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terça-feira

OS QUERIDINHOS DA AMÉRICA


OS QUERIDINHOS DA AMÉRICA (America's sweethearts, 2001, Columbia Pictures/Revolution Studios, 102min) Direção: Joe Roth. Roteiro: Billy Crystal, Peter Tolan. Fotografia: Phedon Papamichael. Montagem: Stephen A. Rotter. Música: James Newton Howard. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Garreth Stover/Larry Dias. Produção executiva: Charles Newirth, Peter Tolan. Produção: Susan Arnold, Billy Crystal, Donna Arkoff Roth. Elenco: Julia Roberts, John Cusack, Billy Crystal, Catherine Zeta-Jones, Stanley Tucci, Christopher Walken, Alan Arkin, Hank Azaria, Seth Green, Rainn Wilson. Estreia: 17/7/2001

Quando Billy Crystal escreveu o roteiro de "Os queridinhos da América" seus planos incluíam dirigir o filme e ficar com o principal papel masculino - além de desejar repetir a vitoriosa dupla com Meg Ryan depois do sucesso de "Harry & Sally: feitos um para o outro" (1989). As coisas nem sempre saem como imaginado, porém, principalmente em Hollywood: quando a produção finalmente começou Ryan passava por um período difícil (que envolvia o fim de seu casamento de anos com Dennis Quaid e o relacionamento escandaloso e breve com Russell Crowe) e Crystal percebeu que estava velho demais para viver o galã de uma comédia romântica. A ideia de manter o projeto, no entanto, era boa demais para ser deixada de lado e, com o veterano ator deixando a direção a cargo de Joe Roth e assumindo o segundo (e talvez mais interessante) papel masculino da história, o filme recebeu o reforço de Catherine Zeta-Jones e Julia Roberts (ainda fresquinha do Oscar de melhor atriz) e estreou em pleno verão norte-americano. Pode não ter sido um sucesso estrondoso de bilheteria - menos de 150 milhões de dólares arrecadados internacionalmente -, mas foi um respiro adulto em uma temporada cujos maiores êxitos comerciais foram direcionados ao público infantojuvenil, como "Harry Potter e a pedra filosofal", "Monstros S/A" e "Shrek". Simpático e inofensivo - mesmo com as alfinetadas na indústria de cinema norte-americano -, o filme segura bem uma sessão da tarde, mas está a anos-luz de distância dos melhores exemplares do gênero.

A trama gira em torno de Eddie Thomas (John Cusack) e Gwen Harrison (Catherine Zeta-Jones), dois astros de cinema que, como deixa claro o título, são os queridinhos das plateias, que lotam as salas de cinema para vê-los juntos. Casados também na vida real, eles acabam se separando quando Gwen trai Eddie com o galã latino Hector (Hank Azaria), fato que leva o ator a uma crise de nervos que o afasta da mídia. Acusada de ser a culpada pela separação, Gwen vê a chance de recuperar a simpatia do público quando Lee Phillips (Billy Crystal), responsável pelo setor de  relações públicas do estúdio, a procura com a proposta de embarcar em um concorrido esquema de promoção para seu novo filme - o último que ela estrelou com o ex-marido. Gwen demora a aceitar a ideia, mas é convencida pela irmã e assessora Kiki (Julia Roberts), que é apaixonada em segredo por Eddie - que, mesmo ainda revoltado com a ex-mulher, sai da clinica para tentar salvar a imagem da dupla. O que nenhum dois dois atores sabe, na verdade, é que os esforços de Lee tem outro motivo: disfarçar o fato de que o diretor do filme, o excêntrico Hal Weidmann (Christopher Walken), está com o material escondido e pretende mostrar a montagem final somente na hora da pré-estreia. Enquanto Lee precisa lidar com a fogueira das vaidades de atores, diretores e executivos do estúdio (temerosos de um fracasso monumental devido ao escândalo de seus astros), um romance inesperado surge entre o traumatizado Eddie e Kiki, antes um patinho feio que vivia à sombra da irmã, e agora uma bela e bem resolvida mulher.

 

Apesar de o romance entre Kiki e Eddie ter sido vendido como o principal ponto de interesse de "Os queridinhos da América", o que mais funciona no filme de Joe Roth - cineasta pouco inspirado e sem maiores sucessos no currículo - são as referências e piadas sobre Hollywood e sua indústria. Na pele do experiente Lee Phillips, o ator e roteirista Billy Crystal solta farpas sobre tudo e todos - desde a figura do recluso Hal Weidmann, claramente inspirado no veterano Hal Ashby, até as infames e repetitivas entrevistas a que atores são submetidos durante o período de lançamento de seus filmes. Crystal, com seu conhecido cinismo e sagacidade, é quem melhor se sai, bem mais à vontade em cena do que seus colegas de elenco. Subaproveitada, Julia Roberts tem pouco a fazer com uma personagem que não explora todo o seu carisma, e John Cusack (substituindo Robert Downey Jr., à época ainda um nome pouco confiável junto aos estúdios, por seus problemas com drogas) parece desconfortável em explorar um lado romântico pouco comum em sua carreira repleta de tipos pouco convencionais. E do quarteto central, a bela Catherine Zeta-Jones sobressai-se com seu dom para a fina ironia, que seria recompensado pouco depois com um Oscar de coadjuvante por "Chicago" (2002).

É inegável que "Os queridinhos da América" sofre de falta de um foco narrativo claro. Afinal, qual é a história principal que quer contar? Os bastidores da indústria de cinema hollywoodiano? A relação complicada entre dois astros populares que tem suas vidas devassadas pelo público e pela mídia? O romance inesperado entre dois cunhados? A constante necessidade de aprovação que surge junto com a fama? Essa indecisão, apesar de alguns diálogos preciosos e do talento de todos os envolvidos (Stanley Tucci como um executivo, Alan Arkin como um médico pouco confiável, Rainn Wilson como um repórter bisbilhoteiro, Seth Green como um estagiário que confunde Audrey e Katherine Hepburn), prejudica o resultado final e torna o filme uma produção esquecível, ainda que agradável. Não chega de ser um desperdício de tempo, mas quase uma decepção que tanta gente boa possa ter feito algo tão insosso.

quarta-feira

O AMOR É CEGO


O AMOR É CEGO (Shallow Hal, 2001, 20th Century Fox, 113min) Direção: Bobby Farrelly, Peter Farrelly. Roteiro: Bobby Farrelly, Peter Farrelly, Sean Moynihan. Fotografia: Russell Carpenter. Montagem: Christopher Greenbury. Música: Billy Goodrum. Figurino:Pamela Whiters. Direção de arte/cenários: Sidney J. Bartholomew Jr./Scott Jacobson. Produção: Bobby Farrelly, Peter Farrelly, Bradley Thomas, Charles B. Wessler. Elenco: Jack Black, Gwyneth Paltrow, Jason Alexander, Joe Vitarelli, Anthony Robbins. Estreia: 09/11/2001

Bem no fundo, os irmãos Farrelly são dois românticos. Afinal, em seus filmes, por mais escatológicos e politicamente incorretos que eles sejam, sempre há espaço para histórias de amor. Em "Quem vai ficar com Mary?" (1997), Ben Stiller comia o pão que o diabo amassou para conquistar a mulher de sua vida, vivida por Cameron Diaz. Em "Eu, eu mesmo e Irene" (2000), Jim Carrey e sua segunda personalidade disputavam a foragida Renée Zellweger, E em "O amor é cego", lançado em 2001, é Jack Black quem vê sua rotina transformada pela paixão avassaladora por uma mulher - no caso a então recente vencedora do Oscar Gwyneth Paltrow. Porém, ser romântico não significa abrir mão de seu olhar bizarro sobre o cotidiano, e nem mesmo a longilínea Gwyneth escapou de ser alvo das gozações constrangedoras da dupla de diretores. Em uma produção que mais uma vez usa e abusa do humor sobre as minorias, eles surpreendem, no entanto, ao acrescentar uma bem-vinda dose de ternura, que quase ameniza a característica falta de sutileza de suas obras. Isso mesmo: "O amor é cego" é uma comédia dos irmãos Farrelly com moral da história.

Exagerado como sempre, Jack Black dá vida ao protagonista Hal Larson, um homem incapaz de manter um relacionamento sério desde que resolveu seguir os conselhos que o pai lhe deu no leito de morte: arrependido por ter casado cedo e com uma mulher por quem não se sentia atraído fisicamente, o moribundo exige do filho de nove anos que, em sua vida adulta, se envolva somente com mulheres deslumbrantes e sensuais, que possam lhe realizar sexualmente. Relativamente bem-sucedido profissionalmente, Hal vive à procura da mulher ideal, assim como seu melhor amigo, Mauricio (Jason Alexander) - que, assim como ele, estabeleceu padrões estéticos quase inalcançáveis para uma futura namorada. O problema é que, com as diretrizes do pai sempre vivas, Hal - que não é exatamente um exemplo de beleza masculina - só se interessa por modelos de corpo escultural e postura de modelos. Magoado com a imagem de superficialidade que transmite às pessoas que o cercam, o rapaz vê sua vida mudar com o encontro inusitado com Tony Robbins (no papel dele mesmo) em um elevador defeituoso: tocado com a nítida infelicidade do aspirante a garanhão, o palestrante e mentor lhe hipnotiza para que, a partir de então, ele consiga ver somente a beleza interior das pessoas. O resultado é imediato, e Hal passa a interessar-se por mulheres fisicamente pouco atraentes mas com personalidades e inteligências encantadoras. O ápice de sua nova condição acontece quando ele se apaixona por Rosemary Shanahan (Gwyneth Paltrow): vista por ele como uma loira espetacular e sexy, ela, na verdade, é uma mulher muito acima do peso, que sofre preconceitos por onde passa e que não consegue acreditar em sua repentina história de amor.

 

Como não poderia deixar de ser em um filme da dupla de diretores, "O amor é cego" não dispensa as piadas grosseiras e constrangedoras (algumas legitimamente engraçadas, outras nem tanto), mas é nítido como dessa vez sua vontade de contar uma história é maior do que aquela de simplesmente ofender qualquer minoria ou condição física, mental ou social. O arco dramático de Hal é verossímil, e sua relação com Rosemary desperta a torcida que todo filme romântico busca. Mesmo que a duração seja um tanto excessiva - uns bons quinze minutos a menos faria milagres pelo ritmo - e Jack Black não consiga deixar de lado sua tendência ao overacting, a direção dos Farrelly encontra um equilíbrio nunca visto em seus trabalhos anteriores. O roteiro é suave em sua transição entre a comédia física quase cruel e o romance doce entre seus protagonistas, e é surpreendente como eles encontram espaço até mesmo para um momento de genuína emoção: em um hospital infantil, já no ato final do filme, há o vislumbre  de uma insuspeita sensibilidade de dois homens que já fizeram rir de esquizofrênicos, fluidos corporais, pessoas com deficiências físicas e outros itens menos cotados. O arrependimento de Jack Black e Gwyneth Paltrow de terem participado do filme - conforme declarado anos depois - não deixa de ser um grande exagero.

Em termos de bilheteria, "O amor é cego" não chegou a ser um fracasso, ainda que tenha ficado muito atrás do sucesso comercial de "Quem vai ficar com Mary?", que rendeu inacreditáveis 370 milhões de dólares ao redor do mundo.  Se aproveitando da popularidade de seus atores centrais - Paltrow vinha do Oscar por "Shakespeare apaixonado" (1999) e Black de seu destaque em "Alta fidelidade" (1999) - e da grife de seus diretores, a 20th Century Fox acabou por embolsar quase 150 milhões por uma comédia romântica repleta de tiradas raras no gênero e uma atípica dupla de protagonistas. Não é pouca coisa se levarmos em consideração a previsibilidade e a apatia da maioria das produções do gênero.

 

terça-feira

CONCORRÊNCIA DESLEAL

 


CONCORRÊNCIA DESLEAL (Concorrenza sleale, 2001, Medusa Films/Massfilm/Agidi, 110min) Direção: Ettore Scola. Roteiro: Ettore Scola, Furio Scarpelli, Silvia Scola, Giacomo Scarpelli, estória de Furio Scarpelli. Fotografia: Franco Di Giacomo. Montagem: Raimondo Crociani. Música: Armando Trovajoli. Figurino: Odette Nicoletti. Direção de arte/cenários: Luciano Ricceri/Ezio Di Monte. Produção: Franco Committeri. Elenco: Diego Abatantuono, Sergio Castellitto, Gérard Depardieu, Antonella Attili, Elio Germano, Sabrina Impacciatore. Estreia: 23/02/2001

Itália, 1938. Umberto Melchiori tem uma loja de roupas sob medida e, mais do que o orgulho que tem do negócio que acompanha sua família há gerações, considera uma roupa bem talhada uma forma de arte subestimada. Católico praticante e marido dedicado à família - incluindo o cunhado folgado -, ele teria a vida tranquila que pediu a Deus se não fosse Leone Della Rocca, seu vizinho e nêmesis. Judeu e dono de uma loja de roupas prontas, Leone incomoda seu concorrente principalmente por não ter a mesma preocupação estética, preferindo conquistar seus clientes com preços atrativos e a praticidade de uma confecção moderna. Vivendo às turras - a ponto de chegarem às vias de fato -, Umberto e Leone nem desconfiam do romance Romeu e Julieta de seus filhos jovens, e de certa forma só concordam (tacitamente) com a amizade de seus dois caçulas, cujos olhos atônitos e inocentes são as testemunhas de uma rotina banhada a rusgas e constantes momentos de tensão. A rivalidade entre os dois vizinhos, porém, sofrerá uma profunda transformação com a ascensão de Hitler e o recrudescimento do antissemitismo - que fará com que a relação entre suas famílias assuma nuances inesperadas e/ou corajosas.

O 35º longa-metragem do diretor italiano Ettore Scola, lançado em 2001, não foge de sua elogiada sensibilidade quanto a relações interpessoais durante períodos históricos turbulentos. Assim como "Um dia muito especial" (1977) centralizava seu olhar no idílio entre uma dona-de-casa frustrada e um funcionário público homossexual durante a visita de Hitler à Itália, "Concorrência desleal" centraliza seu foco nas consequências funestas da adesão do país à política de Mussolini - e posteriormente às práticas segregacionistas e criminosas da Alemanha nazista. Com um roteiro em tom de crônica que privilegia os momentos mais pessoais em detrimento do didatismo, Scola apresenta, diante do espectador, tipos agradáveis e de fácil identificação - as crianças pensando em travessuras e em formas de chamar a atenção das belas mulheres a seu redor, a dupla de jovens apaixonados, o cunhado pouco afeito ao trabalho, o professor politicamente antenado - como um artifício narrativo leve, para que, em seu terço final, possa estabelecer, com um viés mais sério e melancólico, sua real intenção de emocionar sem apelar para qualquer tipo de excesso sentimental.

 

Mesmo sem o impacto dos melhores trabalhos de Scolla, "Concorrência desleal" não deixa de lado as principais características de sua vasta e prestigiada filmografia. Dotada do delicioso senso de humor italiano e realizada com o inegável talento de seu realizador em buscar a grandeza de seus personagens (sejam eles protagonistas ou coadjuvantes), a produção estrelada por Sergio Castellitto e Diego Abatantuono - ambos com desempenhos memoráveis - é extremamente feliz em sua tentativa de criar uma atmosfera lúdica que vai, gradativamente, se tornando mais pesada e sufocante. Sem forçar situações, o roteiro conduz a trama em um ritmo que permite ao espectador intercalar momentos calorosos com sequências da mais pura poesia, em que a natureza humana, com todas as suas idiossincrasias, se sobrepõe ao pesadelo fascista. Emocionante ao retratar pessoas que deixam de lado rusgas pessoais em nome de algo maior, o filme de Scolla reitera uma fé na humanidade de que somente cineastas com sua sensibilidade são capazes. A bela trilha sonora, de Armando Trovaioli, sublinha tal sentimento, sempre discreta e eficaz, assim como a competente reconstituição de época, que convida o público a uma viagem no tempo, e o elenco, impecável do primeiro ao último nome (e que pode se dar ao luxo de contar com Gérard Depardieu em um pequeno - mas representativo - papel).

O elenco, aliás, é crucial para o sucesso de "Concorrência desleal" em atingir seu objetivo de conquistar o coração do espectador. A química precisa entre Diego Abantuono (como Umberto) e Sergio Castellitto (na pele de Leone) é o ponto alto do filme: os dois atores constroem seus personagens sutilmente, apostando nos detalhes que os afastam e nos tons que os aproximam. Juntos em cena, os dois formam a base para todo o resto da produção, a pedra fundamental de uma história aparentemente frágil (e estabelecida em formato de crônica) que vai se desdobrando aos poucos diante do olhar do público. Sem ser exatamente um clássico instantâneo como "Nós que nos amávamos tanto" (1974) e "Feios, sujos e malvados" (1976) mas indiscutivelmente mais uma pequena obra-prima de seu diretor, "Concorrência desleal" é uma pérola que merece ser louvada como tal.

quinta-feira

VAMPIROS DO DESERTO


VAMPIROS DO DESERTO (The forsaken, 2001, Screen Gems/Sandstorm Films, 90min) Direção e roteiro: J. S. Cardone. Fotografia: Steven Bernstein. Montagem: Norman Buckley. Música: Tim Jones, Johnny Lee Schell. Figurino: Ernesto Martinez. Direção de arte/cenários: Martina Buckley/Trevor Murray. Produção: Scott Einbinder, Carol Kottenbrook. Elenco: Kerr Smith, Brendan Fehr, Izabella Misko, Johnathon Schaech, Carrie Snodgress. Estreia: 27/4/2001

Típico produto da geração MTV, com cortes ágeis, visual modernoso e atores fotogênicos, "Vampiros do deserto" chegou às telas com um público-alvo definido. Pode não ter feito um sucesso estrondoso de bilheteria, mas é inegável que, em comparação com uma gama de produções do gênero que abarrotavam as salas de cinema no começo dos anos 2000, tem muito mais a dizer. Mergulhando no universo do vampirismo sem medo de criar uma nova mitologia e apostando na sensualidade e na violência - ainda que moderada pela edição -, o filme de J. S. Cardone (cineasta sem maior expressão e nenhum grande filme no currículo) acerta em se levar a sério mas peca justamente no calcanhar de Aquiles da maioria dos exemplares de terror de sua época: o roteiro superficial, que não permite uma conexão maior entre os personagens e o espectador.

O protagonista do filme é Sean (Kerr Smith), um jovem que trabalha como editor de trailers de cinema enquanto não realiza o sonho de tornar-se diretor. Contratado para dirigir uma Mercedes até a Flórida e entregá-la sem um arranhão à proprietária, ele aproveita a situação para juntar dinheiro para comparecer ao casamento da irmã. No caminho, as coisas não saem exatamente como o previsto e ele se vê quase obrigado a dar carona ao misterioso Nick (Brendan Fehr), que se oferece para pagar a gasolina da viagem. Durante uma parada para comer, a dupla de novos amigos encontra Megan (Izabella Miko), uma garota em nítido sofrimento físico que os aproxima de uma realidade assustadora, revelada por Nick: a presença maligna de um grupo de vampiros, liderados por Kit (Jonathon Schaech) e cuja origem remete às cruzadas religiosas. Há algum tempo na caça de Kit, o corajoso Nick conta com a ajuda de Sean para exterminá-lo e salvar a vida tanto de Megan quanto do próprio motorista - em vias de transformar-se também em morto-vivo.

 

A escolha de Kerr Smith para o papel central de "Vampiros do deserto" tem certa razão de ser: sucesso na série juvenil "Dawson's Creek" - que também revelou Katie Holmes e Michelle Williams -, Smith também fez parte do elenco do bem-sucedido "Premonição" (2000) e parecia uma aposta certeira junto ao público-alvo, com sua imagem de galã e moço de família. Seu colega de elenco, Jonathon Schaech, já tinha um currículo maior, dividindo a carreira entre produções comerciais - como "Colcha de retalhos" (1995) e "The Wonders: o sonho não acabou" (1996) - e incursões ao cinema independente - "Geração maldita" (1995), normalmente enfatizando uma persona sexy e marginal. O encontro dos dois opostos - com o simpático Brendan Fehr no meio de campo - é uma das camadas mais interessantes do filme de Cardone, que foi apontado, anos depois de seu lançamento, como um conto de descoberta da sexualidade homoerotica entre os dois protagonistas. Tal ideia soa um tanto deslocada diante da trama, que não encontra espaço para qualquer romance exceto a atração de Sean por Megan - algo pouco desenvolvido em um roteiro que se concentra em sangue (muito), ação (razoável) e a tentativa de criar um histórico cultural aos sanguessugas. Cardone se sai relativamente bem ao disfarçar um orçamento modesto (cerca de 15 milhões de dólares) com soluções criativas e uma direção que enfatiza os pontos positivos do roteiro.

Sim, o roteiro escrito pelo próprio diretor tem seus méritos. Por mais que falhe em não aprofundar seus personagens centrais e até mesmo sua relação, Cardone oferece ao espectador sequências bastante interessantes, em que explora a sede de sangue das plateias mais jovens da forma mais elegante possível. Mesmo não sendo uma produção inesquecível ou capaz de revitalizar os filmes do gênero, "Vampiros do deserto" não decepciona a quem procura um passatempo digno e que, por incrível que pareça, diverte sua plateia. Não chega a ser um "Garotos perdidos" - que marcou uma geração inteira desde seu lançamento, em 1987 - mas tampouco desrespeita os cânones clássicos, ainda que modernizados e pasteurizados para uma juventude acostumada a banhos de sangue.

quarta-feira

O CASAMENTO DOS MEUS SONHOS


O CASAMENTO DOS MEUS SONHOS (The wedding planner, 2001, Columbia Pictures, 103min) Direão: Adam Shankman. Roteiro: Pamela Falk, Michael Ellis. Fotografia: Julio Macat. Montagem: Lisa Zeno Churgin. Música: Mervyn Warren. Figurino: Pamela Whiters. Direção de arte/cenários: Bob Ziembicki/Barbara Munch. Produção executiva: Moritz Borman, Guy East, Nina R. Sadowsky, Chris Sievernich, Nigel Sinclair. Produção: Peter Abrams, Deborah Del Prete, Jennifer Gibgot, Robert L. Levy, Gigi Pritzker. Elenco: Jennifer Lopez, Matthew McConaughey, Bridgette Wilson-Sampras, Judy Greer, Justin Chambers, Kathy Najimi, Alex Rocco, Joanna Gleason, Kevin Pollack. Estreia: 26/01/2001

No começo dos anos 2000, Jennifer Lopez já era uma estrela. Em seu currículo como atriz já constavam produções com diretores consagrados, como Francis Ford Coppola ("Jack", de 1996), Oliver Stone ("Reviravolta", de 1997) e Steven Soderbergh ("Irresistível paixão", de 1998) e elogios da crítica especializada por seu trabalho em "Selena" (1996). Como cantora, já havia vendido mais de 8 milhões de cópias com seu álbum de estreia, "On the 6" (1999) e estava lançando seu segundo trabalho, "J.Lo" - que tinha expectativas de se tornar um sucesso ainda maior. Portanto, quando "O casamento dos meus sonhos" estreou, em janeiro de 2001, seu nome no cartaz de um filme já era um atrativo e tanto - e levando-se em conta que seu parceiro de cena, Matthew McConaughey, também já tinha um fã-clube feminino dos maiores, não chegou a ser surpresa a bilheteria acima dos 90 milhões de dólares do filme no mercado internacional. Mesmo sem apresentar nenhuma novidade e seguindo à risca a receita das comédias românticas, o filme de Adam Shankman provou que, mesmo contra tecnologias de ponta e estratégias milionárias de marketing, histórias de amor ingênuas e superficiais sempre terão espaço junto a seu público fiel.

Assumindo o lugar de Sarah Michelle Gellar - que não conseguiu conciliar as filmagens com as gravações da série "Buffy: a caça-vampiros" - e Minnie Driver (segundo afirmações da atriz em entrevistas), Jennifer Lopez não precisa fazer muito esforço no papel principal do filme. Ela interpreta Mary Fiore, uma bem-sucedida organizadora de casamentos que se esforça para tornar-se sócia da empresa onde trabalha, enquanto luta para superar o traumático fim de seu relacionamento. Jovem e bonita, ela é, também, constantemente pressionada pelo pai viúvo a encontrar um novo amor - a ponto de fugir dos avanços do bem intencionado amigo de infância Massimo (Justin Chambers, que anos depois se tornaria astro com a série "Grey's Anatomy"). Dedicada à carreira, Mary vê na milionária Fran Donnolly (Bridget Wilson-Sampras) a chance de finalmente atingir seus objetivos profissionais: planejar a festa de seu casamento parece o caminho certo para o sucesso. Porém, seu encontro com o médico Steve Edison (Matthew McConaughey) vira tudo do avesso: apaixonada, Mary vê no rapaz o homem ideal para resolver sua vida romântica, mas descobre, decepcionada, que ele é o noivo de sua mais promissora cliente.


 

Apostando nos clichês e sem medo de contar uma história sem nenhuma grande novidade, o roteiro de "O casamento dos meus sonhos"serve, na verdade, como um veículo para o estrelato de Jennifer Lopez: bela, carismática e dotada de um razoável timing cômico, Lopez deita e rola com uma personagem que não lhe exige mais do que fazer exatamente isso: ser bela, carismática e exercitar seus dotes em comédia - que, se não chegam a ser brilhantes, funcionam como um relógio. O roteiro não aprofunda nenhum personagem e nenhum conflito (como é comum aos filmes do gênero), mas a direção de Shankman - que em 2007 assinaria a versão para as telas do musical "Hairspray: em busca da fama" - se equilibra entre o burocrático e o elegante, disfarçando a fragilidade do enredo e até de algumas soluções um tanto quanto apressadas. É também uma pena que o filme não aproveite o talento de coadjuvantes como Kathy Najimi (que pouco aparece como a dona da empresa da protagonista), Judy Greer (especialista em roubar a cena mesmo em papéis pequenos) e Joanna Gleason (na pele da mãe da noiva que está em vias de ver o futuro marido nos braços de sua organizadora de casamentos). Nem mesmo Bridget Wilson-Sampras tem muito o que fazer, eclipsada pela química entre Lopez e Matthew McConaughey - que substituiu Brendan Fraser no último minuto e viu fortalecido seu status de galã romântico.

Responsável pelo cancelamento de um projeto semelhante que seria protagonizado por Jennifer Love Hewitt, "O casamento dos meus sonhos" é o que pode se chamar de filme-conforto. Seus personagens são velhos conhecidos do público-alvo (a romântica sonhadora com azar no amor, o galã comprometido com a mulher errada, a antagonista fútil), a história é previsível até o osso, a trilha sonora é suave e com uma canção feita para vender discos (a canção que toca nos créditos finais é "Love don't coast a thing", da própria Jennifer Lopez) e os coadjuvantes servem como contraponto humorístico à trama romântica. Se não entrega mais do que propõe é justamente por sua intenção em servir à plateia como mais uma coleção de clichês a que sua plateia possa recorrer quando necessitar de duas horas de diversão sem compromisso. "O casamento dos meus sonhos" é o equivalente cinematográfico de uma caixa de bombons ou um pote de sorvete nos momentos de crise. Esperar mais dele é um erro, mas aceitar suas limitações é o caminho para um passatempo agradável e leve.

 

sábado

O ESCORPIÃO DE JADE


O ESCORPIÃO DE JADE (The curse of the Jade Scorpion, 2001, Dreamworks Pictures/Gravier Productions, 113min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Fei Zhao. Montagem: Alisa Lepselter. Figurino: Suzanne McCabe. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Jessica Lanier. Produção executiva: Stephen Tenenbaum. Produção: Letty Aronson. Elenco: Woody Allen, Helen Hunt, Dan Ayckroyd, Charlize Theron, Wallace Shawn, Elizabeth Berkley, David Ogden Stiers. Estreia: 05/8/2001 (Hollywood Film Festival)

Nova York, 1940. CW Briggs trabalha há dezesseis anos como investigador em uma agência de seguros, e é considerado um dos melhores do ramo por, segundo gosta de afirmar, ter a mente criminosa necessária para o trabalho. Arraigado a seus métodos clássicos, Briggs vê em Betty Ann Fitzgerald, a mais nova contratada do escritório, uma ameaça à sua estabilidade profissional: cheia de ideias para renovar o ambiente, ela não faz a menor questão de esconder sua antipatia gratuita pelo veterano colega. A relação de total antagonismo entre os dois não é desconhecida pelos outros empregados, ao contrário do relacionamento secreto entre Betty Ann e seu chefe, Chris Magruder - que há tempos promete abandonar a família para assumir o novo relacionamento. Ambos frustrados - por motivos diferentes - e necessitados de momentos de diversão, os dois aceitam o convite para a apresentação de um mágico em uma casa noturna e tem suas rotinas transformadas: hipnotizados pelo misterioso Voltan, eles divertem a plateia ao se revelarem apaixonados quando em transe - e, à sua revelia e sem o conhecimento de mais ninguém, passam, a partir de então, a cometer, sob o comando do mago, uma série de roubos de joias que podem colocá-los em sérios problemas com a justiça. Além disso, tal situação acaba os aproximando mais do que gostariam de admitir.

Lançado em 2001 e distribuído pela Dreamworks Pictures, "O escorpião de jade" estabeleceu duas marcas numéricas para a carreira de Woody Allen: não apenas era o filme mais caro do diretor até então (com um orçamento de 28 milhões de dólares) como estreou em cerca de 900 salas nos EUA, um lançamento bastante generoso para um cineasta acostumado a circuitos bem mais modestos. Tal providência não foi suficiente, no entanto, para chamar a atenção do público, que não se deixou conquistar por seu humor inteligente e produção caprichada. Apresentando uma reconstituição de época cuidadosa e uma paleta de cores das mais elegantes, "O escorpião de jade" é uma espécie de homenagem do diretor às comédias românticas da década de 1940, estreladas por Cary Grant e Katharine Hepburn. Repleto de diálogos brilhantes e com uma trama original e imprevisível, o filme reafirma a fascinação de Allen por mágicos e afins (elementos com que já havia brincado em "Édipo arrasado" (1989) e "Simplesmente Alice" (1990)), além de oferecer a Helen Hunt um de seus raros bons papéis depois do Oscar por "Melhor é impossível (1997). Hunt, que teve o privilégio de ler o roteiro inteiro antes de aceitar o trabalho (e mesmo assim com um mensageiro esperando na sala ao lado para levar o script de volta), está nitidamente à vontade como Betty Ann Fitzgerald, uma mulher inteligente e sagaz, mas incapaz de se deixar envolver pela mais antiga das mentiras masculinas. Na pele de Briggs, porém, Allen não vai além do que se espera de uma atuação sua: não à toa, ele detesta seu desempenho no filme, frustrado pela recusa de suas duas primeiras opções, Tom Hanks e Jack Nicholson.

 

Não que Allen não esteja em boa forma. Como ele mesmo reconhece, seus dons como ator são bastante restritos, mas CW Briggs é um personagem que cabe em suas limitações. Levemente atrapalhado, metido a conquistador, cheio de manias e com uma saudável dose de neuroses, Briggs diverte a plateia com tiradas rápidas e repletas de um sarcasmo delicioso. Sua parceria com Helen Hunt é preciosa, e a participação mais do que especial de Charlize Theron (depois de uma rápida aparição em "Celebridades", de 1999) incendeia a tela em poucos minutos. Além disso, ao contrário do que acontece na maioria de sua filmografia, o roteirista Allen não se obriga a ter pressa: perto de sua média de 90 minutos de duração, as quase duas horas de "O escorpião de jade" soam como um épico - e, por incrível que pareça, não há nenhuma gordurinha na narrativa, que flui equilibrada entre a comédia romântica à moda antiga e um leve drama policial. Aliás, se há algo do que se reclamar é justamente o fato desse equilíbrio prejudicar o aprofundamento das duas histórias contadas, ainda que elas dialoguem profundamente: apesar da trama dos roubos render bons momentos, é a relação entre Briggs e Betty Ann que torna o filme notável.

Relegado a um segundo plano na carreira de Allen, "O escorpião de jade" estreou nos EUA pouco mais de um mês antes dos atentados ao World Trade Center e, em um gesto de simpatia, o cineasta pisou pela primeira vez no palco da cerimônia do Oscar no começo do ano seguinte para apresentar uma homenagem à Nova York. Em uma de suas tiradas geniais, ele começou seu discurso afirmando que, ao receber um telefonema da Academia, pensou que fosse para um pedido de desculpas por seus integrantes terem ignorado seu filme. Teria sido compreensível: mesmo que "O escorpião de jade" não seja uma obra-prima, seus valores de produção são inegáveis, e uma indicação à estatueta de roteiro original era mais que merecida. Pouco visto e pouco comentado, é um filme que precisa ser descoberto e alçado à lista dos melhores do diretor.

quarta-feira

HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL

HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL (Harry Potter and the sorcere's stone, 2001, Warner Bros, 152min) Direção: Chris Columbus. Roteiro: Steve Kloves, romance de J. K. Rowling. Fotografia: John Seale. Montagem: Richard Francis-Bruce. Música: John Williams. Figurino: Juddiana Makovsky. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Stephenie McMillan. Produção executiva: Michael Barnathan, Chris Columbus, Duncan Henderson, Mark Radcliffe. Produção: David Heyman. Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Richard Harris, Maggie Smith, Alan Rickman, Ian Hart, Julie Walters, John Hurt, Robbie Coltrane, Fiona Shaw, Richard Griffiths, Harry Melling. Estreia: 04/11/2001

3 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Não tinha como dar errado: o primeiro volume de um fenômeno editorial que só crescia a cada livro lançado, um cineasta acostumado a lidar com potenciais blockbusters e todo o capricho que um generoso orçamento de cerca de 125 milhões de dólares pode comprar. Além disso, um marketing poderoso, uma pré-produção que enchia de expectativas os fãs mais ardorosos, e um elenco que reunia jovens iniciantes com veteranos acima de qualquer suspeita. "Harry Potter e a pedra filosofal" não era apenas mais um filme, era um evento de enormes proporções e uma aposta certeira da Warner para bater de frente com outro fenômeno literário que também chegava às telas de cinema: o ambicioso "O Senhor dos Anéis". Mesmo com um público-alvo mais jovem do que aquele dos filmes de Peter Jackson que começavam sua trajetória nas salas de exibição, a comparação entre as duas produções não era completamente equivocada: ambos os filmes davam o pontapé inicial em séries que tanto poderiam passar à história como imensos sucessos ou avassaladores fracassos. Para o bem de todos e felicidade geral dos estúdios, porém, os leitores fiéis - e os neófitos curiosos - correram para os cinemas, e os críticos, normalmente bem avessos à superproduções, aplaudiram de pé e ficaram ansiosos pelo próximo capítulo.

A trajetória de "Harry Potter e a pedra filosofal" para passar das páginas escritas pela britânica J. K. Rowling para os cinemas do mundo inteiro já começou com uma batalha campal para que o estúdio chegasse ao nome mais apropriado para sentar na cadeira de diretor. Rowling sugeriu o nome do excêntrico Terry Gilliam - e provavelmente por seu histórico irregular o cineasta foi dispensado pela Warner. A princípio, o estúdio pensava em transformar os livros em um filme de animação - uma providência que evitaria os problemas que poderiam ter com o elenco infantil, que fatalmente cresceriam durante a produção dos (então) sete livros. Steven Spielberg até demonstrou interesse na primeira fase de negociações, mas acabou recusando o trabalho por, segundo boatos de bastidores, considerá-lo "fácil demais" - o que não deixa de ser verdade, haja visto seu vasto currículo de filmes-evento. A saída de Spielberg do projeto o levou novamente à estaca zero, e sua sugestão para a empreitada, M. Night Shyamalan, tampouco teve sucesso nas negociações. Nomes de vários estilos começaram a pipocar na imprensa especializada como sendo de prováveis diretores do primeiro filme - dos mais sérios (Jonathan Demme, Alan Parker, Peter Weir) aos mais apropriados para desenvolver um universo mais divertido e mais próximo à obra literária (Ivan Reitman, Rob Reiner, Brad Silberling). Quem acabou levando a melhor, no entanto, foi um diretor já acostumado com sucessos de bilheteria infantojuvenis: Chris Columbus, o homem por trás de "Esqueceram de mim" (90) e "Uma babá quase perfeita" (92) se apaixonou pelos livros de Rowling através de sua filha, e insistiu tanto com os executivos da Warner que acabou ganhando o trabalho - não apenas para o primeiro filme, mas também para o segundo.


Mas se encontrar um diretor que agradasse à escritora e respeitasse o desejo do estúdio de uma produção comercialmente viável foi difícil, o pior ainda estava por vir: o elenco. Rowling exigia que os atores escolhidos para o filme fossem britânicos, o que logo de cara excluía alguns fãs do livro que sonhavam em fazer parte do espetáculo, como Robin Williams, Rosie O'Donnell. Rowling em pessoa escolheu Alan Rickman (Severo Snape), Maggie Smith (McGonnagal) e Robbie Coltrane (Hagrid) para papéis fundamentais na trama, e o irlandês Richard Harris (única exceção permitida pela escritora) para viver o sábio Albus Dombledore, mas a grande questão no momento era uma só: quem irá interpretar os fiéis amigos do protagonista e, principalmente, quem emprestaria seu rosto a Harry Potter pela próxima década? Chris Columbus tinha uma ideia bastante clara a esse respeito, e sempre que perguntado sobre o assunto pelos executivos da Warner, mostrava cenas de uma adaptação televisiva de Charles Dickens, "David Copperfield" (1999) e apontava para o jovem Daniel Radcliffe como o intérprete ideal. Foram mais de 5000 testes até que finalmente a diretora de elenco do filme conseguiu o que o diretor mais desejava: convencer os pais do rapaz para que aprovassem sua participação no projeto. Para interpretar seus dois leais companheiros foram escolhidos Rupert Grint (Ronnie Weasley) e Emma Watson (Hermione Granger). No papel do rival de Potter na escola Howgrats de bruxaria, o escolhido foi Tom Felton, que havia feito o teste para viver Harry. E o resto é de conhecimento internacional.

Filmado na Inglaterra e na Escócia entre setembro de 2000 e março de 2001, "Harry Potter e a pedra filosofal" acabou se tornando um capítulo de estreia dos mais empolgantes. Somado ao senso de ritmo e humor de Columbus, o roteiro de Steve Kloves acertou em cheio ao introduzir sua trama e seus personagens de maneira fluida e sem pressa: com 152 minutos de duração, o filme mantém o espectador atento dos primeiros (e cômicos) momentos até seu clímax - um jogo de xadrez sinistro onde o mal começa a mostrar a que veio, fato que irá se aprofundar nos demais filmes (e livros), que vão se tornando gradualmente sombrios. A química entre o elenco de novatos e veteranos é impecável e o visual foi lembrado pela Academia com uma indicação aos Oscar de direção de arte e figurino - a trilha sonora, do onipresente John Williams também foi indicada. Aplaudido pela crítica e pelos fãs mais exigentes, "Harry Potter e a pedra filosofal" arrecadou quase 1 bilhão de dólares pelo mundo - foi a maior bilheteria do ano - e abriu as portas para os demais filmes da série, cada vez menos infantil e mais empolgante. Uma produção infanto-juvenil que ultrapassa sua definição mais óbvia e conquista também a plateia mais velha, o filme de  Chris Columbus é um entretenimento dos mais bem-sucedidos, e se não foi levado tão a sério quanto seu rival direto - "O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel" - ao menos se mantém fresco e agradável mesmo depois de quase vinte anos. Um clássico instantâneo!

O FILHO DA NOIVA

O FILHO DA NOIVA (El hijo de la novia, 2001, Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales, 123min) Direção: Juan José Campanella. Roteiro: Juan José Campanella, Fernando Castets. Fotografia: Daniel Shulman. Montagem: Camilo Antolini. Música: Ángel Illarramendi. Figurino: Cecilia Monti. Direção de arte/cenários: Mercedes Alfonsin/Pablo Racioppi. Produção executiva: Juan Pablo Galli, Juan Vera. Produção: Mariela Besuievksy, Fernando Blanco, Pablo Bossi, Gerardo Herrero, Jorge Estrada Mora. Elenco: Ricardo Darín, Norma Aleandro, Héctor Alterio, Estreia: 16/8/01

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro


Mais do que apenas o representante oficial da Argentina ao Oscar de melhor filme estrangeiro na cerimônia de 2002, “O filho da noiva” marca também a segunda colaboração entre o roteirista/cineasta Juan José Campanella e o ator Ricardo Darín – vindo logo em seguida de “O mesmo amor, a mesma chuva” (99) e imediatamente antes do (esse sim oscarizado) “O segredo dos seus olhos” (2009). Já empregando alguns dos ingredientes que conquistam o espectador de seus trabalhos – a delicadeza da relação entre os personagens, o senso de humor sutil, a crítica discreta à sociedade argentina e doses comedidas de emoção -, o filme tornou-se um sucesso incontestável de público e confirmou Darín como o mais popular astro de cinema de seu país, a cara de uma filmografia que, a despeito da crise econômica, demonstrou uma corajosa vitalidade e uma supreendente criatividade. Dando sequência à boa fase que também ofereceu aos cinéfilos o divertido “Nove rainhas” (2000), “O filho da noiva” é valorizado ainda pela presença luminosa de Norma Aleandro – mesmo em um papel pequeno, a grande dama argentina rouba a cena com uma atuação que estabelece o tom sentimental e familiar da trama criada por Campanella.

Darín, competente como sempre, vive Rafael Belvedere, um quarentão em crise em praticamente todos os setores da vida: separado da primeira mulher, sofre pressão da parte dela para ter maior contato com a filha adolescente; sua nova namorada, Naty (Natalia Verbeke) cobra um comprometimento maior em sua relação; o restaurante de sua família passa por momentos complicados devido à crise econômica do país; e, para completar o panorama, seu pai, Nino (Héctor Alterio) tem planos de comemorar as bodas de prata de seu casamento com uma cerimônia de renovação de votos – um desejo complicado pelo fato de sua esposa, Norma (Norma Aleandro), estar internada em uma clínica, sofrendo de Alzheimer. Um inesperado ataque cardíaco e o reencontro com Juan Carlos (Eduardo Blanco), um amigo de juventude, fazem com que Rafael reflita sobre sua vida e tente encontrar uma saída que o permita levar uma existência menos opressora e mais próxima de seus familiares.

Apesar de situar seu protagonista em meio a um furacão pessoal impiedoso, o roteiro de “O filho da noiva” evita pesar a mão no dramalhão, equilibrando, como é comum na filmografia de Juan José Campanella, momentos de extrema sensibilidade com outros dotados de um delicioso senso de humor. Mais uma vez Ricardo Darín se mostra o intérprete ideal para personagens criados pelo cineasta – seu rosto comum e de fácil empatia com o público traduz com perfeição o homem argentino médio, dividido entre trabalho e vida pessoal e lutando para atravessar suas crises pessoais sem perder a essência do que o faz um ser humano. E se seu carisma fortalece cada cena, ele encontra em Héctor Alterio e Norma Aleandro parceiros inestimáveis: sempre que a dupla de veteranos irrompe em cena, o filme se enche de beleza e emoção – principalmente em seus últimos momentos, quando Campanella finalmente resolve baixar a guarda e permitir que o público se entregue de vez às lágrimas.

Uma mistura agradável de drama familiar e comédia de costumes, “O filho da noiva” é, ao mesmo tempo, uma crítica sutil à sociedade argentina, soterrada por crises econômicas que empurram seus habitantes a sofríveis relações interpessoais enquanto luta pela sobrevivência. Rafael é um retrato vivo do país – alguém que, no fundo, precisa urgentemente reorganizar suas prioridades para reencontrar sua humanidade e autorrespeito. Juan José Campanella consegue o feito admirável de contar sua história de forma a nunca subestimar a emoção do espectador ao mesmo tempo em que o faz pensar sobre sua própria realidade social. Um belo filme – que perdeu o Oscar não para o franco-favorito “O fabuloso destino de Amélie Poulain”, mas para o esloveno “Terra de ninguém”. Parecia que a Academia sabia que, por melhor que já parecesse, o cineasta conseguiria ser ainda melhor em um futuro próximo – que o diga “O segredo dos seus olhos”!

segunda-feira

HEDWIG: ROCK, AMOR E CONFUSÃO

HEDWIG: ROCK, AMOR E CONFUSÃO (Hedwig and the Angry Inch, 2001, New Line Cinema, 95min) Direção: John Cameron Mitchell. Roteiro: John Cameron Mitchell, romance de John Cameron Mitchell, Stephen Trask. Fotografia: Frank G. DeMarco. Montagem: Andrew Marcus. Música: Stephen Trask. Figurino: Arianne Phillips. Direção de arte/cenários: Therese DePrez/Liesl Deslauriers. Produção executiva: Michael De Luca, Amy Henkels, Mark Tusk. Produção: Pamela Koffler, Katie Roumel, Christine Vachon. Elenco: John Cameron Mitchell, Michael Pitt, Miriam Shor, Stephen Trask, Theodore Liscinski, Alberta Watson, Maurice Dean Wint. Estreia: 19/01/01 (Festival de Sundance)

Energético, criativo, ousado. É difícil não chegar ao final de uma sessão de "Hedwig: rock, amor e confusão" - um subtítulo desnecessário e bobo, diga-se de passagem - sem que esses três adjetivos não estejam saltitando na mente do espectador. Uma mistura anárquica e debochada de comédia, drama e musical com fortes cores homossexuais, o filme de estreia de John Cameron Mitchell é também uma tour de force que revelou no diretor então iniciante uma capacidade ímpar de surpreender em vários campos de seu ofício: além de comandar o espetáculo e ter escrito o roteiro (adaptado de uma peça teatral de sua autoria), Mitchell também reservou para si o papel principal da produção, em uma decisão ao mesmo tempo corajosa (o mercado para filmes de temática gay nunca foi exatamente grande em Hollywood ou no mundo, especialmente quando eles não tem um grande astro como chamariz) e acertada (sem um grande nome na liderança do elenco, a liberdade criativa estava assegurada). O resultado veio na aclamação da crítica, na profusão de prêmios e homenagens de diversos festivais internacionais e em uma merecida indicação ao Golden Globe de melhor ator em comédia/musical. Melhor que tudo isso, porém, foi a aceitação popular: em pouco tempo, "Hedwig" tornou-se cult por excelência e credenciou seu criador a partir para experiências ainda mais radicais ("Shortbus", de 2006) ou comportadas ("Reencontrando a felicidade", de 2010, que deu à Nicole Kidman uma indicação ao Oscar de melhor atriz).

Nascido no palcos - onde marcou presença desde 1998, quando mesmo sendo uma produção off-Broadway saiu da temporada com prêmios bastante importantes do teatro norte-americano - e muito bem-recebido no cinema, Hedwig é um personagem dos mais exóticos e encontrou em seu criador o intérprete perfeito. Sem medo do ridículo ou do exagero de determinadas situações, Mitchell encarna com segurança e determinação tanto o drama quanto a comédia que existem na trajetória do protagonista, conduzindo a narrativa com um misto de gêneros que, em mãos menos capazes, poderia facilmente tornar-se dispersivo. Inserindo números musicais na narração da trajetória de Hedwig desde sua infância até a vida adulta e ilustrando-os com animações criativas e irreverentes, o cineasta/roteirista convida a plateia a mergulhar em um universo à parte, recheado de personagens excêntricos e/ou idiossincráticos e sequências que, a despeito da seriedade de seu conteúdo, nunca ultrapassam o tom de sarcasmo e ironia. No final das contas, a leveza de "Hedwig" acaba por ser seu maior trunfo.


Logo na primeira cena a plateia já é apresentada a tudo que virá pela frente: com um figurino inspirado no glam rock dos anos 70, Hedwig é a vocalista de uma banda que tenta lutar contra a indiferença de uma audiência formada pelos frequentadores ocasionais de um restaurante. É pouco para seu talento, principalmente quando ela começa a contar sua trajetória até ali e se descobre que ela é a responsável pelo sucesso de Tommy Gnosis (Michael Pitt), um ídolo pop de fama internacional que só está no topo do sucesso graças às músicas que ela compôs quando ambos estavam juntos. Recheando sua narrativa com sarcasmo e deboche, Hedwig viaja à Alemanha de infância um tanto traumática, à juventude de descobertas sexuais (e um bizarro casamento com um militar, que resultou em uma cirurgia de sexo incompleta que lhe inspirou a batizar seu grupo musical de "Angry Inch" - a polegada irada) e suas desventuras amorosas e artísticas. Recusando-se terminantemente a apelar para qualquer espécie de sentimentalismo ou autopiedade, Hedwig frequentemente ri da própria desgraça e disfarça sua dor com canções que vão da melancolia à mais pura gozação. Com uma performance vocal arrebatadora somada a seus méritos como ator, Mitchell constrói um personagem-título inspiradíssimo, que desperta no público um misto de compaixão e admiração, mesmo que em determinados momentos sua garra em mostrar-se forte e resiliente impeça o espectador de conectar-se emocionalmente a ele. É somente quando sua máscara de altivez desaparece e um ser humano surge sob ela que o filme se torna mais fascinante e palpável. Uma pena que isso ocorra tão raramente.

"Hedwig: rock, amor e traição" é um filme de concepção anárquica e sagaz, quase uma desconstrução dos musicais típicos de Hollywood. É muito mais "Velvet goldmine" (98), de Todd Haynes, do que qualquer produção com Fred Astaire ou Judy Garland. É devasso, ousado, quase ultrajante em seu modo de ver e transmitir temas delicados, mas paradoxalmente é dono de uma pureza quase comovente. É como se John Cameron Mitchell fizesse de seu protagonista um anti-herói dotado de uma ingenuidade maleável, que se adequa através da ironia a um mundo de decepções e libertinagem. Não tenta arrancar compaixão do público, quer apenas fazê-lo rir e divertir-se por uma hora e meia de boa música e transgressão. É bem-sucedido em boa parte do tempo - é impossível não admirar-se com a variedade de talentos de seu criador - mas corre o risco de aborrecer àqueles que, de certa forma, não pertencem a seu público-alvo. Os mais conservadores devem ficar à distância do filme de Mitchell na mesma medida em que todos aqueles que procuram o cinema para romper com os padrões estéticos e/ou sociais devem fazer dele um programa obrigatório. Basta decidir em qual time se encaixar e esperar por 95 minutos de diversão - ou procurar um entretenimento mais careta.

sexta-feira

K-PAX - O CAMINHO DA LUZ

K-PAX, O CAMINHO DA LUZ (K-Pax, 2001, Intermedia Films/Lawrence Gordon Productions, 120min) Direção: Ian Softley. Roteiro: Charles Leavitt, romance de Gene Brewer. Fotografia: John Mathieson. Montagem: Craig McKay. Música: Edward Shearmur. Figurino: Louise Mingenbach. Direção de arte/cenários: John Beard/Cheryl Carasik. Produção executiva: Susan G. Pollock. Produção: Robert F. Colesberry, Lawrence Gordon, Lloyd Levin. Elenco: Kevin Spacey, Jeff Bridges, Mary McCormack, Alfre Woodard, Celia Weston. Estreia: 22/10/01

Em 1984, Jeff Bridges arrebatou uma indicação ao Oscar de melhor ator por seu desempenho em "Starman, o homem das estrelas", onde interpretava um alienígena que chegava à Terra e confundia cientistas e o coração da jovem Karen Allen. Quase vinte anos depois, Bridges mudou de lado: em "K-Pax, o caminho da luz", ele vive um médico psiquiátrico que se vê diante de um novo desafio na carreira quando um homem encontrado vagando pela estação central de trens de Nova York alega ser um extraterrestre cuja visita ao planeta está chegando ao fim. Dirigido pelo inglês Ian Softley - o mesmo de "Backbeat, os cinco rapazes de Liverpool", que contava os primórdios dos Beatles na Alemanha - o filme baseado no romance Gene Brewer é uma mistura bem equilibrada entre drama e ficção científica que conquista o público tanto pela história intrigante quanto pelo duelo de atuações entre Bridges e Kevin Spacey - mais uma vez brilhante na pele do misterioso Prot.

De posse de um inseparável par de óculos escuros, Prot é encontrado perdido e transferido para o Instituto Psiquiátrico de Manhattan, onde acaba por cair nas mãos do competente Mark Powell (Bridges), um médico dedicado à profissão e à família - ainda que não tenha a melhor das relações com o filho universitário, a quem não vê há algum tempo. Alegando ser um habitante de um planeta chamado K-Pax, Prot é posto à prova por uma equipe de astrofísicos que ficam abismados com seu conhecimento a respeito das inúmeras e complicadas questões levantadas por eles. Tranquilo e sereno, Prot afirma viajar entre os planetas através de raios de luz e que tem data específica para voltar para casa - e, mais preocupante ainda, insiste que pode levar consigo um dos pacientes da clínica, o que acaba por gerar uma crise entre eles, todos querendo abandonar a Terra em direção a um lugar menos sofrido. Sem acreditar nas histórias contadas por Prot, o médico resolve hipnotizá-lo e, a partir daí, inicia uma investigação detalhada para tentar descobrir os motivos que podem ser os responsáveis por seu bizarro comportamento.


Sem pressa de contar sua história e estabelecendo com calma as relações entre seus personagens, Softley conduz o espectador com cuidado pelos corredores do hospital psiquiátrico, pela casa de Powell e pela mente complexa de Prot sem perder-se nos meandros do roteiro inteligente de Charles Leavitt, que privilegia o drama em detrimento das implicações científicas da trama. Mantendo a dúvida sobre a real identidade de Prot até os segundos finais - e mesmo assim dando margem a diferentes interpretações - o roteiro brinda a plateia com diálogos sensíveis, que questionam os conceitos de família, normalidade, felicidade e interrelações sem soar didático ou condescendente. A escalação certeira de Jeff Bridges e Kevin Spacey - dois dos maiores atores americanos de sua geração - ajuda muito em transformar uma premissa que poderia parecer inverossímil em um instigante quebra-cabeças capaz até mesmo de emocionar aos mais sensíveis.

Mesmo sem ser um filme inesquecível - nos EUA passou praticamente em branco nas bilheterias, mal conseguindo pagar seu custo - e sendo muitas vezes ignorado quando se fala nas carreiras de Bridges e Spacey (ambos vencedores do Oscar e respeitadíssimos em todo o planeta), "K-Pax, o caminho da luz" é um trabalho sensível que borra com inteligência as fronteiras entre o drama e a ficção científica sem ofender a nenhum dos gêneros e seduz a audiência sem apelar para efeitos visuais mirabolantes ou violência gratuita. É simples, é honesto e é uma experiência gratificante. Merecia melhor sorte!

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...