SPARTACUS (Spartacus, 1960, Universal Pictures, 197min) Direção: Stanley Kubrick. Roteiro: Dalton Trumbo, romance de Howard Fast. Fotografia: Russell Metty. Montagem: Robert Lawrence. Música: Alex North. Figurino: Valles. Direção de arte/cenários: Alexander Golitzen/Russell A. Gausman, Julia Heron. Produção: Edward Lewis. Elenco: Kirk Douglas, Laurence Olivier, Jean Simmons, Charles Laughton, Peter Ustinov, John Gavin, Nina Foch, Tony Curtis, John Ireland. Estreia: 06/10/60
6 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Peter Ustinov), Fotografia em Cores, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino em Cores, Direção de Arte/Cenários em Cores
Vencedor de 4 Oscar: Ator Coadjuvante (Peter Ustinov), Fotografia em Cores, Figurino em Cores, Direção de Arte/Cenários em Cores
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme/Drama
Quando o diretor inglês Stanley Kubrick foi chamado para substituir Anthony Mann no comando do épico "Spartacus", em 1960, ele ainda não havia realizado aquele filme que lhe consagraria e marcaria para sempre seu estilo detalhista ao ponto da obsessão: a ficção científica existencial "2001: uma odisseia no espaço", que só estrearia em 1962. Isso explica porque a história do escravo que se rebela contra o Império Romano quase um século antes de Cristo tem bem menos a ver com sua obra posterior e bem mais com os questionamentos políticos de um roteiro assinado pelo ex-renegado de Hollywood Dalton Trumbo - acusado de colaborar com os comunistas perseguidos pelo governo americano, Trumbo finalmente pode ver nome estampado nos créditos de um filme sem submeter-se a artimanhas intelectuais como a que quase lhe impediu de ganhar o Oscar pela comédia "A princesa e o plebeu". Aproveitando-se da trama criada pelo escritor Howard Fast em seu livro homônimo - por sua vez inspirado em uma história real - Trumbo explorou-lhe ao máximo as nuances políticas, para desgosto do próprio Kubrick, que não concordava com tal viés, e de alguns nomes de Hollywood que não viam com bons olhos a volta do roteirista à atividade normal - caso do ator John Wayne e da colunista Hedda Hopper, que começaram uma campanha contra o filme mesmo antes de sua estreia, com a alegação de que ele era "propaganda marxista". Um problema a mais para seu astro, Kirk Douglas, que via sua tentativa de mostrar à indústria que poderia realizar um épico à altura de "Ben-hur" (59) - papel que ele havia disputado com fervor - mostrar-se bem mais complicada do que parecera em um primeiro olhar.
A deserção de Anthony Mann da cadeira de diretor não foi o único problema da pré-produção. Ainda antes de Mann entrar no projeto outros cineastas já haviam declinado do convite de Douglas. Enquanto Joseph L. Mankiewicz e David Lean simplesmente recusaram a proposta, Laurence Olivier preferiu não misturar duas funções - ele já estava escalado como o grande vilão da história, Marcus Crassus. Mann, no entanto, não permaneceu muito tempo ligado ao filme: apesar de já ter filmado algumas cenas iniciais, logo foi afastado por Douglas, que percebeu nele uma afabilidade excessiva que prejudicava sua forma de lidar com o elenco repleto de grandes atores (e seus respectivos egos). A contratação de Stanley Kubrick, no entanto, acabou por revelar-se não uma solução, mas um problema a mais a ser driblado: dono de uma personalidade forte, o inglês bateu de frente com o diretor de fotografia Russell Metty - que reclamava constantemente das interferências do cineasta em seu trabalho e chegou até a pedir para ter seu nome retirado dos créditos, antes de ser premiado com o Oscar - e com Dalton Trumbo, de quem discordava a respeito da personalidade do protagonista, que considerava puro e sem defeitos demais para ser real. Somados a isso, havia a falta de afinidade entre Laurence Olivier e Charles Laughton - conhecidos desafetos - e os ataques de estrelismo de Laughton, que ameaçava constantemente processar os produtores, já preocupados com o medo da Universal com o teor considerado "subversivo" da história sob o olhar de Trumbo.
De certa forma, os temores da Universal tinham certo fundamento: desafiando o poderoso senador Joseph McCarthy ao recusar-se a delatar colegas com ligações comunistas e impedido de trabalhar em Hollywood por mais de uma década, Dalton Trumbo aproveitou a chance de ouro oferecida por Kirk Douglas para não apenas fazer um retorno triunfal - que coincidiu também com seu trabalho em "Exodus", de Otto Preminger - mas também para fazê-lo com um filme cujo tema combinava perfeitamente com sua ideologia. Porém, enquanto Kirk Douglas via a luta de Spartacus como uma metáfora para a fuga dos judeus do Egito, Trumbo via a ação como um símbolo da Guerra Fria. Não chegou a ser uma questão problemática: de qualquer modo que se veja "Spartacus", o filme de Kubrick é um poderoso drama de ação, repleto de cenas de grande impacto visual e personagens construídos com esmero, que servem facilmente a qualquer leitura ideológica que contraponha opressores e oprimidos.
A história é simples e direta: Spartacus (interpretado com vigor por Kirk Douglas) é um escravo rebelde, que não se conforma com o tratamento que recebe de seus senhores, na Roma pré-era cristã. Quando é vendido e passa a treinar para ser um gladiador, ele se apaixona por outra cativa, Varínia (Jean Simmons, em papel oferecido à Ingrid Bergman e para o qual Kubrick queria Audrey Hepburn) e, depois de matar um dos treinadores, começa a liderar um exército de amotinados que desafia o poder romano - em especial o cruel Marcus Crassus (Laurence Olivier). Perseguido e cada vez mais idolatrado pelos companheiros, ele se torna uma lenda, enquanto não se cansa de bradar contra as injustiças e os desmandos do governo. Indicado a seis Oscar - e premiado em quatro categorias, inclusive ator coadjuvante para Peter Ustinov como o diretor da escola de gladiadores - "Spartacus" fez grande sucesso de bilheteria, mas acabou rejeitado por Stanley Kubrick, famoso posteriormente pelo controle total sobre seus filmes. Em 1991, ocasião em que foi restaurado digitalmente, teve cenas cortadas à época de seu lançamento finalmente incorporadas à metragem original (Laurence Olivier foi dublado por Anthony Hopkins, uma vez que a trilha sonora havia sido perdida), dando novas nuances à relação entre Crassus e seu escravo Antoninus (Tony Curtis), eliminada então por seu teor homoerótico, uma subtrama que enriquece ainda mais o belo trabalho conjunto de Douglas, Kubrick e Trumbo. Um épico legítimo e inquestionável!
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sábado
terça-feira
O MENSAGEIRO DO DIABO
O MENSAGEIRO DO DIABO (The night of the hunter, 1955, Paul Gregory
Productions, 92min) Direção: Charles Laughton. Roteiro: James Agee,
romance de Davis Grubb. Fotografia: Stanley Cortez. Montagem: Robert
Golden. Música: Walter Schumann. Direção de arte/cenários: Hilyard
Brown/Al Spencer. Produção: Paul Gregory. Elenco: Robert Mitchum,
Shelley Winters, Lilian Gish, James Gleason, Evelyn Varden, Peter
Graves. Estreia: 26/7/55
O ator Charles Laughton qualquer fã de cinema de verdade conhece. Astro de produções clássicas como “Testemunha de acusação” (57) e “O corcunda de Notre Dame” (36), ele ganhou o Oscar por seu desempenho em “Os amores de Henrique VIII” (32) e foi um dos mais respeitados intérpretes dos palcos britânicos. O cineasta Charles Laughton, no entanto, não é tão conhecido pelo grande público, e por um motivo muito simples: seu primeiro e único filme como diretor, “O mensageiro do diabo”, lançado em 1955, foi um grande fracasso de crítica e bilheteria, interrompendo uma segunda carreira que, a julgar por sua estreia, tinha tudo para ser tão brilhante quanto a primeira. Visualmente ousado e tematicamente à frente do seu tempo, “O mensageiro do diabo” é um intrigante estudo sobre o bem e o mal, além de explorar corajosamente a sexualidade feminina e a hipocrisia religiosa – tudo envolto em um inusitado tom de conto de fadas e uma fotografia expressionista criada por Stanley Cortez que valoriza cada cena com sua atmosfera sombria e mórbida.
Localizada temporalmente durante a Grande Depressão Americana, “O mensageiro do diabo” tem como protagonista o amoral, hipócrita e ambicioso Harry Powell (Robert Mitchum em atuação poderosa e hipnotizante), que se faz passar por reverendo para conquistar a simpatia e a confiança da jovem viúva Willa Harper (Shelley Winters) e seus dois filhos pequenos, John (Billy Chapin) e Pearl (Sally Jane Bruce). Religiosa e solitária, Willa é incentivada por toda a pequena cidade onde mora a casar-se com Powell, que demonstra desde sua chegada um caráter irrepreensível e uma simpatia à toda prova por seus filhos. O que Willa nem de longe desconfia é que o alvo de seu pretendente é o dinheiro roubado por seu falecido marido, Ben (Peter Graves) – companheiro de cela do assaltante, Powell sabe a respeito do produto do crime, mas precisa ganhar a confiança da família para botar as mãos na grana. Só quem sabe onde está o relativo prêmio são as duas crianças – a quem o sinistro novo membro da família passa a dedicar toda a sua atenção.
Conhecido e louvado diretor de teatro, Laughton levou para os sets de filmagens toda a sua dedicação extrema a cada aspecto do projeto, desde sua concepção geral até cada detalhe nos cenários e nas atuações de seu elenco – o que foi, em diversos momentos, algo bastante atribulado. Não exatamente fã de crianças, o veterano ator frequentemente perdia a paciência com seus atores mirins (a pequena Sally Jane Bruce, por exemplo, teve seu choro desolado depois de uma bronca do diretor filmado e inserido no filme), cabendo à Robert Mitchum, bem mais afável, a direção dos pequenos. Isso de forma alguma diminui a importância do trabalho de Laughton, principalmente quando se testemunha no Reverendo Harry Powell a melhor interpretação da carreira de Mitchum – e isso que ele chegou a trabalhar em alguns momentos sob o efeito de álcool e nem foi a primeira escolha para o papel.
Interessadíssimo no papel que poderia dar um novo gás à sua carreira, Mitchum teve de esperar a recusa de Gary Cooper – primeira opção de Laughton para viver o maléfico protagonista – e, posteriormente, de John Carradine e Laurence Olivier, ambos cotados pelos produtores. Finalmente com a chance em suas mãos, o ator a agarrou com unhas e dentes, explorando cada nuance de seu diabólico personagem com a avidez de um iniciante. Dono dos melhores diálogos do filme – e um impressionante dueto cantado com a veterana Lillian Gish, tirada da semi-aposentadoria pela insistência do cineasta – Mitchum engole cada cena em que aparece, com um visual impressionante e uma composição minuciosa de corpo, voz e uma vasta gama de nuances. Seja na cena em que ilustra o duelo entre o bem e o mal com uma queda de braço consigo mesmo – ele traz tatuadas nos nós dos dedos as palavras amor e ódio – ou quando engrena uma corte repleta de cinismo com a ingênua Willa, o ator ilustra com exatidão todo o universo dicotômico da trama, com suas dualidades explicitadas a cada momento, seja nos diálogos brilhantes ou nas sequências aterrorizantes em que a fotografia de Stanley Cortez (responsável também pelo clássico “Soberba”, dirigido por Orson Welles em 1942) acompanha os personagens por cenários dignos de pesadelos.
Realizando com maestria a transição entre seu trabalho como diretor teatral para cineasta – equilibrando com toques de gênio a força das palavras e o poder da imagem – Charles Laughton tinha tudo para tornar-se um dos maiores autores do cinema americano. Com sua ajuda, o crítico James Agee conseguiu resumir seu longo roteiro de 293 páginas em um bem mais palatável produto comercial, infelizmente não reconhecido pelo público – e nem pela crítica, surpreendentemente – à época de sua estreia. O britânico pode até ter afirmado que o fim precoce de sua carreira de cineasta tinha mais a ver com sua intimidade maior com o palco do que com as câmeras, mas é inegável que o fracasso de bilheteria de “O mensageiro do diabo” colaborou (e muito) para sua decisão lamentável de ser o diretor de um único filme. Sorte dos cinéfilos que esse único filme é um excepcional exemplar do melhor que pode ser feito em Hollywood – mesmo que de forma independente.
O ator Charles Laughton qualquer fã de cinema de verdade conhece. Astro de produções clássicas como “Testemunha de acusação” (57) e “O corcunda de Notre Dame” (36), ele ganhou o Oscar por seu desempenho em “Os amores de Henrique VIII” (32) e foi um dos mais respeitados intérpretes dos palcos britânicos. O cineasta Charles Laughton, no entanto, não é tão conhecido pelo grande público, e por um motivo muito simples: seu primeiro e único filme como diretor, “O mensageiro do diabo”, lançado em 1955, foi um grande fracasso de crítica e bilheteria, interrompendo uma segunda carreira que, a julgar por sua estreia, tinha tudo para ser tão brilhante quanto a primeira. Visualmente ousado e tematicamente à frente do seu tempo, “O mensageiro do diabo” é um intrigante estudo sobre o bem e o mal, além de explorar corajosamente a sexualidade feminina e a hipocrisia religiosa – tudo envolto em um inusitado tom de conto de fadas e uma fotografia expressionista criada por Stanley Cortez que valoriza cada cena com sua atmosfera sombria e mórbida.
Localizada temporalmente durante a Grande Depressão Americana, “O mensageiro do diabo” tem como protagonista o amoral, hipócrita e ambicioso Harry Powell (Robert Mitchum em atuação poderosa e hipnotizante), que se faz passar por reverendo para conquistar a simpatia e a confiança da jovem viúva Willa Harper (Shelley Winters) e seus dois filhos pequenos, John (Billy Chapin) e Pearl (Sally Jane Bruce). Religiosa e solitária, Willa é incentivada por toda a pequena cidade onde mora a casar-se com Powell, que demonstra desde sua chegada um caráter irrepreensível e uma simpatia à toda prova por seus filhos. O que Willa nem de longe desconfia é que o alvo de seu pretendente é o dinheiro roubado por seu falecido marido, Ben (Peter Graves) – companheiro de cela do assaltante, Powell sabe a respeito do produto do crime, mas precisa ganhar a confiança da família para botar as mãos na grana. Só quem sabe onde está o relativo prêmio são as duas crianças – a quem o sinistro novo membro da família passa a dedicar toda a sua atenção.
Conhecido e louvado diretor de teatro, Laughton levou para os sets de filmagens toda a sua dedicação extrema a cada aspecto do projeto, desde sua concepção geral até cada detalhe nos cenários e nas atuações de seu elenco – o que foi, em diversos momentos, algo bastante atribulado. Não exatamente fã de crianças, o veterano ator frequentemente perdia a paciência com seus atores mirins (a pequena Sally Jane Bruce, por exemplo, teve seu choro desolado depois de uma bronca do diretor filmado e inserido no filme), cabendo à Robert Mitchum, bem mais afável, a direção dos pequenos. Isso de forma alguma diminui a importância do trabalho de Laughton, principalmente quando se testemunha no Reverendo Harry Powell a melhor interpretação da carreira de Mitchum – e isso que ele chegou a trabalhar em alguns momentos sob o efeito de álcool e nem foi a primeira escolha para o papel.
Interessadíssimo no papel que poderia dar um novo gás à sua carreira, Mitchum teve de esperar a recusa de Gary Cooper – primeira opção de Laughton para viver o maléfico protagonista – e, posteriormente, de John Carradine e Laurence Olivier, ambos cotados pelos produtores. Finalmente com a chance em suas mãos, o ator a agarrou com unhas e dentes, explorando cada nuance de seu diabólico personagem com a avidez de um iniciante. Dono dos melhores diálogos do filme – e um impressionante dueto cantado com a veterana Lillian Gish, tirada da semi-aposentadoria pela insistência do cineasta – Mitchum engole cada cena em que aparece, com um visual impressionante e uma composição minuciosa de corpo, voz e uma vasta gama de nuances. Seja na cena em que ilustra o duelo entre o bem e o mal com uma queda de braço consigo mesmo – ele traz tatuadas nos nós dos dedos as palavras amor e ódio – ou quando engrena uma corte repleta de cinismo com a ingênua Willa, o ator ilustra com exatidão todo o universo dicotômico da trama, com suas dualidades explicitadas a cada momento, seja nos diálogos brilhantes ou nas sequências aterrorizantes em que a fotografia de Stanley Cortez (responsável também pelo clássico “Soberba”, dirigido por Orson Welles em 1942) acompanha os personagens por cenários dignos de pesadelos.
Realizando com maestria a transição entre seu trabalho como diretor teatral para cineasta – equilibrando com toques de gênio a força das palavras e o poder da imagem – Charles Laughton tinha tudo para tornar-se um dos maiores autores do cinema americano. Com sua ajuda, o crítico James Agee conseguiu resumir seu longo roteiro de 293 páginas em um bem mais palatável produto comercial, infelizmente não reconhecido pelo público – e nem pela crítica, surpreendentemente – à época de sua estreia. O britânico pode até ter afirmado que o fim precoce de sua carreira de cineasta tinha mais a ver com sua intimidade maior com o palco do que com as câmeras, mas é inegável que o fracasso de bilheteria de “O mensageiro do diabo” colaborou (e muito) para sua decisão lamentável de ser o diretor de um único filme. Sorte dos cinéfilos que esse único filme é um excepcional exemplar do melhor que pode ser feito em Hollywood – mesmo que de forma independente.
quarta-feira
O CORCUNDA DE NOTRE DAME
O CORCUNDA DE NOTRE-DAME (The hunchback of Notre Dame, 1939, RKO Radio Pictures, 117min) Direção: William Dieterle. Roteiro: Sonya Levien, adaptação de Bruno Frank, romance de Victor Hugo. Fotografia: Joseph H. August. Montagem: William Hamilton, Robert Wise. Música: Alfred Newman. Figurino: Walter Plunkett. Direção de arte/cenários: Van Nest Polglase/Darrell Silvera. Produção: Pandro S. Berman. Elenco: Charles Laughton, Maureen O'Hara, Cedric Hardwicke, Thomas Mitchell, Edmond O'Brien, Alan Marshal. Estreia: 29/12/39
2 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Som
Em 1831, quando o escritor francês Victor Hugo lançou aquele que se tornaria mais uma de suas obras-primas, "O corcunda de Notre Dame", seu livro lidava, entre outras coisas tais como intolerância e a hipocrisia religiosa. Quando Hollywood resolveu transpor sua história para as telas pela primeira vez, em 1923, ainda na época do cinema mudo e com Lon Chaney no papel principal, sua trama central já estava, graças aos severos códigos de censura que ditavam os rumos das produções, bem menos desafiadora e crítica. Algumas alterações na história central suavizaram o tom iconoclasta do romancista e o filme estreou sem maiores problemas. Por isso, não é de surpreender que a mais bem considerada versão do livro para o cinema, lançada no final de 1939, siga as mesmas diretrizes pouco ofensivas à moral e aos bons costumes do público que assistia, à mesma época, filmes como "... E o vento levou". Realizado sob os olhares rígidos do Código Hays, "O corcunda de Notre Dame", de William Dieterle, aceita as modificações de seu antecessor, mas não deixa de ser um espetáculo de primeira grandeza, comandado por uma atuação impecável do britânico Charles Laughton.
Um dos filmes mais caros produzidos até então pela RKO - sob um custo estimado de 1,8 milhão de dólares - e precedido por uma campanha de marketing agressiva e que escondia da plateia um de seus maiores trunfos (a pesada maquiagem que levava duas horas e meia por dia para ser aplicada em Laughton), "O corcunda de Notre Dame" tinha como principal meta suplantar na memória do público a versão realizada doze anos antes. Da estreia do filme com Chaney até 1939, diversas outras versões da mesma história chegaram perto de se tornarem realidade - em especial uma produção da Universal, em 1932, dirigida por John Huston e estrelada por Boris Karloff como parte de sua série de monstros; e uma outra, em 1937, na MGM, que teria Peter Lorre no papel-título. Para sorte do produtor Irving Thalberg, no entanto, nenhum dos projetos passou da fase de especulações, e o que parecia apenas um sonho em 1934 (quando ele apresentou a ideia ao ator inglês), finalmente tornou-se realidade. Deixando para trás nomes como Bela Lugosi, Claude Rains, Lon Chaneu Jr. e até mesmo Orson Welles - todos considerados para a hipótese de o Setor de Imigração impedí-lo de atuar nos EUA - Charles Laughton criou a mais brilhante representação, nas telas, do anti-heroi de Victor Hugo, impressionante até mesmo nos cínicos dias de hoje.
A trama engendrada por Victor Hugo - e roteirizada por Sonya Levien a partir de uma adaptação de Bruno Frank - se passa na França do século XV, sob os domínios do Rei Louis XI (Harry Davenport). Em Paris, existe um preconceito generalizado contra ciganos e é nesse ambiente em que a bela Esmeralda (Maureen O'Hara) chega com seu grupo e desperta o fascínio de Frollo (Cedric Hardware), o irmão do Arcebispo (Walter Hampden). Incapaz de lidar com o desejo por alguém que considera inferior, Frollo incrimina Esmeralda por um assassinato que ela não cometeu. Respeitado por sua posição social e homem das leis, ele acaba por condenar a cigana à morte. Na hora de sua execução, porém, ela é salva por Quasímodo (Charles Laughton), o sineiro da catedral de Notre Dame, que, deformado e mantido escondido pelo Arcebispo devido a suas deformidades físicas, é frequentemente exposto a humilhações e zombarias por parte do povo. Protegendo Esmeralda - que um dia havia sido a única a oferecer-lhe água depois de uma sessão de chicotadas a qual ele fora condenado injustamente - nos domínios da catedral, considerado lugar neutro, Quasímodo mostra à ela que seu aspecto monstruoso difere muito de sua alma e seu coração puro.
Mesmo se distanciando do romance original, a versão dirigida por William Dieterle - cineasta de origem alemã que também assinou os oscarizados "A história de Louis Pasteur" (35) e "Emile Zola" (36) - é um filme brilhante, equilibrando com perfeição uma contundente crítica social com uma fascinante história de amor platônico. A atuação inesquecível de Charles Laughton, que transmite toda a dor da rejeição pela diferença reflete o belo trabalho de John Hurt em "O homem elefante", realizado 41 anos mais tarde, e sua relação com Esmeralda foge com inteligência do grotesco ou do simplesmente pueril, graças principalmente à bela química do ator com Maureen O'Hara - não à toa, escolhida pessoalmente por ele para integrar o elenco. Sem um galã romântico tradicional forte o bastante para fazer frente ao carisma de Quasímodo, o corcunda acaba por tornar-se o anti-herói, em mais uma subversão dramática que engrandece o filme e o transforma em uma experiência única.
2 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Som
Em 1831, quando o escritor francês Victor Hugo lançou aquele que se tornaria mais uma de suas obras-primas, "O corcunda de Notre Dame", seu livro lidava, entre outras coisas tais como intolerância e a hipocrisia religiosa. Quando Hollywood resolveu transpor sua história para as telas pela primeira vez, em 1923, ainda na época do cinema mudo e com Lon Chaney no papel principal, sua trama central já estava, graças aos severos códigos de censura que ditavam os rumos das produções, bem menos desafiadora e crítica. Algumas alterações na história central suavizaram o tom iconoclasta do romancista e o filme estreou sem maiores problemas. Por isso, não é de surpreender que a mais bem considerada versão do livro para o cinema, lançada no final de 1939, siga as mesmas diretrizes pouco ofensivas à moral e aos bons costumes do público que assistia, à mesma época, filmes como "... E o vento levou". Realizado sob os olhares rígidos do Código Hays, "O corcunda de Notre Dame", de William Dieterle, aceita as modificações de seu antecessor, mas não deixa de ser um espetáculo de primeira grandeza, comandado por uma atuação impecável do britânico Charles Laughton.
Um dos filmes mais caros produzidos até então pela RKO - sob um custo estimado de 1,8 milhão de dólares - e precedido por uma campanha de marketing agressiva e que escondia da plateia um de seus maiores trunfos (a pesada maquiagem que levava duas horas e meia por dia para ser aplicada em Laughton), "O corcunda de Notre Dame" tinha como principal meta suplantar na memória do público a versão realizada doze anos antes. Da estreia do filme com Chaney até 1939, diversas outras versões da mesma história chegaram perto de se tornarem realidade - em especial uma produção da Universal, em 1932, dirigida por John Huston e estrelada por Boris Karloff como parte de sua série de monstros; e uma outra, em 1937, na MGM, que teria Peter Lorre no papel-título. Para sorte do produtor Irving Thalberg, no entanto, nenhum dos projetos passou da fase de especulações, e o que parecia apenas um sonho em 1934 (quando ele apresentou a ideia ao ator inglês), finalmente tornou-se realidade. Deixando para trás nomes como Bela Lugosi, Claude Rains, Lon Chaneu Jr. e até mesmo Orson Welles - todos considerados para a hipótese de o Setor de Imigração impedí-lo de atuar nos EUA - Charles Laughton criou a mais brilhante representação, nas telas, do anti-heroi de Victor Hugo, impressionante até mesmo nos cínicos dias de hoje.
A trama engendrada por Victor Hugo - e roteirizada por Sonya Levien a partir de uma adaptação de Bruno Frank - se passa na França do século XV, sob os domínios do Rei Louis XI (Harry Davenport). Em Paris, existe um preconceito generalizado contra ciganos e é nesse ambiente em que a bela Esmeralda (Maureen O'Hara) chega com seu grupo e desperta o fascínio de Frollo (Cedric Hardware), o irmão do Arcebispo (Walter Hampden). Incapaz de lidar com o desejo por alguém que considera inferior, Frollo incrimina Esmeralda por um assassinato que ela não cometeu. Respeitado por sua posição social e homem das leis, ele acaba por condenar a cigana à morte. Na hora de sua execução, porém, ela é salva por Quasímodo (Charles Laughton), o sineiro da catedral de Notre Dame, que, deformado e mantido escondido pelo Arcebispo devido a suas deformidades físicas, é frequentemente exposto a humilhações e zombarias por parte do povo. Protegendo Esmeralda - que um dia havia sido a única a oferecer-lhe água depois de uma sessão de chicotadas a qual ele fora condenado injustamente - nos domínios da catedral, considerado lugar neutro, Quasímodo mostra à ela que seu aspecto monstruoso difere muito de sua alma e seu coração puro.
Mesmo se distanciando do romance original, a versão dirigida por William Dieterle - cineasta de origem alemã que também assinou os oscarizados "A história de Louis Pasteur" (35) e "Emile Zola" (36) - é um filme brilhante, equilibrando com perfeição uma contundente crítica social com uma fascinante história de amor platônico. A atuação inesquecível de Charles Laughton, que transmite toda a dor da rejeição pela diferença reflete o belo trabalho de John Hurt em "O homem elefante", realizado 41 anos mais tarde, e sua relação com Esmeralda foge com inteligência do grotesco ou do simplesmente pueril, graças principalmente à bela química do ator com Maureen O'Hara - não à toa, escolhida pessoalmente por ele para integrar o elenco. Sem um galã romântico tradicional forte o bastante para fazer frente ao carisma de Quasímodo, o corcunda acaba por tornar-se o anti-herói, em mais uma subversão dramática que engrandece o filme e o transforma em uma experiência única.
segunda-feira
TESTEMUNHA DA ACUSAÇÃO
TESTEMUNHA DA ACUSAÇÃO (Witness for the prosecution, 1957, United Artists, 116min) Direção: Billy Wilder. Roteiro: Billy Wilder, Harry Kurnitz, baseado na peça teatral de Agatha Christie. Fotografia: Russell Harlan. Montagem: Daniel Mandell. Música: Matty Malneck. Figurino: Edith Head, Joseph King. Produção: Arthur Hornblow Jr. Elenco: Charles Laughton, Tyrone Power, Marlene Dietrich, Elsa Lanchester, John Willams. Estreia: Dezembro/57
6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Billy Wilder), Ator (Charles Laughton), Atriz Coadjuvante (Elsa Lanchester), Montagem, Som
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Elsa Lanchester)
Considerada a Rainha do Crime da literatura policial, a inglesa Agatha Christie teve pouca sorte com as adaptações de seus romances para o cinema. Nem mesmo "Assassinato no Orient Express", com um elenco estelar e um Oscar de atriz coadjuvante para Ingrid Bergman chegou perto do brilhantismo. Felizmente exceções existem para cada regra e a exceção aqui tem a assinatura de Billy Wilder, o cineasta austríaco acostumado a legar obras-primas ao mundo. Dirigido e co-escrito por Wilder (ao lado de Harry Kurnitz), "Testemunha da acusação", baseado na peça teatral homônima de Christie é, sem espaço para qualquer tipo de dúvida, a melhor transposição de uma obra da escritora para o cinema. Para quem não acredita, basta apenas assistir a uma única vez para nunca mais esquecer.
Ao contrário da peça original, que já começa no julgamento do protagonista, o roteiro de Wilder e Kurnitz aumenta a importância do advogado Wilfrid Robbarts, vivido com uma verve irresistível pelo britânico Charles Laughton (indicado ao Oscar por sua atuação). Recém-saído do hospital devido a um ataque do coração, ele é procurado pelo jovem Leonard Vole (Tyrone Power em seu último filme completo antes de sua morte por enfarte) para que o defenda em um caso de homicídio. Vole é acusado de assassinar uma senhora de idade com quem vinha se encontrando (e que, segundo as más línguas, incentivando seu interesse romântico) e, conhecendo a fama de Robbarts pede sua ajuda para ser absolvido. O veterano advogado aceita a causa, mas tem uma grande surpresa quando, durante o julgamento, fica sabendo que a principal testemunha da acusação é justamente a pessoa que eles menos poderiam esperar: Christine Helm (Marlene Dietrich), a esposa de Vole, disposta a destruir as chances de absolvição de seu marido.
Contar muito sobre o desenrolar da trama de "Testemunha da acusação" é um crime inafiançável. As reviravoltas são absolutamente surpreendentes (na primeira vez em que assiste ao filme, logicamente) e por mais que pareçam um tanto forçadas soam críveis graças à atmosfera criada pela direção de Wilder e pela atuação de seu elenco. Ao contrário de seus filmes imediatamente anteriores - com personagens americanos até a raiz dos cabelos e portanto com comportamentos bem diferentes dos mostrados aqui - Wilder criou um ambiente classicamente britânico, em que até mesmo o estilo de interpretação dos atores diverge bastante de sua obra - o que levou muita gente a pensar que o filme tivesse sido dirigido por Alfred Hitchcock. Charles Laughton (um dos maiores atores britânicos de todos os tempos) deita e rola na pele do teimoso e brilhante Wilfrid Robbarts, mal dando espaço para os demais colegas de elenco (com exceção da excelente Elsa Lanchester, sua esposa na vida real, que rouba a cena a cada momento em que aparece e levou um Globo de Ouro e uma indicação ao Oscar por isso). Tyrone Power, por exemplo, faz o que pode no papel do réu Leonard Vole, mas sucumbe perante a força de Laughton (e seu papel foi oferecido a nomes tão díspares quanto William Holden, Gene Kelly, Kirk Douglas, Glenn Ford, Jack Lemmon e Roger Moore (!!)). Só quem chama a atenção independentemente do brilho do veterano ator inglês é, pasmem, Marlene Dietrich.
Mais uma personalidade e um símbolo sexual do que exatamente uma atriz respeitada por seus dotes histriônicos, Dietrich ficou com um papel ingrato e extremamente difícil que foi oferecido primeiramente a Ava Gardner e Rita Hayworth. Como Christine Vole (ou Helm), no entanto, Marlene demonstra que, além de sua marcante voz grave, suas belas pernas (uma cena foi criada apenas para que uma delas fosse mostrada) e seu sotaque sedutor, ela tinha sim, muito talento. Houve até cochichos que garantiam uma indicação ao Oscar (ela entusiasmou-se com a possibilidade, que acabou não se provando acurada). Basta Marlene entrar em cena que é impossível desviar os olhos de seu belo e expressivo rosto e é inegável que sua presença colabora muito com o resultado final do filme.
E se não bastasse a trama surpreendente (no final do filme há um pedido dos produtores para que o público não comentasse seu desfecho com ninguém), a direção impecável de Wilder e o elenco espetacular, "Testemunha da acusação" ainda tem um senso de humor delicioso, principalmente nos embates entre o velho advogado e sua enfermeira dedicada. Juntos, Laughton e Lanchester brindam a plateia com interpretações repletas de nuances verbais e físicas, que resgatam a obra do lugar-comum em filmes sobre julgamentos. Se não fosse detalhes meticulosamente oferecidos por Billy Wilder no decorrer da narrativa, não haveria interesse em se assistir ao filme depois da primeira vez - afinal, não há mais surpresas. Mas um homem que criou pérolas como "Crepúsculo dos deuses" e "Sabrina" e ainda haveria de lançar "Quanto mais quente melhor" e "Se meu apartamento falasse" jamais deixaria de encantar seu público. Obrigado, Billy Wilder, por mais uma obra-prima!
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OS AGENTES DO DESTINO
OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...



