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terça-feira

DOIS TIRAS MEIO SUSPEITOS

 


DOIS TIRAS MEIO SUSPEITOS (Partners, 1982, Paramount Pictures, 93min) Direção: James Burrows. Roteiro: Francis Veber. Fotografia: Victor J. Kemper. Montagem: Danford B. Greene, Stephen Lovejoy. Música: Georger Delerue. Figurino: Wayne Finkleman. Direção de arte/cenários: Richard Sylbert/George Gaines. Produção executiva: Francis Veber. Produção: Aaron Russo. Elenco: Ryan O'Neal, John Hurt, Kenneth McMillan, Robyn Douglas, Jay Robinson, Denise Galik. Estreia: 30/4/82

Para que se goste de "Dois tiras meio suspeitos" é preciso que se leve em conta que seu humor - como o título nacional deixa bem claro - se baseia basicamente em clichês e estereótipos homossexuais, o que, à época de seu lançamento (1982) não era uma questão que chegava a incomodar o público médio que havia ignorado de forma ostensiva o policial "Parceiros da noite" (1980) e lotado as salas de exibição para rir do casal gay de "A gaiola das loucas" (1978) - não por acaso escrito pelo mesmo Francis Veber dessa produção de baixo orçamento da Paramount que não era do agrado dos executivos do estúdio e naufragou nas bilheterias. Descrito pela crítica como um cruzamento entre o filme estrelado por Al Pacino - que narrava as desventuras de um detetive inserido no submundo gay nova-iorquino para encontrar um serial killer - e "Um estranho casal", protagonizado por Jack Lemmon e Walter Matthau em 1968, "Dois tias meio suspeitos" é um típico exemplar dos chamados buddy movies, mas acrescido de uma temática gay que o coloca em uma seleta lista de produções que ousaram desafiar o conservadorismo que ditava as regras do cinema norte-americano na virada da década de 1980. É possível inclusive afirmar que seu pífio desempenho comercial tem mais a ver com a mentalidade das plateias do que por sua falta de qualidade. Mesmo que não seja uma comédia memorável, a única incursão de James Burrows no cinema merece créditos por, de uma forma ou outra, colocar nas telas um protagonista gay simpático que não sofre de problemas familiares ou morre vitimado pela AIDS.

Kerwin (John Hurt) é um sargento da polícia de Los Angeles que não consegue disfarçar sua orientação sexual - o que lhe dá enorme dificuldade em encontrar um parceiro profissional. Para sua surpresa, no entanto, ele é chamado por seus superiores e descobre que foi escalado para investigar uma série de assassinatos de homossexuais, aparentemente pelo mesmo criminoso. Se a missão não é exatamente novidade, a forma encontrada pelo departamento para atingir seu objetivo é bastante peculiar: infiltrar dois policiais na comunidade gay local e, apresentando-os como um casal, fazê-los chegar à identidade do serial killer. Rejeitado por seus colegas no dia-a-dia, Kerwin vê no caso a possibilidade de adquirir respeito e prestígio com a solução dos crimes, mas não poderia imaginar a dificuldade que surge da ideia. Seu novo parceiro, o sargento Benson (Ryan O'Neal), além de heterossexual convicto, é mulherengo, pouco afeito a sutilezas e não exatamente fã das consequências que podem advir desse capítulo de sua carreira. Missão dada e missão aceita: Kerwin e Benson precisam não apenas investigar mortes violentas, mas aprender a conviver com suas diferenças - especialmente Benson, cujo medo de ser realmente confundido com um homem gay é tão grande quanto o de ser morto no cumprimento do dever.

 

James Burrows, o diretor de "Dois tiras meio suspeitos", tornou-se, décadas depois do lançamento do filme, o responsável pela condução de mais de 240 episódios da série "Will & Grace" - além de ter, no currículo, trabalhos em "Friends", "Mike & Molly", "Cheers", "Frasier" e da série que originou-se de seu único trabalho no cinema (apresentada entre 2012 e 2013). Seu timing para comédia é inegável, buscando sempre o melhor efeito para arrancar gargalhadas do público - algo não muito difícil com a presença sempre certeira de John Hurt, capaz de fazer rir com o mínimo gesto ou entonação. Voltando ao universo gay que já havia lhe rendido um Emmy e outros prêmios por sua atuação como Quentin Crisp em "Vida nua" (1975) - papel ao qual retornou em "An Englishman in New York" (2009) -, Hurt se destaca principalmente em comparação com Ryan O'Neal: depois de uma década de 1970 repleta de êxitos (e uma festejada colaboração artística com Stanley Kubrick), O'Neal entrava em um período problemático na carreira, enfileirando um fracasso atrás do outro e colecionando críticas negativas. Em "Dois tiras meio suspeitos" ele desfila seu charme quase ingênuo em situações constrangedoras das quais se desincumbe com relativa eficácia. Sua dupla com Hurt funciona essencialmente graças ao contraste avassalador não apenas em termos visuais, mas também - e principalmente - em estilos de vida. Mais do que uma trama policial razoavelmente interessante, o roteiro de Francis Veber trata da relação conflituosa entre seus personagens centrais - e do poder miraculoso da tolerância.

Apesar de apelar para algumas sequências que podem incomodar ao público mais suscetível ao politicamente correto, "Dois tiras meio suspeitos" cumpre o que promete desde seu cartaz: fazer rir. Não atinge os níveis de sofisticação de "A gaiola das loucas" - cuja ironia enfatizava a hipocrisia da sociedade francesa -, mas brinca com os elementos típicos da comédia com o objetivo de atingir plateias pouco afeitas ao universo gay. Não deu muito certo em termos financeiros - apesar do orçamento modesto a produção entrou para a lista dos fracassos comerciais da Paramount na década de 1980 -, mas é divertido o bastante para que seus problemas sejam relevados pelo espectador menos exigente. Em um mundo mais atento às diferenças e à tolerância pode soar quase ofensivo. Mas, diante do conservadorismo norte-americano de sua época, não deixa de ser um filme bastante ousado.

quarta-feira

HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL

HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL (Harry Potter and the sorcere's stone, 2001, Warner Bros, 152min) Direção: Chris Columbus. Roteiro: Steve Kloves, romance de J. K. Rowling. Fotografia: John Seale. Montagem: Richard Francis-Bruce. Música: John Williams. Figurino: Juddiana Makovsky. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Stephenie McMillan. Produção executiva: Michael Barnathan, Chris Columbus, Duncan Henderson, Mark Radcliffe. Produção: David Heyman. Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Richard Harris, Maggie Smith, Alan Rickman, Ian Hart, Julie Walters, John Hurt, Robbie Coltrane, Fiona Shaw, Richard Griffiths, Harry Melling. Estreia: 04/11/2001

3 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Não tinha como dar errado: o primeiro volume de um fenômeno editorial que só crescia a cada livro lançado, um cineasta acostumado a lidar com potenciais blockbusters e todo o capricho que um generoso orçamento de cerca de 125 milhões de dólares pode comprar. Além disso, um marketing poderoso, uma pré-produção que enchia de expectativas os fãs mais ardorosos, e um elenco que reunia jovens iniciantes com veteranos acima de qualquer suspeita. "Harry Potter e a pedra filosofal" não era apenas mais um filme, era um evento de enormes proporções e uma aposta certeira da Warner para bater de frente com outro fenômeno literário que também chegava às telas de cinema: o ambicioso "O Senhor dos Anéis". Mesmo com um público-alvo mais jovem do que aquele dos filmes de Peter Jackson que começavam sua trajetória nas salas de exibição, a comparação entre as duas produções não era completamente equivocada: ambos os filmes davam o pontapé inicial em séries que tanto poderiam passar à história como imensos sucessos ou avassaladores fracassos. Para o bem de todos e felicidade geral dos estúdios, porém, os leitores fiéis - e os neófitos curiosos - correram para os cinemas, e os críticos, normalmente bem avessos à superproduções, aplaudiram de pé e ficaram ansiosos pelo próximo capítulo.

A trajetória de "Harry Potter e a pedra filosofal" para passar das páginas escritas pela britânica J. K. Rowling para os cinemas do mundo inteiro já começou com uma batalha campal para que o estúdio chegasse ao nome mais apropriado para sentar na cadeira de diretor. Rowling sugeriu o nome do excêntrico Terry Gilliam - e provavelmente por seu histórico irregular o cineasta foi dispensado pela Warner. A princípio, o estúdio pensava em transformar os livros em um filme de animação - uma providência que evitaria os problemas que poderiam ter com o elenco infantil, que fatalmente cresceriam durante a produção dos (então) sete livros. Steven Spielberg até demonstrou interesse na primeira fase de negociações, mas acabou recusando o trabalho por, segundo boatos de bastidores, considerá-lo "fácil demais" - o que não deixa de ser verdade, haja visto seu vasto currículo de filmes-evento. A saída de Spielberg do projeto o levou novamente à estaca zero, e sua sugestão para a empreitada, M. Night Shyamalan, tampouco teve sucesso nas negociações. Nomes de vários estilos começaram a pipocar na imprensa especializada como sendo de prováveis diretores do primeiro filme - dos mais sérios (Jonathan Demme, Alan Parker, Peter Weir) aos mais apropriados para desenvolver um universo mais divertido e mais próximo à obra literária (Ivan Reitman, Rob Reiner, Brad Silberling). Quem acabou levando a melhor, no entanto, foi um diretor já acostumado com sucessos de bilheteria infantojuvenis: Chris Columbus, o homem por trás de "Esqueceram de mim" (90) e "Uma babá quase perfeita" (92) se apaixonou pelos livros de Rowling através de sua filha, e insistiu tanto com os executivos da Warner que acabou ganhando o trabalho - não apenas para o primeiro filme, mas também para o segundo.


Mas se encontrar um diretor que agradasse à escritora e respeitasse o desejo do estúdio de uma produção comercialmente viável foi difícil, o pior ainda estava por vir: o elenco. Rowling exigia que os atores escolhidos para o filme fossem britânicos, o que logo de cara excluía alguns fãs do livro que sonhavam em fazer parte do espetáculo, como Robin Williams, Rosie O'Donnell. Rowling em pessoa escolheu Alan Rickman (Severo Snape), Maggie Smith (McGonnagal) e Robbie Coltrane (Hagrid) para papéis fundamentais na trama, e o irlandês Richard Harris (única exceção permitida pela escritora) para viver o sábio Albus Dombledore, mas a grande questão no momento era uma só: quem irá interpretar os fiéis amigos do protagonista e, principalmente, quem emprestaria seu rosto a Harry Potter pela próxima década? Chris Columbus tinha uma ideia bastante clara a esse respeito, e sempre que perguntado sobre o assunto pelos executivos da Warner, mostrava cenas de uma adaptação televisiva de Charles Dickens, "David Copperfield" (1999) e apontava para o jovem Daniel Radcliffe como o intérprete ideal. Foram mais de 5000 testes até que finalmente a diretora de elenco do filme conseguiu o que o diretor mais desejava: convencer os pais do rapaz para que aprovassem sua participação no projeto. Para interpretar seus dois leais companheiros foram escolhidos Rupert Grint (Ronnie Weasley) e Emma Watson (Hermione Granger). No papel do rival de Potter na escola Howgrats de bruxaria, o escolhido foi Tom Felton, que havia feito o teste para viver Harry. E o resto é de conhecimento internacional.

Filmado na Inglaterra e na Escócia entre setembro de 2000 e março de 2001, "Harry Potter e a pedra filosofal" acabou se tornando um capítulo de estreia dos mais empolgantes. Somado ao senso de ritmo e humor de Columbus, o roteiro de Steve Kloves acertou em cheio ao introduzir sua trama e seus personagens de maneira fluida e sem pressa: com 152 minutos de duração, o filme mantém o espectador atento dos primeiros (e cômicos) momentos até seu clímax - um jogo de xadrez sinistro onde o mal começa a mostrar a que veio, fato que irá se aprofundar nos demais filmes (e livros), que vão se tornando gradualmente sombrios. A química entre o elenco de novatos e veteranos é impecável e o visual foi lembrado pela Academia com uma indicação aos Oscar de direção de arte e figurino - a trilha sonora, do onipresente John Williams também foi indicada. Aplaudido pela crítica e pelos fãs mais exigentes, "Harry Potter e a pedra filosofal" arrecadou quase 1 bilhão de dólares pelo mundo - foi a maior bilheteria do ano - e abriu as portas para os demais filmes da série, cada vez menos infantil e mais empolgante. Uma produção infanto-juvenil que ultrapassa sua definição mais óbvia e conquista também a plateia mais velha, o filme de  Chris Columbus é um entretenimento dos mais bem-sucedidos, e se não foi levado tão a sério quanto seu rival direto - "O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel" - ao menos se mantém fresco e agradável mesmo depois de quase vinte anos. Um clássico instantâneo!

terça-feira

JACKIE

JACKIE (Jackie, 2016, Fox Searchlight Pictures, 100min) Direção: Pablo Larraín. Roteiro: Noah Oppenheim. Fotografia: Stéphane Fontaine. Montagem: Sebastián Sepúlveda. Música: Mica Levi. Figurino: Madeline Fontaine. Direção de arte/cenários: Jean Rabasse/Véronique Melery. Produção executiva: Martine Cassinelli, Charlie Corwin, Wei Han, Jayne Hong, Jennifer Monroe, Howard Owens, Lin Qi, Pete Shilaimon, Josh Stern. Produção: Darren Aronofsky, Pascal Caucheteaux, Scott Franklin, Ari Handel, Juan de Dios Larraín, Mickey Liddell. Elenco: Natalie Portman, Peter Sarsgaard, Greta Gerwig, Billy Crudup, John Carrol Lynch, Richard E. Grant, John Hurt, Beth Grant. Estreia: 07/9/16 (Festival de Veneza)

3 indicações ao Oscar: Atriz (Natalie Portman), Trilha Sonora Original, Figurino

Quem conhece a filmografia do cineasta chileno Pablo Larraín já sabe o que esperar de "Jackie": não uma cinebiografia convencional da mais famosa primeira-dama dos EUA, mas uma tentativa de retratar diferentes ângulos de sua personalidade a partir da morte de John F. Kennedy, um dos mais traumáticos eventos da história do país, ocorrido em novembro de 1963, em Dallas. Com base em uma entrevista concedida pela jovem viúva ao repórter Theodore H. White - da revista Life - pouco depois do trágico acontecimento, o roteiro de Noah Oppenheim se recusa a seguir uma linha narrativa tradicional e constrói, através de silêncios, meias-verdades e declarações da protagonista, um perfil não completo, mas controverso e complexo de uma das figuras mais admiradas e influentes do século XX. Contando com uma atuação irretocável de Natalie Portman no papel central e uma reconstituição meticulosa de alguns momentos cruciais da história da família Kennedy durante sua estada na Casa Branca, "Jackie" é um filme acima da média, ainda que possa causar certo estranhamento àqueles que procuram uma produção nos moldes acadêmicos. Mas, como já afirmado, quem conhece a obra de seu diretor não irá se surpreender tanto assim.

Crítico ferrenho da política e da sociedade chilena, Pablo Larraín assinou filmes polêmicos e crus - como "Tony Manero" (2008) e "Post mortem" (2010) -, o indicado ao Oscar de melhor produção estrangeira "No" (2012) e o controverso "O clube" (2015), que concorreu ao Golden Globe na mesma categoria. Em todos eles, há a tendência em tocar em feridas ainda não cicatrizadas - sejam elas quais forem, desde pedofilia na Igreja Católica até a traumática ditadura de Pinochet. Distante geográfica e emocionalmente da trajetória de Jacqueline Kennedy, Larraín pode exumar sem medo suas contradições e mecanismos de defesa, apresentando uma protagonista que deixa vislumbrar seus medos e inseguranças somente em momentos solitários - e em uma ou outra hesitação na voz e no olhar durante a famosa entrevista (no filme o repórter, vivido por Billy Crudup, não tem nome e nem a revista Life é citada, para maior liberdade artística). Louvada como ícone fashion e uma das mulheres mais elegantes do mundo, no filme de Larraín a elegante Jackie mostra outras facetas de si mesma: a mãe extremada e preocupada com o destino dos filhos, a viúva chocada com o fim trágico do marido diante de seus olhos, a primeira-dama exemplar posta na angustiante situação de ver-se desamparada e a mulher altiva que evita demonstrar sentimentos exagerados para o povo ainda aturdido com toda a situação. Natalie Portman se encarrega de dar vida a todas às nuances propostas pelo roteiro, mostrando que alguns males realmente vem para o bem: a primeira opção para o papel era Rachel Weisz, na época em que o projeto era do cineasta Darren Aronofsky - que dirigiu Portman em "Cisne negro" e se manteve como produtor mesmo depois de pular fora da direção: Weisz é uma boa atriz, mas Natalie simplesmente desaparece na pele de Jackie, em um trabalho de imersão que justifica plenamente sua indicação ao Oscar.


Amparada por uma caracterização impecável - em especial o figurino de Madelie Fontane, também concorrente ao Oscar - e pela decisão de Larraín em utilizar primordialmente os primeiros takes de cada cena e filmar com uma câmera de mão (como forma de extrair as emoções de maneira mais orgânica e claustrofóbica possível), a atuação de Natalie Portman faz esquecer que, na verdade, ela é bastante diferente fisicamente da verdadeira Jacqueline Kennedy. Sua empostação de voz, postura e trejeitos convencem o público assim que ela entra em cena, ainda abalada pela morte do marido, mas tentando, de todas as formas, manter uma classe e uma força interior que possa inspirar os fãs. Seus diálogos com o repórter mostram uma mulher estoica e conformada - e é aí que o roteiro dá seu pulo do gato, com flashbacks reveladores tanto de seus momentos imediatamente posteriores à morte do marido quanto de outra ocasião célebre: o tour televisionado pela Casa Branca, que aproximou a família presidencial do povo e tornou-a quase uma espécie de família real norte-americana. Misturando cenas reais do programa com takes filmados com o elenco liderado por Portman, Pablo Larraín volta a brincar com a dicotomia real/fictício que já havia imposto a "No", e a edição magistral torna a experiência ainda mais satisfatória.

Sempre que as imagens reais de Jacqueline, John Kennedy e seu entorno surgem na tela, Pablo Larraín faz questão de intercalar com cenas reconstituídas, explorando ao máximo o extremo cuidado em sua recriação e a mágica de transformar alguns momentos icônicos da história dos EUA em cinema de qualidade. Se Natalie Portman traduz a protagonista com perfeição, não se pode deixar de elogiar também o trabalho de Peter Sarsgaard como Bobby Kennedy: igualmente pouco semelhante ao irmão do presidente (e que também foi assassinado, em 1968), Sarsgaard convence facilmente a plateia tão logo aparece, tamanha o seu talento em desaparecer sob o gestual formal e público do personagem. É também notável como o cineasta atinge plenamente seu objetivo de mostrar ângulos diversos de seus personagens, deixando a audiência vislumbrar, ocasionalmente, as pessoas por trás dos ícones - é para isso que estão em cena personagens cruciais, como a assistente e melhor amiga de Jackie, Nancy Tuckerman (Greta Gerwig), e um padre católico que a ajuda a compreender e lidar com a dor da perda (John Hurt em um de seus últimos trabalhos): esses elos de Jackie com o mundo exterior lhe dão a chance de expor seus sentimentos, e o filme cresce a cada momento em que eles estão presentes, graças à inteligência dos diálogos e da sensibilidade do diretor.

Com uma bela e sutil trilha sonora - que também concorreu a uma estatueta dourada - e um respeito quase reverente à sua protagonista, "Jackie" é um filme que pode não agradar a todos os públicos, mas que resiste bravamente à tentação de ser mais uma compilação de fofocas de bastidores e se torna um retrato interessante e elegante de uma das figuras femininas mais importantes do século XX. Não é o grande filme que poderia ser, mas é bastante recomendável a quem procura cinema de qualidade.

sexta-feira

O ESPIÃO QUE SABIA DEMAIS

O ESPIÃO QUE SABIA DEMAIS (Tinker tailor soldier spy, 2011, StudioCanal, 127min) Direção: Tomas Alfredson. Roteiro: Peter Straughan, Bridget O'Connor, romance de John Le Carré. Direção: Hoyte Van Hoytema. Montagem: Dino Jonsater. Música: Alberto Iglesias. Figurino: Jacqueline Durran. Direção de arte/cenários: Maria Djurkovic/Tatiana MacDonald, Zsuzsa Mihalek. Produção executiva: Liza Chasin, Olivier Courson, Ron Halpern, Debra Hayward, John Le Carré, Peter Morgan, Douglas Urbanski. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Robyn Slovo. Elenco: Gary Oldman, John Hurt, Colin Firth, Toby Jones, Tom Hardy, Benedict Cumberbatch, Kahty Burke, Ciarán Hinds, David Dencik. Estreia: 05/9/11 (Festival de Veneza)

3 indicações ao Oscar: Ator (Gary Oldman), Montagem, Trilha Sonora Original 

Para se assistir a "O espião que sabia demais" duas coisas são imprescindíveis: paciência e atenção. Paciência porque o filme, baseado em um romance de John LeCarré - que já rendeu uma minissérie de TV - tem um ritmo próprio, mais lento do que as habituais produções hollywoodianas centradas em espionagem que mal dão tempo ao espectador para respirar (como a excepcional trilogia Bourne, estrelada por Matt Damon). E atenção porque, apesar de nunca atropelar as informações, o roteiro de Peter Straughan e Bridget O'Connor(que morreu antes do lançamento do filme e a quem ele é dedicado) é tão recheado de pequenos detalhes e silêncios reveladores que, se o espectador der uma piscadela corre o risco de perder o fio da meada e se confundir irremediavelmente.

Em uma época em que tudo chega ao público da maneira mais mastigadinha possível, um filme como "O espião que sabia demais" é um estranho no ninho. Dirigida com uma elegância e uma quase frieza que trai as origens nórdicas de seu diretor Tomas Alfredson (cujo cartão de visitas é a ótima versão original do terror "Deixe ela entrar"), a trama - complexa e um tanto anacrônica nos dias de hoje, em que a Guerra Fria é apenas um fantasma longínquo - quase serve mais como um show de atores do que exatamente um thriller convencional de espionagem. Na pele do protagonista George Smiley, finalmente Gary Oldman tem o reconhecimento que merece há décadas, em uma atuação construída em cima de sutilezas e movimentos delicados que foi recompensada com uma indicação ao Oscar. Mesmo cercado de atores de talento comprovado - Colin Firth, Toby Jones, Ciarán Hinds, Kathy Burke, Tom Hardy - o inglês que deu intensidade ímpar ao protagonista de "Drácula de Bram Stoker" cria um personagem de personalidade ambígua, mantendo o interesse do público desde as primeiras cenas até o final coerente e inteligente.


Ah, sim, a história... Passado nos anos primeiros anos da década de 70, "O espião que sabia demais" começa quando Control (o ótimo John Hurt), chefe do Serviço de Inteligência Britânico é obrigado a se demitir depois de uma missão tragicamente equivocada na Hungria. Junto com ele, sai do serviço seu braço-direito, George Smiley (Oldman, econômico em gestos e palavras), que, algum tempo depois, é procurado pelo governo para investigar a acusação do jovem agente Ricki Tarr (Tom Hardy em papel herdado de Michael Fassbender e demonstrando um talento que frequentemente se esconde debaixo dos músculos), que, ecoando uma suspeita de seu antigo chefe, afirma que existe um agente duplo entre os agentes do grupo. Smiley, de fora da agência, tenta descobrir a partir daí, quem é o real culpado (e se ele realmente existe), uma tarefa nada fácil, uma vez que todos os seus ex-colegas - Percy Alleline (Toby Jones), Toby Esterhase (David Dencik), Roy Bland (Ciarán Hinds) e Bill Haydon (Colin Firth) - parecem ter algo a esconder.

O filme de Alfredson é construído a partir de detalhes, de pequenas coisas, de mentiras e meias-verdades que só serão esclarecidas em seus minutos finais. O ritmo lento talvez afugente o público acostumado a ação desenfreada, mas, fotografado com discrição e apresentando uma reconstituição de época impecável, é um filme sério, feito para adultos que prezam o cérebro e os olhos. A estupenda e precisa edição - que a princípio parece confundir mas aos poucos vai iluminando cada um de seus personagens a partir de sutilezas de que só os grandes cineastas são capazes - contribui para o clima de confusão que se estabelece tanto ao público como a seu protagonista, permitindo uma imersão total na trama criada pelo escritor John Le Carré, que tem aqui a melhor adaptação de uma obra sua, ao lado de "O jardineiro fiel", dirigida pelo brasileiro Fernando Meirelles em 2005 mas dotada de um calor que os contrapõem totalmente. É uma prova da personalidade marcante de seu cineasta, capaz de acrescentar - e muito - ao cinema hollywoodiano.

terça-feira

MELANCOLIA

MELANCOLIA (Melancholia, 2011, Zentropa Entertainments/Memfis Films, 130min) Direção e roteiro: Lars Von Trier. Fotografia: Manuel Alberto Claro. Montagem: Molly M. Stensgaard. Figurino: Manon Rasmussen. Direção de arte/cenários: Jette Lehman/Simone Grau Roney. Produção executiva: Peter Garde, Peter Albaek Jensen. Produção: Meta Louise Foldager, Louise Vesth. Elenco: Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland, Alexander Skarsgard, Stellan Skarsgard, Brady Corbet, John Hurt, Charlotte Rampling, Udo Kier. Estreia: 18/5/11 (Festival de Cannes)

Vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes: Melhor Atriz (Kirsten Dunst)

Foi durante a entrevista coletiva de lançamento de "Melancolia", em maio de 2011, que o cineasta Lars Von Trier deu a infame declaração em que afirmava compreender Adolf Hitler. A controvérsia acabou fazendo com que o normalmente polêmico diretor fosse banido do festival, mas não impediu que seu belo filme saísse premiado com a Palma de Ouro de Melhor Atriz para Kirsten Dunst. Substituindo a primeira opção para o papel - Penélope Cruz, que pulou fora para navegar com Johnny Depp no tenebroso terceiro capítulo da cinessérie "Piratas do Caribe"- Dunst mereceu a premiação: basta poucos minutos em cena para que seu desempenho, intenso e febril, apague da mente do espectador que ele está diante da faceira Mary Jane da trilogia do Homem-aranha dirigida por Sam Raimi. Tornando-se a terceira atriz dirigida por Von Trier a sair laureada do festival francês - antes dela foram laureadas a cantora Bjork, por "Dançando no escuro", em 2000, e Charlotte Gainsbourg, por "Anticristo", de 2009 - Dunst mostrou que os elogios que recebeu ao interpretar a pequena morta-viva Claudia de "Entrevista com o vampiro" não foram levianos e que, adulta, ela é uma atriz repleta de nuances e recursos.

Segunda parte da entitulada "Trilogia da Depressão", de Von Trier - que começou com "Anticristo" e terminou com os dois volumes de "Ninfomaníaca", todos com Charlotte Gainsbourg no elenco - "Melancolia" é, sem dúvida, a obra que tem o visual mais deslumbrante dos três - cortesia da fotografia de Manuel Alberto Claro - e a trama menos polêmica e mais acessível, apesar do tema difícil. Dividido em dois capítulos com os nomes das protagonistas (depois de um belíssimo prólogo, como já passou a ser uma marca registrada do diretor), o filme conta, a grosso modo, a história de duas irmãs (e sua família) que aguardam a colisão de um planeta chamado Melancolia com a Terra, fato que, logicamente, significaria o fim do mundo. No entanto, nas mãos do cineasta, o que poderia ser mais um longa de ficção científica corriqueiro e recheado de clichês, se transforma em um estudo poderoso e angustiante sobre amor, família e depressão - esta última retratada de forma exemplar através de Justine, a personagem de Dunst.


Justine - que dá nome ao primeiro capítulo - tem tudo para ser uma mulher feliz e realizada. Bonita, inteligente e rica, ela trabalha em uma agência de publicidade, é reconhecida profissionalmente e está se casando com o homem que aparentemente ama, o carinhoso Michael (Alexander Skarsgard, da série "True blood"). Acontece que as coisas não são tão simples assim para ela: sofrendo de uma severa depressão, ela atravessa a sofisticada e caríssima festa de casamento organizada pela irmã, Claire (Charlotte Gainsbourg) e pelo cunhado John (Kiefer Sutherland) - um cientista que não acredita na colisão iminente entre os dois planetas - como quem atravessa um calvário. Nada lhe excita, nada lhe impressiona, nada lhe deixa alegre e tal situação acaba ficando óbvia até para o pouco atento noivo - o que acarreta em um final pouco feliz para a cerimônia. O segundo capítulo - batizado com o nome de Claire - se passa nos dias seguintes à festa, quando Justine, ao lado da irmã, do cunhado e do sobrinho, tenta superar o agravamento de sua crise depressiva enquanto aguarda o momento em que a natureza irá decidir o destino da Terra e de seus habitantes. Dessa vez, porém, é Claire quem não tem certeza se conseguirá suportar tanta tensão e angústia.

Para que "Melancolia" seja melhor compreendido pelo seu público, é essencial que se saiba o que esperar da proposta de Lars Von Trier - que confessou ter escrito o roteiro sob forte influência de drogas e álcool, o que já dá pistas a respeito do tom pouco festivo da trama. Pouco afeito a conceitos como otimismo e felicidade, o cineasta faz desfilar pela tela personagens que não retratam exatamente as melhores qualidades do ser humano - até mesmo a mãe interpretada por Charlotte Rampling parece desprovida de qualquer traço de simpatia ou solidariedade - e não poupa o espectador de mergulhar sem reservas na doença de Justine, filmada sem filtros de glamour ou romantismo. Menos simbólico do que "Anticristo" mas ainda assim um prato cheio para quem busca no cinema uma forma de analisar o mundo contemporâneo - física ou psicologicamente - o filme de Von Trier faz uso de metáforas visuais e temáticas para atingir seus objetivos artísticos e os faz com maestria. Não é, mais uma vez em sua carreira, um filme para todos os tipos de público. Mas é um belo espetáculo narrativo e um ponto alto de sua filmografia.

sexta-feira

O HOMEM ELEFANTE

O HOMEM ELEFANTE (The elephant man, 1980, Brooksfilms, 124min) Direção: David Lynch. Roteiro: Christopher De Vore, Eric Bergren, David Lynch, livros "The elephant man and other reminiscences", de Frederick Treves e "The elephant man: a study in human dignity", de Ashley Montagu. Fotografia: Freddie Francis. Montagem: Anne V. Coates. Música: John Morris. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Bob Cartwright. Produção executiva: Stuart Cornfeld. Produção: Jonathan Sanger. Elenco: John Hurt, Anthony Hopkins, Anne Bancroft, John Gielgud, Wendy Hiller, Freddie Jones, Hannah Gordon. Estreia: 03/10/80

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (David Lynch), Ator (John Hurt), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Quem conhece os trabalhos mais célebres de Mel Brooks - como as amalucadas comédias "O jovem Frankenstein" (74) e "Banzé no Oeste" (74) - talvez fique estarrecido ao final de uma sessão de "O homem elefante". O humor característico do diretor inexiste completamente na recriação cinematográfica da história de Joseph Carey Merrick, jovem inglês que, devido a deformidades de nascença, foi tratado como aberração de circo na Londres do século XIX, até ser resgatado do sofrimento por um médico interessado em sua doença. Ao produzir o segundo filme do diretor David Lynch - depois do cultuado mas pouco visto "Eraserhead" (77) - Brooks chegou a tirar seus nomes dos créditos, temeroso de que o público julgasse que a trama seguisse seu estilo cômico. O resultado é um fenomenal e arrebatador drama de época capaz de emocionar sem, no entanto, apelar para o sentimentalismo barato.

Filmado em deslumbrante preto-e-branco pelo veterano Freddie Francis - retornando ao cinema depois de 16 anos afastado - "O homem elefante" tem seu roteiro inspirado principalmente nas memórias do Dr. Frederick Treves (um Anthony Hopkins uma década antes do triunfo de "O silêncio dos inocentes"), o responsável por tirar Merrick de um destino cruel como atração de um show de aberrações e levá-lo para um hospital público de Londres dirigido pelo rígido mas sensível  Dr. Carr Gomm (John Gielgud). Apesar disso - e de também ter contado com outros escritos a respeito do protagonista - o script não se furta a fazer alterações na história real, para fins dramáticos. Isso não diminui, no entanto, sua força excepcional como arte cinematográfica, que mostra o talento que David Lynch amadureceria posteriormente a ponto de ganhar uma Palma de Ouro em Cannes por "Coração selvagem", em 1990. Trabalhando pela primeira vez em um filme com pretensões comerciais (apesar do tema e do enfoque), Lynch viu sua obra concorrer merecidamente a oito Oscar. Infelizmente, a Academia preferiu a versão suburbana do drama familiar de "Gente como a gente", de Robert Redford - e se for levado em consideração que outro concorrente na principal categoria era "Touro indomável", de Martin Scorsese, percebe-se que erros no resultado final do Oscar não são novidade.


Trabalhando debaixo de uma maquiagem pesadíssima que demandava de sete a horas para aplicar - e que causou polêmica por não ter sido indicada ao Oscar, que ainda não tinha uma categoria fixa para a categoria - o ator John Hurt fez de seu desafio uma grande chance para brilhar. Como uma espécie de monstro de Frankenstein - um ser que esconde um enorme coração sob um visual aterrorizante - seu John Merrick (o nome real já estava modificado nos escritos do dr. Trevers) conquista o espectador sem fazer esforços, vítima que é de constantes crueldades, seja de seu "dono" Bytes (Freddie Jones), do público que paga para testemunhar suas deformidades ou do funcionário canalha do hospital (Michael Elphick) que faz excursões da boemia londrina a seu quarto com o objetivo de ganhar trocados (e de quebra humilhá-lo). O que mais emociona o público, porém, não é tanto seu sofrimento, mas sim seus momentos de felicidade. É difícil conter as lágrimas, por exemplo, na cena em que Merrick acompanha a atriz (Anne Bancroft) em um trecho de "Romeu e Julieta" ou quando ele encontra a esposa de Trevers pela primeira vez - "Desculpe, mas eu não estou acostumado com tanta gentileza vinda de mulheres tão bonitas." Também é arrepiante a sequência que mostra o primeiro encontro entre Merrick e seu futuro médico (e amigo): a lágrima solitária de Anthony Hopkins ao encarar algo jamais visto em sua profissão diz mais do que páginas e páginas de diálogos.

"O homem elefante" é uma pequena obra-prima. Visualmente deslumbrante, interpretada com sentimento e dirigida com inteligência, a história de John Merrick (ou Joseph, se for considerado seu real nome) é daquelas de apertar o coração e ficar na memória por um bom tempo. Mais do que isso, Lynch apresenta em seu trabalho um otimismo inesperado, mostrando como a bondade de poucas pessoas pode representar muito mais na vida de alguém do que a maldade de várias. A delicadeza ímpar de suas sequências finais comprova a afirmação, transformando o que poderia ser um desfecho catártico em uma poesia visual e delicada. Para quem duvida que Lynch é mais do que um cineasta esquisito, nada melhor do que "O homem elefante" para comprovar o contrário.

sábado

V DE VINGANÇA

V DE VINGANÇA (V for Vendetta, 2005, Warner Bros, 132min) Direção: James McTeigue. Roteiro: Andy Wachowski, Lana Wachowski, HQ de David Lloyd. Fotografia: Adrian Biddle. Montagem: Martin Walsh. Música: Dario Marianelli. Figurino: Sammy Sheldon. Direção de arte/cenários: Owen Paterson/Peter Walpole. Produção executiva: Benjamin Waisbren. Produção: Grant Hill, Joel Silver, Andy Wachowski, Larry Wachowski. Elenco: Natalie Portman, Hugo Weaving, Stephen Rea, John Hurt, Stephen Fry, Rupert Graves, Sinead Cusack. Estreia: 11/12/05

Em 1999, os irmãos Wachowski mudaram o cenário dos filmes de ficção científica com o megasucesso "Matrix", que rendeu duas continuações e colocou seu nome na estratosfera da indústria hollywoodiana. Demorou seis anos, porém, para que eles voltassem a chamar a atenção do público e da crítica, dessa vez como roteiristas. Ao adaptar para as telas a graphic novel "V for Vendetta", de David Lloyd, os irmãos mais esquisitos do cinema americano entregaram a direção nas mãos dao australiano James McTeigue, estreando na função. Não é preciso ser muito esperto para perceber, no entanto, que, apesar do nome de McTeigue estar na cadeira de diretor é a concepção dos Wachowski que predomina nessa fascinante crítica ao fascismo - que chegou a ser proibida na China devido a seu conteúdo "subversivo".

Passado em uma Grã-Bretanha distópica que vive sob um governo fascista, "V de vingança"não tem medo de descrever uma tirania violenta e arbitrária, capaz de prender e torturar cidadãos sem o menor pudor - desmandos nada estranhos a quem já passou por ditaduras sangrentas. O público é jogado na trama sob o ponto de vista da jovem Eve (Natalie Portman pegando o papel cobiçado por Scarlett Johansson e Keira Knightley), que é salva de um estupro por um misterioso mascarado que a leva para casa e revela a ela um plano mirabolante para uma revolução popular. A princípio chocada e temerosa a respeito de seu anfitrião - que a aprisiona e chega a lhe raspar o cabelo - Eve aos poucos passa a simpatizar com sua causa, principalmente quando entra em contato com histórias tenebrosas a respeito do regime. Em pouco tempo, ela se alia ao estranho V (Hugo Weaving) e torna-se militante ativa da revolução.



É difícil resumir "V de vingança", um filme que tem como seu maior atrativo o clima de desesperança transformado em combustível para o levante popular - o que certamente incomodou o governo de países em situação similar. Criado com um visual que equilibra a escuridão do regime com a busca por uma luz no fim do túnel - que tem em sua sequência final o clímax absoluto - o filme de McTeigue também não deixa de lado a construção psicológica de suas personagens, dando a Portman e Weaving oportunidades enormes para o brilho. Enquanto o ator - que atingiu o ápice da carreira como o vilão Mr. Smith da série "Matrix" e assumiu o papel central depois da demissão de James Purefoy - convence plenamente como V mesmo sem tirar sua máscara em momento algum, Portman atinge outro ponto alto da carreira, mesclando docilidade, revolta e dor na medida exata. E seria injusto louvar também a maneira com que o roteiro dá igual espaço a cenas de ação e violência e à delicadeza da história de amor entre duas mulheres - que empurra Eve definitivamente para o lado da oposição ao governo: é uma trama paralela forte e comovente que serve também para conquistar de vez a audiência.

Em um período em que filmes de ação servem unicamente como diversão escapista que sacrifica o cérebro do espectador, "V de vingança" consegue fazer pensar ao mesmo tempo em que entretém. Mesmo que em determinados momentos o ritmo caia - talvez devido à inexperiência do diretor - o resultado final é forte, impactante e memorável. Um dos mais importantes filmes de sua época!

DOGVILLE

DOGVILLE (Dogville, 2003, Zentropa Entertainment, 178min) Direção e roteiro: Lars Von Trier. Fotografia: Anthony Dod Mantle. Montagem: Molly Marlene Stensgaard. Figurino: Manon Rasmussen. Direção de arte/cenários: Peter Grant/Simone Grau. Produção: Vibeke Windelov. Elenco: Nicole Kidman, Paul Bettany, Chloe Sevigny, Lauren Bacall, Patricia Clarkson, James Caan, Hariett Andersson, Jean-Marc Barr, Jeremy Davies, Ben Gazzarra, Philip Baker Hall, Zeljko Ivanek, John Hurt, Stellan Skarsgaard, Udo Kier. Estreia: 19/5/03 (Festival de Cannes)

Um diretor que assina filmes como “Ondas do Destino”, “Os Idiotas” e “Dançando no Escuro” não pode ser considerado alguém com muita fé na bondade inerente ao ser humano. Dito isto, é possível entender ainda mais as implicações sociais, psicológicas e religiosas de outra de suas obras consideradas de difícil digestão.“Dogville”, de Lars Von Trier, é possivelmente a mais radical e desconcertante experiência cinematográfica de 2003. E por mais de uma razão.

Pode-se começar pela total e absoluta ruptura de linguagem cinematográfica, que se afasta abruptamente do normal, do mainstream, do comercial... O termo “suspensão da realidade” talvez seja a palavra de ordem aqui. Não há cenários elaborados, não há truques corriqueiros de cinema hollywoodiano, não há deuses ex-machina salvadores. Há Atores (assim mesmo, com A maiúsculo), há a total crença no texto e nas ideias revolucionárias (na falta de palavra melhor), há a história forte e de importante ressonância política, ainda que mal disfarçada por uma metáfora facilmente decodificável. Quem é Grace (Nicole Kidman, ainda em sua fase de boa atriz) senão a representação de povos menos favorecidos que são escravizados pelos colonizadores donos da bola? Quem são os moradores do lugarejo chamado Dogville senão os próprios donos da bola, os colonizadores que exploram aqueles que precisam incondicionalmente de sua ajuda? Nem Michael Moore faria melhor e seria mais incisivo.



A história é simples como convém: uma pequena cidade do Colorado, chamada Dogville, recebe, com suspeitas, a jovem Grace (Nicole Kidman), que se esconde de um grupo de gângsters por motivos que não quer revelar. Influenciados por Tom (Paul Bettany), o intelectual do lugar, os habitantes da cidade aceitam a presença da bela jovem, que, agradecida, passa a ajudar a todos os moradores com suas rotinas diárias. Apaixonado por Grace, Tom não percebe, porém, que a moça começa a ser cada vez mais explorada por todos conforme mais dúvidas vão surgindo a respeito de seu passado. Abusada fisicamente, sexualmente e psicologicamente, Grace se submete a tudo em um resignado silêncio, até que a verdade a seu respeito finalmente aparece e ameaça destruir toda a cidade.

“Dogville” pode ser considerado a colação de grau do Dogma 95, criado por Trier e seus contemporâneos para manter a pureza do cinema enquanto sétima arte. Ao reunir teatro e cinema em um mesmo pacote, o diretor incorreu na ira dos puristas, que não conseguem render-se ao novo, ao experimental. Não é um filme fácil, em nenhuma hipótese.  O ritmo é lento, a ação é psicológica e não física (o que a falta de cenários só corrobora) e pode aborrecer os mais ansiosos por barulhos e correrias. Se o objetivo é diversão, é mais garantido recorrer aos blockbusters que abarrotam as videolocadoras. Ao menos, eles têm finais felizes e produções mais caras e elaboradas. E as imagens finais do grande filme de Lars Von Trier, ao som de “Young Americans”, uma das mais críticas canções de David Bowie são a prova inconteste de que finais felizes não podem ser mais anacrônicos do que em um mundo à mercê de grandes e auto-centradas potências.

quarta-feira

CONTATO

CONTATO (Contact, 1997, Warner Bros, 150min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: James V. Hart, Michael Goldenberg, romance de Carl Sagan, história de Carl Sagan, Ann Druyan. Fotografia: Don Burgess. Montagem: Arthur Schmidt. Música: Alan Silvestri. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Ed Verreaux/Michael J. Taylor. Produção executiva: Joan Bradshaw, Lynda Obst. Produção: Steve Starkey, Robert Zemeckis. Elenco: Jodie Foster, Matthew McConaughey, David Morse, Jena Malone, William Fichtner, Rob Lowe, Tom Skerritt, Angela Bassett, John Hurt. Estreia: 11/7/97

Indicado ao Oscar de Som

Um dos mais populares escritores e astrônomos do mundo, Carl Sagan, autor da famosa série "Cosmos", morreu no final de 1996, quando as filmagens de um de seus mais estimados projetos ainda em andamento. Concebido no início dos anos 80 já em formato de filme e posteriormente transformado em romance, "Contato" chegou às telas alguns meses depois da morte de Sagan, arrancando elogios unânimes da crítica e amealhando nada desprezíveis 100 milhões de dólares somente no mercado doméstico americano. Levando-se em consideração que seu diretor é Robert Zemeckis - que fez com que "Forrest Gump", a história simples de um rapaz com problemas mentais se tornasse uma das maiores bilheterias da história - não chega a ser surpresa o sucesso do filme. Surpresa é o fato de o filme ter alcançado tamanho êxito sem apelar para efeitos visuais desnecessários nem tampouco descaracterizar a trama criada por Sagan. Apesar de classificar-se, sim, como uma ficção científica, "Contato" expande os limites do gênero ao tratar a busca por vida em outros planetas de uma maneira completamente diferente do mostrado até então.

A principal preocupação do roteiro de "Contato" não é levar o espectador à Marte ou planetas outros ao lado de personagens engraçadinhos e forjados sem a menor sutileza. A conversa aqui é bem outra, graças à inteligência da história criada por Sagan. A protagonista do filme é Ellie Arroway (vivida por uma Jodie Foster madura e sempre competente), uma astrônoma dedicada a sua busca por provas de vida fora da Terra. Lutando contra seus financiadores, que acreditam que ela está perdendo dinheiro com suas pesquisas, ela conta com a ajuda de seus colegas para manter viva a esperança de fazer a grande descoberta de sua vida. Um dia, finalmente ela ouve ruídos em seu rádio e descobre, sem sombra de dúvida, que tais sons são a prova da existência de alienígenas inteligentes. Ainda através de contatos sonoros, tais seres enviam  instruções para a construção de uma máquina que permitirá a um terráqueo viajar até eles. Quando tal nave fica pronta, porém, uma dúvida surge: quem é realmente digno de representar o planeta?



É a partir desse questionamento filosófico/religioso que "Contato" sai do lugar-comum dos filmes de ficção científica e penetra em um nível bem mais superior de entretenimento. Sem nunca descuidar do desenvolvimento dramático da história - que inclui a interessante relação entre a intelectual Ellie e o teólogo Joss Palmer (Matthew McConaughey) - o roteiro dá ao público um vasto material para discussões sem, por causa disso, confundí-lo com complexidades inúteis. Está tudo acomodado de forma sutil e convincente, principalmente porque, além de tudo, Zemeckis tem o dom de sempre escalar um elenco preciso. Logicamente, a dona da festa é Jodie Foster, que conduz toda a história com a majestade de sempre, mas seus coadjuvantes não podem jamais ser acusados de ficarem eclipsados por seu enorme talento.

Enquanto Matthew McConaughey aproveita seu status de "novo galã da hora em Hollywood" - foi seu primeiro trabalho após o sucesso de "Tempo de matar" - William Fichtner tem a maior chance de sua carreira ao interpretar o braço direito de Ellie, Kent, um cientista cego de importância fundamental na narrativa e John Hurt quase rouba a cena na pele de S.R. Hadden, o excêntrico milionário que possibilita à protagonista realizar seu sonho - em uma sequência belíssima realizada com extremo bom-gosto. Não bastasse isso, ainda fazem pequenas participações Tom Skerritt, Angela Bassett, Rob Lowe e até mesmo o presidente Bill Clinton, cujo discurso foi utilizado sem prévia permissão e causou controvérsia. E é inadmissível não lembrar das ótimas participações de Jena Malone e David Morse nas cenas iniciais, como a menina Ellie e seu pai, cuja morte tem ressonância em todo o filme.

"Contato" é, portanto, uma ficção científica com os dois pés na realidade. Não é um filme para o público que lotou as salas de cinema para assistir a bobagens indescritíveis como "Independence Day", mas para aquela plateia que gosta de ter seu cérebro bem tratado por duas horas e meia.

terça-feira

ALIEN, O OITAVO PASSAGEIRO


ALIEN, O OITAVO PASSAGEIRO (Alien, 1979, 20th Century Fox, 117min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Dan O'Bannon, estória de Dan O'Bannon e Ronald Shusett. Fotografia: Derek Vanlint. Montagem: Terry Rawlings, Peter Weatherley. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: John Mollo. Direção de arte/cenários: Michael Seymour/Ian Whittaker. Produção executiva: Ronald Shusett. Produção: Gordon Carroll, David Giler, Walter Hill. Elenco: Tom Skerrit, Sigourney Weaver, Ian Holm, John Hurt, Veronica Cartwright, Harry Dean Stanton, Yaphet Kotto. Estreia: 25/5/79

2 indicações ao Oscar: Direção de arte, Efeitos Visuais
Vencedor do Oscar de Efeitos Visuais


"Do espaço, ninguém pode ouvir você gritar!" Com esse slogan de efeito chegava às telas americanas, em maio de 1979, um filme que iria revolucionar a ficção científica, influenciando todas as posteriores produções do gênero - além de gerar, até agora, três sequências com diretores diferentes e resultados finais variados. Acrescentando elementos de suspense e terror aos tradicionais elementos que o gênero normalmente apresentava, "Alien, o oitavo passageiro", de Ridley Scott virou referência obrigatória. E prova, mais uma vez que os filmes originais são, via de regra, superiores a suas continuações.

A trama de Scott (substituindo o diretor original Walter Hill, que assumiu a produção do filme) se passa dentro da nave comercial Nostromo, que, a caminho de volta à Terra se vê compelida a investigar um pedido de SOS vindo de um planeta próximo à sua rota. Liderados por Dallas (Tom Skerrit), a tripulação de sete integrantes leva um susto quando uma forma de vida desconhecida ataca um de seus colegas, Kane (John Hurt), grudando-se em seu capacete. Ao ser examinado pelo cientista da equipe, Ash (Ian Holm), Kane é morto pelo invasor, que mistura-se às engrenagens da nave, aumentando assustadoramente de tamanho. Conforme todos os membros da tripulação começam a ser aniquilados pelo alien, resta à Tenente Ripley (Sigourney Weaver) lutar pela sua sobrevivência e pela destruição do monstro.

Grande sucesso de bilheteria em 1979, "Alien" deu à novata Sigourney Weaver a chance de sua carreira. Comparada com Jane Fonda pelos sortudos que assistiram a seu teste, ela ficou com o papel central - que era masculino nos primórdios do roteiro e que chegou a ser confirmado como sendo de Veronica Cartwright antes das filmagens - e tornou-se a heroína mais conhecida do cinema de ação hollywoodiano. Dona de um rosto de traços marcantes e exalando uma personalidade forte e corajosa - sem nunca deixar de lado as qualidades que a fazem ser também uma mulher - Weaver empresta à Ripley tudo que é necessário para convencer a plateia a ser seu cúmplice. E de certa forma isso é preciso, pois, apesar da truculência e da crueldade de seu rival, poucas vezes Hollywood construiu um vilão tão à altura dos mocinhos quanto o monstro criado pela imaginação de Dan O'Bannon e pelo talento visual de Carlo Rambaldi.

A equipe de Rambaldi levou o Oscar de efeitos especiais pela criação de seu alien, um monstro quase amorfo que é capaz de fundir-se à nave espacial que invade, sangra ácido e é dono de uma violência sem precedentes. O visual da criatura, que foi ficando maior e mais sofisticado conforme os anos iam passando e a série ia tornando-se mais e mais generosa em termos de orçamento, virou espécie de referência para qualquer ficção científica que se preze e é impossível, hoje em dia, tirar da cabeça sua forma assustadora e ameaçadora.


Ao contrário de sua primeira continuação, dirigida por James Cameron em 1986, que transformava a luta da Tenente Ripley em super-espetáculo, o primeiro capítulo da série opta pelo caminho menos fácil. É somente depois de seis silenciosos minutos que começamos a entender o que é a Nostromo, quem são seus tripulantes e passamos a saber mais sobre suas personalidades. É somente depois do primeiro ataque do monstro que ficamos sabendo que Ash não era o cientista original do grupo, que Dallas e Ripley tem uma relação a mais (a cena de sexo entre os dois foi escrita mas nunca filmada) e que a "Mãe" (computador que passa as coordenadas a serem seguidas) tem ideias diferentes a respeito da manutenção do alienígena dentro da nave. Ridley Scott leva tempo antes de começar a matança, extraindo o possível de cada cena, de cada clima, de cada personagem. E quando o suspense realmente começa, é impossível ficar tranquilo.

Mesmo depois de se assistir a "Alien" inúmeras vezes ainda é interessante perceber como Ridley Scott (que meros 3 anos depois legaria ao mundo o sensacional "Blade Runner") tem o dom de levar o espectador para onde ele quer. Apesar dos termos técnicos utilizados em alguns momentos do longa (problema inevitável em filmes do estilo) o público é seduzido logo de cara pelo intrigante roteiro, pela fotografia claustrofóbica e pela trilha sonora angustiante do mestre Jerry Goldsmith. Não bastasse tudo isso, a plateia ainda leva uma boa meia dúzia de sustos e fica o filme todo na ponta da cadeira. Precisa mais de um filme de terror?

Por mais que os filmes de James Cameron, David Fincher e Jean-Pierre Jeunet (todos cineastas criativos, inteligentes e talentosos) tenham cada um uma assinatura diferente e por conseguinte objetivos diversos, ainda é o escuro e apavorante primeiro capítulo de Ridley Scott que mantém a série "Alien" acima de qualquer suspeita.

sexta-feira

O EXPRESSO DA MEIA-NOITE


O EXPRESSO DA MEIA-NOITE (Midnight express, 1978, Columbia Pictures, 121min) Direção: Alan Parker. Roteiro: Oliver Stone, basedo no livro de William Hayes e William Hoffer. Fotografia: Michael Seresin. Montagem: Gerry Hambling. Música: Giorgio Moroder. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Geoffrey Kirkland/Evan Hercules. Produção executiva: Peter Guber. Produção: Alan Marshall, David Puttnam. Elenco: Brad Davis, John Hurt, Randy Quaid, Irene Miracle, Paolo Bonacelli, Mike Kellin. Estreia: 06/10/78

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alan Parker), Ator Coadjuvante (John Hurt), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor de 2 Oscar: Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original
Vencedor de 6 Golden Globes: Filme/Drama, Ator Coadjuvante (John Hurt), Roteiro, Trilha Sonora, Estreia masculina (Brad Davis), Estreia feminina (Irene Miracle)

Depois que se assiste a “Expresso da meia-noite” fica-se com um nó na garganta. Não por tristeza, mas talvez por revolta. Inacreditavelmente baseado em uma história real, o filme do inglês Alan Parker é um petardo emocional e sensorial que dificilmente pode ser esquecido ou tido como entretenimento simples e fácil. Se a história do americano Billy Hayes é sofrida e deprimente, ao menos originou um dos melhores filmes de 1978 e talvez o melhor da carreira do cineasta.

Billy Hayes, vivido no filme por um impressionante Brad Davis, é um jovem americano de classe média que é preso na Turquia com um carregamento de haxixe. Acusado de tráfico de drogas, ele é preso imediatamente e condenado a seis anos de cadeia, sem dar muitas chances ao advogado contratado por seu pai. Às vésperas de sua soltura, porém, como forma de fazer dele um exemplo aos EUA - com quem não tem a mais amigável das relações - o governo turco transmuta sua sentença para prisão perpétua. Uma vez condenado, Hayes é trancafiado em uma prisão assustadora, violenta e sem muita noção do que significam as palavras Direitos Humanos. Sua única chance de sobreviver ao inferno é fugir com alguns companheiros de cela no que eles chamam de Expresso da Meia-noite, ou seja, um túnel. Para isso, ele terá que testemunhar uma truculência inimaginada em seus dias na América.


Poucas vezes se viu no cinema uma obra tão abertamente brutal como “Expresso da meia-noite”. Sem medo de chocar e/ou afugentar seu público, Alan Parker mergulha seu protagonista em um buraco de racismo, dor e violência. Para isso conta com o inspirado roteiro de Oliver Stone (premiado com o Oscar): mesmo alterando substancialmente algumas passagens do livro escrito pelo próprio Hayes - as passagens do livro que se referem a sua experiência homossexual dentro da prisão foi deslavadamente modificadas, o que tira um pouco de sua credibilidade, o script do futuro diretor dá a exata noção do pesadelo no qual um jovem saudável, amado pela família e pela namorada é jogado de uma hora para outra. O filme não faz julgamentos morais a respeito de seu protagonista, que no entanto, depois de tanto sofrimento, acaba conquistando a simpatia do público, mesmo longe de ser um exemplo a ser seguido.

Muito dessa conquista se deve ao trabalho de Brad Davis, que transmite em cada olhar de dor e revolta todos os sentimentos complexos de seu personagem. Lembrando alguns trejeitos de James Dean - principalmente na forma como lida com a injustiça e a revolta - ele foi mais um jovem talento que morreu cedo - Davis morreu de AIDS aos 41 anos em 1991. Contando com a ajuda de colegas de elenco como John Hurt e Randy Quaid, como dois prisioneiros que unem-se a ele em sua trajetória rumo à liberdade ainda que tardia, Davis foi uma revelação das mais empolgantes do final da década de 70, causando polêmica com seu trabalho em "Querelle", de 1982.

Não se pode esperar que “Expresso da meia-noite” seja um filme para divertir. É cinema sério, de denúncia, mas que jamais esquece de seu principal objetivo: contar uma boa história, com personagens fortes e um roteiro bem estruturado. Contando ainda com uma fotografia opressiva de Michael Seresin e uma trilha sonora de Giorgio Moroder que já tornou-se clássica, é um filme que dificilmente abandona a memória.
O único alívio que se tem ao assisti-lo é saber que, mesmo sendo uma história verdadeira, não aconteceu conosco.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...