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segunda-feira

INTRIGAS DE ESTADO

INTRIGAS DE ESTADO (State of play, 2009, Universal Pictures/Working Title Films, 127min) Direção: Kevin MacDonald. Roteiro: Matthew Michael Carnahan, Tony Gilroy, Billy Ray, série de televisão de Paul Abbott. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Justine Wright. Música: Alex Heffes. Figurino: Jacqueline West. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Cheryl Carasik. Produção executiva: Paul Abbott, Liza Chasin, Debra Hayward, E. Benneth Walsh. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Andrew Hauptman. Elenco: Russell Crowe, Ben Affleck, Rachel McAdams, Helen Mirren, Robin Wright, Jason Bateman, Jeff Daniels, Viola Davis, David Harbour. Estreia: 17/4/09

Na falta de bons roteiros originais, ou ao menos na falta de coragem de investir em ideias novas, Hollywood constantemente volta sua atenção para materiais já previamente testados, seja em livros, histórias em quadrinhos ou até mesmo em clássicos queridos pelo público. Nessa ânsia por encontrar boas histórias, nem ao menos programas de televisão são poupados. Um exemplo dessa afirmação é "Intrigas de estado", uma produção de primeira linha, com atores famosos e consagrados, um estúdio tradicional (Universal Pictures) e um diretor promissor que tem origem em uma série da BBC inglesa, levada ao ar em 2003. Com uma sutil mudança em um crucial detalhe da trama - substituiu-se uma companhia de petróleo por uma agência militar - e a tentativa de condensar seis episódios em palatáveis duas horas de duração, o filme de Kevin MacDonald (de "O último rei da Escócia", que deu o Oscar de melhor ator a Forest Whitaker em 2007), o filme acabou por passar quase em branco nos EUA e não conquistar nem mesmo a boa vontade da crítica, apesar de contar com um elenco de primeira e com um tema bastante inflamável em um país ainda em estado de nervos com os constantes conflitos no Oriente Médio.

Aliás, o escocês Kevin MacDonald nem foi a primeira escolha do estúdio para comandar "Intrigas de estado", cuja pré-produção foi uma verdadeira dança das cadeiras. O primeiro nome cotado para a direção foi o de Edward Zwick, que nem chegou a manter-se por muito tempo no cargo. Antes de MacDonald finalmente assinar com o estúdio, nomes tão díspares quanto Ang Lee, Richard Linklater, Jim Jarmusch e Brian DePalma foram sondados - e, obviamente, cada um deles certamente daria um enfoque e um estilo diferentes ao roteiro. Com um cineasta como MacDonald (competente mas sem a força suficiente para chamar público por si só) à frente do projeto, apenas um elenco de peso poderia equilibrar as coisas - e nesse ponto nenhum produtor estava disposto a brincadeiras. A princípio o filme reuniria Brad Pitt e Edward Norton quase dez anos depois de seu cultuado "Clube da luta" (1999), o que imediatamente acendeu o interesse de todo mundo. Porém, uma greve de roteiristas tirou Pitt do filme (o ator queria que partes do roteiro fossem reescritas) e o atraso acabou por também afastar Norton. Ben Affleck imediatamente embarcou em seu lugar, mas antes que Russell Crowe assumisse o lugar de Brad, outros astros foram cogitados para o papel - mais precisamente Nicolas Cage, Johnny Depp e Tom Hanks. Com Robin Wright (ainda Penn) e Rachel McAdams nos principais papéis femininos e Helen Mirren substituindo o conterrâneo Bill Nighy na pele da editora-chefe do Washigton Globe, tudo parecia garantir uma vitória certa. Porém, a bilheteria tímida de pouco mais de 37 milhões de dólares no mercado doméstico mostrou que nem sempre uma receita de sucesso funciona como o esperado. E nesse caso específico, somente a aversão das plateias a qualquer trama remotamente ligada às guerras do governo Bush pode explicar.


Não há nada de flagrantemente errado em "Intrigas de estado": o roteiro é inteligente e com um bom número de reviravoltas; a direção de MacDonald é sóbria e competente (ainda que sem brilho); o elenco é homogêneo (apesar das caras e bocas de Ben Affleck) e o ritmo é eficiente, mérito da edição ágil de Justine Wright, da fotografia precisa de Rodrigo Prieto e da trilha sonora de Alex Heffes. Então por que a receptividade tão morna (ou até mesmo fria)? Talvez seja mesmo o fato de que produções que tem as guerras no Oriente Médio nunca conquistarem boas bilheterias - nem mesmo quando juntam um time como Matt Damon e o diretor Paul Greengrass, que apesar do sucesso de seus filmes sobre Jason Bourne amargaram o naufrágio de "Zona verde" em 2010. Mas é também preciso reconhecer que, apesar da reunião de talentos e da história instigante, "Intrigas de estado" é um filme apenas correto, sem aquele tempero que transforma um mero entretenimento em um filme inesquecível. Talvez seja a falta de química entre Russell Crowe (ótimo ator mas em modo piloto automático) e Ben Affleck (péssimo ator que mata a dubiedade de seu personagem graças às suas limitações dramáticas). Talvez seja o foco confuso - afinal, qual das tramas é realmente a mais importante? Ou talvez seja mesmo porque a história simplesmente falha em cativar o interesse da plateia e seus personagens sejam desprovidos de qualquer carisma.

O filme até que começa bem: pelas ruas de Washington, um homem é perseguido por outro e, quando finalmente se vê encurralado, morre a tiros. Um ciclista que passava no local também é atingido pelo criminoso e, no dia seguinte, a jovem Sonia Baker (Maria Thayer) morre em um misterioso acidente no metrô da cidade. Sua morte é manchete, uma vez que ela fazia parte de uma comissão que investigava a fundo uma empresa privada em vias de tornar-se a responsável pela segurança militar dos EUA. Seu trágico e inesperado fim também revela um romance secreto com Stephen Collins (Ben Affleck), um senador casado que é um dos principais integrantes da comissão. O "acidente" chama a atenção da jovem e ambiciosa repórter Della Frye (Rachel McAdams), que vê no caso a oportunidade de mudar de status dentro do Washington Globe. Para isso, ela conta com a ajuda do veterano Cal McAffrey (Russell Crowe), que, não apenas tem interesse jornalístico no caso: ele é amigo pessoal de Collins - e viveu um apaixonado romance com a esposa dele, Ann (Robin Wright Penn). Conforme as investigações avançam, McAffrey chega à conclusão de que terá de decidir entre acreditar ou não no velho amigo, que pode ter muito mais responsabilidade nas mortes do que aparenta.

A questão é: vale a pena gastar duas horas assistindo a "Intrigas de estado"? Sim e não. O produto final é um filme obviamente bem produzido, com uma equipe acima de qualquer suspeita e uma história com desdobramentos certamente surpreendente - em especial ao espectador menos escolado. Porém, o filme soa frio, quase distante da audiência, sem um personagem no qual o público pode se espelhar. Mesmo o heroico jornalista vivido por Russell Crowe não consegue conectar-se com a plateia, em parte pela quase antipatia que o ator neozelandês transmite no papel. Rachel McAdams faz o que pode com uma personagem bem chatinha, e Ben Affleck é o Ben Affleck de sempre, com uma gama de nuances rasa e apática. Só mesmo as presenças de Helen Mirren e Robin Wright conseguem sobressair-se - mesmo em papéis pequenos as duas atrizes são uma delícia de ver.

quinta-feira

O PRESENTE

O PRESENTE (The gift, 2015, Blumhouse Productions, 108min) Direção e roteiro: Joel Edgerton. Fotografia: Eduard Grau. Montagem: Luke Doolan. Música: Danny Bensi, Saunder Jurriaans, Figurino: Terry Anderson. Direção de arte/cenários: Richard Sherman/Matthew Flood Ferguson. Produção executiva: Jeanette Brill, Luc Etienne, Couper Samuelson, Donald Tang. Produção: Jason Blum, Joel Edgerton, Rebecca Yeldham. Elenco: Jason Bateman, Rebecca Hall, Joel Edgerton, Allison Tolman, Tim Griffin, Busy Phillips. Estreia: 30/7/15

Mais conhecido como o irmão de Tom Hardy - professor e lutador nas horas vagas - em "Guerreiro" (2011), o rival de Leonardo DiCaprio em "O grande Gatsby" (2013) e Ramsés na versão de Ridley Scott da história de Moisés em "Êxodo: Deuses e Reis" (2015), o australiano Joel Edgerton surpreendeu em sua estreia atrás das câmeras. Nadando contra a corrente de atores tornado diretores em superproduções mirando o Oscar, ele preferiu contar uma história simples e minimalista em um gênero considerado pouco nobre pela crítica: o suspense. Longe da pressão de um grande estúdio e sem pretensão de criar uma obra-prima, ele lançou "O presente", uma gratíssima surpresa aos fãs de thrillers psicológicos que substituem o sangue pela tensão. Sem apelar para sustos constantes (conta-se uns dois, em momentos apropriados), o ator/diretor/roteirista/produtor demonstra total domínio das ferramentas do gênero, oferecendo muito mais à plateia do que se poderia imaginar vindo de um estreante.

Ciente das dificuldades e armadilhas de atuar como diretor e ator no mesmo filme, Edgerton fez a opção correta em deixar o protagonista nas mãos de Jason Bateman, surpreeendente em um papel dramático. Bateman vive Simon Callum, um bem-sucedido executivo que chega à Califórnia junto com a esposa, Robyn (Rebecca Hall), com a intenção de conquistar uma sonhada promoção e para construir uma família - algo que vem sendo extremamente difícil para o casal. Assim que chegam em sua nova cidade (onde Simon morou até a juventude, quando mudou-se para a universidade em Chicago) eles encontram com Gordon Mosely (Edgerton, em um papel que não lhe exigiu mais de duas semanas de filmagens). Amigo de infância de Simon, Gordon é um homem estranho, reservado e aparentemente solitário, mas que se mostra disponível e generoso na adaptação do amigo e da esposa na nova realidade. Sua presença constante começa a parecer ameaçadora quando ele descobre ser alvo de uma espécie de deboche e desprezo por parte de Simon, e aos poucos Robyn passa a desconfiar de que algo mais grave se esconde por trás de sua gentileza. Investigando por conta própria, ela descobre um passado que explicará muitas das atitudes do novo amigo - e do marido.


Com uma trama envolvente, que vai sendo revelada aos poucos, conforme Robyn vai chegando à verdade sobre quem é o real vilão da história - e as cartas se embaralham constantemente em suas mãos - o roteiro de "O presente" vai conduzindo o espectador por um exercício de constante aflição, uma vez que, desde as primeiras cenas, existe uma atmosfera sombria que contrasta com a delicadeza de Gordon e a felicidade conjugal de Simon e Robyn. Um diretor inteligente e sensível, Edgerton jamais se deixa optar pelo caminho mais fácil, obrigando o público a compreender junto com os personagens todos os desdobramentos do enredo, que vão muito além de um joguinho de gato e rato. Com os dois pés fincados na realidade, o filme torna-se mais assustador na medida em que todas as ações cometidas por seus protagonistas sofrem reações cada vez mais perigosas - e sempre bastante
verossímeis. Edgerton constrói um Gordon Mosely desconfortável, sinistramente tranquilo e generoso, com requintes de um grande ator físico: de lentes de contato castanhas que disfarçam seus olhos azuis e o cabelo tingido de um tom mais escuro que seu louro natural, ele impressiona pela sinceridade que imprime no personagem, enquanto Jason Bateman, conhecido por seu trabalho em comédias, funciona à perfeição como um homem aparentemente comum que vê seus esqueletos saírem do armário justamente quando deveriam ficar escondidos. Rebecca Hall às vezes exagera na atuação, mas está tão bem amparada pelos colegas que seus escorregões são facilmente perdoáveis.

Dirigido por destreza, com sua câmera invadindo discretamente a bela casa do casal Callum com um voyeur, "O presente" satisfaz justamente por não prometer mais do que pode cumprir. Joel Edgerton entrega, em sua estreia, exatamente o que se poderia esperar de um suspense de carpintaria dramática simples mas eficiente: uma boa dose de tensão, personagens bem construídos, alguns sustos nos momentos certos e um desfecho angustiante, que reflete a extensão que os traumas do passado deixam em seres mais sensíveis. Só por fugir do batido clímax de confronto armado entre os dois protagonistas já merece aplausos entusiasmados, mas é muito mais do que isso. "O presente" é um pequeno grande filme que aponta para voos maiores na carreira de Edgerton como diretor. Bravo!

segunda-feira

JUNO

JUNO (Juno, 2007, Fox Searchlight Pictures/Mandate Pictures, 96min) Direção: Jason Reitman. Roteiro: Diablo Cody. Fotografia: Eric Steelberg. Montagem: Dana E. Glauberman. Música: Mateo Messina. Figurino: Monique Prudhomme. Direção de arte/cenários: Steve Saklad/Shane Vieau. Produção executiva: Joe Drake, Daniel Dubiecki, Nathan Kahane. Produção: Lianne Halfon, John Malkovich, Mason Novick, Russell Smith. Elenco: Ellen Page, Michael Cera, Jason Bateman, Jennifer Garner, Allison Janney, J.K. Simmons, Olivia Thirlby, Rainn Wilson. Estreia: 01/9/07 (Festival de Telluride)

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Jason Reitman), Atriz (Ellen Page), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Roteiro Original 

Na cerimônia do Oscar 2008, uma adolescente de 16 anos, articulada e irônica, grávida por acidente e decidida a ceder seu bebê a um casal sem filhos, atropelou, na concorrência à estatueta de roteiro original, um drama cerebral sobre um faz-tudo de uma firma de advogados, a história de um casal de irmãos disfuncionais lidando com a morte do pai, o romance entre um rapaz tímido e sua boneca de silicone e as aventuras de um ratinho que sonhava ser chef de cozinha. "Juno", escrito pela ex-stripper Diablo Cody e dirigido por Jason Reitman - do ácido "Obrigado por fumar" - acabou por tornar-se, desde sua estreia em setembro de 2007, o filme de maior bilheteria até então da independente Fox Searchlight Pictures, com uma renda acima de 100 milhões de dólares. Sarcástica e inteligente, a produção de Reitman conquistou público, crítica e a Academia de Hollywood, que, além do prêmio de roteiro, indicou-o também nas categorias de filme, direção e atriz - a encantadora Ellen Page, que já havia demonstrado do que era capaz com o embate com Patrick Wilson em "Menina má.com".

Juno McGuff, a protagonista interpretada por Page, é uma adolescente atípica - apesar das críticas da época louvarem o seu jeito "moderno" de comunicar-se: esperta, quase independente e senhora de si, ela se surpreende com a notícia de estar esperando um filho de um namorado hesitante, seu colega de banda e atleta amador Paulie Bleeker (Michael Cera), mas, ao invés de experimentar a sensação de drama e desamparo esperados, mostra-se de um extremo pragmatismo. Com o apoio de Leah (Olivia Thirlby), sua melhor amiga, ela comunica o fato ao pai e à madrasta - J.K. Simmons e Allison Janney - já com a solução do problema em mãos: não apenas já fez a cabeça quanto à doar o bebê assim que ele nascer como sabe até mesmo quais serão os felizardos receptores da mercadoria. O problema é que, por mais ansiosa que esteja em tornar-se mãe, a dona-de-casa Vanessa Loring (Jennifer Garner) não gosta nem um pouco da aproximação entre a jovem gestante e seu marido, o compositor de jingles comerciais Mark (Jason Bateman) - que sufoca, com o casamento, o sonho de ter uma carreira de roqueiro.


Rejeitando violentamente o sentimentalismo e o piegas, o roteiro de "Juno" tem, dentre seus méritos, o dom de tornar leve e desprovido de tensão todos os possíveis dramas inerentes a uma trama que, sob um ponto de vista mais sério, poderia descambar para o dramalhão didático e moralista. Dona de um talento especial para diálogos cortantes e que soam extremamente naturais mesmo quando ultrapassa os limites do convencional - a protagonista frequentemente parece muito mais madura e adulta do que seus parceiros de mais idade - Diablo Cody faz uso de uma situação banal para construir uma história que abrange os mais diversos tipos de amor, sem que para isso precise apelar para o exagero de açúcar. Ao eleger como personagem central uma adolescente não exatamente dada a gestos expansivos de carinho, Cody sinaliza com clareza seu ponto de vista a respeito das relações humanas, mas não deixa, por isso, de mostrar-se sensível e terna quando mostra a forma com que Juno se relaciona com seu pai, sua madrasta, a melhor amiga e até o suposto namorado (que trata com delicadeza e um tipo de amor ainda desconhecido por ambos). Até mesmo a forma casual com que a gravidez de Juno é tratada pela família - quase com descaso - destaca o filme do previsível e do corriqueiro. Pode não parecer muito real, mas é refrescante.

Um tanto superestimado à época de seu lançamento - quando foi tratado como uma espécie de salvador da comédia americana - "Juno" é um filme delicioso e agradável, mas jamais uma obra-prima incontestável e revolucionária como muitos quiseram fazer crer. Ellen Page realmente está fantástica no papel-título, emprestando a ele uma juventude e uma personalidade que tornam a doce rebelde Juno inesquecível - sua indicação ao Oscar foi justa, uma vez que é ela a sustentação do filme em si - mas o elenco coadjuvante também tem sua parcela de responsabilidade em dar consistência a uma trama tão simples que, não fosse o roteiro ágil, a direção segura e os atores competentes, poderia transformar-se rapidamente em mais um daqueles fenômenos sazonais que volta e meia surgem no cinema para desaparecerem no ar tão logo surja uma nova temporada. "Juno" ficou, e isso diz muito sobre sua qualidade.

sexta-feira

QUERO MATAR MEU CHEFE

QUERO MATAR MEU CHEFE (Horrible bosses, 2011, New Line Cinema, 98min) Direção: Seth Gordon. Roteiro: Michael Markowitz, John Francis Daley, Jonathan Goldstein, estória de Michael Markowitz. Fotografia: David Hennings. Montagem: Peter Teschner. Música: Christopher Lennertz. Figurino: Carol Ramsey. Direção de arte/cenários: Sheperd Frankel/Jan Pascale. Produção executiva: Richard Brener, Samuel J. Brown, Michael Disco, Toby Emmerich, Diana Pokorny. Produção: Brett Ratner, Jay Stern. Elenco: Jason Bateman, Jason Sudeikis, Charlie Day, Kevin Spacey, Jennifer Aniston, Colin Farrell, Jamie Foxx, Donald Sutherland, Julie Bowen. Estreia: 08/7/11


A primeira lembrança que vem à mente é a comédia semi-clássica “Como eliminar seu chefe”, a pérola kitsch estrelada por Jane Fonda, Lily Tomlin e Dolly Parton na já longínqua década de 80. Porém, apesar do título nacional e da temática semelhante, não há como comparar a quase inocência do filme de Fonda com a coragem desbragada de “Quero matar meu chefe”, lançado pelo cineasta Seth Gordon no rastro do imenso sucesso das chamadas “comédias adultas” que encheram os cofres dos estúdios a partir de “Se beber, não case” e “Missão madrinha de casamento”. Grandes êxitos comerciais e até, condescendentemente, de crítica – o primeiro levou um Golden Globe e o segundo chegou a concorrer a dois Oscar – os filmes que deram suporte a atores como Bradley Cooper e Melissa McCarthy foram os sinalizadores de um tipo de humor que parecia ter ficado no passado, em detrimento de filmes menos agressivos à suscetibilidade de um público cada vez mais conservador – paradoxalmente, enquanto as comédias encaretavam cada vez mais, as produções com doses cavalares de violência extrema tornavam-se progressivamente mais virulentas. Aproveitando o que parecia ser uma certa permissividade em relação ao que poderia ou não soar engraçado aos olhos e ouvidos de uma plateia média, “Quero matar meu chefe” acertou em cheio, misturando em doses exatas piadas no limiar do mau-gosto, humor físico e uma ironia fina – cortesias de um roteiro equilibrado, um ritmo admirável e, a cereja do bolo, um elenco coadjuvante de primeira linha. Não é de surpreender que tenha deixado os executivos da Warner com um sorriso de orelha a orelha – a ponto de uma continuação muito inferior ter surgido dois anos depois.
Enquanto no filme de 1981, as moçoilas vividas por Fonda, Tomlin e Parton eram secretárias que, cansadas das humilhações diárias impostas por seu patrão imaginavam maneiras de eliminá-lo dentro de um humor ingênuo e apropriado à fama de suas atrizes centrais, em “Quero matar meu chefe” a sutileza dá lugar ao escracho puro e simples, em uma sucessão de tiradas hilariantes que não poupam nada nem ninguém – e dá-lhe citações a filmes famosos (“Pacto sinistro”, de Hitchcock, à frente), personagens de quadrinhos (“Demita o Professor Xavier!”, dispara o cruel Colin Farrell, referindo-se a um funcionário cadeirante) e diálogos sem meias-palavras travadas entre a até então pudica Jennifer Aniston e seu assistente tímido e apavorado com o assédio. Tendo como um dos produtores o também cineasta Brett Ratner – de “X-Men: o confronto final”, entre outros – o filme de Gordon faz rir tanto aqueles que preferem um humor verbal menos óbvio quanto aqueles que buscam na comédia uma forma de desligar o cérebro para rir das próprias desgraças. Em outras palavras, é um filme sem contra-indicações.



Nick (Jason Bateman, com ótimo timing cômico) vive para o trabalho, tendo abdicado de toda e qualquer outra atividade há oito anos, com o claro objetivo de ser promovido e melhorar a qualidade de vida. Seus planos vão por água abaixo, porém, quando seu chefe, Harken (Kevin Spacey), resolve dar o cargo de vice-presidente de vendas a ele mesmo – acumulando assim duas funções e dois salários, não sem antes humilhar o funcionário e chantageá-lo com a ameaça de destruir seus futuros planos profissionais. Kurt (Jason Sudeikis) é um mulherengo contumaz que adora o trabalho em uma indústria química e o patrão (Donald Sutherland), mas quando este morre e deixa como herdeiro seu único filho, o agressivo, viciado em cocaína e egoísta Pellit (Colin Farrell), sua rotina vira de cabeça pra baixo – o novo diretor da empresa não hesita em contratar serviços mais baratos nem que tenha que sacrificar trabalhadores escravos, e deseja cortar as gorduras nos gastos da companhia (“Demita os gordos!”, declara sem pena). E Dale (Charlie Day, irresistível) é um rapaz romântico que acaba de ficar noivo e que sofre com o violento assédio sexual que sofre da patroa, a ninfomaníaca (Jennifer Aniston), que não hesita em deixar bem claro que, caso eles não transem antes do casamento, a cerimônia pode nem mesmo acontecer. Dale, coitado, nem mudar de emprego consegue: fichado na polícia como criminoso sexual por ter urinado em um parque infantil à noite (com o local deserto!!), ele é incapaz de arrumar uma posição melhor do que assistente de dentista.
Sofrendo com suas vidas profissionais, os três amigos resolvem, então – depois de chegarem à conclusão de que buscar um novo posicionamento no mercado é algo pouco encorajador em sua idade – tomar uma atitude drástica: assassinar seus patrões. A idéia, surgida no meio de uma bebedeira, toma ares de um plano real quando eles procuram um “assessor para assassinatos”, o misterioso Motherfucker Jones (Jamie Foxx), que lhes dá as diretrizes básicas do projeto: cada um irá matar o chefe do outro, para afastar suspeitas. E é aí que começa a bagunça: as particularidades de cada uma das possíveis vítimas vão sendo arquivadas mentalmente pelo trio de homicidas novatos e, como se poderia esperar de uma comédia, nada sai conforme o planejado e sequências divertidíssimas acompanham a aventura dos pobres assalariados: desde a invasão da casa de Pellit – quando eles encontram uma decoração absurdamente cafona e uma quantidade bizarra de cocaína – até o encontro acidental entre Dale e Harken na frente de sua mansão, que culmina com um bizarro caso de ressuscitação médica, Seth Gordon entrega ao público uma sucessão de situações bem amarradas e sinceramente engraçadas, capaz de fazer rir até o mais cínico espectador – e nem mesmo o final pouco criativo consegue diminuir a qualidade do filme.
Mas, como não poderia deixar de ser, um roteiro inspirado não seria o bastante se o elenco não correspondesse a ele. Se o trio de protagonistas demonstra uma química admirável – Charlie Day, da série “It’s Always sunny in Philadelphia” rouba todas as cenas em que aparece – o mesmo pode ser dito dos coadjuvantes, um grupo de atores consagrados que demonstra uma bem-vinda e corajosa dose de autogozação. Jennifer Aniston deixa de lado as mocinhas sofridas de suas comédias românticas e constrói uma Diana quase cruel em sua obsessão de traçar o empregado quase pueril – Aniston não tem medo de recitar diálogos cabeludos ou de fazer cenas francamente a um passo do vulgar (como aquela em que tenta seduzir Kurt apenas comendo alimentos de formato fálico). Colin Farrell abandona o porte de galã e ator sério ao encarar com deboche consumado o egocêntrico Pellit, construído visualmente de forma a deixar o ator irlandês a milímetros do grotesco – uma careca disfarçada por fios penteados para o lado, olhos arregalados de paranoia, um barrigão proeminente. E Kevin Spacey faz de seu Harken um canalha impenitente que somente ele é capaz de fazer sem o menor esforço: Spacey, um dos melhores atores americanos de sua geração, faz do personagem uma espécie de primo do executivo de cinema que ele interpretou em “O preço da ambição” (1994) e um ensaio para o venal protagonista de série “House of cards”. Não bastasse esse trio de ouro, Donald Sutherland, Jamie Foxx e Ioan Gruffud – da primeira versão de “Quarteto fantástico”, em participação especial como o primeiro profissional contratado pelos protagonistas e que se revela outro tipo de trabalhador – completam o elenco de uma comédia que tem a mais importante característica de um exemplar do gênero: não tem medo de ser engraçada.
Em uma época em que as comédias se dividem entre a fina ironia dos filmes de Woody Allen e a franca grosseria de coisas como “As bem-armadas”, “Quero matar meu chefe” se situa em um inteligente meio-termo: não ofende a inteligência do espectador nem tampouco exige dele uma série de elocubrações e referências intelectuais. É diversão pura e simples, valorizada por um elenco acima de qualquer crítica e uma direção com senso de ritmo. Uma das melhores comédias de sua temporada.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...