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quinta-feira

ETERNAMENTE JOVEM

 


ETERNAMENTE JOVEM (Forever young, 1992, Warner Bros/Icon Productions, 102min) Direção: Steve Miner. Roteiro: J. J. Abrams. Fotografia: Russell Boyd. Montagem: Jon Poll. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Aggue Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: Gregg Fonseca/Jay Hart, Jan Pascale. Produção executiva: J. J. Abrams, Edward S. Feldman. Produção: Bruce Davey. Elenco: Mel Gibson, Jamie Lee Curtis, Elijah Wood, Isabel Glasser, George Wendt, Robert Hy Gorman, Nicolas Surovy. Estreia: 11/12/92

Conhecido por filmes que exploravam sua testosterona mais do que seus méritos dramáticos - como as séries "Máquina mortífera" e "Mad Max" -, o australiano Mel Gibson entrou na década de 1990 disposto a mudar a imagem que tinha diante do público e da crítica (algo que nem "Hamlet", dirigido por Franco Zefirelli em 1990 havia conseguido). E o primeiro passo nessa direção foi "Eternamente jovem", uma história de amor à moda antiga, despretensiosa e dirigida de modo clássico que, apostando basicamente na presença do ator, fez uma bela carreira nas bilheterias e pavimentou um novo caminho para sua carreira - que culminaria em um Oscar de melhor direção por "Coração valente" (1995). Um romance com leves toques de ficção científica e humor, o filme de Steve Miner (mais conhecido por  filmes de terror e episódios de séries de tv) se beneficia, também, do carisma do pequeno Elijah Wood - que quase rouba a cena mesmo ao lado de veteranos como Gibson e Jamie Lee Curtis.

Escrito por J. J. Abrams - que anos depois se consagraria como criador do seriado "Lost" -, o roteiro de "Eternamente jovem" começa em 1939, antes da II Guerra Mundial. O piloto de testes da Força Aérea americana, Daniel McCormick (Mel Gibson), é apaixonado por sua namorada, Helen (Isabel Glasser), e depois de um longo relacionamento resolve finalmente pedi-la em casamento. Uma tragédia, no entanto, surge em seu caminho quando ela é atropelada e entra em coma. Desesperado quando os médicos afirmam não ver possibilidade de uma melhora para ela, o jovem se oferece para servir de cobaia para uma experiência criogênica do amigo cientista, Harry Finley (George Wendt), e ficar congelado por um ano - tempo suficiente para não ser obrigado a testemunhar a morte da mulher que ama. As coisas não sabem como o esperado, no entanto, e Daniel só acorda novamente depois de cinquenta anos: em uma brincadeira em um depósito abandonado do exército, Nat Cooper (Elijah Wood) e seu melhor amigo, Felix (Robert Hy Gorman), acabam sem querer reativando a câmera criada por Finley e trazendo o antigo piloto de volta à vida. Tentando adaptar-se à nova realidade e encontrar seu amigo - único que pode lhe ajudar a entender tudo que aconteceu desde que iniciou seu sono - ele conta com a ajuda da mãe de Nat, a enfermeira Claire (Jamie Lee Curtis), uma mulher com histórico de relacionamentos complicados que se sente atraída pelo misterioso visitante.

 

A maior surpresa de "Eternamente jovem" é sua ousadia em não se sustentar em uma previsível história de amor entre Daniel e Claire - o que poderia ser o esperado. Apesar da boa química entre Mel Gibson e Jamie Lee Curtis, o roteiro prefere se dedicar à busca do protagonista por uma resposta a respeito de sua condição de exilado temporal. Mesmo que não explore todas as possibilidades de seu choque diante de um novo e mais moderno mundo - o que poderia gerar boas piadas e situações dramaticamente interessantes -, o roteiro de Abrams se beneficia de um ritmo que disfarça suas improbabilidades científicas ao envolver o espectador em uma trama leve e por vezes bem-humorada: todas as interações entre Gibson e Elijah Wood são repletas de uma sintonia rara, que evita que a trama caia no excesso de lágrimas. Ao ensinar o pequeno Nat a conquistar a colega por quem é apaixonado, Daniel recupera um romantismo clássico que remete aos melhores momentos clássicos do cinemão hollywoodiano - e contar com Billie Holiday na trilha sonora enfatiza essa direção ao coração do público. Se não bastasse isso, uma reviravolta no ato final deixa tudo ainda mais emocionante. A boa notícia é que Gibson sustenta bem sua persona sensível - que seria acentuada em seu primeiro filme como diretor, "O homem sem face" (1993).

E quem também surpreende em um novo caminho na carreira é o cineasta Steve Miner. Contratado depois que Sydney Pollack e John McTiernan surgirem como possíveis diretores, o homem por trás de "Sexta-feira 13 II" (1981) e "Sexta-feira 13 III" (1983) - filmes nada sutis e pouco afeitos a delicadezas - conduz "Eternamente jovem" com um tom ameno, caloroso e dotado de uma energia que remete a produções dos anos dourados de Hollywood (um tom que a trilha sonora de Jerry Goldsmith e a fotografia de Russell Boyd sublinham com extrema eficácia). Sem apelar para exageros melodramáticos mesmo que a história em si às vezes implore por isso, Miner não chega a imprimir personalidade ao resultado final, mas só o fato de não atrapalhar a história com pirotecnias desnecessárias já é mais do que admirável. Afinal de contas, o espectador que escolher assistir a seu primeiro filme romântico quer apenas isso: uma boa história, contada com respeito a seu público e uma boa dose de suspensão de realidade.

ENTRE FACAS E SEGREDOS

 


ENTRE FACAS E SEGREDOS (Knives out, 2019, Lionsgate, 130min) Direção e roteiro: Rian Johnson. Fotografia: Steve Yedlin. Montagem: Bob Ducsay. Música: Nathan Johnson. Figurino: Jenny Eagan. Direção de arte/cenários: David Crank/David Schlesinger. Produção executiva: Tom Karnowski. Produção: Ram Bergman, Rian Johnson. Elenco: Daniel Craig, Ana de Armas, Jamie Lee Curtis, Christopher Plummer, Toni Collette, Chris Evans, Don Johnson, LaKeith Stanfield, Katherine Langford, Riki Lindhome, Jaden Martell, Eddi Patterson, K Callan, Frank Oz, Noah Segan. Estreia: 07/9/2019 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

É impossível ser apresentando a Benoit Blanc sem que o personagem mais famoso de Agatha Christie venha à mente. Claramente calcado no belga Hercule Poirot - presença em 33 romances e 54 contos da escritora inglesa -, o detetive criado pelo diretor e roteirista Rian Johnson para seu "Entre facas e segredos" não envergonha sua maior fonte de inspiração: excêntrico, inteligente e sofisticado, Blanc também encontrou em Daniel Craig seu intérprete ideal e teve a suprema sorte de fazer sua primeira aparição nas telas em uma produção que consegue ser uma empolgante história de detetive, uma deliciosa comédia e um belo (ainda que descompromissado) estudo de personagens. Indicado a um merecido Oscar de roteiro original (que perdeu para o impecável "Parasita") e o pontapé inicial do que promete ser uma bem-sucedida série de filmes, "Entre facas e segredos" se beneficia ainda de um elenco impecável, que reúne nomes consagrados (Christopher Plummer, Jamie Lee Curtis), novatos promissores (Ana de Armas, Katherine Langford) e astros populares (Chris Evans, Toni Collette). Lançado no Festival de Toronto, em setembro de 2019, tornou-se um dos maiores sucessos de bilheteria do ano - com mais de 300 milhões de dólares arrecadados internacionalmente - e confirmou Johnson (de "Star Wars: os últimos Jedi") como um dos novos (e originais) talentos de Hollywood.

A trama criada por Johnson começa quando Harlan Thrombey (Christopher Plummer), famoso escritor de romances policiais, é encontrado morto no dia seguinte à festa em comemoração a seus 85 anos de idade. Apesar de todas as evidências levarem a crer que o escritor cometeu suicídio, o detetive Benoit Blanc (Daniel Craig) é misteriosamente contratado para fazer uma investigação mais aprofundada, para surpresa da disfuncional família da vítima - todos com sólidos motivos para ficarem satisfeitos com o desaparecimento do patriarca. Richard (Don Johnson), seu genro, acabara de ter um romance extraconjugal descoberto pelo sogro, que o obrigava a contar a verdade à esposa, Linda (Jamie Lee Curtis); Walt (Michael Shannon), seu filho caçula, fora demitido do cargo de responsável pela editora da família, que ocupava mesmo com conflitos de interesse com o pai; sua nora, Joni (Toni Collette), tivera desmascarado seu esquema de embolsar duas vezes o pagamento da universidade da filha adolescente; e seu neto, Ramson (Chris Evans) fora deserdado depois de um sério desentendimento. Enquanto conversa com os suspeitos e se aproxima da família, Blanc conta com a ajuda da amiga e cuidadora de Harlan, a brasileira Marta Cabrera (Ana de Armas) - que parece saber muito mais do que aparenta, mas teme por sua família de imigrantes.

 


Ao utilizar-se de vários elementos que fizeram a glória das histórias policiais clássicas - uma mansão que é parte integrante da narrativa, uma vítima de índole duvidosa, uma série de suspeitos pouco afeitos à verdade, pistas falsas, reviravoltas constantes e um detetive fascinante - "Entre facas e segredos" conquista a plateia sem muito esforço. Basta poucos minutos para que o público já esteja envolvido na trama e com sua própria versão da verdade definida - o que, logicamente, muda conforme a ação vai se desenvolvendo. A edição inteligente, que usa e abusa de flashbacks intrigantes e reveladores, é um destaque extra, ao enfatizar as várias camadas do belo roteiro. E se Daniel Craig tem a chance de um novo personagem a ser explorado em uma série de filmes - "Glass Onion" estreou em 2022 e outros capítulos devem vir com o tempo -, o elenco de coadjuvantes de peso não fica atrás. Antes de sua indicação ao Oscar pelo polêmico "Blonde" (2022), a cubana Ana de Armas apresenta um misto de carisma e inocência que justifica a atenção de Hollywood a seu nome; Jamie Lee Curtis mostra que a maturidade lhe fez muito bem; Toni Collette mais uma vez rouba a cena sempre que aparece; e Chris Evans surpreende ao explorar com sagacidade sua imagem de galã irônico e mordaz. Mérito da direção firme de Rian Johnson - com um belo timing cômico a serviço de uma boa história -, a química impecável do elenco mostra-se providencial para prender a atenção do espectador, e a direção de arte reflete visualmente as características exuberantes da trama e dos personagens, repletos de idiossincrasias e segredos.

Divertido e sagaz como os melhores livros de Agatha Christie, "Entre facas e segredos" é um presente aos fãs do gênero. Anos-luz à frente das modernas adaptações da obra da escritora dirigidos por Kenneth Branagh - que matam suas maiores qualidades em busca de um público mais afeito a redes sociais do que a telas de cinema -, o filme de Rian Johnson é a prova de que enredos espertos, diretores competentes e atores talentosos são muito mais importantes do que pretensas rupturas narrativas e visuais. Tradicional e clássico na estrutura e no desenvolvimento - mas com a agilidade do bom cinema  norte-americano comercial -, é capaz de conquistar, sem contraindicações, qualquer tipo de público que goste de ser seduzido por uma boa trama de mistério e bom-humor.

quarta-feira

MEU PRIMEIRO AMOR


MEU PRIMEIRO AMOR (My girl, 1991, Columbia Pictures/Imagine Entertainment, 102min) Direção: Howard Zieff. Roteiro: Laurice Elehwany. Fotografia: Paul Elliott. Montagem: Wendy Greene Bricmot. Música: James Newton Howard. Figurino: Karen Patch. Direção de arte/cenários: Joseph T. Garrity/Linda Allen. Produção executiva: Joseph M. Caracciolo, David T. Friendly. Produção: Brian Grazer. Elenco: Anna Chlumsky, Dan Aykroyd, Jamie Lee Curtins, Macaulay Culkin, Griffin Dunne. Estreia: 27/11/91

No começo dos anos 1990, pouca gente estava mais na crista da onda do que Macaulay Culkin. Com o sucesso estratosférico de "Esqueceram de mim" (1990) - que arrecadou inacreditáveis 470 milhões de dólares ao redor do mundo -, o pequeno astro, então com apenas dez anos de idade era visto como uma mina de ouro, pelos estúdios e, como se soube mais tarde, principalmente pela família. Portanto, não chegou a surpreender que "Meu primeiro amor", uma comédia romântica infantojuvenil apenas simpática e sem grandes nomes no elenco tenha se tornado um êxito comercial tendo seu nome como principal chamariz. Mesmo sem o mesmo impacto de seu filme anterior - um fenômeno mundial que lhe rendeu até mesmo uma indicação ao Golden Globe -, a produção dirigida pelo pouco inspirado Howard Zieff confirmou seu status dentro da indústria (que seria ainda reforçado por "Esqueceram de mim 2" e "O anjo malvado") e, de quebra, levou milhares de fãs às lágrimas com sua história de amizade, amadurecimento e perdas. O que nem todo mundo percebeu, no entanto - ao menos na época do lançamento - é que, apesar de Culkin ter sido o principal ponto de interesse do filme, seu maior destaque atendia pelo nome de Anna Chlumsky. É ela que, tão jovem quanto seu colega mais famoso, carrega, com seu carisma e talento, a responsabilidade de encantar e emocionar as plateias - adulta e juvenil - com a história de Vada Sultenfuss.

No verão de 1972, Vada tem onze anos de idade e vive sozinha com o pai, Harry (Dan Ayckroyd), em uma pequena cidade da Pensilvânia. Esperta, hipocondríaca e alvo do despeito das meninas de sua idade, ela encontra consolo nas aulas de seu professor de Inglês, Mr. Bixler (Griffin Dunne), e em suas tardes com o melhor amigo, Thomas Sennett (Macaulay Culkin), também pouco popular e solitário. Órfã de mãe e obcecada com qualquer assunto relacionado à morte - em parte devido ao fato de seu pai ser dono de uma casa funerária -, Vada sofre com a falta de uma figura materna, mas vê sua rotina ser transformada com a chegada da excêntrica Shelley Devoto (Jamie Lee Curtis): contratada como maquiadora dos cadáveres/clientes de Harry, ela logo se torna interesse romântico do desajeitado viúvo e a nova configuração familiar abala o até então tranquilo cotidiano da menina, também em fase de autodescobertas. A princípio relutante em ter que dividir o amor do pai com outra mulher, Vada vai aos poucos percebendo que crescer muitas vezes é um processo doloroso, com perdas inevitáveis - ao mesmo tempo em que novas relações surgem e podem deixar o caminho menos árduo.

 

Lançado com o duvidoso título de "Meu primeiro amor" como forma de capitalizar em cima da presença bastante coadjuvante de Macaulay Culkin - ainda que seu nome original não seja exatamente um primor de criatividade, sendo apenas mais um exemplar de filmes batizados depois de sucessos musicais -, o filme de Howard Zieff não se limita apenas à história do pueril e encantador relacionamento entre Vada e Thomas, por mais que o marketing tenha se esmerado em explorá-lo e a memória afetiva do público assim o tenha percebido. A jovem protagonista, defendida com garra por Anna Chlumsky, tem o verão como rito de passagem, uma ponte de amadurecimento que vai além de um beijo rápido à beira de um lago. Nos poucos meses nos quais a história é contada, ela experimenta também a decepção romântica e ingênua com o professor adulto, o fato de que a solidão compulsória de seu pai tem data de vencimento, a percepção de que novas amizades podem estar onde menos se espera e, golpe de misericórdia, o encontro com a morte como algo bem mais palpável e cruel do que aquilo que, de certa forma, fazia parte de seu cotidiano. O roteiro não chega a aprofundar nenhuma dessas questões - afinal de contas, é apenas um filme com pretensões comerciais estrelado por duas crianças -,  mas sua evidente sinceridade em tratar de relações humanas torna impossível não se deixar comover. Para isso ajuda o frescor do elenco - não apenas o infantil, mas também o adulto, liderado por Dan Aykroyd e Jamie Lee Curtis (reunidos oito anos depois do sucesso de "Trocando as bolas").

Vindo do fracasso retumbante de "Nada além de problemas" (1991) - que estrelou e dirigiu, Dan Aykroyd demonstra, em suas cenas, uma mescla bem equilibrada de sensibilidade e humor. Escolhido pelo produtor Brian Grazer depois que Steve Martin e Bill Murray recusaram o papel por causa de outros compromissos - e pelas dúvidas sobre a capacidade de Chevy Chase de realizar um bom trabalho dramático -, Aykroyd se situa no meio do caminho entre duas forças femininas de gerações distintas. Enquanto Chlmusky representa a inocência infantil, Jamie Lee Curtis oferece um lado sensual, maduro e maternal - uma figura que irá, definitivamente, moldar a persona adulta de Vada e colocar nos eixos uma estrutura familiar capenga. E é justamene do crescimento emocional da menina - o que inclui, logicamente, o tal primeiro do amor do título brasileiro - que se trata o filme de Zieff, e nesse ponto pode-se dizer que, se não é uma obra-prima, ao menos ele é honesto e delicado. Não à toa, tornou-se filme conforto de milhares de espectadores através dos anos.

terça-feira

FEROCIDADE MÁXIMA


FEROCIDADE MÁXIMA (Fierce creatures, 1997, Universal Pictures, 93min) Direção: Robert Young, Fred Schepsi. Roteiro: John Cleese, Iain Johnstone, ideia "The Fierce Animal Policy", de Terry Jones e Michael Palin. Fotografia: Ian Baker, Adrian Biddle. Montagem: Robert Gibson. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Hazel Pethig. . Direção de arte/cenários: Roger Murray-Leach/Peter Howitt, Stephenie McMillan, Brian Read. Produção executiva: Steve Abbott. Produção: John Cleese, Michael Shamberg. Elenco: Kevin Kline, Jamie Lee Curtis, John Cleese, Michael Palin. Estreia: 23/01/97

Em 1988, o mundo foi tomado de assalto por uma comédia despretensiosa que, unindo o senso de humor nonsense do grupo britânico Monthy Phyton com o cinismo norte-americano, conquistou público (com uma renda acima de 60 milhões de dólares de arrecadação) e a crítica (com três indicações ao Oscar, incluindo direção e roteiro original, levou pra casa a estatueta de ator coadjuvante). "Um peixe chamado Wanda" mesclava, de forma inteligente e ácida, piadas verbais e visuais com uma velocidade estonteante, deu à Jamie Lee Curtis um dos melhores papéis de sua carreira e mostrou às plateias a veia cômica de Kevin Kline, até então celebrado por papéis dramáticos em filmes como "A escolha de Sofia" (1982) , "O reencontro" (1983) e "Um grito de liberdade" (1987). Desde então, entusiasmados com o êxito, os fãs da produção tinham apenas uma pergunta em mente: "quando eles irão se reunir novamente?" Demorou, mas aconteceu. Quase uma década depois, estreava nos cinemas "Ferocidade máxima". A notícia boa: quase todo mundo da equipe original estava de volta (com exceção do diretor Charles Crichton). A notícia ruim: apesar de algumas boas ideias e do talento inquestionável de todos os envolvidos, o filme não apresentava o mesmo frescor de "Um peixe" e naufragou solenemente nas bilheterias mesmo com as mudanças exigidas depois de uma série de exibições-teste.

Talvez o maior problema no caminho de "Ferocidade máxima", além da tentativa de emplacar um filme de piada única estendida à exaustão, tenha sido o excesso de expectativas. Depois de quase dez anos de espera, o público estava ávido por gargalhar à exaustão com as novas besteiras da trupe capitaneada por John Cleese e Michael Palin - este com um papel ainda menor do que o que lhe coube em "Um peixe chamado Wanda". O que encontrou foi o resultado de uma produção problemática, que necessitou de refilmagens depois de pronta - com um novo diretor, Fred Schepsi - e estreou quase um ano depois da data programada. Dotado de algumas cenas realmente engraçadas - em especial aquelas que envolvem o mal-entendido a respeito das aventuras sexuais de Rollo Lee (Michael Palin) - e uma ideia central das mais inusitadas, o filme assinado por Robert Young deixa a desejar principalmente devido à irregularidade do roteiro, que não permite ao espectador se envolver suficientemente com os personagens, e à direção sem os toques de genialidade de Charles Crichton - indicado ao Oscar por "Um peixe chamado Wanda" e deixado de fora do novo filme pela idade avançada de 84 anos de idade, o que prejudicaria o sinal verde para o projeto). Kevin Kline - que ganhou um merecido Oscar pelo filme anterior - faz papel duplo, mas está longe de sua melhor forma, prejudicado por personagens pouco simpáticos, e Jamie Lee Curtis tampouco é explorada em todo o seu potencial, sendo relegada quase a segundo plano. Resta John Cleese, que arranca o máximo de cada cena, utilizando sua experiência de décadas para valorizar cada diálogo e gesto. 

A trama central é um achado: um poderoso e irascível empresário, Rod McCain (Kevin Kline), acaba de comprar, dentro de um de seus vários negócios, um zoológico londrino, o London Marwood Zoo, e contrata para dirigí-lo o tímido e desajeitado Rollo Lee (John Cleese), que tem a dura missão de encontrar uma maneira de aumentar a lucratividade do local. Lee tem a ideia de acabar com os animais dóceis e dedicar o zoológico apenas a feras de alta periculosidade, o que imediatamente causa revolta nos funcionários mais antigos, principalmente no veterano Adrian Malone (Michael Palin), que vê na novidade o risco de perder o emprego. As coisas ficam ainda mais complicadas quando chegam a Londres o filho de Rod, o frívolo Vince (também Kevin Kline) e a sensual Willa Carter (Jamie Lee Curtis), recém-contratada para trabalhar com Lee - por quem se sente surpreendentemente atraída ao julgá-lo um sedutor contumaz. Juntos, Vince e Willa irão testemunhar a batalha dos funcionários, capazes de qualquer coisa para provar que até mesmo os coelhinhos do zoológico são ferozes e perigosos.

Algumas cenas de "Ferocidade máxima" são sensacionais: ao descobrir a armação dos empregados, Lee tenta desmascará-los à custa de uma visitante ferida do zoológico; Willa e Vince ouvem Lee falando com os animais que resgatou e julgam que ele está acompanhado de várias mulheres; uma aranha venenosa escapa enquanto Malone está escondido em um armário para gravar conversas comprometedoras. Infelizmente elas não são o bastante para fazer de "Ferocidade máxima" um sucessor à altura de "Um peixe chamado Wanda", cuja estrutura era muito mais firme e redonda. O elenco ainda é seu maior trunfo - apesar de nem sempre ser completamente explorado -, mas a direção carece de inventividade. Ficam patentes a confusão de bastidores, a troca de diretores, a indecisão do roteiro em focar no zoológico ou nos problemas entre os McCain. É uma pena que todo o potencial da produção não tenha sido atingido e que não tenha se tornado mais um clássico instantâneo. É uma boa comédia, capaz de arrancar uma ou outra gargalhada - mas em comparação com seu antecessor, não deixa de ser decepcionante, apesar de suas qualidades óbvias. 

sábado

SEXTA-FEIRA MUITO LOUCA

SEXTA-FEIRA MUITO LOUCA (Freaky friday, 2003, Walt Disney Pictures, 97min) Direção: Mark Waters. Roteiro: Heather Hach, Leslie Dixon, romance de Mary Rodgers. Fotografia: Oliver Wood. Montagem: Bruce Green. Música: Rolfe Kent. Figurino: Genevieve Tyrrell. Direção de arte/cenários: Cary White/Barbara Haberecht. Produção executiva: Mario Iscovich. Produção: Andrew Gunn. Elenco: Jamie Lee Curtis, Lindsay Lohan, Mark Harmon, Harold Gould, Chad Michael Murphy, Stephen Tobolowski, Ryan Malgarini, Willie Garson. Estreia: 06/8/03

Essa história já foi contada e recontada tantas vezes que é difícil entender como algum estúdio tem a coragem de insistir em apresentá-la de tempos em tempos. Muda-se o diretor, o elenco e algum elemento da trama central, mas o essencial, de tão conhecido do grande público já é uma espécie de domínio público. O que levou, então, essa enésima versão da troca de corpos entre mãe e filha a arrecadar mais de 160 milhões de dólares no mercado americano? Levando-se em consideração o ano de  lançamento de "Sexta-feira muito louca" - 2003 - só um nome explica o sucesso: Lindsay Lohan.

Antes de tornar-se um problema para os estúdios, envolvendo-se em escândalos que pouco a pouco foram minando a sua carreira, a jovem Lindsay Lohan parecia ter um futuro brilhante em terras hollywoodianas. Aos 11 anos estrelou a versão anos 90 de "Operação cupido" (na pele de duas irmãs gêmeas criadas separadamente que resolvem juntar seus pais) e o sucesso do filme serviu para que os estúdios Disney passassem a considerá-la a nova Jodie Foster (que não por acaso também começou a carreira no mesmo tipo de filme, estrelou uma versão de "Sexta-feira muito louca" nos anos 70 e recusou o papel de mãe nessa versão século XXI). O apelo de Lohan junto ao público jovem foi comprovado com a enorme bilheteria do filme de Mark Waters (com quem voltaria a reunir-se em seguida em outro êxito, "Meninas malvadas"), que acabou até mesmo rendendo à Jamie Lee Curtis uma indicação ao Golden Globe de melhor atriz em comédia/musical do ano.



Na verdade, apesar de Lohan ser talentosa e carismática, é Lee Curtis quem realmente faz de "Sexta-feira muito louca" um programa divertido e agradável. Mesmo que nunca almeje mais do que ser uma sessão da tarde descerebrada, o filme de Waters proporciona à filha de Tony Curtis e Janet Leigh mais uma possibilidade de mostrar que quando tem um bom papel nas mãos é capaz de transformar qualquer bobagem em um produto palatável e acima da média. Foi assim em "Um peixe chamado Wanda" e em "True lies", onde roubou a cena de Arnold Schwarzenegger e faturou um merecidíssimo Golden Globe. É assim também aqui, onde ela demonstra divertir-se como nunca na pele de Tess Coleman, uma workaholic que, às vésperas de seu segundo casamento, acorda no corpo de Anna, sua filha adolescente.

Como acontece a troca de corpos que dá início à ação é o de menos: naquele tipo de situação que ocorre somente em filmes hollywoodianos, mãe e filha discutem em um restaurante chinês e, graças a um biscoito da sorte oferecido a elas pela velha proprietária do lugar, transmutam-se uma na outra justamente em um dia crucial de suas vidas: não apenas Tess vai casar-se com o charmoso Ryan (Mark Harmon) como Anna tem a grande chance de classificar sua banda de rock para um concurso de grandes proporções - além de justamente nesse dia seu grande amor, Jake (Chad Michael Murray), resolver procurá-la.

"Sexta-feira muito louca" não oferece nada mais do que um bom par de horas de divertimento saudável e com o carimbo Disney. É uma sessão da tarde típica, para assistir-se deitado no sofá, com um balde de pipocas e uma lata de refrigerante nas mãos. A química entre Jamie Lee Curtis e Lindsay Lohan é perfeita, há piadas realmente engraçadas e nada é muito crível. Mas nem sempre é necessário ser sério, não é verdade?

segunda-feira

TRUE LIES

TRUE LIES (True lies, 1994, 20th Century Fox/Lighstorm Entertainment, 141min) Direção: James Cameron. Roteiro: James Cameron, basedo no roteiro "La totale", de Claude Zidi, Simon Michael, Didier Kaminka. Fotografia: Russell Carpenter. Montagem: Conrad Buff, Mark Goldblatt, Richard A. Harris. Música: Brad Fiedel. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Peter Lamont/Cindy Carr. Produção executiva: Lawrence Kasanoff, Rae Sanchini, Robert Shriver. Produção: Stephanie Austin, James Cameron. Elenco: Arnold Schwarzenegger, Jamie Lee Curtis, Tom Arnold, Bill Paxton, Tia Carrére, Charlton Heston, Art Malik, Grant Heslov. Estreia: 15/7/94. Bilheteria EUA: U$ 146.261.000

Indicado ao Oscar de Efeitos Visuais
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Comédia/Musical (Jamie Lee Curtis)

Em 1994 a carreira de Arnold Schwarzenegger estava por um fio. O fracasso comercial de "O último grande herói", em que ele brincava com sua imagem de astro de filmes de ação o havia colocado em uma situação delicada dentro de uma indústria onde tudo é medido por dólares. Para recuperar seu prestígio - e uma bilheteria respeitável - ele reuniu-se ao cineasta que melhor havia sabido lidar com seu talento dramático limitado em seus maiores êxitos financeiros, os dois capítulos iniciais de "O exterminador do futuro". Com James Cameron na direção e Schwarza na liderança do elenco não havia como "True lies" dar errado. E não deu. Mesmo com um orçamento de 120 milhões de dólares, a refilmagem da desconhecida comédia francesa "La totale" - obviamente inchada com efeitos visuais de primeira qualidade - devolveu ao ator seu status de grande herói das telas, além de ter brindado o público com um dos mais divertidos filmes de sua carreira.

Brincando de James Bond, Schwarzenegger tem em "True lies" seu melhor papel, no qual ele consegue ultrapassar suas limitações e atingir um patamar inédito em sua carreira. Como Harry Tasker, um agente secreto do governo americano envolvido em uma perigosa trama de terrorismo nuclear, o monossilábico Exterminador não apenas explode automóveis, mas anda a cavalo pelo Central Park (e dentro de um elevador), pilota um avião de caça, fala árabe e dança tango. Tudo enquanto tenta salvar seu casamento.

Tasker é um agente do governo americano que esconde até mesmo da família sua verdadeira profissão. Sob o disfarce de um tedioso vendedor de computadores, ele leva uma vida repleta de adrenalina enquanto sua esposa, Helen (Jamie Lee Curtis) acredita que ele é um burocrata sonolento. Durante um de seus perigosos trabalhos, no entanto, Harry descobre que sua mulher está se envolvendo com outro homem, em busca de mais emoção para sua vida. Para salvar seu casamento, ele inventa uma missão para ela, mas eles acabam tendo que lidar de verdade com uma ameaça de terroristas árabes.


"True lies" é tudo que o cinema de entretenimento holywoodiano pode oferecer. É divertido do início ao fim, equilibrando com maestria sequências de ação realmente empolgantes com momentos extremamente engraçados. Jamie Lee Curtis - merecidamente premiada com o Golden Globe de melhor atriz em comédia ou musical - rouba a cena descaradamente, explorando cada diálogo e cada possibilidade de sua personagem. A cena em que Helen precisa forjar um striptease, por exemplo, é um primor de bom humor e tanto Curtis quanto Schwarzenegger deitam e rolam na pele de personagens que parecem feitos sob medida.  Tom Arnold e Bill Paxton, em papéis coadjuvantes, também colaboram para o alto astral do filme que, mesmo falando sobre assuntos um tanto polêmicos jamais deixa de ser o que se propõe: uma aventura delirante, alucinante e muito, muito cara.

O orçamento milionário de "True lies", ao contrário do que acontece em muitos filmes, é plenamente justificável quando se assiste a cada uma de suas cenas. Cada centavo gasto por Cameron - um cineasta com grande tendência à megalomania - é visível nas telas. Os 120 milhões gastos - que dariam para produzir quase quatro filmes como "Velocidade máxima" - nunca parecem supérfluos nas mãos de Cameron, que cuida de cada detalhe com mão de ferro. Pode ser um inferno para quem trabalha com ele, mas para o público que assiste a seus filmes, esse detalhismo todo faz toda a diferença.

É impossível não gostar de "True lies". Quem procura uma comédia irá dar altas gargalhadas com as desventuras do casal Tasker. Quem busca um filme de ação ficará grudado na poltrona ao assistir sequências criativas e aparentemente impossíveis. E quem gosta de esquecer dos problemas por duas horas de duração vai ter 140 minutos da diversão mais competente que o dinheiro pode comprar. Se todos os filmes de ação fossem como "True lies" o mundo seria um lugar mais inteligente.

quinta-feira

UM PEIXE CHAMADO WANDA


UM PEIXE CHAMADO WANDA (A fish called Wanda, 1988, MGM Pictures, 108min) Direção: Charles Crichton. Roteiro: John Cleese, história de John Cleese e Charles Crichton. Fotografia: Alan Hume. Montagem: John Jympson. Música: John Du Prez. Figurino: Hazel Pethig. Direção de arte/cenários: Roger Murray-Leach/Stephanie McMillan. Casting: Priscilla John. Produção executiva: Steve Abbott, John Cleese. Produção: Michael Shamberg. Elenco: John Cleese, Jamie Lee Curtis, Kevin Kline, Michael Palin, Maria Aitken. Estreia: 07/7/88

3 indicações ao Oscar: Diretor (Charles Crichton), Ator Coadjuvante (Kevin Kline), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Kevin Kline)


Nada como um time de gênios ingleses para criar uma comédia inteligente e que não apela para palavrões, adolescentes tarados e mulheres nuas. Boa parte da equipe dos enlouquecidos membros do Monthy Phyton esté por trás de “Um peixe chamado Wanda”, uma das mais espetaculares comédias de todos os tempos. E não, não existe um único adolescente em todos os 108 minutos de projeção.

O filme começa com um aparentemente bem-sucedido roubo a uma joalheria. Aparentemente porque o mentor do crime, o inglês almofadinha George Thomason acaba preso, delatado por sua amante, a bela e sexy americana Wanda (Jamie Lee Curtis, deitando e rolando com sua personagem amoral). Wanda na verdade tem um tórrido caso amoroso com Otto (Kevin Kline), que ela mente ser seu irmão, e quer o produto do roubo, uma carga de diamantes só pra eles. O problema é que a única pessoa que pode saber onde estão as jóias é o advogado do mandante, o rígido e desajeitado Archie Leach (o hilariante John Cleese). Aproveitando-se do fascínio que desperta no advogado, Wanda resolve seduzi-lo, para desespero do ciumento Otto, que tem a missão de vigiar o outro integrante do grupo, o gago Kevin (Michael Palin).


O humor de "Um peixe chamado Wanda" é inteligente mas nunca hermético. É anarquista mas nunca político. É sexy, mas nunca vulgar. E é, acima de tudo, uma vitória do humor inglês, sempre sarcástico e irônico. Seja na relação complicada entre Wanda e Archie, com seus encontros desastrados, seja na conduta incoerente de Otto, que lê Nietzsche mas não entende o essencial, seja nas tentativas frustradas de Kevin de eliminar a principal testemunha ocular do roubo, todas as subtramas do roteiro de John Cleese (perfeito em seu constrangimento tipicamente britânico) confluem para uma coesão rara no gênero.

É difícil dizer o que funciona melhor nessa verdadeira obra-prima do humor. O roteiro, impecável, aproveita todas as brechas possíveis para fazer rir, seja nas gritantes diferenças culturais entre americanos e ingleses, seja nas inúmeras reviravoltas que a históra sofre, sempre levando a trama para um final pouco óbvio e absurdo. O elenco beira a perfeição: se os integrantes do Monthy Phyton há muito tempo não precisam provar que sabem fazer humor como poucos são os americanos Jamie Lee Curtis e Kevin Kline que surpreendem. Jamie usa e abusa dos recursos que sua personagem, distante anos-luz de sua baby-sitter de “Halloween”, lhe proporciona e Kline, um respeitado ator canadense de teatro brinca com a própria imagem de sedutor e acabou levando o merecido Oscar de ator coadjuvante, batendo nomes como Alec Guiness e Martin Landau.

O único problema de “Um peixe chamado Wanda” é que, quando ele acaba fica-se com a sensação de que todas as outras comédias que Hollywood insiste em produzir são extremamente sensaboronas.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...