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segunda-feira

ELVIS

 


ELVIS (Elvis, 2022, Warner Bros/Bazmark Films/Roadshow Entertainment, 159min) Direção: Baz Luhrmann. Roteiro: Baz Luhrmann, Craig Pearce, Sam Bromell, Jeremy Doner, estória de Baz Luhrmann, Jeremy Doner. Fotografia: Mandy Walker. Montagem: Jonathan Redmond, Matt Villa. Música: Elliott Wheeler. Figurino: Catherine Martin. Direção de arte/cenários: Catherine Martin, Karen Murphy/Shaun Barry, Beverly Dunn. Produção executiva: Toby Emmerich, Kevin McCormick, Andrew Mittman, Courtenay Valenti. Produção: Gail Berman, Baz Luhrmann, Catherine Martin, Patrick McCormick, Schuyler Weiss. Elenco: Austin Butler, Tom Hanks, Olivia DeJonge, Richard Roxburg, Kelvin Harrison Jr., Kodi Smith-McPhee, Chaydon Jay. Estreia: 25/5/2022 (Festival de Cannes)

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Austin Butler), Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som, Maquiagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator (Comédia/Musical): Austin Butler

Quem conhece a filmografia do cineasta australiano Baz Luhrmann sabe que não se poderia esperar que "Elvis", seu longa-metragem sobre o rei do rock, fosse uma cinebiografia convencional e quadradinha. Rejeitando (pero no mucho) quase todas as regras de um gênero que raramente se arrisca a inovações, Luhrmann não se restringe a encapsular, em pouco mais de duas horas e meia de projeção, os 42 anos do célebre cantor: embaralhando todas as cartas à sua disposição - graças a uma edição magistral e a um roteiro que não se prende a cronologias -, o homem que deu ao mundo o visceral "Moulin Rouge: o amor em vermelho" (2001) faz a sua homenagem não apenas ao artista Presley, mas também ao homem Elvis, à força transformadora e rebelde da música e - por que não? - a um período crucial da história sócio-política dos EUA, quando figuras seminais como Martin Luther King e Robert Kennedy dividiam espaço com personalidades infames como Charles Manson. Além disso, foge do previsível ao centrar seu foco na relação entre o cantor e seu empresário/mentor/amigo/algoz, Coronel Tom Parker - interpretado com a garra de sempre por um irreconhecível Tom Hanks (vítima de críticas pouco simpáticas por parte da imprensa).

Narrado por Parker - o que oferece uma dose a mais de ironia e cinismo à trajetória do rockstar -, "Elvis" percorre o caminho de Presley desde o começo de seu sucesso até sua trágica morte, em agosto de 1977. No entanto, o roteiro passa ao largo de momentos cruciais à carreira do protagonista - como sua carreira em Hollywood -, para concentrar-se em suas relações interpessoais (com os pais, com o empresário, com Priscilla) e em suas tentativas de fugir das regras morais de uma sociedade conservadora e racista. Isso não quer dizer, no entanto, que Luhrmann prive a plateia de números musicais: eles existem e são avassaladores, especialmente graças ao trabalho impecável de Austin Butler no papel-título. Praticamente desconhecido do grande público - apesar de ter o cultuado "Era uma vez.... em Hollywood" (2019) no currículo -, Butler foi a escolha perfeita do diretor: seu desempenho evita as armadilhas que uma mera imitação poderia trazer e envolve o espectador (e os fãs) ao iluminar um ser humano palpável e com sentimentos reais, a anos-luz de qualquer caricatura. Seja no palco, recriando as polêmicas coreografias que tanto incomodavam os puritanos, ou nos bastidores, em momentos mais intimistas, o jovem ator faz esquecer que, a princípio, pouco lembra fisicamente o verdadeiro Elvis. Sua entrega - que lhe rendeu um Golden Globe e uma merecida indicação ao Oscar de melhor ator - é o maior trunfo de um filme que tem muitos deles.
 
 
É inegável que "Elvis" peca na maneira de informar ou detalhar situações importantes da vida e da carreira de seu protagonista - a impressão é que muita coisa passa correndo na tela, mal dando tempo ao público de entender tudo de forma consistente. Porém, levando-se em conta o estilo festivo e espalhafatoso de Baz Luhrmann, tudo faz sentido. Um celebrante do kitsch desde seu primeiro trabalho para as telas - o cult "Vem dançar comigo" (1992) -, o cineasta encontrou no universo feérico das apresentações do cantor um terreno fértil para exercitar suas obsessões visuais. Não para menos, conta com sua fiel escudeira, Catherine Martin, na concepção artística do projeto - casada com o diretor desde 1997 e com quatro Oscar na prateleira (por "Moulin Rouge" e "O grande Gatsby", de 2013). Juntos, eles imprimem em seus filmes um estilo único, facilmente reconhecível e controverso: a cada fã deslumbrado com seus exageros estéticos, há um detrator insatisfeito com tamanha opulência. Tal divisão está, inclusive, no cerne de "Elvis": tudo que faz da filmografia de Luhrmann uma exceção dentro da indústria hollywoodiana está presente em seu sexto longa, para o bem ou para o mal. Em sua obra não há espaço para elocubrações psicológicas ou aprofundamentos dramáticos - o que importa é o que está diante dos olhos do espectador e como isso pode lhe afetar emocionalmente. Em "Elvis" isso está patente em cada escolha estética, em cada ângulo de câmera, em cada corte de edição. Interessa a Luhrmann soterrar a plateia de informações visuais e sonoras, para conduzí-la a uma viagem sinestésica. Quem iniciar o filme procurando uma narrativa comum certamente irá levar um choque. Quem sabe com quem está lidando vai se confrontar com uma produção caprichada, tecnicamente irrepreensível, emocional e reverente - à obra de Presley, à sua figura como ser humano e, aplausos a isso, à importância da cultura negra para sua música e seu sucesso.

"Elvis" é um grande filme. Tem defeitos claros - quem não conhece direito a história do roqueiro provavelmente ainda ficará com uma série de perguntas ao final da sessão -, mas tem qualidades o bastante para amenizar qualquer pecadilho. E, como bom produto cultural, despertou uma nova geração de fãs e reconquistou aqueles que o tempo havia espalhado pelo caminho. Merecidamente indicado a oito Oscar (incluindo melhor filme), acabou atropelado por uma alucinação coletiva chamada "Tudo em todo lugar ao mesmo tempo", mas qualquer fã de cinema é obrigado a reconhecer que é muito superior em todos os quesitos. Mais uma vez Baz Luhrmann foi roubado - e assim como aconteceu com "Moulin Rouge", ficou de fora dos candidatos à estatueta de melhor diretor. Coisas da Academia!

TREM-BALA


TREM-BALA (Bullet train, 2022, Sony Pictures Entertainment, 127min) Direção: David Leitch. Roteiro: Zak Olkewicz, romance de Kôtarô Isaka. Fotografia: Jonathan Sela. Montagem: Elisabet Ronaldsdóttir. Música: Dominic Lewis. Figurino: Sarah Evelyn. Direção de arte/cenários: David Scheunemann/Elizabeth Keenan. Produção executiva: Brent O'Connor, Ryosuke Saegusa, Kat Samick, Yuma Terada. Produção: Antoine Fuqua, David Leitch, Kelly McCormick. Elenco: Brad Pitt, Aaron Taylor-Johnson, Joey King, Brian Tyree-Henry, Andrew Koji, Hiroyuki Sanada, Michael Shannon, Bad Bunny, Logan Lerman, Sandra Bullock. Estreia: 18/7/2022 (Paris)

Publicado no Japão em 2010, o livro "Trem-bala", escrito por Kôtarô Isaka, tornou-se um fenômeno, com mais de 700 mil exemplares vendidos, e acabou, como não poderia deixar de ser, chamando a atenção de Hollywood. Com os direitos adquiridos pela Sony Pictures e produzido com um orçamento de 90 milhões de dólares, a intrincada história de cinco assassinos profissionais cujas missões se cruzam em uma inusitada viagem chegou às telas com um elenco de primeira linha, um diretor acostumado a sequências recheadas de adrenalina e a responsabilidade de devolver ao público o hábito de ir às salas de exibição depois do longo hiato provocado pela Covid-19. Com uma renda acumulada de quase 240 milhões de dólares internacionalmente, é difícil dizer que fracassou em seu intento - mas dividiu a crítica e não fez o barulho que se poderia esperar. Mesmo assim, o resultado final é um delicioso filme de ação, com inspirados momentos de humor e um visual dos mais caprichados dos últimos anos.

Na direção, que ficaria a cargo de Antoine Fuqua, o cineasta David Leitch, cujo currículo apresenta produções extremamente comerciais, como "Deadpool 2" (2018) e "Velozes e furiosos: Hobbs & Shaw (2019) - além do subestimado e estiloso "Atômica" (2017) - deixou de lado o tom mais sério proposto no projeto original para assumir sem medo o caos, o deboche e a ironia. Com diálogos rápidos, idas e vindas no tempo, cenas de luta empolgantes e personagens excêntricos, o roteiro de "Trem-bala" nem sempre é rigorosamente fiel a seu material original, mas até mesmo as alterações feitas na trama do livro servem com perfeição à visão iconoclasta de Leitch, que prescinde das definições levianas de heróis e vilões, algozes e vítimas: durante as pouco mais de duas horas de duração do filme, nada que é dito é completamente confiável e nenhuma verdade é absoluta. Tal opção pelo dúbio e pela diversão ao invés da sobriedade faz de "Trem-bala" um produto raro, um respiro muito bem-vindo a um gênero que normalmente falha em tal equilíbrio. E se a presença de Brad Pitt parece apontar para um filme calcado em um grande astro - e caro, com um cachê milionário de 20 milhões de dólares -, o desenvolvimento do roteiro insiste em sua principal característica: não há um personagem central além do trem que dá nome ao filme. 

A princípio até pode parecer que Pitt é o personagem principal da trama, já que é o maior nome do cartaz e o primeiro a surgir na tela, mas não demora para que fique perceptível que seu Ladybug é apenas uma peça em um tabuleiro repleto delas. Escalado por sua superior (cuja intérprete-surpresa surge apenas nos momentos finais) a recuperar uma maleta em um trem-bala que viaja de Tóquio a Kyoto, Ladybug - que está passando por momentos difíceis na carreira, sendo acusado de não conseguir lidar com a agressividade - embarca no veículo sem ter a menor ideia de que sua missão está longe de ser simples como parece. No mesmo local, estão outros dois assassinos de aluguel, Tangerine (Aaron Taylor-Johnson) e Lemon (Bryan Tyree Henry), e a misteriosa Prince (Joey King) - que apesar do nome, esconde uma identidade feminina e um violento trauma familiar. Contratados pelo infame mafioso White Death (Michael Shannon) para salvar seu jovem filho das mãos de sequestradores, Lemon e Tangerine acabam por cruzar o caminho de outros criminosos beligerantes e cruéis - e, no decorrer do caminho, alianças são feitas e desfeitas, fatos do passado são trazidos à tona, reviravoltas acontecem a cada parada e até uma cobra assassina parece fazer parte de uma trama cujos desdobramentos remetem a coincidências das mais bizarras.

"Trem-bala" é um filme com inúmeras qualidades, mas justamente elas podem incomodar parte dos espectadores. Seu humor - um tanto macabro e violento - não é exatamente convencional. A estrutura do roteiro - repleta de flashbacks e flash forwards -  obriga a uma atenção extra que poucos estão dispostos a conceder diante do cinema quase preguiçoso que vem sendo oferecido pelos grandes estúdios. A falta de um herói - por mais que Ladybug seja uma espécie de fio condutor da trama ele não é o protagonista absoluto - talvez confunda àqueles que buscam uma narrativa mais simples. E o visual elaborado (cortesia da fotografia admirável de Jonathan Sela) pode soar como excessivamente colorido e kitsch. Mas o fato é que, somadas todas as características que fazem dele um filme de ação que tenta fugir da pasteurização do gênero, o resultado é uma produção muito acima da média, que não perde o ritmo em momento algum, que apresenta personagens interessantes interpretados por um elenco impecável e que não hesita em oferecer sequências coreografadas com precisão cirúrgica. É divertido, inteligente e produzido com extrema competência. Quanto ao fato de ser baseado em um livro japonês e contar com atores ocidentais é uma outra discussão, mais séria e mais profunda que em nada atrapalha o prazer de ser envolvido por um filme por 127 minutos de entretenimento puro.

quarta-feira

ARGENTINA, 1985

 


ARGENTINA, 1985 (Argentina, 1985, 2022, La Unión de los Ríos/Kenya Films/Infinity Hills, 140min) Direção: Santiago Mitre. Roteiro: Santiago Mitre, Mariano Llinás, Martín Mauregui (colaborador). Fotografia: Javier Julia. Montagem: Andrés Pepe Estrada. Música: Pedro Osuna. Figurino: Mônica Toschi. Direção de arte/cenários: Micaela Saiegh. Produção executiva: Phin Glynn, Cindy Teperman. Produção: Victoria Alonso, Santiago Carabante, Chino Darín, Ricardo Darín, Axel Kuschevatzky, Agustina Llambi Campbell, Santiago Mitre, Federico Posternak, Ana Taleb. Elenco: Ricardo Darín, Peter Lanzani, Alejandra Fletchner, Paula Ransenberg. Estreia: 03/9/2021 (Festival de Veneza)

Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Internacional

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional 


As cicatrizes que a ditadura militar deixou na sociedade argentina ainda se fazem sentir no país, mesmo depois de quatro décadas após seu final. Pelo menos é que dizem filmes como "A história oficial" (1985), de Luis Puenzo - que concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro - e o novo "Argentina, 1985", o fascinante petardo do diretor Santiago Mitre que concorreu ao Oscar 2023 na mesma categoria. Porém, enquanto a obra-prima de Puenzo direcionava suas câmeras a um olhar mais particular sobre o trágico período político encerrado em 1983 (com a história de uma professora descobrindo as origens de sua pequena filha adotiva), a produção de Mitre se debruça explicitamente sobre os crimes cometidos pelos militares - estupros, assassinatos, torturas - para fazer uma espécie de inventário de suas atrocidades e, por consequência, alertar sobre os perigos de que voltem a acontecer. Momentoso, sóbrio e inteligente, o filme, estrelado pelo sempre ótimo Ricardo Darín, surge na hora apropriada, mas seu sucesso não deve ser creditado somente à sua importância política: "Argentina, 1985" é cinema de primeira linha, um filmaço que consegue unir, em duas horas e meia de projeção, entretenimento e relevância histórica.

O filme de Mitre elege como protagonista o promotor público Julio Strassera (Ricardo Darín), escalado para ser o responsável pelo julgamento dos militares de alta patente acusados da violenta repressão  contra os críticos ao governo ditatorial que dominou o país entre 1963 e 1983. Contando com o apoio do jovem advogado Luis Moreno Ocampo (Juan Pedro Lanzani) - que entra em rota de colisão com a família, formada por apoiadores do regime - e um grupo de estagiários cuja vontade de ganhar a causa é inversamente proporcional a sua pouca idade, Strassera aceita a missão contra a vontade, ciente das consequências de um julgamento tão polêmico. Porém, conforme as sessões avançam e as ameaças contra ele, sua mulher e seus filhos aumentam, ele vê aumentar cada vez mais sua sede de justiça - especialmente diante de depoimentos contundentes das vítimas, que estabelecem um grau de crueldade e violência impossíveis de ignorar. Strassera sabe que a condenação dos réus é a única forma de evitar que tal atrocidade venha a repetir-se.

 

Fugindo do tom semi-documental que fatalmente acomete produções de teor político, "Argentina, 1985" não abre mão, no entanto, de deixar bem clara as suas intenções de desenterrar o passado sombrio do país. O roteiro, perfeitamente equilibrado entre dramas pessoais e questões jurídicas que jamais descambam para a verborragia técnica que poderia afastar o espectador, não hesita em explicitar, através de testemunhas e documentos, toda a fúria sanguinária de homens que tentavam, através da força física e psicológica, destruir seus inimigos políticos da forma mais vil. São momentos como esses, em que vítimas narram suas dores, que fazem do filme de Santiago Mitre um petardo histórico e emocional, em contraponto à frieza de todas as sequências em que são discutidos detalhes de bastidores. Em especial no terço final da produção, o cineasta parece abraçar definitivamente o desejo de comover a plateia, encaminhando-a para um clímax arrepiante e, melhor ainda, perfeitamente acurado e fiel aos fatos.

É admirável que o roteiro de "Argentina, 1985" - escrito por Mitre e Mariano Llinás - consiga a façanha de ser, ao mesmo tempo, informativo e dramaticamente consistente. Apesar de dedicar boa parte de sua narrativa a um estudo fidedigno dos processos jurídicos retratados e dos documentos oficiais, a trama encontra espaço suficiente para humanizar seus protagonistas e aproximá-los do espectador mais comum. Enquanto Strassera precisa lidar com as ameaças que sofre para abandonar o julgamento - em sequências tensas e editadas com precisão -, Ocampo sente na pele as consequências de enfrentar um sistema de violência ao tornar-se um pária dentro da própria família. Para isso, o diretor recebe o auxílio impecável de um elenco exemplar, liderado por Ricardo Darín, mais uma vez brilhante: um dos produtores do filme (ao lado do filho, o também ator Chino Darín), o astro mais popular do cinema argentino faz mais um gol de placa - e com o Golden Globe em mãos, voltou com prestígio à cerimônia da Academia, que em 2010 premiou o hoje quase clássico "O segredo dos seus olhos". Forte e tocante, "Argentina, 1985" é nada menos que obrigatório.

segunda-feira

PEARL

 

PEARL (Pearl, 2022, A24, 103min) Direção: Ti West. Roteiro: Ti West, Mia Goth, personagens criados por Ti West. Fotografia: Elliot Rockett. Montagem: Ti West. Música: Tyler Bates, Tim Williams. Figurino: Malgosia Turzanska. Direção de arte/cenários: Tom Hammock/Thomas Salpietro. Produção executiva: Kim Cudi, Dennis Cummings, Mia Goth, Ashley Levinson, Sam Levinson, Karina Manashil, Peter Phok. Produção: Jacob Jaffke, Kevin Turen, Ti West. Elenco: Mia Goth, David Corenswet, Tandi Wright, Matthew Sutherland, Emma Jenkins-Purro, Alistair Sewell. Estreia: 03/9/2022 (Festival de Veneza)

Não é nenhuma novidade o fato de filmes de sucesso darem origem a continuações - mesmo quando a fonte aparentemente secou. O caso de "Pearl" é diferente. Não apenas é uma prequel - tendência que vem se firmando há alguns anos como forma de expandir o universo de deterrminadas produções  -, mas é, também, uma prequel realizada concomitantemente com seu filme original - o terror "X: A marca da morte" - e uma aposta arriscada da produtora A24, que deu sinal verde ao projeto antes mesmo de saber do resultado comercial e crítico do primeiro filme. Filmado em segredo enquanto o diretor Ti West também conduzia "X" (com a mesma atriz, Mia Goth, em papel duplo), "Pearl" foi lançado seis meses depois da estreia de seu original e, para surpresa de todos, agradou ainda mais ao evitar o rótulo de slasher e, aprofundando a personalidade doentia de sua protagonista, atingir bons momentos de um suspense psicológico, valorizado pela presença da excepcional Goth , que não apenas coassinou o roteiro com West mas também descolou um crédito como produtora executiva. Neta da atriz brasileira Maria Gladys, Goth é uma revelação, que faz do filme uma gratíssima surpresa no gênero justamente no momento em que ele começa a se reinventar - em boa parte graças a produções da mesma A24.

Se "X já demonstrava acima de qualquer dúvida o talento de Ti West em manipular as regras dos filmes de terror a seu favor - enfatizando suas qualidades e disfarçando seus pecados com um visual atraente e referências que soam orgânicas e não apenas exibicionismo barato -, "Pearl" consegue ir ainda mais longe, ao oferecer requintes de produção surpreendentes em relação ao orçamento e um roteiro que dribla os clichês, fundamenta boa parte dos acontecimentos do primeiro filme (que ocorre décadas mais tarde) e ainda por cima homenageia o cinema em si. Com citações (óbvias ou nem tanto) a produções como "O que terá acontecido a Baby Jane?" (1962), "O mágico de Oz" (1939), musicais clássicos e até ao quase obscuro "A free ride" (1915) - considerado uma das primeiras produções pornográficas da história e cuja autoria ainda causa polêmicas -, West constrói, de maneira gradual e inteligente, uma das personalidades mais sombrias dos últimos anos, a da aparentemente doce Pearl - que, por trás da aparência dócil e submissa, esconde um monstro prestes a destroçar qualquer vestígio de civilidade.


 

A trama se passa em 1918, em uma fazenda no interior do Texas - a mesma fazenda que irá servir de cenário para os atores que a alugam em "X": é nessa fazenda, afastada da civilização, que mora a jovem Pearl (Mia Goth) e seus pais, imigrantes alemães com quem mantém uma relação conturbada. Seu pai vive em uma cadeira de rodas e sua mãe, rígida e pouco afeita a carinhos, tampouco lhe oferece qualquer tipo de apoio emocional. Casada com Howard, um soldado que está no front da I Guerra, Pearl esconde da família o seu sonho de tornar-se uma estrela de cinema - desejo que se torna ainda maior quando ela conhece o jovem projecionista do cinema local, que a apresenta ainda a filmes eróticos e à possibilidade de tentar uma carreira na Europa. O renascimento de tal sonho, no entanto, acaba se tornado um problema quando Pearl esbarra em sua triste realidade doméstica. Sua solução para isso acaba por levá-la a atos de violência, que fogem totalmente de controle quando ela percebe que talvez não tenha talento suficiente para fugir de sua massacrante rotina familiar.

Sem abrir mão da violência que se poderia esperar de um filme do gênero, Ti West fez de "Pearl" uma joia rara dentro do universo do cinema de terror. Suas inovações não se limitam apenas à concepção visual - cores fortes, reconstituição de época cuidadosa -, mas principalmente a sua opção em fazer de sua protagonista não apenas uma potencial assassina, mas uma mulher mentalmente torturada por sonhos impossíveis, uma rotina massacrante e, logicamente, distúrbios psicológicos à espera de uma catarse. Nesse ponto é a atuação avassaladora de Mia Goth o grande trunfo do filme: com expressões faciais marcantes - que poderiam facilmente descambar para a caricatura, em mãos menos competentes - e uma construção fascinante de corpo, Goth simplesmente engole tudo a seu redor e é responsável por fazer com que "Pearl" escape facilmente das limitações de seu gênero e se inscreva como um dos grandes pequenos filmes dos últimos anos. Fazendo jus a seu título, "Pearl" é, sem favor, uma pérola a ser apreciada por qualquer fã de bom cinema.

sexta-feira

INGRESSO PARA O PARAÍSO

 


INGRESSO PARA O PARAÍSO (Ticket to paradise, 2022, Universal Pictures/Working Title Films, 104min) Direção: Ol Parker. Roteiro: Ol Parker, Daniel Pipski. Fotografia: Ole Bratt Birkeland. Montagem: Peter Lambert. Música: Lorne Balfe. Figurino: Lizzy Gardiner. Direção de arte/cenários: Owen Patterson/Nikki Barrett. Produção executiva: George Clooney, Jennifer Cornwell, Marisa Yeres Gill, Lisa Gillan, Amelia Granger, Grant Heslov, Rebecca Miller, Julia Roberts, Sarah-Jane Robinson, Nicholas Simpson, Sam Thompson. Produção: Deborah Balderstone, Tim Bevan, Eric Fellner, Sarah Harvey. Elenco: George Clooney, Julia Roberts, Kaitlyn Dever, Billie Lourd, Maxime Bouttier. Estreia: 08/9/2022

Poucas pessoas no mundo perderiam a chance de viajar a uma praia paradisíaca em companhia de um dos melhores amigos e ainda ganhar uma fortuna para isso. E dentre essas pessoas não se incluem Julia Roberts e George Clooney: dois dos maiores astros de Hollywood, ricos, bonitos, famosos e bem-sucedidos (além de amigos e parceiros profissionais), eles voltam a se encontrar na frente das câmeras (e atrás também, já que assinam como produtores executivos) na comédia romântica "Ingresso para o paraíso" uma bobagem simpática e fotogênica que pouco faz por suas carreiras. Longe de ser um desastre completo mas tampouco memorável, o filme de Ol Parker - cujo currículo ainda pequeno inclui "Mamma Mia! Lá vamos nós de novo" (2018) e outras produções menores - usa e abusa do carisma de seus protagonistas e das belas paisagens naturais da Austrália (posando de Bali) para contar uma história sem maiores novidades, mas que pode agradar aos menos exigentes e os cinéfilos que nao vivem sem um romance  fictício.

Previsível sucesso de bilheteria - mais de 160 milhões de dólares arrecadados no mercado internacional -, "Ingresso para o paraíso" foi disputado por várias plataformas de streaming ainda em sua fase de pré-produção: entusiasmadas com a reunião de Roberts e Clooney, todas elas desejavam a chance de adicionar mais um êxito em seu catálogo, mas, acertadamente, a Working Title Films preferiu um lançamento em salas de exibição, tentando uma retomada pós-Covid-19, e a distribuição nos cinemas ficou a cargo da Universal Pictures. Deu certo: atingindo em cheio seu público-alvo, o filme não decepcionou em termos comerciais, ainda que não tenha feito o barulho esperado junto às demais plateias. Justificável. Apesar de seus protagonistas exalarem o charme que lhes é característico e de uma ou outra boa piada, o trabalho de Parker soa como mais do mesmo - mas, no final das contas, isso não chega a ser novidade quando se trata de comédias românticas, que parece ter, entre suas regras de ouro, nunca mexer em time que está ganhando. Em outras palavras, "Ingresso para o paraíso" é um filme ideal para quem procura uma produção da qual se é possível adivinhar o final desde a primeira cena - ou até mesmo desde o cartaz.

 

Casados graças aos arroubos da juventude, David (George Clooney) e Georgia Cotton (Julia Roberts) ficaram juntos apenas cinco anos, tempo suficiente para descobrirem uma imensa incompatibilidade de gênios e porem no mundo uma única filha, Lily (Kaitlyn Denver). Adulta, Lily é a responsável por reunir seus pais em ocasiões especiais, como sua formatura - e por impedir que a animosidade do ex-casal atrapalhe qualquer evento em que se encontrem juntos. Depois de um período de férias antes de iniciar uma carreira de advogada, porém, Lily surpreende os pais ao anunciar que está perdidamente apaixonada e irá se casar. Se a notícia já seria um choque normalmente, os detalhes são ainda mais perturbadores: sua jovem e bela filha irá abandonar tudo para ficar em Bali com o marido nativo, Gede (Maxime Bouttier). Temerosos que a filha repita o maior erro de suas vidas, os ex-casados deixam de lado suas diferenças e partem para a Indonésia com o objetivo de impedir o casamento - mas a magia da beleza local resolve agir e fazê-los rever seus sentimentos.

Avesso a comédias românticas desde que fez "Um dia especial" (1996) - ao lado de Michelle Pfeiffer -, George Clooney voltou ao gênero com a certeza de que seu carisma (somado ao sorriso radiante de Julia Roberts) seria o suficiente para garantir um belo retorno. Acertou em termos. "Ingresso para o paraíso" insiste em piadas sobre diferenças culturais, desencontros amorosos, diálogos sarcásticos e um visual de tirar o fôlego, como forma de disfarçar a fragilidade de seu roteiro. Algumas vezes tais artifícios funcionam, principalmente pelo talento dos dois astros, mas frequentemente fica a impressão de que o elenco se divertiu mais fazendo o filme do que a plateia quando o assiste. Talvez um pouco longo demais - uma edição mais enxuta provavelmente deixaria o ritmo menos truncado e a trama menos repetitiva -, o filme de Ol Parker segura bem uma sessão da tarde em um dia chuvoso, mas dificilmente será lembrado como um destaque na carreira de seus atores - ambos em momentos da carreira em que não precisam mais provar nada a ninguém. Divertido mas sem o brilhantismo das melhores comédias do gênero, "Ingresso para o paraíso" é um filme para fãs e ocasionais cinéfilos românticos.

O ENFERMEIRO DA NOITE


O ENFERMEIRO DA NOITE (The good nurse, 2022, FilmNation Entertainment/Netflix, 121min) Direção: Tobias Lindholm. Roteiro: Krysty Wilson-Cairns, livro de Charles Graeber. Fotografia: Jody Lee Lipes. Montagem: Adam Nielsen. Música: Biosphere. Figurino: Amy Westcott. Direção de arte/cenários: Shane Valentino/Alyssa Winter. Produção executiva: Glen Basner, Ignacio de Medina, Jonathan Filley, Ari Handel, Josh Stern. Produção: Darren Aronofsky, Scott Franklin, Michael Jackman. Elenco: Jessica Chastain, Eddie Redmayne, Noah Emmerich, Kim Dickens, Nnmandi Asomugha. Estreia: 11/9/2022 (Festival de Toronto)

Pode um filme falar sobre um serial killer que matou provavelmente centenas de pessoas contar sua história sem mostrar uma única gota de sangue? "O enfermeiro da noite", baseado na trajetória assassina de Charles Cullen - encerrada com sua prisão, em 2003 - prova que a resposta é positiva. Lançado no Festival de Toronto de 2022 cerca de um mês antes de estrear na Netflix, em outubro do mesmo ano, o primeiro longa-metragem em inglês do dinamarquês Tobias Lindholm foca na investigação policial que levou Cullen à cadeia, e é conduzido com sobriedade e discrição, evitando o sensacionalismo normalmente atrelado a produções do gênero. Com sua experiência na condução de dois episódios da série "Mindhunter", Lindholm se aproveita do talento de seu elenco e do roteiro conciso, baseado em um livro investigativo de Charles Graeber, para envolver o espectador em um drama claustrofóbico, cuja elegância visual não consegue disfarçar a tensão inerente a uma trama perturbadora.

O filme começa - logo depois de um prólogo que dá uma ideia do que está por vir - quando o jovem enfermeiro Charles Cullen (Eddie Redmayne) é contratado para trabalhar no turno da noite do Parkfield Memorial Hospital, localizado em Nova Jersey (estabelecimento fictício que substitui o verdadeiro Somerset Medical Center). Solícito, gentil e dedicado, não demora para que Charles se torne amigo da colega Amy Loughren (Jessica Chastain), que divide seu tempo entre o trabalho, os cuidados com as duas filhas pequenas e a luta para curar um problema cardíaco. A amizade entre os dois vai se aprofundando com o tempo, e Amy passa a contar com o novo colega em suas batalhas diárias. As coisas mudam, porém, quando pacientes sob a supervisão de Cullen, independentemente da idade e em condições razoáveis de saúde, começam a morrer inexplicavelmente. Desconfiada de que seu amigo pode estar por trás dos óbitos, a enfermeira resolve colaborar com a polícia, nas figuras de Tim Braun (Noah Emmerich) e Danny Baldwin (Nnmandi Asomugha).


 

Com uma história que praticamente implora por um tom sensacionalista, "O enfermeiro da noite" encontra, na direção de Tobias Lindholm, um viés mais intimista, que opta pelas crises pessoais de seus protagonistas, em detrimento às regras mais óbvias em um filme de suspense. Para isso, conta com a presença sempre potente de Jessica Chastain, em papel mais discreto do que aquele que lhe rendeu um Oscar, por "Os olhos de Tammy Faye": em um trabalho quase silencioso, que explora o olhar e o corpo mais do que longos diálogos, Chastain empresta à Amy Loughren atitudes estoicas e corajosas que despertam a imediata empatia do público, e bate de frente com mais um desempenho econômico e eficiente de Eddie Redmayne. Longe dos trejeitos que poderiam fazer de seu Charles Cullen um monstro clichê, o ator vencedor do Oscar por "A teoria de tudo" (2014) expressa a personalidade transtornada de Cullen através de sorrisos melífluos, atitudes gentis e a aparência de um homem absolutamente normal - como qualquer psicopata -, mas, de forma inteligente, nunca deixa de fazer com que seus gestos soem ameaçadores, o que fica claro em sua última conversa com Amy, uma sequência elaborada com precisão para deixar a plateia com a respiração suspensa. Além disso, somada às atuações exemplares de seus atores centrais, a fotografia acinzentada deixa no ar a sensação constante de pesadelo monocromático e sufocante, que dialoga com o desenvolvimento apropriadamente lento do filme de Lindholm.

Roteirista de filmes premiados, como "A caça" (2012) e "Druk: mais uma rodada" (2020), Lindholm faz sua estreia como diretor de longa-metragens em inglês com o pé direito. Ao renegar qualquer lugar-comum de filmes sobre psicopatas, o cineasta  afirma sua personalidade própria, que busca o envolvimento do espectador sem artifícios que não a objetividade. Sua decisão em focar a narrativa na relação entre Amy e Charles foge do padrão "mortes+investigação+confronto" para inserir, na receita,  um ritmo mais comum em dramas do que em filmes de suspense - o que pode desnortear os cinéfilos mais puristas, mas que acrescenta uma profundidade maior à sua obra. Por mais que em alguns momentos "O enfermeiro da noite" soe como um telefilme, sua seriedade em lidar com um tema complexo e polêmico merece aplausos - especialmente se, junto com ela, é possível testemunhar mais um trabalho admirável de Jessica Chastain, uma das melhores atrizes de sua geração, e Eddie Redmayne, em franca ascensão dentro da indústria hollywoodiana. 

 

quinta-feira

VEJA COMO ELES CORREM


VEJA COMO ELES CORREM (See how they run, 2022, Searchlight Pictures, 98min) Direção: Tom George. Roteiro: Mark Chappell. Fotografia: Jamie D. Ramsay. Montagem: Gary Dollner, Peter Lambert. Música: Daniel Pemberton. Figurino: Odile Dicks-Mireaux. Direção de arte/cenários: Amanda McArhur/Celia De La Hey. Produção: Gina Carter, Damian Jones. Elenco: Sam Rockwell, Saoirse Ronan, Adrien Brody, David Oyelowo, Harris Dickinson, Gregory Cox, Maggie McCarthy, Charlie Cooper, Ruth Wilson, Reece Shearsmith, Sian Clifford, Jacob Fortune-Lloyd, Shirley Henderson. Estreia: 08/9/2022

Em 25 de novembro de 1952, em Londres, estreava a peça "A ratoeira", da escritora policial Agatha Christie - depois de uma pequena turnê por outras cidades inglesas. Desde então, com exceção de um período de 14 meses de paralisação por conta da Covid-19, nunca mais saiu de cartaz, tendo seu elenco substituído todo ano e se mantendo como uma das obras mais duradouras do teatro mundial. Nunca adaptado por Hollywood - uma cláusula de seu contrato estipula que nenhuma versão para as telas pode ser realizada antes de transcorridos seis meses desde o encerramento das apresentações -, mas com um versão indiana e outra russa, devidamente disfarçadas, o texto de Christie é considerado um exemplo perfeito de seu estilo e um clássico do gênero whodunit? (quem matou?). "Veja como eles correm", estrelado por Sam Rockwell e Saoirse Ronan, é uma divertida e criativa homenagem, tanto à peça em si quanto à obra da escritora. Repleto de referências sutis (ou nem tanto) e dotado de um humor britânico em toda a sua mordacidade, o filme de Tom George oferece ao espectador uma hora e meia de inteligência, valorizada por um visual caprichado e um elenco em dias de graça.

A trama de "Veja como eles correm" - título que copia o segundo verso da canção infantil "Três ratos cegos", que também deu nome à peça radiofônica e ao conto que mais tarde se transformaram em "A ratoeira" - se passa em 1953, quando a peça de Agatha Christie está comemorando sua 100ª apresentação em Londres. O sucesso estrondoso da produção acaba de chamar a atenção de produtores de cinema, que tencionam levá-la às telas o quanto antes, sob a direção do excêntrico Leo Kopernick (Adrien Brody), que chega dos EUA com a missão de comandar a adaptação - que, como se sabe, só será possível seis meses depois do encerramento da temporada teatral. Quando o pouco simpático Kopernick é assassinado e tem seu corpo deixado no cenário do teatro, é chamado o inspetor de polícia Stoppard (Sam Rockwell), que, com seu jeito desleixado, inspira pouca confiança. Com a ajuda da jovem policial Constable Stalker (Saoirse Ronan) - deslumbrada com a possibilidade de investigar um crime acontecido no meio artístico, pelo qual é fascinada -, Stoppard passa a conviver com produtores, atores, roteiristas e demais membros da companhia teatral, em busca do nome do assassino, que não demora em fazer novas vítimas.


 

Com um roteiro recheado de brincadeiras que frequentemente escapam ao público médio - o inspetor tem o nome em homenagem ao dramaturgo Tom Stoppard, que escreveu uma paródia de "A ratoeira", e o mordomo de Agatha Christie tem o mesmo sobrenome de Julian Fellowes, premiado com o Oscar de roteiro original por "Assassinato em Gosford Park" (2001), que bebe na fonte da autora inglesa - e um visual criativo que mescla ângulos de câmera inusitados com uma edição que usa e abusa de pontos de vista alternativos, "Veja como eles correm" funciona como comédia satírica e como filme policial, com direito a reviravoltas e um desfecho típico da criadora de Hercule Poirot e Miss Marple - e que inclusive tem participação efetiva no clímax da história, sendo interpretada por Shirley Henderson. Com uma fotografia de cores fortes e uma direção de arte cuidadosamente elaborada, o filme de Tom George - estreando no cinema, em um gênero do qual não é exatamente fã, segundo suas próprias palavras - faz lembrar, em alguns momentos, o brilhante "Assassinato por morte" (1976), de Robert Moore, que unia, no mesmo ambiente, os mais famosos detetives policiais da literatura para investigar um crime: enquanto o espectador tenta adivinhar a identidade do culpado (a), acompanhando as aventuras de Stoppard e Constable, se diverte com diálogos espirituosos e a união certeira entre personagens fictícios e personalidades reais, como o ator e diretor Richard Attenborough (vivido aqui por Harris Dickinson).

E por falar em Stoppard e Constable, a química entre Sam Rockwell e Saoirse Ronan é preciosa: ele vive um policial pouco exemplar (e inspirado em Peter Sellers e seu Inspetor Clouseau) e ela, uma das atrizes mais elogiadas de sua geração, demonstra um timing cômico dos mais agradáveis, na pele de uma ambiciosa e ansiosa aspirante a maiores voos profissionais. Além deles, brilha Adrien Brody como Leo Kopernick, o detestável cineasta que encontra a morte logo nos minutos iniciais - mas que permanece em cena, em flashbacks que conduzem a investigação dos protagonistas: sem medo de mostrar uma persona pouco simpática, Brody parece se divertir em cada cena, em cada diálogo. E é exatamente esse tom irônico e bem-humorado o maior trunfo de "Veja como eles correm", um passatempo dos mais interessantes e sagazes da temporada.

 

terça-feira

NÃO SE PREOCUPE, QUERIDA


NÃO SE PREOCUPE, QUERIDA (Don't worry, darling, 2022, Warner Bros, 123min) Direção: Olivia Wilde. Roteiro: Katie Silberman, estória de Carey Van Dyke, Shane Van Dyke, Katie Silberman. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Affonso Gonçalves. Música: John Powell. Figurino: Arianne Phillips. Direção de arte/cenários: Katie Byron/Rachael Ferrara. Produção executiva: Richard Brener, Catherine Hardwicke, Celia Khong, Alex G. Scott, Carey Van Dyke, Shane Van Dyke. Produção: Roy Lee, Katie Silberman, Olivia Wilde, Miri Yoon. Elenco: Florence Pugh, Harry Styles, Olivia Wilde, Chris Pine, Kiki Layne, Gemma Chan, Nick Kroll, Sydney Chandler, Kate Berlant, Asif Ali, Douglas Smith, Timothy Simons. Estreia: 05/9/2022 (Festival de Veneza)

Não deixa de ser estranho quando os bastidores de um filme chamam mais a atenção da mídia e do público do que seu resultado final. É o caso de "Não se preocupe, querida", segundo longa-metragem dirigido pela atriz Olivia Wilde, que estreou no Festival de Veneza de 2022 depois de uma chuva de fofocas a respeito dos inúmeros conflitos ocorridos durante as filmagens. Uma distopia aos moldes de "As mulheres perfeitas", de Ira Levin - que deu origem a duas versões cinematográficas, em 1968 e 2005 - e temperado com uma paranoia digna dos melhores filmes realizados em Hollywood nas décadas de 1950 e 1960 -, a obra de Wilde não teve a mais entusiasmada das recepções da crítica em seu lançamento, mas, apesar de não ser tão empolgante quanto seu primeiro trabalho atrás das câmeras - a comédia "Foras de série" (2019) -, é bem menos desastroso do que se poderia supor, diante da generalizada má-vontade da imprensa e de boa parte do público.

Com influência declarada de "A origem (2010) e "O show de Truman: o show da vida" (1998), o filme de Olivia Wilde também cita, de uma forma ou outra, obras aparentemente díspares, como os livros "Frankenstein", de Mary Shelley, e "Alice no país das maravilhas", de Lewis Carroll. Com uma direção de arte elaborada de maneira a soar claustrofobicamente simétrica e soluções visuais criativas e inteligentes - que homenageiam os clássicos números musicais coreografados por Busby Berkeley na Hollywood dos anos 1930 -, "Não se preocupe, querida" demonstra, em certos aspectos, uma evolução da diretora em termos de ambição e técnica. Substituindo a simplicidade de sua primeira obra por uma narrativa mais rebuscada e repleta de camadas, Wilde exige mais do espectador do que simplesmente acompanhar sua trama - um roteiro intrincado que apresenta inúmeras perguntas e não faz questão de respondê-las de forma simples. Valorizado pela fotografia de Matthew Libatique - que sublinha o desespero da protagonista ao mesmo tempo em que ilustra o tom monocromático de seu ambiente - e pela edição do brasileiro Affonso Gonçalves - que deixa pistas pelo caminho, indicando ao espectador os rumos da história -, "Não se preocupe, querida" também ousa fugir do óbvio ao enveredar, em seu terço final, por uma mudança de gênero que surpreende e o deixa ainda mais instigante: por mais que se suspeite do que pode estar acontecendo, o desfecho não deixa de ser um choque.

 

A trama se passa em algum momento da década de 1950, e apresenta o jovem e apaixonado casal Alice (a sensacional Florence Pugh) e Jack Chambers (o cantor britânico Harry Styles se saindo bastante bem), que estão vivendo um feliz momento de seu casamento. Jack está em franca ascensão profissional, ainda que sua bela esposa não saiba exatamente qual seu ramo de atuação. O que ela sabe - assim como as outras esposas que vivem em sua vizinhança, em uma idílica cidade californiana chamada Victory - é que todos os maridos trabalham sob as asas do poderoso e carismático Frank (Chris Pine) e que tudo relacionado à empresa é envolto em mistério, sob a alegação de segurança nacional. A vida repetitiva de Alice - que suas companheiras consideram um bálsamo - consiste de cuidar da casa, beber à beira da piscina com as amigas, aulas de balé e ocasionais jantares frequentados sempre pelos mesmos convidados. De uma hora para outra, no entanto, Alice começa a ter pesadelos e visões estranhas, que a atormentam a ponto de incomodar seu relacionamento e a lei do silêncio que perpassa sua rotina. Quando uma outra esposa começa a se comportar de forma inconveniente e é violentamente silenciada, Alice resolve desafiar as regras - e entra em um território assustador.

Olivia Wilde consegue conduzir seu filme com segurança o bastante para manter o interesse do público até seus minutos finais - apesar de seu ritmo por vezes um tanto hesitante - e extrair de seus atores performances notáveis, mesmo com todos os problemas nos bastidores, que começaram com a demissão de Shia LaBeouf, cuja saída de cena nunca chegou a ser devidamente explicada. Algumas fontes creditavam tal situação a um conflito de agendas, mas não demorou muito para que surgisse a informação de que LaBeouf havia sido despedido por causa de uma série de embates com a diretora e o elenco - o que confirmava a reputação de difícil que sempre precede o ator. Um terceiro round, porém, veio à tona quando o ator afirmou que ele mesmo havia abandonado o projeto apesar dos apelos de Wilde, que queria mantê-lo no papel principal mesmo diante da falta de harmonia entre ele e Florence Pugh - que, por sua vez, foi escolhida para o elenco graças a seu desempenho em "Midsommar: o mal não espera a noite" (2019). Um vídeo chegou a vazar na Internet com os pedidos de Wilde para que ele permanecesse no filme -  mas mais tarde, textos entre Pugh e o ator, também disponibilizados online, não demonstravam pistas de tal conflito entre eles. Não bastasse tanta confusão por trás das câmeras, o romance entre Wilde e seu novo ator central, Harry Stles, caiu como uma bomba: a atriz/diretora estava recém saindo de um casamento de sete anos com o ator Jason Sudeikis e o novo namoro pareceu atrapalhar sua concentração nos sets - o que resultou em constantes rusgas entre a cineasta e sua protagonista feminina, que, por acaso ou não, não demonstrou o menor esforço em promover o filme além do expressamente necessário. 

O fato é que, apesar dos problemas fora das telas, "Não se preocupe, querida" é um filme que sobrevive aos pequenos escândalos durante seu processo de realização. Intrigante, inteligente e visualmente atraente, é um filme que merece ser apreciado por suas qualidades - e não rechaçado por questões alheias a seus méritos artísticos.

segunda-feira

X: A MARCA DA MORTE


X: A MARCA DA MORTE (X, 2022, A24, 105min) Direção e roteiro: Ti West. Fotografia: Eliot Rockett. Montagem: David Kasheravoff, Ti West. Música: Tyler Bates, Chelsea Wolfe. Figurino: Malgosia Turzanska. Direção de arte/cenários: Tom Hammock/Tom Salpietro. Produção executiva: Scott Mescudi, Dennis Cummings, Ashley Levinson, Sam Levinson, Karina Manashil, Peter Phok. Produção: Jacob Jaffke, Harrison Kreiss, Kevin Turen, Ti West. Elenco: Martin Henderson, Mia Goth, Jenna Ortega, Brittany Snow, Kim Cudy, Owen Campbell, Stephen Ure, James Gaylyn. Estreia: 13/3/2022 (South by Southwest Film Festival)

Quem perceber, logo nos primeiros minutos de "X: A marca da morte" um tom que lembra filmes como a série "Sexta-feira 13" não estará completamente enganado. Bebendo diretamente na fonte dos slasher movies que fizeram a alegria dos fãs do cinema de terror a partir dos anos 1980, o diretor e roteirista Ti West brinda o público com uma produção que, apesar de referências bastante claras, imprime uma identidade própria, o apontando como um dos nomes mais promissores da nova geração de diretores de filmes de terror - ainda que já tenha tentado a sorte também no western, com "Terra violenta", de 2016. Usando e abusando de ângulos criativos e subvertendo algumas das regras essenciais do gênero, West agradou em cheio os aficcionados e pegou de surpresa a crítica - especialmente quando, poucos meses depois, lançou um prequel filmado quase concomitantemente, o perturbador "Pérola", que mostra a juventude de uma de suas protagonistas.

Violento como todo bom filme do gênero, "X" deve seu nome à classificação dos censores norte-americanos a filmes pornográficos - estilo da produção que o ambicioso produtor Wayne (o sumido Martin Henderson, de "O chamado") tenciona realizar em uma fazenda no interior do Texas no ano de 1979. Para reinventar os filmes eróticos produzidos até então, ele leva até o local uma equipe que compartilha com ele o desejo de fazer parte de um projeto vencedor e revolucionário chamado "A filha do fazendeiro": o roteirista e diretor R.J. (Owen Campbell), sua namorada e operadora de som, Lorraine (Jenna Ortega, a dupla de astros, Bobby-Lynne (Brittany Snow) e Jackson (Kid Cudi), e a estreante Maxine Minx (Mia Goth) - namorada do produtor. A chegada da trupe incomoda o proprietário da fazenda, Howard (Stephen Ure), que não esperava tanta gente em sua fazenda, especialmente para a realização de um filme pornô. A situação também não é do agrado da velha esposa de Howard, Pearl (também Mia Goth), que mantém ideias conservadoras o suficiente para rechaçar, com o máximo de truculência, o trabalho do grupo. Da tortura psicológica a um banho de sangue não demora muito para que as filmagens se transformem em uma carnificina.

 

Com um roteiro cuidadosamente elaborado - todas as mortes são insinuadas em sequências prévias que dão pistas sobre o destino de cada um dos personagens - e um visual que remete imediatamente aos anos 1970, "X" é um filme de terror acima da média, dotado de uma inteligência que não atrapalha seu principal objetivo: entregar ao público uma série de assassinatos cruéis e sanguinolentos. Em alguns momentos lembrando o cinema cult de Quentin Tarantino - longos diálogos, referências pop, closes em partes específicas do corpo feminino - e bem-sucedido em criar uma atmosfera de suspense antes do começo da violência, o filme de West apresenta ainda uma sacada das mais criativas, oferecendo à ótima Mia Goth um papel duplo que muito contribui para o clima de estranheza do resultado final: na pele da ainda ingênua e sonhadora Maxine e vivendo a sinistra Pearl (sob pesada maquiagem), Goth - que é neta da atriz brasileira Maria Gladys - está nitidamente dentro do espírito quase independente do filme, produzido pela A24 (marca das mais criativas e transgressores produções do terror dos últimos anos) e recebido com entusiasmo por seu público-alvo, que, apesar de alguns bons títulos recentes, que buscam redefinir o gênero, nunca abre mão de um bom banho de sangue nas telas.

Enquanto produções dirigidas por Robert Eggers - "A bruxa" e "O homem do norte" - e Jordan Peele - "Corra!", "Nós" e "Não! Não olhe!" - procuram renovar os filmes de terror, acrescentando camadas de crítica social e elementos de arte em tramas mais rebuscadas, "X: A marca da morte" acerta em cheio ao não tentar fugir dos cânones mais consagrados do gênero. Por mais que capriche no roteiro, no visual e até mesmo encontre espaço para discussões interessantes a respeito do cinema pornográfico como representação cultural, Ti West não tem vergonha em apresentar um trabalho que se resume, em poucas palavras, em um filme de terror à moda antiga, onde jovens são caçados até a morte por um assassino pouco afeito a sutilezas e movido por recalques sexuais. Tais ingredientes, somados a um elenco que abraça com carinho todas as idiossincrasias de um gênero tratado como menor pela indústria, fazem de "X" um marco interessante e bem-vindo. E a melhor notícia? Seu prequel, "Pérola", lançado seis meses depois, é ainda mais perturbador.

 

quinta-feira

MAIS QUE AMIGOS


MAIS QUE AMIGOS (Bros, 2022, Universal Pictures, 115min) Direção: Nicholas Stoller. Roteiro: Billy Eichner, Nicholas Stoller. Fotografia: Brandon Trost. Montagem: Daniel Gabbe. Música: Marc Shaiman. Figurino: Tom Broecker. Direção de arte/cenários: Lisa Myers/Nicki Ritchie. Produção executiva: Billy Eichner, Karl Frankenfield. Produção: Judd Apatow, Josh Church, Nicholas Stoller. Elenco: Billy Eichner, Luke Macfarlane, Guy Branum, Harvey Fierstein, Miss Lawrence, Debra Messing. Estreia: 09/9/2022 (Festival de Toronto)

Primeiro, uma opinião polêmica: filmes de temática LGBTQIA+ que fogem do tradicional drama feito para ganhar Oscar dificilmente encontrarão, em um futuro próximo, público suficiente para fazer deles campeões de bilheteria. Por se tratar de um nicho (ainda) marginalizado dentro da indústria, produções que tentam desviar das tragédias e/ou biografias históricas gays fatalmente fracassam comercialmente. É difícil imaginar, por exemplo, heterossexuais saindo de casa e pagando um ingresso para assistir à comédia romântica "Mais que amigos" - primeiro filme do gênero com elenco principal formado por atores homossexuais a ser lançado por um grande estúdio de Hollywood (no caso, a Universal Pictures). Apesar dos elogios entusiasmados da crítica e de suas inegáveis qualidades, a produção dirigida por Nicholas Stoller ficou bem aquém das expectativas, em termos financeiros - o que provavelmente irá desencorajar outros estúdios a tentar a sorte nesta seara (ainda) espinhosa. A boa notícia é que, apesar da bilheteria decepcionante, o filme de Stoller é divertido para qualquer um que se proponha a deixar o preconceito de lado.

Logicamente, o público LGBTQIA+ encontrará muito mais razões para rir, uma vez que boa parte das referências pop que permeiam o roteiro diz respeito a seu universo todo próprio. Mas, ao contrário do que se poderia supor, a trama criada pelo diretor e pelo ator principal, Billy Eichner, sobrevive muito bem sem as piadas sobre "Queer eye for the straight guy" ou "Will & Grace", por exemplo. Na verdade, é uma comédia romântica simples, sobre um par aparentemente incompatível que descobre que, para viver um grande amor, é preciso aceitar as diferenças e as pressões sociais - nada de muito diferente de produções estreladas por Meg Ryan nos anos 1990, Katherine Heigl nos anos 2000 e Jennifer Aniston nos anos 2010, mas dessa vez com dois homens estampando o cartaz e buscando a torcida da plateia.



Billy Eichner dá vida a Bobby, um homossexual de trinta e poucos anos, conhecido por um podcast ácido e que está correndo atrás de um patrocínio para o lançamento do primeiro museu de história queer dos EUA - que, entre suas ousadias, quer provar a bissexualidade de Abraham Lincoln. Solteiro, ele deve boa parte de sua solidão à sua própria dificuldade de aprofundar-se em relações amorosas. Cansado de buscar parceiros em aplicativos de relacionamentos, ele conhece, em uma balada, o advogado Aaron (Luke Macfarlane), que considera além de suas possibilidades de conquista: sarado, popular, bonito e afeito a transas casuais, Aaron se aproxima de Bobby como amigo, mas não demora a  perceber que entre eles existe algo mais do que uma simples amizade. Avesso a compromissos, porém, propões ao escolado novo amigo uma relação aberta. Bobby aceita, a princípio, mas logo passa a ver que está (ao menos em sua perspectiva) em grande desvantagem. O conflito nasce - e aumenta até proporções que os impede de (ainda) ficarem juntos.

Repleto de diálogos espirituosos e inteligentes, "Mais que amigos" brinca com todos os clichês das comédias românticas e os estereótipos do mundo gay, sem medo de ofender suscetibilidades ou afugentar plateias mais puritanas. Não se priva de cenas de sexo (ousadas, mas ainda muito aquém do que é mostrado no cinema comercial heterossexual), não foge do sentimentalismo, quando necessário, e tampouco evita tocar em assuntos que povoam o universo LGBTQIA+ - a apologia ao corpo perfeito, o amor incondicional por divas pop, o preconceito dentro da própria bolha, o sexo casual como subterfúgio à solidão. Mas faz tudo com tanta leveza, tanto bom humor, tanta propriedade, que é difícil não se deixar levar e dar boas risadas. Billy Eichner brilha como o azedo e desiludido Bobby, que esconde, por trás de uma fachada cáustica, sérios problemas de autoestima, e Luke Macfarlane (conhecido pela série "Brothers & Sisters") é o contraponto perfeito a seu mau-humor quase encantador. Contando ainda com uma participação impagável de Debra Messing (de "Will & Grace") como ela mesma, "Mais que amigos" é um programa ideal para quem procura um passatempo inofensivo - e, apesar do fracasso comercial, tem tudo para virar cult. Basta mergulhar sem medo e se preparar para torcer para um casal (ainda) atípico.

terça-feira

NÃO FALE O MAL


NÃO FALE O MAL (Speak no evil, 2022, Profile Pictures/OAK Motion Pictures/Det Danske Filminstitut, 97min) Direção: Christian Tafdrup. Roteiro: Christian Tafdrup, Mads Tafdrup. Fotografia: Erik Molberg Hansen. Montagem: Nicolaj Monberg. Música: Sune Kolster. Figurino: Louize Nissen. Direção de arte/cenários: Sabine Hvidd/Jeanett Brahe, Floris Eysink Smeets. Produção executiva: Ditte Milsted. Produção: Jacob Jarek. Elenco: Morten Burian, Sidsel Siem Koch, Fedja van Huet, Karina Smulders, Liva Forsberg, Marius Damslev. Estreia: 21/01/2022 (Festival de Sundance)

Em certa ocasião, enquanto passava férias na Toscana, o cineasta e roteirista dinamarquês Christian Tafdrup e sua família travaram conhecimento com uma família holandesa, com quem se deram imediatamente bem. Logo depois do final do período de férias, Tafdrup recebeu um convite dos novos amigos para que passassem um período em sua casa. O cineasta chegou a considerar a ideia, mas acabou recusando a oportunidade - afinal de contas, ficar por um período em outro país, com pessoas que ele mal conhecia, poderia ser um tanto estranho. Tal acontecimento, no entanto, nunca saiu de sua cabeça e, como bom roteirista, ele não demorou a imaginar o que poderia ter acontecido caso tivesse aceito o inusitado convite. Surgia, então, a história de "Não fale o mal", um dos filmes mais incômodos e perturbadores de 2022, e um sucesso imediato no Festival de Sundance do mesmo ano. Em pouco mais de 90 minutos, Tafdrup simplesmente aterroriza a plateia com um thriller psicológico que vai aos poucos construindo uma atmosfera de tensão - para chegar a um clímax desolador.

O ponto de partida de "Não fale o mal" é justamente o que aconteceu com o cineasta em suas férias: o casal dinamarquês Bjorn (Morten Burian) e Louise (Sidsel Siem Koch) conhece, durante um verão na Toscana, um casal holandês bastante simpático e agradável, Patrick (Fedja van Huêt) e Karin (Karina Smulders). Logo surge uma identificação entre as duas famílias e, um tempo depois, Bjorn e Louise são convidados para passar um tempo na Holanda - Patrick e Karin insistem no chamado, alegando que, além deles, seu filho pequeno, Abel (Marius Damslev), está com saudades da filha do casal, Agnes (Liva Forsberg). A princípio pouco propensos a aceitar a aventura, logo eles topam a viagem e chegam à casa dos amigos, uma bela propriedade afastada da cidade. Não demora, no entanto, para que as diferenças entre todos comecem a se mostrar maiores que sua identificação - enquanto os dinamarqueses são mais formais e sérios, os holandeses parecem mais dispostos a curtir a vida sem maiores preocupações. Sentindo-se pouco confortáveis - os anfitriões não demonstram cuidado ou atenção a suas particularidades -, eles decidem ir embora antes do previsto. E então descobrem que, para soarem educados e gentis, entraram em uma situação da qual é muito complicado sair.

 

Sem maiores spoilers: o que começa com pequenos incômodos - dirigir em alta velocidade e bêbado, música alta, carne servida a vegetarianos - vai se avolumando conforme o tempo vai passando. O fato do pequeno Abel ter uma condição médica que lhe impede de falar (ele não tem parte da língua) é a menor das aflições propostas pelo roteiro tenso criado por Christian Tafdrup e seu irmão, Mads: a cada cena, em cada momento de desconforto sublinhado pela trilha sonora impecável e pela fotografia claustrofóbica, o filme parece desnudar, aos olhos do espectador, um pesadelo cujas consequências são inimagináveis. Quase uma fábula a respeito da tendência do ser humano em ser sociável - independentemente do que isso pode acarretar -, o filme transforma a atmosfera festiva de seus primeiros minutos em um sombrio conto de horror, onde os monstros não são seres do além ou assassinos mascarados, e sim o vizinho, o amigo, o colega de trabalho. E para isso, conta com duas duplas de atores sensacionais, que extrapolam sua aparência civilizada em sequências de deixar qualquer um se retorcendo na poltrona.

Casados na vida real, assim como no filme, Fedja van Huêt e Karina Smulders brilham como o casal anfitrião, transitando entre a docilidade e a opressão com sutileza rara. Na pele dos dinamarqueses pegos de surpresa em uma viagem praticamente surreal, Morten Burian e Sidsel Siem Koch vão do constrangimento ao desespero - levando junto o espectador, descrente do turbilhão de violência emocional que se acumula diante de seus olhos. Assim como em "Violência gratuita", que Lars Von Trier lançou com controvérsia em 1997, a angústia que surge em "Não fale o mal" não vem do horror explícito ou do sangue escorrendo: é a sensação da maldade, a certeza de que algo irrecuperável irá irromper na tela é que constrói toda a estrutura do filme. Aqueles que preferem um ritmo ágil, com reviravoltas a cada quinze minutos certamente irá se aborrecer com a confecção precisa da direção de Tafdrup, mas aqueles que procuram formas mais sutis de mexer com os nervos não conseguirá tirar da mente seu final ríspido e seco como um bom soco no estômago.

quinta-feira

MEN: FACES DO MEDO


MEN: FACES DO MEDO (Men, 2022, A24 Productions, 100min) Direção e roteiro: Alex Garland. Fotografia: Rob Hardy. Montagem: Jake Roberts. Música: Ben Salisbury. Figurino: Lisa Duncan. Direção de arte/cenários: Mark Digby. Produção: Andrew Macdonald, Allon Reich. Elenco: Jesse Buckley, Rory Kinnear, Paapa  Essiedu, Gayle Rankin. Estreia: 20/5/2022 (Canadá)

Aviso de utilidade pública: a quem procura um filme de terror tradicional - com sustos orquestrados com o objetivo de fazer o espectador pular da poltrona - ou uma trama de suspense que funcione como um quebra-cabeças - cujas peças façam sentido nos últimos minutos -, "Men: faces do medo" não é o programa mais indicado. Sim, ele assusta em alguns momentos. Sim, ele propõe um intrincado jogo psicológico. Mas, apesar do terço final apelar para uma violência gráfica quase desconcertante, ele não é um produto comercial puro e simples que busca o sangue gratuito. E infelizmente, apesar de envolver a plateia com uma série de questões promissoras, frustra ao não respondê-las a contento. Ao entregar mais perguntas que respostas, Garland se aproxima, paradoxalmente, de uma superficialidade que quase compromete todas as qualidades do filme - que  não são poucas e são redentoras.

Visualmente "Men" é um desbunde. A fotografia excepcional de Rob Hardy enche os olhos a cada sequência, com um colorido vibrante que acentua o tom de pesadelo que percorre todos os 100 minutos de projeção. O cenário bucólico do interior inglês é um achado, por contrapor a vastidão de seu verde com a sensação claustrofóbica experimentada pela protagonista. E merece aplausos a equipe capaz de conceber os efeitos visuais do ato final - perturbadores, doentios e radicalmente ousados até mesmo quando se sabe que a produtora do filme (A24) é aquela que revelou ao mundo os nomes de Robert Eggers e Ari Aster, responsáveis por um novo sopro de criatividade no cinema de terror: o espectador pode sentir-se incomodado, desconfortável ou enojado, mas é impossível que fique incólume ao que vê. Nesse ponto, pode-se dizer que "Men" é um casamento entre o horror visual de David Cronenberg e o suspense psicológico de David Lynch - acrescido de uma temática das mais relevantes e uma atriz com talento suficiente para segurar até mesmo os momentos mais bizarros da narrativa.

 


Indicada ao Oscar de atriz coadjuvante por seu trabalho em "A filha perdida" (2021), Jesse Buckley assume, em "Men", o posto de protagonista absoluta. Ela vive Harper, uma mulher traumatizada com a morte violenta do ex-marido abusivo (que pode ou não ter cometido suicídio) que resolve afastar-se da civilização para por os pensamentos em ordem e procurar um pouco de paz de espírito. Para isso, ela aluga uma confortável e isolada casa de campo no interior da Inglaterra. Seu objetivo, porém, começa a parecer um tanto utópico logo que ela chega ao local: perseguida por uma estranha figura nua que chega a invadir a propriedade, Harper não demora a perceber que o corporativismo masculino é regra na cidade - qua aparentemente não tem mulheres entre seus habitantes. Sufocada pelo ambiente patriarcal que passa a cercá-la (nem mesmo o padre ou o policial encarregado de protegê-la parecem confiáveis), a atormentada viúva se vê diante da angústia de estar à mercê de pessoas que também a ameaçam - e ir embora de repente não parece a melhor solução.

Os dois primeiros atos de "Men" são um primor de surrealismo e tensão, sublinhados pelo clima feérico oferecidos pela fotografia de Hardy, que passa, sem escalas, do deslumbramento ao assombro - ao comer uma maçã da árvore diante da propriedade, Harper parece ter dado início a seu pesadelo, como uma forma de punição. A partir daí a sensação de perigo iminente aumenta de forma exponencial, conduzindo a personagem (e o espectador) por um labirinto de medo e constante insegurança. É admirável, também, a ideia de fazer com que todos os personagens masculinos do filme (com exceção do falecido marido de Harper) sejam interpretados pelo mesmo Rory Kinnear, em um efeito perturbador e que remete à ideia de que, afinal de contas, todos os homens são iguais. Essa teoria, reiterada durante todo o filme, pode até parecer, a princípio, simplória e superficial, mas é ela quem dá o tom de toda a produção e reafirma o desamparo a que toda mulher está propensa em um mundo que lhe é normalmente hostil. É um conceito interessante e a maneira com que é proposto no filme é aberto às mais variadas interpretações - que estão ligadas também, segundo o próprio cineasta, às duas imagens religiosas encontradas por Harper na igreja local e cujos significados podem explicar boa parte dos enigmas criados pelo roteiro.

É sempre empolgante quando um filme ousa e empurra os limites do espectador - sejam eles quais forem. Da mesma forma, é louvável quando uma produção cinematográfica expande seus domínios a outras formas de arte. Porém, quando um filme exige um conhecimento prévio (e relativamente inacessível ao público médio) para que se faça entender, há algo de errado em sua concepção. Esse é o maior problema de "Men": lançar perguntas no ar e não fazer muita questão de que suas respostas sejam compreendidas. É admirável a ousadia de Alex Garland - um diretor que aos poucos vem se firmando como um realizador com coisas a dizer - em desafiar a lógica do mercado e provocar a plateia às raias do insuportável. Mas até mesmo ousadia em excesso pode atrapalhar boas ideias, e é isso que acontece com seu terceiro longa: genialmente concebido, fantasticamente realizado, mas incapaz de satisfazer seu principal consumidor. Ainda assim, um filme muito acima da média e destinado a tornar-se cult com o passar do tempo.

quarta-feira

BOA SORTE, LEO GRANDE


BOA SORTE, LEO GRANDE (Good luck to you, Leo Grande, 2022, Searchlight Pictures, 97min) Direção: Sophie Hyde. Roteiro: Katy Brand. Fotografia e montagem: Bryan Mason. Música: Stephen Rennicks. Figurino: Sian Jenkins. Direção de arte/cenários: Miren Marañon/Fiona Albrow. Produção executiva: Katy Brand, Julian Gleek, Mark Gooder, Sophie Hyde, Nadia Khamlichi, Nessa McGill, Martin Metz, Alison Thompson. Produção: Debbie Gray, Adrian Politowski. Elenco: Emma Thompson, Daryl McCormack, Isabella Laughland. Estreia: 22/01/2022 (Festival de Sundance)

Em uma época em que mulheres são apedrejadas virtualmente por ousarem desafiar os limites impostos pela sociedade a sua idade e criticadas nem tão virtualmente assim por sua busca pela liberdade sexual e sentimental, não deixa de ser uma grande ousadia o lançamento de um filme como "Boa sorte, Leo Grande": com uma visão predominantemente feminina a respeito de assuntos relevantes e urgentes, o filme de Sophie Hyde é um triunfo em todos os pontos, capaz de fazer rir, pensar e emocionar através de uma estrutura aparentemente simples que esconde uma profundidade rara no cinema comercial. Ao tratar com naturalidade temas como sexo, solidão, família e hipocrisia, o roteiro de Katy Brand transforma o que poderia ser um tedioso e autoindulgente discurso em uma pérola de sofisticação e sensibilidade.

Que não se espere, em "Boa sorte, Leo Grande", piadas escatológicas e/ou fáceis, ainda que o roteiro não se furte a brincar com os contrastes entre seus protagonistas e suas idiossincrasias. Como em uma boa peça de teatro, seus personagens vão revelando aos poucos suas facetas, permitindo a eles mesmos - e ao público - que suas reais motivações e sentimentos só surjam nos momentos mais precisos. Alternando-se no domínio das conversas, a professora aposentada Nancy (Emma Thompson) e o garoto de programa Leo Grande (Daryl McCormack) desfilam, em pouco mais de uma hora e meia, seus sonhos e frustrações, em uma relação que permite tal profundidade somente por s saber efêmera - a princípio nenhum dos dois sabe a verdadeira identidade do outro, escondidos que estão sob as máscaras que a situação exige. Ela é uma viúva que sempre viveu sob as normas impostas por sua religiosidade e criação conservadora; ele disfarça sua profissão sui generis sob um verniz intelectual e gentil que o protege dos preconceitos inerentes à função. Ela quer conhecer, na prática, tudo aquilo de que apenas ouviu falar em sua vida sexual insossa - e tem inclusive uma lista escrita de tais desejos; ele sofre com a rejeição da mãe e oferece aos clientes mais do que apenas momentos de prazer físico - lhes oferta também o ombro amigo,e se mostra disposto a ouvir o quanto for necessário. Nenhum deles é imune à solidão - e aí está o pulo do gato do filme.

 

Tanto Nancy quanto Leo podem parecer, nos primeiros minutos, uma perigosa soma de clichês. Basta alguns momentos, no entanto, para que a inteligência do texto de Brand e a elegãncia da direção de Sophie Hyde apontem um caminho diferente para a narrativa. Sim, com exceção de uma única sequência perto do clímax, toda a ação se passa em um quarto de hotel, mas limitar "Boa sorte, Leo Grande" a teatro filmado é negar à construção estética de Hyde todos os seus inúmeros méritos. A fotografia de Bryan Mason (igualmente responsável pela edição enxuta) acompanha não só as mudanças climáticas e temporais, mas também a evolução do relacionamento entre os personagens. A trilha sonora, discreta, paira no ar como um comentário sutil aos diálogos, e o figurino serve como a confirmação visual à personalidade de cada um em cena. Leo, por exemplo, não abusa do previsível estilo sexy que poderia lhe definir, optando por uma sobriedade surpreendente - assim como Nancy, conservadora e tímida, aos poucos vai se permitindo uma liberdade maior até mesmo para se vestir.

Mas nada funcionaria em "Boa sorte, Leo Grande" se não fosse Emma Thompson. Uma das maiores atrizes de sua geração, a vencedora de dois Oscar - um deles pelo roteiro de "Razão e sensibilidade" (1995) - confirma sua versatilidade e maturidade artística ao abraçar uma personagem complexa com toda a intensidade de sua experiência. Ao injetar humanidade em uma protagonista cujos defeitos são óbvios e pouco adoráveis - ainda que explicáveis por sua criação machista e religiosa -, Thompson ultrapassa os limites da simples atuação e entrega ao espectador o retrato de uma pessoa verdadeira, repleta de falhas mas dotada de uma humanidade quase palpável. É uma de suas atuações mais memoráveis, merecidamente cotada para mais uma indicação à estatueta dourada. Resta saber se a Academia será tão corajosa quanto ela em homenagear um filme que celebra o prazer feminino como forma de libertação: ao aparecer completamente nua em cena, Thompson não apenas se liberta das amarras de uma ditadura estética claustrofóbica, mas também ensina o amor próprio, a autoconfiança e a liberdade de ser quem se é. Se isso não é empoderamento não sei o que mais pode ser...

OS AGENTES DO DESTINO

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