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segunda-feira

QUANDO UM HOMEM AMA UMA MULHER

 


QUANDO UM HOMEM AMA UMA MULHER (When a man loves a woman, 1994, Touchstone Pictures, 126min) Direção: Luis Mandoki. Roteiro: Ron Bass, Al Franken. Fotografia: Lajos Koltai. Montagem: Garth Craven. Música: Zbigniew Preisner. Figurino: Linda Bass. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/Kara Lindstrom. Produção executiva: Ron Bass, Al Franken, Simon Maslow. Produção: Jon Avnet, Jordan Kerner. Elenco: Meg Ryan, Andy Garcia, Lauren Tom, Philip Seymour Hoffman, Ellen Burstyn, Tina Majorino, Mae Whitman. Estreia: 29/4/94

Por incrível que pareça - levando-se em conta o quanto o filme em si não é nada memorável e pouco acrescentou às carreiras dos envolvidos -, a ideia central de "Quando um homem ama uma mulher" surgiu de um rascunho de dez páginas escritas por ninguém menos que Orson Welles. Isso mesmo: o homem responsável por abalar a indústria do cinema com seu "Cidadão Kane" (1941) foi quem escreveu os primeiros rascunhos do filme lançado em 1994 e que conta a história de uma família ameaçada pelo fantasma do alcoolismo. Parte das tentativas de Meg Ryan em abandonar a imagem doce de estrela de comédias românticas, no entanto, a produção dirigida pelo inexpressivo Luis Mandoki não encontrou seu público e, se não foi um fracasso imenso nas bilheterias, tampouco tornou-se um sucesso comercial. Em parte por culpa do tema sombrio - ainda que revestido de uma leveza típica dos filmes Disney (através da Touchstone, sua subsidiária para filmes adultos) -, em parte pela falta de ousadia em mergulhar mais fundo no tema, o filme de Mandoki fica no meio-termo entre o que é e o que poderia ter sido. Pode emocionar aos mais sensíveis, mas sua superficialidade não deixa de incomodar.

Assumindo um papel que foi pensado para Debra Winger (e que também foi oferecido à Michelle Pfeiffer), a adorável Meg Ryan deixa de lado sua persona agradável e encantadora para dar vida (e lágrimas) à Alice Green, uma mãe de família dedicada que esconde, por trás de seus modos gentis e carinhosos, um vício quase paralisante por álcool. Quem sabe de seu problema é Michael (Andy Garcia), um piloto de avião que passa seus dias tentando encobrir as crises da mulher - às vezes sutis, outras bastante violentas. Suas filhas pequenas, Jess (Tina Majorino) e Casey (Mae Whitman), são testemunhas dos acessos da mãe, e sofrem a cada discussão entre os pais - além de serem potenciais vítimas da violência que pode surgir a qualquer momento. Depois de uma crise particularmente grave, Alice aceita ir para uma clínica de reabilitação - mas seu retorno acaba tendo efeitos colaterais graves em sua relação com o marido: antes o pilar que mantinha a família de pé, o responsável e amoroso Michael se vê repentinamente sem função na dinâmica da casa e o casamento encontra, então, uma nova ameaça.

 

Não é que o filme de Mandoki seja exatamente ruim. O problema é que, comparado a outras (e mais corajosas) produções sobre o mesmo tema, "Quando um homem ama uma mulher" empalidece irremediavelmente. Não há, nele, a sensação de urgência de "Farrapo humano" (1945) e "Vício maldito" (1962), que não à toa são referenciais em relação ao assunto. "Despedida em Las Vegas", que seria lançado no ano seguinte, também tem a ousadia que lhe falta, ao mergulhar Nicolas Cage em um espiral de desespero poucas vezes agradável ao olhos do espectador. Visualmente asséptico e emocionalmente superficial, o resultado final soa mais como uma telenovela do que como cinema - para isso conta também o roteiro quadradinho, escrito pelo vencedor do Oscar (por "Rain Man", de 1988) Ron Bass: a relação entre o casal de protagonistas, por exemplo, nunca atinge todo o seu potencial dramático, sendo ofuscado em diversas ocasiões pela dupla de atrizes mirins que interpretam suas filhas. Por mais que a intenção seja retratar o estrago feito pelo vício em um núcleo familiar, não deixa de ser frustrante ver o esvaziamento de uma questão tão séria em uma realização tão pouco ousada e que prefere o melodrama a discussões mais contundentes.

Nitidamente se esforçando em demonstrar uma nova faceta de seu talento, Meg Ryan nem sempre dá conta do recado, muitas vezes caindo na armadilha do exagero que o papel cria a cada cena - mas é louvável que leve a sério sua tarefa (a ponto de ter sido lembrada pelos colegas com uma indicação ao Screen Actors Guild). Andy Garcia, por sua vez, faz o que pode com um personagem que é praticamente o apoio para as crises de Ryan - é de se imaginar como Tom Hanks, a primeira escolha para o papel, se sairia em cena ao lado de Debra Winger. E no elenco coadjuvante, um jovem Philip Seymour Hoffman mal consegue destacar-se, assim como a veterana Ellen Burstyn - mal-aproveitada como a mãe de Alice. Amparando-se na força do tema, mas sem conseguir desenvolvê-lo a contento, "Quando um homem ama uma mulher" é um filme sobre alcoolismo para quem não tem a intenção de vê-lo com toda a feiura e dor que ele traz.

quarta-feira

LOBO

 


LOBO (Wolf, 1994, Columbia Pictures, 125min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Jim Harrison, Wesley Strick. Fotografia: Giuseppe Rotunno. Montagem: Sam O'Steen. Música: Ennio Morricone. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Jim Dultz, Juliet Taylor/Linda DeScenna. Produção executiva: Robert Greenhut, Neil Machlis. Produção: Douglas Wick. Elenco: Jack Nicholson, Michelle Pfeiffer, James Spader, Christopher Plummer, Kate Nelligan, Richard Jenkins, David Hyde Pierce, Eileen Atkins, Ron Rifkin. Estreia: 17/6/94

Quando o ator Jack Nicholson e seu amigo e parceiro profissional, o roteirista Jim Harrison, tiveram a ideia de fazer um filme sobre lobisomens, jamais imaginaram que, apesar do prestígio do astro, ainda demorariam mais de uma década para vê-lo nas telas. Com algumas pequenas alterações na trama originalmente imaginada - o protagonista deixou de ser um advogado para virar um editor literário, por exemplo - e mudanças no elenco durante a fase de pré-produção - até mesmo Marlon Brando esteve envolvido com o projeto em determinado momento -, "Lobo" estreou no verão norte-americano de 1994 com grandes expectativas por parte do público e da Columbia Pictures, ávida por um sucesso de bilheteria mas temerosa devido a fracas exibições-teste, que adiaram seu lançamento por quase um ano. Dirigido pelo experiente Mike Nichols e com o objetivo de conquistar um público adulto e mais exigente - em tese o oposto das plateias que lotavam as salas para testemunharem banhos de sangue adolescente -, o filme acabou por decepcionar a todos: não apenas teve uma bilheteria doméstica morna (que nem chegou a cobrir seu orçamento de aproximadamente 70 milhões de dólares) como ficou aquém, em termos artísticos, ao que se poderia esperar da reunião de Jack e Mike - que, juntos, já haviam realizado "Ânsia de amar" (1971), O golpe do baú" (1976) e "A difícil arte de amar" (1986).

Sugerido para a direção por Jack Nicholson - que tinha direito à palavra final na escolha do nome para a condução do projeto -, Mike Nichols oferece a "Lobo" uma visão elegante e madura, realçada por um elenco de primeira linha e uma equipe técnica brilhante. Da fotografia impressionante do italiano Giuseppe Rotunno (colaborador frequente de Fellini e Visconti) à trilha sonora quase minimalista de Ennio Morricone (que substituiu John Williams devido ao atraso do cronograma de produção), tudo no filme respira classe. Sem apelar para a violência extrema (o que de certa forma decepcionou parte do público), Nichols conduz seu filme com um tom de seriedade muito bem-vindo - não à toa alguns temas citados por ele a respeito da obra (a morte de Deus, o declínio da civilização ocidental e até a epidemia da AIDS) são bastante densos e contrastam radicalmente da falta de conteúdo da maioria das produções do gênero. Tanta preocupação com subtextos, no entanto, não conseguem esconder o fato de que, a despeito de suas qualidades de produção, o filme de Nichols falha em sua principal missão: contar sua história de forma marcante - ou a menos com a força que se espera de uma produção de seu nível. O público fã do gênero tem muito a gostar, mas o resultado final não deixa de ser um tanto frustrante.

 

A trama criada por Jim Harrison - e reescrita por Wesley Strick, para desgosto do autor original - já começa em plena ação: o editor literário Will Randall (Jack Nicholson), em uma viagem de volta ao lar, atropela e é mordido por um lobo em plena noite de lua cheia. Ao mesmo tempo em que começa a perceber estranhas mudanças em seu organismo - a audição fica apurada, sua força física aumenta e o faro torna-se mais potente -, Randall vê sua vida entrar em franca decadência. Demitido por seu chefe, Raymond Alden (Christopher Plummer), abandonado pela esposa, Charlotte (Kate Nelligan), e traído por seu homem de confiança, Stewart Swinton (James Spader), Randall encontra apenas um consolo: a atração recíproca que sente pela bela filha de Alden, a voluntariosa Lauren (Michelle Pfeiffer). Conforme vai percebendo que o ataque do lobo pode tê-lo transformado em um lobisomem, o executivo aproveita as vantagens da situação ao mesmo tempo em que se preocupa com a possibilidade de ver sua nova natureza assumir um tom violento e irracional.

Dotado de uma narrativa convencional - mas com uma edição ágil o bastante para não aborrecer às plateias mais jovens -, "Lobo" apresenta qualidades quase redentoras, como a atuação habitualmente caprichada de Jack Nicholson, a beleza estonteante de Michelle Pfeiffer (em papel recusado por Sharon Stone e Annette Bening e que quase ficou com Mia Farrow, em meio à sua polêmica confusão com Woody Allen) e o roteiro que enfatiza o tom de suspense que acompanha o folclore em torno dos lobisomens. Não deixa de ser atípico ver um cineasta como Mike Nichols (mais acostumado com relações pessoais e crises sentimentais do que com efeitos visuais) no comando de uma obra tão comercial, mas seria ainda mais surpreendente se a primeira escolha do estúdio tivesse se mantido: ninguém menos que Stanley Kubrick foi sondado para a tarefa - e recusou, para surpresa de ninguém. É de se imaginar o que o britânico poderia ter feito com o material (não se pode esquecer que já havia dirigido Jack Nicholson em outro filme de terror, o infame "O iluminado", de 1980), mas certamente teria sido menos esquecível - para o bem ou para o mal.

A COR DA NOITE

 

A COR DA NOITE (Color of night, 1994, Cinergi Pictures Entertainment/Hollywood Pictures, 121min) Direção: Richard Rush. Roteiro: Matthew Chapman, Billy Ray, estória de Billy Ray. Fotografia: Dietrich Lohmann. Montagem: Jack Hofstra. Música: Dominic Frontiere. Figurino: Jacki Arthur. Direção de arte/cenários: James L. Schoppe/Cynthia McCormack. Produção executiva: Andrew G. Vajna. Produção: Buzz Feitshans, David Matalon. Elenco: Bruce Willis, Jane March, Ruben Blades, Brad Dourif, Lesley Ann Warren, Lance Henriksen, Scott Bakula, Kevin J. O'Connor, Andrew Lowery, Eriq La Salle, Kathleen Wilhoite. Estreia: 19/8/94

Uma trama policial com direito a reviravoltas e pistas falsas; um astro de grande apelo popular; uma jovem e promissora estrela com um cult movie no currículo; e cenas ousadas o bastante para incomodar aos mais conservadores e atrair o público ávido por ver nas telas sequências capazes de falar aos mais básicos instintos. Parecia não haver erro na receita de "A cor da noite", que unia o carisma de Bruce Willis, a sensualidade de Jane March - revelada no polêmico "O amante" (1992) - e um enredo que misturava violência, psicanálise e generosas doses de sexo. Porém, as coisas não saíram conforme o esperado: apesar da bela carreira posterior, no mercado de vídeo, o filme decepcionou - e muito - nas bilheterias e não foi exatamente bem recebido pela crítica. Considerado por March como o filme que atrapalhou sua trajetória como atriz, "A cor da noite" tem, na origem de seu fracasso comercial, um vigoroso embate de bastidores, que prejudicou e tornou ainda mais frágil um projeto arriscado por si só.

Produzido pelo bem-sucedido Andrew G. Vajna - cujos créditos à época já contavam com sucessos de bilheteria como os três primeiros filmes de Sylvester Stallone como Rambo e "O vingador do futuro" (1990), com Arnold Schwarzenegger, e de prestígio, como "Coração satânico" (1986) e "Alucinações do passado" (1990) -, "A cor da noite" chegou ao diretor Richard Rush como uma espécie de pedido de desculpas de Vajna pelos problemas ocorridos durante a produção de "Air América: loucos pelo perigo" (1990), quando o veterano cineasta e roteirista teve o projeto arrancado de suas mãos depois de anos de desenvolvimento. O que deveria ter sido uma bandeira branca, no entanto, piorou ainda mais a situação: ciente de que teria direito ao corte final, Rush descobriu, talvez tarde demais, que teria sua visão sobrepujada aos interesses do produtor. Pior ainda: foi quase demitido logo depois das filmagens (o que é proibido pelo sindicato de diretores) e viu seu trabalho retalhado ao chegar às telas. Com o fiasco do filme nas bilheterias, não demorou para que um jogo de empurra-empurra chegasse à imprensa, com um culpando o outro pelo naufrágio da produção e Rush defendendo sua versão 18 minutos mais longa do que a lançada comercialmente, que, segundo ele, apelava para a nudez gratuita e sufocava o enredo. Rush provavelmente sabia o que estava dizendo: uma comparação entre as duas versões, feita por alguns críticos e uma plateia selecionada em San Francisco concordou com o cineasta de que a sua edição melhorava - e muito - o resultado final.

 

A questão, no entanto, é que, deixada de lado a guerra entre Vajna e Rush, "A cor da noite" é um filme que não chega a se sustentar completamente. A trama central é interessante e sua resolução é até mesmo crível - dentro de seu universo dramático e ficcional -, mas é inegável que a produção soa um tanto artificial, com personagens clichês e sim, um foco na sexualidade que só se justifica pelo sucesso financeiro de filmes como "Instinto selvagem" (1992), que lotou as salas de cinema e transformou Sharon Stone no maior símbolo sexual feminino da década. O roteiro, criado por Billy Ray e re-escrito com Matthew Chapman (que posteriormente estaria por trás do script de "Flores raras", de Bruno Barreto) não consegue escapar das armadilhas comuns ao gênero, abrindo possibilidades intrigantes mas nem sempre aprofundando-as a contento - chega a ser risível a forma com que os pacientes do protagonista são apresentados, mal oferecendo a seus (bons) intérpretes a chance de melhor desenvolvê-los. Atores talentosos como Brad Dourif, Lance Henriksen e Lesley Ann Warren são desperdiçados em diálogos rasos e uma direção pouco criativa - para não dizer preguiçosa. E clímax, que se pretendia chocante e/ou surpreendente, esbarra no tom morno da atuação de Bruce Willis - um bom ator quando bem dirigido, como bem mostraram Quentin Tarantino e M. Night Shyamalan.

A trama de "A cor da noite" é, a princípio, empolgante: Bill Capa (Bruce Willis), um psicanalista de Nova York que, traumatizado com o suicídio de uma paciente diante de seus olhos, resolve passar um tempo com um colega de Los Angeles, Bob Moore (Scott Bakula). Quando Moore é assassinado violentamente, o detetive encarregado do caso, Hector Martinez (Rubén Blades), sugere a Capa que assuma o grupo de analisados da vítima, com o objetivo de descobrir se algum deles é o culpado. Mesmo temeroso em voltar a clinicar, Capa aceita a ideia e passa a prestar atenção nos cinco problemáticos pacientes de Moore, todos eles plenamente capazes de cometer um crime. Nesse meio tempo, Capa acaba seduzido pela bela e misteriosa Rose (Jane March), que pode ou não estar ligada ao caso, ainda que indiretamente.

Para quem procura um filme policial convencional, com alguns momentos de ação e um final relativamente surpreendente, "A cor da noite" é um programa e tanto. Porém, para o público mais exigente não deixa de ser uma decepção: não apenas as cenas de sexo são pouco inventivas como a trama falha em envolver de forma satisfatória - sem falar na armadilha criada pelo próprio enredo, quando precisa esconder algo que só faz sentido quando mostrado claramente. No final das contas, pode ser considerado, como bem disse a publicação oficial dos Framboesas de Ouro, um dos 100 filmes ruins mais divertidos já feitos.

ASSÉDIO SEXUAL


ASSÉDIO SEXUAL (Disclosure, 1994, Warner Bros., 128min) Direção: Barry Levinson. Roteiro: Paul Attanasio, romance de Michael Crichton. Fotografia: Tony Pierce-Roberts. Montagem: Stu Linder. Música: Ennio Morricone. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Neil Spisak/Garrett Lewis. Produção executiva: Peter Giuliano. Produção: Michael Crichton, Barry Levinson. Elenco: Michael Douglas, Demi Moore, Donald Sutherland, Caroline Goodall, Roma Maffia, Dylan Baker, Dennis Miller. Donal Logue. Estreia: 28/11/94

Não tinha como dar errado. Em 1994, quando foi lançado, o filme "Assédio sexual" apresentava todos os ingredientes de um grande sucesso: além do tema polêmico, contava com a assinatura de Barry Levinson (diretor oscarizado por "Rain Man", de 1988, e indicado novamente à estatueta, por "Bugsy", de 1991), uma história criada por Michael Crichton (cujo "Jurassic Park" acabava de ser adaptado às telas por Steven Spielberg e se tornava uma das maiores bilheterias da história) e a presença de dois astros de primeira grandeza, Michael Douglas e Demi Moore. E não deu - pelo menos em parte. Com mais de 200 milhões de dólares de arrecadação mundial, a produção deu o que falar em mesas de bar, em artigos de jornal e em reuniões de família, colocando em pauta um assunto ainda delicado (cuja interessante inversão de papéis ajudou no marketing espontâneo) e reforçando a popularidade de seus atores principais. Porém, à parte sua controvérsia e o talento dos envolvidos, o filme de Levinson não deixa de ser uma decepção àqueles que procuram um bom drama de tribunal: superficial e com sérios problemas de foco, "Assédio sexual" é um passatempo correto, mas que perdeu a chance de se tornar um clássico de seu tempo.

Não deixou de ser uma jogada de mestre mudar o foco do romance "Disclosure", de Michael Crichton, para buscar as plateias que lotaram as salas de exibição para ver Michael Douglas sofrendo as consequências de seu caso extraconjugal em "Atração fatal" (1987) ou Demi Moore despertando a luxúria do milionário Robert Redford em "Proposta indecente" (1993) - ambos dirigidos, por coincidência ou não, por Adrian Lyne. Cientes de que o público formaria filas para ver a normalmente delicada Demi assediando sem meias-palavras o frequentemente garanhão Douglas, os produtores transformaram uma subtrama do livro de Crichton em tema principal - e relegaram a história central do romance, que girava em torno de intrigas corporativas em uma empresa de tecnologia, a segundo plano. A estratégia se mostrou acertada em termos comerciais, mas, como efeito colateral, enfatizou a fragilidade com que o escritor desenvolveu o tema. Nem mesmo um roteirista experiente como Paul Attanasio - indicado ao Oscar por "Quiz show: a verdade dos bastidores" (1994) - foi capaz de disfarçar a inconsistência de tamanha alteração de foco: o que era para ser o grande trunfo do filme acabou esvaziado por uma reviravolta anticlimática que funcionou nas páginas mas se despedaçou nas telas.

 

A trama do filme gira em torno de Tom Sanders (Michael Douglas), gerente de uma importante empresa de tecnologia de Seattle, às vésperas de uma fusão milionária que a colocará dentre as grandes companhias do mundo. No dia em que esperava ser promovido a vice-presidente, porém, o pacato Tom, pai de família correto e leal, é pego de surpresa ao reencontrar uma antiga namorada, Meredith Johnson (Demi Moore): não apenas ela vai trabalhar na mesma empresa que ele, como é anunciada no cargo que seria seu. Frustrado e com medo de perder o emprego ao qual se dedica incansavelmente, Tom entra em uma situação ainda mais delicada quando, depois do expediente, em uma reunião com a bela e decidida executiva, é quase forçado a fazer sexo com ela. No dia seguinte, a coisa fica pior: invertendo completamente os fatos, Meredith o acusa de assédio sexual - e caberá a ele provar que uma mulher linda, sensual e poderosa teria necessidade de obrigar um homem a envolver-se com ela. Nem mesmo seu antigo chefe, Bob Garvin (Donald Sutherland), acredita em sua versão, e as consequências do embate poderão acabar com sua carreira e sua família.

Não há grandes problemas em "Assédio sexual", assim como tampouco há grandes qualidades. A impressão que se tem é que todos estão no piloto automático. A direção de Barry Levinson é burocrática - mesmo a comentada cena do assédio não se decide entre ser quente ou incômoda. Michael Douglas faz muito pouco além do corriqueiro, sem oferecer muitas nuances a sua performance, correta mas sem brilho. Nem a trilha sonora do celebrado Ennio Morricone consegue ser marcante, sublinhando apenas com eficiência as sequências propostas pelo roteiro mas nunca chegando à excelência que lhe é costumeira. Quem acaba se beneficiando desse resultado morno é Demi Moore, que se destaca mesmo com uma personagem tão maniqueísta quanto Meredith Johnson. Na pele da antagonista principal - papel para o qual foram consideradas Michelle Pfeiffer, Geena Davis e Annette Bening -, Demi coroava um período fértil para uma carreira que pouco depois cairia em um melancólico limbo, alavancado por fracassos de bilheteria como "Striptease" (1996) e "Até o limite da honra" (1997). Linda e esforçada, é ela quem se sobressai em uma produção apenas mediana e sem brilho.

segunda-feira

CÉU AZUL

CÉU AZUL (Blue sky, 1994, Orion Pictures, 101min) Direção: Tony Richardson. Roteiro: Rama Laurie Stagner, Arlene Sarner, Jerry Leitchling, estória de Rama Laurie Stagner. Fotografia: Steve Yaconelli. Montagem: Robert K. Lambert. Música: Jack Nitzsche. Figurino: Jane Robinson. Direção de arte/cenários: Timian Alsaker/Gary John Constable. Produção: Robert H. Solo. Elenco: Jessica Lange, Tommy Lee Jones, Powers Boothe, Carrie Snodgress, Amy Locane, Chris O'Donnell, Anna Klemp. Estreia: 24/8/94

Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Jessica Lange)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Jessica Lange) 

Na longa lista de males que vem para o bem na história de Hollywood, "Céu azul" merece um lugar de destaque. Filmado no verão norte-americano de 1990 e pronto para ser lançado em 1991, o último filme do diretor Tony Richardson acabou ficando na prateleira por mais três anos devido à falência de seu estúdio (Orion Pictures) e só chegou aos cinemas em 1994. A má notícia é que, a essa altura, o cineasta já havia morrido e não chegou a ver seu filme estrear. A boa notícia é que, lançado em um ano particularmente fraco de grandes desempenhos femininos, o filme empurrou sua estrela Jessica Lange em direção a um Golden Globe e a seu segundo Oscar (o primeiro na categoria principal). Sua premiação foi absolutamente justa: é Lange, com sua sensualidade e sua precisão em interpretar mulheres à beira do precipício, é o corpo e a alma de uma produção fraca e, não fosse por sua presença magnética, facilmente esquecível. Indeciso entre um drama familiar e conflitos políticos, o roteiro acaba por não explorar a contento nenhum dos dois enfoques e, em vez de ser dois filmes em um, o resultado final é apenas o resultado de duas metades que nem sempre se comunicam com coerência.

Uma heroína com a sensualidade trágica de uma Ava Gardner e a densidade psicológica de um personagem de Tennessee Williams, a protagonista de "Céu azul" é Carly Marshall, a esposa bipolar de um engenheiro nuclear que trabalha para o governo dos EUA. No início da década de 60, antes da morte de Kennedy e do trauma da guerra do Vietnã, o afável Hank (Tommy Lee Jones) é parte fundamental dos estudos do país em relação a testes atômicos - mas é sua mulher a mais perigosa das armas com as quais ele tem de lutar: transferido do Havaí para o Alabama (em boa parte por causa do comportamento errôneo de Carly), ele não precisa apenas lidar com suas crises nervosas, mas também com o efeito que ela causa aos homens a seu redor. No novo lar, por exemplo, ela tira do sério o oficial Vince Johnson (Powers Boothe), superior de Hank, homem casado e pai de um adolescente, Glenn (Chris O'Donnell), que se envolve justamente com a filha mais velha do casal, Alex (Amy Locane). O relacionamento escandaloso entre Carly e Vince - que fica evidente a todos que os rodeiam - acaba tendo consequências também na vida profissional de Hank, que testemunha um acidente e se vê no centro de um jogo de interesses políticos em que a conduta de sua mulher é peça fundamental.


Único roteiro escrito por Rama Laurie Stagner até hoje, "Céu azul" é livremente baseado em sua mãe, que também viveu um conturbado relacionamento com o marido militar na década de 60. É perceptível seu carinho no desenho da protagonista, uma personagem complexa e rica em nuances, todas muito bem exploradas por uma Jessica Lange particularmente inspirada. Carly não é alguém com quem se possa simpatizar completamente - seu comportamento chega às raias da irresponsabilidade -, mas Lange injeta humanidade e alma a cada cena, enfatizando suas carências e inseguranças e a aproximando do público. O problema do filme é sua tentativa de contar duas histórias paralelas sem que haja maior aprofundamento em nenhuma delas - o que a edição apressada apenas deixa ainda mais claro. A trama que envolve Hank e seu embate com militares superiores a respeito da radiação nuclear que deixa vítimas inesperadas é interessante, mas praticamente some diante da imponência da atuação da atriz principal, que engole a tudo e a todos. E tampouco ajuda o fato de Tommy Lee Jones não ser exatamente um ator carismático e o desfecho ser tão anticlimático.

Em poucas palavras, "Céu azul" é um filme que existe e se mantém graças ao desempenho notável de uma atriz no auge do talento e a uma personagem que lhe permite explorar uma variedade imensa de possibilidades. Não é o filme marcante que poderia ser com um roteiro um pouco menos superficial ou uma direção mais segura - o que é de surpreender levando-se em conta a longa e premiada carreira de Tony Richardson. Não fosse a performance oscarizada de Jessica Lange - e até a sorte de ter sido lançado em um período favorável à sua premiação, poderia se tornar facilmente esquecível e relegado à história como uma produção quase medíocre. Salva-se como uma sessão descompromissada e uma aula de interpretação feminina, mas é apenas isso.

sexta-feira

WYATT EARP

WYATT EARP (Wyatt Earp, 1994, Warner Bros, 191min) Direção: Lawrence Kasdan. Roteiro: Dan Gordon, Lawrence Kasdan. Fotografia: Owen Roizman. Montagem: Carol Littleton. Música: James Newton Howard. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Ida Random/Cheryl Carasik. Produção executiva: Dan Gordon, Michael Grillo, Charles Okun, Jon Slan. Produção: Kevin Costner, Lawrence Kasdan, Jim Wilson. Elenco: Kevin Costner, Dennis Quaid, Gene Hackman, David Andrews, Linden Ashby, Jeff Fahey, Mark Harmon, Michael Madsen, Catherine O'Hara, Bill Pullman, Isabella Rossellini, Tom Sizemore, Jobeth Williams, Mare Winningham, Annabeth Gish, Jim Caviezel, Mackenzie Astin, Téa Leoni. Estreia: 24/6/94

Indicado ao Oscar de Fotografia

Nada como uma boa ironia do destino para sacudir o ego de um astro. Que o diga "Wyatt Earp", superprodução comandada por Lawrence Kasdan que praticamente começou a pavimentar o declínio de Kevin Costner, um dos atores mais populares no início da década de 1990. Responsável pelo sopro de popularidade do western, com o enorme sucesso de seu "Dança com lobos" (1990), Costner emendou vários êxitos comerciais, como "JFK" (1991) e "O guarda-costas" (1993) - e, do alto de sua autoconfiança, acreditava que todo e qualquer projeto em que tocasse se transformaria em ouro. Foi assim que juntou-se ao roteirista Kevin Jarre para criar o que pretendia ser a visão definitiva de um dos heróis mais conhecidos do público norte-americano, o xerife Wyatt Earp. Tudo parecia ir bem até que as famosas "diferenças criativas" acabaram por separar os dois: não concordando com o espaço dado por Jarre aos personagens coadjuvantes - o que não dava o espaço pretendido pelo ator para exercitar todo o seu status de galã -, o ator pulou fora e procurou o amigo Lawrence Kasdan para começar uma produção rival, que seguisse os seus desejos. Como forma de demonstrar sua força dentro da indústria, ele chegou a tentar utilizá-la como moeda de troca, para impedir a distribuição do concorrente por outros estúdios - o que atrasou e dificultou a realização do filme, dirigido por George P. Cosmatos. A ironia de tudo é que não apenas "Tombstone: a justiça está chegando" custou metade do orçamento do mastodôntico "Wyatt Earp" como rendeu mais que o dobro da produção estrelada por Costner - e obteve melhores críticas, apesar de não ter um astro de sua estatura no elenco, liderado por Kurt Russell e Val Kilmer.

Com uma bilheteria mundial que não conseguiu nem ao menos cobrir seu custo de mais de 60 milhões de dólares, "Wyatt Earp" naufragou em sua própria ambição. Com o desejo óbvio de realizar mais um épico - mania que o levaria a mares ainda mais tumultuados em seu filme seguinte, "Waterworld: o segredo das águas", um fiasco histórico -, Costner acreditou demais na fidelidade dos fãs. Se "Dança com lobos" tinha mais de três horas de duração e fez o sucesso que fez, por que a trajetória de um herói nacional como Earp daria errado, não é mesmo? Originalmente concebido como uma minissérie de televisão de seis capítulos, o projeto que reunia Costner e Kasdan depois de outro faroeste, "Silverado", lançado em 1985, não se contentava em contar apenas a história mais conhecida a respeito de seu protagonista - o duelo em OK Corral, ocorrido em 1881, resultado da rixa entre os chamados "homens da lei", que incluíam três irmãos Earp e Doc Holliday, e cinco forasteiros, que, segundo a lenda, ameaçavam a paz da cidade de Tombstone, no Arizona. Ao contrário, o roteiro de Kasdan e Don Gordon começa na adolescência do protagonista e se estende por décadas - o que pode soar historicamente correto, mas causa um excesso de personagens e momentos desnecessários e prejudiciais ao ritmo da narrativa. Apesar disso, porém, seu fracasso nas bilheterias e a extrema má-vontade da imprensa não é totalmente justificado. "Wyatt Earp" pode não ser o filmaço que prometia, mas está muito longe de ser um filme ruim.


Primeiro, seus defeitos: um épico de três horas de duração pode facilmente prender a atenção do espectador, desde que haja conteúdo nesse tempo todo. O roteiro de "Wyatt Earp" parece dar a mesma importância a fatos cruciais, como a morte de Urilla (Annabeth Gish), primeira mulher do protagonista - acontecimento que o marca para sempre - e anedotas nem sempre dignas de ênfase, como os problemas conjugais entre Doc Holliday (Dennis Quaid) e Big Nose Katie (Isabella Rossellini). Atores como Gene Hackman (como o patriarca da família Earp) e a própria Rossellini são subaproveitados, e Kevin Costner em si não consegue convencer em todas as fases do personagem, especialmente quando mais jovem. A direção também falha em estabelecer a tensão necessária que conduz ao clímax - que, por sua vez, tampouco chega a empolgar (o que, levando-se em conta que o tiroteio real levou apenas alguns segundos, é plenamente perdoável). E, por fim, há a falta de carisma do personagem principal, que em nenhum momento domina o filme como deveria - mais um problema na conta de Costner.

Mas nem tudo está errado. A bela fotografia de Owen Roizman, indicada ao Oscar, funciona às mil maravilhas, sublinhando com discrição os vários tons do filme, da amplidão de horizontes e crepúsculos até o cinza das passagens mais sombrias e dramáticas. Dennis Quaid quase rouba o filme para si na pele de Doc Holliday: apesar de ter mais idade que o personagem, entrega uma performance admirável, para a qual perdeu peso e criou um visual impecável. A trilha sonora de James Newton Howard também é um ponto forte, fugindo do óbvio e apostando no minimalismo na maior parte do tempo. Revisto com o benefício do tempo, que salva filmes subestimados e muitas vezes desmascara obras nem tão geniais quanto se pensava, "Wyatt Earp" é um bom programa para quem gosta de faroestes mais contemplativos - a exemplo de "Os imperdoáveis", que deu a Clint Eastwood seu primeiro Oscar de direção e incentivou o renascimento do gênero em Hollywood. É um filme adulto e sério, realizado com dedicação e cuidado, mas que infelizmente afogou-se na prepotência e na megalomania. Pode ser resgatado do limbo dos fracassos - tem qualidades para tal -, mas jamais será a obra-prima definitiva sobre o assunto, como sonhava ser.

segunda-feira

CAINDO NA REAL

CAINDO NA REAL (Reality bites, 1994, Universal Pictures, 99min) Direção: Ben Stiller. Roteiro: Helen Childress. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Lisa Churgin, John Spence. Figurino: Eugenie Bafaloukos. Direção de arte/cenários: Sharon Seymour/Maggie Martin. Produção executiva: Wm. Barclay Malcolm, Stacey Sher. Produção: Danny De Vito, Michael Shamberg. Elenco: Winona Ryder, Ethan Hawke, Ben Stiller, Steve Zahn, Janeane Garofalo, Swoosie Kurtz. Estreia: 18/02/94

Convencionou-se chamar de "Geração X" aquela formada pelos nascidos entre meados da década de 60 e final dos anos 70 - posteriores, portanto, ao Baby Boom ocorrido logo após a II Guerra Mundial. Mesmo cunhada pelo fotógrafo Robert Capa em 1950, ela serviu para definir um grupo específico de jovens que, vindos ao mundo no período pós-1960, enfrentavam um futuro ainda incerto e sem tanto otimismo. Em 1964, a jornalista Jane Deverson voltou a utilizar o termo em um ensaio para uma revista britânica - dessa vez descrevendo os integrantes do grupo como jovens que não respeitavam os padrões pré-estabelecidos e conservadores da geração anterior. Foi somente com o lançamento do livro "Geração X: contos para uma cultura acelerada" (91), de Douglas Coupland, no entanto, que o apelido pegou de vez - e tornou-se o carimbo de uma juventude cujo niilismo e desilusão eram marcas registradas. Hollywood não demorou em perceber que tinha em mãos um possível nicho e logo tratou de conceber a sua própria visão do fenômeno. "Vida de solteiro" (92), de Cameron Crowe, inaugurou o filão com largas doses de rock e humor, mas não agradou nas bilheterias e imediatamente pôs em dúvida o potencial comercial de filmes relacionados ao tema. Essa falta de interesse repentina - e até justificável - acabou sendo a maior dificuldade, então, no caminho de "Caindo na real", uma comédia dramática/romântica que tratava justamente dos conflitos e dúvidas de um grupo de amigos de vinte e poucos anos que, recém-saídos da universidade, precisam lidar com a nova realidade.

Escrito por uma jovem de apenas 19 anos, "Caindo na real" foi recusado por todos os estúdios de Hollywood - ressabiados com o fracasso de bilheteria de "Vida de solteiro" e temerosos a respeito de um filme sem grandes nomes que garantissem o retorno do investimento. Foi somente depois que a TriStar Pictures desistiu de vez do projeto, porém, que a Universal Pictures entrou na jogada - cobriu o orçamento de 11 milhões de dólares e atraiu Winona Ryder para o papel principal feminino, escrito por Helen Childress exatamente com a atriz em mente. Cansada de várias produções de época, Ryder imediatamente aceitou participar do filme e exigiu, como cláusula contratual, que Ethan Hawke fosse escalado para viver o protagonista masculino. Foi o relativo poder de Winona na época - uma das atrizes jovens mais populares e prestigiadas de sua geração - que também garantiu a presença de Janeane Garofalo, em um papel disputado por nomes em ascensão, como Gwyneth Paltrow, Anne Heche e Parker Posey: mesmo demonstrando problemas de comportamento durante as filmagens (o que ocasionou inclusive uma demissão, mais tarde revogada), Garofalo foi defendida por unhas e dentes por Winona, que a recomendou fervorosamente ao diretor do filme, o estreante Ben Stiller.


Conhecido da televisão americana, Stiller chegou a "Caindo na real" através dos produtores, que viram nele o diretor ideal para contar uma história sobre a juventude americana do começo da década de 90. Foi Stiller quem ajudou a roteirista a chegar a um roteiro final, alterando o foco central da trama: ao invés de simplesmente contar o dia-a-dia de quatro amigos recém-formados, ele preferiu voltar sua atenção para um triângulo amoroso que, como uma metáfora romântica, simbolizava as dúvidas que torturavam as mentes juvenis do momento: o amor rebelde e idealista ou o conforto de uma vida estável e profissionalmente enquadrada nos padrões da sociedade? Surgia assim o ponto crucial da questão, que renegava a ideia inicial (retratar a tal "geração X") para aproximar o filme de uma plateia mais ampla. Em parte deu certo: se não foi um assombroso sucesso, ao menos não comprometeu as carreiras dos envolvidos - e recebeu carinhosos elogios da crítica.

O centro da trama é Lelaina Pierce (Winona Ryder), uma jovem que, enquanto trabalha como assistente de um programa de televisão apresentado pelo arrogante Grant Gubler (John Mahoney), sonha em lançar um documentário sobre ela e seus melhores amigos, todos em momentos decisivos de suas vidas. Troy Dyer (Ethan Hawke) é um músico em constante busca por reconhecimento e um lugar ao sol; Vickie Miner (Janeane Garofalo) trabalha em uma loja de roupas e se preocupa com a possibilidade de ter contraído AIDS; e Sammy Gray (Steve Zahn) tenta lidar com as dúvidas a respeito de sua sexualidade. Unidos, os quatro atravessam um período de mudanças em suas trajetórias, mas é Lelaine quem irá precisar tomar a mais difícil decisão: encarar sua paixão por Troy e embarcar em uma vida mais próxima do que sonha ou ficar ao lado de Michael Grates (Ben Stiller), o executivo de uma emissora de TV que pode lhe proporcionar uma estabilidade profissional e financeira? Winona Ryder nem precisa se esforçar muito para convencer na pele de Lelaina - linda e carismática, ela é a escolha ideal para liderar o elenco. Ben Stiller faz uma estreia promissora, dotando seu filme de ritmo e leveza apropriados, ilustrados com uma trilha sonora das mais adequadas e uma simpatia natural, que dá a seus personagens complexidades surpreendentes em uma produção voltada para um público mais afeito a efeitos visuais do que sutilezas dramáticas. Só por essa coragem, "Caindo na real" já merece aplausos.

sexta-feira

NELL

NELL (Nell, 1994, Egg Pictures/PolyGram Filmed Entertainment/20th Century Fox, 112min ) Direção: Michael Apted. Roteiro: William Nicholson, Mark Handley, peça teatral "Idioglossia", de Mark Handley. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Jim Clark. Música: Mark Isham. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: Jon Hutman/Samara Hutman.Produção: Jodie Foster, Renée Missel. Elenco: Jodie Foster, Liam Neeson, Natasha Richardson, Richard Libertini, Nick Searcy, Jeremy Davies. Estreia: 14/12/94

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Jodie Foster)

Em 1991, devido a problemas financeiros que acabaram acarretando em sua falência, a Carolco, um estúdio sem a proporção de uma Fox ou uma Paramount, se viu obrigado a escolher entre dois filmes para lançar no mercado: o escolhido foi "Mentes que brilham", estreia de Jodie Foster na direção, que colheu elogios unânimes da crítica e foi muito bem recebido pelo público. O segundo filme, "Céu azul", dirigido por Tony Richardson, só chegou às salas de cinema três anos depois e, por ironia do destino, esse atraso só lhe fez bem: não fosse ele era bem possível que seu Oscar de melhor atriz - concedido à excelente Jessica Lange - nunca tivesse acontecido, porque em 1992 a estatueta foi bem disputada entre Geena Davis e Susan Sarandon (ambas por "Thelma & Louise") e a própria Foster, que saiu-se vencedora por "O silêncio dos inocentes". Outra ironia suprema? A maior rival de Lange na cerimônia de 1995 era a mesma Jodie: no filme "Nell" ela entrega mais uma sublime interpretação na pele de uma jovem criada à margem da civilização e que é descoberta depois da morte da mãe. Por melhor atriz que Jessica Lange seja, ainda hoje é difícil engolir a escolha da Academia em premiá-la em detrimento de um trabalho tão impactante quanto o da ex-menina prodígio que tornou-se uma das mais premiadas estrelas de Hollywood unicamente graças a seu talento.

É inegável que o trabalho de Jodie Foster - que assina também como produtora e quase assumiu o papel de diretora antes que Michael Apted fosse contratado - é superior ao filme como um todo. Baseado em uma peça de teatro de Mark Handley (co-autor do roteiro), "Nell" não consegue escapar dos clichês nem tampouco de algumas incongruências e exageros que enfraquecem o resultado final e deixam nos ombros da atriz a responsabilidade de manter a verossimilhança e o interesse da plateia. Felizmente ela tem talento de sobra para construir uma personagem que, a despeito da fragilidade da trama, transborda humanidade e cativa a audiência sem precisar muito mais do que o trabalho corporal e facial - ambos de extraordinária competência e de delicadeza contrastante com a aparentemente durona Clarice Starling do filme que lhe deu o segundo Oscar.


A trama do filme é simples e direta: depois da morte da mãe, seu único elo com o mundo exterior, a jovem Nell (Foster, nunca aquém de genial em cena) é descoberta na cabana onde morou a vida inteira, escondida de tudo e de todos em uma floresta localizada perto de uma pequena cidade do interior. Se comunicando através de um idioma próprio e incapaz de manter contato social com qualquer desconhecido, ela aos poucos passa a mostrar-se afável com as duas pessoas que resolvem ajudá-la em sua transição rumo a uma nova vida: o doutor Jerome Lovell (Liam Neeson) e a psicóloga Paula Olsen (Natasha Richardson), que, apesar de suas boas intenções, desejam coisas diferentes a ela. Enquanto Lovell acredita que Nell pertence à floresta e a seu mundo particular, Paula insiste que ela deve ser "devolvida" à civilização. Esse impasse chega aos tribunais e a jovem - que tem um trágico passado ainda desconhecido pelos médicos - passa por três meses de observação para ter seu futuro definido.

Mais um exemplar dos "bons selvagens" retratados pelo cinema - mais notadamente em "O garoto selvagem" (70), de François Truffaut - Nell é uma personagem fascinante, ainda que não tenha sido desenvolvida de forma satisfatória pelo roteiro, por vezes mais preocupado com a disputa entre os dois especialistas do que em analisar de maneira mais profunda a psicologia da protagonista. Liam Neeson e Natasha Richardson estão bem em cena - foi durante as filmagens que eles se conheceram e se apaixonaram, em um casamento que durou até a precoce morte da atriz em um acidente de esqui em 2009 - mas não fazem mais do que pontuar com correção o show particular de Jodie Foster, e a busca de seus personagens pelas origens do isolamento de Nell nunca ultrapassa o convencional, privando o público de mais emoção. Ainda assim, é um filme feliz em suas opções, ao fugir do tradicional dramalhão - mesmo que, em seu clímax, apresente a típica cena de discurso que qualquer filme que ambicione um Oscar não tem medo de utilizar. É um belo filme - Michael Apted é um diretor competente e sabe como contar uma história - mas aquém de suas possibilidades. Salva-se Jodie e seu talento além de qualquer palavra.

quinta-feira

ADORÁVEIS MULHERES

ADORÁVEIS MULHERES (Little women, 1994, Columbia Pictures Corporation, 115min) Direção: Gillian Armstrong. Roteiro: Robin Swicord, romance de Louisa May Alcott. Fotografia: Geoffrey Simpson. Montagem: Nicholas Beauman. Música: Thomas Newman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Jan Roelfs/Jim Erickson. Produção: Denise Di Novi. Elenco: Winona Ryder, Susan Sarandon, Gabriel Byrne, Trini Alvarado, Kirsten Dunst, Claire Danes, Samantha Mathis, Christian Bale, Eric Stoltz, John Neville, Donal Logue. Estreia: 21/12/94

3 indicações ao Oscar: Atriz (Winona Ryder), Trilha Sonora Original, Figurino

Só mesmo a safra fraquíssima de 1994 e a vontade sempre premente de Hollywood em fabricar novas estrelas justificam a indicação de Winona Ryder ao Oscar de melhor atriz por "Adoráveis mulheres", nova versão do clássico da literatura norte-americana, dessa vez sob o comando da australiana Gillian Armstrong: seu desempenho como Josephine, uma jovem pré-feminista que desafia as convenções de sua sociedade com o objetivo de vencer como escritora em um país saindo da Guerra de Secessão nunca ultrapassa o convencional e é frequentemente eclipsada por atuações bastante superiores do elenco coadjuvante - que inclui as novatas Claire Danes e Kirsten Dunst. Sem jamais imprimir a força necessária ao papel - que foi de Katharine Hepburn em uma versão realizada em 1933 por George Cukor - Ryder é, perigosamente, o elo mais fraco da produção, que também conquistou indicações ao Oscar pela bela trilha sonora de Thomas Newman e pelo caprichado figurino de Colleen Atwood.

Publicado pela primeira vez em 1868, o romance "Mulherzinhas", de Louisa May Alcott é um dos livros mais populares da literatura norte-americana, tendo recebido diversas adaptações para a tv e o cinema desde 1917, quando uma primeira versão chegou às telas, ainda na fase do cinema mudo. De sua publicação até o lançamento do filme de Armstrong se passou mais de um século, e era esperado que a cineasta australiana tirasse proveito dessa distância temporal - presumivelmente um benefício para análises mais isentas do papel da mulher na sociedade ianque - para realizar uma obra que destacasse a forte personalidade de sua protagonista em meio a um mundo dominado por homens. Não foi o que aconteceu. O roteiro de Robin Swicord, apesar do ritmo agradável, detém-se basicamente no melodrama familiar e romântico do livro, negando à personagem principal a potência que tem no romance. Somada à atuação mecânica de Ryder - fã confessa do livro - essa opção enfraquece o resultado final, deixando "Adoráveis mulheres" muito aquém de suas possibilidades.


As adoráveis mulheres do título são as integrantes femininas da família March, que, durante a Guerra de Secessão, fazem o possível para manter-se unidas e saudáveis, mesmo desfalcadas da presença paterna - que está no front - e das posses que tinham antes do início do conflito: a matriarca, (Susan Sarandon, pouco aproveitada e que foi rival de Winona na disputa pelo Oscar, por seu trabalho em "O cliente", de Joel Schumacher), e as quatro filhas, que além de tudo, tem também que adequar-se às regras sociais da época como forma de arrumar um bom casamento. A mais velha, Meg (Trini Alvarado) se interessa por John Brooke (Eric Stoltz), preceptor de seu vizinho, um homem bom mas não necessariamente rico. A segunda, Jo (Ryder), sonha em tornar-se escritora, tem ideais feministas - antes do advento do feminismo - e vive uma relação dúbia com o jovem Laurie (Christian Bale), que vive na casa ao lado, com o avô (John Neville). A terceira, Beth (Claire Danes) tem preocupações sociais e se dedica a cuidar daqueles que tem menos do que elas, até contrair escarlatina e ver sua saúde ficar seriamente ameaçada. E a caçula, Amy (Kirsten Dunst e Samantha Mathis em dois períodos distintos da trama), vive de sonhar acordada, esperando um bom marido para sair da pobreza.

Quando a segunda fase da história começa, Jo muda-se para a Inglaterra, onde pretende dar vazão a suas ideias modernas e sua veia de escritora. Justamente a partir daí, quando ela assume o posto de protagonista absoluta da trama é que o filme fica menos interessante. A luta de Jo pelos direitos femininos só é mostrada em uma única e rápida cena, onde ela mal consegue expor seu raciocínio: o roteiro opta por focar em sua relação com o professor alemão Friedrich Bhaer (Gabriel Byrne), uma história de amor prejudicada fatalmente pela falta de química entre os dois atores. A essa altura, o público já percebeu que o que interessa à Armstrong não é mostrar o crescimento pessoal de Jo, e sim os dramas de suas irmãs - e, justiça seja feita, nesse ponto ela não brinca em serviço. Com sutileza e cuidado, a cineasta até consegue emocionar a plateia, mas oferece a ela apenas um novelão romântico que nada acrescenta às versões anteriores do livro nas telas. Uma pena.

quarta-feira

O RIO SELVAGEM

O RIO SELVAGEM (The river wild, 1994, Universal Pictures, 108min ) Direção: Curtis Hanson. Roteiro: Denis O'Neill. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: David Brenner, Joe Hutsching. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Bill Kenney/Rick T. Gentz. Produção executiva: Ray Hartwick, Ilona Herzberg. Produção: David Foster, Lawrence Turman. Elenco: Meryl Streep, Kevin Bacon, David Straithairn, John C. Reilly, Joseph Mazzello, Benjamin Bratt. Estreia: 30/9/94

Em 1994 Meryl Streep já tinha dois Oscar em casa, já era considerada a melhor atriz de sua geração e servia de modelo para toda e qualquer jovem intérprete que surgia no cinema americano. Mas, em sua vitoriosa carreira, repleta de dramas dilacerantes e até comédias de humor negro, faltava um gênero que poucos conseguiam relacionar a ela: o filme de ação. Talvez para riscar esse item da lista, talvez porque quisesse divertir-se um pouco ou talvez porque realmente tenha gostado do roteiro, o fato é que "O rio selvagem" tornou-se conhecido como o filme em que a grande dama do cinema americano deixou as lágrimas de lado e partiu para a ignorância. O resultado não foi dos melhores: a crítica praticamente ignorou e o público não se demonstrou mais entusiasmado com a ideia de vê-la distante dos papéis que lhe deram fama e prestígio.

A culpa, no entanto, não é nem do público, nem da crítica e tampouco de Meryl, que está boa como sempre, exercitando seu conhecido perfeccionismo ao realizar quase todas as cenas perigosas solicitadas. O problema de "O rio selvagem" é sua demora em engrenar, seu ritmo claudicante. O roteiro de Denis O'Neil leva mais de uma hora para expor a situação central - e que irá deflagrar a ação - e depois parece não se esforçar em surpreender ou cativar o espectador, recheando sua história com clichês. Não seria problema se a intenção do filme fosse analisar a crise de um casamento ampliada por uma situação extrema ou simplesmente levar o público a uma montanha-russa ao estilo "Risco total", protagonizado por Sylvester Stallone em 1992. Acontece que a primeira opção não é verdadeira e não parece que a segunda também o seja: o drama familiar da personagem de Streep é quase oco (um desperdício de atores, já que seu marido é vivido pelo ótimo David Straithairn) e a adrenalina que poderia equilibrar a balança a favor do filme é rala, apesar de contar com cenas de grande competência técnica e de contar com um vilão convincente interpretado pelo sempre assustador Kevin Bacon.


Bacon e Streep, aliás, foram indicados ao Golden Globe por seus desempenhos - uma prova a mais do prestígio da atriz junto à critica, já que, além de mostrar-se capaz de atuar até mesmo em produções com nítidas intenções comerciais puras e simples, ela não chega a estar brilhante como normalmente está. No filme, ela interpreta Gail Hartman, uma dona-de-casa que abandonou a profissão de guia turística especializada nas correntezas do Rio Colorado para viver ao lado da família. Saudosa da antiga rotina, ela volta e meia retorna a águas perigosas, que conhece como ninguém. Para comemorar o aniversário do filho mais velho, Roarke (Joseph Mazzello, o menino do filme "Jurassic Park, parque dos dinossauros", de 1993), ela resolve acampar com ele e o marido, Tom (David Straithairn), com quem está em crise. A aventura torna-se extremamente perigosa, porém, quando eles esbarram em Wade (Kevin Bacon), um simpático turista que se revela, logo depois, o líder de um grupo de bandidos que precisa de ajuda para atravessar a fronteira do Canadá. Para isso, ele conta com o conhecimento de Gail.

"O rio selvagem" está longe de ser um filme ruim: tem muita gente boa envolvida para chegar a isso. Mas é apenas mais um filme de ação comum, sem maiores qualidades que o destaquem dos demais (a não ser, claro, a presença nada óbvia de Meryl Streep em seu elenco). Seu diretor, Curtis Hanson, faz um trabalho correto, assim com o fez em "A mão que balança o berço" (93), seu filme anterior, mas nada que fizesse antever o milagre realizado em 1997, quando lançou o sublime "Los Angeles, cidade proibida", que lhe rendeu uma indicação ao Oscar. Aqui, amarrado a um roteiro sem maiores novidades ou possibilidades, ele está burocrático e apático, assinando uma produção que pode até divertir, mas não deixa marcas no espectador.

terça-feira

TESTEMUNHA DO SILÊNCIO

TESTEMUNHA DO SILÊNCIO (Silent fall, 1994, Warner Bros, 101min) Direção: Bruce Beresford. Roteiro: Akiva Goldsman. Fotografia: Peter James. Montagem: Ian Crafford. Música: Stewart Copeland. Figurino: Colleen Kelsall. Direção de arte/cenários: John Stoddart/Patty Malone. Produção executiva: Gary Barber. Produção: James G. Robinson. Elenco: Richard Dreyfuss, Linda Hamilton, Liv Tyler, J.T. Walsh, John Lithgow, Ben Faulkner. Estreia: 28/10/94

Um dos atores mais populares da segunda metade dos anos 70 - quando protagonizou "Tubarão" (75) e "Contatos imediatos de terceiro grau" (77) e foi o mais jovem vencedor do Oscar na categoria principal até então, por "A garota do adeus" (77) - Richard Dreyfuss não teve a mesma sorte nas décadas seguintes, equilibrando bons filmes de más bilheterias ("Querem me enlouquecer", com Barbra Streisand, de 87 e "Além da eternidade", de Steven Spielberg, de 89, por exemplo), filmes agradáveis que fizeram sucesso de público ("Tocaia", de 1987 e "Nosso querido Bob", de 1991) e produções francamente ruins, que não chegavam nem perto de explorar todo o seu talento (a continuação de "Tocaia", lançada em 1993). Infelizmente, antes de tentar uma volta por cima com a indicação merecida ao Oscar de melhor ator por "Mr. Holland, adorável professor" (95), ele acrescentou mais um filme desnecessário à sua carreira. Com uma trama instigante e uma lista de créditos excitante - o cineasta Bruce Beresford, a atriz Linda Hamilton e a beldade Liv Tyler estreando no cinema - "Testemunha do silêncio" acabou decepcionando o público, a crítica e a Warner, que empatou 30 milhões de dólares em uma produção que não recuperou nem 10% do orçamento. E o pior é que a culpa nem é de Dreyfuss.

Por mais que esteja quase no piloto automático em sua atuação, Dreyfuss não pode ser responsabilizado pelo fracasso de "Testemunha de silêncio", dirigido de forma burocrática e sem emoção por Beresford - que sintomaticamente, cinco anos antes, viu seu "Conduzindo Miss Daisy" levar o Oscar de melhor filme sem que ele ao menos tivesse sido indicado. Seu personagem, o terapeuta infantil Jake Rainer, especializado em autismo infantil e traumatizado com o suicídio de um paciente em seu centro de tratamento, poderia ser rico em nuances, mas o roteiro de Akiva Goldsman - que oito anos depois também seria premiado pela Academia por "Uma mente brilhante" - parece não ter interesse em desenvolver a complexidade de seu protagonista, ilustrando seu drama com uma ou duas cenas ligeiras e alguns poucos diálogos com a esposa Karen (Linda Hamilton, subaproveitada ao máximo). O foco da trama - interessante, mas igualmente desenvolvido de forma capenga e quase inverossímil - é uma investigação policial na qual ele é envolvido a contragosto e que vai acabar por fazê-lo rever sua decisão de abandonar a medicina.


O filme começa quando Rainer é chamado pelo xerife Mitch Rivers (J.T. Walsh) - com quem tem uma antiga relação de amizade - à cena de um brutal assassinato ocorrido na pequena cidade onde vive. A princípio o médico não entende os motivos que o levaram a ser convocado à propriedade onde um casal de classe média alta foi violentamente atacado a facadas em seu quarto, mas a razão logo surge quando ele encontra o filho caçula do casal, Tim (o ótimo Ben Faulkner), coberto de sangue, com uma faca nas mãos e falando coisas desconexas. Fica claro que o menino é autista e testemunhou o crime, mas não é do interesse de Rainer fazer parte das investigações até que a bela Sylvie (Liv Tyler), filha mais velha das vítimas implora que ele os ajude. Percebendo que, caso se recuse a colaborar com seu tratamento à base de psicologia infantil o pequeno Tim cairá nas mãos de outro médico (John Lithgow), bem mais afeito a drogas do que a conversas, ele aceita o desafio. No meio do caminho, pistas e revelações levam a polícia para inúmeros caminhos na busca pelo assassino.

A história de "Testemunha do silêncio" é interessante, e o desfecho poderia surpreender, caso tudo não corresse de forma tão preguiçosa. O roteiro, como afirmado anteriormente, desperdiça a chance de equilibrar um filme policial tenso com um drama médico eficiente ao optar sempre pelas soluções mais fáceis - e menos críveis. A direção é fria e quadrada, sem buscar em seu elenco de bons atores - Dreyfuss, Hamilton, Lithgow - interpretações mais do que corretas. E, se o pequeno Ben Faulkner dá show vivendo o atormentado Tim, o mesmo não pode ser dito de Liv Tyler, que estreava no cinema na pele de sua irmã mais velha, Sylvie. Vinda do mundo do rock - é filha do vocalista da banda Aerosmith, Steven Tyler, e havia estrelado o videoclipe "Crazy", da banda do papai, ao lado da atriz Alicia Silverstone - Liv mostrou que realmente era uma mulher deslumbrante, mas desprovida de talento dramático em um papel-chave para a trama. Felizmente, com o tempo, ela melhorou bastante e hoje é uma atriz relativamente competente. Mas, diante de tantos erros cometidos por "Testemunha do silêncio" sua apatia fica ainda mais gritante. Uma pena.

segunda-feira

QUIZ SHOW - A VERDADE DOS BASTIDORES

QUIZ SHOW, A VERDADE DOS BASTIDORES (Quiz show, 1994, Hollywood Pictures/Baltimore Pictures, 133min) Direção: Robert Redford. Roteiro: Paul Attanasio, livro "Remembering America: a voice from the sixties", de Richard N. Goodwin. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Stu Linder. Música: Mark Isham. Figurino: Kathy O'Rear. Direção de arte/cenários: Jon Huttman/Samara Schaffer. Produção executiva: Richard Dreyfuss, Judith James, Frederick Zollo. Produção: Michael Jacobs, Julian Krainin, Michael Zonik, Robert Redford. Elenco: Ralph Fiennes, Rob Morrow, John Turturro, Paul Scofield, Christopher McDonald, David Paymer, Hank Azaria, Mira Sorvino, Griffin Dunne, Martin Scorsese, Barry Levinson. Estreia: 23/9/94

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Redford), Ator Coadjuvante (Paul Scofield), Roteiro Adaptado

O ano é 1958. Um dos mais populares programas de TV dos EUA, apresentado pela NBC, é o game-show "Twenty-one", apresentando por Jack Barry (Christopher McDonald), onde dois candidatos duelam pela possibilidade de ganhar até 100 mil dólares respondendo a perguntas de conhecimento geral. Percebendo que o campeão das últimas semanas, Herbie Stempel (John Turturro) já não tem mais a resposta entusiasmada da plateia (a audiência estancou e parece que não há jeito de voltar a subir), os patrocinadores do programa resolvem retirá-lo do show e substituí-lo por alguém mais palatável ao gosto médio. Stempel, um judeu do Queens sem formação acadêmica e de aparência pouco admirável, acaba sendo deixado de lado por Charles Van Doren (Ralph Fiennes), um professor universitário de considerável herança intelectual - e dono de uma beleza que passa a encantar as mulheres. Enquanto Van Doren começa a acumular uma bela fortuna saindo vencedor dos programas de que participa, o antigo concorrente, sentindo-se traído pela produção da emissora, resolve expor a rede de mentiras que se passa nos bastidores. Segundo ele, os participantes escolhidos como os vencedores já recebem todas as respostas antes do início da atração, como forma de garantir sua vitória. Suas acusações chegam até os ouvidos de Dick Goodwin (Rob Morrow), um jovem idealista e ambicioso que trabalha no Congresso Americano, que resolve tirá-las a limpo.

Esse escândalo de manipulação da mídia - fato hoje tão corriqueiro que nem chega mais a ser notícia - ocorreu de verdade e foi o tema do livro "Remembering America: a voice from the sixties", escrito pelo próprio Goodwin e serviu de base para o quarto filme do ator Robert Redford como cineasta, "Quiz show, a verdade dos bastidores". Indicado para quatro estatuetas da Academia - incluindo melhor filme, direção e roteiro - o filme é uma reconstituição sóbria e clássica de um período americano anterior ao pesadelo em que o país mergulharia com o assassinato de John Kennedy em 1963, que traria a reboque a guerra do Vietnã e o recrudescimento dos conflitos raciais. A perda da inocência que estava em vias de ocorrer talvez tenha se deixado vislumbrar com a história do "Twenty-one", parece dizer Redford, que nem por isso parece julgar os fatos que apresenta. Como bom cineasta contador de histórias, ele apenas serve como narrador, deixando as conclusões - e as opiniões - com o público.


E Redford talvez nunca tenha estado melhor como cineasta do que em "Quiz show". Amparado por um roteiro seguro e repleto de nuances sociais e psicológicas - o filme engloba tanto os meandros das emissoras de tv quanto os dramas pessoais dos envolvidos com a tramoia - ele também tira de seus atores interpretações viscerais: Ralph Fiennes - vindo direto da indicação ao Oscar por "A lista de Schindler" (93) - constroi um Charles Van Doren minimalista, sutil, que fala com os olhos e transmite sua variada gama de sentimentos sem precisar apelar para o óbvio (assim como o faz também o veterano Paul Scofield na pele de seu pai, uma atuação que colocou-o na lista dos concorrentes à estatueta de coadjuvante), enquanto John Turturro brilha na pele do exagerado, falastrão e dramático Herbie Stempel: o contraste entre as duas atuações é um golpe de mestre do diretor, que deixa claro ao público as motivações dos competidores. Van Doren sucumbiu à fama, à glória e até mesmo à ingenuidade de achar que sua vitória ajudaria na educação do país. Stemple precisava de dinheiro, de atenção, de ter o reconhecimento por sua cultura. Ambos caíram em desgraça.

Realizado com capricho - a ambientação e os figurinos são impecáveis - e dirigido com elegância e discrição, "Quiz show" chegou ao Oscar 95 enfrentando pesos-pesados como "Forrest Gump, o contador de histórias" e "Pulp fiction, tempo de violência", o que talvez explique o fato de ter saído de mãos abanando da cerimônia. Mas também é bem possível que os eleitores da Academia não tenham gostado de perceber o quanto podem ser manipulados pela mídia. A verdade doi, mesmo que venha embrulhada em um belo e fascinante papel de presente.

domingo

ONLY YOU

ONLY YOU (Only you, 1994, TriStarPictures, 108min) Direção: Norman Jewison. Roteiro: Diane Drake. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Stephen Rivkin. Música: Rachel Portman. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Luciana Arrighi/Ian Whittaker. Produção: Robert N. Fried, Norman Jewison, Charles Mulvehill, Cary Woods. Elenco: Marisa Tomei, Robert Downey Jr., Bonnie Hunt, Joaquim de Almeida, Fisher Stevens, Billy Zane, John Benjamin Hickey. Estreia: 17/9/94 (Festival de Toronto)

Quando ganhou o inesperado Oscar de atriz coadjuvante por seu desempenho em "Meu primo Vinny" (92), Marisa Tomei ganhou junto a incômoda missão de provar que seu prêmio não havia sido mais um dos inúmeros enganos acumulados pela Academia em seu histórico de erros. Filmes como o fraco "Coração indomável" (93) e o esquecível "O jornal" (94) não ajudaram nesse sentido, mas é inegável que o simpático "Only you", dirigido pelo veterano Norman Jewison foi o mais perto que ela chegou, nos anos 90, de comprovar seu talento para a leveza das comédias românticas. Usando de muitos elementos clássicos, flertando com obras icônicas do gênero, como "A princesa e o plebeu" - além de uma citação direta de "Casablanca" (43) - e tendo as belezas da Itália como cenário, o filme não chegou a ser um sucesso de bilheteria, mas conquista a plateia pela simpatia do elenco e pelo roteiro, com reviravoltas em número suficiente para manter a atenção até o último minuto.

Sendo nada mais do que uma simples comédia, "Only you" não pretende oferecer mais do que um simples e divertido entretenimento, mas entrega ao espectador quase duas horas de um romantismo derramado, ilustrado pela fotografia do mestre Sven Nykvist - colaborador habitual de Ingmar Bergman e Woody Allen - e pontuado pela discreta trilha sonora de Rachel Portman. Polvilhando seu roteiro com tiradas de um humor sutil, Diane Drake construiu uma trama capaz de conquistar até mesmo o mais ferrenho detrator do gênero, especialmente por não deter-se na eterna fórmula do "moça encontra rapaz, se apaixona e luta por seu amor até o final feliz". Ok, alguns desses elementos estão presentes na história, mas tão bem misturados que é difícil resistir. Senão, vejamos: desde criança a professora Faith (Marisa Tomei, encantadora) ouve o mesmo nome quando procura saber, via meios sobrenaturais, quem é sua alma gêmea. Em uma brincadeira na tábua dos mortos com o irmão, Damon Bradley surge pela primeira vez. Alguns anos depois, uma cigana de parque de diversões reitera a informação, deixando a adolescente obcecada com esse desconhecido que promete ser seu grande amor.


Já adulta, Faith está de casamento marcado e aparentemente feliz quando, ao atender o telefone do noivo, ouve do outro lado da linha o nome de sua cara-metade: excitada, ela ignora o fato de Bradley estar de viagem para Veneza e, com a companhia da cunhada, Kate (Bonnie Hunt) - que está passando por uma fase infeliz no casamento - pega o primeiro avião para a Itália. Depois de inúmeros desencontros, ela finalmente dá de cara com o rapaz, um morador de Nova York que está na Europa a serviço (Robert Downey Jr.). Bonito, sedutor e romântico, ele é o sonho encarnado, e Faith está resolvida a cancelar o casamento e apostar em uma vida ao lado de seu novo grande amor quando descobre que as coisas não são exatamente como ela esperava.

Um dos maiores méritos de "Only you" é sua capacidade de surpreender o público, levando-o para várias direções antes de finalmente dar sua história por encerrada. Brincando com o mito do  do homem mediterrâneo através do flerte de Kate com o sedutor Giovanni (Joaquim de Almeida) e com a obsessão feminina pela busca do amor romântico, o filme de Norman Jewison - também autor do delicioso "Feitiço da lua" (87) - é uma divertida viagem pelos meandros do destino guiada por uma dupla central atraente e de excelente química. Tomei, que anos mais tarde voltaria a ser levada a sério como atriz, com mais duas indicações ao Oscar - por "Entre quatro paredes" (01) e "O lutador" (08) - não foi um erro da Academia. Ela sempre foi uma atriz deliciosa de se assistir.

sábado

O PROFISSIONAL

O PROFISSIONAL (The professional/Leon, 1994, Gaumont Pictures, 110min) Direção e roteiro: Luc Besson. Fotografia: Thierry Arbogast. Montagem: Sylvie Landra. Música: Eric Serra. Figurino: Magali Guidasci. Direção de arte/cenários: Dan Weill/Françoise Benoit Fresco. Produção executiva: Claude Besson. Elenco: Jean Reno, Gary Oldman, Natalie Portman, Danny Aiello. Estreia: 14/9/94

Alguns filmes marcam a vida do espectador por sua mensagem, outros por sua história e ainda outros pela forma narrativa que adotam. Em alguns casos, porém, o que fica na memória da plateia e faz uma produção tornar-se especial é uma característica única. É o caso de "O profissional", lançado em 1994 e que hoje é menos lembrado por sua história ou por outros detalhes narrativos e mais por ter sido o filme que lançou a carreira de uma das atrizes mais importantes de sua geração, Natalie Portman. O alvoroço em torno da estreia de Portman foi tanto e tão merecido que o principal ponto de venda da obra na época - era o primeiro trabalho do cineasta francês Luc Besson em Hollywood - ficou quase totalmente eclipsado. Não é pra menos: como uma lolita pós-moderna, decidida e vingativa (ainda que sensível nos momentos certos), a jovem que tinha apenas 11 anos quando foi escolhida pelo diretor, roubou a cena de ninguém menos que Jean Reno (astro na França e começando uma popular carreira nos EUA) e o mestre Gary Oldman.

Um dos diretores franceses mais respeitados na indústria americana - a ponto de ter recebido a discutível homenagem de ver seu sucesso de bilheteria "Nikita, criada para matar" (90) ser refilmado sob o título de "A assassina" (92), com Bridget Fonda - Besson estava com tudo pronto para fazer sua estreia em Hollywood com a superprodução "O quinto elemento", uma ficção científica cara e ambiciosa que seria estrelada por Bruce Willis e Gary Oldman para a Columbia Pictures. A agenda de Willis, sempre apertada, acabou adiando as filmagens, mas o cineasta, para não perder o ritmo criativo, escreveu, em cerca de 30 dias, o roteiro de um filme policial inspirado em um dos coadjuvantes de "Nikita". Ainda com Oldman no elenco, ele chamou seu amigo Jean Reno - que fazia o tal personagem inspirador do protagonista no filme anterior - e escolheu a jovem Portman para viver a protagonista feminina. Com um custo consideravelmente mais baixo, sem o apoio da Columbia e com um prazo de filmagens de 90 dias, ele realizou então um dos pontos mais altos de sua filmografia - enquanto "O quinto elemento", lançado apenas quatro anos mais tarde, decepcionou a gregos e troianos.


O profissional do titulo internacional - na frança ele chamou-se apenas "Léon" - é Leone Montana, um matador de aluguel que é, segundo seu intermediário Tony (Danny Aiello), o melhor dentre todos. Vivendo sozinho em um pequeno apartamento de Nova York, ele leva uma vida simples e discreta, sem amigos, sem relacionamentos e sem vida social. Sua bolha de isolamento é rompida quando ele conhece Mathilda (Natalie Portman, esbanjando talento), uma menina de 12 anos que testemunha toda a sua família ser chacinada violentamente por Stansfield (Gary Oldman) - um policial corrupto - e seus capangas. Desesperada e sedenta de vingança, a garota se aproxima de Léon, vai morar com ele e resolve aprender a se tornar ela mesma uma assassina, para acabar com o assassino - não tanto de seu pai, com quem não mantinha a mais saudável das relações, mas principalmente de seu irmão de 4 anos.

A relação entre Léon e Mathilda é a mais interessante das camadas de "O profissional". Mesmo que o filme funcione muito bem como policial e suspense, com cenas bem construídas e uma edição impactante que remete aos melhores momentos de "Nikita", é a história de amor e amizade surgida entre duas pessoas tão diferentes e ao mesmo tempo tão semelhantes que empurra o filme pra frente. Léon, um homem sozinho e até então desprovido de maiores emoções, se vê profundamente tocado com o sofrimento e a angústia de Mathilda, a quem adota como filha. A menina, por sua vez, é uma explosão de sentimentos, chegando a confundir a gratidão e o carinho imensos que sente por seu mentor com amor e desejo. A cena em que ela se declara apaixonada é uma prova inconteste do talento já enorme de Portman em seu primeiro filme: apenas com o olhar e a voz, ela se transforma de vingadora obsessiva em uma jovem mulher, ainda que confusa em suas sensações, experimentadas pela primeira vez.

"O profissional" é um belo filme, ainda que tenha sido recebido com certa frieza da crítica quando foi lançado - em especial a imprensa se concentrava em seus diálogos, que considerou fracos. Hoje, a obra alcançou status de cult e é considerado por vários especialistas um dos filmes indispensáveis dos anos 90. Nem que seja para testemunhar o nascimento de uma estrela chamada Natalie Portman.

sexta-feira

O PODER DA SEDUÇÃO

O PODER DA SEDUÇÃO (The last seduction, 1994, ITC, 110min) Direção: John Dahl. Roteiro: Steve Barancik. Fotografia: Jeffrey Jur. Montagem: Eric L. Beason. Música: Joseph Vitarelli. Figurino: Terry Dresbach. Direção de arte/cenários: Linda Pearl/Kathy Lucas. Produção executiva: W.M. Christopher Gorog. Produção: Jonathan Shestack. Elenco: Linda Fiorentino, Bill Pullman, Peter Berg, J.T. Walsh. Estreia: 26/5/94 (Austrália)

Em 1995 a atriz Linda Fiorentino passou por uma situação bastante insólita: elogiada unanimemente pela crítica por seu desempenho como a femme fatale protagonista do filme "O poder da sedução" - a ponto de ser indicada ao BAFTA, ao prêmio da Associação de Críticos de Chicago e ficar com o segundo lugar pela Sociedade de Críticos de Boston - ela se viu impedida de receber uma indicação ao Oscar que muitos consideravam justa por causa de uma regra antiga da Academia. Como a obra de John Dahl - um policial noir despudorado e bem escrito - estreou na TV antes de passar pelos cinemas, foi considerada inelegível para suas estatuetas. Azar da Academia, uma pena para Fiorentino. Mas quem assistiu ao excelente policial de Dahl sabe que a atriz, até então uma ilustre desconhecida, é seu corpo, sua alma e seus órgãos sexuais.

À época da estreia de "O poder da sedução", a imprensa não economizou elogios: para eles, Fiorentino era "a nova Sharon Stone" - uma vez que a antiga estava passando por um período de vacas magras devido ao fiasco de "Invasão de privacidade" (93) tal afirmação até soou verdadeira - e uma atriz que finalmente tinha encontrado seu lugar ao sol. Exageros e falhas de prever o futuro à parte (sua carreira não chegou exatamente a engrenar depois do filme, acumulando escolhas erradas e fracassos de bilheteria), os entusiasmados escribas até que não estavam tão longe da verdade a eleger Linda como a mulher fatal do momento. De posse apenas de seu charme, seu sorriso, sua inteligência acima da média e de uma total e absoluta falta de pudor, sua personagem no filme de John Dahl - que depois dirigiria Matt Damon e Edward Norton no igualmente bom "Cartas na mesa" (98) - usa e abusa dos homens ao seu redor, com o firme propósito de se dar bem e ficar com uma grana preta oriunda do tráfico de drogas.


O filme começa com sua personagem, Bridget Gregory, dando um golpe no próprio marido, Clay (Bill Pullman, um tanto exagerado mas não a ponto de incomodar): enquanto ele está no banho, preparando-se para comemorar o pagamento de quase um milhão de dólares que conseguiu pela cocaína medicinal que vendeu, ela foge de Nova York, deixando-o sem esposa e sem a grana necessária para pagar um agiota a quem deve dinheiro. Foragida, ela vai parar em uma cidade do interior dos EUA, muda o nome para Wendy Kroy e seduz o caipira Mike Swale (Peter Berg), cujo casamento passageiro em outra cidade acabou por motivos misteriosos. Para não ser obrigada a dar o divórcio a Clay - o que a obrigaria a dividir o dinheiro - e nem devolver o produto de seu roubo, ela passa a manipular o apaixonado Mike para fazê-lo cometer um assassinato.

O roteiro de Steve Barancik é outra estrela de "O poder da sedução": direto, inteligente e com o equilíbrio certo entre sensualidade, violência e reviravoltas, a trama prende o espectador do início ao fim, conduzindo-o por uma teia de amoralidade guiada por uma personagem poucas vezes nas telas americanas: por mais que as femmes fatales tenham sido figuras frequentes no cinema hollywoodiano desde os anos 40, nenhuma delas era tão abertamente sexualizada quanto Bridget. Sem nenhum tipo de vergonha, ela se apresenta a Mike enfiando a mão em sua calça - para "saber se vale a pena" - e se entrega a cenas de sexo encostada em uma grade do lado de fora de um bar, dentro de um carro e, logicamente, na cama, sem a culpa que cerca a hipócrita moral ianque. Não é à toa que o público fica tão encantado por ela quanto Mike: sua atitude em relação ao corpo é, sem dúvida, sua maior arma e Linda Fiorentino a usa como ninguém até o final feliz. Um pequeno grande filme!

quinta-feira

NA RODA DA FORTUNA

NA RODA DA FORTUNA (The Hudsucker Proxy, 1994, Warner Bros, 111min) Direção: Joel Coen. Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen, Sam Raimi. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Thom Noble. Música: Carter Burwell. Figurino: Richard Hornung. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Nancy Haigh. Produção executiva: Tim Bevan, Eric Fellner. Produção: Ethan Coen. Elenco: Tim Robbins, Jennifer Jason Leigh, Paul Newman, Bruce Campbell, John Mahoney, Charles Durning, Peter Gallagher. Estreia: 11/3/94

No cinema abertamente corporativo de Hollywood nos gananciosos anos 90, não deixa de ser surpreendente que os irmãos Coen conseguissem realizar filmes tão fora do comum quanto "Na roda da fortuna" - que se seguia aos igualmente estranhos no ninho "Um gosto de sangue" (84), "Arizona nunca mais" (87), "Ajuste final" (90) e "Barton Fink, delírios de Hollywood" (91), todos dotados de uma personalidade própria rara no cinemão mainstream. Uma espécie de sátira aos ingênuos filmes de Frank Capra com altas doses de cinismo na receita, o filme logicamente não encontrou seu público nas bilheterias - talvez porque a audiência não tenha compreendido a brincadeira, talvez porque os próprios irmãos cineastas não tivessem a intenção de agradar ninguém a não ser eles mesmos, com seu humor iconoclasta e repleto de ironia ao american way of life. O fato é que, apesar do fracasso comercial, "Na roda da fortuna" também é um dos menos lembrados filmes dos Coen, sempre relegado a uma prateleira virtual de obras menores. Injustiça pura, já que é uma comédia deliciosa, visualmente deslumbrante e protagonizada por um Tim Robbins no auge da carreira.

Imaginar como ficaria o filme com Tom Cruise no papel central - ideia sem o menor cabimento do produtor não-creditado Joel Silver - chega a soar como um pesadelo, mas felizmente Joel, o diretor, e Ethan, o produtor (ambos também são roteiristas) tem, entre várias outras qualidades artísticas, firmeza nas suas escolhas, e não abriram mão de escalar Robbins como o caipira Norville Barnes, protagonista de sua saga sobre a ambição e a força da inocência. Vindo de uma bem-sucedida estreia como diretor em "Bob Roberts" e um Golden Globe de melhor ator cômico por "O jogador", ambos lançados em 1992, o então marido de Susan Sarandon entrega mais uma performance consagradora na pele de um homem comum e sonhador que, aportando na Nova York do final de 1958, dá de cara com um mundo hostil à sua simplicidade com uma poderosa engrenagem que esmaga toda e qualquer generosidade. É claro que, em se tratando de um filme dos Coen, não existe espaço para sentimentalismo barato nessa descoberta - há até mesmo um Charles Durning de anjo da guarda, com auréola e tudo, aconselhando Barnes no final - mas sua mensagem otimista é transmitida da mesma forma, graças à formidável quantidade de acertos do produto final.



A maior de todas as qualidades é uma que acompanha os diretores desde sua estreia, com o noir "Gosto de sangue": a escalação certeira do elenco. Se Tim Robbins dá um show particular desfilando todas as nuances de seu personagem com extrema competência e naturalidade, o mesmo pode ser dito de Paul Newman, poucas vezes visto na tela se divertindo tanto: como o maquiavélico Sidney J. Mussburger, o veterano demonstra um invejável senso de humor, sempre de posse de um gigantesco e fálico charuto e disparando barbaridades a quem quiser ouvir. Quem não acerta muito o tom de sua personagem, no entanto, é Jennifer Jason Leigh - apesar de ótima atriz, ela parece exagerar na composição de sua repórter disfarçada de secretária que acaba se tornando o interesse amoroso do protagonista, emulando Carole Lombard e Claudette Colbert com uma dose a mais de histrionismo. Além disso, há os deslumbrantes cenários de Dennis Gassner, a fotografia impecável de Roger Deakins e a música imponente e debochada de Carter Burwell, que compõem um extraordinário quadro para os diálogos espertos e a trama imprevisível.

A trama, aliás, é um achado do humor sofisiticado: justamente quando suas empresas estão no auge do sucesso, o diretor das indústrias Hudsucker (vivido por um igualmente divertido Charles Durning) se joga da janela do 44º andar de seu prédio, para susto de sua diretoria. Com o objetivo de comprar suas ações a um preço acessível e tornar-se acionista majoritário da empresa, o vice-presidente Sidney J. Mussburger (Newman) tem a ideia de nomear para a presidência alguém capaz de fazer com que o preço de tais ações caiam assustadoramente e escolhe para isso o recém-contratado Norville Barnes (Robbins) - formado em Administração em sua cidade do interior, totalmente perdido na imensa Nova York e funcionário do setor de correspondência da empresa. O que Mussburger jamais poderia imaginar é que, por trás da aparente ingenuidade de Barnes existe um homem inteligente e que tem uma ideia inovadora para alavancar os lucros: o ainda inédito bambolê.

Vasto de piadas visuais, diálogos inteligentes e dotado de uma direção criativa e nada vulgar, "Na roda da fortuna" é um triunfo. Merece ser descoberto, redescoberto ou finalmente reconhecido como mais um grande trabalho dos irmãos Coen.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...