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segunda-feira

FOME DE PODER

FOME DE PODER (The founder, 2016, The Weinstein Company, 115min) Direção: John Lee Hancock. Roteiro: Robert Siegel. Fotografia: John Schwartzman. Montagem: Robert Frazen. Música: Carter Burwell. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Michael Corenblith/Susan Benjamin. Produção executiva: Glen Blasner, Holly Brown, Alison Cohen, David Glasser, David S. Greathouse, William D. Johnson, Christos V. Konstankapoulos, Karen Lunder, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Don Handfield, Jeremy Renner. Elenco: Michael Keaton, Laura Dern, John Carroll Lynch, Nick Offerman, Linda Cardellini, B.J. Novak, Patrick Wilson. Estreia: 24/11/16

Histórias de bastidores - como "A rede social", de David Fincher, sobre Mark Zuckerberg, criador do Facebook - sempre mostram que nem sempre a ética e a honestidade são os pilares para a construção de impérios. "Fome de poder", que narra a trajetória do homem que supostamente fundou a rede de fast food mais conhecida do mundo, o McDonald's, corrobora essa triste constatação. Dirigido pelo mesmo John Lee Hancock que contou histórias reais em "Um sonho possível" (2009), "Walt nos bastidores de 'Mary Poppins' (2014) e "Um homem entre gigantes" (2016), o filme, que tem o ator Jeremy Renner como um dos produtores, teve seus direitos de distribuição comprados pela Weinstein Company por sete milhões de dólares mas, mesmo lançado na temporada de possíveis indicados ao Oscar, passou em brancas nuvens pelos olhos tanto da Academia quanto do público, que não pareceu se interessar muito pelo assunto, apesar da presença de Michael Keaton no papel principal.

Continuando a boa fase inaugurada por sua performance indicada ao Oscar, no premiado "Birdman" (2014), Michael Keaton apresenta mais um trabalho bastante interessante - ainda que seu personagem não seja lá muito simpático - e, de certa forma, comanda o tom e o ritmo do filme de Hancock. Assumindo o papel que Tom Hanks (a primeira escolha dos produtores) recusou, o infame Beetlejuice parece estar se divertindo como nunca na pele do amoral Ray Kroc, um vendedor externo de equipamentos para lanchonetes que, cansado de fracassar em todas as suas tentativas de tornar-se independente financeiramente, descobre uma mina de ouro no restaurante de fast food de dois irmãos ambiciosos mas pouco dispostos a burlar seus ideais éticos. A trama começa em 1954, quando, durante uma viagem a negócios, Kroc conhece o McDonald's, de propriedade de Richard (Nick Offerman) e Maurice McDonald (John Carroll Lynch) e concebido pelos próprios irmãos, com diretrizes rígidas de qualidade - diferente de outras redes, o estabelecimento preza pela agilidade, bom atendimento e pela forma original de sua loja, localizada em San Bernardino, no estado da Califórnia. Intuindo que pode ganhar muito dinheiro explorando a franquia da marca, construindo lojas em outros estados do país, Kroc consegue convencer os McDonalds a lhe darem a autorização necessária para expandir o negócio. E é aí que as coisas saem do controle dos ingênuos empresários e mostram o verdadeiro caráter de seu novo sócio.


Pouco afeitos a dirigirem roteiros alheios, os irmãos Ethan e Joel Coen estiveram bem perto de assinar a direção de "Fome de poder", tamanho o seu entusiasmo pelo script de Robert Siegel, considerado um dos melhores inéditos de 2014. A dupla de diretores só não se manteve à frente do projeto porque já estavam trabalhando em "Ave, Cesar" - o que permitiu a John Lee Hancock ter em mãos um projeto que, segundo o próprio Siegel, era uma mistura entre "A rede social" (2010) e "Sangue negro"(2007) - elogiado drama de Paul Thomas Anderson sobre a ambição desmedida de um homem (vivido por um oscarizado Daniel Day-Lewis). Ao contrário de suas fontes de inspiração, porém, "Fome de poder" fica no meio termo entre a modernidade do primeiro (que deu um Oscar à Aaron Sorkin) e a densidade do segundo, baseado em um livro de Sinclair Lewis: consistente, mas sem maiores ousadias formais ou narrativas, a trama se desenvolve sem sobressaltos, mas deixa transparecer com facilidade sua carência em cativar o público por completo. Não há nada de errado no filme, mas ele tampouco consegue atingir todas as suas possibilidades - culpa talvez da direção burocrática de Hancock ou da personalidade francamente desagradável de seu protagonista.

Talvez a opção de colocar Tom Hanks no papel central fosse mais acertada do que a escolha de Michael Keaton: Hanks, com seu jeito de bom moço e carisma à toda prova tinha grandes chances de driblar as características menos simpáticas de Ray Kroc e torná-lo um personagem mais palatável ao gosto do público médio. Já Michael Keaton demonstra total intimidade com seu lado sombrio e pouco confiável - nem mesmo a esposa, vivida por Laura Dern, é poupada em sua trajetória. Do vendedor simpático e atencioso do começo do filme até o implacável empresário do final - quando finalmente mostra suas reais intenções de apossar-se da marca criada pelos irmãos McDonald - o trajeto de Kroc é ilustrado por Keaton com entusiasmo de principiante: apesar de não abrir mão de alguns de seus tiques mais conhecidos, o Batman de Tim Burton consegue se distanciar de seus personagens mais conhecidos e criar um anti-herói dos mais questionáveis, algo como o jornalista vivido por Kirk Douglas em "A montanha dos sete abutres" ou o polêmico editor da revista Hustler, interpretado por Woody Harrelson em "O povo contra Larry Flynt" (1996). São homens falhos em caráter, mas dotados de força de vontade e inteligência suficientes para encobrir seus defeitos mais óbvios. Mesmo sem ter conseguido empurrar "Fome de poder" aos tapetes vermelhos de sua temporada, Keaton é o grande destaque do filme e mantém o interesse do público até os minutos finais. Uma boa pedida para quem gosta de saber dos podres das grandes empresas.

domingo

TERRAS PERDIDAS

TERRAS PERDIDAS (A thousand acres, 1997, Touchstone Pictures, 104min) Direção: Jocelyn Moorhouse. Roteiro: Laura Jones, romance de Jane Smiley. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Maryann Brandon. Música: Richard Hartley. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Dan Davis/Andrea Fenton. Produção executiva: Armyan Bernstein, Thomas A. Bliss. Produção: Marc Abraham, Lynn Arost, Steve Golin, Kate Guinzburg, Sigurjon Sighvatsson. Elenco: Jessica Lange, Michelle Pfeiffer, Jennifer Jason Leigh, Jason Robards, Colin Firth, Keith Carradine, Kevin Anderson, Pat Hingle, John Carroll Lynch, Michelle Williams, Elizabeth Moss, Beth Grant, Bob Gunton. Estreia: 19/9/97

Um rei idoso e poderoso, sentido a morte se aproximar, resolve dividir seu reino entre as três filhas, deflagrando assim um confronto épico de decepções e traições. Escrita por William Shakespeare por volta de 1605, a peça "Rei Lear" serviu de inspiração, desde então, para inúmeros autores dispostos a examinar as raízes da ambição e dos conflitos familiares advindos dela. Um dos livros inspirados na tragédia shakespeareana foi "A thousand acres", escrito por Jane Smiley e vencedor do prestigiado Pulitzer de literatura. Com os direitos vendidos para Hollywood, era apenas questão de tempo para que sua trama chegasse às telas e conquistasse o público - afinal, não tinha como dar errado. Mas deu. Com uma produção problemática que se estendeu por cinco anos, constantes reedições, a rejeição do produto final por sua diretora e um fracasso de crítica e bilheteria, "Terras perdidas" tornou-se mais um na vasta lista de filmes que poderiam ter sido um grande sucesso mas que não passaram de promessa. Uma pena, já que seus ingredientes são excepcionais.

A diretora de "Terras perdidas" é a australiana Jocelyn Moorhouse, cujo filme anterior, "Colcha de retalhos" (95), também tinha uma apurada visão feminina da vida. Suas estrelas, Michelle Pfeiffer e Jessica Lange, são ótimas atrizes, populares e velhas conhecidas da Academia. O elenco coadjuvante conta com Jason Robards, Jennifer Jason Leigh e um então iniciante Colin Firth - sem contar as adolescentes Michelle Williams e Elizabeth Moss, que mal aparecem em cena, como as filhas de Pfeiffer. A trama - como já dito, inspirada em Shakespeare - inclui na receita traumas do passado, doenças incuráveis e um leve viés feminista, mas o roteiro, escrito por Laura Jones, mal consegue alinhavar todos os conflitos propostos pela história original: não fosse a força das atuações de Lange e Pfeiffer - tirando leite de pedra -, o filme de Moorhouse seria um desastre completo (e isso que a própria cineasta pediu para seu nome ser retirado dos créditos depois de assistir à sua primeira versão).


Transferindo a ação de Lear para o interior do Iowa, com suas belas fazendas e cenários de tirar o fôlego, "Terras perdidas" começa justamente quando o fazendeiro Larry Cook (Jason Robards em papel recusado por Paul Newman), viúvo há muitos anos, resolve, como o protagonista shakespereano, dividir as terras de sua fazenda entre suas três filhas. A mais velha, Ginny (Jessica Lange), é quem cuida da rotina do pai, e divide seu tempo entre ele e o marido, Ty (Keith Carradine). A filha do meio, Rose (Michelle Pfeiffer), se recupera de um câncer no seio e leva uma vida doméstica aparentemente tranquila com Peter (Kevin Anderson) e as duas filhas adolescentes. A caçula, Caroline (Jennifer Jason Leigh) é a única que não compartilha do dia-a-dia agrícola da família: estudando para ser advogada e morando longe, é ela quem questiona a decisão do pai - e é ela também que desencadeia o processo de conflito familiar, ao recusar a proposta paterna. A briga entre os dois passa a ser o pano de fundo para uma sucessão de dramas que afloram no seio dos Cook, o que inclui a chegada de um antigo conhecido, Jess Taylor (Colin Firth), que desequilibra a união entre Ginny e Rose.

Michelle Pfeiffer - que lutou para levar o livro de Smiley às telas - está fascinante como Rose, uma mulher amargurada por traumas do passado e que tenta, através da compensação financeira, recompor uma vida de sofrimento. Jessica Lange tem mais trabalho como Ginny, que se transforma de uma mulher frustrada pela falta de filhos no para-raios de uma família altamente disfuncional - e que encontra forças para viver a própria vida justamente quando já se encontrava acomodada em um casamento morno. São as duas que movimentam a trama do filme - a ótima Jennifer Jason Leigh é subaproveitada como Caroline, e Jason Robards, apesar de sempre excelente como déspota, sofre com um personagem maniqueísta, sem nuances ou qualidades redentoras. O resultado é uma obra morna, que desperdiça uma história forte e bons atores em uma trama de telenovela, rasa e desprovida de maior emoção. Para os fãs das atrizes é um show à parte, mas como cinema é, infelizmente, bem medíocre.

terça-feira

JACKIE

JACKIE (Jackie, 2016, Fox Searchlight Pictures, 100min) Direção: Pablo Larraín. Roteiro: Noah Oppenheim. Fotografia: Stéphane Fontaine. Montagem: Sebastián Sepúlveda. Música: Mica Levi. Figurino: Madeline Fontaine. Direção de arte/cenários: Jean Rabasse/Véronique Melery. Produção executiva: Martine Cassinelli, Charlie Corwin, Wei Han, Jayne Hong, Jennifer Monroe, Howard Owens, Lin Qi, Pete Shilaimon, Josh Stern. Produção: Darren Aronofsky, Pascal Caucheteaux, Scott Franklin, Ari Handel, Juan de Dios Larraín, Mickey Liddell. Elenco: Natalie Portman, Peter Sarsgaard, Greta Gerwig, Billy Crudup, John Carrol Lynch, Richard E. Grant, John Hurt, Beth Grant. Estreia: 07/9/16 (Festival de Veneza)

3 indicações ao Oscar: Atriz (Natalie Portman), Trilha Sonora Original, Figurino

Quem conhece a filmografia do cineasta chileno Pablo Larraín já sabe o que esperar de "Jackie": não uma cinebiografia convencional da mais famosa primeira-dama dos EUA, mas uma tentativa de retratar diferentes ângulos de sua personalidade a partir da morte de John F. Kennedy, um dos mais traumáticos eventos da história do país, ocorrido em novembro de 1963, em Dallas. Com base em uma entrevista concedida pela jovem viúva ao repórter Theodore H. White - da revista Life - pouco depois do trágico acontecimento, o roteiro de Noah Oppenheim se recusa a seguir uma linha narrativa tradicional e constrói, através de silêncios, meias-verdades e declarações da protagonista, um perfil não completo, mas controverso e complexo de uma das figuras mais admiradas e influentes do século XX. Contando com uma atuação irretocável de Natalie Portman no papel central e uma reconstituição meticulosa de alguns momentos cruciais da história da família Kennedy durante sua estada na Casa Branca, "Jackie" é um filme acima da média, ainda que possa causar certo estranhamento àqueles que procuram uma produção nos moldes acadêmicos. Mas, como já afirmado, quem conhece a obra de seu diretor não irá se surpreender tanto assim.

Crítico ferrenho da política e da sociedade chilena, Pablo Larraín assinou filmes polêmicos e crus - como "Tony Manero" (2008) e "Post mortem" (2010) -, o indicado ao Oscar de melhor produção estrangeira "No" (2012) e o controverso "O clube" (2015), que concorreu ao Golden Globe na mesma categoria. Em todos eles, há a tendência em tocar em feridas ainda não cicatrizadas - sejam elas quais forem, desde pedofilia na Igreja Católica até a traumática ditadura de Pinochet. Distante geográfica e emocionalmente da trajetória de Jacqueline Kennedy, Larraín pode exumar sem medo suas contradições e mecanismos de defesa, apresentando uma protagonista que deixa vislumbrar seus medos e inseguranças somente em momentos solitários - e em uma ou outra hesitação na voz e no olhar durante a famosa entrevista (no filme o repórter, vivido por Billy Crudup, não tem nome e nem a revista Life é citada, para maior liberdade artística). Louvada como ícone fashion e uma das mulheres mais elegantes do mundo, no filme de Larraín a elegante Jackie mostra outras facetas de si mesma: a mãe extremada e preocupada com o destino dos filhos, a viúva chocada com o fim trágico do marido diante de seus olhos, a primeira-dama exemplar posta na angustiante situação de ver-se desamparada e a mulher altiva que evita demonstrar sentimentos exagerados para o povo ainda aturdido com toda a situação. Natalie Portman se encarrega de dar vida a todas às nuances propostas pelo roteiro, mostrando que alguns males realmente vem para o bem: a primeira opção para o papel era Rachel Weisz, na época em que o projeto era do cineasta Darren Aronofsky - que dirigiu Portman em "Cisne negro" e se manteve como produtor mesmo depois de pular fora da direção: Weisz é uma boa atriz, mas Natalie simplesmente desaparece na pele de Jackie, em um trabalho de imersão que justifica plenamente sua indicação ao Oscar.


Amparada por uma caracterização impecável - em especial o figurino de Madelie Fontane, também concorrente ao Oscar - e pela decisão de Larraín em utilizar primordialmente os primeiros takes de cada cena e filmar com uma câmera de mão (como forma de extrair as emoções de maneira mais orgânica e claustrofóbica possível), a atuação de Natalie Portman faz esquecer que, na verdade, ela é bastante diferente fisicamente da verdadeira Jacqueline Kennedy. Sua empostação de voz, postura e trejeitos convencem o público assim que ela entra em cena, ainda abalada pela morte do marido, mas tentando, de todas as formas, manter uma classe e uma força interior que possa inspirar os fãs. Seus diálogos com o repórter mostram uma mulher estoica e conformada - e é aí que o roteiro dá seu pulo do gato, com flashbacks reveladores tanto de seus momentos imediatamente posteriores à morte do marido quanto de outra ocasião célebre: o tour televisionado pela Casa Branca, que aproximou a família presidencial do povo e tornou-a quase uma espécie de família real norte-americana. Misturando cenas reais do programa com takes filmados com o elenco liderado por Portman, Pablo Larraín volta a brincar com a dicotomia real/fictício que já havia imposto a "No", e a edição magistral torna a experiência ainda mais satisfatória.

Sempre que as imagens reais de Jacqueline, John Kennedy e seu entorno surgem na tela, Pablo Larraín faz questão de intercalar com cenas reconstituídas, explorando ao máximo o extremo cuidado em sua recriação e a mágica de transformar alguns momentos icônicos da história dos EUA em cinema de qualidade. Se Natalie Portman traduz a protagonista com perfeição, não se pode deixar de elogiar também o trabalho de Peter Sarsgaard como Bobby Kennedy: igualmente pouco semelhante ao irmão do presidente (e que também foi assassinado, em 1968), Sarsgaard convence facilmente a plateia tão logo aparece, tamanha o seu talento em desaparecer sob o gestual formal e público do personagem. É também notável como o cineasta atinge plenamente seu objetivo de mostrar ângulos diversos de seus personagens, deixando a audiência vislumbrar, ocasionalmente, as pessoas por trás dos ícones - é para isso que estão em cena personagens cruciais, como a assistente e melhor amiga de Jackie, Nancy Tuckerman (Greta Gerwig), e um padre católico que a ajuda a compreender e lidar com a dor da perda (John Hurt em um de seus últimos trabalhos): esses elos de Jackie com o mundo exterior lhe dão a chance de expor seus sentimentos, e o filme cresce a cada momento em que eles estão presentes, graças à inteligência dos diálogos e da sensibilidade do diretor.

Com uma bela e sutil trilha sonora - que também concorreu a uma estatueta dourada - e um respeito quase reverente à sua protagonista, "Jackie" é um filme que pode não agradar a todos os públicos, mas que resiste bravamente à tentação de ser mais uma compilação de fofocas de bastidores e se torna um retrato interessante e elegante de uma das figuras femininas mais importantes do século XX. Não é o grande filme que poderia ser, mas é bastante recomendável a quem procura cinema de qualidade.

sábado

O CONVITE

O CONVITE (The invitation, 2015, Gamechanger Films, 100min) Direção: Karyn Susama. Roteiro: Phil Hay, Matt Manfredi. Fotografia: Bobby Shore. Montagem: Plummy Tucker. Música: Theodore Shapiro. Figurino: Alysia Raycraft. Direção de arte/cenários: Almitra Corey/Ben Plunkett. Produção executiva: Nate Bolotin, Dan Cogan, Wendy Ettinger, Mynette Louie, Tony Mancilla, Julie Parkr Benello, Aubin Paul. Produção: Martha Griffin, Phil Hay, Matt Manfredi, Nick Spicer. Elenco: Logan Marshall-Green, Emayatzy Corinealdi, John Carroll Lynch, Tammy Blanchard, Michiel Huisman, Mike Boyle, Michelle Krusiec, Jordi Vilasuso, Jay Larson, Marieh Delfino, Toby Huss. Estreia: 13/3/15

As cenas iniciais, tensas e com um certo ar de estranhamento, já dá uma pista do que virá: em direção a um jantar na casa de amigos, o casal Will (Logan Marshall-Green) e Kira (Emayatzy Corinealdi) atropela um cervo, e, sem outra opção em vista, o rapaz é obrigado a sacrificar o animal com uma das ferramentas do carro. É esse tom de angústia e tensão que irá se desenvolver e aprofundar por todos os 100 minutos de duração de "O convite", primeiro longa-metragem da nova-iorquina Karyn Susama depois do terror adolescente "Garota infernal" (09). Amadurecida como cineasta e de posse de um material infinitamente mais rico e promissor, ela faz de seu filme um exercício constante de desconforto, enfatizado por uma fotografia opressiva e um elenco que, mesmo sem astros conhecidos, oferece ao espectador um senso de perigo iminente que vai crescendo cada vez mais, até o final aterrador e chocante.

Acostumada a lidar com protagonistas femininas - são dela também "Boa de briga" (2000), com Michelle Rodriguez, e "Aeon Flux" (05), com Charlize Theron - Susama dessa vez centra sua atenção no personagem de Logan Marshall-Green, do elenco de "Prometheus" (12) e idêntico à Tom Hardy em certos momentos. Com uma atuação minimalista e corajosa ao romper com os clichês do gênero, ele empresta a seu Will tintas de tristeza e sofrimento que o afastam do estereótipo de herói inabalável. Contando a história sob seu atormentado ponto de vista, a cineasta o aproxima do espectador sem apelar para artifícios desonestos, utilizando-se apenas de seus conflitos internos para transformá-lo em uma pessoa de carne e osso, falível e propensa a crises de desespero e solidão - mesmo quando rodeado de gente. Will, o protagonista de "O convite", é um personagem de tragédia perdido em meio a uma trama de suspense - uma espécie de Cassandra de calças, incapaz de fazer com que as pessoas enxerguem o óbvio destino reservado a elas.


Will é um homem com um passado traumático. Seu casamento com Eden (Tammy Blanchard) naufragou depois da morte acidental do filho pequeno, um golpe pesado demais para que eles se mantivessem juntos de maneira saudável. Dois anos depois de perder contato com a ex-mulher, ele recebe o convite para juntar-se a ela, a seu novo marido, David (Michiel Huisman), e a um grupo de antigos amigos em um jantar na casa onde viviam anteriormente. Acompanhado da nova companheira, Kira, ele aceita participar da reunião, mas tão logo chega no local passa a sentir uma estranha energia vinda de seus anfitriões. Suas dúvidas em relação às intenções do convite, porém, não são compartilhadas pelos demais convidados, que se sujeitam tranquilamente a todas as brincadeiras e testes propostos para animar a noite. Tranquilos e aparentemente felizes, Eden e David não se cansam de propalar os benefícios de um culto que conheceram durante uma viagem ao México - um simulacro de religião que a ensinou a lidar com a dor da perda e mudou sua vida. Convencido de que o encontro tem muitas ligações com tal culto, Will tenta alertar os amigos, mas ninguém dá ouvidos a seus avisos.... até que ele mesmo passa a duvidar de sua sanidade mental.

Um suspense psicológico que substitui com eficiência a violência gráfica pelo clima claustrofóbico e aflitivo, "O convite" vai construindo sua tensão gradualmente, mergulhando o público em um caldeirão de estranheza que vai ficando mais aguda conforme o tempo passa. De inocentes jogos de salão até revelações melancólicas, a noite alegre vai se tornando um círculo de paranoia crescente, que leva a plateia consigo até explodir em um clímax sangrento que não apenas cumpre o que promete desde seus primeiros minutos, como também critica contundentemente a forma como alguns tipos de religião se aproveitam da dor alheia para promover a violência e o desespero. Desviando com esperteza dos clichês que inundam o gênero, Karyn Susama entrega um filme de horror que prescinde de assassinos mascarados para promover o medo e a agonia. Com os dois pés bem fincados na realidade, ela conquista a audiência e levanta questionamentos relevantes em dias de obscurantismo religioso. De quantos filmes de terror pode-se dizer a mesma coisa?

quinta-feira

GRAN TORINO

GRAN TORINO (Gran Torino, 2008, Warner Bros, 116min) Direção: Clint Eastwood. Roteiro: Nick Schenck, estória de Dave Johansson, Nick Schenck. Fotografia: Tom Stern. Montagem: Joel Cox, Gary D. Roach. Música: Kyle Eastwood, Michael Stevens. Figurino: Deborah Hopper. Direção de arte/cenários: James J. Murakami/Gary Fettis. Produção executiva: Bruce Berman, Jenette Kahn, Tim Moore, Adam Richman. Produção: Clint Eastwood, Bill Gerber, Robert Lorenz. Elenco: Clint Eastwood, Christopher Carley, Bee Vang, Ahney Her, Brian Haley, Geraldine Hughes, Dreama Walker, Brian Howe, John Carroll Lynch. Estreia: 09/12/08

Quando "Gran Torino" estreou, no final de 2008, muito se comentou com a declaração de Clint Eastwood de que ele seria seu último filme como ator. Aos 78 anos de idade à época do lançamento do filme, o veterano ator/diretor não cumpriu a promessa - estrelou o fraco "Curvas da vida" em 2012 - mas acabou por conquistar a maior bilheteria de sua carreira até então: com quase 150 milhões de dólares em caixa somente no mercado doméstico (EUA e Canadá), a história de um viúvo ranzinza e preconceituoso que tem sua vida transformada pela amizade com uma comunidade de asiáticos deixou para trás clássicos contemporâneos como "Os imperdoáveis" (92), "As pontes de Madison" (95) e "Menina de ouro" (04). O porquê de tanto sucesso é uma incógnita: com um roteiro que é um amontoado de clichês, uma direção quase preguiçosa e atores coadjuvantes quase constrangedores, "Gran Torino" não faz jus à trajetória do Eastwood cineasta - mas em compensação, mostra com absoluta clareza todas as limitações do Eastwood ator, incapaz de sair de sua zona de conforto como intérprete.

Com a mesma cara de durão de sempre - e que fez sua fama e sua glória - Eastwood vive Walt Kowalski, um veterano da Guerra da Coréia que extravasa todas as frustrações de sua vida - a perda recente da esposa, a relação fria com os filhos e os traumas do conflito - em forma de preconceito contra sua vizinhança, formada em sua maioria por imigrantes asiáticos cuja cultura ele desconhece e despreza. Como uma espécie de Scrooge (personagem de Charles Dickens conhecido por sua misantropia exarcebada), ele não hesita em comprar briga com todos à sua volta, sempre com o objetivo de proteger sua propriedade e seu objeto de maior valor, um automóvel Gran Torino 1972 que ele preza mais do que a própria família. Agressivo e mau-humorado, Kowalski não respeita nem mesmo o pároco local, o jovem Padre Janovitch (Christopher Carley), que tenta incansavelmente apaziguar sua alma. Seu preconceito finalmente encontra amparo quando ele surpreende o adolescente Thao (Bee Vang) tentando roubar seu bem mais valioso por pressão da gangue liderada por seu primo. Disposto a consertar o caráter do jovem, Kowalski acaba sendo obrigado a conviver com a família dele e descobre dentro de si um calor humano há muito esquecido.


Conhecido pela rapidez e economia com que trabalha, Eastwood não fez diferente em "Gran Torino", filmado em apenas 33 dias com um orçamento de pouco mais de 30 milhões de dólares. O problema é que, ao contrário dos demais filmes de seu currículo, dessa vez essa pressa fica evidente em cada cena. Não há, em "Gran Torino", a sofisticação visual de "Bird" (88) ou a profundidade dramática de "Sobre meninos e lobos" (03). As soluções do roteiro são banais e previsíveis, os enquadramentos são monótonos e os personagens tem a profundidade de um pires, além do pecado mortal de não despertarem nada mais do que apatia em relação à plateia. O protagonista, por exemplo, não é um adorável ranzinza em busca de redenção, e sim um homem antipático e desagradável, inapto em captar a simpatia do público, e o introvertido Thao tampouco consegue tal proeza, graças à atuação pífia do novato Bee Vang, digno do mais terrível dos filmes B. Tais pecados - a escolha de um personagem principal repulsivo e chato e a escalação de um jovem ator medíocre para um papel crucial - são decisivos para transformar uma sessão de "Gran Torino" em uma tortura (a não ser que se seja fã incondicional do diretor, que, apesar de alguns tropeços constrangedores, mantém uma média bastante decente de qualidade em sua filmografia).

Os fãs mais radicais de Eastwood provavelmente não darão importância aos erros de "Gran Torino", relevando-os em nome de sua carreira e do fato de manter uma invejável constância na trajetória como cineasta e ator. Mas é preciso reconhecer que nas mãos de alguém menos consagrado as reações certamente seriam menos entusiasmadas. Um festival de clichês sonolento e previsível, é um passo em falso no caminho de Eastwood, ainda que não tenha sido reconhecido como tal.

segunda-feira

POR UM SENTIDO NA VIDA

POR UM SENTIDO NA VIDA (The good girl, 2002, Fox Searchlight Pictures, 93min) Direção: Miguel Arteta. Roteiro: Mike White. Fotografia: Enrique Chediak. Montagem: Jeff Betancourt. Música: Tony Maxwell, James O'Brien, Mark Orton, Joey Waronker. Figurino: Nancy Steiner. Direção de arte/cenários: Daniel Bradford/Susan Emshwiller. Produção executiva: Carol Baum, Kirk D'Amico, Philip Von Alvensleben. Produção: Matthew Greenfield. Elenco: Jennifer Aniston, Jake Gylenhaal, John C. Reilly, Tim Blake Nelson, John Carroll Lynch, Zooey Deschanel, Mike White. Estreia: 12/01/02 (Festival de Sundance)

Segundo consta, antes que começassem as filmagens de "Por um sentido na vida", a atriz Jennifer Aniston implorou ao diretor Miguel Arteta que a impedisse de repetir no filme - um drama baixo astral sobre uma mulher comum tentando dar cor à sua vida medíocre - os trejeitos cômicos que fizeram dela uma das atrizes mais populares do mundo, graças à série "Friends". Tentando mais uma vez provar aos críticos e ao público o seu talento dramático, Aniston não queria que Justine Last, sua personagem na obra de Arteta, lembrasse em absolutamente nada a avoada e volúvel Rachel Green. O pedido deu certo: elogiada unanimemente por seu desempenho, Aniston entregou um dos mais consistentes desempenhos de sua carreira em um papel denso, complexo e não exatamente simpático, que mostrou que, por trás de sua beleza, simpatia e do então casamento com Brad Pitt, existia uma atriz de muitas nuances à espera de serem exploradas.

Sem o glamour e a produção da série de TV, Aniston interpreta Justine, uma entediada e frustrada funcionária de um loja de descontos de uma cidade do interior dos EUA. Casada com o pouco ambicioso Phil (John C. Reilly), que vive de pintar casas e fumar maconha ao lado do sócio Bubba (Tim Blake Nelson), ela tem como maior expectativa de seus dias o momento de finalmente ficar grávida para injetar emoção em seu dia-a-dia. Esperando pacientemente uma virada em sua vida, ela conhece o novo colega de trabalho, o jovem Holden Worther (Jake Gyllenhaal), que deseja tornar-se escritor e mora com os pais depois de problemas com a justiça. Surge entre eles uma imediata identificação e não demora para que os dois iniciem uma tórrida relação proibida, cujas consequências se tornam cada vez mais perigosas e dramáticas conforme passam a envolver outras pessoas. Apaixonado por Justine, Holden - que emprestou seu pseudônimo do protagonista do romance "O apanhador no campo de centeio" - resolve fugir com a mulher amada, mas as coisas saem do controle quando uma testemunha do romance ilícito entre eles surge com uma chantagem inesperada que os leva a um dilema ainda maior.


Com um ritmo que desafia a velocidade quase histérica do cinema comercial americano, "Por um sentido na vida" mergulha o espectador dentro da morosidade e da mediocridade da vida de Justine para que ele consiga, dentro das possibilidades, compreender as atitudes da protagonista, frequentemente discutíveis ou pouco éticas. Até mesmo o título original - "a boa menina" - soa irônico diante do sinuoso caminho escolhido por ela para atingir seus objetivos nem sempre claros, mais por culpa de sua imaturidade e de sua insegurança do que por problemas de roteiro, escrito com uma concisão e uma delicadeza que permitem até mesmo um final agridoce e melancólico ao invés do previsível clímax melodramático ou exagerado. É lógico que para isso colabora também mais uma atuação exemplar de John C. Reilly, sempre eficientíssimo em dar vida a personagens presos a relacionamentos e vidas simples e pacatas. Seu Phil é uma vítima inocente do romance extraconjugal da esposa, uma espécie de Madame Bovary dos subúrbios americanos, que se envolve com uma encarnação moderna do jovem Werther criado por Goethe e se dirige, sem freios, a um destino talvez pior do que poderia esperar de sua existência modorrenta. Tal história é contada com sutileza por Miguel Arteta, que deixa nas mãos competentes de seu elenco explorar cada minúcia da personalidade de seus personagens, ricos em camadas a ponto de surpreender o próprio público com as reviravoltas da trama.

Mas é inegável que boa parte da força de "Por um sentido na vida" se deve ao trabalho irretocável de Jennifer Aniston, que deixa a vaidade de lado e apresenta à plateia um lado poucas vezes explorado anteriormente em sua carreira. Com um olhar vazio e um postura cansada, ela transmite em poucos diálogos um turbilhão de sentimentos e toda uma vida de insucessos que acabam fatalmente a jogá-la nos braços do igualmente desiludido Holden, que apesar da pouca idade, já acumula experiência o bastante para enxergar na colega de trabalho sua última chance de felicidade e realização. O encontro de tais almas - inquietas, sedentas por emoções, carentes - é o combustível para uma história triste, melancólica e desesperançosa, mas contada de forma enxuta e extremamente eficaz. Um pequeno grande filme.

sexta-feira

EM QUALQUER OUTRO LUGAR

EM QUALQUER OUTRO LUGAR (Anywhere but here, 1999, 20th Century Fox, 114min) Direção: Wayne Wang. Roteiro: Alvin Sargent, romance de Mona Simpson. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Nicholas C. Smith. Música: Danny Elfman. Figurino: Betsy Heinman. Direção de arte/cenários: Donald Graham Burt/Barbara Munch. Produção executiva: Ginny Nugent. Produção: Laurence Mark. Elenco: Susan Sarandon, Natalie Portman, Shawn Hatosy, Bonnie Bedelia, Thora Birch, John Carrol Lynch, Hart Bochner, Paul Guilfoyle, Megan Mulally, Caroline Aaron. Estreia: 17/9/99 (Festival de Toronto)

Se alguém ainda duvida do poder que duas atrizes de primeiro gabarito tem em transformar uma ideia simples e banal em um filme interessante, esse alguém precisa assistir a "Em qualquer outro lugar". Baseado em um romance nada memorável de Mona Simpson - irmã biológica de Steve Jobs - e dirigido sem muita criatividade por Wayne Wang (responsável pelo belo "O clube da felicidade e da sorte"), o filme, que retrata a difícil relação entre mãe e filha de personalidades conflitantes, sustenta-se basicamente no duelo de interpretações travado entre Susan Sarandon e Natalie Portman, que tomam para si a responsabilidade de dar consistência e emoção a personagens complexas que, em mãos menos sensíveis, poderiam soar apenas chatas e desagradáveis.

Ciente de que merece mais oportunidades que sua pequena Bay City lhe proporciona, a inquieta Adele August (Susan Sarandon) abandona o segundo marido e parte para Beverly Hills acompanhada da filha de 14 anos, a introvertida Ann (Natalie Portman), a quem ela deseja transformar em uma atriz. Fazendo a viagem conta a sua vontade, Ann - cujo contato com o pai foi perdido ainda nos primeiros anos da infância - começa a afastar-se ainda mais da mãe, uma mulher forte e determinada, mas equivocada na forma como leva a vida. Mudando-se constantemente e buscando sempre emoções novas - o que na prática tanto se resume a conquistar homens que podem lhe dar o conforto procurado quanto ambicionar um estilo de vida mais confortável e luxuoso - Adele muitas vezes demonstra ser mais imatura que a filha, cujo único objetivo imediato é terminar a escola, para mais tarde tentar entrar em uma faculdade, longe dos delírios de sua mãe.


Com uma linha narrativa frágil e sem maiores lances dramáticos - nem mesmo uma inesperada e trágica morte altera o tom naturalista proposto por Wang, um cineasta com bom olho para a variação de nuances de suas atrizes - "Em qualquer outro lugar" pode ser descrito sem medo como um filme "para mulheres", já que concentra-se exclusivamente no ponto de vista feminino da história, relegando os homens a meros coadjuvantes unidimensionais. Tal opção, ainda que válida, acaba por limitar o alcance da obra e lhe tirando as possibilidades de agradar a um público mais amplo - o que explica sua bilheteria pouco representativa mesmo com o relativo poder de fogo de Sarandon, na época já premiada com o Oscar por seu trabalho em "Os últimos passos de um homem". Uma das grandes atrizes de sua geração, ela domina cada sequência com um carisma gigantesco, que impede a rejeição à uma personagem que não é exatamente simpática: irresponsável, carente e muitas vezes egoísta, sua Adele só encontra redenção em seu amor (distorcido, mas ainda assim amor) pela filha, vivida por uma ainda iniciante Natalie Portman - que entrou no elenco como exigência absoluta de Sarandon. Linda como sempre, Portman mostra a cada momento o porquê da instransigência de sua mãe fictícia: juntas, elas são o corpo e a alma do filme.

Resumir "Em qualquer outro lugar" não é empolgante. A história é banal, quase clichê. As personagens raramente ultrapassam os limites do superficial - e quando o fazem devem isso a suas talentosas protagonistas. A narrativa não é criativa, apesar de compensar tal característica na seriedade e na placidez. Mas ao mesmo tempo é difícil não se deixar envolver pelo filme de Wang, já que ele tem a inteligência de apoiar-se quase exclusivamente em suas atrizes centrais, tão espetaculares e carismáticas que disfarçam todo e qualquer momento de tédio. É, literalmente, um filme que vale pelo elenco.

BRINCANDO DE SEDUZIR

BRINCANDO DE SEDUZIR (Beautiful girls, 1996, Miramax Films, 112min) Direção: Ted Demme. Roteiro: Scott Rosenberg. Fotografia: Adam Kimmel. Montagem: Jeffrey Wolf. Música: David A. Stewart. Figurino: Lucy W. Corrigan. Direção de arte/cenários: Dan Davis/Tracey A. Doyle. Produção executiva: Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Cary Woods. Elenco: Matt Dillon, Timothy Hutton, Noah Emmerich, Michael Rapaport, Rosie O'Donnell, Lauren Holly, Martha Plimpton, Max Perlich, Natalie Portman, Mira Sorvino, Uma Thurman, Pruitt Taylor Vince, Sam Robards, David Arquette, John Carrol Lynch. Estreia: 09/02/06

Esta é uma história real: na metade da década de 90, enquanto esperava por uma resposta em relação à sorte de um trabalho seu para um grande estúdio de Hollywood, o roteirista Scott Rosenberg voltou à sua cidade natal, no estado de Massachusetts, para fugir da tensão da situação. Lá, ao lado de amigos de infância, percebeu, quase como uma epifania, o quão imaturos todos eles eram, incapazes de aceitar o fato de que estavam chegando aos 30 anos e totalmente despreparados para assumirem compromissos sentimentais. Ciente de que tal estado de espírito também dizia respeito a quase todos os homens de sua geração - e talvez das anteriores e posteriores - Rosenberg partiu para a ação e escreveu "Brincando de seduzir", uma comédia cáustica, romântica e um tanto cínica sobre ele mesmo em particular e os homens em geral. Dirigido por Ted Demme - recém vindo do ácido "O árbitro" - e estrelado por um grupo de jovens atores e atrizes que se dividiam entre iniciantes e veteranos, o filme fez pouco barulho nas bilheterias, mas é, sem dúvida, um retrato fiel e - por que não? - encantador da amizade entre homens.

Willie Conway (Timothy Hutton caprichando no visual desleixado) toca pianos nos bares de Nova York enquanto espera sua grande chance de tornar-se rico e famoso. Namorando há anos a compreensiva advogada Tracy (Annabeth Gish), ele retorna à sua cidade natal para um reencontro com os colegas do ginasial, a quem não vê há anos - assim como seu pai e seu irmão caçula, que desde a morte de sua mãe entraram em uma rotina triste e sem expectativas. Chegando a seu destino, ele imediatamente conhece a nova vizinha, a adolescente Marty (Natalie Portman), que mesmo aos 14 anos, não hesita em flertar com o forasteiro - que, logicamente, sente-se atraído pelo frescor e juventude da menina. Seu desequilíbrio diante de um belo espécime do sexo feminino é compartilhado com seus outros amigos, conforme ele vai percebendo ao encontrá-los: Tommy (Matt Dillon), o galã da cidade, namora com a bela e dedicada Sharon (Mira Sorvino), mas mantém há tempos um caso com uma mulher casada, Darian (Lauren Holly). Seu sócio no negócio de limpar neve das calçadas é Paul (Michael Rapaport, sempre bom em papéis de homens bobalhões), que não se conforma com a traição da namorada, Jan (Martha Plimpton) e vinga-se dela atravancando sua garagem com detritos das tempestades que não param de chegar. O único da turma que parece feliz é Michael (Noah Emmerich), casado, pai de dois filhos e imune às tentações da carne - sempre ironizadas pela sarcástica Gina (Rosie O'Donnell). As noitadas regadas a bebida e reminiscências são abaladas, porém, com a chegada de Andera (Uma Thurman), a bela e independente prima de um amigo em comum que mexe com a libido de todos.


É difícil de acreditar que antes de "Brincando de seduzir" apenas um outro roteiro de Scott Rosenberg havia chegado às telas - e de um gênero totalmente distante, o policial "Coisas para se fazer em Denver quando você está morto", lançado em 1995. Dotado de ritmo, consistência dramática e personagens críveis e pateticamente humanos, o texto de Rosenberg flui com extrema naturalidade, chegando até ao espectador sem soar presunçoso ou autocomplacente. Mesmo quando toca em um assunto potencialmente perigoso - a atração do trintão Willie pela adolescente Marty - o roteiro substitui o peso de uma polêmica pela leveza da citação de Nabokov e sua Lolita. Ao defender a imaturidade masculina mesmo quando ela tem consequências pouco nobres ou altruístas, tanto Rosenberg quanto o diretor Ted Demme tem o cuidado de não parecerem machistas ou misóginos: eles parecem dizer, através dos diálogos certeiros e quase melancólicos em determinados momentos, que seus personagens não são maus, são apenas infantis e, portanto, dotados de um egoísmo inerente à sua condição. E para isso, eles contam com um elenco excelente, que se desincumbe com maestria das armadilhas de uma trama que prescinde de heróis ou vilões.

Timothy Hutton - que ganhou um Oscar de coadjuvante aos 19 anos por "Gente como a gente" (80) - sai-se bem como o desnorteado Willie, um homem perdido entre a juventude e a maturidade que vê no possível envolvimento com uma adolescente sua última chance de prender-se de vez ao passado. Uma Thurman desfila linda e carismática pela tela como a sedutora Andera e Michael Rapaport faz o papel de adorável paspalho que se tornaria sua marca registrada - o mesmo que acontece com Rosie O'Donnell, que rouba a cena com sua desbocada e realista Gina em pelo menos uma cena memorável, quando discursa sobre a ditadura da beleza feminina ideal dos homens (tema também de um diálogo brilhante proferido pelo personagem de Rapaport). Junto a eles, as duas oscarizadas Natalie Portman - ainda menina - e Mira Sorvino completam uma equipe iluminada, que vem suas cenas comentadas pela adequada e agradável trilha sonora de David A. Stewart.

Ah, o filme que Rosenberg escreveu antes de esconder-se em sua cidadezinha chegou às telas em 1997: era o blockbuster "Con Air, a rota da fuga"... que não tem, perceptivelmente, nada a ver com o delicioso "Brincando de seduzir".

sábado

AMOR À TODA PROVA

AMOR À TODA PROVA (Crazy, stupid, love., 2011, Carousel Productions, 118min) Direção: Glenn Ficarra, John Requa. Roteiro: Dan Fogelman. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Lex Haxall. Música: Christophe Beck, Nick Urata. Figurino: Dayna Pink. Direção de arte/cenários: William Arnold/David Smith. Produção executiva: Vance DeGeneres, Charlie Hartsock, David A. Siegel. Produção: Steve Carrell, Denise Di Novi. Elenco: Steve Carrell, Ryan Gosling, Julianne Moore, Emma Stone, Marisa Tomei, Kevin Bacon, Analeigh Tipton, Jonah Bobo, John Carrol Lynch. Estreia: 29/7/11

Depois de vários filmes densos e exaustivos psicologicamente – dentre os quais o suspense “A passagem” (05) e o drama romântico “Diário de uma paixão” (04) – o ator Ryan Gosling queixou-se a seu psicanalista de um quase esgotamento. A receita do médico foi a mais heterodoxa possível: entrar com urgência no elenco de uma comédia. Foi assim que um dos melhores atores de sua geração chegou até “Amor a toda prova”, um delicioso misto de comédia, drama e romance conduzido pela dupla Glenn Ficarra e John Requa. Diretores do subestimado “O golpista do ano” – estrelado por Jim Carrey e Ewan McGregor e prejudicado por uma estratégia de lançamento equivocada e expectativas errôneas por parte do público – Ficarra e Requa se baseiam no roteiro bem-amarrado de Dan Fogelman para construir uma ciranda de amores complicados e mal-entendidos fotografada com sofisticação e dotada de um senso de humor irônico e inteligente que raramente frequenta as produções do gênero. Também, é claro, não atrapalha em nada o fato de o elenco contar também com os fabulosos Julianne Moore, Marisa Tomei, Emma Stone e Steve Carrell – um dos produtores executivos do filme e seu protagonista.

Carrell, equilibrando genialmente o humor físico que lhe é característico com uma dose certeira de melancolia que lhe cai com perfeição, interpreta Cal Weaver, um quarentão que logo na primeira cena do filme é surpreendido pelo pedido de divórcio feito pela mulher, Emily (Julianne Moore) – que completa o quadro dramático assumindo que dormiu com um colega de trabalho. Prostrado em uma depressão que o faz chorar pelos cantos do escritório onde trabalha – “Graças a Deus é só um divórcio, poderia ser câncer!”, brada um colega, à guisa de consolo – Cal acaba indo parar em um luxuoso bar para solteiros (visualmente deslumbrante, como um paralelo óbvio à miséria interior do personagem), onde sua figura triste (calças folgadas, tênis, um corte de cabelo ultrapassado) acaba por chamar a atenção de Jacob Palmer (Ryan Gosling), um inveterado e conhecido don juan que, comovido por sua trágica situação, resolve bancar um moderno pigmalião e moldá-lo em um novo e mais autossuficiente modelo masculino. Em pouco tempo – e à custa de muitos dólares e muita humilhação – Cal vira outra pessoa, colecionando amantes ocasionais, para surpresa de sua ex-mulher – ainda hesitante em assumir um relacionamento com o pivô de sua separação, o confiante David Lindhagen (Kevin Bacon) – e da adolescente Jessica, filha de seu melhor amigo (John Carroll Lynch) e que nutre por ele um amor platônico mesmo sabendo que é o nada obscuro objeto de desejo de, filho de Cal e Emily.



Essa quadrilha de amores incompreendidos e/ou secretos se completa com o próprio Jacob, um rapaz bonito, sedutor e rico que, por trás de uma aparente autoconfiança esconde um romantismo enrustido que vem à tona quando conhece a jovem Hannah (Emma Stone), estudante de Direito que rejeita suas frequentes investidas como forma de manter-se fiel ao namorado desatento – até que, na mesma noite chuvosa em que Cal e Emily chegam a um impasse aparentemente insolúvel em sua relação, os dois finalmente se aproximam e deixam desabrochar uma história de amor cujo desfecho, como nas boas comédias de costumes dos anos 40 e 50, se dará em um clímax onde todas as tramas paralelas irão se encontrar de forma a provocar boas risadas – e surpreender o espectador com uma inesperada revelação.

Com um ritmo admirável que disfarça o fato de ser mais longo do que a maioria dos filmes de seu gênero, “Amor a toda prova” é uma comédia romântica muito bem-sucedida. Funciona em todos os níveis: convence como drama, faz rir em vários momentos, dosa com precisão o romantismo e amarra todas as pontas de seu roteiro com inteligência e clareza. Chega perto do sentimentalismo em suas sequências finais, mas o faz com tanta sinceridade que é difícil não se deixar envolver. E além de tudo, faz desfilar diante do público um elenco escalado a dedo. Steve Carrell brilha mais uma vez, apresentando uma química mais do que perfeita com todos os seus colegas de cena – seja com Ryan Gosling, mostrando um timing cômico inesperado, com Julianne Moore ou com Marisa Tomei (dona de uma cena antológica, onde reencontra o amante em uma situação pouco apropriada e não hesita em deixar bem clara a sua opinião sobre o pouco caso dele). Gosling e Emma Stone também soltam faíscas em cena – a longa sequência em que seus personagens passam a noite conversando é fascinante graças ao carisma de ambos, que não por acaso, repetiram a dupla romântica no menos leve “Caça aos gângsters”, de 2011.

Extremamente agradável e plenamente satisfatório, “Amor a toda prova” é um passo à frente na carreira de seus diretores, que demonstram um controle maior sobre o ritmo e a cadência de seu filme anterior e um notável talento em aproveitar o melhor de cada ator de seu brilhante elenco. Para os fãs do gênero, imperdível. Para quem procura uma diversão descompromissada sem abdicar de inteligência, altamente recomendável. Para Ryan Gosling, um remédio certeiro para os males da alma – e para mais um ponto mais do que positivo em uma carreira que tem tudo para ser longa e extremamente bem-sucedida.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...