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terça-feira

8MM: OITO MILÍMETROS



8MM: OITO MILÍMETROS (8mm, 1999, Columbia Pictures, 123min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Andrew Kevin Walker. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Mark Stevens. Música: Mychael Danna. Figurino: Mona May. Direção de arte/cenários: Gary Wissner/Gary Fettis. Produção executiva: Joseph M. Caracciolo. Produção: Judy Hofflund, Gavin Polone, Joel Schumacher. Elenco: Nicolas Cage, Joaquin Phoenix, James Gandolfini, Peter Stormare, Catherine Keener, Anthony Heald. Estreia: 19/02/99 (Festival de Berlim)

Quando o projeto de "8mm: oito milímetros" chegou à Sony Pictures, no final dos anos 1990, era, ao mesmo tempo, extremamente promissor (para os fãs de um cinema adulto e corajoso) e potencialmente perigoso (para um estúdio cioso de suas finanças): escrito pelo mesmo Andrew Kevin Walker que deu ao mundo o primoroso "Seven: os sete crimes capitais" (1995), o roteiro do filme mergulhava o protagonista no sombrio universo dos snuff movies (produções amadoras em que assassinatos são cometidos diante da câmera) e conduzia a plateia em um labirinto de medo, repulsa e violência. A ideia era fazer um filme perturbador, sem grandes concessões comerciais e, se possível, buscando um público mais adulto e exigente. Porém, quando finalmente chegou às telas, em fevereiro de 1999, com um atraso de dois meses em relação a seu cronograma original, "8mm" em pouco lembrava sua gênese: dirigido por Joel Schumacher e estrelado por Nicolas Cage no auge do sucesso popular, o filme apresentou-se aos espectadores como um filme policial competente e sério, mas bem longe da ousadia pretendida por seu criador: ficou no meio do caminho entre o thriller claustrofóbico que sonhava ser e o filme de ação formulaico capaz de amealhar fortunas que era a pretensão de seu estúdio.

Antes que o explosivo material chegasse às mãos de Joel Schumacher - ainda não recuperado das rumorosas críticas a seu "Batman & Robin" (1997) e disposto a correr riscos profissionais em produções que fugissem de blockbusters previsíveis -, nomes fortes da indústria chegaram a ser cogitados pela Sony Pictures. Caso de Paul Verhoeven, William Friedkin e até mesmo David Fincher, que poderia repetir a parceria com o roteirista Andrew Kevin Walker. Quando Schumacher embarcou, a ideia do estúdio ainda era manter o tom pesado do roteiro original e apostar em uma produção radicalmente oposta ao mainstream - e para isso contavam com a presença do ator Russell Crowe no elenco: alçado à categoria de astro graças ao merecido sucesso de "Los Angeles: cidade proibida" (1997), Crowe poderia oferecer ao filme uma credibilidade rara e equilibrar os riscos de rejeição de uma plateia não acostumada a radicalidades. No entanto, em Hollywood raramente as coisas caminham da forma previsível, e depois de um bom tempo à procura de um astro para encabeçar o elenco - e gente como Mel Gibson, John Travolta, Bruce Willis e Nick Nolte chegaram a ser lembrados pelos produtores -, um nome forte surgiu no horizonte. Recentemente premiado com o Oscar de melhor ator por "Despedida em Las Vegas" (1995) e estampando os cartazes de êxitos de bilheteria, como "A outra face" (1997) e "Cidade dos anjos" (1998), Nicolas Cage demonstrava interesse em assumir a protagonização do longa e, com isso, aumentar suas chances de lotar as salas de exibição. O dilema de Schumacher estava armado: uma produção mais barata, quase experimental, com um ator de prestígio, ou um filme policial tradicional, de orçamento generoso, com um astro de primeira grandeza? Não é preciso ser especialista em mercado para adivinhar a opção da Sony Pictures.

 

A entrada da Cage no projeto, no entanto, não significou o fim dos problemas. Indignado com as mudanças propostas por Schumacher para atenuar o tom sombrio do roteiro, Andrew Kevin Walker simplesmente abandonou o projeto, deixando as alterações nas mãos do diretor e de Nicholas Kazan. Ciente de que tais mudanças se faziam necessárias para que o orçamento de estimados 40 milhões de dólares se pagasse nas bilheterias, Schumacher deixou de lado o desejo de chocar a plateia e abraçou a ideia de realizar mais um sucesso financeiro. Não se pode dizer que falhou, mas os quase 100 milhões arrecadados internacionalmente dizem mais sobre seu potencial comercial do que a respeito de suas qualidades artísticas. É óbvio que o diretor consegue se sair bem na condução do filme - há muito mais nele de "Um dia de fúria" (1992) do que de suas versões de Batman, por exemplo -, mas sua falha em escapar dos clichês não deixa de incomodar. Enquanto acompanha o protagonista em sua busca pela verdade e conduz o espectador em um universo insalubre e desconfortável, o cineasta demonstra uma maturidade e um senso de ritmo e tensão admiráveis - auxiliado pela presença de um Joaquin Phoenix ainda jovem mas já extremamente eficiente, em papel recusado por Mark Wahlberg, Mas é perceptível também a quebra de coerência no terço final, quando o roteiro parte da ação cerebral para o confronto físico: é razoavelmente climático, mas formulaico e previsível em excesso. Agrada ao público que busca uma catarse, mas frustra àqueles que esperam desfechos menos banais.

"8mm" ocupa, dentro da carreira de Joel Schumacher, um lugar interessante: foge de seus dramas lacrimosos e superficiais, passa longe de seus equivocados filmes de super-heróis e ousa um pouco mais que suas boas adaptações de John Grisham, mas não chega à quase perfeição de "Um dia de fúria" - esta sim uma produção corajosa e consistente. A trama que leva o detetive particular Tom Welles (interpretado por um Nicolas Cage correto mas sem maiores lances de genialidade) a penetrar no mundo da pornografia ilegal é interessante e se demonstra sufocante por boa parte das duas horas de projeção, e é impossível não perceber a excelência da trilha sonora de Mychael Danna e a inteligência da edição de Mark Stevens - truncada, não óbvia, desconfortável. São elementos que se destacam em uma produção acima da média mas que não alcança jamais todo o potencial de sua proposta inicial. Uma pena que não houve a coragem necessária para seguir à risca o roteiro de Andrew Kevin Walker e manter Russell Crowe no papel central: história poderia ter sido feita.

domingo

NINGUÉM É PERFEITO

NINGUÉM E PERFEITO (Flawless, 1999, Tribeca Productions, 112min) Direção e roteiro: Joel Schumacher. Fotografia: Declan Quinn. Montagem: Mark Stevens. Música: Bruce Roberts. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Jan Roelfs/Leslie Pope. Produção executiva: Neil Machlis. Produção: Jane Rosenthal, Joel Schumacher. Elenco: Robert De Niro, Philip Seymour Hoffman, Barry Miller, Chris Bauer, Skipp Sudduth, Wilson Jermaine Heredia, Rory Cochrane, Wanda de Jesus. Estreia: 24/11/99

Joel Schumacher é um diretor cuja carreira se divide entre alguns filmes realmente bons - "Linha mortal", "Um dia de fúria", "Tigerland, a caminho da guerra" - alguns decididamente tenebrosos - "Batman eternamente", "Batman & Robin", "Reféns" - e outros que ficam no meio do caminho entre o bom entretenimento e o desastre completo. A comédia policial "Ninguém é perfeito" é um desses casos. Também escrito por Schumacher, o filme foi produzido pela empresa do ator Robert De Niro, a Tribeca Productions, mas sua indecisão entre ser um leve e simpático ato de carinho à tolerância para com a comunidade gay ou um policial desinteressante e previsível acabou com suas chances de tornar-se memorável (ou sequer um sucesso comercial). Não fosse a exemplar performance de Philip Seymour Hoffman em um dos papéis principais - que ofusca sem muito esforço até mesmo o normalmente brilhante De Niro - o filme provavelmente estaria fadado ao esquecimento ou às críticas ácidas, ao lado dos trabalhos menos inspirados do cineasta.

É a trama policial insossa que dá o pontapé inicial ao filme: um tiroteio entre a polícia e traficantes deixa duas vítimas fatais em um prédio onde mora o respeitado e dedicado detetive Walt Koontz (Robert De Niro), que, tomando parte na ação, sofre um derrame que o deixa parcialmente incapacitado para andar e falar. Solitário e introvertido - seus únicos amigos são ex-colegas que o encontram para jogar baralho e mulheres com que ele faz sexo em troca de ajuda financeira - ele recebe a sugestão médica de fazer aulas de canto para apressar sua cura. Sem conseguir movimentar-se sozinho pela cidade, ele acaba apelando para Rusty (Philip Seymour Hoffman), um vizinho que ganha a vida como drag queen enquanto espera o momento de fazer sua sonhada operação de mudança de sexo - e dá aulas como forma de reforçar o orçamento. O convívio entre os dois não é dos melhores, já que Walt é homofóbico, conservador e preconceituoso e Rusty não faz a menor questão de esconder seu jeito de viver e seus amigos chamativos, mas aos poucos eles começam a lidar com sua intolerância - apesar de inúmeras e violentas discussões.


Hoffman, ainda um ator pouco conhecido mas presença frequente e marcante em produções menos comerciais - como o indigesto "Felicidade", de Todd Solondz e o já clássico "Boogie nights, prazer sem limites", de Paul Thomas Anderson - está impecável na pele de Rusty, dosando com exatidão os trejeitos e as entonações de voz de um personagem extremamente propenso a exageros e armadilhas caricatas. Seu trabalho é tão formidável que frequentemente eclipsa - quando não apaga totalmente - o desempenho de Robert De Niro, que pouco tem a fazer em cena senão resmungar e tentar dar um mínimo de simpatia a um personagem destinado a ser o menos carismático da dupla de protagonistas.  Quando estão juntos em cena os dois atores - dois grandes mestres - valem o espetáculo, mesmo sendo obrigados a lutar contra uma trama pouco criativa e um texto que nunca vai além do previsível, especialmente quando retorna à aborrecida trama policial, que dilui a tensão dramática construída no drama entre os personagens centrais. As constantes mudanças de foco - que incluem também um concurso de drag queens que pouco acrescenta à trama central - servem apenas para cansar o espectador, o afastando de qualquer tipo de empatia ou preocupação que poderia vir a ter com a história da insuspeita amizade entre Koontz e Rusty. Esse problema, causado por um roteiro pouco enxuto e muito superficial, mina toda a estrutura do filme, lhe causando danos irrecuperáveis que se avolumam para um clímax fraco e sonolento.

No final das contas, "Ninguém é perfeito" vale mesmo é pela presença hipnotizante de Philip Seymour Hoffman, um ator superlativo, capaz de transformar latão em ouro e um filme medíocre em um passatempo suportável. É ele o corpo e a alma do filme de Schumacher - ainda que a produção careça de uma mais consistente e relevante.

UM TOQUE DE INFIDELIDADE

UM TOQUE DE INFIDELIDADE (Cousins, 1989, Paramount Pictures, 109min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Stephen Metcalfe, roteiro original do filme "Cousin, cousine", de Jean-Charles Tacchella. Fotografia: Ralf Bode. Montagem: Robert Brown. Música: Angelo Badalamenti. Figurino: Michael Kaplan. Direção de arte/cenários: Mark S. Freeborn/Linda Vipond. Produção executiva: George Goodman. Produção: William Allyn. Elenco: Ted Danson, Isabella Rossellini, Sean Young, William Petersen, Norma Aleandro, Lloyd Bridges, Keith Coogan. Estreia: 10/02/89

Em 1975, uma comédia francesa sobre adultério e romance entre dois primos circunstanciais rompeu a tradicional barreira do idioma e, sucesso de bilheteria nos EUA, chegou a concorrer a três estatuetas do Oscar: filme estrangeiro, atriz e roteiro original. Mesmo tendo perdido em todas as categorias que disputava, "Primo, prima", dirigido por Jean-Charles Tacchella acabou agradando em cheio aos estúdios americanos, sempre ávidos por histórias que podem ser recontadas ao estilo hollywoodiano - leia-se de forma mais comercial e superficial. Sendo assim, até que demorou que sua refilmagem chegasse aos cinemas, rebatizada no Brasil como "Um toque de infidelidade" - o título original era mais próximo do original francês, mas até que dessa vez os distribuidores nacionais não erraram tão feio assim. Dirigida por Joel Schumacher - um cineasta por vezes competente, por vezes desastroso e muito de vez em quando quase brilhante - a comédia romântica estrelada pela bela Isabella Rossellini e pelo feioso Ted Danson (em alta pelo sucesso de "Três solteirões e um bebê" (87), também oriunda de um filme francês) é simpática e leve, mas incorre no erro mais previsível de todos: não acrescenta nada ao gênero e não fica registrada na mente do espectador.

Não deixa de ser irônico que Rossellini - ela mesma fruto de um dos mais escandalosos casos de adultérios de Hollywood, entre a atriz Ingrid Bergman e o diretor Roberto Rossellini - seja a estrela de "Um toque de infidelidade", apesar de sua escolha ser um dos acertos da produção. Bela e etérea, Rossellini desfila sua classe e elegância naturais pela tela mesmo quando sua personagem, a dedicada e paciente Maria, prescinde dessas qualidades: trabalhando em um escritório de advocacia, ela é casada com o galinha Tom (William Petersen, que anos depois seria o protagonista da telessérie "CSI") e faz vista grossa às inúmeras puladas de cerca do marido, principalmente para manter a harmonia do lar e a segurança da filha pequena. Essa harmonia começa a mostrar sinais de rachadura, porém, depois da festa de casamento de Edie (Norma Aleandro), sua mãe, com Phil (George Coe), tio do charmoso professor de dança de salão Larry (Ted Danson): durante a comemoração, Tom inicia um romance pouco discreto com Tish (Sean Young), a segunda mulher peruíssima de Larry. Sem vocação para barracos, Larry e Maria iniciam uma amizade calcada na compreensão mútua, mas, como não poderia deixar de acontecer, se apaixonam um pelo outro.


"Um toque de infidelidade" trai sua origem francesa no formato episódico com que narra sua estória, situando boa parte de sua trama em cerimônias de casamento e até mesmo em um enterro, em uma estrutura que anos depois faria a glória do bem-sucedido "Quatro casamentos e um funeral" (94). A história do amor enrustido entre Larry e Maria - singelo e verdadeiro - em contraponto à relação explosiva e fugaz de Tom e Tish é oferecido ao público em cenas rápidas e leves, que tira proveito das embaraçosas anedotas familiares e sociais que sempre ocorrem em reuniões entre pais, filhos e afins. Para isso, aproveita-se da ótima química entre Lloyd Bridges e o adolescente Keith Coogan como um avô apaixonado e seu neto com tendências socialistas - que chega ao extremo de editar um vídeo de casamento com imagens da fome no continente africano apenas para chocar os parentes. São coadjuvantes como eles - e uma tia idosa e preconceituosa - que dão o tempero cômico à história que, não fosse por isso, choveria no molhado e morreria na praia das boas intenções.

Porém, mesmo estando longe de ser um filme marcante, "Um toque de infidelidade" se beneficia da simpatia de seu elenco, do ritmo agradável imposto pelo roteiro e pela beleza luminosa de Isabella Rossellini, que deixa um pouco para trás a torturada personagem de "Veludo azul" (86) para entregar uma Maria estonteante em sua simplicidade e radiante em sua felicidade de sentir-se amada e respeitada pela primeira vez. Principalmente em comparação com a performance propositalmente over de Sean Young, a filha de Ingrid Bergman brilha com sua delicadeza e se torna a principal razão de ser do filme de Schumacher, uma descompromissada sessão para os fãs do gênero.

sábado

O PRIMEIRO ANO DO RESTO DE NOSSAS VIDAS

O PRIMEIRO ANO DO RESTO DE NOSSAS VIDAS (St. Elmo's fire, 1985, Columbia Pictures, 110min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Joel Schumacher, Carl Kurlander. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Richard Marks. Música: David Foster. Figurino: Susan Becker. Direção de arte/cenários: William Sandell/Robert Gould, Charles M. Graffeo. Produção executiva: Bernard Schwartz, Ned Tanen. Produção: Lauren Shuler. Elenco: Emilio Estevez, Rob Lowe, Andrew McCarthy, Demi Moore, Judd Nelson, Ally Sheedy, Mare Winningham, Martin Balsam, Andie MacDowell. Estreia: 28/6/85

Billy Hicks (Rob Lowe) é um jovem irresponsável, casado precocemente e que sonha em viver da música, além de ser o objeto de desejo de sua colega de faculdade, Wendy (Mare Winningham), uma judia rica que trabalha em um centro de assistência social e sonha entregar a ele sua virgindade, apesar dos esforços de sua família para que se case com um rapaz com suas mesmas condições financeiras e religiosas. Jules (Demi Moore) é uma patricinha que não tem uma relação das melhores com o pai e a madrasta e procura refúgio nas drogas e no álcool, além de ter um caso amoroso com seu chefe casado. Alec Newbarry (Judd Nelson) é um assistente político em vias de mudar de ideologia graças ao poder do dinheiro - e assim poder casar-se com a namorada, Leslie Hunter (Ally Sheedy), que busca reconhecimento profissional e desconhece tanto as escapadelas sexuais do namorado quanto a paixão que desperta em outro colega, Kevin Dolenz (Andrew McCarthy), que todos desconfiam ser gay. E Kirby Keler (Emilio Estevez) trabalha como garçom no St. Elmo's, o bar onde todos confraternizam frequentemente e reafirmam suas relações de amizade - enquanto tenta conquistar o amor de Dale Biberman (Andie MacDowell), uma médica que ele conhece e ama desde os tempos da faculdade.

Esses são os sete protagonistas de "O primeiro ano do resto de nossas vidas", primeiro sucesso de Joel Schumacher como diretor - depois de anos como figurinista e diretor de arte e de dois trabalhos pouco vistos. Seguindo um nicho um bocado mais maduro do que aquele que se dedicava a adolescentes atormentados por dúvidas existenciais e românticas, o roteiro explora (sem maiores profundidades mas de forma simpática e fotogênica) um grupo mais velho de personagens, recém-saídos da universidade mais ainda perdidos em relação a seu espaço no mundo - não deixa de ser irônico que no mesmo ano de seu lançamento, três de seus atores (Emilio Estevez, Ally Sheedy e Judd Nelson) também estivessem no sucesso "Clube dos cinco", de John Hughes, onde interpretavam colegiais. Também é uma ironia inconsciente que, apesar de todos os personagens estarem na casa dos vinte e poucos anos, seus problemas serem bem pouco diferentes daqueles enfrentados por Molly Ringwald e companhia nos filmes de Hughes, sendo substituídos apenas por questões relativas à elevação da faixa etária: saem as dúvidas sobre as faculdades a serem cursadas e entram as dificuldades de se colocar no mercado de trabalho; ficam pra trás as tentativas de se encaixar em um mundo hostil às diferenças e entra em cena a luta para manter a individualidade; acaba o desespero para encontrar o amor e inicia a batalha para manter um relacionamento adulto e longe das tentações físicas que surgem a cada esquina. Mesmo que não seja um cineasta espetacular, Schumacher tem o mérito de conseguir interpretações corretas de seu elenco de astros juvenis mesmo com os problemas pessoais de Demi Moore (que na vida real vivia problema semelhante à de sua personagem ficctícia, envolvida com drogas) e a inexperiência de muitos deles.


Lançado em uma época do cinema hollywoodiano onde um novo grupo de jovens atores começava a dar as cartas - mesmo que muitos deles não tenha conseguido fazer a transição de promessa a ator respeitado - "O primeiro ano do resto de nossas vidas" faz uso de todas as qualidades e defeitos da rapaziada. Fica evidente, por exemplo, o quanto Emilio Estevez se sobressai, mesmo com um personagem cujo maior drama é o de tentar seduzir uma antiga paixão, mais velha e com outras prioridades na vida. Mare Winningham se esforça como a virginal Wendy - mesmo estando grávida durante as filmagens - e seria indicada ao Oscar de coadjuvante em 1996 por "Georgia" e Ally Sheedy, mesmo sendo a mais talentosa do elenco, também seria prejudicada por complicações com as drogas, interrompendo o que poderia ter sido uma brilhante carreira. Demi Moore e Rob Lowe desfilam sua beleza pela tela, não sendo muito mais exigidos do que isso, ainda que nenhum deles seja exatamente um ator ruim. E Judd Nelson convence em um papel bastante diferente do valentão rebelde que interpretou em "Clube dos cinco" e que lhe deu fama junto ao público jovem. Na ponta de tudo, Andrew McCarthy também não se sai mal como o galã incompreendido apaixonado pela mulher de um amigo. Juntos, eles tem uma química que é, senão o principal elemento do filme, ao menos o combustível que o mantém em fogo constante até o final mezzo melancólico mezzo otimista.

Equilibrando um tom caloroso - resquícios do sempre inspirador "O reencontro" (83) - com momentos de um cinismo típico da geração yuppie dos anos 80, "O primeiro ano do resto de nossas vidas" tornou-se, de certa forma, o retrato de uma parcela da juventude norte-americana de sua época, ainda que não aprofunde a maioria de seus questionamentos e paire superficialmente sobre muitas questões que mereceriam maior atenção. No entanto, funciona como retrato de um cinema específico, de um momento também restrito e de exemplo de como um elenco bem escolhido pode fazer metade do serviço quando se fala de cinema. Imaginem só se Jodie Foster tivesse aceito viver Jules!!!

terça-feira

O FANTASMA DA ÓPERA

O FANTASMA DA ÓPERA (The phantom of the Opera, 2004, Warner Bros, 143min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Andrew Lloyd Webber, Joel Schumacher, musical de Andrew Lloyd Webber, romance de Gaston Leroux. Fotografia: John Mathieson. Montagem: Terry Rawlings. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: Anthony Pratt/Celia Bobak. Produção executiva: Jeff Abberley, Julia Blackman, Keith Cousins, Louise Goodsill, Paul Hitchcock, Ralph Kamp, Austin Shaw. Produção: Andrew Lloyd Webber. Elenco: Gerard Butler, Emmy Rossum, Patrick Wilson, Minnie Driver, Miranda Richardson, Ciaran Hinds, Simon Callow. Estreia: 22/12/04

3 indicações ao Oscar: Fotografia, Canção Original ("Learn to be lonely"), Direção de arte/cenários

Tinha tudo pra dar certo. A versão da Broadway já fazia parte do inconsciente coletivo mundial desde sua estreia, em 1986. O gênero musical estava em alta com o sucesso de filmes como "Moulin Rouge" e "Chicago". O orçamento milionário chegou aos 70 milhões de dólares. O diretor Joel Schumacher - apesar de vários tropeços na carreira - era o preferido do compositor Andrew Lloyd Weber desde o início do projeto. E, da ideia de levar o musical às telas até sua estreia propriamente dita, nomes como os de Kevin Spacey, John Travolta e Antonio Banderas foram cotados para o papel central. Então por que "O fantasma da ópera" - uma marca forte e amplamente reconhecível - deu com os burros n'água, ao contrário do que se esperava?

Tudo bem que a bilheteria mundial de 150 milhões de dólares não é nada desprezível, mas é inegável que a Warner esperava muito mais quando finalmente tirou do papel um projeto há muito acalentado. Baseado no romance de Gaston Leroux, o musical de Andrew Lloyd Weber - feito pelo compositor como presente para sua então esposa Sarah Brightman - não teve no cinema a mesma sorte do que sua trajetória nos palcos. Ao contrário do que Rob Marshall fez em "Chicago" - utilizar as canções em favor de sua história e abusar da linguagem cinematográfica em proveito da trilha sonora - Joel Schumacher não soube aproveitar a matéria-prima que tinha em mãos. Estendendo demais a duração de seu filme - quase duas horas e meia de projeção sem um ritmo adequado - e contando com um elenco mal escalado, Schumacher acabou realizando um musical enfadonho que nem mesmo o belíssimo visual ajuda a aguentar sem várias pausas e inúmeros bocejos.



Tudo começa muito bem, com a imponência que se espera de um musical. Na primeira sequência, um leilão na Ópera de Paris faz com que um misterioso milionário viaje mentalmente para o ano de 1870, quando a jovem Christine (Emmy Rossum, péssima) assume o papel central de uma superprodução do teatro, para despeito da estrela da companhia, Carlotta (Minnie Driver). Apaixonada por um amigo de infância, Raoul (Patrick Wilson), ela acaba sendo sequestrada por um misterioso ser que habita os subterrâneos do lugar (Gerard Butler). Escondido por trás de uma máscara por ter o rosto desfigurado e conhecido como "O Fantasma da Ópera", ele inspira Christine desde a infância e tem a obsessão de transformá-la em uma estrela com um musical composto por ele mesmo.

Visualmente exuberante, com uma fotografia deslumbrante de John Mathieson e uma reconstituição de época absolutamente perfeita, "O fantasma da ópera" se ressente basicamente de sua falta de ritmo e empatia com seus atores principais. O trio de protagonistas não conquista o espectador, nem consegue fazer com que a audiência se importe com seu destino. Se Gerard Butler é jovem demais para ser o fantasma do título, ao menos consegue se desimcumbir com relativa competência de seu desafio. Patrick Wilson é bonito e tem carisma, mas seu Raoul é chato e apático e Emmy Rossum (vista anteriormente como a filha assassinada de Sean Penn em "Sobre meninos e lobos") assumiu o papel que quase ficou nas mãos de Anne Hathaway mas não tem nem metade do carisma da futura Mulher-Gato. Salva-se Miranda Richardson, como a única personagem que sabe de toda a origem do fantasma.

É inegável que a maior qualidade de "O fantasma da ópera" - sua música grandiloquente e poderosa - ainda se mantém na versão cinematográfica, com algumas canções capazes de arrepiar aos fãs da obra original. Mas é muito pouco diante de tudo que o filme poderia ser. Mais um passo em falso na carreira de Joel Schumacher.

O CUSTO DA CORAGEM


O CUSTO DA CORAGEM (Veronica Guerin, 2003, Touchstone Pictures, 98min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Carol Doyle, Mary Agnes Donoghue, estória de Carol Doyle. Fotografia: Brendan Galvin. Montagem: David Gamble. Música: Harry Gregson-Williams. Figurino: Joan Bergin. Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Paki Smith. Produção executiva: Ned Dowd, Chad Oman, Mike Stenson. Produção: Jerry Bruckheimer. Elenco: Cate Blanchett, Gerard McSorley, Ciaran Hinds, Brenda Fricker. Estreia: 17/10/03

Filmes baseados em histórias reais tendem a ser maniqueístas, endeusando seus heróis e não deixando espaço para que haja um mínimo de humanidade em seus vilões. Quando o protagonista da história é alguém que lutou por causas nobres, então, a coisa só tende a piorar. No entanto, existem exceções à regra. É o caso de “O custo da coragem”, mais um filme de orçamento pequeno dirigido por Joel Schumacher e que narra a trágica luta de uma jornalista contra o tráfico de drogas em sua Dublin natal. Ao optar por contar apenas a guerra travada entre o bem e o mal, o filme abdica de explorar psicologismos baratos para concentrar-se nos atos e consequências que fizeram de sua protagonista, Veronica Guerin, quase uma heroína nacional.

O filme começa em junho de 1996, com o assassinato da jornalista Veronica Guerin (vivida com gosto e o talento de sempre da australiana Cate Blanchett, exibindo um perfeito sotaque irlandês) em uma rodovia de Dublin. A partir daí, dá um retorno para dois anos antes, quando a capital da Irlanda estava afundada em um de seus piores períodos sociais, com jovens e crianças viciados em drogas e a violência aumentando consideravelmente. Guiada por seu senso de justiça, Veronica, repórter do jornal The Sunday Independent, começa uma investigação por conta própria, para denunciar nas páginas do jornal os principais responsáveis pelo estado caótico de sua terra natal. Contando com a ajuda do sempre esquivo John Traynor (uma ótima atuação de Ciaran Hinds), ele próprio um criminoso envolvido em vários delitos, ela passa a sofrer ameaças de morte para si e a família. Mesmo desencorajada pelo marido, Veronica vai em frente somente para ser morta quando estava prestes a desmascarar o grande chefão John Giilligan (Gerard McSorley).
            

Tirando a atuação sempre acima da média de Cate Blanchett, “O custo da coragem” não acrescenta muito nem à carreira de Joel Schumacher nem à história do cinema em geral. O roteiro não chega a incomodar, mas sofre de uma falta de criatividade e contundência que apenas enfraquece o conjunto. As intenções do filme são ótimas e a luta de sua protagonista é absolutamente válida – sua morte chegou a mudar a Constituição da Irlanda – mas seu jeitão de produção televisiva o impede de alçar maiores vôos. Vale pela intenção!    

POR UM FIO

POR UM FIO (Phone booth, 2002, Fox 2000 Pictures, 81min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Larry Cohen. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Mark Stevens. Música: Harry Gregson-Williams. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Andrew Laws/Don Diers. Produção executiva: Ted Kurdyla. Produção: Gil Netter, David Zucker. Elenco: Colin Farrell, Forest Whitaker, Katie Holmes, Rhada Mitchell, Kiefer Sutherland. Estreia: 10/9/02 (Festival de Toronto)

Em 2001, Joel Schumacher deu ao ator irlandês Colin Farrell sua primeira grande chance no cinema, escolhendo-o para ser o protagonista de "Tigerland, a caminho da guerra", que agradou aos críticos mas foi ignorado pelo público (boa parte devido a sua péssima distribuição nos cinemas americanos). Um ano depois, Farrell retribuiu o favor, estrelando uma produção barata (13 milhões de dólares) dirigida por Schumacher que tornou-se um sucesso inesperado. Depois de ter seu lançamento adiado nos EUA por cinco meses (estreou no Festival de Toronto em setembro de 2002 e só chegou às salas ianques em abril de 2003), "Por um fio" arrecadou quase cem milhões só no mercado americano e, em se tratando de uma obra de Joel Schumacher surpreendeu também por ter uma consistência rara.

Filmado em apenas duas semanas - e em ordem cronológica - "Por um fio" é um one man-show de Farrell, que carrega nas costas todo o suspense e o drama da história criada por Larry Cohen, também autor do roteiro de "Celular", estrelado por Kim Basinger e Chris Evans pouco tempo depois. Substituindo Jim Carrey, Mel Gibson e Will Smith (todos interessados no papel), o jovem ator mostra uma segurança ímpar na pele de Stuart Shepard, um divulgador de entretenimento que mora em Nova York com a esposa Kelly (Radha Mitchell) e que vive de humilhar o assistente, de passar a perna nos clientes e tentar se dar bem sem fazer muito esforço. Sua arrogância e egocentrismo não lhe bastam, porém, quando ele acaba caindo em uma armadilha inesperada: depois de falar com a aspirante a atriz Pam (Katie Holmes) - que ele quer levar para a cama o mais rápido possível com promessas de conseguir-lhe uma chance no cinema - de uma cabine telefônica ele atende o telefone e acaba sendo feito de refém por um misterioso atirador que sabe tudo de sua vida e ameaça matá-lo ou à sua mulher se ele desligar. O que parecia uma brincadeira de péssimo gosto vira um pesadelo quando o atirador (com a voz de Kiefer Sutherland) mata um gigolô na frente de testemunhas e Stu torna-se o principal suspeito do crime. Quando a mídia chega ao local, juntamente com o Capitão Ed Ramey (o sempre competente Forest Whitaker), o circo está armado.



Contado em enxutos 81 minutos - o que elimina cenas supérfluas e dá ao filme um ritmo extremamente ágil mas nunca apressado - "Por um fio" mais uma vez mostra que Joel Schumacher se dá muito melhor quando é menos ambicioso. Assim como em "Tigerland" (que também contava com a mesma equipe técnica), ele foca sua atenção no desempenho dos atores e não em mirabolantes pirotecnias ou marketing excessivo."Por um fio" é tenso na medida certa e surpreende a audiência com uma história que foge do previsível sempre que pode - o que em termos de filme de suspense é um ingrediente cada vez mais difícil de encontrar. O duelo entre Farrell e Sutherland (cuja voz foi acrescentada na pós-produção) é empolgante e muito dessa eletricidade vem do trabalho impecável de Colin, cujo personagem passa da arrogância e da auto-confiança ao desespero e ao medo em um piscar de olhos, sem que seja necessário muito mais do que puro e simples talento.

"Por um fio" não mudou a história do cinema e provavelmente com um ator menos capaz que Farrel seria apenas mais um filme a ser reprisado nas sessões noturnas da TV aberta. Mas graças à força que o ator imprime em sua atuação torna-se um produto acima da média em seu gênero.

segunda-feira

TIGERLAND


TIGERLAND, A CAMINHO DA GUERRA (Tigerland, 2000, New Regency Pictures, 101min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Ross Klavan, Michael McGruther. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Mark Stevens. Música: Nathan Larson. Figurino: Thomas Stokes. Direção de arte/cenários: Andrew Laws/Shawn R. McFall. Produção executiva: Ted Kurdyla. Produção: Beau Flynn, Steven Haft, Arnon Milchan. Elenco: Colin Farrell, Matthew Davis, Clifton Collins Jr., Tom Guiry, Shea Whigham, Russell Richardson, Michael Shannon, Cole Hauser. Estreia: 06/10/00


Normalmente, quando o diretor Joel Schumacher tem dinheiro em mãos comete bombas como os dois "Batman" com sua assinatura. Quando conta com estrelas do porte de Julia Roberts entrega obras totalmente dispensáveis, como o xaroposo "Tudo por amor". E quando tem roteiros com a griffe John Grisham, varia entre o correto "O cliente" e o quase ótimo "Tempo de matar". Mas é quando surge despretensioso e com um elenco de atores - e não astros - que o cineasta que já realizou o sensacional "Um dia de fúria" - com Michael Douglas em seu melhor trabalho - demonstra que de vez em quando ele sabe ser um bom cineasta.

“Tigerland, a caminho da guerra” é o melhor exemplo dessa teoria. Feito com um orçamento minúsculo, sem alarde e com um elenco praticamente desconhecido, o filme pode não ter feito um sucesso estrondoso – muito longe disso, aliás – mas recolheu elogios calorosos e o que não é nem um pouco ruim, um prêmio da Associação de Críticos de Boston para seu protagonista, o irlandês Colin Farrell. Farrell, estreante em cinema, mereceu o prêmio e os elogios. Com uma postura rebelde na vida real, ele cabe como uma luva no papel de Roland Bozz, um recruta com sérios problemas disciplinares que, no ano de 1971 vai para um campo de treinamento chamado Tigerland, a última parada dos soldados americanos antes de serem enviados para o Vietnã. Líder por natureza, Bozz imediatamente esbarra na autoridade retratada por seus superiores e na antipatia causada entre alguns colegas, que não aceitam sua maneira de lidar com suas idéias pacifistas. Aos poucos, Bozz transforma-se na esperança dos soldados que querem fugir da guerra.



Talvez uma das maiores qualidades de “Tigerland” seja o fato de ele ser um filme de guerra sem guerra. Toda sua trama se passa antes que suas personagens sejam de fato enviadas ao Vietnã, o que passa uma sensação de tensão que normalmente não se vê em produções do gênero. O treinamento de Bozz e seus colegas geram cenas bastante fortes, que nunca fogem do clichê, mas que o utilizam com inteligência e sensibilidade. Essa sensibilidade fica clara em momentos mais emotivos, como as conversas do protagonista com Cantwell (Tom Guiry), jovem que deixou mulher e quatro filhos em casa e um dos líderes do pelotão, Miter (o ótimo Clifton Collins Jr.) que decidiu ir pra guerra para morrer como um homem e provar à família que é corajoso.

"Tigerland" é um pequeno filme de guerra, sem maiores arroubos de criatividade, com qualidades gritantes. A fotografia de Matthew Libatique, o roteiro surpreendente e conciso e a direção sem tiques de Schumacher contam preciosos pontos para seu resultado geral, mas é a empolgante atuação deColin Farrell que o eleva a status de pérola a ser descoberta. Em seu primeiro grande papel, Farrell - uma das maiores promessas do início do século - deita e rola, em uma interpretação na medida exata entre a rebeldia e a doçura. Não fosse o trabalho impecável do ator, era bem provável que esse pequeno drama de guerra passasse absolutamente despercebido.

domingo

TEMPO DE MATAR

TEMPO DE MATAR (A time to kill, 1996, Warner Bros/Regency Enterprises, 149min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Akiva Goldsman, romance de John Grisham. Fotografia: Peter Menzies Jr. Montagem: William Steinkamp. Música: Elliott Goldenthal. Figurino: Ingrid Ferrin. Direção de arte/cenários: Larry Fulton/Dorree Cooper. Produção: John Grisham, Hunt Lowry, Arnon Milchan, Michael Nathanson. Elenco: Matthew McConaughey, Kevin Spacey, Samuel L. Jackson, Sandra Bullock, Oliver Platt, Charles S. Dutton, Kiefer Sutherland, Donald Sutherland, Ashley Judd, Patrick McGoohan, Brenda Fricker, Chris Cooper, Doug Hutchinson, Kurtwood Smith. Estreia: 24/7/96

Desde que "A firma" estreou, em 1994, praticamente todos os livros do escritor John Grisham foram adaptados para o cinema, com graus distintos de qualidade. Suas tramas, sempre centradas em advogados em crises de ética ou pessoais ou ambas, tornaram-se quase um gênero à parte dentro da indústria hollywoodiana, mas o que pouca gente percebeu é que, apesar de ser considerado um autor especializados em temas jurídicos, nenhum dos filmes baseados em sua obra tinha reais cenas em um tribunal. Julgamentos em si não apareceram nem em "A firma", nem em "O dossiê Pelicano" e nem tampouco em "O cliente". Esse tabu foi quebrado por "Tempo de matar" que, a despeito de ter sido o primeiro romance do escritor, só chegou às telas em 1996. E o julgamento mostrado no filme - e que ocupa boa parte de sua longa projeção - é tão empolgante que até faz esquecer os finais anti-climáticos de suas adaptações anteriores.

Escrito como resposta a uma indignação silenciosa de Grisham diante de um caso que testemunhou nos tribunais em seu tempo como estudante de Direito, "Tempo de matar" foi publicado em 1989 e demorou a chegar às telas justamente por ser o trabalho preferido do escritor, que hesitou por muito tempo antes de vender seus direitos à Hollywood por medo de vê-lo estragado pelos produtores. Seu medo tornou-se de paranoia à ameaça real quando Kevin Costner interessou-se pelo projeto mas exigia controle absoluto sobre o resultado final. Na metade dos anos 90, Costner já não era tão confiável quanto no início da década e Grisham deu sinal vermelho à produção. Quando Joel Schumacher assumiu a direção - depois de ter comandado o correto "O cliente" - o projeto deslanchou. Nomes como Brad Pitt, Val Kilmer e Woody Harrelson foram cotados para interpretar o protagonista, que surpreendentemente acabou nas mãos de Matthew McConaughey, um ator pouco conhecido que estava escalado para um papel menor. Bonito e charmoso, McConaughey agarrou com unhas e dentes sua grande chance e não decepcionou. Comparado pela crítica ao jovem Paul Newman, tornou-se um promissor astro e, mesmo atuando ao lado de pesos-pesados como Kevin Spacey, Samuel L. Jackson e Donald Sutherland não saiu-se nada mal.


A sequência inicial já deixa bem claro que "Tempo de matar" irá mais além do que seus antecessores. Uma menina negra caminha, cheia de compras, em um dia de extremo calor, em direção à sua casa. Dois homens brancos, bêbados, a abatem com uma lata de cerveja e, como animais, a estupram, espancam e a deixam à beira da morte. A menina é filha de Carl Lee Hailey (Samuel L. Jackson), um operário, que, conhecendo as leis do lugar onde vive - sul dos EUA - resolve fazer justiça com as próprias mãos e mata os dois agressores, ferindo ainda um guarda, que tem sua perna amputada em consequência de um tiro. McConaughey entra em cena como Jake Brigance, um idealista advogado que resolve assumir o caso de Hailey mesmo que isso o torne persona non grata na cidade e o faça sofrer ameaças da Ku Klux Klan. Determinado a fazer justiça e não deixar que a cor da pele de seu cliente seja um fator determinante em seu veredicto, ele precisa enfrentar o promotor Rufus Beckley (Kevin Spacey mais uma vez fantástico) e conta com a ajuda da estudante Ellen Roark (Sandra Bullock, cujo prestígio na época é a única explicação para que tenha seu nome em primeiro lugar nos créditos de abertura).

Sem precisar se esforçar muito para adaptar "Tempo de matar" - cuja prosa fluente e ágil já é praticamente um pré-roteiro - Akiva Goldsman acertou em manter as cenas-chave da história no seu devido lugar. Narrado de forma convencional mas sem perder o ritmo em nenhum momento - nem mesmo quando tentam forçar um romancezinho xinfrim entre McConaughey e Bullock - o filme se beneficia de sua alta qualidade técnica e artística. A fotografia de Peter Menzies Jr. dá o exato tom de calor que a trama exige, e a música de Elliot Goldenthal, mesmo não escapando dos clichês, emociona nas horas certas e não assume importância excessiva. E o elenco coadjuvante não poderia ser melhor: Kiefer Sutherland, Oliver Platt, Brenda Fricker, Chris Cooper e Ashley Judd pontuam com correção o brilho dos colegas protagonistas, em especial Samuel L. Jackson - como um furioso Carl Lee Hailey - e Kevin Spacey, como o cínico promotor que é mais vaidoso do que honesto.

A bilheteria generosa de "Tempo de matar" credenciou Joel Schumacher a ser o comandante de "Batman & Robin" e "Batman eternamente", que quase acabaram com a franquia do homem-morcego - e por conseguinte com sua própria carreira. Mas, por mais que os fãs da série ainda não tenham lhe perdoado (e com toda razão), uma qualidade sua tem que ser louvada: Schumacher é um cineasta que nunca tenta brilhar mais do que seus atores. E "Tempo de matar" é a prova dessa afirmação. É um grande filme de tribunal, com uma ótima história, um elenco impecável e é capaz de emocionar aos mais sensíveis. Entretenimento para adultos que exigem qualidade mas dispensam complexidades. Altamente recomendável!

terça-feira

O CLIENTE

O CLIENTE (The client, 1994, Warner Bros, 119min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Akiva Goldsman, Robert Getchel, romance de John Grisham. Fotografia: Tony Pierce-Roberts. Montagem: Robert Brown. Música: Howard Shore. Figurino: Ingrid Ferrin. Direção de arte/cenários: Bruno Rubeo/Anne D. McCulley. Produção: Arnon Milchan, Steven Reuther. Elenco: Susan Sarandon, Tommy Lee Jones, Brad Renfro, Anthony LaPaglia, Mary-Louise Parker, Will Patton, William H. Macy, Anthony Edwards, Anthony Heald, Bradley Whitford. Estreia: 20/7/94. Bilheteria EUA: U$ 92.115.211

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Susan Sarandon)

Do alto de seu prestígio como um dos mais bem-sucedidos escritores de ficção do início dos anos 90, John Grisham tinha o poder de dar a palavra final a respeito do elenco das adaptações cinematográficas de suas obras e, ao contrário do que se poderia supor, tinha certo talento para isso. Recusando-se terminantemente a aceitar qualquer criança-prodígio para protagonizar "O cliente" - por achar que minaria a credibilidade da trama - ele obrigou o diretor Joel Schumacher a realizar centenas de testes antes de escolher Brad Renfro, então com 10 anos de idade. A escolha não poderia ter sido melhor. Renfro demonstrou, logo em sua estreia, uma segurança ímpar, que o fez contracenar, sem medo, com nomes consagrados como Susan Sarandon e Tommy Lee Jones. Sua morte, aos 25 anos, em janeiro de 2008, não deixa de ter sido uma lamentável perda, ainda que ele estivesse longe de ter se tornado o astro que poderia ter sido.

Em "O cliente", Renfro vive Mark Sway, um menino que mora em um trailer ao lado da mãe constantemente desempregada e sem maiores talentos para a ternura (Mary-Louise Parker) e do irmão caçula. Uma tarde, ao sair para fumar escondido, ele testemunha o suicídio de um mau-encarado advogado que, antes de dar um tiro na boca, revela a ele a localização do corpo de um senador, assassinado por seu cliente, o mafioso Barry Muldano (Anthony LaPaglia). Pressionado pelo FBI - na figura do excêntrico Roy Foltrigg (Tommy Lee Jones) - que tem a alcunha de Reverendo por citar a Bíblia nos tribunais - o menino procura a ajuda da advogada Reggie Love (Susan Sarandon), a quem confunde, pelo nome, com um homem. A princípio hesitante em confiar em uma mulher, ele aos poucos passa a confiar na advogada - que teve problemas com a bebida e perdeu a guarda do filho por causa disso. Enquanto luta para defender o garoto dos interesses perigosos do FBI e da própria máfia, ela vê nele a possibilidade de dar o amor que é impedida de dar ao filho verdadeiro. Surge então, entre elas, uma delicada relação materna.

Vindo das melhores críticas de sua carreira graças ao filme "Um dia de fúria", aqui Joel Schumacher assume quase que um papel de testemunha silenciosa, deixando que a história fale por si mesma. Discreta e fluente, sua condução da trama permite que tudo se desenvolva de maneira tranquila, proporcionando a Sarandon e Renfro que brilhem em atuações extremamente eficientes. Sarandon, inclusive, concorreu ao Oscar por seu desempenho, uma prova do prestígio que desfrutava então junto à Academia - prestígio esse que converteu-se em uma merecida estatueta no ano seguinte, pelo contundente "Os últimos passos de um homem". O trabalho inteligente e repleto de nuances de Sarandon encontra, porém, na atuação de Tommy Lee Jones um empecilho: com maneirismos e exageros que se avolumariam com o tempo - em "Assassinos por natureza", por exemplo, seriam quase insuportáveis - Lee Jones foge do tom naturalista imposto pelo diretor entregando uma atuação bastante fraca. Felizmente o roteiro de Akiva Goldsman e Robert Getchel dá preferência à história de identificação entre Reggie Love e Mark Sway, deixando toda a batida trama de máfia vs FBI em um segundo plano que só assume a protagonização de verdade no terceiro e último ato.



O final de "O cliente", aliás, é o mais excitante dentre as adaptações da obra de Grisham até então - depois do correto "A firma" e do chatinho "O dossiê Pelicano". Mesmo que Joel Schumacher não seja um diretor dos mais inspirados em cenas de ação - que o digam suas versões vexatórias de Batman lançadas poucos anos depois - ele não chega a estragar o clímax do livro, entregando à plateia um desfecho coerente e redondo, ainda que um tanto previsível. A renda de mais de 90 milhões de dólares provou que as escolhas realmente foram acertadas.

"O cliente" pode não ser a melhor adaptação de um livro de John Grisham - título que "Tempo de matar", dirigido pelo mesmo Joel Schumacher adquiriu, um ano depois - mas é interessante, bem interpretado e com a dose certa de emoção e sensibilidade, além de ser extremamente fiel à sua origem literária. E Susan Sarandon sempre vale uma bela espiada.

sábado

UM DIA DE FÚRIA

UM DIA DE FÚRIA (Falling down, 1993, Warner Bros, 113min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Ebbe Roe Smith. Fotografia: Andrzej Bartkowiak. Montagem: Paul Hirsch. Música: James Newton Howard. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Barbara Ling/Cricket Rowland. Casting: Marion Dougherty. Produção executiva: Arnon Milchan. Produção: Timothy Harris, Arnold Kopelson, Herschel Weingrod. Elenco: Michael Douglas, Robert Duvall, Rachel Ticotin, Barbara Hershey, Tuesday Weld, Frederic Forrest, Lois Smith, Raymond J. Barry. Estreia: 26/02/93

É difícil de acreditar, mas Joel Schumacher, o mesmo sujeito que deu ao mundo obras tão descartáveis quanto "O primeiro ano do resto de nossas vidas" e "Tudo por amor" é o mesmo cineasta por trás de "Um dia de fúria", sem dúvida nenhuma um dos filmes mais inflamáveis já produzidos em Hollywood. Exagero? Vá dizer isso ao público que ficou semanas discutindo a obra em jornais americanos e às minorias retratadas, se não negativamente, ao menos de maneira pouco lisonjeira durante as duas horas do filme.

Michael Douglas, que dá um braço para participar de filmes polêmicos - haja visto "Atração fatal" e "Instinto selvagem", por exemplo - tem aqui a interpretação de sua carreira. Ele vive um homem aparentemente comum que, durante um engarrafamento em uma rodovia de Los Angeles, em um dia de calor, simplesmente vai à loucura. No caminho para o aniversário da filha pequena, que vive com a mãe, ainda temerosa pelo comportamento do ex-marido (vivida por uma correta Barbara Hershey), este homem, conhecido pela polícia como D-Fens - a placa de seu carro - vai cruzando com comerciantes coreanos, latinos membros de gangues, milionários insensíveis e até um neonazista (todos estereotipados como convém). A cada encontro, sua revolta contra o estado das coisas nos EUA vai aumentando, o que o leva perigosamente a uma tragédia.

 

Por incrível que pareça, "Um dia de fúria" foge com louvor dos clichês que são parte obrigatória dos dramas policiais americanos. Até mesmo a visão estereotipada que o roteiro apresenta das minorias retratadas serve como uma espécie de ironia e crítica ácida à maneira como a maioria dos americanos enxerga os estrangeiros. E tudo bem que o oficial em vias de se aposentar vivido com maestria por Robert Duvall não é uma personagem exatamente original, mas as razões que levam seu Prendergast à aposentadoria e a maneira com que ele age em relação a seu trabalho e seus colegas é distante anos-luz dos tradicionais policiais engraçadinhos e/ou valentões que infestam o gênero. Nem mesmo o final, em que D-Fens finalmente cria um nome civil - William Foster - e tenta fugir de seu destino infeliz, consegue estragar "Um dia de fúria", que toca com contundência em feridas bem abertas na consciência americana e por que não?, mundial.

Não há como negar que minorias existem em qualquer lugar do mundo - e o filme possa soar um tanto fascista e preconceituoso. Mas Joel Schumacher faz com que, após os créditos finais, muita coisa permaneça na cabeça do público. Quem diria!

sexta-feira

TUDO POR AMOR

TUDO POR AMOR (Dying young, 1991, 20th Century Fox, 111min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Richard Friedenberg, romance de Marti Leimbach. Fotografia: Juan Ruiz Anchia. Montagem: Robert Brown, Jim Prior. Música: James Newton Howard. Figurino: Susan Becker. Direção de arte/cenários: Cricket Rowland. Casting: Mary Goldberg. Produção: Sally Field, Kevin McCormick. Elenco: Julia Roberts, Campbell Scott, Vincent D'Onofrio, Colleen Dewhurst, David Selby, Ellen Burstyn. Estreia: 21/6/91

Depois de ter seduzido plateias do mundo inteiro com uma comédia romântica e dois suspenses, Julia Roberts achou que faltava algo para demonstrar sua versatilidade. Nada melhor, portanto, do que investir em um românce ao estilo "Love story". Produzido por sua mãe no choroso "Flores de aço", Sally Field, o drama "Tudo por amor" reuniu a linda mulher ao diretor Joel Schumacher, de "Linha mortal", mas não fez o barulho esperado. Era a primeira mostra de que a estrela de Julia estava começando a apagar-se - o que iria acontecer ainda na primeira metade dos anos 90, para depois ressurgir com força total.

Na verdade a culpa do semi-fracasso de "Tudo por amor" - semi porque o filme tem seus fãs inveterados - é o fato de contar uma história bastante triste e deprimente, que quase anula a maior qualidade de Roberts: sua vivacidade. Ainda que altere consideravelmente o final do livro em que é baseado - na verdade o romance acaba um pouco adiante do que é mostrado nas telas - o filme de Joel Schumacher é suficientemente melancólico para afastar o público que apaixonou-se pelo largo sorriso da atriz. E ter Schumacher, um cineasta não exatamente criativo ou ousado, por trás das câmeras não ajuda muito no resultado final. A maior qualidade de "Tudo por amor" é justamente a tentativa de seu elenco em transformar uma montanha de clichês em algo minimamente interessante.



Julia Roberts - menos bela e sedutora do que o normal - vive Hilary O'Neil, uma jovem que, depois de sair da casa onde vivia com o namorado infiel, atende um anúncio de jornal procurando uma enfermeira. Mesmo sem ter nenhuma experiência no assunto, suas belas pernas e a ajudam a conseguir o emprego como acompanhante 24h de Victor Geddes (Campbell Scott), um rapaz de 28 anos que tem leucemia desde a adolescência. A princípio assustada com as reações adversas do jovem a seu tratamento de quimioterapia, ela aos poucos começa a realmente cuidar dele e ajudá-lo em sua recuperação. Quando eles viajam para a praia para que ele termine sua tese de doutorado, eles se descobrem apaixonados, mas a doença volta a ser uma ameaça à sua felicidade.

Enquanto Roberts não parece à vontade com sua personagem, é Campbell Scott quem se destaca no difícil papel de Victor, um rapaz dividido entre a tentativa de uma vida normal e a cura de sua doença. Sem apelar para a lágrima fácil, o filho do grande ator George C. Scott consegue ser sedutor, agressivo, frágil e apaixonante. Não é à toa que a linda mulher cai de amores por ele...

terça-feira

LINHA MORTAL

LINHA MORTAL (Flatliners, 1990, Columbia Pictures, 115min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Peter Filardi. Fotografia: Jan De Bont. Montagem: Robert Brown. Música: James Newton Howard. Figurino: Susan Becker. Direção de arte/cenários: Eugenio Zanetti/Anne L. Kuljian. Casting: Mali Finn. Produção executiva: Peter Filardi, Michael Rachmil, Scott Rudin. Produção: Rick Bieber, Michael Douglas. Elenco: Kiefer Sutherland, Kevin Bacon, Julia Roberts, William Baldwin, Oliver Platt, Hope Davis. Estreia: 10/8/90

Indicado ao Oscar de Efeitos Sonoros

No mesmo ano em que "Ghost, do outro lado da vida" rendeu milhões e milhões de dólares pelos cinemas mundo afora, um suspense estiloso, com uma ideia instigante sobre a vida após a morte e um elenco de jovens astros em ascensão - em especial a linda mulher Julia Roberts - não poderia dar errado, mesmo com a direção do irregular Joel Schumacher. E não deu. "Linha mortal", co-produzido pelo ator Michael Douglas, fez sucesso de crítica e bilheteria, mesmo não cumprindo tudo que promete em seu início intrigante.

Liderados pelo brilhante Nelson (Kiefer Sutherland), um grupo de talentosos estudantes de Medicina resolve investigar o que acontece após a morte física, causando em si mesmo a morte por alguns minutos. Testando cada vez mais seus próprios limites, o rebelde David Labraccio (Kevin Bacon), o don-juan Hurley (William Baldwin) e a reservada Rachel Mannus (Julia Roberts, em uma personagem distante anos-luz de sua prostituta sedutora de "Uma linda mulher", o que comprova seu talento), acompanhados do tímido Steckle (Oliver Platt), chegam cada vez mais longe da vida, buscando as respostas que podem fazê-los famosos e/ou mais conscientes de sua finitude. Acontece que, em como todo bom suspense, as coisas não saem exatamente como esperadas. Cada um deles, de volta à vida, traz junto consigo algo mal-resolvido de seu passado. Assim, Nelson traz um amigo de infância que morreu devido à sua perseguição, Labraccio passa a ter visões de uma colega de classe que era humilhada por ele, Hurley começa a sentir-se ameaçado por imagens de mulheres que ele filmou durante o ato sexual e Rachel volta a ver o pai, que ela julga ter cometido suicídio por sua causa.

A trama de "Linha mortal" é, sem dúvida, extremamente interessante e surgiu no momento certo. O clima mórbido é acentuado pela ótima fotografia de Jan De Bont, e a música de James Newton Howard funciona espetacularmente, em especial em seu casamento perfeito com a criativa direção de arte de Eugenio Zanetti. O problema é que algumas pontas soltas incomodam - menos que as piadinhas de Oliver Platt, no entanto - e, se não chegam a estragar a diversão impedem de transformar o filme em um dos melhores suspenses de sua época.

Ao fugir de discussões filosóficas/existencialistas que a trama implora em suscitar, o roteiro de Peter Filardi opta por contar apenas uma boa história. É bem mais do que normalmente acontece, mas deixa no ar um gostinho de quero-mais. Com bom clima, inteligência e o talento de Kiefer Sutherland e Julia Roberts - na época um casal dos mais promissores -, no entanto, é diversão garantida.

OS GAROTOS PERDIDOS


OS GAROTOS PERDIDOS (The lost boys, 1987, Warner Bros, 97min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Janice Fischer, James Jeremias, Jeffrey Boam, história de Janice Fischer, James Jeremias. Fotografia: Michael Chapman. Montagem: Robert Brown. Música: Thomas Newman. Figurino: Susan Becker. Direção de arte/cenários: Bo Welch/Chris Westlund. Casting: Marion Dougherty. Produção executiva: Richard Donner. Produção: Harvey Bernhard. Elenco: Jason Patric, Kiefer Sutherland, Jami Gertz, Corey Haim, Corey Feldman, Dianne Wiest, Barnard Hughes, Edward Herrmann. Estreia: 31/7/87

Filmes com vampiros já chegam a formar um sub-gênero no cinema mundial. Filmes com adolescentes idem. A grande novidade de "Os garotos perdidos", filme de Joel Schumacher, é a união desses dois ingredientes em uma mistura que, ao contrário do que poderia se esperar, não desandou. Ao unir elementos clássicos da mitologia vampírica - sem desrespeitá-la como a série "Crepúsculo" veio a fazer recentemente -a uma trama de aventura com toques cômicos, o diretor acertou em cheio, conquistando o público-alvo com a despretensão esperada em um filme que coloca até mesmo a oscarizada Dianne Wiest em meio a sangue, efeitos visuais e piadas adolescentes.

Wiest, veterana de filmes de Woody Allen, vive Lucy, uma mulher recém-separada que abandona Nova York em companhia dos dois filhos e volta a viver na cidade litorânea onde mora seu pai. Enquanto luta para recomeçar sua vida, sendo inclusive cortejada por seu chefe, ela não percebe que seu filho mais velho Michael (Jason Patric), sentindo-se deslocado, está envolvido com a misteriosa Star (Jamie Gertz), integrante de uma esquisita gangue liderada pelo sinistro David (Kiefer Sutherland). Só quem percebe que coisas estranhas estão acontecendo é seu caçula, o nerd Sam (Corey Haim), que, com a ajuda de dois vendedores de histórias em quadrinhos - batizados como Edgar e Alan, em homenagem ao escritor Allan Poe - passa a desconfiar que um bando de vampiros anda atacando a cidade e já contaminou seu irmão. Para salvar a vida de Michael, Sam e seus dois amigos têm que descobrir, então, quem é o vampiro-chefe.


O grande lance de “Garotos perdidos”, típico produto dos anos 80 - desde o visual até a trilha sonora, que se apropria inclusive de uma canção do The Doors em uma regravação do Eccho & The Bunymen - é a sua auto-ironia. Fica claro que o roteiro nunca se leva muito a sério, mesmo em cenas bastante inspiradas, como o primeiro encontro de Michael com sua nova turma de amigos, assustadora mas bastante leve. A dupla Corey Haim e Corey Feldman funciona às mil maravilhas em momentos cômicos e os efeitos visuais e de maquiagem são bastante realistas.

“Os garotos perdidos” - título inspirado em "Peter Pan" - é o produto de uma época, e como tal merece ser visto. Quem gosta de filmes com vampiros pode se incomodar com algumas liberdades, mas no geral é um filme de terror assustador de menos e engraçado demais. Sua continuação, lançada direto em DVD há poucos anos, merece ser totalmente ignorada.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...