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domingo

ANATOMIA DE UM CRIME

ANATOMIA DE UM CRIME (Anatomy of a murder, 1959, Carlyle Productions, 160min) Direção: Otto Preminger. Roteiro: Wendell Mayes, romance de Robert Traver. Fotografia: Sam Leavitt. Montagem: Louis R. Loeffler. Música: Duke Ellington. Direção de arte: Boris Leven. Produção: Otto Preminger. Elenco: James Stewart, Lee Remick, Ben Gazzarra, Arthur O'Connell, Eve Arden, George C. Scott. Estreia: 01/7/59

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (James Stewart), Ator Coadjuvante (Arthur O'Connell, George C. Scott), Roteiro Adaptado, Fotografia em P&B, Montagem

Um filme que, em plena vigência do Código Hays - guia de regras morais impostas ao cinema americano entre os anos de 1930 e 1968 e que tentava controlar, de forma ditatorial, o conteúdo que se considerava desagradável ou impróprio ao público - se utilizava de termos como "calcinha", "estupro", "esperma", "penetração" e "vagabunda" já merecia figurar em qualquer lista de obras imprescindíveis para se melhor compreender a história do cinema hollywoodiano. Se o filme em questão ainda por cima for um drama de tribunal da melhor estirpe, adaptado do romance de um juiz da Suprema Corte, dirigido por um cineasta sério e estrelado por James Stewart e George C. Scott, então, tal merecimento se transforma em obrigação. Sendo assim, não é à toa que "Anatomia de um crime" siga, mais de meio século depois de seu lançamento, como uma das mais importantes produções americanas de todos os tempos.

O protagonista do filme é Paul Biegler (James Stewart), um advogado mais afeito às pescarias, ao jazz que volta e meia toca em seu piano e às suas longas conversas com o melhor amigo, Parnell McCarthy (Arthur O'Connell). O que acaba o retirando de sua semi-aposentadoria - e ainda assim meio à contra-gosto - é o telefonema de uma mulher chamada Laura Manion (Lee Remick em papel que quase foi de Lana Turner): ela o contrata para defender seu marido, o tenente do exército Frederick Manion (Ben Gazzarra). O jovem réu é acusado do assassinato de outro homem, mas Laura insiste que o crime aconteceu como forma de vingança, por a vítima tê-la violentado. Não demora muito para que Biegler passe a duvidar um pouco da história contada por seus clientes, uma vez que Laura não é exatamente uma mulher exemplar: vulgar, provocante e pouco arraigada a convenções sociais, ela pode ser um sério obstáculo à absolvição do marido. Para piorar as coisas, o promotor convocado para o caso é o vaidoso e ambicioso Claude Dancer (o ótimo George C. Scott, que faria história onze anos depois recusando seu Oscar por "Patton, rebelde ou herói?"), cujo estilo sóbrio contrasta ferozmente com o jeito simples e quase caipira de Biegler.



Longe de buscar o sensacionalismo que o tema poderia sugerir, "Anatomia de um crime" utiliza de maneira sóbria e inteligente os elementos que o destacam ainda hoje entre seus congêneres. Apesar de apresentar em seu roteiro tudo aquilo que atualmente pode ser considerado clichê, Wendell Mayes - indicado ao Oscar por seu meticuloso trabalho - não hesita em embaralhar as cartas do jogo, deixando no espectador a dúvida crucial que também acomete ao corpo de jurados: será que realmente a história contada pelo réu é verdadeira? Será que a vítima do estupro é tão inocente quanto se declara? Será que uma mulher flagrantemente pouco afeita ao puritanismo de sua cidadezinha merece ser julgada como criminosa? Ao estabelecer todas essas questões, tanto o roteiro de Mayes quanto a direção imparcial de Otto Preminger dão um passo à frente em questões até então varridas para debaixo do tapete da sociedade ianque.


À parte o fato de ter tido a coragem de desafiar o tal Código de Produção, com seu tema e seu roteiro sem meias-palavras ou suscetibilidades, "Anatomia de um crime" conquista o público por causa principalmente devido a suas qualidades dramáticas, que vão desde a direção segura de Otto Preminger - que trata a audiência como gente grande e capaz de tirar suas próprias conclusões, evitando o uso de flashbacks e mantendo a dubiedade da versão oficial da defesa - até a escalação certeira de um elenco inspiradíssimo. James Stewart poucas vezes esteve tão seguro em cena, especialmente nos confrontos com George C. Scott e nas cenas encharcadas de uma tensão sexual quase palpável com a Laura Manion de Lee Remick. Destaca-se também um jovem Ben Gazzarra, mostrando-se extremamente eficaz como o réu em constante estado de excitação violenta. Eles são as ferramentas que Preminger utiliza para construir sua obra-prima.

quarta-feira

DE REPENTE, NO ÚLTIMO VERÃO

DE REPENTE, NO ÚLTIMO VERÃO (Suddenly, last summer, 1959, Columbia Pictures, 114min) Direção: Joseph L. Mankiewicz. Roteiro: Gore Vidal, Tennessee Williams, peça teatral de Tenneessee Williams. Fotografia: Jack Hildyard. Montagem: William Hornbeck, Thomas G. Stanford. Música: Malcolm Arnold, Buxton Orr. Figurino: Oliver Messel. Direção de arte/cenários: Oliver Messel/Scott Slimon. Produção: Sam Spiegel. Elenco: Elizabeth Taylor, Montgomery Clift, Katharine Hepburn. Estreia: 22/12/59

3 indicações ao Oscar: Atriz (Katharine Hepburn, Elizabeth Taylor), Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Elizabeth Taylor)

Segundo a biografia "Tracy and Hepburn", de Garson Kanin, quando seu trabalho em "De repente, no último verão" chegou ao final, Katharine Hepburn aproximou-se do diretor Joseph L. Mankiewicz e do produtor Sam Spiegel e, furiosa, encheu-os de impropérios e acabou seu discurso cuspindo em seu rosto. Apesar do gênio difícil da atriz, não foi apenas um ato de rebeldia sem causa: seu ato final era a resposta ao modo cruel com que os dois homens haviam tratado o ator Montgomery Clift durante as filmagens. Já na fase posterior a seu acidente de carro em 1956 - que quase o matou e o jogou definitivamente na dependência de remédios que afinal apressaria sua morte dez anos depois - Clift só não foi substituído no papel central masculino graças à sua amiga de longa data Elizabeth Taylor, que ameaçou também abandonar o projeto caso ele fosse demitido. Esse clima pouco amistoso entre diretor, produtor e astro refletia-se na maneira pouco gentil com que o ator era tratado - e que resultou no acesso de raiva de Hepburn.

Baseado em uma peça teatral de um ato escrita pelo sempre polêmico Tennessee Williams - que também assinou "Um bonde chamado desejo" - e roteirizado pelo próprio autor e pelo escritor Gore Vidal, "De repente, no último verão" teve sua história amenizada na transição para o cinema, devido às restrições impostas pela censura, que jamais teria deixado que ficassem explícitos nas telas seus principais temas, que incluíam homossexualidade, incesto, estupro e canibalismo. Ainda assim, foi muito por causa das críticas que repeliam todo o peso do filme que ele acabou fazendo sucesso - por isso e pela reunião, pela primeira e única vez, de três grandes nomes do cinema da época. Taylor e Hepburn acabaram sendo indicadas ao Oscar de melhor atriz, e Liz foi premiada com o Golden Globe por seu desempenho como a complexa Catherine Holly - papel que Patricia Neal havia defendido com garra na montagem da peça em Londres.


Apesar de aparecer somente do primeiro terço de projeção, Catherine, a personagem de Taylor, é a peça-chave da trama de Williams, dirigida com pulso firme por Mankiewicz - famoso por sua tirania e pelo Oscar de diretor pelo inesquecível "A malvada", de 1950. Antes que ela surja em cena, o público é apresentado a ela através da história contada por sua tia, a milionária Violet Venable (Katharine Hepburn), que vive isolada em uma mansão excêntrica, solitária desde a morte de seu único filho, Sebastian, descrito por ela como um poeta sensível e delicado. Segundo Violet, a morte do rapaz, acontecida um ano antes devido a um ataque cardíaco em uma praia da Espanha, causou um grande desequilíbrio em sua sobrinha, que, desde então, vem sofrendo de sérios problemas de desequilíbrio mental. Preocupada, Violet quer que John Crukowicz (Montgomery Clift) - famoso por suas experiências no campo da neurocirurgia - faça uma lobotomia na jovem, acenando com uma generosa doação para seu hospital. Quando conhece Catherine, porém, o médico passa a desconfiar que sua doença tem origem nas lembranças ocultas que ela tem da morte do primo e resolve forçá-la a encarar a tragédia - que não aconteceu conforme narrado por Violet.

Ainda que exagere em muitos pontos em sua trama - inspirada em sua própria irmã, que sofreu uma lobotomia - Williams consegue, em "De repente, no último verão", construir uma tensão crescente, que prende a atenção do público até seus momentos finais. Sem pausa para o humor ou instantes mais leves, o roteiro discorre fluentemente sobre assuntos pouco agradáveis ao gosto médio do público, conforme dito anteriormente. Não há espaço para romantismo - ainda que a atração entre o médico e Catherine seja óbvia - ou para soluções fáceis. Mankiewicz filma o hospital psiquiátrico sem dourar a pílula, mostrando com crueza o estado dos pacientes e não hesita em pesar a mão quando necessário. Infelizmente as restrições da censura - que limou a maioria das cenas que esclareciam a real personalidade de Sebastian - não permitiram que o filme fosse mais a fundo, o que certamente daria à obra uma ressonância ainda maior.

Forte, tenso e interpretado por três dos maiores atores da era dourada de Hollywood, "De repente, no último verão" é uma prova de que, apesar do caráter pouco admirável, Joseph L. Mankiewicz era capaz de prestar grandes serviços à sétima arte.

terça-feira

UMA CRUZ À BEIRA DO ABISMO

UMA CRUZ À BEIRA DO ABISMO (The nun's story, 1959, Warner Bros, 149min) Direção: Fred Zinnemann. Roteiro: Robert Anderson, livro de Kathryn C. Hulme. Fotografia: Franz Planer. Montagem: Walter Thompson. Música: Franz Waxman. Figurino: Marjorie Best. Direção de arte/cenários: Alexander Trauner/Maurice Barnathan. Produção: Henry Blanke. Elenco: Audrey Hepburn, Peter Finch, Dame Edith Evans, Peggy Ashcroft, Dean Jagger, Mildred Dunnock. Estreia: 18/6/59

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Fred Zinnemann), Atriz (Audrey Hepburn), Roteiro Adaptado, Fotografia em Cores, Montagem, Trilha Sonora Original, Som

Uma princesa em fuga, uma sofisticada filha de chofer particular, uma bibliotecária transformada em modelo... e uma freira. Para quem tinha dúvidas da capacidade de Audrey Hepburn em transmutar-se em personagens diferentes de si mesma, o filme "Uma cruz à beira do abismo" tratou de apagá-las. A anos-luz de distância de suas criações anteriores - que a tornaram uma das atrizes mais queridas e prestigiadas de sua época - a religiosa belga que vai ao Congo para servir de enfermeira aos doentes tropicais lhe deu uma indicação ao Oscar e acabou tornando-se o filme preferido da eterna bonequinha de luxo. Maior sucesso de bilheteria da Warner em 1959, a adaptação do livro de Kathryn C. Hulme, baseada em uma história real, chegou às telas sob o comando do diretor Fred Zinnemann, que constrói seu filme impecavelmente, equilibrando com perfeição os dois atos da trama e proporcionando ao espectador um espetáculo que vale por dois.

A primeira parte de "Uma cruz à beira do abismo" - um título nacional um tanto estranho para o bem mais coeso "The nun's story" - trata da adaptação da jovem Gabrielle van der Mal à sua nova realidade como noviça, em contraste com sua vida anterior como filha de um proeminente cirurgião. Sentindo-se um tanto aprisionada com as rígidas regras do convento, ela mantém-se firme em seu propósito de viajar ao Congo e colaborar no tratamento das doenças tropicais que são objeto de seu estudo. Depois de algumas decepções com a hierarquia e a estrutura religiosa do convento e um período trabalhando em uma instituição para tratamento de doentes mentais, ela finalmente alcança seu objetivo e, com o nome de Irmã Luke, torna-se a enfermeira assistente do ateu dr. Fortunati (Peter Finch), a quem admira profundamente. Sua vida no Congo - onde presencia um estilo de vida que a faz questionar sua fé constantemente - lhe dá forças para transformar-se em uma presença querida, tanto pelos colegas quanto pelos nativos. No entanto, quando a II Guerra explode, ela retorna à Bélgica e fica diante do dilema de manter-se neutra diante da invasão alemã - principalmente quando a morte bate à sua porta.


Ficando com o papel que Ingrid Bergman recusou por considerar-se velha demais, Audrey Hepburn faz uso de sua imagem serena e delicada para transmitir, sem que seja preciso muitas palavras, todos os conflitos de sua irmã Luke. Ela é a sólida base do filme de Zinnemann, que, através dela, comenta o panorama sócio-político do Congo belga na ocasião da Segunda Guerra sem soar panfletário ou paternalista. Sua direção, coesa e direta, é uma das maiores qualidades do filme, fotografado com maestria por Franz Planer, que explora as belas paisagens naturais do país sem torná-las apenas uma propaganda turística. O encontro das culturas entre a católica Irmã Luke e os nativos do Congo, com suas crenças particulares, é uma subtrama fascinante, tratada com respeito e seriedade, mas nunca com excessiva formalidade. E é impossível deixar de notar o excelente elenco coadjuvante, no qual se incluem as damas Peggy Ashcroft e Edith Evans.

"Uma cruz à beira do abismo" é um filme atípico na carreira de Audrey Hepburn. Deixando de lado o charme fashion e elegante de seus trabalhos mais conhecidos - e isso que "Bonequinha de luxo" ainda não havia sido lançado - a obra de Zinnemann é cinema da mais alta qualidade, dotado de ritmo, relevância social e noção de entretenimento. Imperdível!

segunda-feira

OS INCOMPREENDIDOS


OS INCOMPREENDIDOS (Les quatre cents coups, 1959, Les Films du Carrosse, 99min) Direção e roteiro: François Truffaut. Fotografia: Henry Decae. Montagem: Marie-Josèphe Yoyotte. Música: Jean Constantin. Direção de arte: Bernard Evein. Produção: François Truffaut. Elenco: Jean-Pierre Léaud, Claire Maurier, Albert Rémy, Guy Decomble, Patrick Auffay. Estreia: 04/5/59 (Festival de Cannes)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Vencedor da Palma de Ouro de Melhor Diretor (François Truffaut) no Festival de Cannes

Em uma tradução livre, o título original de "Os incompreendidos" é uma expressão francesa que significa "levar uma vida agitada, dissipada". E, mais do que o batismo nacional, diz muito mais a respeito da essência do filme de estreia do crítico de cinema François Truffaut, que, vindo dos artigos cheios de ideias que escrevia para a prestigiada Cahiers du Cinéma, tinha como meta revigorar o modo de se fazer filmes, deixando para trás alguns dos ranços do cinemão clássico. Abrindo caminho para outros colegas da revista - como Jean-Luc Godard, que em seguida mostraria ao mundo seu polêmico "Acossado" - Truffaut buscou na sua própria adolescência, tão conturbada quanto a de seu protagonista, Antoine Doinel, a matéria-prima de seu primeiro e já incensado filme, que lhe deu a Palma de Ouro de Melhor Diretor no Festival de Cannes com meros 28 anos de idade.

Doinel, o protagonista de "Os incompreendidos", ainda seria o personagem central de outros três filmes dirigidos por Truffaut, em um caso raro na história do cinema. Aqui, ele ainda é o pré-adolescente que vive na Paris do final dos anos 50, dividindo um apartamento minúsculo com a mãe e o padrasto, que, se não o maltratam também passam longe de serem amorosos. Desmotivado também na escola, ele vive aplicando golpes nos professores para - décadas antes de Ferris Bueller - curtir a vida adoidado longe das amarras do sistema (seja familiar ou docente). Sua rebeldia vai se tornando cada vez maior, até que suas consequências lhe batem à porta de forma apavorante na forma de um reformatório para jovens delinquentes.


Filmado nas ruas de Paris, "Os incompreendidos" tem em sua forma naturalista de narrativa uma de suas maiores qualidades. Mais do preocupar-se em mudar a história do cinema através de artifícios vazios, Truffaut aposta na comunhão do público com seus personagens, que, fugindo do tradicional modelo clássico francês de até então, pareciam mais reais, com suas referências culturais menos empoladas e histórias que poderiam estar acontecendo em qualquer esquina. Para isso, ele conta com a atuação incandescente do jovem Jean-Pierre Léaud, que, aos 13 anos, lembrou o próprio cineasta de seus tempos rebeldes (ainda que o diretor negue que a obra seja autobiográfica) e ganhou o papel que desempenharia ainda em "Beijos proibidos" (1968), "Domicílio conjugal" (1970) e "O amor em fuga" (1979). Seu rosto - especialmente no derradeiro close-up - é a imagem de uma juventude que almeja a liberdade mesmo que não saiba o que fazer com ela. O trabalho de direção de Truffaut - que mais tarde confessou ter se unido ao jovem em uma conspiração secreta contra o resto da equipe e do elenco como forma de aumentar a intensidade de seu trabalho de ator - é exemplar no que se refere à atenção aos detalhes emocionais e visuais. Doinel é rebelde em suas fugas e mentiras, mas o é também ao tentar utilizar um brinquedo de parque de diversões à sua própria maneira.

Filme precursor do que seria chamado de Nouvelle Vague do cinema francês, "Os incompreendidos" é poético, tocante e realista. Não se utiliza de deus ex-machina de nenhuma espécie, preferindo contar sua história com um sabor de vida real. E é aí que vive sua grandeza.

sexta-feira

HIROSHIMA, MEU AMOR


HIROSHIMA, MEU AMOR (Hiroshima, mon amour, 1959, Argos Films, 90min) Direção: Alain Resnais. Roteiro: Marguerite Duras. Fotografia: Michio Takahashi (Japão), Sacha Vierny (França). Montagem: Jasmine Chaney, Henri Colpi, Anne Sarraute. Música: Georges Delerue, Giovanni Fusco. Figurino: Gerard Collery. Direção de arte: Minoru Esaka. Produção: Anatole Dauman, Samy Halfon. Elenco: Emmanuelle Riva, Eiji Okada. Estreia: 10/6/59

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Tudo começou como um documentário sobre a bomba atômica lançada em Hiroshima em 1945. De repente, o cineasta Alain Resnais mudou de ideia e resolveu contar uma história de amor entrelaçada a suas impressões sobre o tema. Chamou a escritora Marguerite Duras pra escrever o roteiro e pronto: estava dado o pontapé inicial de um dos maiores clássicos do cinema francês da história, o inesquecível "Hiroshima, meu amor".

Inesquecível é, aliás, um adjetivo bem apropriado ao filme, uma vez que a obra de Resnais lida com temas como a memória e a forma como as lembranças do passado interferem no presente. A protagonista, vivida com intensidade por Emmanuelle Riva - que concorreu ao Oscar em 2013 pelo desempenho fabuloso em "Amor" - é uma atriz francesa que está no Japão fazendo um filme sobre a guerra. Durante sua estadia em Hiroshima, ela se envolve com um arquiteto local (Eiji Okada), por quem se apaixona. Porém, mesmo apaixonada, ela não consegue esquecer um amor do passado, uma relação interrompida bruscamente pelo conflito e que volta à sua mente com toda força, ameaçando sua paz de espírito.

Um cineasta obcecado pelo tema da memória - que retomaria no ainda mais inovador "O ano passado em Marienbad" - Alain Resnais cria, em "Hiroshima, meu amor", um espetáculo lírico onde se misturam imagens poderosas, um texto de grande poesia e atuações superlativas, gigantescas em seu minimalismo. É apenas um gesto do arquiteto japonês durante o sono que deflagra na atriz interpretada por Riva um torrencial de lembranças, algumas dolorosas e outras calorosas. Bastam olhares trocados entre os amantes para que o público entenda suas dúvidas e pensamentos. Não é preciso mais do que poucas palavras - sussurradas na hora certa - para que todo o horror da guerra e a imensidão do amor esteja diante do espectador. E as imagens coletadas pela câmera delicada do diretor não deixam por menos, dissecando a maior tragédia do século XX em cenas chocantes e verdadeiras, que traem sua origem como autor de documentários.

Um clássico absoluto - mas que certamente não é para qualquer audiência - "Hiroshima, meu amor" já seduz em sua abertura, com dois corpos cobertos de poeira radiativa, uma metáfora poderosa que o final dilacerante irá reiterar. A guerra pode acabar, mas não suas consequências. E cada um vê nela seus próprios dramas particulares.

quarta-feira

BEN-HUR


BEN-HUR (Ben-hur, 1959, MGM Pictures, 212min) Direção: William Wyler. Roteiro: Karl Turnberg, baseado no romance de Lew Wallace. Fotografia: Robert L. Surtees. Montagem: John D. Dunning, Ralph E. Winters. Música: Miklos Rosza. Produção: Sam Zimbalist. Elenco: Charlton Heston, Stephen Boyd, Jack Hawkings, Haya Harareet, Hugh Griffith, Martha Scott, Cathy O'Donnell. Estreia: 18/11/59

12 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (William Wyler), Ator (Charlton Heston), Ator Coadjuvante (Hugh Griffith), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Figurino Cores, Direção de Arte Cores, Som, Efeitos Especiais
Vencedor de 11 Oscar: Melhor Filme, Diretor (William Wyler), Ator (Charlton Heston), Ator Coadjuvante (Hugh Griffith), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Figurino Cores, Direção de Arte Cores, Som, Efeitos Especiais
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (William Wyler), Ator Coadjuvante (Stephen Boyd)


Quem achava que depois de "Os dez mandamentos" e a aposentadoria de Cecil B. de Mille os filmes de temática religiosa seriam coisa do passado em Hollywood deve ter ficado de queixo caído quando o remake de um filme lançado em 1925 em uma versão muda estreou nos cinemas, no final de 1959. Adaptado do romance cristão de Lew Wallace publicado em 1880, "Ben-hur" não só pagou seu orçamento estratosférico para a época (U$ 15 milhões) como tornou-se o recordista de estatuetas da Academia por quase 40 anos, com 11 prêmios no currículo ("Titanic" e "O Senhor dos Anéis, o retorno do rei" igualaram a marca em 1998 e 2003, respectivamente). O fato é que, mesmo que não se tenha simpatia pela propaganda do cristianismo feita pelo filme (motivo pelo qual o abertamente ateu Burt Lancaster recusou o papel-título), não se pode deixar de admirar suas inúmeras qualidades e mais ainda, de reconhecê-lo como o mais fascinante, empolgante e emocionante épico religioso de todos os tempos.

A bem da verdade, o militar Lew Wallace começou a pesquisar a vida de Jesus Cristo porque queria escrever um romance que desmentisse Sua existência ou qualquer outro dogma da Igreja católica. Reza a lenda que, depois de exaustivas pesquisas, ele chegou à conclusão não só de que Ele havia existido mas de que era realmente filho de Deus. A partir daí, logicamente, criou um dos mais populares livros de ficção a enfocar (ainda que de forma sutil) a passagem de Cristo pela Terra. Sutil, sim, afinal, apesar da presença dEle em momentos-chave da trama, "Ben-hur" não conta Sua história. O protagonista do filme dirigido por William Wyler - que aceitou fazer o filme por querer fazer algo do estilo de DeMille e porque recebeu o polpudo salário de um milhão de dólares - não faz milagres nem tampouco pode ser considerado um santo ou um líder de multidões. Ben-hur, a personagem, é um homem simples que se vê em uma situação de desespero ímpar e que tem a oportunidade de resgatar sua humanidade e sua dignidade perdidas, mesmo que para isso tenha que apelar para uma sangrenta vingança. Mais humano impossível.



Ben-hur (vivido com garra pelo vencedor do Oscar Charlton Heston)é um jovem e rico judeu que se recusa a delatar aqueles que planejam uma rebelião contra Roma. Considerado traidor pelo seu melhor amigo, Messala (Stephen Boyd), um aristocrata romano, ele tem sua propriedade confiscada e vê sua mãe e irmã aprisionadas. Condenado a servir de escravo em galés, Ben-hur passa três anos trabalhando como remador (daí a famosa expressão cunhada por Nelson Rodrigues, "trabalhava como um remador de 'Ben-hur') e vê sua vida ser novamente transformada quando, durante uma batalha no mar, ele salva a vida do oficial romano Quintus Arrius (Jack Hawkins). Agradecido, o oficial o liberta e lhe dá trabalho como condutor de sua quadriga. Quando se reencontra com Messala, Ben-hur o desafia a uma corrida de quadrigas, onde a rivalidade entre os dois ex-melhores amigos de infância irá chegar a seus níveis mais extremos.

O que é mais fascinante em "Ben-hur" é seu equilíbrio perfeito entre ação e emoção. As sequências mais empolgantes (em que se destaca a até hoje impressionante corrida de quadrigas) se encaixam magistralmente aos momentos mais dramáticos da trama, que envolvem o relacionamento do protagonista com a família e - e aí entra o aspecto religioso do filme que tanto incomodou Burt Lancaster - com um misterioso homem que atravessa seu caminho por duas vezes e transforma sua vida. Em nenhum diálogo o nome de Jesus Cristo é citado, mas não é preciso ser muito inteligente para perceber quem é o misterioso transeunte.

"Ben-hur" é um espetáculo grandioso, que, no entanto, não deixa jamais de dar importância a seu roteiro em vez de dedicar-se somente a seu visual. Não é à toa que, mesmo perdendo o Oscar (única indicação não convertida em estatueta), o script de Karl Turnberg seja até hoje um exemplo de ritmo, estrutura e bons diálogos. Os diálogos, aliás, merecem um capítulo à parte. O escritor Gore Vidal, abertamente homossexual, declarou, no documentário "Celulóide secreto" - que investiga a visão do cinema sobre os gays - que muitos dos diálogos entre Ben-hur e Messala foram escritos por ele e que, nas entrelinhas, faziam menção a um relacionamento de amantes entre os dois amigos. Segundo Vidal, a ira de Messala contra Ben-hur não advinha apenas de motivos políticos e sim do fato de ter sido rejeitado pelo amante. Assistir ao filme tendo essa informação abre portas imensas na compreensão da personalidade de Messala, vivido com gosto por um Stephen Boyd que sabia dessa mensagem subliminar que foi escondida de Charlton Heston, que jamais se submeteria a ela, haja visto sua visão conservadora da vida e da política.

"Titanic" e "O Senhor dos Anéis, o retorno do rei" podem ter empatado em número de Oscar com "Ben-hur", mas ninguém pode negar a supremacia artística do trabalho de William Wyler em relação a eles. Basta lembrar que nenhum dos dois primeiros levou estatuetas de atuação, atendo-se principalmente a prêmios técnicos, ao contrário deste clássico absoluto, que deu prêmios a Heston e Hugh Griffith por suas soberbas interpretações.

CONFIDÊNCIAS À MEIA-NOITE


CONFIDÊNCIAS À MEIA-NOITE (Pillow talk, 1959, Universal Pictures, 102min) Direção: Michael Gordon. Roteiro: Stanley Shapiro, Maurice Richlin. Fotografia: Arthur E. Arling. Montagem: Milton Carruth. Música: Frank De Vol. Produção: Ross Hunter, Martin Melcher. Elenco: Rock Hudson, Doris Day, Tony Randall, Thelma Ritter. Estreia: 07/10/59

5 indicações ao Oscar: Atriz (Doris Day), Atriz Coadjuvante (Thelma Ritter), Roteiro Original, Trilha Sonora Comédia/Musical, Direção de Arte em Cores
Vencedor do Oscar de Roteiro Original


Em 1985, pouco antes de sua morte decorrente de complicações relacionadas ao então desconhecido vírus HIV, o ator Rock Hudson foi a público revelar o que não era mais novidade nenhuma nos bastidores de Hollywood: sua homossexualidade. A notícia pegou de surpresa o mundo todo, que não conseguia acreditar que aquele mesmo Rock Hudson másculo, viril, bonito, charmoso e enorme (1,93m) que frequentava os mais lúbricos sonhos femininos, era gay. O choque da revelação apenas atesta sem sombra de dúvidas o talento do ator, que em nenhum momento de sua carreira - repleta de sucessos - deixou de ser, aos olhos do público, o que eles gostariam que ele fosse. Seja em épicos grandiosos, dramas familiares ou comédias românticas, Rock Hudson sempre foi o Rock Hudson construído pelos estúdios e agentes, nunca suscitando, entre sua audiência, a menor suspeita sobre sua conduta por trás das câmeras - nem que para isso fosse preciso casar-se com uma secretária. Uma prova disso é a comédia "Confidências à meia-noite", uma deliciosa sessão da tarde que marcou o início de uma bem-sucedida série de filmes que ele fez com a atriz Doris Day - que seria sua amiga até o fim de seus dias.

"Confidências à meia-noite" fez um grande sucesso de bilheteria e levou o Oscar de roteiro original, o que foi praticamente inacreditável na época, uma vez que os próprios estúdios não apostavam que o gênero pudesse chamar público às salas de exibição, por achar que era um estilo ultrapassado de fazer cinema - e pensar que hoje em dia nomes como Meg Ryan, Sandra Bullock e Jennifer Aniston devam sua fama em grande parte àquela que, louvada nos anos 60, foi execrada décadas depois como "a eterna virgem", tornando-se motivo de chacota universal: Doris Day.

Day já tinha 37 anos à época do lançamento de "Confidências" e em nenhum momento do filme é feita qualquer referência ao estado de seu hímen, de onde depreende-se que a sua fama refere-se muito mais a seus sentimentos nobres de envolver-se apenas com os homens certos do que a uma parte específica de sua anatomia. No filme, escrito por Stanley Shapiro e Maurice Richlin, ela vive Jan Morrow, uma decoradora de interiores solteira - hum, provavelmente daí surgiu o boato sobre sua virgindade!! - que, apesar de ser cortejada incansavelmente por um cliente milionário, Jonathan Forbes (Tony Randall), ainda acredita que somente por amor se deve envolver-se em um relacionamento. Enquanto fica trabalhando e sonhando com um príncipe encantado, ela precisa lidar com Brad Allen (Hudson, no auge de seu charme), um compositor com quem divide a linha telefônica. Para sua ira, Jan é obrigada a ouvir as cantadas que ele passa em um número abundante de mulheres, o que a leva a entrar em uma guerra declarada contra ele. O que ela não imagina é que Allen é o melhor amigo de Forbes e, ao descobrir que ela é a sua ranzinza parceira de telefone, resolve seduzi-la. Para isso, inventa uma personagem, o texano sensível e de bons modos Rex Stetson. Logicamente, Jan cai de amores pelo turista, mas o plano do músico passa a ser ameaçado pelo amor que seu amigo sente por sua decoradora.


Talvez hoje em dia, para um público acostumado com comédias românticas que usam e abusam de corpos seminus e diálogos repletos de palavrões e piadas vulgares, o roteiro de "Confidências à meia-noite" seja de uma ingenuidade quase inacreditável. No entanto, sob a aparente superfície de um passatempo ligeiro e familiar, o texto de Shapiro e Richlin brinca, ainda que de forma velada, com assuntos que, em tese, incorreriam na fúria do Código Hayes. Diluídas em meio a piadas engraçadas mas bastante puras, estão brincadeiras sobre homossexualismo (a cena em que Allen tenta incutir na cabeça de Jan dúvidas sobre a masculinidade de Stetson é particularmente hilária) e sobre o futuro da medicina genética (em curtíssimas mas geniais cenas no consultório de um obstetra). Isso sem falar em alguns diálogos de duplo sentido que fazem rir e não ofendem ninguém - nem o fez em seu lançamento, provavelmente porque nada vindo de Doris Day e Rock Hudson poderia ofender a alguém.

"Confidências à meia-noite" é, repito para não deixar dúvidas, uma delícia de filme. Apesar do visual um tanto datado e da premissa inicial que hoje soa quase inverossímil, é uma comédia romântica que cumpre o que promete, além de registrar de forma indelével a invejável química entre Hudson (com um timing cômico admirável) e Doris Day (que era adorada pelas mulheres principalmente por não representar uma ameaça séria a seus relacionamentos, como era o caso de Marilyn Monroe - que por sua vez, era adorada por outras razões).

Em 2003, o filme "Abaixo o amor", dirigido por Peyton Reed e estrelado por Renee Zelwegger e Ewan McGregor prestou uma sincera e divertida homenagem aos filmes da dupla Hudson/Day, mas foi ignorado nas bilheterias. Merece uma segunda chance!

segunda-feira

INTRIGA INTERNACIONAL


INTRIGA INTERNACIONAL (North by northwest, 1959, MGM Pictures, 131min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Ernest Lehman. Fotografia: Robert Burks. Montagem: George Tomasini. Música: Bernard Herrmann. Elenco: Cary Grant, Eva Marie Saint, James Mason, Jessie Royce Landis, Martin Landau. Estreia: 17/7/59

3 indicações ao Oscar: Roteiro Original, Montagem, Direção de Arte (Cores)

Depois de ter filmado boa parte de "Intriga internacional", seu ator principal, Cary Grant chegou até o diretor do filme, Alfred Hitchcock e disse o seguinte: "Acho esse roteiro pavoroso, pois já filmamos a primeira terça parte do filme, acontecem coisas de todo tipo, e não entendo de jeito nenhum do que se trata." A indignação de Grant não era gratuita, como pode comprovar qualquer incauto espectador deste, que é o 49º longa do cineasta inglês. Ao dirigir esta intrincada trama de espionagem - roteirizada por Ernest Lehman - Hitch criou talvez o mais claro exemplo de um "mcguffin", que ele tanto citava em suas entrevistas. "McGuffin", segundo o mestre do suspense, é um elemento da trama que a empurra pra frente, mesmo que no final das contas seja apenas um detalhe ou uma desculpa para o desenvolvimento da história. Entendido? Pois vejamos.

Do nada, o publicitário Robert Tornhill (Cary Grant) passa a ser perseguido por um gupo misterioso de homens que aparentemente o quer morto. O grupo, liderado pelo frio Vandamm (James Mason), não hesita em tentar assassiná-lo das mais variadas maneiras e utiliza-se de todos os artifícios possíveis para eliminá-lo. Quando descobre que está sendo confundido com um tal de George Kaplan, Tornhill resolve localizá-lo para esclarecer a confusão. O que ele não sabe é que Kaplan não existe: é um agente inventado por um grupo americano de contra-espionagem - que obviamente não tem a menor disposição de revelar sua armação. Contando com a ajuda da bela Eve Kendall (Eva Marie Saint), ele tenta provar sua identidade e sua inocência no assassinato de que passa a ser acusado.

Realmente a trama de "Intriga internacional" é das mais complicadas - e talvez até mesmo simplesmente a mais frágil - da carreira de Hitchcock, mas também não dá pra negar que o motivo sobre a perseguição de Vandamm e seus homens ao falso Kaplan é o que menos importa no resultado final. Do alto de sua experiência e talento, Hitch proporciona a seu público um filme repleto de sequências de ação de tirar o fôlego, intercaladas com cenas com diálogos espertos e românticos/sensuais entre Grant e Eva Marie Saint (que ficou com o papel que foi oferecido a Cyd Charisse e Sophia Loren). A cena de amor entre os dois no dormitório de Eve no trem onde eles se conhecem é provavelmente uma das mais sexies da carreira do cineasta, notoriamente avesso a manifestações tão claras a respeito de sexualidade e a química entre os dois atores é uma das razões pelas quais o filme funciona tão bem no quesito romântico. Mas Grant quase recusou o papel.


Aos 55 anos de idade, Grant se achava velho demais para viver o irrequieto protagonista de "Intriga internacional", mas acabou sendo convencido por Hitchcock, principalmente porque James Stewart, que estava interessadíssimo no papel teve que sair do projeto para filmar "Anatomia de um crime", de Otto Preminger. Na verdade, Hitchcock postergou o início das filmagens até que Stewart estivesse já comprometido com o filme de Preminger e não pudesse liderar o elenco de "Intriga". O motivo? O diretor considerava que o fracasso comercial de seu filme anterior, "Um corpo que cai" se devia muito à idade avançada do ator. Incoerentemente, ele chamou Grant - um ano mais VELHO que Stewart - para o papel. Vai entender o gorducho!!!

O fato é que Cary Grant domina o filme, com uma atuação exata e discreta, mas sempre eficiente. Com seu charme e elegâncias inatas, ele equilibra atordoamento, angústia, paixão e até mesmo um bem-vindo senso de humor que provavelmente não soaria tão natural em James Stewart. Além do mais, Grant tem um carisma que de imediato o conecta à plateia, a quem não resta nada além do que ficar de olhos vidrados assistindo às espetaculares - e antológicas - cenas de ação do filme. Sucessos de bilheteria como a trilogia Bourne, por exemplo, devem - e muito - a sequências como a perseguição de um avião à personagem de Grant em um descampado e à cena final no Monte Rushmore, dois perfeitos exemplos do talento incansável de seu diretor.

"Intriga internacional" não é meu Hitchcock preferido - não fica nem entre os cinco mais - mas é inegavelmente um dos mais eficientes thrillers de espionagem de todos os tempos.

domingo

IMITAÇÃO DA VIDA


IMITAÇÃO DA VIDA (Imitation of life, 1959, Universal Pictures, 124min) Direção: Douglas Sirk. Roteiro: Eleanore Griffin e Allan Scott, baseado no romance de Fannie Hurst. Fotografia: Russell Metty. Montagem: Milton Carruth. Música: Frank Skinner. Produção: Ross Hunter. Elenco: Lana Turner, John Gavin, Juanita Moore, Sandra Dee, Susan Kohner, Troy Donahue, Robert Alda, Dan O'Herlihy. Estreia: 30/4/59

2 indicações ao Oscar: Melhor Atriz Coadjuvante (Susan Kohner, Juanita Moore)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Susan Kohner)

Antes de abandonar Hollywood e voltar para a sua Alemanha natal, o cineasta Douglas Sirk realizou o que talvez seja, ao lado de "Palavras ao vento", seu filme mais emocional e característico: baseado em um romance de Fannie Hurst, "Imitação da vida" tornou-se seu filme mais bem sucedido em termos de bilheteria, acrescentando um polêmico ingrediente à sua receita de melodramas familiares: o racismo.

Em 1959, Martin Luther King estava no auge de sua luta a favor dos direitos civis dos negros e o romance de Hurst serviu perfeitamente para que Sirk juntasse seu fascínio pelos problemas entre pais e filhos com a nascente preocupação de uma parcela do povo americano com o problema do preconceito racial. Dessa união surgiu um filme poderosamente tocante sobre duas mulheres aparentemente diferentes que se unem na busca pela felicidade das filhas.

A trama de "Imitação da vida" começa no verão de 1947 quando a aspirante a atriz Lora Meredith (Lana Turner), a mãe viúva de uma menina de seis anos de idade, conhece Annie Johnson (Juanita Moore), uma mulher negra que procura um lugar para trabalhar e morar com a filha pequena. As duas acabam se acertando e Annie vai trabalhar com Lora, aproveitando a amizade que surge entre as duas meninas. Aos poucos Lora começa a fazer carreira nos palcos - o que a leva a afastar-se do fotógrafo Steve Archer (John Gavin), apaixonado por ela - e melhorar de vida, deixando de lado a educação da própria filha, que passa a ver em Annie uma figura materna bem mais presente e dedicada - ainda que a filha verdadeira da criada, Sarah Jane, filha de um pai branco, a rejeite por ser negra.

Dez anos depois, quando as meninas estão entrando na juventude, as coisas estão bem diferentes. Lora está famosa e é uma atriz muito bem-sucedida, enquanto Annie é seu braço-direito e melhor amiga. Sarah Jane (Susan Kohner), ainda revoltada com sua origem, esconde de seus amigos e pretendentes que tem sangue negro correndo nas veias, envolvendo-se em situações sempre perigosas e degradantes. E a filha de Lora, Susie (Sandra Dee) se descobre apaixonada por Steve, que volta à vida de sua mãe depois de anos.

"Imitação da vida" é um dramalhão típico, repleto de situações dramáticas que hoje fazem a glória dos autores de telenovelas. Mas ainda assim tem uma aura clássica que o mantém acima de seus congêneres - nem que seja como exemplo de um estilo datado para as gerações posteriores. Lana Turner - recém-saída do escândalo da morte de seu amante Johnny Stompanato - brilha como uma mulher dividida entre uma vida familiar e um universo de glamour e sucesso (talvez como a própria atriz se sentisse na época), mas é a trama paralela que analisa a problemática relação entre Annie e Sarah Jane que mais chama a atenção no resultado final.


Sintomaticamente, foram justamente Juanita Moore e Susan Kohner que conquistaram as únicas indicações ao Oscar do filme. Moore comove sempre que tem a chance de mostrar seu rosto martirizado pela dor da rejeição da própria filha - uma rejeição que não sofre da parte de Susie, que vê nela um exemplo materno mais eficiente do que sua própria mãe biológica. E Kohner apresenta um trabalho eficiente em um papel ingrato mas rico em seus conflitos psicológicos e sentimentais (como curiosidade, Kohner é mãe dos cineastas Chris e Paul Weitz, da série "American pie").

Visualmente "Imitação da vida" usa e abusa do kitsch, mas de forma bem mais discreta do que em trabalhos anteriores de Sirk, o que demonstra sua maturidade em termos visuais. A fotografia de Russell Metty é esplendorosa e casa perfeitamente com o ideal "romântico de fotonovela" proposto pelo cineasta - especialmente na segunda metade do filme, quando a vida de Lora Meredith transforma-se em uma espécie de conto de fadas escondendo graves problemas de relacionamento por trás de seus sorrisos de mentira. Pode-se dizer que a marca registrada de Sirk era justamente desconstruir as fachadas de vidas aparentemente perfeitas. E aqui, mais uma vez, ele o faz com delicadeza e contundência.

"Imitação da vida", assim como toda a obra de Douglas Sirk, não é do agrado de todo mundo. É preciso deixar de lado o preconceito contra melodramas e embarcar na viagem proposta pelo cineasta. Uma vez aceito o convite para penetrar seu universo é relaxar e se emocionar.

sexta-feira

QUANTO MAIS QUENTE MELHOR


QUANTO MAIS QUENTE MELHOR (Some like it hot, 1959, MGM Pictures, 120min). Direção: Billy Wilder. Roteiro: Billy Wilder, I.A.L. Diamond. Fotografia: Charles Lang Jr. Montagem: Arthur P. Schmidt. Música: Adolph Deutsch. Figurino: Orry-Kelly. Produção: Billy Wilder. Elenco: Jack Lemmon, Tony Curtis, Marilyn Monroe, George Raft, Pat O'Brien, Joe E. Brown Estreia: 29/3/59

6 indicações ao Oscar: Diretor (Billy Wilder), Ator (Jack Lemmon), Roteiro Adaptado, Fotografia, Figurino, Direção de Arte
Oscar de Melhor Figurino

Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Ator Comédia/Musical (Jack Lemmon), Atriz Comédia/Musical (Marilyn Monroe)

Em mais uma de suas espirituosas declarações, o cineasta Billy Wilder disse o seguinte: "Tenho uma tia-avó na Áustria que é pontualíssima, mas ninguém pagaria um tostão para vê-la." Não é preciso ser adivinho para entender os motivos que levaram o genial cineasta a soltar essa pérola: ele tinha dirigido Marilyn Monroe duas vezes e sabia com toda a certeza do mundo que, por mais torturante que fosse comandar a estrela, seu nome estampado no cartaz de um filme era garantia de bilheteria. E na segunda ocasião ele estava, outra vez, certo. Fazer com que Monroe acertasse suas cenas era um inferno (em uma ocasião ela errou uma única frase 59 vezes!!!), mas quem, em sã consciência pode julgar Wilder, quando o resultado de tão estafante missão é algo como "Quanto mais quente melhor"?

Considerada unanimemente como uma das comédias mais engraçadas de todos os tempos (o American Film Institute foi ainda mais longe, categorizando-a como a melhor comédia da história), "Quanto mais quente" foi também um dos poucos filmes americanos a figurar na lista negra da Legião de Decência do Catolicismo Romano (sim, isso existe), condenado, provavelmente, por utilizar, para atingir seus objetivos humorísticos, dois homens travestidos. E quem acha que isso é coisa do Papa está enganado: o Kansas também proibiu o filme de estrear, porque "travestismo é muito perturbador para seus conterrâneos". Só o que pode se pensar quanto a isso é: coitado dos cidadãos do Kansas, que foram privados de dar muitas e saudáveis risadas.

"Quanto mais quente melhor" se passa em 1929, em plena vigência da Lei Seca, onde gângsters circulavam livremente pelas ruas de Chicago e chacinas aconteciam a cada esquina. Uma dessas chacinas é testemunhada por dois músicos falidos, Joe (Tony Curtis) e Jerry (Jack Lemmon), que ameaçados de morte pelo mafioso Spats Colombo (George Raft), só encontram uma saída: candidatar-se aos cargos de integrantes de uma banda feminina que está de passagem marcada para a Flórida. O fato de ser uma banda só para mulheres é um detalhe que logo eles tiram de letra: com os nomes de Josephine e Daphne eles embarcam rumo à liberdade ao lado de inúmeras beldades. O que eles não poderiam imaginar é que, durante a viagem eles conheceriam a bela Sugar Cane (Marilyn Monroe) e que o milionário Osgood Fielding III (Joe E. Brown) cairia de amores pela versão feminina de Jerry.


Roteiristas de comédias deveriam ter o script de "Quanto mais quente melhor" como sua Bíblia. É impressionante o número de boas piadas espalhadas pelo script, equilibradas magistralmente entre gags visuais e diálogos engraçadíssimos, que nunca apelam para o vulgar ou grosseiro - o que seria tentador, levando-se em conta a premissa da trama. Tudo é construído cuidadosamente, sem pressa, com um ritmo que nunca é demais nem de menos. Todas as tramas - a perseguição feita pelo mafioso, a farsa que une o milionário criado por Joe para conquistar Sugar e o "romance" entre Daphne e Osgood - tem seus momentos de brilho e importância e acabam fazendo parte de um conjunto irresistível de cenas hilariantes e de uma inteligência rara no gênero. Tudo está no lugar em "Quanto mais quente melhor", cada cena pode ser examinada solitariamente milhares de vezes e sempre será genial, graças especialmente à direção impecável de Billy Wilder e ao elenco escolhido por ele, em que ninguém - NINGUÉM - soa artificial ou fora do espírito da coisa. Das mulheres que fazem parte da banda aos mafiosos, nada está faltando ou sobrando no filme - e alguns coadjuvantes são excepcionais, como o carregador do hotel, apaixonado por Josephine e Joan Shawlee como Sweet Sue (e isso para não citar a incrível participação de Joe E. Brown, que rouba todas as cenas em que aparece como Osgood III).

Mas se o elenco secundário segura o rojão com segurança e desenvoltura, são os atores principais que fazem com que tudo que dá certo no filme pareça ainda mais perfeito. Se Marilyn Monroe enfeita a tela com sua sensualidade e carisma sempre que entra em cena e Tony Curtis demonstra um até então insuspeito talento pra comédia, não há como negar que é Jack Lemmon quem comanda o show. Na pele de Daphne, Lemmon (que ficou com o papel recusado por Jerry Lewis e que Wilder quis oferecer a Frank Sinatra) apresenta um timing irretocável para o humor, sempre utilizando o tom exato para cada frase, a entonação perfeita para cada palavra e uma expressividade corporal e facial que dispensa qualquer exagero (alguns atores ditos de comédia bem que poderiam assistir ao filme com mais frequência para aprender alguma coisa). Indicado ao Oscar por seu trabalho, Lemmon perdeu a estatueta para Charlton Heston, de "Ben-hur", o que já demonstrava desde então o preconceito da Academia para com filmes menos sérios (Billy Wilder também concorreu como diretor, mas não houve a merecidíssima indicação a Melhor Filme).

É um desafio assistir "Quanto mais quente melhor" sem rir - logicamente pessoas com bom gosto cinematográfico que preferem piadas inteligentes à humor pastelão-escatológico. E Wilder tinha razão quando dizia que Marilyn Monroe valia qualquer sacrifício: é impossível imaginar uma outra atriz que conseguisse unir com tanta facilidade sensualidade com inocência. Mesmo em preto e branco (a atriz concordou com a exceção à sua regra contratual de fazer apenas filmes coloridos porque o diretor convenceu-a de que a maquiagem de Lemmon e Curtis ficaria grotesca em cores) sua beleza eterna permanece intocada e, se é de "O pecado mora ao lado" sua cena mais conhecida, é este seu melhor trabalho e o Golden Globe de melhor atriz em comédia/musical apenas reitera essa afirmação.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...