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sexta-feira

TODO PODEROSO

 


TODO PODEROSO (Bruce Almighty, 2003, Universal Pictures, 103min) Direção: Tom Shadyac. Roteiro: Steve Koren, Mark O'Keefe, Steve Oedekerk, estória de Steve Koren, Mark O'Keefe. Fotografia: Dean Semler. Montagem: Scott Hill. Música: John Debney. Figurino: Judy Ruskin Howell. Direção de arte/cenários: Linda DeScenna/Rick McElvin. Produção executiva: Gary Barber, Roger Birnbaum, Steve Oedekerk. Produção: Michael Bostik, James D. Brubaker, Jim Carrey, Steve Koren, Michael O'Keefe, Tom Shadyac. Elenco: Jim Carrey, Morgan Freeman, Jennifer Aniston, Philip Baker Hall, Steve Carell, Sally Kirkland. Estreia: 14/5/2003

Depois de provar-se como um ator capaz de alçar maiores voos dramáticos - em filmes como "O show de Truman: o show da vida" (1998), "O mundo de Andy" (1999) e "Cine Majestic" (2001) - o canadense Jim Carrey achou que já era hora de voltar à sua zona de conforto e abraçar o gênero que lhe deu fama, dinheiro e o amor de milhares de fãs. Ao reunir-se com o cineasta Tom Shadyac - que lhe deu seu primeiro grande sucesso de bilheteria, "Ace Ventura: um detetive diferente" (1994) e lhe confirmou o status de astro com "O mentiroso" (1997) - e assumir novamente seu talento em fazer rir com caras e bocas, Carrey tornou "Todo poderoso" a comédia de maior sucesso de sua carreira e, mais impressionante ainda, da história (batendo o recorde de "Esqueceram de mim", lançado em 1990). Contando com a luxuosa ajuda de Morgan Freeman e Jennifer Aniston - no auge do sucesso de "Friends" -, Carrey nem precisa se esforçar muito para arrancar gargalhadas das plateias, mesmo que nem sempre o roteiro atinja todas as suas possibilidades. Baseado livremente no romance "Almighty me", de Robert Bausch - que não é citado em nenhum momento como fonte oficial -, o filme de Shadyac brinca com a ideia universal de um ser humano adquirir poderes divinos, e aposta todas as suas fichas em seu astro. E ganha.

Criado como veículo para Kevin Hart, que abandonou o projeto por considerar o tema sacrílego, "Todo poderoso" apresenta Carrey como Bruce Nolan, um repórter televisivo infeliz com o rumo de sua carreira. Constantemente subestimado por seus superiores - que lhe escalam sempre para cobrir amenidades irrelevantes -, Nolan atinge o ápice de seu desgosto com a vida quando vê seu maior rival profissional, Evan Baxter (Steve Carrell), ficar com seu almejado posto de âncora do telejornal local. Frustrado e irado com a situação, ele acaba chamando a atenção de Deus, que ouve seus lamentos e lhe aparece (na figura de Morgan Freeman) para informar que, durante um período em que estará de férias, é o próprio Nolan quem irá ficar em seu lugar, tomando todas as decisões inerentes à função. Dotado de super poderes e com o dom de realizar milagres, conceder graças e - em pequenos atos de mesquinhez - prejudicar seu arquirrival no caminho do sucesso. Enquanto se diverte com a situação, porém, o aspirante a celebridade percebe que o Homem-aranha já sabe ("grandes poderes trazem grandes responsabilidades") e passa a negligenciar seu romance com a apaixonada Grace (Jennifer Aniston).

 


Se o roteiro escrito por Steve Koren, Mark O'Keefe e Steve Oedekerk não consegue escapar das armadilhas de uma trama quase moralista (com uma mensagem que não exatamente combina com o tom iconoclasta do humor praticado por seu ator central), Jim Carrey deita e rola em um papel que remete aos melhores momentos da comédia física que lhe consagrou. Quando o roteiro insiste em falar sério ou até mesmo apelar para o romantismo, o filme de Shadyac mostra que ambiciona mais do que simplesmente fazer rir descompromissadamente - como em seus outros trabalhos com o astro -, mas acaba por criar, involuntariamente, uma quebra de ritmo que compromete o resultado final. Os fãs de Carrey, logicamente, tem muito a aproveitar - o ator está em plena forma - e encontrarão diversos momentos hilariantes. De brinde, ainda há a participação de Steve Carell (ainda creditado como Steven) em uma sequência das mais engraçadas - não por acaso o próprio Carell assumiu a protagonização da continuação, lançada, sem o mesmo êxito, em 2007.

Banido no Egito devido a seu conteúdo considerado ofensivo, "Todo poderoso" é mais um sucesso incontestável na bem-sucedida carreira de Jim Carrey - que levou uma bolada de 25 milhões de dólares de cachê. Leve, despretensioso (ainda que levemente mais profundo do que boa parte de suas comédias) e solar, contrasta radicalmente de seu currículo até então - um currículo que seria enriquecido ainda mais no ano seguinte com o belo "Brilho eterno de uma mente sem lembranças", que ofereceria às plateias um novo lado do ator: o romântico. Antes de sua estreia, porém, o público pode divertir-se às pencas com uma trama que apostava em seu humor debochado e frequentemente exagerado - características que sempre fizeram dele uma aposta certeira quando se tratava de arrancar gargalhadas quase histéricas do espectador.

quinta-feira

PAIXÃO DE OCASIÃO


PAIXÃO DE OCASIÃO (Picture perfect, 1997, Warner Bros, 121min) Direção: Glenn Gordon Caron. Roteiro: Arleen Sorkin, Paul Slansky, Glenn Cordon Caron, estória de Arleen Sorkin, Paul Slansky, May Quigley. Fotografia: Paul Sarossy. Montagem: Robert Reitano. Música: Carter Burwell. Figurino: Jane Robinson. Direção de arte/cenários: Larry Fulton/Debra Schutt. Produção executiva: William Teitler. Produção: Erwin Stoff. Elenco: Jennifer Aniston, Kevin Bacon, Jay Mohr, Olympia Dukakis, Illeana Douglas, Kevin Dunn. Estreia: 01/8/97

Comédias românticas, via de regra, seguem algumas fórmulas - já consagradas e sem as quais os fãs do gênero se sentiriam órfãos. Uma dessas fórmulas (talvez a mais utilizada, mas sempre eficiente) é seguida quase à risca em "Paixão de ocasião", um dos primeiros sucessos no cinema de Jennifer Aniston - então já famosa por "Friends" mas ainda antes de seu célebre casamento com Brad Pitt. Dirigido por Glenn Gordon Caron, produtor executivo de televisão, mas com poucos trabalhos como cineasta, o filme, simpático e agradável, serviu para comprovar o carisma de Aniston, que se tornaria, com o passar dos anos, a mais bem sucedida integrante do elenco da série (ao menos na tela grande). Mesmo sem apresentar maiores novidades em seu enredo - e talvez justamente por isso -, a história de um triângulo amoroso surgido através de um mal entendido conquistou o público (em especial o feminino) com sua mistura de humor, romance, belas paisagens e uma trilha sonora moderna - em suma, a receita completa para uma bela sessão da tarde despretensiosa.

Kate (Jennifer Aniston) é uma jovem de 28 anos que trabalha em uma agência de publicidade de Nova York, ao lado do homem por quem é apaixonada, o galante Sam (Kevin Bacon). Ainda solteira apesar dos apelos de sua dramática mãe, Rita (Olympia Dukakis), que não vê a hora de ser avó, Kate está praticamente desistindo da vida amorosa quando percebe que nem mesmo sua vida profissional está andando pra frente devido a seu estado civil. Deixada de lado em uma campanha milionária somente por ser solteira - de acordo com seus chefes ela não tem a estabilidade necessária para que confiem a ela uma responsabilidade maior -, Kate acaba aceitando fazer parte de uma mentira criada por sua amiga e colega de trabalho Darcy (Illeana Douglas): de uma hora para outra, o cinegrafista Nick (Jay Mohr) - que vive de filmar eventos particulares em Massachussets - se torna seu noivo, graças a uma fotografia casual tirada em um casamento. Para manter a mentira, Kate convida Nick para visitá-la e acompanhá-la em um jantar de negócios - ele se apaixona de verdade por ela, que não percebe a situação por ainda estar obcecada por Sam, que repentinamente também passa a sentir-se atraído pela colega capaz de trair o noivo para ficar com ele.

 

As situações criadas pelo roteiro de "Paixão de ocasião" são deliciosas, tanto no que diz respeito aos problemas criados na vida de Kate por sua mentira quanto por seu encontro com Nick, que se demonstra uma pessoa adorável e muito mais apaixonante do que ela poderia prever. Ao contrário de seus colegas nova-iorquinos, esnobes e consumidos pelas carreiras, ela vê, no rapaz, alguém sensível e capaz de oferecer mais do que conversas sobre mercado financeiro e estabilidade profissional: delicado e atencioso, Nick é a antítese de Sam, egoísta, autocentrado e que só percebe Kate quando tem certeza de que ela, comprometida, não lhe cobrará mais do que noites de sexo escondido. Enquanto um mal entendido leva a outro, no entanto, a trama perde a oportunidade de discutir temas relevantes, como a posição da mulher no mercado de trabalho e o preconceito contra mulheres solteiras e independentes. Não chega a ser um demérito - afinal não parece ser a intenção do roteiro - mas soa a uma oportunidade perdida ignorar uma premissa tão cheia de possibilidades, principalmente porque, conforme é mostrado logo nas primeiras cenas, Kate é tão talentosa quanto qualquer um de sua agência, sendo casada ou solteira. Mas essa discussão praticamente inexiste no filme - e, levando-se em conta de que se trata de uma comédia romântica com o objetivo simples de entreter e deixar a plateia com um sorriso nos lábios, é algo perdoável e compreensível.

"Paixão de ocasião" é, para os ávidos consumidores do gênero, uma delícia. Atores fotogênicos e talentosos, um roteiro que não exige demais dos neurônios, um roteiro que trabalha os clichês com segurança e carinho e uma direção que não tenta sobrepujar os elementos de que dispõe. Correto e sem grandes deslizes, Glenn Gordon Caron - cujo maior crédito em cinema é "Love affair: segredos do coração" (1994), remake de "Tarde demais para esquecer" (1957) - conduz seu filme com elegância e, mesmo que pudesse inserir um pouco mais de leveza a seu ritmo, faz dele um programa sem contra-indicações. Em seu primeiro papel principal em um gênero que fez a glória de Meg Ryan, Jennifer Aniston mostra personalidade própria e carisma o bastante para alçar voos mais ambiciosos - como seu elogiado desempenho em "Cake: uma razão para viver", lançado em 2015 e que comprovou seu talento dramático.

domingo

O MAIOR AMOR DO MUNDO

O MAIOR AMOR DO MUNDO (Mother's Day, 2016, Open Road Films, 118min) Direção: Garry Marshall. Roteiro: Anya Kochoff Romano, Matt Walker, Tom Hines, estória de Lily Hollander, Matt Walker, Tom Hines, Garry Marshall. Fotografia: Charles Minsky. Montagem: Bruce Green, Robert Malina. Música: John Debney. Figurino: Marilyn Vance, Beverly Woods. Direção de arte/cenários: Missy Stewart/Bob Kensinger. Produção executiva: William Bindley, Deborah E. Chausse, Leon Corcos, Mark Fasano, Kevin Frakes, Howard Gilden, Fred Grimm, Bill Heavener, Matthew Hooper, Tedd Johnson, Scott Lipsky, Danny Mandel, Rodger May, Ankur Rugta, Jared D. Underwood. Produção: Brandt Andersen, Howard Burd, Daniel Diamond, Mark DiSalle, Mike Karz, Wayne Rice. Elenco: Jennifer Aniston, Kate Hudson, Julia Roberts, Timothy Olyphant, Jason Sudeikis, Margo Martindale, Shay Mitchell, Hector Elizondo, Aasiv Mandvi. Estreia: 13/4/16

Parecia uma fórmula imbatível de sucesso: escolher uma data comemorativa como tema, escalar um elenco de astros conhecidos do grande público, lançar no feriadoc correspondente e correr pro abraço. Foi assim com "Idas e vindas do amor" (sobre o Dia dos Namorados) e com "Noite de ano-novo" (autoexplicativo). Porém, mesmo as fórmulas aparentemente infalíveis podem desgastar-se: se os dois primeiros filmes fizeram sucesso nas bilheterias mundiais (216 milhões e 142 milhões respectivamente), o terceiro capítulo da série do diretor Garry Marshall decepcionou em todos os quesitos, tanto em termos de crítica (o que já havia acontecido com os anteriores, aliás) quanto financeiros, rendendo menos de 50 milhões de dólares no total. Último filme de Marshall - que de certa forma revelou Julia Roberts ao mundo, em "Uma linda mulher" (90) e morreu poucos meses depois da estreia, "O maior amor do mundo" padece de um roteiro simplista e personagens sem muito carisma ou profundidade, que serve unicamente como passatempo rápido e facilmente esquecível.

Menos ambicioso do que os filmes anteriores do estilo, e com um elenco de estrelas mais enxuto, "O maior amor do mundo" se fixa em apenas cinco núcleos, que se cruzam ocasionalmente e tem, como pano de fundo, o amor materno. Julia Roberts, amiga do diretor, está pouco confortável como Miranda Collins, uma escritora famosa que é conhecida por apresentar um programa de televisão onde vende joias ao telespectador. Quem deseja ser contratada por ela como designer é Sandy (Jennifer Aniston), que está passando pela complicada situação de lidar com o novo casamento do ex-marido, Henry (Timothy Olyphant), e ver seus filhos conquistados pela madrasta. Nesse meio-tempo, ela conhece o viúvo Bradley (Jason Sudeikis), que perdeu a esposa há pouco tempo e tenta compreender o universo de suas duas filhas, uma delas em plena adolescência. Já as duas irmãs Jesse (Kate Hudson) e Gabi (Sarah Chalke) tentam esconder de seus pais (preconceituosos) seus relacionamentos amorosos: a primeira com um médico indiano e a segunda com uma mulher, com quem tem um filho. E finalizando a ciranda de relações está o casal formado pelo comediante inglês Zack (Jack Whitehall) e sua amada Kristin (Britt Robertson), que tem um bebê juntos mas não conseguem se casar por causa de uma situação mal resolvida no passado da jovem.


Mesmo com um número relativamente baixo de tramas paralelas, o roteiro de "O maior amor do mundo" consegue ser superficial em todas. Julia Roberts talvez seja o maior talento desperdiçado dentre todo o elenco, com uma personagem tão rasa e inverossímil que chega a parecer proposital - além de não oferecer à atriz a chance de mostrar sua beleza. Jennifer Aniston ainda consegue extrair um pouco mais de sua Sandy, que se envolve em duas das histórias contadas, mas mesmo assim pouco faz para deixar de lado os trejeitos de sua personagem mais famosa, a Rachel Green da série "Friends" - sorte que seu carisma é inabalável. Margo Martindale quase rouba a cena como a mãe preconceituosa de Kate Hudson, mas lhe é dado tão pouco tempo em cena que seu enredo - talvez o mais interessante de todos - acaba perdido em meio a algumas piadas sem graça e tentativas nem sempre felizes de emocionar o público. A sorte é que Marshall - um veterano com larga experiência - sabe como transformar seus filmes em produtos agradáveis mesmo quando pouco profundos e não deixa que a sessão se torne um pesadelo.

A receita de "O maior amor do mundo" é fácil: um visual bonito, com atores atraentes, uma trilha sonora pop com alguns sucessos do momento, personagens com problemas facilmente identificáveis (mas não pesados a ponto de afastar o público) e alguns momentos de humor e drama, dosados para conquistar tanto os fãs de comédia quanto aqueles que gostam de chorar diante da tela. Todos os ingredientes estão presentes no filme, mas o resultado é apenas razoável, sem nada que o diferencie de dezenas de outros produtos lançados semanalmente nos cinemas. Talvez agrade mais a quem for mãe - ou a quem se conecte especificamente com alguma das tramas - mas no final é simplesmente uma sessão da tarde pouco memorável. Uma pena que Marshall tenha se despedido do cinema com um filme tão banal e vazio!

terça-feira

MARLEY E EU

MARLEY E EU (Marley & Me, 2008, Fox 2000 Pictures, 115min) Direção: David Frankel. Roteiro: Scott Frank, Don Roos, livro de John Grogan. Fotografia: Florian Ballhaus. Montagem: Mark Livolsi. Música: Theodore Shapiro. Figurino: Cindy Evans. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/Hilton Rosemarin. Produção executiva: Joe Caracciolo Jr., Arnon Milchan, Ani Williams. Produção: Gil Netter, Karen Rosenfelt. Elenco: Owen Wilson, Jennifer Aniston, Eric Dane, Kathleen Turner, Alan Arkin, Nathan Gamble, Haley Bennett, Ann Dowd. Estreia: 25/12/08
 
Quando compraram os direitos de adaptação para o cinema do livro "Marley e eu", do jornalista John Grogan, os executivos da Fox 2000 Pictures sabiam que tinham em mão um potencial sucesso: com mais de 1 milhão de exemplares vendidos apenas nos EUA, a história da relação entre uma família e seu cão labrador por 13 anos já havia encharcado lenços de papel também pelo mundo, com uma prosa leve e emocional que atingia em cheio o coração de todos aqueles apaixonados por animais. Quando o filme finalmente estreou, no Natal de 2008, ninguém se surpreendeu com a bilheteria animadora de mais de 140 milhões de dólares no mercado doméstico (e outros 100 milhões no mercado externo). Não era pra menos: com uma história que fala direto aos sentimentos, uma mistura certeira de humor e drama, um diretor acostumado a agradar ao público médio (David Frankel, de "O diabo veste Prada") e um elenco liderado por nomes conhecidos como Owen Wilson e Jennifer Aniston, o êxito era, mais do que esperado, praticamente certo. Tudo bem que o filme não é uma obra-prima (é longo demais, por vezes soa repetitivo e chega no limite do piegas), mas merece ser aplaudido por suas qualidades: é simpático, agradável e - milagre dos milagres! - consegue conquistar todas as fatias de público sem precisar apelar para efeitos especiais milionários ou super-heróis invencíveis. Ao falar de gente como a gente - com sentimentos reais e vívidos - é um perfeito "filme-família", que faz sorrir e chorar na mesma medida (ou talvez chorar mais do que sorrir, em especial em seus últimos minutos).

Apesar de concentrar boa parte de sua narrativa na relação entre Marley, o labrador batizado em homenagem ao cantor jamaicano Bob Marley e adotado ainda pequeno, e seus donos, o roteiro de "Marley e eu" também detalha a história de amor entre seus pais humanos - o casal de jornalistas John (Owen Wilson) e Jenny (Jennifer Aniston) - a partir de seu casamento. John sonha em seguir uma carreira de repórter sério, assim como seu melhor amigo, Sebastian (Eric Dane), mas o máximo que consegue é uma coluna no jornal onde trabalha, em que acaba se tornando popular justamente pelo tom leve e descompromissado de suas crônicas - grande parte delas citando as aventuras e desventuras de seu cão de estimação, um companheiro leal mas pouco afeito a regras de convivência tais como não comer tudo que encontra pela frente (de livros a aparelhos eletrônicos) ou pular em cima de estranhos. Jenny não tem tantas ambições profissionais quanto domésticas, e resolve cuidar apenas da família quando começa a ter os filhos que sempre sonhou - e depois de um traumático aborto espontâneo. Conforme a família vai crescendo, Marley vai se tornando parte cada vez mais indissociável do clã - para o bem e para o mal, já que seus hábitos pouco comuns tanto encantam quanto enlouquecem a todos.


Por dois terços de narrativa, "Marley e eu" mantém seu tom ameno e divertido de crônica familiar, com algum espaço para as crises no casamento entre John e Jenny - todas resolvidas em poucos minutos, de forma a não aprofundar um tema apenas secundário da trama. Quando a família Grogan sai da ensolarada Miami para a distante Filadélfia, porém, o tom começa lentamente a ficar mais sombrio. É aos poucos que Marley começa a dar sinais de cansaço, velhice e dor, o que aponta para um final previsível mas nem por isso menos melancólico. Essa transição entre gêneros é conduzida com sutileza por Frankel, que se aproveita de um roteiro sensível e bem-humorado (cortesia da dupla de veteranos Scott Frank e Don Roos) e do ótimo timing de seu casal de atores principais, que se desvencilha com facilidade das armadilhas dramáticas mesmo quando não resta muito a fazer exceto entregar-se à catarse final - orquestrada milimetricamente para levar qualquer um às lágrimas, mas felizmente executada com elegância e respeito. Qualquer um da plateia que tenha - ou tenha tido - um animal de estimação é tocado pela emoção pungente e verdadeira que emana da história, talvez justamente por ela ser real e honesta.

Essa honestidade que percorre todo o filme é que faz de "Marley e eu" uma produção tão bem-sucedida. Não há reviravoltas gigantescas ou sequências de humor inspiradíssimas, de fazer o público gargalhar: há somente a descrição da vida de uma família apaixonada uns pelos outros e por seu cachorro de estimação, e de como essa relação, construída através de anos de paciência e amor incondicional, é capaz de substituir qualquer ambição profissional ou financeira sem prejuízos  à busca pela felicidade. Uma narrativa simples - quase simplória - mas que funciona às mil maravilhas e faz lembrar de como o menos às vezes é mais quando se quer tocar o coração da plateia. É um filme que cumpre exatamente o que promete - e é irresistível justamente por isso!

sábado

CAKE: UMA RAZÃO PARA VIVER

CAKE: UMA RAZÃO PARA VIVER (Cake, 2014, Lou Films/Echo Films/We're Not Brothers Productions, 102min) Direção: Daniel Barnz. Roteiro: Patrick Tobin. Fotografia: Rachel Morrison. Montagem: Kristina Boden, Michelle Harrison. Música: Christophe Beck. Figurino: Karyn Wagner. Direção de arte/cenários: Joseph T. Garrity/Lisa Son. Produção executiva: Jennifer Aniston, Yu Wei-Chung, Patty Long, Shyam Madiraju. Produção: Ben Barnz, Mark Canton, Kristin Hahn, Courtney Solomon. Elenco: Jennifer Aniston, Chris Messina, Sam Worthington, Anna Kendrick, Felicity Huffman, William H. Macy, Adriana Barraza, Mamie Gummer, Lucy Punch. Estreia: 08/9/14 (Festival de Toronto)

Conhecida do grande público por sua atuação como a mimada Rachel Green da série "Friends" - que durou dez temporadas, ganhou dezenas de prêmios e se mantém como uma das mais queridas da história - a atriz Jennifer Aniston foi a única do elenco a conseguir romper com relativo sucesso o limite entre sua carreira na televisão e no cinema. Presença cativa em comédias românticas de qualidades variadas, ela surpreendeu meio mundo em 2014 quando surgiu desglamorizada e repleta de nuances dramáticas em "Cake, uma razão para viver", que estreou no Festival de Toronto e lhe rendeu tanto elogios unânimes quanto indicações ao Golden Globe e ao Screen Actors Guild Awards - infelizmente, a esperada e merecida lembrança por parte da Academia não chegou, mas é inegável que seu trabalho, sério e denso, empurrou-a em direção a um patamar de respeito artístico junto à comunidade cinematográfica que poucos atores oriundos da TV conseguiram atingir.

Dirigido pelo mesmo Daniel Barnz que cometeu o indescritível "A fera" (2011), "Cake" é um drama intimista e delicado, com pegada de cinema europeu em seu enfoque naturalista e pouco dado a soluções fáceis - que o público não espere por intermináveis cenas de choro histérico ou uma história de superação pessoal como aquelas que Hollywood adora contar de forma enfeitada e envernizada por momentos de humor constrangedor. O roteiro de Patrick Tobin, a direção de Barnz e principalmente a interpretação de Aniston (e do elenco coadjuvante formado por rostos relativamente conhecidos da plateia) afastam o filme do convencional, e se isso pode incomodar a quem procura mais do mesmo, funciona à perfeição para aqueles que gostam de envolver-se com uma história que apresenta gente normal, com problemas reais e dificuldades palpáveis de superar seus obstáculos. E quem acha que Aniston é bonita demais para convencer como uma mulher sofrida vai se surpreender com a maturidade e a coragem com que a ex-mulher de Brad Pitt se entrega a seu melhor papel no cinema até agora.


Aniston vive, de corpo e alma, Claire Bennett, uma advogada que frequenta um grupo de apoio para mulheres que convivem com algum tipo de dor física crônica. Coberta de cicatrizes depois de um acidente de carro que matou seu filho - e consequentemente a afastou do marido, Jason (Chris Messina) - ela tenta superar suas angústias de todas as formas possíveis, desde hidroginástica até os encontros do grupo comandado por Annette (Felicity Huffman), mas são apenas os comprimidos que consegue sem receita que eventualmente dão algum resultado. Contando sempre com a ajuda da fiel empregada doméstica, a mexicana Silvana (Adriana Barraza, indicada ao Oscar por "Babel"), Claire torna-se obcecada com o suicídio de Nina Collins (Anna Kendrick, indicada ao Oscar por "Amor sem escalas"), uma colega do grupo de apoio que jogou-se de uma ponte e deixou para trás o marido e o filho pequeno. Sem razão aparente, ela procura o viúvo, Roy (Sam Worthington), e inicia com ele uma amizade inusitada que poderá ajudar a ambos a superar seus tormentos pessoais.

Oferecendo aos poucos as informações sobre seus personagens e deixando que o público se envolva devagar com seus problemas, "Cake" ainda injeta um tantinho de surrealismo ao apresentar diálogos imaginários entre Claire e Nina - que a acusa de estar dando em cima de seu marido - e induz o espectador a um estado de cumplicidade com a protagonista. Mesmo que Claire não seja exatamente simpática (e não se espera isso de alguém que perdeu tanta coisa em tão pouco tempo, afinal), é difícil não sentir empatia por sua dor e seu desespero silencioso, muitas vezes revelado em uma agressividade se não compreensível, ao menos perdoável. Sua trajetória em relação a uma paz de espírito desejada e talvez afastada por uma série de autossabotagens é recheada de grandes momentos dramáticos, felizmente espalhados pelo roteiro com cuidado e delicadeza. "Cake" é um belo e simples filme sobre a vida e suas tristezas - e de como elas podem, paradoxalmente, unir as pessoas.

segunda-feira

POR UM SENTIDO NA VIDA

POR UM SENTIDO NA VIDA (The good girl, 2002, Fox Searchlight Pictures, 93min) Direção: Miguel Arteta. Roteiro: Mike White. Fotografia: Enrique Chediak. Montagem: Jeff Betancourt. Música: Tony Maxwell, James O'Brien, Mark Orton, Joey Waronker. Figurino: Nancy Steiner. Direção de arte/cenários: Daniel Bradford/Susan Emshwiller. Produção executiva: Carol Baum, Kirk D'Amico, Philip Von Alvensleben. Produção: Matthew Greenfield. Elenco: Jennifer Aniston, Jake Gylenhaal, John C. Reilly, Tim Blake Nelson, John Carroll Lynch, Zooey Deschanel, Mike White. Estreia: 12/01/02 (Festival de Sundance)

Segundo consta, antes que começassem as filmagens de "Por um sentido na vida", a atriz Jennifer Aniston implorou ao diretor Miguel Arteta que a impedisse de repetir no filme - um drama baixo astral sobre uma mulher comum tentando dar cor à sua vida medíocre - os trejeitos cômicos que fizeram dela uma das atrizes mais populares do mundo, graças à série "Friends". Tentando mais uma vez provar aos críticos e ao público o seu talento dramático, Aniston não queria que Justine Last, sua personagem na obra de Arteta, lembrasse em absolutamente nada a avoada e volúvel Rachel Green. O pedido deu certo: elogiada unanimemente por seu desempenho, Aniston entregou um dos mais consistentes desempenhos de sua carreira em um papel denso, complexo e não exatamente simpático, que mostrou que, por trás de sua beleza, simpatia e do então casamento com Brad Pitt, existia uma atriz de muitas nuances à espera de serem exploradas.

Sem o glamour e a produção da série de TV, Aniston interpreta Justine, uma entediada e frustrada funcionária de um loja de descontos de uma cidade do interior dos EUA. Casada com o pouco ambicioso Phil (John C. Reilly), que vive de pintar casas e fumar maconha ao lado do sócio Bubba (Tim Blake Nelson), ela tem como maior expectativa de seus dias o momento de finalmente ficar grávida para injetar emoção em seu dia-a-dia. Esperando pacientemente uma virada em sua vida, ela conhece o novo colega de trabalho, o jovem Holden Worther (Jake Gyllenhaal), que deseja tornar-se escritor e mora com os pais depois de problemas com a justiça. Surge entre eles uma imediata identificação e não demora para que os dois iniciem uma tórrida relação proibida, cujas consequências se tornam cada vez mais perigosas e dramáticas conforme passam a envolver outras pessoas. Apaixonado por Justine, Holden - que emprestou seu pseudônimo do protagonista do romance "O apanhador no campo de centeio" - resolve fugir com a mulher amada, mas as coisas saem do controle quando uma testemunha do romance ilícito entre eles surge com uma chantagem inesperada que os leva a um dilema ainda maior.


Com um ritmo que desafia a velocidade quase histérica do cinema comercial americano, "Por um sentido na vida" mergulha o espectador dentro da morosidade e da mediocridade da vida de Justine para que ele consiga, dentro das possibilidades, compreender as atitudes da protagonista, frequentemente discutíveis ou pouco éticas. Até mesmo o título original - "a boa menina" - soa irônico diante do sinuoso caminho escolhido por ela para atingir seus objetivos nem sempre claros, mais por culpa de sua imaturidade e de sua insegurança do que por problemas de roteiro, escrito com uma concisão e uma delicadeza que permitem até mesmo um final agridoce e melancólico ao invés do previsível clímax melodramático ou exagerado. É lógico que para isso colabora também mais uma atuação exemplar de John C. Reilly, sempre eficientíssimo em dar vida a personagens presos a relacionamentos e vidas simples e pacatas. Seu Phil é uma vítima inocente do romance extraconjugal da esposa, uma espécie de Madame Bovary dos subúrbios americanos, que se envolve com uma encarnação moderna do jovem Werther criado por Goethe e se dirige, sem freios, a um destino talvez pior do que poderia esperar de sua existência modorrenta. Tal história é contada com sutileza por Miguel Arteta, que deixa nas mãos competentes de seu elenco explorar cada minúcia da personalidade de seus personagens, ricos em camadas a ponto de surpreender o próprio público com as reviravoltas da trama.

Mas é inegável que boa parte da força de "Por um sentido na vida" se deve ao trabalho irretocável de Jennifer Aniston, que deixa a vaidade de lado e apresenta à plateia um lado poucas vezes explorado anteriormente em sua carreira. Com um olhar vazio e um postura cansada, ela transmite em poucos diálogos um turbilhão de sentimentos e toda uma vida de insucessos que acabam fatalmente a jogá-la nos braços do igualmente desiludido Holden, que apesar da pouca idade, já acumula experiência o bastante para enxergar na colega de trabalho sua última chance de felicidade e realização. O encontro de tais almas - inquietas, sedentas por emoções, carentes - é o combustível para uma história triste, melancólica e desesperançosa, mas contada de forma enxuta e extremamente eficaz. Um pequeno grande filme.

sexta-feira

QUERO MATAR MEU CHEFE

QUERO MATAR MEU CHEFE (Horrible bosses, 2011, New Line Cinema, 98min) Direção: Seth Gordon. Roteiro: Michael Markowitz, John Francis Daley, Jonathan Goldstein, estória de Michael Markowitz. Fotografia: David Hennings. Montagem: Peter Teschner. Música: Christopher Lennertz. Figurino: Carol Ramsey. Direção de arte/cenários: Sheperd Frankel/Jan Pascale. Produção executiva: Richard Brener, Samuel J. Brown, Michael Disco, Toby Emmerich, Diana Pokorny. Produção: Brett Ratner, Jay Stern. Elenco: Jason Bateman, Jason Sudeikis, Charlie Day, Kevin Spacey, Jennifer Aniston, Colin Farrell, Jamie Foxx, Donald Sutherland, Julie Bowen. Estreia: 08/7/11


A primeira lembrança que vem à mente é a comédia semi-clássica “Como eliminar seu chefe”, a pérola kitsch estrelada por Jane Fonda, Lily Tomlin e Dolly Parton na já longínqua década de 80. Porém, apesar do título nacional e da temática semelhante, não há como comparar a quase inocência do filme de Fonda com a coragem desbragada de “Quero matar meu chefe”, lançado pelo cineasta Seth Gordon no rastro do imenso sucesso das chamadas “comédias adultas” que encheram os cofres dos estúdios a partir de “Se beber, não case” e “Missão madrinha de casamento”. Grandes êxitos comerciais e até, condescendentemente, de crítica – o primeiro levou um Golden Globe e o segundo chegou a concorrer a dois Oscar – os filmes que deram suporte a atores como Bradley Cooper e Melissa McCarthy foram os sinalizadores de um tipo de humor que parecia ter ficado no passado, em detrimento de filmes menos agressivos à suscetibilidade de um público cada vez mais conservador – paradoxalmente, enquanto as comédias encaretavam cada vez mais, as produções com doses cavalares de violência extrema tornavam-se progressivamente mais virulentas. Aproveitando o que parecia ser uma certa permissividade em relação ao que poderia ou não soar engraçado aos olhos e ouvidos de uma plateia média, “Quero matar meu chefe” acertou em cheio, misturando em doses exatas piadas no limiar do mau-gosto, humor físico e uma ironia fina – cortesias de um roteiro equilibrado, um ritmo admirável e, a cereja do bolo, um elenco coadjuvante de primeira linha. Não é de surpreender que tenha deixado os executivos da Warner com um sorriso de orelha a orelha – a ponto de uma continuação muito inferior ter surgido dois anos depois.
Enquanto no filme de 1981, as moçoilas vividas por Fonda, Tomlin e Parton eram secretárias que, cansadas das humilhações diárias impostas por seu patrão imaginavam maneiras de eliminá-lo dentro de um humor ingênuo e apropriado à fama de suas atrizes centrais, em “Quero matar meu chefe” a sutileza dá lugar ao escracho puro e simples, em uma sucessão de tiradas hilariantes que não poupam nada nem ninguém – e dá-lhe citações a filmes famosos (“Pacto sinistro”, de Hitchcock, à frente), personagens de quadrinhos (“Demita o Professor Xavier!”, dispara o cruel Colin Farrell, referindo-se a um funcionário cadeirante) e diálogos sem meias-palavras travadas entre a até então pudica Jennifer Aniston e seu assistente tímido e apavorado com o assédio. Tendo como um dos produtores o também cineasta Brett Ratner – de “X-Men: o confronto final”, entre outros – o filme de Gordon faz rir tanto aqueles que preferem um humor verbal menos óbvio quanto aqueles que buscam na comédia uma forma de desligar o cérebro para rir das próprias desgraças. Em outras palavras, é um filme sem contra-indicações.



Nick (Jason Bateman, com ótimo timing cômico) vive para o trabalho, tendo abdicado de toda e qualquer outra atividade há oito anos, com o claro objetivo de ser promovido e melhorar a qualidade de vida. Seus planos vão por água abaixo, porém, quando seu chefe, Harken (Kevin Spacey), resolve dar o cargo de vice-presidente de vendas a ele mesmo – acumulando assim duas funções e dois salários, não sem antes humilhar o funcionário e chantageá-lo com a ameaça de destruir seus futuros planos profissionais. Kurt (Jason Sudeikis) é um mulherengo contumaz que adora o trabalho em uma indústria química e o patrão (Donald Sutherland), mas quando este morre e deixa como herdeiro seu único filho, o agressivo, viciado em cocaína e egoísta Pellit (Colin Farrell), sua rotina vira de cabeça pra baixo – o novo diretor da empresa não hesita em contratar serviços mais baratos nem que tenha que sacrificar trabalhadores escravos, e deseja cortar as gorduras nos gastos da companhia (“Demita os gordos!”, declara sem pena). E Dale (Charlie Day, irresistível) é um rapaz romântico que acaba de ficar noivo e que sofre com o violento assédio sexual que sofre da patroa, a ninfomaníaca (Jennifer Aniston), que não hesita em deixar bem claro que, caso eles não transem antes do casamento, a cerimônia pode nem mesmo acontecer. Dale, coitado, nem mudar de emprego consegue: fichado na polícia como criminoso sexual por ter urinado em um parque infantil à noite (com o local deserto!!), ele é incapaz de arrumar uma posição melhor do que assistente de dentista.
Sofrendo com suas vidas profissionais, os três amigos resolvem, então – depois de chegarem à conclusão de que buscar um novo posicionamento no mercado é algo pouco encorajador em sua idade – tomar uma atitude drástica: assassinar seus patrões. A idéia, surgida no meio de uma bebedeira, toma ares de um plano real quando eles procuram um “assessor para assassinatos”, o misterioso Motherfucker Jones (Jamie Foxx), que lhes dá as diretrizes básicas do projeto: cada um irá matar o chefe do outro, para afastar suspeitas. E é aí que começa a bagunça: as particularidades de cada uma das possíveis vítimas vão sendo arquivadas mentalmente pelo trio de homicidas novatos e, como se poderia esperar de uma comédia, nada sai conforme o planejado e sequências divertidíssimas acompanham a aventura dos pobres assalariados: desde a invasão da casa de Pellit – quando eles encontram uma decoração absurdamente cafona e uma quantidade bizarra de cocaína – até o encontro acidental entre Dale e Harken na frente de sua mansão, que culmina com um bizarro caso de ressuscitação médica, Seth Gordon entrega ao público uma sucessão de situações bem amarradas e sinceramente engraçadas, capaz de fazer rir até o mais cínico espectador – e nem mesmo o final pouco criativo consegue diminuir a qualidade do filme.
Mas, como não poderia deixar de ser, um roteiro inspirado não seria o bastante se o elenco não correspondesse a ele. Se o trio de protagonistas demonstra uma química admirável – Charlie Day, da série “It’s Always sunny in Philadelphia” rouba todas as cenas em que aparece – o mesmo pode ser dito dos coadjuvantes, um grupo de atores consagrados que demonstra uma bem-vinda e corajosa dose de autogozação. Jennifer Aniston deixa de lado as mocinhas sofridas de suas comédias românticas e constrói uma Diana quase cruel em sua obsessão de traçar o empregado quase pueril – Aniston não tem medo de recitar diálogos cabeludos ou de fazer cenas francamente a um passo do vulgar (como aquela em que tenta seduzir Kurt apenas comendo alimentos de formato fálico). Colin Farrell abandona o porte de galã e ator sério ao encarar com deboche consumado o egocêntrico Pellit, construído visualmente de forma a deixar o ator irlandês a milímetros do grotesco – uma careca disfarçada por fios penteados para o lado, olhos arregalados de paranoia, um barrigão proeminente. E Kevin Spacey faz de seu Harken um canalha impenitente que somente ele é capaz de fazer sem o menor esforço: Spacey, um dos melhores atores americanos de sua geração, faz do personagem uma espécie de primo do executivo de cinema que ele interpretou em “O preço da ambição” (1994) e um ensaio para o venal protagonista de série “House of cards”. Não bastasse esse trio de ouro, Donald Sutherland, Jamie Foxx e Ioan Gruffud – da primeira versão de “Quarteto fantástico”, em participação especial como o primeiro profissional contratado pelos protagonistas e que se revela outro tipo de trabalhador – completam o elenco de uma comédia que tem a mais importante característica de um exemplar do gênero: não tem medo de ser engraçada.
Em uma época em que as comédias se dividem entre a fina ironia dos filmes de Woody Allen e a franca grosseria de coisas como “As bem-armadas”, “Quero matar meu chefe” se situa em um inteligente meio-termo: não ofende a inteligência do espectador nem tampouco exige dele uma série de elocubrações e referências intelectuais. É diversão pura e simples, valorizada por um elenco acima de qualquer crítica e uma direção com senso de ritmo. Uma das melhores comédias de sua temporada.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...