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terça-feira

UM CLARÃO NAS TREVAS


UM CLARÃO NAS TREVAS (Wait until dark, 1967, Warner Bros, 108min) Direção: Terence Young. Roteiro: Robert Carrington, Jane Howard-Hammerstein, peça teatral de Frederick Knott. Fotografia: Charles Lang. Montagem: Gene Milford. Música: Henry Mancini. Direção de arte//cenários: George Jenkins/George James Hopkins. Produção: Mel Ferrer. Elenco: Audrey Hepburn, Alan Arkin, Richard Crenna, Efrem Zimbalist Jr., Jack Weston, Samantha Jones, Julie Herrod. Estreia: 26/10/67

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Audrey Hepburn)

Durante a II Guerra Mundial, a então adolescente Audrey Hepburn, de 16 anos de idade, servia como enfermeira voluntária em um hospital holandês. Quando vários soldados aliados chegaram em busca de cuidados depois da batalha de Arnhem, a futura bonequinha de luxo cuidou de um jovem paraquedista inglês chamado Terence Young - sem jamais poder imaginar que, mais de vinte anos depois, ele seria o diretor de seu primeiro e único filme de suspense, "Um clarão nas trevas". Último filme de Hepburn antes de um hiato autoimposto de quase uma década - ela só voltaria às telas em "Robin e Marian", de 1976 -, a adaptação da peça teatral de Frederick Knott foi um dos grandes êxitos de bilheteria de 1967, em parte graças à engenhosa campanha de marketing que remetia aos ensinamentos de Hitchock, e em parte devido à curiosidade do público em acompanhar uma de suas atrizes mais queridas rumo à escuridão de um gênero que, a despeito de seu sucesso comercial, nunca foi considerado dos mais nobres pela indústria de Hollywood. O fato de Hepburn ter arrebatado uma indicação ao Oscar por seu desempenho - ao lado de Anne Bancroft ("A primeira noite de um homem"), Faye Dunaway ("Bonnie& Clyde: uma rajada de balas") e Katharine Hepburn (a vencedora, por "Adivinhe quem vem para jantar") - diz mais sobre o prestígio da estrela do que pela boa vontade da Academia em homenagear uma produção cujo maior objetivo é assustar a plateia - ainda que ela faça isso com extrema destreza.

Young, cujos créditos incluem três filmes de James Bond dos anos 1960 - "O satânico Dr. No" (1962), "Moscou contra 007" (1963) e "007 contra a chantagem atômica" (1965) - se demonstra um artesão competente ao explorar todas as possibilidades visuais de roteiro que nem sempre consegue escapar de suas origens teatrais - no palco a peça de Knott contava com as presenças de Lee Remick e Robert Duvall. O excesso de diálogos (nem todos indispensáveis) é o maior problema, uma vez que outra característica típica de produções adaptadas do teatro (o cenário único) serve para ampliar o tom claustrofóbico da trama e encaminhar o filme para seu clímax - minutos onde a tensão atinge seu nível máximo especialmente quando assistidos no escuro (daí a campanha de marketing que insistia que todas as salas e exibição ficassem completamente às escuras para melhor resultado). Este último ato, que apresenta o confronto entre mocinha e vilão com inteligência e impecável senso narrativo, compensa o ritmo irregular da produção até então e oferece ao público o que de melhor o cinema de suspense pode oferecer.

 

"Um clarão nas trevas" começa com a única sequência fora do cenário principal do filme, quando o espectador é apresentado a uma boneca recheada de heroína que chega à Nova York, vinda do Canadá, pelas mãos de uma atraente jovem (Samantha Jones), que, por motivos não revelados, a entrega a um desconhecido. Este desconhecido é (Efrem Zimbalist Jr.), um fotógrafo casado com Susy (Audrey Hepburn), uma mulher ainda tentando acostumar-se com sua nova rotina como deficiente visual, consequência de um acidente de carro. O que o casal não sabe é que tal boneca é o objeto do desejo de uma gangue perigosa e violenta, liderada pelo cruel Harry Roat (Alan Arkin), que não hesita em matar quem quer que atravesse seu caminho. Com a ajuda de seus dois companheiros, o sedutor Mike (Richard Crenna em papel para o qual foi Robert Redford foi considerado) e o quase atrapalhado Galindo (Jack Weston), ele se introduz no universo de Susy disposto a recuperar o artefato - e encontra uma resistência completamente inesperada.

Realizado como uma tentativa de salvar o casamento de Audrey Hepburn e do produtor Mel Ferrer, "Um clarão nas trevas" não obteve sucesso neste ponto específico - o relacionamento acabou no ano seguinte - mas tornou-se um campeão de bilheteria e reafirmou o poder comercial da atriz. É bem provável que nem mesmo Julie Andrews (também cotada para o papel central), no auge de sua popularidade na década de 1960, fosse capaz de atrair o público da mesma forma que Hepburn. Não deixa de ser sintomático que, anos mais tarde, o ator Alan Arkin tenha revelado que só ficou com o papel porque nenhum ator queria ficar marcado por um personagem capaz de machucar a atriz (mesmo na ficção). Arkin chegou a declarar, em tom de brincadeira, que um dos motivos pelos quais não foi indicado ao Oscar de coadjuvante por sua atuação (segundo Stephen King, uma das melhores encarnações do mal no cinema) tem a ver com o fato de que "ninguém é indicado ao Oscar por ser mau com Audrey Hepburn!" Brincando ou não, Arkin até tem um pouco de razão. Seu personagem até pode causar arrepios no espectador, mas é Hepburn quem domina o filme e justifica seu sucesso de bilheteria. Sua única incursão no suspense é, também, um dos vários pontos fortes de sua carreira.

quarta-feira

A PRINCESA E O PLEBEU

A PRINCESA E O PLEBEU (Roman holiday, 1953, Paramount Pictures, 118min) Direção: William Wyler. Roteiro: Ian McLellan Hunter, John Dighton (Dalton Trumbo). Fotografia: Henri Alekan, Frank F. Planer. Montagem: Robert Swink. Música: Georges Auric. Figurino: Edith Head. Direção de Arte: Hal Pereira, Walter Tyler. Produção: William Wyler. Elenco: Audrey Hepburn, Gregory Peck, Eddie Albert, Hartley Power, Harcourt Williams. Estreia: 21/8/53 (Londres)

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (William Wyler), Atriz (Audrey Hepburn), Ator Coadjuvante (Eddie Albert), Roteiro Original, Fotografia em P&B, Montagem, Figurino em P&B, Direção de Arte/Cenários em P&B, História Original
Vencedor de 3 Oscar: Atriz (Audrey Hepburn), Roteiro Original, Figurino em P&B
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Audrey Hepburn)


À primeira vista, a trama central de “A princesa e o plebeu” pode fazer lembrar – e muito – o enredo de “Aconteceu naquela noite”, vencedora comédia romântica dirigida por Frank Capra em 1934. Não é por acaso: o próprio Capra tinha intenções de comandar a história de amor entre um jornalista americano e uma jovem herdeira do trono de um país qualquer da Europa, jamais identificado no roteiro. Tinha, inclusive, escolhido seu par romântico, a ser formado por Cary Grant e Elizabeth Taylor e queria filmar em locação, ou seja, levar equipe inteira para Roma e acompanhar as aventuras de seus protagonistas com tudo a que tinha direito. Lógico que as coisas não aconteceram como o previsto: a companhia independente que o cineasta havia fundado com William Wyler e George Stevens andava mal das pernas em 1949 e o projeto – caro especialmente devido à sua logística internacional – acabou na mesa da Paramount. E foi então que tudo começou a mudar.

Capra foi o primeiro a pular fora da produção – um dos motivos de sua deserção foi o envolvimento do roteirista Dalton Trumbo, então investigado pela infame Comissão de Atividades Antiamericanas que caçava comunistas na comunidade hollywoodiana – e, com ele e com o ajuste do orçamento, a possibilidade de contar com Elizabeth Taylor, já uma estrela de primeira grandeza. Seu sócio, William Wyler – que já contava no currículo com o belo “Tarde demais”, que havia dado o Oscar de melhor atriz à Olivia de Havilland – não teve problemas em trabalhar com Trumbo, mas manteve pé na ideia inicial de Capra de realizar as filmagens na capital italiana. A Paramount acabou aceitando, mas com duas condições: nada do espetacular Technicolor desejado pelo diretor e tampouco uma atriz de cachê exorbitante no papel principal. Entra Audrey Hepburn.


Descoberta pela escritora francesa Colette para viver sua personagem Gigi na peça teatral homônima, Hepburn não tinha nenhum filme no currículo quando foi escolhida para viver a ingênua e travessa princesa Ann – que Wyler preferia ter entregue à Jean Simmons, cuja negativa quase cancelou o projeto. Seu olhar expressivo e seus modos delicados, porém, lhe garantiram a chance de protagonizar um dos maiores sucessos de bilheteria de 1953 – e que acabou por lhe render um Oscar e a admiração mundial de crítica e público, encantados por seu desempenho natural e sua beleza clássica e frágil. A seu lado, um Gregory Peck poucas vezes tão à vontade em um papel – ele também uma espécie de estreante, já que nunca havia feito uma comédia, entrou no elenco graças à desistência de Cary Grant (que, dependendo da fonte, recusou o papel por considerar-se velho demais para contracenar com Hepburn ou por achar que seu personagem seria eclipsado pela princesa voluntariosa interpretada por ela) e, por uma dessas artimanhas do destino, chegou à Itália em depressão pelo iminente fim de seu casamento e conheceu a francesa Veronique – com quem casou-se logo em seguida, para o resto da vida.

Romance na vida real, romance nas telas. Mesmo que a impossibilidade de filmar a capital italiana em cores – o que realçaria seu glamour e sua luminosidade – seja algo a se lamentar no resultado final, o equilíbrio mais que perfeito entre amor e humor do roteiro e a química excepcional entre os atores compensam suficientemente. Dalton Trumbo – que ganhou o Oscar mas só foi reconhecido oficialmente como tal décadas mais tarde, quando finalmente pode assumir a autoria do roteiro, assinado à época por Ian McLellan Hunter e John Dighton – construiu uma pequena pérola de comédia romântica, que usa e abusa dos elementos do gênero com inteligência e a devida dose de ironia. Hepburn vive Ann, uma jovem princesa que, em visita a várias capitais da Europa, resolve desaparecer da vista de seus protetores para experimentar os prazeres da vida de uma pessoa comum. Cansada dos enfadonhos compromissos oficiais que lhe ocupam os dias incessantemente, ela foge durante a noite e, assumindo outro nome e com o cabelo mais curto (que virou moda no Japão, o que é mais uma prova do alcance do sucesso do filme) dá de cara com o simpático americano Joe Bradley (Gregory Peck). Assim como o personagem de Clark Gable em “Aconteceu naquela noite”, Bradley é um jornalista com o emprego em risco e que, reconhecendo na jovem à sua frente a monarca que os jornais dizem estar levemente adoentada, resolve aproveitar-se da situação para ganhar uma bela grana. Com a ajuda de um amigo fotógrafo (Eddie Albert), ele assume o cargo de cicerone da garota pelas ruas de Roma enquanto ela aproveita as delícias do anonimato. Lógico que, também como no premiado filme de Frank Capra, ele se apaixona pela bela princesa e passa a questionar sua decisão de expor a verdade.

Sem pudor de utilizar de todos os elementos clássicos do gênero, o roteiro de Dalton Trumbo encontrou na direção de William Wyler a leveza e o frescor ideais, comprovando de vez o talento do cineasta em adaptar-se aos mais variados estilos de narrativa – ele ganharia seu próprio Oscar seis anos depois, pelo épico “Ben-hur” – e deixar seus atores brilharem com performances muito acima da média. Sua vontade de afastar-se de Hollywood (leia-se o governo americano e sua paranoia vermelha) por um tempo acabou por render a seu currículo uma das comédias românticas mais fascinantes e brilhantes de todos os tempos e o mérito de ter descoberto uma das maiores estrelas da sétima arte, eternizada para sempre sorridente pelas ruas romanas em uma motocicleta alugada. Coisa de mestre!

domingo

UM CAMINHO PARA DOIS

UM CAMINHO PARA DOIS (Two for the road, 1967, 20th Century Fox, 111min) Direção: Stanley Donen. Roteiro: Frederic Raphael. Fotografia: Christopher Challis. Montagem: Madèleine Gug, Richard Marden. Música: Henry Mancini. Direção de arte: Willy Holt. Produção: Stanley Donen. Elenco: Audrey Hepburn, Albert Finney, Eleanor Bron, William Daniels, Claude Dalphin, Nadia Gray, Jacqueline Bisset. Estreia: 27/4/67

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Para TT...

Perdido entre vários filmes adorados pelos fãs de Audrey Hepburn - principalmente "Bonequinha de luxo" e "My fair lady" - a comédia romântica dramática "Um caminho para dois" quase nunca é mencionado como um favorito. Sofisticado dramaturgicamente e dotado de uma melancolia que perpassa inclusive seus inúmeros momentos cômicos, o filme de Stanley Donen - um dos homens por trás do sucesso de "Cantando na chuva" - é um retrato doloroso e realista do declínio de um relacionamento aparentemente indestrutível, que só não é mais angustiante por conta da química entre Hepburn e Albert Finney, pela edição inteligente e pelo tom bem-humorado que o afasta da indigesta catarse no qual poderia se transformar em mãos menos hábeis.

Contado através de três linhas temporais que se intercalam graças à edição ágil e esperta de Madèleine Gug e Richard Marden, "Um caminho para dois" conta a história de amor, decepção, traição e momentos inesquecíveis entre Joanna (Hepburn) e Mark (um jovem Albert Finney). Quando se encontram, durante uma viagem à Europa, ela é uma corista em busca da realização profissional e ele um arquiteto iniciante. Os dois se apaixonam perdidamente e se envolvem em um casamento repleto de momentos de eletrizante felicidade, mesmo quando precisam contar moedas e passam por situações constrangedoras devido à falta de dinheiro. Conforme o tempo passa e a família aumenta, os problemas também começam a mostrar sua cara, o que os leva fatalmente a crises cada vez mais sérias, em oposição à ascensão de Mark em sua carreira. Quando o filme começa, eles estão a caminho de uma festa na França, onde terão que finalmente decidir que rumo tomar em suas vidas - fato este que os faz também relembrar todos os bons e maus dias de seu relacionamento.


O roteiro de Frederic Raphael, indicado ao Oscar da categoria, é um primor de sensibilidade e inteligência, equilibrando com especial maestria cenas do mais divertido humor visual com a ironia certeira de diálogos mais apurados e sofisticados, além de alcançar as notas certas também nas sequências mais dramáticas. Sua estrutura, fundamentada basicamente em três road-movies simultâneos contados fora de ordem cronológica - fato que a princípio pode confundir um pouco o espectador mas depois mostra-se crucial para a apreciação do panorama geral proposto pela sinopse - é rica em ironia, ao comparar, frequentemente, um passado financeiramente difícil mas feliz, com a realização monetária acompanhada de crises na relação. Por mais que pareça apontar uma espécie de simplismo com essa opção (como se o dinheiro fosse o culpado pelos males do casamento), a trama de Raphael não se deixa cair nessa armadilha, apontando outros fatores para o desgaste sem nunca abdicar de deixar bem claro o amor que une os protagonistas.

E, se o roteiro bem escrito e a direção leve de Donen - que sai-se melhor nos momentos alegres, traindo seu currículo anterior - são dignos dos mais rasgados elogios, a química perfeita entre Hepburn e Finney não fica atrás. Hepburn, que aceitou o papel apenas depois de ler o roteiro inteiro - antes ela havia recusado por medo de fazer mais um filme que rompia com as regras estabelecidas pelo cinema comercial americano como havia sido seu mal-sucedido "Quando Paris alucina" - era uma atriz cheia de nuances, todas elas exploradas com carinho pela direção: durante o filme, vemos sua Joanna apaixonada, decepcionada, triste, feliz, raivosa, arrependida e esperançosa, sem que nunca caia na mesmice ou na repetição. Finney - que ficou com um papel oferecido a Paul Newman e Michael Caine e cobiçado por Tony Curtis - demonstra maturidade e desenvoltura em criar um Mark que deixa transparecer seu amadurecimento sem perder sua essência. São Audrey e Finney quem sustentam todas as bases do roteiro, que dão respaldo a cenas emocionantes (quando lembram da distância que percorreram entre seu primeiro dia juntos e o impasse de seu casamento, quando se identificam com casais que ficam em silêncio durante as refeições, quando veem sua praia particular destruída pelo progresso representado por um prédio construído pelo próprio Mark) e que elevam o status do filme a mais do que simplesmente uma comédia romântica.

"Um caminho para dois" merecia estar entre os filmes mais populares de Audrey Hepburn. É deliciosamente engraçado, comoventemente romântico e dolorosamente triste, tudo na medida certa. É preciso mais que isso?

sábado

QUANDO PARIS ALUCINA

QUANDO PARIS ALUCINA (Paris when it sizzles, 1964, Paramount Pictures, 110min) Direção: Richard Quine. Roteiro: George Axelrod, estória de Julien Duvivier, Henri Jeanson. Fotografia: Charles Lang, Jr. Montagem: Archie Marshek. Música: Nelson Riddle. Direção de arte/cenários: Jean D'Eaubonne/Gabriel Bechir. Produção: George Axelrod, Richard Quine. Elenco: William Holden, Audrey Hepburn, Noel Coward, Tony Curtis, Grégoire Aslan. Estreia: 08/4/64

Na teoria parecia uma ideia genial: unir o talento e o carisma de William Holden com a beleza e o perfeito timing cômico de Audrey Hepburn em uma trama metalinguística que brincaria com o universo do cinema e contaria com participações mais que especiais de Tony Curtis, Marlene Dietrich e Frank Sinatra em pontas. Porém, até mesmo as ideias aparentemente infalíveis podem se mostrar armadilhas e foi exatamente o que aconteceu com "Quando Paris alucina". O que poderia ser uma comédia das mais divertidas dos anos 60 transformou-se, nas mãos do diretor Richard Quine, em um pastiche exagerado, confuso e sem ritmo e que, a despeito de alguns bons momentos de criatividade, termina por não cumprir todas as promessas que faz em seu agradável início.

Considerado pela própria Audrey Hepburn seu filme menos querido de sua fase como grande estrela, "Quando Paris alucina" tem na irregularidade seu maior problema, o que não deixa de ser surpreendente, uma vez que o roteiro tem a assinatura de George Axelrod, que dois anos antes havia lançado o espetacular "Sob o domínio do mal", estrelado por Frank Sinatra, um primor de ritmo e concisão. Aqui, ele conta de forma atabalhoada uma história que em momento nenhum prende a atenção do espectador, que fica esperando (em vão) que as coisas façam algum sentido - e a quem só resta, depois de um tempo, aproveitar as belas paisagens da cidade-luz e a elegância sempre irretocável de Hepburn, que consegue tirar leite de pedra com uma personagem sem profundidade e que existe apenas para justificar a história de amor que se pretende contar - ou não, já que também há a indecisão entre o romance e a comédia de erros que satiriza o modo industrial de realizar-se filmes (sátira essa que acaba se mostrando um tanto inadequada, uma vez que o próprio produto final parece resultado mais de um comitê de criação do que exatamente uma obra original).


Hepburn vive Gabrielle Simpson, uma secretária contratada para auxiliar o roteirista de Hollywood Richard Benson (William Holden, que se ausentou das filmagens para internar-se em uma clínica de reabilitação de álcool) a finalizar seu novo filme, intitulado "A garota que roubou a Torre Eiffel". Benson, que já está há semanas em Paris, tem um prazo exíguo para entregar o script a seu rígido produtor, Alexander Meyerheim (o dramaturgo Noel Coward), e, para seu desespero, nem sequer começou a escrevê-lo. Com a ajuda de Gabrielle, uma jovem sonhadora, criativa e alto-astral, ele passa a ter ideias e mais ideias a respeito da trama. Inspirado por ela, Benson começa uma história de espionagem que se desenvolve de várias e insuspeitas maneiras, incluindo até vampiros e lobisomens. Enquanto vai imaginando seu filme, o público vê suas ideias desenrolando-se na tela, sempre com ele e Gabrielle nos papéis centrais.

Como afirmado antes, a ideia de "Quando Paris alucina" não é das piores e poderia facilmente tornar-se um entretenimento dos mais divertidos se estivesse em mãos menos burocráticas e sem inspiração. Richard Quine construiu um filme engessado em suas próprias limitações que jamais surpreende o público. As brincadeiras do início - quando Benson vai modificando seu roteiro enquanto desfilam pela tela as participações especiais citadas anteriormente - logo tornam-se cansativas e o roteiro acaba por não oferecer nada que as substitua. Em pouco tempo a audiência se vê presa a uma história policial sem pé, cabeça ou graça e a uma história de amor que não desperta nada mais do que tédio - em parte devido à falta de química entre Audrey Hepburn e William Holden, subaproveitado ao extremo em um personagem que em nada acrescenta à sua brilhante carreira. No final das contas, vale apenas pela beleza de Audrey... e mesmo assim só para os fãs ardorosos.

terça-feira

UMA CRUZ À BEIRA DO ABISMO

UMA CRUZ À BEIRA DO ABISMO (The nun's story, 1959, Warner Bros, 149min) Direção: Fred Zinnemann. Roteiro: Robert Anderson, livro de Kathryn C. Hulme. Fotografia: Franz Planer. Montagem: Walter Thompson. Música: Franz Waxman. Figurino: Marjorie Best. Direção de arte/cenários: Alexander Trauner/Maurice Barnathan. Produção: Henry Blanke. Elenco: Audrey Hepburn, Peter Finch, Dame Edith Evans, Peggy Ashcroft, Dean Jagger, Mildred Dunnock. Estreia: 18/6/59

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Fred Zinnemann), Atriz (Audrey Hepburn), Roteiro Adaptado, Fotografia em Cores, Montagem, Trilha Sonora Original, Som

Uma princesa em fuga, uma sofisticada filha de chofer particular, uma bibliotecária transformada em modelo... e uma freira. Para quem tinha dúvidas da capacidade de Audrey Hepburn em transmutar-se em personagens diferentes de si mesma, o filme "Uma cruz à beira do abismo" tratou de apagá-las. A anos-luz de distância de suas criações anteriores - que a tornaram uma das atrizes mais queridas e prestigiadas de sua época - a religiosa belga que vai ao Congo para servir de enfermeira aos doentes tropicais lhe deu uma indicação ao Oscar e acabou tornando-se o filme preferido da eterna bonequinha de luxo. Maior sucesso de bilheteria da Warner em 1959, a adaptação do livro de Kathryn C. Hulme, baseada em uma história real, chegou às telas sob o comando do diretor Fred Zinnemann, que constrói seu filme impecavelmente, equilibrando com perfeição os dois atos da trama e proporcionando ao espectador um espetáculo que vale por dois.

A primeira parte de "Uma cruz à beira do abismo" - um título nacional um tanto estranho para o bem mais coeso "The nun's story" - trata da adaptação da jovem Gabrielle van der Mal à sua nova realidade como noviça, em contraste com sua vida anterior como filha de um proeminente cirurgião. Sentindo-se um tanto aprisionada com as rígidas regras do convento, ela mantém-se firme em seu propósito de viajar ao Congo e colaborar no tratamento das doenças tropicais que são objeto de seu estudo. Depois de algumas decepções com a hierarquia e a estrutura religiosa do convento e um período trabalhando em uma instituição para tratamento de doentes mentais, ela finalmente alcança seu objetivo e, com o nome de Irmã Luke, torna-se a enfermeira assistente do ateu dr. Fortunati (Peter Finch), a quem admira profundamente. Sua vida no Congo - onde presencia um estilo de vida que a faz questionar sua fé constantemente - lhe dá forças para transformar-se em uma presença querida, tanto pelos colegas quanto pelos nativos. No entanto, quando a II Guerra explode, ela retorna à Bélgica e fica diante do dilema de manter-se neutra diante da invasão alemã - principalmente quando a morte bate à sua porta.


Ficando com o papel que Ingrid Bergman recusou por considerar-se velha demais, Audrey Hepburn faz uso de sua imagem serena e delicada para transmitir, sem que seja preciso muitas palavras, todos os conflitos de sua irmã Luke. Ela é a sólida base do filme de Zinnemann, que, através dela, comenta o panorama sócio-político do Congo belga na ocasião da Segunda Guerra sem soar panfletário ou paternalista. Sua direção, coesa e direta, é uma das maiores qualidades do filme, fotografado com maestria por Franz Planer, que explora as belas paisagens naturais do país sem torná-las apenas uma propaganda turística. O encontro das culturas entre a católica Irmã Luke e os nativos do Congo, com suas crenças particulares, é uma subtrama fascinante, tratada com respeito e seriedade, mas nunca com excessiva formalidade. E é impossível deixar de notar o excelente elenco coadjuvante, no qual se incluem as damas Peggy Ashcroft e Edith Evans.

"Uma cruz à beira do abismo" é um filme atípico na carreira de Audrey Hepburn. Deixando de lado o charme fashion e elegante de seus trabalhos mais conhecidos - e isso que "Bonequinha de luxo" ainda não havia sido lançado - a obra de Zinnemann é cinema da mais alta qualidade, dotado de ritmo, relevância social e noção de entretenimento. Imperdível!

ALÉM DA ETERNIDADE

ALÉM DA ETERNIDADE (Always, 1989, Amblin Entertainment/Universal Pictures/United Artists, 122min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Jerry Belson, roteiro original de Dalton Trumbo. Fotografia: Mikael Salomon. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: James Bissell/Jackie Carr. Casting: Lora Kennedy. Produção: Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Steven Spielberg. Elenco: Richard Dreyfuss, Holly Hunter, John Goodman, Brad Johnson, Marg Helgenberger, Audrey Hepburn. Estreia: 22/12/89

Se “Além da eternidade” prova alguma coisa é que até mesmo os gênios cometem erros. Tido como um dos fracassos da vitoriosa carreira de Steven Spielberg (e relegado à galeria de equívocos do cineasta, ao lado de filmes como “1941, uma guerra muito louca” e “Hook, a volta do Capitão Gancho”), esta refilmagem de um obscuro drama romântico dos anos 40 chamado “A guy named Joe” ("Dois no céu" no Brasil) não foi bem de bilheteria e nunca chegou a receber críticas entusiasmadas, ainda que tenha alguns tímidos fãs. A pergunta crucial é: o filme é ruim?

"Além da eternidade" conta a história de Pete Sandich (Richard Dreyfuss), um competente piloto de avião responsável por apagar incêndios florestais que ama o que faz e ama a namorada, Dorinda (Holly Hunter), apesar de nunca ter revelado a ela toda a extensão de seus sentimentos. Um dia, ao salvar a vida do colega e amigo Al (John Goodman), Pete sofre um acidente e morre. A princípio revoltado com sua condição, ele logo recebe de um anjo (a última atuação da sempre delicada Audrey Hepburn) uma missão: ajudar um jovem piloto (Brad Johnson) a se acertar na carreira e conquistar o amor da mulher que ama. O problema é que a mulher que o jovem, corajoso e belo aspirante a piloto deseja é justamente a mesma Dorinda que Pete ainda ama, apesar de estar em outro plano espiritual. Ele terá, então, que superar os próprios sentimentos para vê-la feliz.


Para os românticos incuráveis, a história de amor e morte dos protagonistas do filme pode funcionar muito bem. Para aqueles mais exigentes, no entanto, as coisas podem ser mais difíceis. Spielberg utiliza em seu filme ingredientes que, um ano depois, faria a glória de um digamos assim, subproduto chamado "Ghost, do outro lado da vida": romance entre pessoas de dimensões diferentes, ensinamentos espíritas e até uma canção dos anos 50 (nesse caso, a bela "Smoke gets in your eyes", com The Platters). Mas, por incrível que pareça, as falhas em "Além da eternidade" estão nas decisões tomadas pelo próprio diretor. Richard Dreyfuss e Holly Hunter são atores infinitamente superiores a Patrick Swayze e Demi Moore (astros de "Ghost"), mas não tem o mesmo carisma e beleza que levaram multidões aos cinemas. "Ghost" tinha elementos de humor e uma trama policial, que, apesar de diminuir a intensidade da história central, caíram no gosto do público. "Além da eternidade" se leva a sério demais. Mas o cineasta que deu ao mundo obras-primas emocionantes como "A cor púrpura" e "A lista de Schindler" parece não ficar muito à vontade ao falar de amor. Não é à toa que este é, até agora, seu único drama romântico.

"Além da eternidade" oferece à plateia cenas belíssimas (os incêndios, por exemplo, são fotografados exemplarmente por Mikael Salomon) e atuações muito competentes de seus protagonistas (Richard Dreyfuss é um ator que se presta a todas às nuances pretendidas pelo diretor e Holly Hunter, mesmo anos-luz distante do visual Barbie, é uma atriz espetacular - o que o Oscar por "O piano", quatro anos depois, provaria). Mas não tem o mesmo nível de paixão dos melhores trabalhos de Steven Spielberg. Ainda assim, um belo filme que merecia melhor sorte do que teve quando de sua exibição nos cinemas.

segunda-feira

INFÂMIA


INFÂMIA (The children's hour, 1961, United Artists, 107min) Direção: William Wyler. Roteiro: John Michael Hayes, baseado na peça teatral de Lillian Hellman. Fotografia: Franz F. Planer. Montagem: Robert Swink. Música: Alex North. Produção: William Wyler. Elenco: Audrey Hepburn, Shirley MacLaine, James Garner, Fay Bainter, Miriam Hopkins, Karen Balkin, Veronica Cartwright. Estreia: 19/12/61

5 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Fay Bainter), Fotografia P&B, Figurino, Direção de Arte, Som

Aqueles que acham que o mal escondido na infância tem em Macaulay Culkin em "O anjo malvado" seu maior representante - sem mencionar Demian e afins por razões óbvias - merece conhecer Mary Tilford, interpretada pela jovem Karen Balkin em "Infâmia". Tudo bem que a personagem de Culkin chega ao extremo do homicídio, mas o filme de Joseph Reuben é tão perto da realidade quanto os brasileiros representados em filmes de Hollywood. Em "Infâmia", pelo contrário, a maldade da personagem infantil é mais sutil, mas nem por isso menos perniciosa e destruidora. Um filme sobre os efeitos da mentira, "Infâmia" é uma obra-prima do drama psicológico, dirigida com maestria por William Wyler e estrelado pelas excepcionais Audrey Hepburn e Shirley MacLaine.

Depois de ganhar o Oscar de diretor por "Ben-hur" (assim como outras 10 estatuetas), Wyler estava em alta em Hollywood e não deixa de ser uma prova de sua coragem a opção por refilmar "Infâmia", que ele mesmo havia dirigido em 1936, com Merle Oberon e Miriam Hopkins nos papéis principais. Coragem porque, mesmo no início dos anos 60, um dos assuntos discutidos no roteiro não era exatamente palatável ao público médio nem tampouco agradava o Código de Censura que regia a produção cinematográfica: lesbianismo.

A peça "Infâmia" (cujo título original, bem menos sensacionalista, "The children's hour" saiu de uma poesia de Henry Wadsworth Longfellow) foi escrita por Lillian Hellman em 1934. Hellman (aquela mesma escritora e dramaturga que foi casada com Dashiel Hammett e interpretada por Jane Fonda no filme "Julia", de 1977) também roteirizou a primeira versão do filme, excluindo as menções à sexualidade das personagens, mas não ficou particularmente chateada por entender que o cerne da peça mantinha-se intacto. Não estava de toda errada, uma vez que são as consequências de uma falsa acusação que são o ponto principal do enredo, mas é pouco provável que a versão original seja tão forte e contundente quanto sua refilmagem.

Para o filme de 1961, Wyler contou com um roteiro de John Michael Hayes (que escreveu alguns dos melhores Hitchcock dos anos 50, "Janela indiscreta" entre eles). Sem medo de qualquer censura, Hayes não disfarçou o tom pessimista do trabalho de Hellman nem usou de subterfúgios para contar a trágica história de duas mulheres que tem suas vidas transformadas (para pior) devido a uma mentira contada de forma inconsequente.

Karen Wright (Hepburn, em seu último filme em preto-e-branco) e Martha Dobie (MacLaine, em extraordinária atuação) são amigas íntimas desde os 17 anos, e dividem a direção de uma escola para meninas localizada na Nova Inglaterra. Tentando dar a melhor educação possível a suas alunas, elas frequentemente entram em rota de colisão com a rebelde Mary Tilford (Karen Balkin), uma garota mimada, intransigente e de caráter duvidoso. Para vingar-se das professoras, que a haviam deixado de castigo, ela conta à sua avó milionária, Amelia Tilford (Fay Bainter) que testemunhou atos estranhos entre as duas, deixando bem claro para a velha senhora que existe um relacionamento amoroso entre elas. Chocada, Amelia - cujo sobrinho, o médico Joe Cardin (James Garner) é noivo de Karen - espalha a notícia e logo a escola está às moscas. Nem mesmo um julgamento por difamação consegue salvá-las da discriminação do povo da cidade, uma vez que não há testemunhas que possam desmentir a acusação da menina.


A força de "Infâmia" está principalmente em sua espinha dorsal: uma mentira que destrói inexoravelmente vidas inocentes. A acusação de Mary não apenas acaba com o sonho da escola, mas também abala o relacionamento de Karen e Joe e, pior ainda, suscita dúvidas cruéis na própria Martha, que se vê repentinamente frente a uma situação que tentava desesperadamente esconder. Quando a verdade finalmente vem à tona, tudo parece já estar destruído, sem chance de retorno: a sombra da dúvida e do escândalo sempre estará impedindo um futuro realmente luminoso e a tragédia que se anuncia na segunda metade do filme comprova de maneira dolorosa a potência destrutiva de uma calúnia.

Mas William Wyler não teria tido o mesmo sucesso em "Infâmia" se não fosse a certeira escalação de seu elenco. Apesar dos boatos que diziam que Doris Day havia sido sondada para viver uma das protagonistas (o que tornaria a polêmica ainda mais saborosa, haja visto a fama de moça de família de Day) não é fácil imaginar outras atrizes mais perfeitas para a dupla central. Audrey Hepburn, com seu jeitinho de mulher de classe, delicada, frágil é o contraponto exato à fortaleza que é Shirley MacLaine, em uma atuação que a distancia da sensível Fran Kubelik de "Se meu apartamento falasse", lançado um ano antes por Billy Wilder. Dona dos diálogos mais intensos do filme, MacLaine emociona, indigna e conquista com uma personagem dividida entre manter em segredo seus sentimentos e uma mulher apaixonada que explode quando não encontra mais meios de esconder-se. Não é à toa que é justamente Martha Dobie quem acaba se tornando a maior vítima da situação, por encontrar-se em um caminho sem volta em direção ao preconceito (vale lembrar que a peça foi escrita em 1934, muito antes que surgissem os movimentos gays organizados).

Não há como assistir-se a "Infâmia" e ficar incólume à sua mensagem. É impressionante a modernidade de sua narrativa, a delicadeza de sua direção e a intensidade de seu elenco. Tão atual hoje quanto há 50 anos, é um filme que merecia ser obrigatório em qualquer curso de ética e cidadania.

domingo

BONEQUINHA DE LUXO


BONEQUINHA DE LUXO (Breakfast at Tiffany's, 1961, Paramount Pictures, 115min). Direção: Blake Edwards. Roteiro: George Axelrod, baseado no romance de Truman Capote. Fotografia: Franz F. Planer. Montagem: Howard Smith. Música: Henry Mancini. Produção: Martin Jurow, Richard Sheperd. Elenco: Audrey Hepburn, George Peppard, Patricia Neal, Buddy Ebsen, Martin Balsam, Mickey Rooney. Estreia: 05/10/61

5 indicações ao Oscar: Atriz (Audrey Hepburn), Roteiro Adaptado, Direção de Arte em Cores, Trilha Sonora Original, Canção Original ("Moon river")
Vencedor de 2 Oscar: Trilha Sonora Original, Canção Original ("Moon river")


O filme que definiu para toda a eternidade o mito Audrey Hepburn é hoje uma comédia romântica simpática, charmosa e pasmem, ingênua. Muitos anos antes da prostituta sonhadora vivida por Julia Roberts em “Uma linda mulher”, a doce e melancólica party girl Holy Golightly interpretada por Hepburn e criada pelo escritor Truman Capote já havia conquistado o público apesar, ou talvez por isso mesmo, de sua profissão, a mais antiga do mundo (ainda que, para melhor combinar com a imagem pública de Hepburn, o flerte da personagem com a bissexualidade tenha sido completamente limada do roteiro final).

O livro de Capote, de tintas bem menos leves que as pintadas pelo roteirista George Axelrod, conta a história de uma garota de programa que conquista o amor do novo vizinho, um escritor sustentado pela amante casada. O filme, dirigido pelo mesmo Blake Edwards da série “A pantera cor-de-rosa”, deixa de lado os sentimentos pesados e trágicos da trama e se concentra no que ela tem de mais arejada, ou seja, nada de dramas de consciência: a palavra de ordem aqui é romantismo.

Logo na primeira cena somos seduzidos pela bela melodia de “Moon river”, música de Henry Mancini que ganhou o Oscar e virou marca registrada do filme: nesta cena a doce protagonista dá sentido ao título original da história, bebericando seu café da manhã em frente à vitrine da Tiffany’s, uma das mais famosas joalherias de Nova York (que permitiu filamgens em seu exterior em um domingo, dia da semana em que nunca é aberta ao público).Este glamour, perseguido pela personagem de Hepburn durante todo o filme (e fartamente ilustrado pelo figurino criado por Givenchy especialmente para a atriz) dá o tom exato da quase superficialidade que o filme pretende imprimir na memória de seus espectadores. Apesar disso, em alguns momentos, a alma dos protagonistas acaba exposta e salva a obra de Edwards da de sua aparente nulidade dramática. A protagonista, por exemplo, não é a feliz e despreocupada Holy Golightly desde que nasceu. Vinda do interior, onde se chamava Lula Mae e era casada com um homem muito mais velho, ela busca na futilidade e na falta de compromisso com o mundo ao seu redor uma forma de impermeabilizar a si mesma do sofrimento. Essa sua aparente ambição (apenas dinheiro lhe interessa), no entanto acaba começando a lhe afastar de Paul Varjak (George Peppard), seu vizinho de apartamento, que lhe lembra seu irmão querido e com quem ela consegue, por alguns momentos, dar um vislumbre de sua verdadeira alma. Os momentos em que Golightly sofre, paradoxalmente, são os momentos mais marcantes do filme e que causam a empatia do público com o romance entre os protagonistas.


Audrey Hepburn começou a filmar "Bonequinha de luxo" apenas três meses depois do nascimento de seu primeiro filho, Sean e assumiu a personagem que o próprio Truman Capote admitiu ter escrito pensando em Marilyn Monroe. Marilyn chegou a pensar em fazer o filme, mas foi desencorajada por seu mentor Lee Strasberg, que achava que o papel de uma prostituta mancharia sua imagem. Hepburn ficou com o papel, com o maior cachê pago a uma atriz na época (750 mil dólares) e de quebra levou uma indicação ao Oscar de melhor atriz. Melhor é impossível!

Quanto a seu parceiro de cena, George Peppard, a coisa não foi assim tão simples. Adepto do Método do Actor's Studio, Peppard encontrou dificuldades em contracenar com Patricia Neal, que vivia sua amante e que chegou a declarar que trabalhar com ele era insuportável. Com Audrey, Peppard (que assumiu o papel depois que Steve McQueen declinou do projeto devido a outros compromissos) manteve uma amizade até o final da vida e, na tela, a química entre os dois é doce e verossímil.

Como comédia, “Bonequinha de luxo” consegue arrancar algumas risadas. Como drama, falta densidade e um pouco de complexidade. Mas é como romance que consegue ser inesquecível. Afinal, é impossível resistir a Audrey Hepburn e sua inacreditável Holy
Golightly.

sábado

CINDERELA EM PARIS


CINDERELA EM PARIS (Funny face, 1957, Paramount Pictures, 103min) Direção: Stanley Donen. Roteiro: Leonard Gershe. Fotografia: Ray June. Montagem: Frank Bracht. Figurino: Edith Head, Givenchy. Produção: Roger Edens. Elenco: Audrey Hepburn, Fred Astaire, Kay Thompson. Estreia: 13/02/57

4 indicações ao Oscar: Fotografia, História e Roteiro Originais, Figurino, Direção de Arte

Em 1952, Stanley Donen co-dirigiu "Cantando na chuva", que, estrelado por Gene Kelly, legou ao mundo alguns dos mais encantadores momentos da história dos musicais no cinema. Cinco anos depois, foi a vez de comandar outro ícone absoluto da dança, Fred Astaire. Enquanto "Cantando" homenageava com humor e sarcasmo os bastidores do cinema, "Cinderela em Paris" alfinetava - de leve como convinha - o mundo da moda. Ao contrário do primeiro filme, no entanto, que intercalava cenas hilariantes com números de dança excitantes, a colaboração de Donen e Astaire não empolga tanto quanto deveria. E isso que, além de Astaire, o filme tem como protagonista a fulgurante Audrey Hepburn.

A ideia de juntar Hepburn - então no auge do sucesso - e Astaire - um símbolo da velha guarda dos musicais - não é nada má. Audrey já tinha ganho um Oscar por "A princesa e o plebeu" e fascinado as plateias com "Sabrina" e o bom e velho Fred ainda era adorado pela audiência. Mas na verdade a parceria quase não aconteceu. O primeiro nome cotado para viver a protagonista foi a da habitual parceira de Astaire, Cyd Charisse. No entanto, logo depois de ler o roteiro, a própria Audrey se interessou pelo projeto, mesmo contra seu agente da época. Para convencer os astros a assinarem os contratos, os produtores então utilizaram uma velha tática: asseguraram a atriz que Astaire já havia assinado com o filme e fizeram o mesmo com ele. Contratos assinados, era correr pro abraço. E não deu outra: o filme fez um grande sucesso, mesmo que não resista tão bem ao tempo quanto "Cantando na chuva".

A comparação de "Cinderela" com "Cantando" não é arbitrária. Além do diretor e do gênero, os dois filmes dividem a mesma intenção: contar uma história de amor tendo como pano de fundo um universo de glamour e sofisticação. E sofisticação é o que não falta quando o assunto é Audrey Hepburn. Aqui, ela vive Josephine Stockton, uma simples vendedora de livros, fascinada por filosofia e absolutamente desinteressada por tudo que se relaciona à moda e beleza. Um belo dia, durante o trabalho, acaba despertando o interesse do fotógrafo Dick Avery (Astaire), que vê nela tudo que é necessário para torná-la o rosto da mais nova campanha da revista onde trabalha ao lado da poderosa Maggie Prescott(Kay Thompson): personalidade, inteligência e charme. Para convencê-la a aceitar o trabalho, ele a convida para ir com a equipe para a capital francesa - onde ela pretende conhecer o líder de um movimento filosófico chamado "enfaticalismo" (uma sacada bastante engraçada). Lá, sob um cenário deslumbrante, entre visitas à Torre Eiffel e ao Arco do Triunfo, os dois, como era de se esperar, acabam se apaixonando.


"Cinderela em Paris" é adorável quando foca sua atenção no rosto absurdamente belo de Audrey Hepburn (vestida mais uma vez pelo estilista Givenchy), mas torna-se um tanto aborrecido em diversos momentos, quando abandona a engraçada crítica à moda e ao existencialismo francês (em voga na época) para apresentar intermináveis números musicais. É preciso ser fã das coreografias elaboradíssimas de Astaire para envolver-se completamente com o filme, uma vez que boa parte de sua duração é preenchida com seus passos de dança (sozinho, com Hepburn, com Thompson). Ainda que seja uma delícia de vê-lo desafiando as leis da gravidade em cenários bonitos por natureza, não deixa também de ser um pouco cansativo, uma vez que, ao invés de ajudar a contar a história, tais cenas apenas servem para demonstrar os dotes do ator e dançarino.

Fosse um pouco mais curto e um pouco mais parcimonioso em seus excessivos números musicais, "Cinderela em Paris" poderia ser tão delicioso quanto "Cantando na chuva". Mas, mesmo com seus pequenos defeitos (principalmente para aqueles que não são entusiastas do gênero), é inesquecível graças ao carisma de seus atores principais. Afinal, quem resiste ao rosto choroso de Audrey Hepburn vestida de noivo em um belo cenário campestre em Paris?

segunda-feira

SABRINA


SABRINA (Sabrina, 1954, Paramount Pictures, 113min) Direção e produção: Billy Wilder. Roteiro: Billy Wilder, Samuel Taylor e Ernest Lehman, baseado na peça teatral "Sabrina fair", de Samuel Taylor. Fotografia: Charles Lang Jr. Montagem: Arthur Schmidt. Música: Friedericj Hollander. Figurino: Edith Head. Elenco: Humphrey Bogart, Audrey Hepburn, William Holden, John Williams, Walter Hampden. Estreia: Outubro de 1954

6 indicações ao Oscar: Diretor (Billy Wilder), Atriz (Audrey Hepburn), Roteiro Adaptado, Fotografia em P&B, Figurino e Direção de arte.
Vencedor do Oscar de Figurino

Vencedor do Golden Globe de Melhor Roteiro

Em 1973 o autor Lauro César Muniz lançou, no horário das 19h da Rede Globo, a novela "Carinhoso", estrelada pela dupla mais popular de então - Regina Duarte e Cláudio Marzo. Apesar do sucesso momentâneo, a novela não ficou na memória dos espectadores (chegou a ser encurtada devido à gravidez de Regina, que deu à luz em 1974 a hoje atriz Gabriela). O que pouca gente deve ter notado na época - e tampouco importa hoje, quando a novela nem mais é lembrada - é que sua trama principal era descaradamente inspirada em "Sabrina", filme de Billy Wilder por sua vez inspirado em uma peça de teatro de Samuel Taylor. Lançado em 1954, o filme foi o trabalho de Audrey Hepburn seguinte a seu Oscar por "A princesa e o plebeu" e comprova seu carisma, talento e classe. Unida a um texto ácido de Wilder (que, ao lado de Ernest Lehman e do próprio autor da peça nunca deixa que seu romantismo caia na vala do piegas ou do lugar-comum), Hepburn mais uma vez brilha em um papel feito sob medida - mas que quase foi parar nas mãos de Lauren Bacall, que era a primeira escolha do ator principal do filme, Humphrey Bogart (não por acaso, seu marido).

Na verdade, o próprio Bogart não foi o primeiro ator escolhido para viver o sério, sisudo e impenetrável Linus Larrabee, um homem que vive do trabalho burocrático nas milionárias empresas da família. Cary Grant foi o primeiro nome a ser cotado para o papel, mas acabou saindo do filme, sendo substituído por um Bogart que não suportava nem Hepburn (a quem considerava má atriz) nem seu colega de cena William Holden (que se apaixonou por Hepburn durante as filmagens, em um romance que terminou quando ela descobriu que ele não queria ter mais filhos).

A Sabrina do título é uma jovem doce, romântica e sonhadora apaixonada por David Larrabee (Holden), um playboy irresponsável, três vezes divorciado e mulherengo. O grande problema dessa paixão é que ele não faz a menor ideia da existência da moça, filha de seu motorista (vivido com delicadeza pelo ótimo John Williams). No início do filme, desiludida de amor, Sabrina pensa em suicídio, mas é impedida por Linus, o irmão mais velho de David, que, conforme dito acima, é sério, sisudo e impenetrável, vivendo em função de números e contratos. Sem esperanças de conquistar o amor de David, Sabrina viaja a Paris para fazer um curso de gastronomia. Dois anos depois, ela retorna ao quarto de empregada onde morava com o pai, mas, belíssima, elegante e cosmopolita, não passa mais incólume ao sedutor David, que se apaixona por ela, arriscando uma negociata de milhares de dólares vinculada a seu iminente casamento com uma socialite. Para impedir que o casal fique junto e estrague os planos milionários da empresa, Linus se aproveita de um pequeno acidente de David para separá-los. O que ele não contava, no entanto, era se apaixonar também por Sabrina.


É impossível negar que o maior mérito de "Sabrina" é o talento enorme de Billy Wilder em transformar até mesmo uma história de amor sem maiores novidades em um filme inesquecível. Apesar da trama do filme não ser das mais geniais ou surpreendentes, seu roteiro esperto e divertido conquista pela sutileza, pelo humor suave e pelo romantismo na medida certa. O timing cômico de Wilder é evidente em pequenos detalhes - em especial nas cenas com o hilário Walter Hampden, como o patriarca Larrabee - mas o cineasta, espertamente, nunca deixa que o romantismo da trama principal deixe de ser o centro do interesse do espectador. Seu uso exemplar do humor serve apenas como um alívio cômico para uma trama quase banal, ainda que contada com tanto zelo e cuidado que chega a arrebatar em seus momentos mais sentimentais.

Uma das críticas mais frequentes a "Sabrina" é o fato de Humphrey Bogart ser muito mais velho do que Hepburn, e realmente a química entre os dois não é das mais fascinantes. No entanto, é fácil acreditar no amor que nasce entre os dois, em parte devido ao talento dos dois atores, em parte devido ao clima proporcionado pela bela fotografia de Charles Lang Jr. (indicada ao Oscar). A trilha sonora (que inclui a própria atriz entoando uma versão de "La vie en rose") colabora com o ritmo suave que envolve o espectador sem exigir dele mais do que o desejo de ser entretido com categoria e inteligência.

Mas, sem sombra de dúvida, além do roteiro eficaz, do clima contagiante e do elenco de astros, o que sobressai de "Sabrina" é Audrey Hepburn. Pelo seu talento e pela sua postura elegante (apesar do Oscar de figurino ter ficado nas mãos de Edith Head as roupas usadas pela atriz são do estilista Givenchy - que confundiu-a primeiramente com Katharine Hepburn e depois tornou-se grande amigo e colaborador), Audrey é o rosto e a alma do filme. Tanto sua estampa tornou-se a imagem máxima do filme que, quando Sydney Pollack fez um desnecessário remake do filme, em 1995, colocou a sem-sal Julia Ormond no papel-título e amargou um merecido fracasso. "Sabrina" É Audrey Hepburn.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...