GAROTO NOTA 10 (Starter for 10, 2006, BBC Films/HBO Films, 92min) Direção: Tom Vaughan. Roteiro: David Nicholls, romance de sua autoria. Fotografia: Ashley Rowe. Montagem: Jon Harris, Heather Pearsons. Música: Blake Neely. Figurino: Charlotte Morris. Direção de arte/cenários: Sarah Greenwood/Katie Spencer. Produção executiva: Michelle Chydzik Sowa, Nathalie Marciano, Sam Mendes, Jeff Abberley, Julia Blackman. Produção: Gary Goetzman, Tom Hanks, Pippa Harris. Elenco: James McAvoy, Rebecca Hall, Alice Eve, Benedict Cumberbatch, Dominic Cooper, Charles Dance, Lindsay Duncan, James Corden, Catherine Tate. Estreia: 13/9/06 (Festival de Toronto)
O enorme sucesso de vendas do romance "Um dia" - e sua consequente adaptação para o cinema, estrelada por Anne Hathaway e Jim Sturgess - fez com que o nome do britânico David Nicholls se tornasse popular a ponto de ser comparado a Nick Hornby, um dos mais festejados escritores dos anos 90. Assim como seu conterrâneo, Nicholls privilegia a prosa simples, irônica e recheada de referências pop em suas histórias, sempre protagonizadas por gente comum, que pode morar na casa ao lado do leitor - ou, no caso, do espectador. Se em sua obra mais famosa um casal de amigos atravessava anos de relacionamento antes de descobrir que eram feitos um para o outro, em seu livro "Resposta certa" o protagonista era um jovem nerd tentando encontrar o amor e o sucesso acadêmico. Transformado em filme, o livro foi batizado no Brasil de "Garoto nota 10" e adaptado longe de Hollywood - na Inglaterra. Estrelado por James McAvoy antes de tornar-se conhecido como o jovem Professor Xavier da série "X-Men" e com participação de Benedict Cumberbatch antes de sua consagração com a indicação ao Oscar por "O jogo da imitação" (2014), o filme de Tom Vaughan é uma comédia romântica despretensiosa, com ares das produções dirigidas por John Hughes na década de 80.
A comparação com as obras de Hughes - o Midas dos filmes adolescentes oitentistas - não é gratuita: "Garoto nota 10" se passa em 1985, o que remete diretamente às produções que fizeram a glória de Molly Ringwald. O protagonista, Brian Jackson (interpretado com graça e bom timing por James McAvoy), também poderia facilmente ser uma criação de Hughes, uma vez que possui todas as características mais caras ao falecido diretor: é um nerd desajeitado, tímido e romântico, que só tem certeza absoluta de sua inteligência e do desejo que passa a sentir pela bela e experiente Alice (Alice Eve) - parte do time de estudantes de sua universidade que tem como objetivo participar de um badalado programa de TV sobre conhecimentos gerais. Chegado do interior e com uma alma ainda presa à sua rotina de estudante com pouca vida social, Jackson imediatamente se apaixona por Alice, bate de frente com o líder do grupo de nerds, Patrick Watts (Benedict Cumberbatch), se afasta cada vez mais da mãe viúva e dos amigos de infância, e não percebe que sua alma gêmea é a polêmica Rebecca Epstein (Rebecca Hall). Em outras palavras, a ciranda romântica já vista centenas de vezes mas que, quando narrada com frescor e simpatia, funciona às mil maravilhas. E é isso que acontece com o primeiro longa-metragem de Vaughn.
Embalado por uma deliciosa trilha sonora repleta de hits dos anos 80, "Garoto nota 10" conquista exatamente por não tentar ser mais do que é. Apresenta personagens com extrema simpatia e generosidade e conta suas trajetórias sem pressa, explorando sempre o mais agradável e divertido de cada um - mesmo quando as coisas saem do controle o carinho do autor por cada uma de suas criações fica evidente, especialmente quando se trata de Brian Jackson. Se no livro de Nicholls o protagonista já era adorável e compreensivelmente falho em suas desajeitadas tentativas de levar a vida de forma menos rígida, na interpretação do ótimo James McAvoy suas qualidades ficam ainda mais claras e destacadas: o ator que no mesmo ano duelou com Forest Whitaker em "O último rei da Escócia" mostra que já tinha talento o suficiente para entrar em Hollywood pela porta da frente - o que fez quando estrelou "Desejo e reparação" (que também consta com Benedict Cumberbatch no elenco) e começou sua escalada rumo às produções mais badaladas. A forma com que McAvoy retrata Brian Jackson é preciosa e delicada, levando a plateia a ficar do seu lado mesmo quando ele está decididamente errado - uma qualidade louvável em tempos onde os personagens principais andam fazendo questão de soarem arrogantes e/ou desagradáveis. O triângulo amoroso central também funciona muito bem (com a bela Alicia Eve e a sofisticada Rebecca Hall muito bem escaladas) e é uma pena apenas que o clímax não tenha a força que deveria - um pequeno escorregão que não apaga os inúmeros pontos positivos do resultado final.
O público disposto a encarar uma sessão descompromissada tem muito a ganhar com "Garoto nota 10". O roteiro escrito pelo próprio David Nicholls flui com naturalidade, o elenco é coeso, a trilha sonora é cativante e o humor é adequado às pretensões da trama e da época em que ela se passa. Talvez seu único defeito seja exatamente seu excesso de discrição, uma quase timidez que fez com que passasse quase em branco nos cinemas, a despeito de suas qualidades. Um filme que merece ser descoberto pelos fãs do gênero - e que comprova que Nicholls é, sem dúvida, o sucessor perfeito de Nick Hornby (a essa altura dedicado a escrever roteiros para cinema, função que lhe rendeu uma indicação ao Oscar por "Brooklin", de 2015).
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terça-feira
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O DESPERTAR
O DESPERTAR (The awakening, 2011, StudioCanal/BBC Films, 102min) Direção: Nick Murphy. Roteiro: Stephen Volk, Nick Murphy. Fotografia: Eduard Grau. Montagem: Victoria Boydell. Música: Daniel Pemberton. Figurino: Caroline Harris. Direção de arte/cenários: Jon Henson/Robert Wischhusen-Hayes. Produção executiva: Jenny Borgars, Will Clarke, Olivier Courson, Robin Guise, Peter Hampden, Norman Merry, Joe Oppenheimer, Peter Raven, Carole Sheridan. Produção: Sarah Curtis, Julia Stannard, David M. Thompson. Elenco: Rebecca Hall, Dominic West, Imelda Staunton, Isaac Hempstead Wright, Shaun Dooley. Estreia: 16/9/11 (Festival de Toronto)
Via de regra, um bom filme de fantasmas conta sempre com uma ambientação apropriada, uma história interessante, um final surpreendente e um bom elenco. Funcionou muito bem, por exemplo, em "O sexto sentido" (99), em "Os outros" (2001) e em "O orfanato" (2007). Funciona apenas em parte em "O despertar". Co-produzido pela BBC Films, o filme de Nick Murphy - oriundo da televisão - tem como seus maiores trunfos as presenças das ótimas Rebecca Hall e Imelda Staunton, mas esbarra em problemas de ritmo e foco, que acabam por diluir as boas ideias do roteiro e dar a impressão de que é mais longo do que deveria. Ainda assim, por levar-se a sério e não cair na tentação de pregar sustos aleatórios, é uma produção acima da média, capaz de conquistar os fãs do gênero, principalmente graças a algumas surpresas em seu final - mesmo que ele se arraste mais do que o necessário depois de seu clímax.
A trama tem início na Inglaterra de 1921, ainda se recuperando do final da I Guerra Mundial. Esse ambiente, ainda traumatizado pela perda de milhares de vidas, é fértil para Florence Cathcart, que trabalha ajudando a polícia a desmascarar fraudes que envolvem falsos médiuns e comunicações com os mortos. Escritora relativamente famosa, ela é procurada por Robert Mallory (Dominic West), o diretor de uma escola para meninos que vem, segundo ele, sendo assombrado por fantasmas que provavelmente tem relação com uma tragédia ocorrida na mansão alguns anos antes. Mesmo pouco interessada, Florence aceita o desafio de provar que tudo não passa de imaginação ou armação, e assim que chega na escola sente-se aceita pela governanta, Maud (Imelda Staunton), e procura se informar a respeito de tudo que acontece no local - ainda chocado com a recente morte de um aluno. Quando percebe que talvez haja realmente algo de estranho na história, Florence pede que todos os alunos sejam mandados para casa. Ficam na imensa propriedade apenas ela, Mallory, Maud, um empregado e um aluno, Thomas Hill (Isaac Hempstead Wright) - e revelações irão testar a coragem e o ceticismo da experiente caçadora de mentiras.
O roteiro de Stephen Volck e do diretor Nick Murphy usa e abusa de todos os clichês do gênero, mas felizmente o fazem de forma inteligente, inserindo aos poucos todos os elementos de sua trama e sem exagerar nos sustos. Sua opção acertada em apostar na atmosfera lúgubre e nos personagens - interessantes e bem desenvolvidos - faz toda a diferença: mesmo que a história seja quase derivativa em seus desdobramentos, ela prende a atenção por se levar a sério e realmente envolver o espectador. Rebecca Hall é a atriz ideal para o papel principal, com seu rosto quase frio e postura pétrea; seus embates com Imelda Staunton - uma atriz gigantesca quando tem a oportunidade de mostrar seu talento - são hipnotizantes e compensam alguns momentos mortos. Já a química entre Hall e Dominic West não é tão eletrizante: ambos são bons atores mas falta algo para que o relacionamento entre Florence e Mallory convença a plateia (talvez o fato de ambos transmitirem uma aura pouco expansiva e/ou carismática). Ainda assim, o roteiro leva a trama até o final sem maiores tropeços, oferecendo um bom espetáculo aos fãs de um filme de terror elegante e sutil.
Fugindo dos sustos óbvios e seguindo um caminho de mais sugestão e menos terror - que muito deu certo nos filmes de Shyamalan, Amenábar e Bayona citados no primeiro parágrafo -, "O despertar" faz parte de uma linhagem de produções que tentam resgatar o clima nostálgico de clássicos do gênero. Acerta em boa parte do tempo (a ambientação, a direção cuidadosa, o elenco bem escalado), mas não é um filme perfeito: se estende sem necessidade, falha em criar uma empatia entre a protagonista e o público e não assusta tanto quanto deveria. Porém, diante da enxurrada de filmes baratos de terror que chegam ao consumo do espectador sem oferecer mais do que roteiros pífios e atuações canhestras, é um bálsamo. Merece ser descoberto e recomendado!
Via de regra, um bom filme de fantasmas conta sempre com uma ambientação apropriada, uma história interessante, um final surpreendente e um bom elenco. Funcionou muito bem, por exemplo, em "O sexto sentido" (99), em "Os outros" (2001) e em "O orfanato" (2007). Funciona apenas em parte em "O despertar". Co-produzido pela BBC Films, o filme de Nick Murphy - oriundo da televisão - tem como seus maiores trunfos as presenças das ótimas Rebecca Hall e Imelda Staunton, mas esbarra em problemas de ritmo e foco, que acabam por diluir as boas ideias do roteiro e dar a impressão de que é mais longo do que deveria. Ainda assim, por levar-se a sério e não cair na tentação de pregar sustos aleatórios, é uma produção acima da média, capaz de conquistar os fãs do gênero, principalmente graças a algumas surpresas em seu final - mesmo que ele se arraste mais do que o necessário depois de seu clímax.
A trama tem início na Inglaterra de 1921, ainda se recuperando do final da I Guerra Mundial. Esse ambiente, ainda traumatizado pela perda de milhares de vidas, é fértil para Florence Cathcart, que trabalha ajudando a polícia a desmascarar fraudes que envolvem falsos médiuns e comunicações com os mortos. Escritora relativamente famosa, ela é procurada por Robert Mallory (Dominic West), o diretor de uma escola para meninos que vem, segundo ele, sendo assombrado por fantasmas que provavelmente tem relação com uma tragédia ocorrida na mansão alguns anos antes. Mesmo pouco interessada, Florence aceita o desafio de provar que tudo não passa de imaginação ou armação, e assim que chega na escola sente-se aceita pela governanta, Maud (Imelda Staunton), e procura se informar a respeito de tudo que acontece no local - ainda chocado com a recente morte de um aluno. Quando percebe que talvez haja realmente algo de estranho na história, Florence pede que todos os alunos sejam mandados para casa. Ficam na imensa propriedade apenas ela, Mallory, Maud, um empregado e um aluno, Thomas Hill (Isaac Hempstead Wright) - e revelações irão testar a coragem e o ceticismo da experiente caçadora de mentiras.
O roteiro de Stephen Volck e do diretor Nick Murphy usa e abusa de todos os clichês do gênero, mas felizmente o fazem de forma inteligente, inserindo aos poucos todos os elementos de sua trama e sem exagerar nos sustos. Sua opção acertada em apostar na atmosfera lúgubre e nos personagens - interessantes e bem desenvolvidos - faz toda a diferença: mesmo que a história seja quase derivativa em seus desdobramentos, ela prende a atenção por se levar a sério e realmente envolver o espectador. Rebecca Hall é a atriz ideal para o papel principal, com seu rosto quase frio e postura pétrea; seus embates com Imelda Staunton - uma atriz gigantesca quando tem a oportunidade de mostrar seu talento - são hipnotizantes e compensam alguns momentos mortos. Já a química entre Hall e Dominic West não é tão eletrizante: ambos são bons atores mas falta algo para que o relacionamento entre Florence e Mallory convença a plateia (talvez o fato de ambos transmitirem uma aura pouco expansiva e/ou carismática). Ainda assim, o roteiro leva a trama até o final sem maiores tropeços, oferecendo um bom espetáculo aos fãs de um filme de terror elegante e sutil.
Fugindo dos sustos óbvios e seguindo um caminho de mais sugestão e menos terror - que muito deu certo nos filmes de Shyamalan, Amenábar e Bayona citados no primeiro parágrafo -, "O despertar" faz parte de uma linhagem de produções que tentam resgatar o clima nostálgico de clássicos do gênero. Acerta em boa parte do tempo (a ambientação, a direção cuidadosa, o elenco bem escalado), mas não é um filme perfeito: se estende sem necessidade, falha em criar uma empatia entre a protagonista e o público e não assusta tanto quanto deveria. Porém, diante da enxurrada de filmes baratos de terror que chegam ao consumo do espectador sem oferecer mais do que roteiros pífios e atuações canhestras, é um bálsamo. Merece ser descoberto e recomendado!
sexta-feira
CHRISTINE
CHRISTINE (Christine, 2016, BorderLine Films/Fresh Jade, 119min) Direção: Antonio Campos. Roteiro: Craig Shilowich. Fotografia: Joe Anderson. Montagem: Sofia Subercaseaux. Música: Danny Bensi, Saunder Juriaans. Figurino: Emma Potter. Direção de arte/cenários: Scott Kuzio/Jess Royal. Produção executiva: Sean Durkin, Robert Halmi Jr., Josh Mond, Jim Reeve. Produção: Melody C. Roscher, Craig Shilowich. Elenco: Rebecca Hall, Michael C. Hall, Tracy Letts, Maria Dizzia, J.Smith-Cameron, John Cullum, Tim Simmons. Estreia: 23/01/16 (Festival de Sundance)
O Festival de Sundance 2016 apresentou uma situação atípica: dois filmes que tiveram sua estreia por lá tratavam exatamente do mesmo assunto, ou melhor, da mesma personagem principal. Enquanto "Kate plays Christine", de Robert Greene optava por uma mistura de documentário e ficção, no entanto, o filme de Antonio Campos - filho do jornalista brasileiro Lucas Mendes e da produtora italiana Rose Ganguzza, que foi empresária de Pelé por um período de tempo - se concentra em dramatizar a trágica história da repórter televisiva Christine Chubbuck, uma mulher presa em uma profunda depressão e lutando continuamente contra suas frustrações pessoais. "Christine", estrelado por uma perturbadora Rebecca Hall - premiada como melhor atriz no Festival de Chicago e elogiada unanimemente pela crítica - é um retrato ao mesmo tempo fascinante e mórbido de uma pessoa no limite de suas forças, o que faz dele, por consequência, uma experiência um tanto desconfortável ao espectador que procura apenas por entretenimento. No entanto, é um trabalho forte e consistente, que revela em Campos um cineasta de grande futuro.
Interessado pela história da protagonista por também ter passado por episódios de severa depressão, Antonio Campos tem outra grande qualidade: é um diretor que nutre grande respeito por seu material humano, que acredita na força de sua personagem central e não a trata como mero elemento narrativo. Ainda que a verdadeira Christine Chubbuck não fosse tão perceptivelmente deprimida como mostrado no filme (uma pequena licença poética que em nada tira a força do resultado final, muito pelo contrário), a forma como o roteiro de Craig Shilowich vai gradualmente envolvendo a plateia em seu turbilhão emocional demonstra seu objetivo em criar uma empatia entre público e personagem - por mais que ela seja dotada de uma estranheza que dificulte tal conexão. É nesse ponto que entra o intenso desempenho de Rebecca Hall: em seu trabalho mais desafiador, a atriz entrega uma metódica interpretação, repleta de detalhes físicos que explicitam seu estado de espírito mesmo quando os diálogos que trava com colegas e a mãe dizem exatamente o oposto. Em sua pele, Christine desperta um misto de compaixão e desconforto. É uma performance impecável!
Mas afinal qual é a história contada no filme? Para quem não conhece o desfecho da trajetória de Christine o melhor é não saber de muitos detalhes - o final é chocante e até hoje desperta muita controvérsia, com teorias de conspiração surgindo a cada momento. O que se pode adiantar sem prejuízo é que o roteiro acompanha a busca da repórter televisiva Christine Chubbuck, que, na segunda metade dos anos 70, luta para ser reconhecida por seus colegas e superiores de uma pequena emissora de uma cidade do interior. Depois de ter passado por uma severa crise depressiva, Christine vive uma relação tumultuada com a mãe, Peg (J. Smith-Cameron) - uma mulher que tenta aproximar-se da filha mas nem sempre é bem-sucedida - e, ao contrário do que se poderia supor de alguém que é voluntária em um hospital infantil com um teatro de fantoches, esconde uma vontade quase mórbida de ascender profissionalmente e levar uma vida normal. Uma série de problemas se acumulam em seus dias e nem mesmo a proximidade com o colega George (Michael C. Hall, da série "Dexter") parece ser capaz de afastá-la da tristeza. Frustrada tanto na vida pessoal como na profissional, ela leva ao pé da letra o conselho de seu chefe Michael (Tracy Letts) e decide correr atrás de uma notícia que seja impactante e diferente do que o público está acostumado a ver na televisão.
Com uma leve crítica à morbidez do telespectador e do sadismo das emissoras de televisão, "Christine" é um filme difícil, principalmente por não aliviar a barra no retrato da doença de sua protagonista com momentos de humor. Não há leveza no tratamento que é dado à história, o que é coerente com o tom escolhido pelo diretor e essa coragem fica evidente inclusive no ritmo, que substitui a agilidade de uma edição picotada por um estilo minimalista de narração. Não há grandes cenas de catarse - com a possível exceção de seu clímax - nem tampouco explicações fáceis ou excessivamente didáticas. Ao não subestimar sua audiência e confiar em seu material, Antonio Campos criou um filme discreto mas com potência o bastante para ficar na cabeça do público por um bom tempo. Uma bela surpresa que merece ser descoberta e compartilhada - e que deixa a vontade irresistível de correr ao Google para saber mais sobre a protagonista. Missão cumprida!
O Festival de Sundance 2016 apresentou uma situação atípica: dois filmes que tiveram sua estreia por lá tratavam exatamente do mesmo assunto, ou melhor, da mesma personagem principal. Enquanto "Kate plays Christine", de Robert Greene optava por uma mistura de documentário e ficção, no entanto, o filme de Antonio Campos - filho do jornalista brasileiro Lucas Mendes e da produtora italiana Rose Ganguzza, que foi empresária de Pelé por um período de tempo - se concentra em dramatizar a trágica história da repórter televisiva Christine Chubbuck, uma mulher presa em uma profunda depressão e lutando continuamente contra suas frustrações pessoais. "Christine", estrelado por uma perturbadora Rebecca Hall - premiada como melhor atriz no Festival de Chicago e elogiada unanimemente pela crítica - é um retrato ao mesmo tempo fascinante e mórbido de uma pessoa no limite de suas forças, o que faz dele, por consequência, uma experiência um tanto desconfortável ao espectador que procura apenas por entretenimento. No entanto, é um trabalho forte e consistente, que revela em Campos um cineasta de grande futuro.
Interessado pela história da protagonista por também ter passado por episódios de severa depressão, Antonio Campos tem outra grande qualidade: é um diretor que nutre grande respeito por seu material humano, que acredita na força de sua personagem central e não a trata como mero elemento narrativo. Ainda que a verdadeira Christine Chubbuck não fosse tão perceptivelmente deprimida como mostrado no filme (uma pequena licença poética que em nada tira a força do resultado final, muito pelo contrário), a forma como o roteiro de Craig Shilowich vai gradualmente envolvendo a plateia em seu turbilhão emocional demonstra seu objetivo em criar uma empatia entre público e personagem - por mais que ela seja dotada de uma estranheza que dificulte tal conexão. É nesse ponto que entra o intenso desempenho de Rebecca Hall: em seu trabalho mais desafiador, a atriz entrega uma metódica interpretação, repleta de detalhes físicos que explicitam seu estado de espírito mesmo quando os diálogos que trava com colegas e a mãe dizem exatamente o oposto. Em sua pele, Christine desperta um misto de compaixão e desconforto. É uma performance impecável!
Mas afinal qual é a história contada no filme? Para quem não conhece o desfecho da trajetória de Christine o melhor é não saber de muitos detalhes - o final é chocante e até hoje desperta muita controvérsia, com teorias de conspiração surgindo a cada momento. O que se pode adiantar sem prejuízo é que o roteiro acompanha a busca da repórter televisiva Christine Chubbuck, que, na segunda metade dos anos 70, luta para ser reconhecida por seus colegas e superiores de uma pequena emissora de uma cidade do interior. Depois de ter passado por uma severa crise depressiva, Christine vive uma relação tumultuada com a mãe, Peg (J. Smith-Cameron) - uma mulher que tenta aproximar-se da filha mas nem sempre é bem-sucedida - e, ao contrário do que se poderia supor de alguém que é voluntária em um hospital infantil com um teatro de fantoches, esconde uma vontade quase mórbida de ascender profissionalmente e levar uma vida normal. Uma série de problemas se acumulam em seus dias e nem mesmo a proximidade com o colega George (Michael C. Hall, da série "Dexter") parece ser capaz de afastá-la da tristeza. Frustrada tanto na vida pessoal como na profissional, ela leva ao pé da letra o conselho de seu chefe Michael (Tracy Letts) e decide correr atrás de uma notícia que seja impactante e diferente do que o público está acostumado a ver na televisão.
Com uma leve crítica à morbidez do telespectador e do sadismo das emissoras de televisão, "Christine" é um filme difícil, principalmente por não aliviar a barra no retrato da doença de sua protagonista com momentos de humor. Não há leveza no tratamento que é dado à história, o que é coerente com o tom escolhido pelo diretor e essa coragem fica evidente inclusive no ritmo, que substitui a agilidade de uma edição picotada por um estilo minimalista de narração. Não há grandes cenas de catarse - com a possível exceção de seu clímax - nem tampouco explicações fáceis ou excessivamente didáticas. Ao não subestimar sua audiência e confiar em seu material, Antonio Campos criou um filme discreto mas com potência o bastante para ficar na cabeça do público por um bom tempo. Uma bela surpresa que merece ser descoberta e compartilhada - e que deixa a vontade irresistível de correr ao Google para saber mais sobre a protagonista. Missão cumprida!
quinta-feira
O PRESENTE
O PRESENTE (The gift, 2015, Blumhouse Productions, 108min) Direção e roteiro: Joel Edgerton. Fotografia: Eduard Grau. Montagem: Luke Doolan. Música: Danny Bensi, Saunder Jurriaans, Figurino: Terry Anderson. Direção de arte/cenários: Richard Sherman/Matthew Flood Ferguson. Produção executiva: Jeanette Brill, Luc Etienne, Couper Samuelson, Donald Tang. Produção: Jason Blum, Joel Edgerton, Rebecca Yeldham. Elenco: Jason Bateman, Rebecca Hall, Joel Edgerton, Allison Tolman, Tim Griffin, Busy Phillips. Estreia: 30/7/15
Mais conhecido como o irmão de Tom Hardy - professor e lutador nas horas vagas - em "Guerreiro" (2011), o rival de Leonardo DiCaprio em "O grande Gatsby" (2013) e Ramsés na versão de Ridley Scott da história de Moisés em "Êxodo: Deuses e Reis" (2015), o australiano Joel Edgerton surpreendeu em sua estreia atrás das câmeras. Nadando contra a corrente de atores tornado diretores em superproduções mirando o Oscar, ele preferiu contar uma história simples e minimalista em um gênero considerado pouco nobre pela crítica: o suspense. Longe da pressão de um grande estúdio e sem pretensão de criar uma obra-prima, ele lançou "O presente", uma gratíssima surpresa aos fãs de thrillers psicológicos que substituem o sangue pela tensão. Sem apelar para sustos constantes (conta-se uns dois, em momentos apropriados), o ator/diretor/roteirista/produtor demonstra total domínio das ferramentas do gênero, oferecendo muito mais à plateia do que se poderia imaginar vindo de um estreante.
Ciente das dificuldades e armadilhas de atuar como diretor e ator no mesmo filme, Edgerton fez a opção correta em deixar o protagonista nas mãos de Jason Bateman, surpreeendente em um papel dramático. Bateman vive Simon Callum, um bem-sucedido executivo que chega à Califórnia junto com a esposa, Robyn (Rebecca Hall), com a intenção de conquistar uma sonhada promoção e para construir uma família - algo que vem sendo extremamente difícil para o casal. Assim que chegam em sua nova cidade (onde Simon morou até a juventude, quando mudou-se para a universidade em Chicago) eles encontram com Gordon Mosely (Edgerton, em um papel que não lhe exigiu mais de duas semanas de filmagens). Amigo de infância de Simon, Gordon é um homem estranho, reservado e aparentemente solitário, mas que se mostra disponível e generoso na adaptação do amigo e da esposa na nova realidade. Sua presença constante começa a parecer ameaçadora quando ele descobre ser alvo de uma espécie de deboche e desprezo por parte de Simon, e aos poucos Robyn passa a desconfiar de que algo mais grave se esconde por trás de sua gentileza. Investigando por conta própria, ela descobre um passado que explicará muitas das atitudes do novo amigo - e do marido.
Com uma trama envolvente, que vai sendo revelada aos poucos, conforme Robyn vai chegando à verdade sobre quem é o real vilão da história - e as cartas se embaralham constantemente em suas mãos - o roteiro de "O presente" vai conduzindo o espectador por um exercício de constante aflição, uma vez que, desde as primeiras cenas, existe uma atmosfera sombria que contrasta com a delicadeza de Gordon e a felicidade conjugal de Simon e Robyn. Um diretor inteligente e sensível, Edgerton jamais se deixa optar pelo caminho mais fácil, obrigando o público a compreender junto com os personagens todos os desdobramentos do enredo, que vão muito além de um joguinho de gato e rato. Com os dois pés fincados na realidade, o filme torna-se mais assustador na medida em que todas as ações cometidas por seus protagonistas sofrem reações cada vez mais perigosas - e sempre bastante
verossímeis. Edgerton constrói um Gordon Mosely desconfortável, sinistramente tranquilo e generoso, com requintes de um grande ator físico: de lentes de contato castanhas que disfarçam seus olhos azuis e o cabelo tingido de um tom mais escuro que seu louro natural, ele impressiona pela sinceridade que imprime no personagem, enquanto Jason Bateman, conhecido por seu trabalho em comédias, funciona à perfeição como um homem aparentemente comum que vê seus esqueletos saírem do armário justamente quando deveriam ficar escondidos. Rebecca Hall às vezes exagera na atuação, mas está tão bem amparada pelos colegas que seus escorregões são facilmente perdoáveis.
Dirigido por destreza, com sua câmera invadindo discretamente a bela casa do casal Callum com um voyeur, "O presente" satisfaz justamente por não prometer mais do que pode cumprir. Joel Edgerton entrega, em sua estreia, exatamente o que se poderia esperar de um suspense de carpintaria dramática simples mas eficiente: uma boa dose de tensão, personagens bem construídos, alguns sustos nos momentos certos e um desfecho angustiante, que reflete a extensão que os traumas do passado deixam em seres mais sensíveis. Só por fugir do batido clímax de confronto armado entre os dois protagonistas já merece aplausos entusiasmados, mas é muito mais do que isso. "O presente" é um pequeno grande filme que aponta para voos maiores na carreira de Edgerton como diretor. Bravo!
Mais conhecido como o irmão de Tom Hardy - professor e lutador nas horas vagas - em "Guerreiro" (2011), o rival de Leonardo DiCaprio em "O grande Gatsby" (2013) e Ramsés na versão de Ridley Scott da história de Moisés em "Êxodo: Deuses e Reis" (2015), o australiano Joel Edgerton surpreendeu em sua estreia atrás das câmeras. Nadando contra a corrente de atores tornado diretores em superproduções mirando o Oscar, ele preferiu contar uma história simples e minimalista em um gênero considerado pouco nobre pela crítica: o suspense. Longe da pressão de um grande estúdio e sem pretensão de criar uma obra-prima, ele lançou "O presente", uma gratíssima surpresa aos fãs de thrillers psicológicos que substituem o sangue pela tensão. Sem apelar para sustos constantes (conta-se uns dois, em momentos apropriados), o ator/diretor/roteirista/produtor demonstra total domínio das ferramentas do gênero, oferecendo muito mais à plateia do que se poderia imaginar vindo de um estreante.
Ciente das dificuldades e armadilhas de atuar como diretor e ator no mesmo filme, Edgerton fez a opção correta em deixar o protagonista nas mãos de Jason Bateman, surpreeendente em um papel dramático. Bateman vive Simon Callum, um bem-sucedido executivo que chega à Califórnia junto com a esposa, Robyn (Rebecca Hall), com a intenção de conquistar uma sonhada promoção e para construir uma família - algo que vem sendo extremamente difícil para o casal. Assim que chegam em sua nova cidade (onde Simon morou até a juventude, quando mudou-se para a universidade em Chicago) eles encontram com Gordon Mosely (Edgerton, em um papel que não lhe exigiu mais de duas semanas de filmagens). Amigo de infância de Simon, Gordon é um homem estranho, reservado e aparentemente solitário, mas que se mostra disponível e generoso na adaptação do amigo e da esposa na nova realidade. Sua presença constante começa a parecer ameaçadora quando ele descobre ser alvo de uma espécie de deboche e desprezo por parte de Simon, e aos poucos Robyn passa a desconfiar de que algo mais grave se esconde por trás de sua gentileza. Investigando por conta própria, ela descobre um passado que explicará muitas das atitudes do novo amigo - e do marido.
Com uma trama envolvente, que vai sendo revelada aos poucos, conforme Robyn vai chegando à verdade sobre quem é o real vilão da história - e as cartas se embaralham constantemente em suas mãos - o roteiro de "O presente" vai conduzindo o espectador por um exercício de constante aflição, uma vez que, desde as primeiras cenas, existe uma atmosfera sombria que contrasta com a delicadeza de Gordon e a felicidade conjugal de Simon e Robyn. Um diretor inteligente e sensível, Edgerton jamais se deixa optar pelo caminho mais fácil, obrigando o público a compreender junto com os personagens todos os desdobramentos do enredo, que vão muito além de um joguinho de gato e rato. Com os dois pés fincados na realidade, o filme torna-se mais assustador na medida em que todas as ações cometidas por seus protagonistas sofrem reações cada vez mais perigosas - e sempre bastante
verossímeis. Edgerton constrói um Gordon Mosely desconfortável, sinistramente tranquilo e generoso, com requintes de um grande ator físico: de lentes de contato castanhas que disfarçam seus olhos azuis e o cabelo tingido de um tom mais escuro que seu louro natural, ele impressiona pela sinceridade que imprime no personagem, enquanto Jason Bateman, conhecido por seu trabalho em comédias, funciona à perfeição como um homem aparentemente comum que vê seus esqueletos saírem do armário justamente quando deveriam ficar escondidos. Rebecca Hall às vezes exagera na atuação, mas está tão bem amparada pelos colegas que seus escorregões são facilmente perdoáveis.
Dirigido por destreza, com sua câmera invadindo discretamente a bela casa do casal Callum com um voyeur, "O presente" satisfaz justamente por não prometer mais do que pode cumprir. Joel Edgerton entrega, em sua estreia, exatamente o que se poderia esperar de um suspense de carpintaria dramática simples mas eficiente: uma boa dose de tensão, personagens bem construídos, alguns sustos nos momentos certos e um desfecho angustiante, que reflete a extensão que os traumas do passado deixam em seres mais sensíveis. Só por fugir do batido clímax de confronto armado entre os dois protagonistas já merece aplausos entusiasmados, mas é muito mais do que isso. "O presente" é um pequeno grande filme que aponta para voos maiores na carreira de Edgerton como diretor. Bravo!
quarta-feira
FROST/NIXON
FROST/NIXON (Frost/Nixon, 2008, Universal Pictures/Imagine Entertainment, 122min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Peter Morgan, peça teatral homônima do mesmo autor. Fotografia: Salvatore Totino. Montagem: Dan Hanley, Mike Hill, Robert Komatsu. Música: Hans Zimmer. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Michael Corenblith/Susan Benjamin. Produção executiva: David Bernardi, Matthew Byan Shaw, Liza Chasin, Todd Hallowell, Debra Hayward, Karen Kehela Sherwood, Peter Morgan. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Brian Grazer, Ron Howard. Elenco: Frank Langella, Michal Sheen, Kevin Bacon, Sam Rockwell, Matthew Macfadyen, Toby Jones, Andy Milder. Estreia: 15/10/08 (Festival de Londres)
5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Ron Howard), Ator (Frank Langella), Roteiro Adaptado, Montagem
Talvez o mais polêmico dentre todos os presidentes norte-americanos, Richard Nixon acabou por tornar-se também um dos personagens mais fascinantes da política mundial, com sua personalidade ambígua e sua história repleta de lances melodramáticos e controversos - mesmo quando não aparece em cena, ele é o centro das atenções, como é o caso de "Todos os homens do presidente" (76), que Alan J. Pakula dirigiu baseado no livro dos jornalistas Carl Bernstein e Bob Woodward, que investigaram o famigerado caso Watergate, que o empurrou à renúncia. Protagonista do ambicioso "Nixon" (95), de Oliver Stone - no qual foi interpretado por um brilhante Anthony Hopkins, indicado ao Oscar por seu desempenho - o homem que comandou os EUA em um dos períodos mais críticos de sua história serviu de inspiração também para o dramaturgo Peter Morgan, que em 2007 estreou na Broadway a elogiadíssima "Frost/Nixon", a recriação dramática de uma série de entrevistas concedidas pelo ex-presidente ao repórter britânico David Frost em 1977 - e que se tornaram momentos clássicos da televisão mundial. O sucesso do espetáculo teatral logo chamou a atenção da indústria cinematográfica e inúmeros diretores relevantes - Martin Scorsese, Sam Mendes, Mike Nichols, George Clooney - se dispuseram a comandar sua adaptação para as telas, até que Ron Howard ganhou a disputa, com a garantia de ter nos papéis centrais os dois atores que davam vida aos protagonistas nos palcos, Frank Langella e Michael Sheen. Se o resultado nas bilheterias não foi dos mais empolgantes - culpa talvez da natural aversão da plateia a temas políticos - o mesmo não pode ser dito da receptividade da crítica, unânime em apontar o filme como um dos melhores da temporada 2008, opinião compartilhada pelos membros da Academia de Hollywood, que o colocaram no páreo para cinco importantes Oscar, inclusive melhor filme, direção e ator (Langella).
Com a adaptação escrita pelo próprio Morgan, que também foi indicado à estatueta dourada, "Frost/Nixon" pode até ser de interesse um tanto limitado - é difícil imaginar o mesmo público que lota os cinemas para ver coisas como "Transformers" pagando ingresso para assistir a um duelo verbal sobre política - mas é absolutamente fascinante, tanto em termos narrativos quanto históricos. Dotado de um ritmo ágil e de diálogos saborosos que dão a seus atores a chance de explorar as diversas nuances de seus personagens - além de um inusitado senso de humor que o afasta do tom shakespereano do filme de Stone, por exemplo - o roteiro de Morgan acerta principalmente ao deixar claro ao espectador as motivações egoístas de cada um dos lados da questão antes de colocá-los frente a frente: dessa forma, nem Frost é um heroi da mídia disposto a apresentar a verdade ao povo americano (ele tem interesses financeiros no projeto, ainda que sofra com a angústia de não conseguir financiamento para ele) nem Nixon é um injustiçado pelos opositores políticos ou ingênuo (o que fica claro na última das sessões de entrevistas, em um momento genial de texto, direção e interpretação). Ao negar a seu texto qualquer traço maniqueísta, Morgan transforma o que poderia ser em um exercício aborrecido, verborrágico e parcial em um interessantíssimo estudo de personagens - mesmo que um deles tenha sido o homem mais poderoso do mundo por um determinado período de tempo.
Quando o filme começa, Richard Nixon já está fora da esfera do poder, em um silêncio ensurdecedor que priva os eleitores americanos da verdade a respeito do caso Watergate - quando políticos republicanos foram desmascarados ao espionar a sede do partido democrata no prédio que dá nome à situação. Sabendo que uma declaração sua pode lhe trazer o prestígio e o respeito que sua carreira como repórter de celebridades não lhe dá, o jornalista inglês David Frost (Michael Sheen, sensacional) tem a ideia de propor-lhe uma série de entrevistas exclusivas para serem transmitidas na televisão americana. A chance de reconquistar a admiração de seus eleitores - e um generoso pagamento de 600 mil dólares - convence o político a aceitar a proposta, mesmo que com uma série de exigências. Pondo em risco seu patrimônio pessoal correndo sério risco com o investimento, Frost insiste na ideia e marca os encontros para o início de 1977. O que ele pensava ser uma missão fácil se mostra, porém, um desafio jamais experimentado em sua carreira até então repleta de futilidade e superficialidade.
"Frost/Nixon" é um filme de muitas qualidades. Além do roteiro conciso de Peter Morgan e da direção segura de Ron Howard, o elenco está em dias inspirados, tanto os atores centrais quanto os coadjuvantes - uma lista que inclui Kevin Bacon, Rebecca Hall, Sam Rockwell e Oliver Platt. Hipnotizante, inteligente e realizado com seriedade rara, é uma pequena pérola que, mesmo tendo quase sido esquecida com o passar dos anos, merece ser redescoberto.
5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Ron Howard), Ator (Frank Langella), Roteiro Adaptado, Montagem
Talvez o mais polêmico dentre todos os presidentes norte-americanos, Richard Nixon acabou por tornar-se também um dos personagens mais fascinantes da política mundial, com sua personalidade ambígua e sua história repleta de lances melodramáticos e controversos - mesmo quando não aparece em cena, ele é o centro das atenções, como é o caso de "Todos os homens do presidente" (76), que Alan J. Pakula dirigiu baseado no livro dos jornalistas Carl Bernstein e Bob Woodward, que investigaram o famigerado caso Watergate, que o empurrou à renúncia. Protagonista do ambicioso "Nixon" (95), de Oliver Stone - no qual foi interpretado por um brilhante Anthony Hopkins, indicado ao Oscar por seu desempenho - o homem que comandou os EUA em um dos períodos mais críticos de sua história serviu de inspiração também para o dramaturgo Peter Morgan, que em 2007 estreou na Broadway a elogiadíssima "Frost/Nixon", a recriação dramática de uma série de entrevistas concedidas pelo ex-presidente ao repórter britânico David Frost em 1977 - e que se tornaram momentos clássicos da televisão mundial. O sucesso do espetáculo teatral logo chamou a atenção da indústria cinematográfica e inúmeros diretores relevantes - Martin Scorsese, Sam Mendes, Mike Nichols, George Clooney - se dispuseram a comandar sua adaptação para as telas, até que Ron Howard ganhou a disputa, com a garantia de ter nos papéis centrais os dois atores que davam vida aos protagonistas nos palcos, Frank Langella e Michael Sheen. Se o resultado nas bilheterias não foi dos mais empolgantes - culpa talvez da natural aversão da plateia a temas políticos - o mesmo não pode ser dito da receptividade da crítica, unânime em apontar o filme como um dos melhores da temporada 2008, opinião compartilhada pelos membros da Academia de Hollywood, que o colocaram no páreo para cinco importantes Oscar, inclusive melhor filme, direção e ator (Langella).
Com a adaptação escrita pelo próprio Morgan, que também foi indicado à estatueta dourada, "Frost/Nixon" pode até ser de interesse um tanto limitado - é difícil imaginar o mesmo público que lota os cinemas para ver coisas como "Transformers" pagando ingresso para assistir a um duelo verbal sobre política - mas é absolutamente fascinante, tanto em termos narrativos quanto históricos. Dotado de um ritmo ágil e de diálogos saborosos que dão a seus atores a chance de explorar as diversas nuances de seus personagens - além de um inusitado senso de humor que o afasta do tom shakespereano do filme de Stone, por exemplo - o roteiro de Morgan acerta principalmente ao deixar claro ao espectador as motivações egoístas de cada um dos lados da questão antes de colocá-los frente a frente: dessa forma, nem Frost é um heroi da mídia disposto a apresentar a verdade ao povo americano (ele tem interesses financeiros no projeto, ainda que sofra com a angústia de não conseguir financiamento para ele) nem Nixon é um injustiçado pelos opositores políticos ou ingênuo (o que fica claro na última das sessões de entrevistas, em um momento genial de texto, direção e interpretação). Ao negar a seu texto qualquer traço maniqueísta, Morgan transforma o que poderia ser em um exercício aborrecido, verborrágico e parcial em um interessantíssimo estudo de personagens - mesmo que um deles tenha sido o homem mais poderoso do mundo por um determinado período de tempo.
Quando o filme começa, Richard Nixon já está fora da esfera do poder, em um silêncio ensurdecedor que priva os eleitores americanos da verdade a respeito do caso Watergate - quando políticos republicanos foram desmascarados ao espionar a sede do partido democrata no prédio que dá nome à situação. Sabendo que uma declaração sua pode lhe trazer o prestígio e o respeito que sua carreira como repórter de celebridades não lhe dá, o jornalista inglês David Frost (Michael Sheen, sensacional) tem a ideia de propor-lhe uma série de entrevistas exclusivas para serem transmitidas na televisão americana. A chance de reconquistar a admiração de seus eleitores - e um generoso pagamento de 600 mil dólares - convence o político a aceitar a proposta, mesmo que com uma série de exigências. Pondo em risco seu patrimônio pessoal correndo sério risco com o investimento, Frost insiste na ideia e marca os encontros para o início de 1977. O que ele pensava ser uma missão fácil se mostra, porém, um desafio jamais experimentado em sua carreira até então repleta de futilidade e superficialidade.
"Frost/Nixon" é um filme de muitas qualidades. Além do roteiro conciso de Peter Morgan e da direção segura de Ron Howard, o elenco está em dias inspirados, tanto os atores centrais quanto os coadjuvantes - uma lista que inclui Kevin Bacon, Rebecca Hall, Sam Rockwell e Oliver Platt. Hipnotizante, inteligente e realizado com seriedade rara, é uma pequena pérola que, mesmo tendo quase sido esquecida com o passar dos anos, merece ser redescoberto.
segunda-feira
ATRAÇÃO PERIGOSA
ATRAÇÃO PERIGOSA (The town, 2010, Warner Bros, 125min) Direção: Ben Affleck. Roteiro: Ben Affleck, Peter Craig, Aaron Stockard, romance "Prince of thieves", de Chuck Hogan. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Dylan Tichenor. Música: David Buckley, Harry Gregson-Williams. Figurino: Susan Matheson. Direção de arte/cenários: Sharon Seymour/Maggie Martin. Produção executiva: David Crockett, William Fay, Jon Jashni, Thomas Tull. Produção: Basil Iwanyk, Graham King. Elenco: Ben Affleck, Rebecca Hall, Jeremy Renner, Pete Postletwhaite, John Hamm, Blake Lively, Chris Cooper. Estreia: 08/9/10 (Festival de Veneza)
Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Jeremy Renner)
Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Jeremy Renner)
De
promessa de astro no final da década de 90, quando ganhou o Oscar de roteiro
original ao lado do amigo de infância Matt Damon, pelo filme “Gênio indomável”,
nos anos seguintes o ator Ben Affleck parecia ter entrado em um inferno astral.
Sucessos de bilheteria não faltavam – “Armaggedon” à frente – mas seus talentos
dramáticos frequentemente eram postos à prova (quando não severamente
criticados e motivo de piadas por parte da indústria e até do público). Filmes
como “Pearl Harbor” (01), “Demolidor” (03) e principalmente “Contrato de risco,
que fez ao lado da então noiva Jennifer Lopez, o colocaram em uma encruzilhada
artística de que poucos conseguiriam sair ilesos. Foi então que o destino
voltou a lhe sorrir. Iniciou uma nova carreira com o drama policial “Medo da
verdade”, baseado em livro de Dennis Lehane (autor também de “Sobre meninos e
lobos”) e, com elogios unânimes e uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante
para Amy Ryan, mostrou-se um cineasta promissor. Dois anos mais tarde, ao
assumir para a Warner um projeto que o cineasta Adrian Lyne abandonou a meio
caminho, mostrou que o sucesso do filme anterior não havia sido apenas sorte de
principiante.
O mais
interessante em “Atração perigosa” – um título nacional derivativo que esconde
as grandes qualidades do filme – é a segurança com que Affleck comanda a
narrativa, equilibrando com extrema eficiência sequências de ação impecáveis e
um drama romântico que foge do clichê e do melodrama barato. Evitando erros
comuns a diretores ainda inexperientes – que sempre querem colocar em sua
primeira experiência todas as ideias que lhe vem à mente – Affleck opta por uma
direção discreta, deixando que a história fale mais do que suas ambições
estilísticas. Desse modo, o público acaba mergulhando sem reservas em uma trama
repleta de violência (moderada mas ainda assim convincente) e romance (realista
e envolvente). Com base no livro “Prince of thieves”, de Chuck Hogan, o roteiro
(também com participação do ator/diretor) acompanha personagens que, mais do
que simplesmente obrigados a lidar com a criminalidade que os cerca, são parte
viva de um ambiente onde ela brota a cada esquina – e, pior ainda, atravessa
gerações.
O
protagonista é Doug MacRay, interpretado por Ben Affleck em registro sutil e
surpreendentemente suave. MacRay trabalha como operário em Boston, mas não
consegue renegar o sangue e, a exemplo do pai, Stephen (Chris Cooper), volta e
meia acaba se envolvendo em assaltos a bancos, uma atividade rotineira na
região onde mora, uma das mais violentas da cidade. É durante um desses ataques
que ele conhece a bela Claire Keesey (Rebecca Hall), vítima involuntária do
ímpeto de um de seus comparsas, James Coughlin (Jeremy Renner). Com medo que
Claire possa reconhecer um deles depois de ter sido feita refém – apesar das
máscaras que eles usam em todas as atividades ilegais de que participam –
MacRay se aproxima dela e os dois acabam se apaixonando. Logicamente, ele
precisa esconder seus sentimentos de todos à sua volta, especialmente de James,
seu amigo de infância e irmão de uma ex-namorada, a vulgar Krista (Blake
Lively) e do detetive do FBI Adam Frawley (John Hamm, da série “Mad men”), que
se dedica ferozmente a capturá-lo. Não bastasse esse problema múltiplo – e o
medo de que Claire o reconheça – o rapaz ainda precisa lidar com Fergus Colm
(Pete Postlethwaite), o chefão local que o chantageia para que se mantenha no
crime.
Há muito
o que elogiar em “Atração perigosa”. Além das cenas de ação – inspiradas em
filmes como “Fogo contra fogo” (95) e “Os infiltrados” (06) e dotadas de
energia e segurança ímpares – o ator tornado diretor consegue a façanha de
equilibrá-las com momentos de grande impacto dramático, amparado principalmente
por um elenco esplêndido. Jeremy Renner substituiu Mark Whalberg – ocupado com
as filmagens de “O vencedor” – na última hora, recomendado pelo irmão do diretor,
Casey Affleck, e abocanhou uma justa indicação ao Oscar de coadjuvante. Mas são
duas participações pequenas que aumentam o valor do filme: como o pai criminoso
de MacRay, o veterano Chris Cooper não precisa de muitos minutos em cena para
roubar a atenção, e Pete Postletwhaite mostra porque era considerado um dos
melhores atores do mundo ao fazer de seu Fergus um dos vilões mais assustadores
do ano. Mostrando que é capaz de dirigir tanto cenas carregadas de adrenalina
quanto momentos mais intimistas, Affleck pavimentou o caminho para que, três
anos mais tarde, seu “Argo” conquistasse o merecido Oscar de melhor filme. Sem
contra-indicações, “Atração perigosa” é um filme policial dos melhores.
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