ARGENTINA,
1985 (Argentina, 1985, 2022, La Unión de los Ríos/Kenya Films/Infinity
Hills, 140min) Direção: Santiago Mitre. Roteiro: Santiago Mitre, Mariano
Llinás, Martín Mauregui (colaborador). Fotografia: Javier Julia.
Montagem: Andrés Pepe Estrada. Música: Pedro Osuna. Figurino: Mônica
Toschi. Direção de arte/cenários: Micaela Saiegh. Produção executiva:
Phin Glynn, Cindy Teperman. Produção: Victoria Alonso, Santiago
Carabante, Chino Darín, Ricardo Darín, Axel Kuschevatzky, Agustina
Llambi Campbell, Santiago Mitre, Federico Posternak, Ana Taleb. Elenco:
Ricardo Darín, Peter Lanzani, Alejandra Fletchner, Paula Ransenberg.
Estreia: 03/9/2021 (Festival de Veneza)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Internacional
Indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional
As cicatrizes que a
ditadura militar deixou na sociedade argentina ainda se fazem sentir no
país, mesmo depois de quatro décadas após seu final. Pelo menos é que
dizem filmes como "A história oficial" (1985), de Luis Puenzo - que
concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro - e o novo "Argentina,
1985", o fascinante petardo do diretor Santiago Mitre que concorreu ao Oscar 2023 na mesma categoria. Porém, enquanto a
obra-prima de Puenzo direcionava suas câmeras a um olhar mais particular
sobre o trágico período político encerrado em 1983 (com a história de
uma professora descobrindo as origens de sua pequena filha adotiva), a
produção de Mitre se debruça explicitamente sobre os crimes cometidos
pelos militares - estupros, assassinatos, torturas - para fazer uma
espécie de inventário de suas atrocidades e, por consequência, alertar
sobre os perigos de que voltem a acontecer. Momentoso, sóbrio e
inteligente, o filme, estrelado pelo sempre ótimo Ricardo Darín, surge
na hora apropriada, mas seu sucesso não deve ser creditado somente à sua
importância política: "Argentina, 1985" é cinema de primeira linha, um
filmaço que consegue unir, em duas horas e meia de projeção,
entretenimento e relevância histórica.
O filme de Mitre elege como
protagonista o promotor público Julio Strassera (Ricardo Darín),
escalado para ser o responsável pelo julgamento dos militares de alta
patente acusados da violenta repressão contra os críticos ao governo
ditatorial que dominou o país entre 1963 e 1983. Contando com o apoio do
jovem advogado Luis Moreno Ocampo (Juan Pedro Lanzani) - que entra em
rota de colisão com a família, formada por apoiadores do regime - e um
grupo de estagiários cuja vontade de ganhar a causa é inversamente
proporcional a sua pouca idade, Strassera aceita a missão contra a
vontade, ciente das consequências de um julgamento tão polêmico. Porém,
conforme as sessões avançam e as ameaças contra ele, sua mulher e seus
filhos aumentam, ele vê aumentar cada vez mais sua sede de justiça -
especialmente diante de depoimentos contundentes das vítimas, que
estabelecem um grau de crueldade e violência impossíveis de ignorar.
Strassera sabe que a condenação dos réus é a única forma de evitar que
tal atrocidade venha a repetir-se.

Fugindo
do tom semi-documental que fatalmente acomete produções de teor
político, "Argentina, 1985" não abre mão, no entanto, de deixar bem
clara as suas intenções de desenterrar o passado sombrio do país. O
roteiro, perfeitamente equilibrado entre dramas pessoais e questões
jurídicas que jamais descambam para a verborragia técnica que poderia
afastar o espectador, não hesita em explicitar, através de testemunhas e
documentos, toda a fúria sanguinária de homens que tentavam, através da
força física e psicológica, destruir seus inimigos políticos da forma
mais vil. São momentos como esses, em que vítimas narram suas dores, que
fazem do filme de Santiago Mitre um petardo histórico e emocional, em
contraponto à frieza de todas as sequências em que são discutidos
detalhes de bastidores. Em especial no terço final da produção, o
cineasta parece abraçar definitivamente o desejo de comover a plateia,
encaminhando-a para um clímax arrepiante e, melhor ainda, perfeitamente
acurado e fiel aos fatos.
É admirável que o roteiro de "Argentina,
1985" - escrito por Mitre e Mariano Llinás - consiga a façanha de ser,
ao mesmo tempo, informativo e dramaticamente consistente. Apesar de
dedicar boa parte de sua narrativa a um estudo fidedigno dos processos
jurídicos retratados e dos documentos oficiais, a trama encontra espaço
suficiente para humanizar seus protagonistas e aproximá-los do
espectador mais comum. Enquanto Strassera precisa lidar com as ameaças
que sofre para abandonar o julgamento - em sequências tensas e editadas
com precisão -, Ocampo sente na pele as consequências de enfrentar um
sistema de violência ao tornar-se um pária dentro da própria família.
Para isso, o diretor recebe o auxílio impecável de um elenco exemplar,
liderado por Ricardo Darín, mais uma vez brilhante: um dos produtores do
filme (ao lado do filho, o também ator Chino Darín), o astro mais
popular do cinema argentino faz mais um gol de placa - e com o Golden Globe em mãos, voltou com prestígio à cerimônia da Academia, que em 2010 premiou o
hoje quase clássico "O segredo dos seus olhos". Forte e tocante,
"Argentina, 1985" é nada menos que obrigatório.