Mostrando postagens com marcador NAOMI WATTS. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador NAOMI WATTS. Mostrar todas as postagens

quarta-feira

O DESPERTAR DE UMA PAIXÃO

 


O DESPERTAR DE UMA PAIXÃO (The painted veil, 2006, Warner Independent Pictures/Bob Yari Productions, 125min) Direção: John Curran. Roteiro: Ron Nyswaner, romance de W. Somerset Maughan. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: Alexandre de Franceschi. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Juhua Tu/Peta Lawson. Produção executiva: John Curran, Mark Gordon, Robert Katz, Ron Nyswaner. Produção: Sara Colleton, Jean-François Fonlupt, Edward Norton, Naomi Watts, Bob Yari. Elenco: Edward Norton, Naomi Watts, Liev Schreiber, Toby Jones, Juliet Howland. Estreia: 13/12/2006

Vencedor do Golden Globe de Trilha Sonora Original

Publicado em forma de folhetim na revista Cosmopolitan, entre novembro de 1924 e março de 1925, o o romance "The painted veil", de W. Somerset Maughan, deu origem a duas adaptações cinematográficas antes de 2006. A primeira, lançada em 1934 como "O véu pintado",  tinha Greta Garbo como estrela mas não chega a ser um grande destaque na carreira da icônica atriz. A segunda, batizada como "O sétimo pecado", estreou em 1957e apresentava Eleanor Parker no principal papel feminino - e é igualmente pouco lembrada em seu currículo. Por isso, quando uma terceira versão do filme chegou às telas, no final de 2006, não houve a gritaria sempre tão comum quando se trata de refilmagens de clássicos. Dirigido por John Curran (cineasta sem um grande sucesso para chamar de seu) e estrelado por dois atores de grande prestígio, Edward Norton e Naomi Watts, "O despertar de uma paixão" é uma adaptação fiel e elegante de uma história sobre amor, traição e perda - e se não alcançou o sucesso merecido, isso diz mais sobre o mau costume do público de consumir produtos rasos do que sobre suas várias qualidades.

A história se passa na década de 1920 e começa com o casamento da bela e frívola Kitty Garstin (Naomi Watts em papel oferecido a Nicole Kidman) com o jovem bacteriologista Walter Fane (Edward Norton). Ansiando por fugir dos domínios da mãe possessiva, Kitty aceita o pedido do introvertido Fane e se muda com ele para Shangai. Lá, sentindo-se solitária e deslocada, ela se apaixona por um conterrâneo, o vice-cônsul Charles Townsend (Liev Schreiber), e inicia um tórrido romance que, pouco discreto, acaba descoberto por seu marido. Ofendido em seus brios e disposto a punir a esposa, Fane planeja, então, uma vingança das mais cruéis: cabe a Kitty passar por um divórcio escandaloso e, por consequência, ser rejeitada pela sociedade, ou acompanhá-lo a um distante vilarejo acometido por um violento surto de cólera. Decepcionada com a atitude de Townsend em não ampará-la, Kitty embarca com o marido para uma viagem da qual não sabe se voltará. Longe da cidade, porém, ela acaba por encontrar um sentido para a própria vida - ajudar as freiras a cuidar de um orfanato - e ver com outros olhos o homem com quem se casou. A dúvida que surge, no entanto, é uma só: será que as provações poderão reaproximar o casal, ou o relacionamento já está definitivamente condenado?

 

Embalado pela bela trilha sonora de Alexandre Desplat, premiada com o Golden Globe, "O despertar de uma paixão" acerta o tom ao optar por uma narrativa clássica e suave, sem atropelos de ritmo ou excessos melodramáticos. O roteiro de Ron Nyswaner - autor de "Filadélfia" (1993) - conta sua história de forma a envolver o espectador gradualmente, dando tempo aos personagens (e ao público) de compreender todas as suas implicações, sejam elas românticas ou sociais. Mesmo que a direção de Curran seja pouco inventiva e até trivial visualmente, é difícil não se deixar impactar pelo belo trabalho de Edward Norton e Naomi Watts, também produtores do filme: em um registro minimalista que evita a grandiloquência, os dois atores mergulham em um universo de dor e sofrimento que se revela através de gestos simples e olhares angustiados. É interessante a maneira com que Curran transita entre o sublime dos momentos românticos e o terror das sequências que mostram as consequências da epidemia, como se mostrasse dois filmes que se cruzam em um mesmo e melancólico clímax. Para isso colabora a atmosfera claustrofóbica imposta pela fotografia quente de Stuart Dryburgh, que transmite com precisão o desespero da situação imposta pela história e os personagens.

Injustamente pouco lembrado dentro da filmografia de seus astros, "O despertar de uma paixão" passou praticamente em branco pelas cerimônias de premiação e tampouco fez barulho nas bilheterias. Filmado na China e coproduzido por uma companhia local que exigiu controle sobre o roteiro e o corte definitivo - felizmente sem maiores ônus ao resultado final -, talvez tenha sido prejudicado pelo tema pesado e pela campanha pouco esforçada do estúdio. Mas é uma produção caprichada, feita para adultos que procuram mais do que simplesmente finais felizes anódinos e artificiais. Pode-se dizer, sem medo, que é a versão definitiva do romance de Maughan.

domingo

BIRDMAN ou (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA)

BIRDMAN ou (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA) (Birdman or (The unexcpected virtue of ignorance, 2014, New Regency Pictures, 119min) Direção: Alejandro González Iñárritu. Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dineralis Jr., Armando Bo. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Douglas Crise, Stephen Mirrione. Música: Antonio Sanchez. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/George De Titta Jr.. Produção executiva: Molly Conners, Sarah E. Johnson, Christopher Woodrow. Produção: Alejandro G. Iñárritu, John Lesher, Arnon Milchan, James W. Skotchdopole. Elenco: Michael Keaton, Edward Norton, Naomi Watts, Emma Stone, Zach Galifianakis. Estreia: 27/8/14 (Festival de Veneza)

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alejandro González Iñárritu), Ator (Michael Keaton), Ator Coadjuvante (Edward Norton), Atriz Coadjuvante (Emma Stone), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alejandro González Iñárritu), Roteiro Original, Fotografia
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Ator Comédia/Musical (Michael Keaton), Roteiro

Quem estava acostumado a ver o nome de Alejandro Gonzalez Iñárritu nos créditos de filmes densos e praticamente desprovidos de qualquer tipo de senso de humor como "Amores brutos" (00), "21 gramas" (03), "Babel" (06) e "Biutiful" (10) provavelmente levou um susto ao deparar-se com seu "Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância)", que entrou firme e forte na disputa pelo Oscar de melhor filme de 2014 e deixou pra trás outros elogiados trabalhos da temporada - como "Boyhood, da infância à juventude" e "O Grande Hotel Budapeste" - ao abocanhar 4 estatuetas, incluindo filme e diretor.  Abandonado o pessimismo realista que permeava seus três primeiros filmes - e sua parceria com o roteirista Guillermo Arriaga - o cineasta mexicano realizou seu trabalho mais poético, recheado de metáforas brilhantes sobre a arte, a vida e as relações interpessoais e dotado de um tom onírico e sarcástico que contrasta com o habitual realismo de sua cinematografia anterior. Amparado ainda em uma atuação arrebatadora do até então canastrão Michael Keaton - a maior de suas ferramentas de metalinguagem - o filme de Iñárritu discute, sem parecer pedante ou hermético, o culto vazio às celebridades, a efemeridade da fama, o sensacionalismo e a irresponsabilidade da mídia (Internet incluída) ao contar a aparentemente simples história de um decadente ator popular de cinema tentando provar-se um intérprete sério ao estrelar um peça de teatro na Broadway. Tecnicamente impecável e sombriamente engraçado, "Birdman" é, acima de tudo, um filme sobre a paixão pelo teatro, pela busca incessante da transcendência através da arte.

Riggan Thompson (Michael Keaton) é o que pode-se chamar de um ex-astro: protagonista de uma série de três filmes onde interpretou um super-herói chamado Birdman, ele viu sua carreira entrar em decadência vertiginosa depois de ter recusado um quarto capítulo, há mais de vinte anos. Considerando-se um fracassado quase irrecuperável, ele resolve dar uma última cartada para retomar sua autoestima e conquistar o respeito da crítica e do público: escrever, dirigir, produzir e estrelar uma peça de teatro na Broadway. Sua insegurança, porém, ameaça a estreia do espetáculo, assim como a gama de personagens surreais que o rodeiam, como Mike Shiner (Edward Norton, sensacional como sempre), ator de métodos tradicionais que se considera superior à toda a equipe por ter construído sua carreira nos palcos e não nas telas, e a filha de Riggan, Sam (Emma Stone), que acaba de sair de uma clínica de reabilitação. Além dos problemas normais de uma produção teatral, o ídolo de uma geração de cinéfilos também precisa enfrentar a má-vontade pré-concebida da crítica e lidar com a voz do próprio Birdman - que surge como uma espécie de conselheiro invisível que o empurra adiante em suas ambições.


"Birdman" é uma festa para os olhos, os ouvidos e o cérebro da plateia. A fotografia de Emmanuel Lubezki integra-se à narrativa de forma tão orgânica que parece quase invisível diante dos ilusórios planos-sequência criados por Iñárritu, que conduzem a plateia pelos corredores estreitos do teatro onde se passa a maior parte da ação apenas para culminar em um clímax de extrema poesia e força dramática. O roteiro - equilibrado com maestria entre o humor cáustico e o drama existencial de uma geração exposta ao nada admirável mundo novo da tecnologia que torna tudo vorazmente fugaz - soa como um bálsamo para um público acostumado a diálogos pobres e ginasiais. E as questões que discute - a prostituição da arte, o amor pelo teatro, a dicotomia prestígio/popularidade, a falta de sentido na fama pela fama - nunca foram tão prementes quanto hoje em dia, quando talento vem sendo mercadoria dispensável na fogueira das vaidades do sucesso instantâneo. Somados a tudo isso há ainda o elenco em dias de extrema inspiração: Michael Keaton, no papel de sua vida (literalmente), tinha tudo para ganhar um Oscar de melhor ator, caso a Academia não tivesse se rendido ao óbvio e homenageado Eddie Redmayne por sua caracterização de Stephen Hawking. E Edward Norton - duas vezes indicado anteriormente e duas vezes descaradamente roubado - teve o azar de encontrar J.K. Simmons pela frente: uma vitória sua teria sido surpreendente, mas jamais injusta.

Talvez uma parte do público - menos disposta a experiências que fujam do banal - rejeitem "Birdman" por sua estética, sua narrativa, seu tema. Mas provavelmente não seja essa parte da audiência que Alejandro Gonzalez Iñárritu queira atingir com sua magistral fábula. Encantar-se com a inteligência e a sutileza de seu trabalho é privilégio de quem consegue sonhar acordado apesar dos pesares. "Birdman" é para quem tem a arte na alma.

sábado

PARA MAIORES

PARA MAIORES (Movie 43, 2013, Relativity Media, 94min) Direção: Elizabeth Banks, Steven Brill, Steve Carr, Rusty Candief, James Duffy, Griffin Dunne, Peter Farrelly, Patrik Forsberg, Will Graham, James Gunn, Brett Ratner, Jonathan van Tulleken. Roteiro: Rocky Russo, Jeremy Sosenko, Ricky Blitt, Bill O'Malley, Will Graham, Jack Kukoda, Matt Portenoy, Claes Kjellstrom, Jonas Wittenmark, Tobias Carlson, Will Carlough, Jonathan van Tulleken, Elizabeth Shapiro, Patrik Forsberg, Olle Sarri, Jacob Fleisher, Greg Pritkin, James Gunn. Fotografia: Mattian Anderssonn Rudh, Frank G. DeMarco, Steve Gainer, Matthew F. Leonetti, Daryn Okada, William Rexer, Eric Scherbarth, Newton Thomas Sigel, Tim Suhrstedt. Montagem: Debra Chiate, Patrick J. Don Vito, Suzy Elmiger, Mark Helfrich, Craig Herring, Myron I. Kerstein, Joe Randall-Cutler, Sam Seig, Cara Silverman, Sandy S. Solowitz, Jonathan van Tulleken, Hakan Warn, Paul Zucker. Música: Tyler Bates, Christophe Beck, Leo Birenberg, William Goodrum, Dave Hodge. Figurino: Anna Bingemann, Nancy Ceo, Roseanne Fiedler, Florence Kemper, Judianna Makovsky, Sydney Maresca, Salvador Pérez Jr.. Direção de arte/cenários: Toby Corbett, Jade Healy, Nolan Hooper, Robb Wilson King, Dina Lipton, Happy Massee, Arlan Jay Vetter, Inbal Weinberg/Jasmine E. Ballou, Robert Covelman, Andrea Mae Fenton, Isaac Gabaeff, Amber Haley, Jean Landry, Lance Lombardo, Jessica Panuccio, Halina Siwolop. Produção executiva: Ron Burkle, Jason Felts, Tucker Tooley, Tim Williams. Produção: Peter Farrelly, Ryan Kavanaugh, John Penotti, Charles B. Wessler. Elenco: Hugh Jackman, Kate Winslet, Liev Schreiber, Naomi Watts, Anna Faris, Chris Pratt, Kieran Culkin, Emma Stone, Richard Gere, Kate Bosworth, Justin Long, Jason Sudeikis, Uma Thurman, Bobby Cannavale, Kristen Bell, Christopher Mintz-Plasse, Chloe Grace Moretz, Gerard Butler, Sean William Scott, Johnny Knoxville, Halle Berry, Stephen Merchant, Terrence Howard, Elizabeth Banks, Josh Duhamel. Estreia: 25/01/13

A primeira pergunta que surge na cabeça do espectador enquanto sobem os créditos finais da comédia "Para maiores" é a tradicional em casos do tipo: "Por que diabos atores tão bons e tão consagrados aceitaram fazer essa porcaria?" De fato a lista de nomes envolvidos no projeto é de causar inveja a qualquer diretor de elenco de Hollywood - há desde indicados e vencedores do Oscar, como Hugh Jackman, Kate Winslet e Halle Berry, até astros em franca ascensão, como Emma Stone, Chris Pratt e Chloe Grace Moretz - especialmente se for levado em consideração que o orçamento total não ultrapassou os seis milhões de dólares, o que normalmente não paga nem um terço do cachê de alguns dos atores escalados. Mas a gritaria quase unânime contra o filme - apedrejado sem dó nem piedade por crítica e público - não deixa de ser um tanto quanto exagerada. Ok, o humor de alguns quadros está realmente no limite do bom-gosto e nem sempre funciona como poderia. Tudo bem, a história que os liga é pífia e em muitos momentos tem-se a nítida impressão de que o roteiro foi escrito por um grupo de adolescentes escatológicos no auge da puberdade. Mas outros grandes sucessos de bilheteria também não eram exatamente assim? Não é à toa que um dos roteiristas e diretores do filme seja Peter Farrelly - um dos irmãos responsáveis por "Debi & Loide", que, apesar de ter o mesmo tipo de humor, serviu de trampolim milionário para a carreira de Jim Carrey.

Talvez o maior estranhamento em relação à "Para maiores" seja justamente o fato de contar com atores de prestígio e respeito se prestando a situações constrangedoras normalmente relegadas a elencos de segundo ou terceiro escalões. Não é sempre que se vê Hugh Jackman interpretando um homem com os testículos localizados no queixo ou Halle Berry fazendo guacamole com um seio. Sim, é esse o nível de humor do filme, que usa e abusa do politicamente incorreto e de algumas piadas francamente ofensivas para conquistar as gargalhadas da audiência. De acordo com a bilheteria - pouco mais de 8 milhões em casa, cerca de 23 no mercado internacional - nem todo mundo entendeu (ou quis entender) a brincadeira. O estigma de humor pouco sofisticado pesou mais do que o elenco milionário, mas não é difícil de imaginar que, deixando o preconceito de lado (junto com qualquer tipo de suscetibilidade), o público possa ter alguns bons momentos de diversão, mesmo que jamais assuma isso diante dos outros.

Quem quiser encarar o desafio de experimentar a brincadeira quase insana que é "Para maiores" tem que se preparar para quase tudo. Literalmente. Tudo começa quando dois adolescentes, em busca de vingança contra um amigo nerd, falam a ele sobre a existência de um filme maldito, proibido em todos os países do mundo e que só pode ser localizado no submundo da Internet. Tal premissa - boba como convém - serve como elo de ligação entre todos os esquetes da produção, que fazem as vezes de alguns dos filmes encontrados durante a procura dos jovens. A partir daí é bobagem atrás de bobagem, com níveis variáveis de graça e escatologia. Se não, vejamos: no primeiro encontro com um solteirão cobiçadíssimo (Hugh Jackman), uma mulher (Kate Winslet) descobre que ele tem uma particularidade física desconcertante; Naomi Watts e Liev Schreiber (casados na vida real) contam a um casal de amigos como fazem para fazer de seu lar o ambiente escolar ideal para o filho adolescente que estuda em casa; às vésperas de pedir sua namorada (Anna Faris) em casamento, rapaz (Chris Pratt, casado com Faris também atrás das câmeras) se surpreende com uma proposta pouco usual da moça para apimentar suas relações sexuais; caixa de um supermercado (Kieran Culkin) reencontra a namorada (Emma Stone) e resolve por a relação em pratos limpos esquecendo de desligar o microfone e faz todos os clientes de testemunhas de suas palavras pouco sutis.


A sessão de humor descompromissado segue adiante mostrando uma reunião de acionistas de um IPod em forma de boneca que vem mutilando os pênis dos usuários adolescentes e que encontra no diretor da empresa (Richard Gere) um empecilho para as mudanças necessárias solicitadas por uma colega do sexo oposto (Kate Bosworth); Justin Long aparece como Robin, que frequenta uma sessão de encontros-relâmpagos e dá de cara com Lois Lane (Uma Thurman), a Supergirl (Kristen Bell), o Batman (Jason Sudeikis) e o Superman (Bobby Cannavale); Chloe Grace Moretz é uma adolescente que tem a primeira menstruação na casa do namorado e, desesperada, não consegue a ajuda dele e do cunhado (Christopher Mintz-Plasse) para resolver o problema; para limpar a barra com o melhor amigo (Sean William Scott), Johnny Knoxville lhe dá de presente um duende irlandês desbocado e violento (Gerard Butler), o que irá lhes causar grandes dores de cabeça (e em outras partes do corpo); Halle Berry e Stephen Merchant se encontram às cegas e iniciam uma brincadeira de "Verdade ou desafio" que logo descamba para consequências impensáveis; Terrence Howard é um treinador de basquete dos anos 50 que tenta convencer seus atletas negros que eles tem possibilidade de vencer os rivais brancos somente porque são negros; e Elizabeth Banks (diretora do esquete estrelado por Chloe Grace Moretz) tenta, no último quadro, convencer seu noivo (Josh Duhamell) que o gato que ele trata como filho a odeia e nutre por ele sentimentos pouco fraternais e muito sexuais.

É de frequente mau-gosto? Sim. É ofensivo e por vezes inacreditável? Também. Mas "Para maiores" atinge plenamente seu objetivo de jogar para o alto o politicamente correto que vem minando a comédia no cinema e fazer rir, mesmo que de nervoso. Como cinema - em termos técnicos e narrativos - é uma nulidade, mas sua coragem em nadar contra a corrente merece ser louvada até mesmo por todos aqueles que rejeitam ferozmente seu resultado final. Não é uma comédia para todo mundo - pode-se até dizer que é para poucos, em um extremo oposto à sofisticação de Woody Allen, por exemplo - mas pode encontrar seu público, desde que este esteja disposto a mergulhar sem medo na baixaria explícita de um filme que jamais se leva a sério. Questão apenas de querer se arriscar!

sexta-feira

O IMPOSSÍVEL

O IMPOSSÍVEL (The impossible, 2012, Summit Entertainment/Mediaset España, 114min) Direção: A.J. Bayona. Roteiro: Sergio G. Sánchez, estória de María Belón. Fotografia: Oscar Faura. Montagem: Elena Ruiz, Bernat Vilaplana. Música: Fernando Velázquez. Figurino: Anna Bingemann, Sparka Lee Hall, María Reyes. Direção de arte/cenários: Eugenio Caballero/Pilar Revuelta. Produção executiva: Sandra Hermida, Javier Ugarte. Produção: Belén Atienza, Álvaro Augustin, Ghislain Barrois, Enrique López-Lavigne. Elenco: Naomi Watts, Ewan McGregor, Tom Holland, Geraldine Chaplin, Samuel Joslin, Oaklee Pendergast. Estreia: 09/9/12 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Naomi Watts)

"Titanic" explorava uma das maiores catástrofes da história do século XX com pompa e circunstância, transformando a tragédia em um superespetáculo tecnicamente perfeito que conquistou o posto de maior bilheteria da história do cinema - e um recorde de onze Oscar. Quinze anos depois, o mexicano Juan Antonio Bayona mostrou que não é preciso um orçamento milionário para emocionar a plateia quando se tem talento e uma trama forte em mãos. "O impossível" - que utiliza a destruição provocada pelo Tsunami que devastou a Tailândia em 2004 para contar uma história de esperança e superação pessoal - é um dos filmes mais impactantes a surgir nas telas em muitos anos e, mesmo que tenha recebido apenas uma indicação ao Oscar (melhor atriz) é infinitamente superior a muitos produtos superestimados pelos membros da Academia em sua temporada, como o manipulador e chato "Indomável sonhadora". E é, além de tudo, uma aula de narrativa, capaz de prender o público na cadeira durante toda a sua tensa e emocionante projeção.

Ao contrário de "Titanic" - a comparação é inevitável, de certa forma - em que a desgraça só chegava às personagens depois de mais da metade do filme, em "O impossível" o roteiro vai direto ao ponto: em menos de quinze minutos a paz e a tranquilidade da família do inglês Henry Bennett (Ewan McGregor) desaparece, sendo levada pela gigantesca onda que aniquila o resort onde ele estava passando as festas de fim de ano com a família. Afastada do marido e dos dois filhos caçulas, desaparecidos em meio ao turbilhão provocado pela gigantesca onda, a médica Maria (Naomi Watts) - que deixou a profissão de lado para dedicar-se aos filhos - une-se então ao filho mais velho, Lucas (Tom Holland) para tentar sobreviver às consequências do desastre. Enquanto isso, Henry e os outros meninos não desistem de procurar o resto da família, testemunhando abismados a extensão da tragédia e exemplos comoventes de solidariedade e amor.


A partir daí é surpreendente a maneira com que Bayona - que assinou o também ótimo "O orfanato" - manipula (no bom sentido) os sentimentos da plateia. Sem perder o ritmo em momento algum, o cineasta constrói um filme que equilibra com maestria sequências de suspense de tirar o fôlego com cenas da mais absoluta emoção. Fugindo do piegas admiravelmente, o filme conduz o público a uma experiência capaz de arrancar lágrimas do mais empedernido espectador ao apelar para os sentimentos mais puros e honestos de cada um. É notável também - e nisso se percebe claramente o talento de todos os envolvidos no projeto - como cada peça se encaixa perfeitamente no resultado final: a fotografia eficaz, a edição inteligente, a trilha sonora delicada e os efeitos visuais discretos e assustadores colaboram para transformar o trabalho de Bayona em duas horas do mais puro cinema, que entretém ao mesmo tempo em que apavora e emociona.

E emoção é a palavra-chave de "O impossível". Não há cena no filme que não arrepie, que não comova, que não mexa com o público. Tudo isso deve muito, justiça seja feita, a seu elenco: se apenas Naomi Watts foi indicada ao Oscar por sua performance não seria errado apontar que Ewan McGregor e o jovem Tom Holland mereciam maior atenção por parte dos eleitores da Academia. McGregor é dono de ao menos uma cena antológica (com a ajuda de um telefone celular) e Holland, com seu Lucas, ameaça roubar a cena sempre que aparece, demonstrando uma vasta gama de sentimentos que apenas atores veteranos conseguem com apenas um olhar. Juntos aos outros atores mirins que completam a família - e uma participação afetiva de Geraldine Chaplin em uma cena de extrema delicadeza em meio ao desespero - são eles que dão alma ao filme de Bayona, desde já um clássico moderno. Imperdível!

VIOLÊNCIA GRATUITA

VIOLÊNCIA GRATUITA (Funny games, 2007, Warner Independent Pictures, 111min) Direção e roteiro: Michael Haneke. Fotografia: Darius Khondji. Montagem: Monika Willi. Figurino: David C. Robinson. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/Rebecca Meis DeMarco. Produção executiva: Philippe Aigle, Carole Siller. Produção: Christian Baute, Chris Coen, Hamish McAlpine, Hengameh Panahi, Andro Steinborn. Elenco: Naomi Watts, Tim Roth, Michael Pitt, Brady Corbett, Devon Gearhart. Estreia: 20/10/07 (London Film Festival)

Em 1997, o cineasta austríaco Michael Haneke chocou o público ao narrar, em detalhes quase mórbidos, o ataque sem sentido e frio de uma dupla de adolescentes a uma família em sua casa no lago. Elogiado pelos quatro cantos do mundo, o filme acabou por chamar a atenção dos estúdios de Hollywood e, como é comum nesses casos, fez a transição para o cinema comercial norte-americano. Porém, um pequeno detalhe nas negociações fez toda a diferença no resultado final: Haneke manteve-se no comando do filme e, assim como Gus Van Sant fez com "Psicose", de Hitchcock, reconstruiu sua obra quadro a quadro, em uma literal refilmagem. No entanto, se Van Sant deu com os burros n'água com um filme sofrível, Haneke mostrou-se mais feliz em sua missão: a versão ianque de "Violência gratuita" consegue manter o tom de constante tensão do original, ao diferenciá-los basicamente pelo idioma.

A trama começa ensolarada e bucólica, com a chegada de uma família à sua casa de verão, onde pretendem passar as próximas semanas. Estáveis e felizes, George (Tim Roth), Ann (Naomi Watts) e seu filho pequeno (Devon Gearhart) mal conseguem se instalar em sua confortável casa de dois andares e repleta de conforto quando recebem a visita de dois jovens que se apresentam como amigos de seus vizinhos. Polidos e em tom suave, Paul (Michael Pitt) e Peter (Brady Corbett) chegam à propriedade para pedir alguns ovos emprestados, mas não demora para demonstrarem suas reais intenções: manter a família de refém, torturando-a aos poucos até exterminá-la por completo - não sem antes experimentar uma série aparentemente interminável de jogos de nervos enfatizado pela enorme distância que os separa dos demais moradores da região, únicas pessoas que poderiam interromper a tragédia anunciada.


Sem dar sossego ao público nem aos personagens, Haneke constroi um suspense psicológico aterrador, capaz de aterrorizar ao mais indiferente espectador justamente por não apelar para monstros ou assassinos mascarados como vilões. Ao eleger como ameaça dois jovens bem-apessoados, educados e aparentemente de boa instrução, o cineasta parece gritar que a civilização está a um passo da barbárie e que nem mesmo o sacrossanto recesso do lar é um lugar a salvo da delinquência juvenil - e que ela não está necessariamente ligada a diferenças sociais ou motivos menos banais do que um distorcido conceito de "diversão". Aliás, ao fazer do espectador voyeur do sofrimento alheio, ele também critica, de certa forma, a crescente onda de espetacularização da violência, que tornou-se ainda mais severa e brutal com a virada do século e a popularização da Internet e seus vídeos de gosto duvidoso. Para sublinhar essa sua teoria, ele não hesita em intercalar à seriedade do roteiro alguns momentos em que os psicóticos conversam com a câmera (ou seja, com os espectadores) e, em uma cena antológica, faz com que um deles utilize o controle remoto para reverter uma situação negativa - um rewind macabro e, ironicamente, bem-humorado.

Com a ingrata missão de substituir os atores do filme original, o elenco escalado por Haneke para sua refilmagem consegue manter o mesmo grau de consistência da versão austríaca, especialmente Naomi Watts e Tim Roth, que transmitem todo o desespero da situação de seus personagens com a competência de quem já tem indicações ao Oscar no currículo. Michael Pitt e Brady Corbett, por sua vez, não fazem feio, explorando o visual imaculado de seus personagens - roupas brancas e luvas - para oferecer ao público uma sensação de claustrofobia e angústia crescentes. É especialmente brilhante também o fato de Haneke manter fora das câmeras as cenas de maior violência física - um assassinato só é percebido pelo barulho distante que se ouve quando um dos criminosos está na cozinha fazendo um lanche e pelo sangue no aparelho de televisão - e, com isso, obrigar a plateia a completar as informações com sua própria imaginação (que, todos sabem, é sempre muito mais chocante do que a realidade).

Uma refilmagem não apenas decente, mas do mesmo nível do original, "Violência gratuita" é um dos filmes de suspense mais inteligentes, aterradores e originais de seu tempo. Uma pequena obra-prima que já dava mostras do quão longe Michael Haneke conseguiria chegar poucos anos depois. Imperdível!

terça-feira

SENHORES DO CRIME

SENHORES DO CRIME (Eastern promises, 2007, Focus Features/BBC Films, 100min) Direção: David Cronenberg. Roteiro: Steve Knight. Fotografia: Peter Suschitszky. Montagem: Ronald Sanders. Música: Howard Shore. Figurino: Denise Cronenberg. Direção de arte/cenários: Carol Spier/Judy Farr. Produção executiva: Jeff Abberley, Julia Blackman, Stephen Garrett, David M. Thompson. Produção: Robert Lantos, Paul Webster. Elenco: Viggo Mortensen, Naomi Watts, Vincent Cassel, Armin Mueller-Stahl, Sinéad Cusack, Jerzy Skolimowski. Estreia: 05/9/07 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Melhor Ator

O sucesso de crítica e público de "Marcas da violência" (05) deu novo rumo à carreira do cineasta canadense David Cronenberg, até então acostumado a dividir opiniões com seus trabalhos frequentemente à beira do mau-gosto - vide a podridão explícita de "A mosca" e o surrealismo exarcebado de "Mistérios e paixões". Encontrando no ator Viggo Mortensen um parceiro artístico à altura, ele retornou aos desvãos da alma humana em seu filme seguinte, "Senhores do crime", em que equilibrou seu gosto pela violência com uma narrativa simples e direta, que prescindia de artifícios e metáforas para conquistar a plateia ávida por um bom filme policial. Mesmo recorrendo em alguns momentos a sequências bem mais gráficas do que a média do gênero - com sangue jorrando aos borbotões e um homem tendo o olho perfurado em uma luta - Cronenberg realizou uma obra que foge do convencional graças ao roteiro inteligente, ao elenco em boa forma e à sua direção, firme e inspirada.

Mortensen recebeu uma indicação ao Oscar de melhor ator por seu desempenho - a princípio minimalista mas que vai aos poucos acumulando energia para o já antológico clímax em uma sauna, onde luta nu com dois homens que querem matá-lo - como Nikolai, o motorista de uma família de mafiosos russos que vivem em Londres. Com o corpo coberto de tatuagens - sinais que contam sua história de crimes, segundo dizem seus chefes - ele anseia em ser aceito como membro do seleto e violento grupo, liderado pelo aparentemente dócil Seymon (Armin Mueller-Stahl), que tem uma relação conflituosa com o filho único, o desajustado e impulsivo Kirill (Vincent Cassel). Seu mundo encharcado de sangue e vinganças é penetrado repentinamente pela obstetra Anna (Naomi Watts),  que chega até eles em busca de informações a respeito de uma adolescente que morreu em seus braços, durante um parto. Através do diário da jovem - que a médica não consegue traduzir do russo apesar de sua descendência soviética - ela tenta descobrir um meio de entregar seu bebê recém-nascido a algum membro da família, mas nem de longe desconfia que os responsáveis por toda a tragédia estão justamente entre aqueles a quem ela pede socorro.


Pontuando sua trama com um clima de constante ameaça, Cronenberg tem o mérito de depositar nos confiáveis braços de Mortensen um papel-chave, que, para surpresa do público, tem muito mais nuances e desdobramentos do que parecia a princípio. O roteiro de Steve Knight é pródigo em impedir a audiência de adivinhar o que vem pela frente, embaralhando suas cartas sempre que a trama parece caminhar em direção a um clichê. A relação entre Seymon e Kirill, por exemplo, seria um prato cheio para um roteirista preguiçoso, mas Knight faz questão de deixá-la sempre em tensão crescente, como se a qualquer momento tudo entre eles pudesse explodir sem aviso prévio. Logicamente, a escolha de Mueller-Stahl e principalmente Vincent Cassel para os papéis não poderiam ter sido mais corretas - o primeiro com seu ar bonachão de pai de família carinhoso e o segundo com seu eterno tom de desequilíbrio mental. Ao lado de Mortensen, uma presença tranquila e silenciosa, eles formam uma tríade de perigo à espreita que empresta o filme boa parte de seu charme e inteligência.

Forte e violento, "Senhores do crime" transforma até mesmo um momento sublime - o nascimento de um bebê - em uma fonte de vingança e crueldade, uma espiral crescente de tensão e desespero na qual a sofrida Anna (uma mãe frustrada pela morte prematura de um filho) se vê envolvida em um meio masculino que não a vê senão como um pedaço de carne. A virilidade misógina que perpassa o filme - com os homens explorando as prostitutas, violentando adolescentes e tratando suas esposas e mães como apêndices inferiores - tem reflexo nas cenas extremamente agressivas de luta e nos rituais de transição representados pela sessão de tatuagens em Nikolai e nos assassinatos cometidos em nome de uma tradição familiar sanguinária, mas a presença quase serena de Anna ameniza a sensação de desesperança e pesadelo que a fotografia escura e úmida transmite. Essa dicotomia massiva entre bem/mal, luz/escuridão, nascimento/morte é um dos trunfos do filme, que é um dos pontos altos da filmografia de David Cronenberg.
 

sexta-feira

VOCÊ VAI CONHECER O HOMEM DOS SEUS SONHOS

VOCÊ VAI CONHECER O HOMEM DOS SEUS SONHOS (You will meet a tall dark stranger, 2010, Mediapro, 98min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Alisa Lepselter. Figurino: Beatrix Aruna Pasztor. Direção de arte/cenários: Jim Clay/John Bush. Produção executiva: Javier Méndez. Produção: Letty Aronson, Jaume Rorers, Stephen Tenenbaum. Elenco: Anthony Hopkins, Naomi Watts, Antonio Banderas, Josh Brolin, Gemma Jones, Frieda Pinto, Pauline Collins, Lucy Punch, Ewen Bremner. Estreia: 15/5/10 (Festival de Cannes)

Quando quer, Woody Allen sabe ser sombrio e pessimista. Depois que flertou com o final feliz em seu "Tudo pode dar certo" ele volta a conversar com a falta de esperança em "Você vai conhecer o homem dos seus sonhos", no qual ele utiliza novamente a ironia e as armadilhas do destino para contar uma história sobre gente normal presa a seus próprios problemas amorosos/profissionais/sexuais. Lembra bastante "Crimes e pecados" e "Match point", dois de seus melhores trabalhos e, se não chega ao nível deles, fica bastante perto.

O filme acompanha a história de várias personagens que se cruzam por laços familiares. A primeira a ser apresentada é Helena (a extraordinária Gemma Jones), uma dona-de-casa que vê sua vida devastada ao ser abandonada pelo marido, Alfie (Anthony Hopkins), que resolve viver a vida depois dos sessenta anos. Perdida e sem rumo, ela procura uma vidente, Cristal (Pauline Collins), que lhe garante que ela irá encontrar um novo amor, assim como aconteceu com seu ex-marido, que casou-se com uma ex-prostituta, Charmaine (a exagerada Lucy Punch). A filha de Alfie e Helena, Sally (Naomi Watts exercitando um belo sotaque britânico) começa a trabalhar na galeria de arte do sedutor Greg (Antonio Banderas) e sente-se atraída por ele, mesmo porque seu casamento também está em crise: seu marido, Roy (Josh Brolin), que abandonou a Medicina para ser escritor, está com um problema de criatividade e sente-se tentado ao adultério quando passa a espionar a vizinha da frente, a bela Dia (Freida Pinto).


Essa ciranda de adultério, desejos reprimidos e busca desenfreada pela realização pessoal é contada de forma sóbria por um dos roteiros mais interessantes de Allen em sua fase pós-Mia Farrow. Não há muito humor - ao menos um humor óbvio - e o cineasta mantém-se neutro em relação aos atos de suas personagens. Como em seus melhores filmes, a imprevisibilidade da trama é um aliado poderoso, deixando a plateia sempre em suspenso, aguardando os desvios de sua história. E mais uma vez a escalação certeira do elenco merece um capítulo à parte. Naomi Watts e Josh Brolin estão em perfeita sintonia como um casal à beira da separação; Anthony Hopkins está à vontade em um papel bastante diferente dos que costuma representar e Gemma Jones rouba a cena como a desnorteada Helena, uma personagem crucial que ela segura com uma firmeza que mereceria uma indicação ao Oscar de coadjuvante.

Ao citar "Macbeth", de Shakespeare, em seu prólogo - que diz que a vida é feita de som e fúria e que não quer dizer nada - Woody Allen dá o tom amargo de seu novo e belo filme. Nem mesmo o final em aberto consegue estragá-lo, muito pelo contrário, o reafirma como um dos mais interessantes títulos de sua digna filmografia.

domingo

A PASSAGEM

A PASSAGEM (Stay, 2005, 20th Century Fox, 99min) Direção: Marc Forster. Roteiro: David Benioff. Fotografia: Roberto Schaefer. Montagem: Matt Chesse. Música: Asche & Spencer. Figurino: Frank L. Fleming. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/George De Titta Jr. Produção executiva: Bill Carraro, Guymon Casady. Produção: Eric Kopeloff, Tom Lassally, Arnon Milchan. Elenco: Ewan McGregor, Naomi Watts, Ryan Gosling, Janeane Garofalo, Bob Hoskins. Estreia: 21/10/05

Hollywood é um lugar muito estranho. Filmes de suspense onde roteiros servem apenas para indicar às personagens em que hora gritar e bater no vilão clichê levam multidões às salas de cinema, e obras interessantes e criativas como "A passagem" - título nacional meio bobo - são praticamente ignoradas, apesar do elenco com nomes populares. Dirigido pelo mesmo Marc Forster que comandou os celebrados "A última ceia" e "Em busca da Terra do Nunca", o filme estrelado por Ewan McGregor e Naomi Watts - além de um ainda desconhecido Ryan Gosling - é um suspense inteligente e intrigante, que mantém o público preso em sua trama até os minutos finais. E se Forster consegue fazer do roteiro do escritor David Benioff um belíssimo filme é de se imaginar as misérias que David Fincher - primeiro nome a ser cotado para a direção - conseguiria fazer.

Diretor competente mas jamais brilhante, Forster extrapola todos os seus limites em "A passagem", que lhe dá base para fugir do naturalismo e do academicismo de seus trabalhos anteriores ao contar uma história que, a princípio, soa absolutamente surreal - mas que faz todo sentido do mundo em seus minutos finais. Brincando de David Lynch (porém sem a profundidade psicológica de suas personagens), Forster mergulha sem medo em um mundo bizarro e esquisito que embaralha realidade e alucinação na medida certa - e que conta com o mais apurado visual de seu currículo até então.

 

O filme começa quando o terapeuta Sam Foster (Ewan McGregor) é chamado para substituir uma colega que está em depressão e atender ao jovem Henry Letham (Ryan Gosling já mostrando o monstro de ator que se revelaria em poucos anos), um rapaz melancólico e problemático que lhe promete cometer suicídio em poucos dias. Na tentativa de evitar tal desenlace - que lhe remete à tentativa feita por sua namorada (Naomi Watts) - Foster corre para investigar a vida e a rotina de Letham, que utiliza seu talento como pintor para expressar sua tristeza e suas dúvidas existenciais. Conforme o tempo vai passando - e a data da morte programada do jovem se aproximando - o psiquiatra começa a questionar sua própria sanidade mental.

O melhor a se fazer em relação a "A passagem" é saber o menos possível a seu respeito antes do início da projeção. As pistas deixadas pelo roteiro de Benioff - e que serão encaixadas mais tarde em uma sequência editada com perfeição - parecem confusas e sem sentido a maior parte do tempo, lembrando muito os pesadelos em forma de celulóide perpetrados por David Lynch, mas permitem a Marc Forster demonstrar que ainda é um exímio diretor de atores. Se Ewan McGregor e Naomi Watts não precisam mais provar nada a ninguém - mesmo que dela pouco seja exigido no filme - Ryan Gosling rouba a cena como o desajustado Henry Letham e as participações pequenas mas cruciais de Bob Hoskins e Janeane Garofalo deixam tudo ainda mais intrigante e tenso - isso sem falar na angustiante sequência em que Sam precisa lidar com a mãe e o cachorro de Letham.

"A passagem" é um filme que não fez o barulho que merecia. Mas que precisa ser descoberto como um dos suspenses mais criativos e inteligentes de sua época.

terça-feira

21 GRAMAS


21 GRAMAS (21 grams, 2003, Focus Features, 124min) Direção: Alejandro Gonzalez Iñarritu. Roteiro: Guillermo Arriaga. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Stephen Mirrione. Música: Gustavo Santaolalla. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Brigitte Broch/Meg Everist. Produção executiva: Ted Hope. Produção: Alejandro Gonzalez Iñarritu. Elenco: Sean Penn, Benicio Del Toro, Naomi Watts, Melissa Leo, Charlotte Gainsbourg, Danny Huston, Clea Duvall, Eddie Marsan. Estreia: 19/10/03

2 indicações ao Oscar: Atriz (Naomi Watts), Ator Coadjuvante (Benicio Del Toro)

A vida vista pelos olhos do roteirista Guillermo Arriaga e pelo diretor Alejandro Gonzalez Iñarritu não é exatamente cor-de-rosa. Pelo contrário, a dupla de mexicanos que deu ao mundo o excepcional “Amores brutos” volta a analisar o lado sombrio e triste da alma humana em seu segundo longa-metragem, desta vez sob os auspícios generosos de um orçamento hollywoodiano, sem, no entanto, perder em qualidade dramática. A estrutura do primeiro filme – histórias aparentemente isoladas que se entrecruzam – se mantém. O ritmo próprio idem. Mas, se antes o elenco não contava com nenhum nome internacionalmente conhecido – Gael García Bernal ainda não havia estourado – agora a história é bem diferente. Quando “21 gramas” estreou, Benicio Del Toro já tinha um Oscar na prateleira, Sean Penn estava em vias de ganhar o seu primeiro por "Sobre meninos e lobos" e Naomi Watts já era famosa entre os críticos por sua atuação em “Cidade dos sonhos” e entre os fãs de cinema pelo remake de “O chamado”.

Contado de forma aparentemente desconecta, “21 gramas” conta três histórias que se encontram (se chocam talvez seja a melhor expressão) devido a um trágico acidente de carro (ecoando a mesma situação de “Amores brutos”). O professor Paul Rivers (Sean Penn, mais uma vez sensacional) sofre de uma doença grave no coração e precisa de um transplante – para salvar sua vida e manter seu abalado casamento com  Mary (Charlotte Gainsbourg), que sonha em ter um filho mas esconde um aborto em seu passado. Christina Peck (Naomi Watts merecidamente indicada ao Oscar) é uma dona-de-casa dedicada que vive uma vida de faz-de-conta com o marido Michael (Danny Huston) e as filhas pequenas. E Jack Jordan (Benicio Del Toro, avassalador) é um ex-presidiário que, convertido a um catolicismo fanático na prisão, tenta reestabelecer o convívio com a família. O destino, irônico como nunca, porém, prega uma peça a todos eles: em um final de tarde, Jack atropela e mata a família de Michael, cujo coração vai parar no peito de Paul, que, em um ato de desatino, procura Christina e se apaixona por ela, que desesperada, deseja vingança.


É desesperador assistir-se à "21 gramas". Ao contrário do que normalmente acontece no cinemão americano, a angústia e a dor de seus protagonistas não são disfarçados por um humor deslocado ou por belas imagens - ainda que a fotografia excepcional de Rodrigo Prieto esteja totalmente de acordo com a intenção de Iñarritu de aproximar o espectador de suas personagens, em closes tensos e uma iluminação que reflete com perfeição todos os estados de espíritos. A edição picotada de Stephen Mirrione - vencedor do Oscar por "Traffic" - também colabora para corroborar a desorientação dos três anti-heróis criados por Guillermo Arriaga, em um roteiro tão coeso que é o ápice de sua carreira: Paul, Christina e Jack são pessoas reais, de carne-e-osso, construídas com tal verdade que é impossível à audiência não acreditar em seus dramas e dúvidas. E para isso, logicamente, o cineasta conta com um elenco nunca menos do que espetacular.


É difícil lembrar um filme cujo trio de protagonistas seja tão especial quanto aquele que forma a tríade de ouro de "21 gramas". Enquanto Penn mais uma vez comprova seu talento e versatilidade, Naomi Watts surpreende demonstrando um alcance dramático vislumbrado em "Cidade dos sonhos" e aqui visto em sua totalidade de nuances. Mas é Benicio Del Toro com seu devastador Jack Jordan quem rouba o filme, com diálogos substanciais e uma crença tão absoluta no destino - a quem ele coloca o nome de Deus - que é impossível não lhe crer em cada fala, em cada silêncio, em cada olhar. Mais ainda do que no papel que lhe deu o Oscar - em "Traffic" - é aqui que Del Toro demonstra todo seu imenso talento, em uma interpretação arrepiante.

Por mais árduo e dolorido que seja compartilhar das duas horas de sofrimento imposto por "21 gramas" é também impossível não se deixar emocionar e envolver com sua trama. Forte, emocionante e triste, é um dos grandes filmes de seu tempo, e a obra-prima - até a data - de seu extraordinário realizador.

quarta-feira

O CHAMADO

O CHAMADO (The ring, 2002, Dreamworks SKG, 115min) Direção: Gore Verbinski. Roteiro: Ehren Kruger, romance de Koji Suzuki, roteiro original de Hiroshi Takahashi. Fotografia: Bojan Bazelli. Montagem: Craig Wood. Música: Hans Zimmer. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Tom Duffield/Rosemary Brandenburg. Produção executiva: Doug Davison, Roy Lee, Mike Macari, Michele Weisler. Produção: Laurie MacDonald, Walter F. Parkes. Elenco: Naomi Watts, Martin Henderson, David Dorfman, Brian Cox, Jane Alexander, Daveigh Chase. Estreia: 18/10/02

No início dos anos 2000, Hollywood, dando mais uma prova de sua crônica falta de criatividade, passou a buscar nos filmes de terror orientais a matéria-prima para alguns de seus maiores sucessos do gênero. O responsável por tal tendência - e que acabou tornando-se vítima dela quando gerou uma continuação desnecessária - foi "O chamado", remake que, por incrível que pareça, melhorou bastante seu original, dirigido por Hideo Nakata (por sua vez, baseado em um romance de Kôji Suzuki). Comandada por Gore Verbinski (em alta pelo sucesso de sua versão cinematográfica de "Piratas do Caribe"), a versão ianque consegue ter clima apropriado, um elenco afiado e, melhor ainda, mantém o suspense em alta até suas cenas finais.

O remake americano de "O chamado" é bastante fiel a sua origem japonesa, seguindo quase à risca o roteiro do filme de Nakata. Naomi Watts (recém saída dos elogios por "Cidade dos sonhos", de David Lynch) é a protagonista, a jornalista Rachel Keller, mãe solteira do precoce Aidan (David Dorfman). Dedicada à profissão (e curiosa como uma boa repórter deve ser), Rachel inicia uma investigação inusitada depois da morte inesperada da sobrinha adolescente: ela segue os rastros de uma fita de vídeo que, segundo consta, mata quem a assiste, depois de sete dias. Após assistir à tal fita (que encontra na pousada onde sua sobrinha passou seu último fim de semana), Rachel começa uma corrida contra o tempo para evitar sua morte e a do filho, que também assistiu às desconexas imagens. Com a ajuda do ex-namorado Noah (Martin Henderson), ela tenta descobrir as razões por trás do filme e descobre, aterrorizada, uma trágica história familiar com fim trágico.



Fotografado com competência por Bojan Bazelli - que mistura o tom sombrio da história com a umidade constante de Seattle, cenário da trama - "O chamado" tem a seu favor, também, a direção competente de Verbinski, que, mesmo que esteja longe de ser um cineasta original ou ousado, narra com correção e seriedade um filme que inteligentemente foge da tendência de apelar para o humor (característica esta que marcou uma fase do gênero terror no final dos anos 90). Para o bem do espectador que gosta de sentir medo (e assustar-se), o cineasta mantém sempre a sensação de perigo constante e chega ao luxo de enganar a plateia, aparentemente terminando a história para então apresentar seu desfecho pessimista. Ainda que não chegue a ser exatamente surpreendente (sempre é bom deixar um gancho para uma sequência, ensinam os executivos de Hollywood), essa opção encerra o filme com coerência e elegância.

Apesar das explicações meio capengas para mostrar os motivos que levaram a vilã Samara Morgan (interpretada pela pequena e assustadora Daveigh Chase) a tornar-se vingativa - culpa mais da história original em si do que de seu remake - "O chamado" é um dos mais decentes filmes de terror dos anos 2000, dando a chance a Naomi Watts de comprovar o talento mostrado em seu inesquecível trabalho em "Cidade dos sonhos". Um filme imperdível para os fãs do gênero!

quinta-feira

CIDADE DOS SONHOS

CIDADE DOS SONHOS (Mulholland Drive, 2001, Les Films Alain Sarde, 147min) Direção e roteiro: David Lynch. Fotografia: Peter Deming. Montagem: Mary Sweeney. Música: Angelo Badalamenti. Figurino: Amy Stofsky. Direção de arte/cenários: Jack Fisk/Barbara Haberecht. Produção executiva: Pierre Edelman. Produção: Neal Edelstein, Tony Krantz, Michael Polaire, Alain Sarde, Mary Sweeney. Elenco: Naomi Watts, Laura Haring, Ann Miller, Dan Hedaya, Robert Forster, Justin Theroux, Lee Grant. Estreia: 16/5/01 (Festival de Cannes)


Indicado ao Oscar de Melhor Diretor (David Lynch)
Vencedor da Palma de Ouro de Melhor Diretor (David Lynch) no Festival de Cannes

O cineasta David Lynch pode ser classificado de qualquer coisa - de excêntrico a hermético - mas de uma coisa o homem jamais pode ser acusado: de ser previsível. Previsibilidade é provavelmente o único ingrediente que não consta na receita de filmes como "Veludo azul", "Coração selvagem", "A estrada perdida" e neste "Cidade dos sonhos", que lhe deu a Palma de Ouro de Melhor Diretor no Festival de Cannes em 2001 e uma indicação ao Oscar na mesma categoria - no ano em que Ron Howard papou o prêmio pelo acadêmico "Uma mente brilhante". Idealizado como piloto de uma série de TV que não chegou a ser aprovada, seu filme volta a utilizar os elementos oníricos que tanto lhe deram fama e acrescenta a eles uma dose de suspense erótico que o eleva a uma experiência única.

Nada é o que parece em uma primeira sessão de "Cidade dos sonhos". O filme começa quando uma bela mulher (a ex-Miss EUA Laua Elena Harring) escapa de uma tentativa de homicídio graças a um acidente de carro em Mulholland Drive (estrada de Los Angeles que dá título à obra). Sem lembrança alguma de seu passado, ela para em um condomínio onde acaba de chegar do Canadá a ingênua aspirante a atriz Betty (Naomi Watts). Juntas, elas tentarão descobrir a identidade da moça - auto-nomeada Rita em homenagem a um poster de "Gilda" que orna o apartamento onde moram - e, no caminho, cruzarão com tipos bizarros típicos da obra de Lynch, como um cineasta independente (Justin Theroux) e vários executivos misteriosos da indústria do cinema.



Ao contrário dos filmes anteriores de Lynch, em que uma trama linear era ocupada por personagens excêntricos, em "Cidade dos sonhos" o cineasta não somente recheou sua história com tipos absurdos mas também criou uma narrativa repleta de símbolos, imagens dúbias e um roteiro de dar nós na cabeça do mais antenado espectador. Realizado com a segurança de quem sabe exatamente o que está fazendo, o filme do criador de Laura Palmer leva o público a uma viagem sensorial, com reviravoltas com clima de pesadelo, onde nenhuma cena deve ser vista apenas pelo que parece e sim pelo que pode significar. Complicado? Talvez. Genial? Sempre. Cada detalhe visual e cada linha de diálogo de "Cidade dos sonhos" faz parte de um conjunto maior, que só faz sentido total em suas cenas finais, cruas e diretas, que parecem contradizer os primeiros 2/3 do filme, quando tudo é APARENTEMENTE simples. Difícil é descrever cada ideia excepcional do roteiro, da direção precisa de Lynch e do trabalho de seus colaboradores.

Contando com a habitual parceria do compositor Angelo Badalamenti na trilha sonora, que mistura canções pop dos anos 50 com uma estranhíssima versão em espanhol da bela "Crying", de Roy Orbison - apresentada na mais forte e deslumbrante cena do filme - e uma fotografia que expressa com nervosismo as intenções jamais óbvias da intrincada história, Lynch ainda tem em mãos um enorme trunfo. Na pele de Betty, a sonhadora atriz iniciante que almeja a glória em Hollywood e se vê envolvida em uma confusa relação com uma misteriosa mulher, a bela Naomi Watts revela-se uma espetacular escolha para um papel complexo e que exige muito mais do que um rostinho bonito. Especialmente na última fase do filme, quando a inocente Betty mostra - ou talvez não - sua verdadeira face, o trabalho de Watts atinge um nível de brilhantismo poucas vezes visto no cinema de David Lynch. Com seu rosto angelical, seu cabelo louro e sua personalidade fragmentada, ela é a personificação de uma musa de Hitchcock transmutada para a geração século XXI - com a sexualidade muito, mas muito mais explícita do que Grace Kelly e Ingrid Bergman.

E, para aqueles que insistem em afirmar que não entendem o roteiro (ou que ele não faz sentido, ou que é apenas um pretexto para cenas de lesbianismo) fica a recomendação para uma nova sessão, com a devida atenção às pistas deixadas pelo diretor logo nas primeiras cenas e o espírito preparado para um filme que, felizmente, foge dos padrões insossos da Hollywood comercial.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...