator Comédia/Musical (Richard Gere), Atriz Comédia/Musical (Renée Zellweger)
Vencedor de 3 Screen Actors Guild Awards: Atriz (Renée Zellweger), Atriz Coadjuvante (Catherine Zeta-Jones), Melhor Elenco

O "Chicago" que todo mundo conhece e admira, vencedor de 6 Oscar e o maior sucesso de bilheteria da história da Miramax poderia ter sido bem diferente. Alvo do interesse dos estúdios hollywoodianos desde sua estreia nos palcos da Broadway em 1975, o musical - que chegou aos cinemas dirigido com energia e criatividade por Rob Marshall, cujo currículo tinha de marcante somente uma versão para a TV do chatinho "Annie" - demorou quase três décadas para fazer a transição dos palcos para as telas, e entre as intenções e a realização muita coisa mudou. Entre Bob Fosse (que dirigiu e coreografou a versão teatral da trama em sua estreia) e Marshall (que efetivamente comandou o espetáculo de 2002) até mesmo Nicholas Hytner esteve interessado em dirigir e na lista de atores que estiveram envolvidos com o projeto, em um momento ou outro da produção, estão nomes como Madonna, Goldie Hawn, Kathy Bates, Nicole Kidman, Charlize Theron, Cameron Diaz, Whoopi Goldberg, Hugh Jackman, Frank Sinatra, Liza Minnelli, Toni Collette, Marisa Tomei, Gwyneth Paltrow, Winona Ryder e até (ufa!) Britney Spears. Como às vezes o tempo é uma bênção, é impossível não se deixar conquistar pelo elenco que finalmente assumiu os papéis criados por Maurine Dallas Watkins e adaptados pelo ótimo Bill Condon.

A trama de "Chicago" se passa nos anos 20, quando o teatro de vaudeville estava em seu auge. Ser uma estrela dos palcos é o sonho maior de Roxie Hart (Renee Zelwegger), que, no entanto, precisa levar uma vida sem sal de dona-de-casa ao lado do marido, o mecânico Amos (John C. Reilly). Quando ela conhece o sedutor Fred Casely (Dominic West) sua sorte parece estar começando a mudar: porém, ao contrário das promessas que o rapaz faz (de que vai apresentá-la às pessoas certas no show business) ele quer apenas levá-la pra cama. Quando ela descobre isso, não vê outra alternativa senão matá-lo. Na cadeia, ela conhece seu maior ídolo, a atriz Velma Kelly (Catherine Zeta-Jones), que aguarda julgamento pelo assassinato duplo de sua irmã e seu amante. Para escapar da condenação à forca, Roxie contrata (com o financiamento do pobre marido) o famoso e competente Billy Flynn (Richard Gere), que também defende Velma. As duas passam, então, a disputar a atenção do advogado e as manchetes dos jornais.



Talvez a maior qualidade de "Chicago" seja mesmo seu roteiro: Bill Condon (que dirigiu o sensacional "Deuses e monstros", de 1998) consegue o feito raro de manter o tom irônico de suas primeiras cenas até os créditos de encerramento, sempre entregando à plateia diálogos inteligentes e sarcásticos, seja em falas ou canções, todas elas absolutamente bem encaixadas na história, por si só interessante o bastante. A química entre as duas protagonistas (ambas indicadas ao Oscar, mas apenas Zeta-Jones premiada, de forma um tanto estranha, como coadjuvante) é extraordinária e é perceptível sua entrega ao trabalho. Todos os belos números musicais são dirigidos com extrema competência por Marshall e belissimamente fotografados por Dion Beebe, que dá uma atmosfera de sonho a todos eles. A ideia genial do cineasta - e que deu rumo à adaptação para o cinema - foi fazer com que todos os números sejam originários da imaginação fértil de Roxie, que, assim vê a carcereira Mamma Morton (Queen Latifah, ótima) como uma sofisticada crooner e a execução de uma companheira de prisão como uma apresentação de mágica. É particularmente feliz a ideia de Marshall conduzir a entrevista coletiva de Roxie e Billy como se ela fosse um títere (e a execução da cena é, no mínimo, antológica).

Beneficiando-se do sucesso de "Moulin Rouge" - cujos elogios e popularidade abriu as portas para que novos musicais pudessem ser produzidos pela terra do cinema - "Chicago" conquista principalmente por não ousar demais como o filme de Baz Luhrmann. É um filme claramente moderno, mas com uma linguagem tradicional, que peca apenas por não surpreender em termos estilísticos. Rob Marshall segue à risca a cartilha de Bob Fosse, com coreografias excepcionais e um apurado visual, brincando muito mais com as pequenas ironias que cercam suas personagens do que com o gênero em si, como fez o filme estrelado por Nicole Kidman e Ewan McGregor. Proporciona brilhantes momentos-solos a seus atores (John C. Reilly deita e rola com "Mr.Cellophane" mas Richard Gere mostra sua fragilidade artística com "Razzle Dazzle") e revela em Marshall um cineasta atento aos detalhes e às sutilezas de um projeto tão ambicioso. E além de tudo - e o que é ainda melhor - diverte sem tratar a audiência como débil mental.

Muita gente torceu o nariz para o generoso número de Oscar para "Chicago" - em especial os fãs de seus rivais na briga pela estatueta "As horas" e "Gangues de Nova York". Mas é inegável que é um trabalho de primeira grandeza, realizado com um talento incomum e que remete aos bons tempos de uma Hollywood glamourosa e que tinha no entretenimento sua principal preocupação.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...