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terça-feira

DUAS MULHERES

DUAS MULHERES (La ciociara, 1960, Compagnia Cinematografica Champion, 100min) Direção: Vittorio De Sica. Roteiro: Vittorio De Sica, romance de Alberto Moravia, adaptação de Cesare Zavattini. Fotografia: Gabor Pogany. Montagem: Adriana Novelli. Música: Armando Trovajoli. Figurino: Elio Constanzi. Direção de arte/cenários: Gastone Medin/Elio Constanzi. Produção: Carlo Ponti. Elenco: Sophia Loren, Jean-Paul Belmondo, Eleonora Brown, Carlo Ninchi. Estreia: 22/12/60

Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Sophia Loren)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro 
Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Atriz (Sophia Loren)

Demorou quase três décadas até que a Academia de Hollywood finalmente percebesse que fora do alcance da língua inglesa também existia cinema de qualidade - a categoria de Melhor Filme Estrangeiro, por exemplo, só começou a ser oficialmente competitiva em 1956, quando "A estrada da vida", de Federico Fellini, levou a estatueta. Foi somente na cerimônia de 1961, no entanto - a de número 34 - que uma atriz conseguiu finalmente romper a barreira do idioma e sagrar-se vencedora do Oscar na categoria principal. E engana-se que para isso foi preciso que tivesse uma longa e vitoriosa carreira que justificasse um prêmio de consolação: a italiana Sophia Loren tinha apenas 27 anos de idade quando foi eleita pelos membros da Academia, batendo nomes como Audrey Hepburn ("Bonequinha de luxo") e Natalie Wood ("Clamor do sexo"). Além de jovem e no auge da sensualidade, Loren deixava claro, com sua interpretação visceral em "Duas mulheres", que talento não tinha idade, nacionalidade ou aparência física - e devolvia à Academia um pouco da credibilidade abalada com a vitória de Elizabeth Taylor no ano anterior por pura e simples piedade (ela ganhou por "Disque Butterfield 8" mais pelos sérios problemas de saúde pelos quais passava do que propriamente por mérito artístico).

A escalação de Loren para o papel principal de "Duas mulheres" foi um tanto problemática, apesar do produtor do filme ser seu marido, Carlo Ponti: quando surgiu a ideia de adaptar o romance de Alberto Moravia, publicado em 1958, o filme seria dirigido por George Cukor e produzido pela Paramount, com toda a estrutura de um grande estúdio hollywoodiano. A protagonista seria vivida por outra italiana, Anna Magnani, com quem Cukor havia trabalho em "A fúria da carne" (57) e que havia sido indicada ao Oscar pelo papel. Loren estaria no elenco, mas como a filha adolescente de Magnani, e então a história oferece duas versões: em uma delas, a estrela de "Roma, cidade aberta" abriu mão do filme por motivos de saúde e recomendou Sophia para o seu papel, certa de que ela não se importaria em interpretar uma mulher mais velha. Em outra, menos favorável à Magnani, ela recusou-se a dividir a cena com a jovem atriz por temer que sua aparência roubasse a cena e se tornasse o principal atrativo do filme. Seja como for, Cukor abandonou o projeto e o filme acabou sendo realizado no país natal de Moravia, em seu idioma original e filmado em cenários naturais - o que, de certa forma, aproximava o resultado final das raízes neorrealistas de seu novo diretor, Vittorio De Sica. Premiado no Festival de Cannes e com o Golden Globe de melhor filme estrangeiro, "Duas mulheres" terminou por beneficiar-se de suas dificuldades iniciais e ficar para a história.


A trama se passa em 1943, em meio ao auge da II Guerra Mundial. Em Roma, a viúva Cesira (Sophia Loren) vive como comerciante, mas, temerosa diante dos constantes bombardeios na capital italiana, decide abandoná-la e esconder-se em sua região natal, no interior do país, deixando sua propriedade aos cuidados de um antigo amante, Giovanni (Raf Vallone). Acompanhada da única filha, a adolescente Rosetta (Eleanora Brown), sua maior razão de viver e preocupação constante, Cesira atravessa cidades a pé, de mula e de trem, sofrendo com a possibilidade de ser atingida por algum dos aviões que fazem voos rasantes ou soldados perdidos pela região. Quando finalmente chega a seu destino, encontra um grupo de moradores que vivem à margem do conflito, ainda que cientes de sua importância no dia-a-dia. Desse grupo faz parte Michele (Jean-Paul Belmondo), um professor com tendências esquerdistas que não demora a encantar-se com a nova integrante do grupo - e que acaba por interessar a jovem Rosetta. A tranquilidade do lugar, porém, é maculada quando um grupo de soldados alemães obriga Michele a guiá-los pelas montanhas - com medo da aproximação da guerra, Cesira resolve voltar para Roma com Rosetta. Mas, para seu desespero, o que as espera é ainda pior que a fome e a miséria.

Restaurado em 2002, "Duas mulheres" é um dos filmes mais importantes da carreira do cineasta Vittorio De Sica - autor do emblemático "Ladrões de bicicleta" - e certamente a produção que atestou a maturidade do talento de Sophia Loren, que entrega uma atuação desesperada e sensual na medida certa. Inspirado em relatos verdadeiros ocorridos durante a II Guerra Mundial na região de Monte Cassino - onde mais de 60 mil mulheres sofreram violência sexual por soldados marroquinos - o romance de Alberto Moravia serviu de base para um filme de guerra onde ela surge apenas como uma sombra perigosa e nefasta, que faz vítimas tanto no campo de batalha quanto fora dele. Mesmo que o roteiro escrito pelo próprio diretor sofra de quedas de ritmo, algumas imagens são fortes o bastante para permanecer na memória do espectador e atestar seu talento em falar tão diretamente à emoção sem apelar para o piegas. Loren, linda e carismática, entrega uma performance arrebatadora - em um papel que repetiu no remake televisivo do filme, realizado em 1988 - e eleva o filme a um patamar acima dos dramas de guerra americanos, normalmente com um nível de patriotismo exagerado. Um filme para quem procura pela verdade humana mais do que por artifícios emocionais.

quinta-feira

ACOSSADO

ACOSSADO (À bout de souffle, 1960, SNC, 90min) Direção: Jean-Luc Godard. Roteiro: Jean-Luc Godard, estória de François Truffaut. Fotografia: Raoul Coutard. Montagem: Cécile Decugis. Música: Martial Solal. Produção: Georges de Beauregard. Elenco: Jean-Paul Belmondo, Jean Seberg. Estreia: 16/3/60

Urso de Prata de Melhor Diretor (Jean-Luc Godard) no Festival de Berlim

Há mais em comum entre "Os incompreendidos", de François Truffaut e "Acossado" - o filme de estreia de Jean-Luc Godard - do que simplesmente serem ambos dirigidos por críticos da renomada revista Cahiers du Cinéma e serem os primeiros estandartes do que viria a ser chamada de Nouvelle Vague francesa. À parte a maneira descompromissada e então moderna de narrar suas histórias, Truffaut e Godard dividem também a proeza de elegerem como protagonistas de seus filmes personagens bem mais próximos à realidade do que aqueles com que Hollywood brindava seus espectadores. Tanto o Antoine Doinel criado por Truffaut quanto o Michel Poiccard inventado por Godard - e incorporado de forma inesquecível por Jean-Paul Belmondo - são, cada um à sua maneira, marginais incapazes de moldar-se a um mundo cujas regras lhes parece obsoleto e careta (mais ou menos o que os próprios cineastas achavam do cinema clássico europeu que tanto criticavam em suas resenhas).

Enquanto Doinel ilustrava sua insatisfação com pequenas mentiras na escola que, de forma crescente acabam por levar-lhe a delitos maiores, Poiccard está mais à sua frente. Vivendo de expedientes, sem moradia fixa e roubando carros por uma Paris filmada de forma seca mas sempre fascinante, ele começa o filme assassinando um policial durante uma fuga, mas, ao contrário do que se poderia esperar, não entra em desespero: procura uma espécie de namorada, a americana Patricia (Jean Seberg, encantadora), que trabalha vendendo o New York Herald Tribune e tenta convencê-la a juntar-se a ele em seu objetivo em sair do país. A jovem, independente e com sonhos de tornar-se jornalista, não compartilha do mesmo entusiasmo do rapaz, o que os acaba levando a um impasse enquanto buscam dinheiro para a deserção.


Levando-se em conta que Godard desprezava o classicismo exagerado das produções francesas de então, não deixa de ser surpreendente que a trama de seu primeiro filme seja tão simples e quase clichê, inspirada nitidamente nos thrillers americanos. O que o separa do corriqueiro, no entanto, não é sua história e sim a maneira anárquica e quase irresponsável como ela é contada. Abdicando quase completamente de luz artificial, usando câmera na mão - o que não era tão comum como é hoje - trabalhando sem um roteiro e apelando para a pós-sincronização do som (o que lhe dá um toque de modernidade ao invés de amador). Sua edição arrojada (que usa e abusa de jump cuts) - e hoje é imitada à exaustão sem que a maior parte da audiência dê a Godard o devido reconhecimento por isso - é outro ponto crucial na tentativa do cineasta de romper com o tradicional, ainda que muito dessa criatividade venha do orçamento irrisório com que realizou seu filme: enquanto frequentemente corta de uma pessoa para ela mesma, Godard também se dá ao luxo de dispender preciosos minutos em uma longa conversa em um quarto de hotel, onde explora a química entre seus dois protagonistas.

Enquanto Jean Seberg exibe sua beleza andrógina, de cabelos bem curtos e sem maquiagem, mas nunca deixando de lado sua fragilidade, Jean-Paul Belmondo exala charme e um cinismo emprestados de Humphrey Bogart - ídolo de seu personagem e uma das inúmeras referências que desfilam pelo filme. Em uma bela sequência, por exemplo, Patricia cita William Faulkner, dizendo "entre a dor e o nada, prefiro a dor", o que acaba sendo uma pista do destino de seus personagens - e a ironia de tudo é o trágico fim da atriz, que suicidou-se em 1979, quando viu sua carreira entrar em declínio.

"Acossado" não é para ser visto com olhos de hoje. É preciso levar-se em consideração sua coragem em quebrar paradigmas visuais e narrativos para melhor compreender sua importância. E tanto ele é muito mais forma que conteúdo que uma refilmagem desnecessária batizada de "A força do amor", estrelada por Richard Gere nos anos 80 foi um fiasco total e absoluto.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...