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quinta-feira

MÁFIA NO DIVÃ


MÁFIA NO DIVÃ (Analyze this, 1999, Warner Bros, 103min) Direção: Harold Ramis. Roteiro: Harold Ramis, Kenneth Lonergan, Peter Tolan, estória de Kenneth Lonergan, Peter Tolan. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: Craig P. Herring, Christopher Tellefsen. Música: Howard Shore. Figurino: Aude-Bronson-Howard. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Leslie E. Rollins. Produção executiva: Bruce Berman, Chris Brigham, Billy Crystal. Produção: Jane Rosenthal, Paula Weinstein. Elenco: Robert DeNiro, Billy Crystal, Lisa Kudrow, Chazz Palminteri, Joe Viterelli. Estreia: 05/3/99

Acostumadas a ver Robert DeNiro em papéis dramáticos, violentos e/ou a um passo do abismo, as plateias do final dos anos 1990 foram surpreendidas com uma nova faceta de seu talento - poucas vezes revelada em sua longa e incensada carreira. Aproveitando sua imagem de durão (consagrada por inúmeras colaborações com Martin Scorsese), DeNiro chegou às telas em "Máfia no divã", uma comédia descrita por seu diretor Harold Ramis como um encontro entre "O poderoso chefão" e "Nosso querido Bob" e que rendeu mais de 100 milhões de dólares somente no mercado doméstico (EUA e Canadá). Escapando com maestria da maldição dos filmes de uma piada só, a história da relação tóxico-afetiva entre um chefe mafioso e um psicanalista judeu se beneficia não apenas do carisma à toda prova de seu astro maior, mas também de sua inusitada química com Billy Cristal - uma interação das mais felizes na carreira de ambos.

Ben Sobel (Billy Cristal) é um psicanalista entediado com sua profissão e que vive em constante conflito com o filho adolescente e comas cobranças que faz a si mesmo, originadas de um complexo de inferioridade em relação ao pai. Às vésperas de seu casamento com a repórter Laura MacNamara (Lisa Kudrow), ele é procurado por Paul Vitti (Robert DeNiro), um conhecido mafioso de Nova Iorque que está sofrendo de ataques de pânico, crises de choro e problemas sexuais com a amante. Impressionado com a primeira conversa que tem com o médico, Vitti resolve que ele irá se tornar seu analista pessoal - o que significa que, a partir de então, Sobel passará a ter o mafioso e seus comparsas sempre em seu caminho, não importa o quão desconfortável isso possa ser. Precisando resolver sua condição frágil a tempo de um encontro com vários chefões da máfia que irá acontecer em poucas semanas, Paul Vitti se torna obcecado pelo tratamento - desde que não ultrapasse alguns limites ("se eu virar bicha, você morre!").

 

O melhor de "Máfia no divã" é sua capacidade de fazer rir e manter viva uma única piada por cem minutos sem cair na redundância. Graças a um roteiro repleto de diálogos inteligentes e a direção segura de Harold Ramis - que tem no currículo o genial "Feitiço do tempo" (1993) -, o filme mantém o ritmo até seus minutos finais, em um clímax que acena aos clássicos de Scorsese, não por acaso o primeiro nome sondado para a direção. Além disso, apresenta uma química brilhante entre DeNiro e Billy Cristal, capaz de arrancar gargalhadas sem muito esforço - não atrapalha, também, contar com a presença da ótima Lisa Kudrow, apesar de seu pouco tempo em cena. O elenco coadjuvante - escolhido a dedo pelo diretor e por seu ator principal em visitas a um bairro italiano de Nova Iorque - é outro ponto alto da produção, oferecendo uma autenticidade visual que contrasta com o tom surreal da premissa, desenvolvida por Ramis, Peter Tolan (roteirista de diversos episódios de séries televisivas) e Kenneth Lonergan - que ganharia um Oscar em 2017 pelo dramático "Manchester à beira-mar". Engraçado sem apelar para qualquer tipo de humor ofensivo, o roteiro brinca com os clichês sobre o crime organizado e sobre os exageros da psicanálise - e faz rir principalmente pela inversão de papéis que ocorre a cada encontro entre analista e analisado.

Mas, apesar de ser impossível imaginar outro ator na pele do atormentado mafioso Paul Vitti, a presença de Robert DeNiro foi confirmada somente depois que vários outros nomes foram sondados para o papel. Antes que Harold Ramis assumisse a direção - substituindo o britânico Richard Loncraine (de "Ricardo III", de 1995) - possibilidades bastante diversas foram aventadas, dos veteranos Harrison Ford e Burt Reynolds aos especialistas em comédias Robin Williams e John Goodman, passando pelos previsíveis Joe Pesci e Bob Hoskins e os surpreendentes Tom Selleck e Ted Danson. Para sorte do público, no entanto, nada impediu o perfeito casamento entre personagem e ator - um casamento tão feliz que rendeu ainda uma continuação, lançada em 2002, sem o mesmo brilho do original (em parte por não ter o mesmo frescor.)

 

terça-feira

NOIVA EM FUGA


NOIVA EM FUGA (Runaway bride, 1999, Paramount Pictures/Touchstone Pictures, 116min) Direção: Garry Marshall. Roteiro: Josann McGibbon, Sara Parriott. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: Bruce Green. Música: James Newton Howard. Figurino: Edgar Pomeroy, Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Stephanie Carroll. Produção executiva: Gary Lucchesi, David Madden, Ted Tannembaum. Produção: Robert W. Cort, Ted Field, Scott Kroopf, Tom Rosenberg. Elenco: Julia Roberts, Richard Gere, Joan Cusack, Hector Elizondo, Rita Wilson, Christopher Melony, Donal Logue, Laurie Metcalf. Estreia: 30/7/99

Nove anos se passaram entre "Uma linda mulher" e "Noiva em fuga". Nesse meio tempo, Julia Roberts foi do céu (Globo de Ouro, indicação ao Oscar, salários milionários) ao inferno (vida sentimental atribulada, brigas com a imprensa, fracassos de bilheteria), e Richard Gere equilibrou (poucos) êxitos comerciais com uma boa quantidade de fiascos financeiros. A reunião da dupla era algo que os fãs - e principalmente os estúdios, ávidos por dólares - esperavam ansiosamente desde que a comédia romântica, dirigida por Garry Marshall, tornou-se um fenômeno na temporada 1990, e depois de várias tentativas infrutíferas (inclusive projetos sempre abortados de uma continuação), finalmente o público pode conferir se a química milionária ainda se mantinha e se o raio poderia cair duas vezes no mesmo lugar. A resposta para ambas as perguntas foi um sonoro "sim" - mais de 300 milhões de dólares de arrecadação mundial e críticas majoritariamente favoráveis. Mas por que, então, a impressão de que, no final das contas, ficou faltando alguma coisa?

Talvez o maior problema de "Noiva em fuga" seja a falta do frescor de "Uma linda mulher" - especialmente quanto ao desempenho de Julia Roberts, então em começo de carreira e sem as marcas (boas e ruins) de uma década de caminhada. Ou talvez o roteiro pouco inspirado e sem o glamour da Los Angeles sofisticada do filme de 1990. Quem sabe até mesmo o excesso de personagens secundários, que tira o foco dos protagonistas e deixa o ritmo menos enxuto. O fato é que o reencontro de um casais mais icônicos do cinema moderno não despertou as faíscas esperadas - mesmo porque nem sempre eles foram os atores idealizados para os papéis centrais. Nos dez anos que separam o começo de sua gestação e sua estreia, nomes como Mel Gibson, Harrison Ford, Michael Douglas e Ben Affleck foram sondados para viver o jornalista Ike Graham, enquanto Geena Davis, Sandra Bullock e Demi Moore chegaram perto de assumirem a independente Maggie Carpenter. Levando-se em consideração o quanto tais intérpretes são diferentes entre si, pode-se imaginar o quanto o roteiro mudou ou se adaptou nesse período - o que não chega a ser surpresa, uma vez que o próprio "Uma linda mulher" também sofreu alterações radicais antes de seu lançamento - e o quanto as presenças de Roberts e Gere são quase acidentais em uma trama sem maiores encantos além de suas presenças carismáticas.

 

Apesar do título dar destaque a Roberts, pode-se dizer que o personagem principal de "Noiva em fuga" é Ike Graham (Richard Gere), colunista de um grande jornal de Nova York que se vê demitido depois de publicar - sem checar a veracidade dos fatos - um texto a respeito de uma jovem do interior de Maryland conhecida na cidade por ter abandonado vários noivos no altar sem explicação nenhuma. Tentando provar que estava certo em sua história, Ike vai até a pequena cidade de Hale para testemunhar, em primeira mão, mais uma fuga da bela Maggie Carpenter (Julia Roberts) - cuja carta para seus editores foi a responsável por sua dispensa. Noiva pela quarta vez - agora do professor de Educação Física Bob Kelly (Christopher Meloni) - e decidida a honrar definitivamente seu compromisso (até como forma de desmentir Ike), Maggie a princípio hostiliza o repórter, que se aproxima de seus amigos e família, mas aos poucos vai se deixando conquistar por seu charme e sua lábia. Confiando nele - apesar de sua fama de ser pouco simpático ao sexo feminino -, a jovem e bela noiva torna-se não apenas objeto de uma possível nova matéria, mas também a mulher que pode enfim fazê-lo descobrir o amor. Apaixonada, ela fica dividida entre finalmente casar-se com quem não ama, ou assumir seus sentimentos e deixar que Ike fique com a razão sobre seu passado pouco invejável.

Apesar de apresentar momentos divertidos e algumas situações no mínimo agradáveis, "Noiva em fuga"  é um filme irregular. Nem tudo funciona como deveria (os personagens secundários muitas vezes ficam sem função alguma a não ser soltar piadas avulsas) e o clímax tampouco empolga - culpa talvez da falha em envolver o espectador no romance entre seus protagonistas. A aura apaixonada que cobria Gere e Roberts em "Uma linda mulher" simplesmente inexiste aqui, apesar da química manter-se intacta, e nos embates mais dramáticos entre eles fica evidente a fragilidade do roteiro e a direção pouco inspirada de Garry Marshall, que parece confiar tanto em seus atores que esquece de dar-lhes um bom material. No final das contas, é uma comédia romântica simpática, mas muito aquém do que se poderia esperar da união de um time cujo primeiro encontro deu origem a um dos mais queridos filmes de seu tempo.

 

8MM: OITO MILÍMETROS



8MM: OITO MILÍMETROS (8mm, 1999, Columbia Pictures, 123min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Andrew Kevin Walker. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Mark Stevens. Música: Mychael Danna. Figurino: Mona May. Direção de arte/cenários: Gary Wissner/Gary Fettis. Produção executiva: Joseph M. Caracciolo. Produção: Judy Hofflund, Gavin Polone, Joel Schumacher. Elenco: Nicolas Cage, Joaquin Phoenix, James Gandolfini, Peter Stormare, Catherine Keener, Anthony Heald. Estreia: 19/02/99 (Festival de Berlim)

Quando o projeto de "8mm: oito milímetros" chegou à Sony Pictures, no final dos anos 1990, era, ao mesmo tempo, extremamente promissor (para os fãs de um cinema adulto e corajoso) e potencialmente perigoso (para um estúdio cioso de suas finanças): escrito pelo mesmo Andrew Kevin Walker que deu ao mundo o primoroso "Seven: os sete crimes capitais" (1995), o roteiro do filme mergulhava o protagonista no sombrio universo dos snuff movies (produções amadoras em que assassinatos são cometidos diante da câmera) e conduzia a plateia em um labirinto de medo, repulsa e violência. A ideia era fazer um filme perturbador, sem grandes concessões comerciais e, se possível, buscando um público mais adulto e exigente. Porém, quando finalmente chegou às telas, em fevereiro de 1999, com um atraso de dois meses em relação a seu cronograma original, "8mm" em pouco lembrava sua gênese: dirigido por Joel Schumacher e estrelado por Nicolas Cage no auge do sucesso popular, o filme apresentou-se aos espectadores como um filme policial competente e sério, mas bem longe da ousadia pretendida por seu criador: ficou no meio do caminho entre o thriller claustrofóbico que sonhava ser e o filme de ação formulaico capaz de amealhar fortunas que era a pretensão de seu estúdio.

Antes que o explosivo material chegasse às mãos de Joel Schumacher - ainda não recuperado das rumorosas críticas a seu "Batman & Robin" (1997) e disposto a correr riscos profissionais em produções que fugissem de blockbusters previsíveis -, nomes fortes da indústria chegaram a ser cogitados pela Sony Pictures. Caso de Paul Verhoeven, William Friedkin e até mesmo David Fincher, que poderia repetir a parceria com o roteirista Andrew Kevin Walker. Quando Schumacher embarcou, a ideia do estúdio ainda era manter o tom pesado do roteiro original e apostar em uma produção radicalmente oposta ao mainstream - e para isso contavam com a presença do ator Russell Crowe no elenco: alçado à categoria de astro graças ao merecido sucesso de "Los Angeles: cidade proibida" (1997), Crowe poderia oferecer ao filme uma credibilidade rara e equilibrar os riscos de rejeição de uma plateia não acostumada a radicalidades. No entanto, em Hollywood raramente as coisas caminham da forma previsível, e depois de um bom tempo à procura de um astro para encabeçar o elenco - e gente como Mel Gibson, John Travolta, Bruce Willis e Nick Nolte chegaram a ser lembrados pelos produtores -, um nome forte surgiu no horizonte. Recentemente premiado com o Oscar de melhor ator por "Despedida em Las Vegas" (1995) e estampando os cartazes de êxitos de bilheteria, como "A outra face" (1997) e "Cidade dos anjos" (1998), Nicolas Cage demonstrava interesse em assumir a protagonização do longa e, com isso, aumentar suas chances de lotar as salas de exibição. O dilema de Schumacher estava armado: uma produção mais barata, quase experimental, com um ator de prestígio, ou um filme policial tradicional, de orçamento generoso, com um astro de primeira grandeza? Não é preciso ser especialista em mercado para adivinhar a opção da Sony Pictures.

 

A entrada da Cage no projeto, no entanto, não significou o fim dos problemas. Indignado com as mudanças propostas por Schumacher para atenuar o tom sombrio do roteiro, Andrew Kevin Walker simplesmente abandonou o projeto, deixando as alterações nas mãos do diretor e de Nicholas Kazan. Ciente de que tais mudanças se faziam necessárias para que o orçamento de estimados 40 milhões de dólares se pagasse nas bilheterias, Schumacher deixou de lado o desejo de chocar a plateia e abraçou a ideia de realizar mais um sucesso financeiro. Não se pode dizer que falhou, mas os quase 100 milhões arrecadados internacionalmente dizem mais sobre seu potencial comercial do que a respeito de suas qualidades artísticas. É óbvio que o diretor consegue se sair bem na condução do filme - há muito mais nele de "Um dia de fúria" (1992) do que de suas versões de Batman, por exemplo -, mas sua falha em escapar dos clichês não deixa de incomodar. Enquanto acompanha o protagonista em sua busca pela verdade e conduz o espectador em um universo insalubre e desconfortável, o cineasta demonstra uma maturidade e um senso de ritmo e tensão admiráveis - auxiliado pela presença de um Joaquin Phoenix ainda jovem mas já extremamente eficiente, em papel recusado por Mark Wahlberg, Mas é perceptível também a quebra de coerência no terço final, quando o roteiro parte da ação cerebral para o confronto físico: é razoavelmente climático, mas formulaico e previsível em excesso. Agrada ao público que busca uma catarse, mas frustra àqueles que esperam desfechos menos banais.

"8mm" ocupa, dentro da carreira de Joel Schumacher, um lugar interessante: foge de seus dramas lacrimosos e superficiais, passa longe de seus equivocados filmes de super-heróis e ousa um pouco mais que suas boas adaptações de John Grisham, mas não chega à quase perfeição de "Um dia de fúria" - esta sim uma produção corajosa e consistente. A trama que leva o detetive particular Tom Welles (interpretado por um Nicolas Cage correto mas sem maiores lances de genialidade) a penetrar no mundo da pornografia ilegal é interessante e se demonstra sufocante por boa parte das duas horas de projeção, e é impossível não perceber a excelência da trilha sonora de Mychael Danna e a inteligência da edição de Mark Stevens - truncada, não óbvia, desconfortável. São elementos que se destacam em uma produção acima da média mas que não alcança jamais todo o potencial de sua proposta inicial. Uma pena que não houve a coragem necessária para seguir à risca o roteiro de Andrew Kevin Walker e manter Russell Crowe no papel central: história poderia ter sido feita.

A BRUXA DE BLAIR


A BRUXA DE BLAIR (The Blair Witch Project, 1999, Haxan Films, 81min) Direção, roteiro e montagem: Daniel Myrick, Eduardo Sánchez. Fotografia: Neal Fredericks. Música: Tony Cora. Direção de arte: Ben Rock. Produção executiva: Bob Eick, Kevin J. Foxe. Produção: Robin Cowie, Gregg Hale. Elenco: Heather Donahue, Joshua Leonard, Michael C. Williams. Estreia: 25/01/99 (Festival de Sundance)

Mesmo parte de um gênero acostumado a produzir fenômenos culturais e de bilheteria, o independente "A bruxa de Blair"garantiu, desde seu lançamento no Festival de Sundance de 1999, um lugar todo especial na história do cinema de terror. Produzido com irrisórios 60 mil dólares, sem atores conhecidos no elenco e calcado quase que completamente em uma bem engendrada campanha de marketing, o filme de Daniel Myrick e Eduardo Sánchez tornou-se um dos filmes essenciais da década de 1990 principalmente ao mostrar aos grandes estúdios que orçamentos gigantescos, efeitos visuais de última geração e astros milionários nem sempre são fundamentais para chamar a atenção a uma produção. Usando e abusando de câmera na mão (o que se convencionou chamar de found footage e virou febre desde então), os cineastas conseguiram transformar uma ideia simples em uma máquina de dinheiro - e mesmo que o resultado artístico tenha deixado a desejar para muitos, sua importância enquanto marco cultural é inquestionável.

Eternizado no Guinness como a maior receita de um filme na história - com uma renda de mais de 248 milhões de dólares ao redor do mundo - e filmado em parcos oito dias, "A bruxa de Blair" se aproveita de sua quase indigência para fazer dela um charme extra e talvez um de seus maiores chamarizes. Ao eleger como astros um trio de atores desconhecidos - o que deu margem a especulações de que tudo que acontece na tela era verdade -, Myrick e Sánchez aproximaram o espectador comum da ação, evitaram o distanciamento que uma produção com grandes estrelas de Hollywood fatalmente acarreta e romperam o paradigma do heroi solitário (ou heroína, no caso, já que o gênero terror é pródigo em moldar mulheres fortes, como bem provam Jamie Lee Curtis em "Halloween" e Neve Campbell em "Pânico") para criarem uma atmosfera sombria onde tudo pode acontecer - inclusive uma carnificina sem sobreviventes ou incidentes sobrenaturais com graus variados de sutileza.

E sutileza é a palavra de ordem em "A bruxa de Blair": apesar de ser um filme de terror com o objetivo de fazer o público roer as unhas de tensão, a produção dos jovens cineastas (Myrick tinha 35  anos à época da estreia, e Sánchez tinha feito apenas 30) evita a sanguinolência explícita e os sustos em ritmo de montanha-russa. Fazendo uso inteligente de seu orçamento restrito, a dupla prefere inserir a plateia em seu universo aflitivo, obrigando-a a testemunhar, de forma crescente, o desespero de seus personagens conforme vão duvidando, a cada passo dentro da floresta, de suas próprias certezas a respeito de uma lenda que até então julgavam apenas parte de um mito popular. Escorando-se na fascinação do público pelo mistério e no medo quase irracional do desconhecido, o filme faz um gol de placa ao sugerir muito mais do que mostrar - o poder da imaginação, como bem sabe Steven Spielberg desde seu "Tubarão" (1975) é muito maior do que qualquer punhalada ou decapitação, e nesse ponto Myrick e Sánchez são absolutamente felizes.

Também é admirável a forma com que os diretores conduziram a produção de seu primeiro filme. Primeiro, eles criaram a lenda da Bruxa de Blair - uma história que remete ao século XVIII, na pequena cidade de Burkittsville, Maryland e que fala sobre sacrifícios infantis, uma mulher vista por nativos locais em forma semi-animal, assassinatos em série e mutilações. Depois, convenceram os atores Heather Donahue, Joshua Leonard e Michael C. Williams a tomarem parte de um documentário que versaria sobre a tal lenda - e que seria filmado na própria cidade que foi palco dos acontecimentos e na floresta onde aconteceram tais crimes. As filmagens foram um pesadelo para os inexperientes intérpretes: os diretores não lhes avisaram que iriam forjar acontecimentos inesperados durante as noites em que estariam acampados e tudo que está no filme é absolutamente real. Tudo, menos a lenda da bruxa - e tudo é tão crível que muita gente levou a sério o tom documental da produção, a ponto de fazer de Burkittisville um ponto turístico e dar origem a um falatório que só aumentava as filas nas salas de cinema. "A bruxa de Blair" é, sem dúvida, o falso documentário mais bem-sucedido da história - ao menos em termos comerciais.

Os espectadores que lotaram os cinemas, curiosos em assistir ao fenômeno de Daniel Myrick e Eduardo Sánchez, se dividiam ao final das sessões. Para cada um aterrorizado e tenso que saía da sala com os nervos à flor da pele, havia pelo menos um contrariado com o que se poderia chamar de falta de ação. Ambos tem razão: realmente uma edição mais caprichada poderia ter limado alguns momentos mais aborrecidos do filme, que demora demais para engrenar (com exceção dos primeiros minutos, onde a lenda da bruxa é estabelecida com entrevistas bastante interessantes - e falsas, logicamente). Porém, quando os protagonistas se perdem na floresta, tem início alguns dos minutos mais tensos do cinema de horror contemporâneo: obviamente é preciso ter paciência e saber que o que vem pela frente é o poder da sugestão em estado bruto, onde pequenos ruídos, choros distantes e objetos aparentemente inofensivos podem catalisar o medo mais absoluto - em especial àqueles mais sensíveis. Longe de ser uma unanimidade, mas inequivocamente histórico, "A bruxa de Blair" jamais pode ter seu poder de fogo subestimado - ao menos em termos de reconfigurar a maneira como o marketing era visto pelos engravatados de Hollywood.

quarta-feira

DOGMA

DOGMA (Dogma, 1999, Miramax Pictures, 130min) Direção e roteiro: Kevin Smith. Fotografia: Robert Yeoman. Montagem: Scott Mosier, Kevin Smith. Música: Howard Shore. Figurino: Abigail Murray. Direção de arte/cenários: Robert Holtzman/Diana Stoughton. Produção executiva: Jonathan Gordon. Produção: Scott Mosier. Elenco: Ben Affleck, Matt Damon, Linda Fiorentino, Chris Rock, Alan Rickman, Salma Hayek, Janeane Garofalo, Jason Lee, Jason Mewes, Kevin Smith, Alanis Morissette. Estreia: 21/5/99 (Festival de Cannes)

Em 1998, o diretor/ator/roteirista Kevin Smith descobriu na pele, algo que o veterano Martin Scorsese já sabia no mínimo há dez anos, quando lançou seu "A última tentação de Cristo: poucos temas são tão espinhosos e capazes de exaltar ânimos quanto a religião - especialmente a católica. Antes mesmo da estreia de "Dogma" - adiada por seis meses justamente devido a celeumas relativas a seu conteúdo -, o filme de Smith já era alvo de virulentas manifestações, campanhas negativas, ameaças de boicote e todo tipo de controvérsia. O motivo era um só: falar de Deus e religião em uma comédia iconoclasta que misturava anjos renegados, uma descendente de Cristo que trabalhava em uma clínica de aborto, questionamentos a respeito da interferência da Igreja na manutenção de uma mitologia que dá margens a tanto, e algumas ousadias "imperdoáveis", como mostrar um apóstolo negro e Deus na forma feminina. Baseados em uma das várias versões do roteiro - vazada de forma anônima pela Internet -, grupos religiosos ergueram a voz contra a produção a ponto de assustar até mesmo suas distribuidoras: sorte da pequena Lions Gate, que herdando o filme da Disney (cujo histórico de filmes familiares não condizia com o tom do filme) e da então toda-poderosa Miramax (que preferiu não arriscar seu prestígio mesmo acreditando no projeto), lançou aquele que seria seu produto mais rentável até o advento do oscarizado "Crash: no limite" (2004): apesar (ou por causa) das acaloradas discussões, "Dogma" rendeu mais de 30 milhões de dólares - três vezes o seu custo estimado e um êxito surpreendente para os padrões de Smith.

Acostumado com seu status de cineasta cult, com filmes de orçamento baixo e repercussão restrita, Kevin Smith viu-se, graças à "Dogma", no olho de um furacão. A controvérsia ao redor do filme (somada à presença de Ben Affleck e Matt Damon no começo de sua ascensão popular), ajudou a alçá-lo a um patamar nunca antes experimentado - "O balconista" (1994), "Barrados no shopping" (1995) e "Procura-se Amy" (1997), suas produções anteriores, eram conhecidas e aclamadas por uma parcela específica de cinéfilos, fãs de cinema independente e/ou alternativo. Com "Dogma" e seu elenco recheado de nomes conhecidos, seus efeitos visuais e o marketing espontâneo oferecido pela Liga Católica norte-americana, seu alcance tornou-se internacional - um alento para aqueles que não conheciam sua filmografia, repleta de um humor tão inteligente quanto chulo, tão sofisticado quanto popular (leia-se nerd). E não deixa de ser irônico que, mesmo demonizado pelos fieis mais agressivos, Smith tenha se declarado, à época do lançamento do seu polêmico filme, um católico - da mesma forma que Scorsese, apedrejado sem piedade por sua adaptação do livro de Nikos Kazantzakis mesmo tendo passado por um seminário.

 

Smith escreveu o primeiro tratamento de "Dogma" antes mesmo de "O balconista", seu primeiro longa, lançado em 1994. E quando finalmente acreditou que já estava na hora de transformar o script em realidade, quase terceirizou a produção: felizmente o cineasta Robert Rodriguez - queridinho do cinema independente desde sua estreia com o baratíssimo "El mariachi", de 1991 - percebeu que o projeto de "Dogma" era pessoal demais para que outra pessoa que não Smith assumisse a direção. Começava então uma odisseia de trocas, substituições e possibilidades que poderiam ter tornado o filme em algo completamente diferente. Para o principal papel feminino, Bethany, a última descendente de Cristo na Terra, Smith pensou inicialmente em Gillian Anderson - em alta com o sucesso da série "Arquivo X". Nomes como Shannen Doherty e Joey Lauren Adams, antigas colaboradoras do cineasta, também surgiram - até que a cantora Alanis Morissette foi escolhida e posteriormente descartada: por problemas de agenda com a turnê de seu novo álbum, Morissette acabou ficando com um papel menor, mas de importância fundamental (para o qual foram seriamente cotadas Holly Hunter e Emma Thompson). Linda Fiorentino - tornada estrela por filmes como "O poder da sedução" (1994) e "MIB: Homens de preto" (1997) - foi a escolha definitiva para o elenco, para desgosto do próprio Smith, que se arrependeu amargamente da decisão: os dois não se deram nada bem durante as filmagens, a ponto do diretor declarar em entrevistas que teria sido melhor escalar a coadjuvante Janeane Garofalo como protagonista (uma situação delicada que só foi resolvida anos mais tarde). Além disso, outros nomes de Hollywood foram cogitados para papéis cruciais: Matt Damon só entrou no elenco para viver Loki, o anjo da morte, porque o ator inicialmente escalado, Jason Lee, não estava disponível para filmagens longas (o que fez com que interpretasse Azrael, consideravelmente menor para o qual também foram considerados Bill Murray, John Travolta e Adam Sandler). Samuel L. Jackson e Will Smith foram pensados para viver Rufus, o apóstolo negro que revela histórias inéditas da vida de Cristo - antes que Chris Rock fosse contratado. E Alan Rickman - provavelmente o ator de maior prestígio do elenco - surpreendeu ao aceitar viver Megatron depois de confessar ser fã de "Procura-se Amy".

A trama de "Dogma" é um primor de criatividade e nonsense. Dois anjos renegados, Loki (Matt Damon) e Bartleby (Ben Affleck) querem forçar sua reentrada no céu ao atravessar o portal de uma igreja em Nova Jersey: com a bênção do Papa, todos que o fizerem terão seus pecados perdoados automaticamente. Tal situação é um perigo, segundo Metatron (Alan Rickman), pois acabará com a ideia da infalibilidade de Deus e consequentemente acabará com a humanidade. Para isso, o mensageiro divino procura Bethany (Linda Fiorentino), funcionária de uma clínica de abortos que passa por uma séria crise de fé e que, sem que ela mesma saiba, é a última descendente de Cristo - e portanto a única pessoa capaz de impedir que os anjos atinjam seu objetivo. Para ajudá-la, Bethany contará com a ajuda de dois "profetas", Jay (Jason Mewes) e Silent Bob (Kevin Smith) - personagens recorrentes na filmografia do diretor -, um apóstolo cuja existência foi apagada da Bíblia por racismo, Rufus (Chris Rock), e a stripper Serendipity (Salma Hayek) - também conhecida como Musa. Contra Bethany e seu grupo não estão apenas Loki e Bartleby: o demônio Azrael (Jason Lee), que tem seus próprios motivos para chegar até Nova Jersey e desafiar o poder do Criador.

Mas, afinal, "Dogma" é blasfemo ou ofensivo? Depende. Se o espectador é daqueles que se ofende facilmente e não desliga o senso crítico diante de uma produção com a missão nítida de fazer rir, logicamente é possível que acabe a sessão furioso - Smith não poupa nada de suas piadas, e equilibra-se entre tiradas inteligentes e surpreendentes e momentos de puro constrangimento (é uma característica sua falar de flatulências e outras escatologias). Porém, se existe a consciência de que tudo é uma grande brincadeira (e no final das contas bastante reverente), é certo de que a produção rende boas e várias gargalhadas. Alguns diálogos fazem pensar - será que foi isso que incomodou tanto? - e a mensagem final, de que Deus é amor e compaixão, deixa claro que, mesmo com tantas bobagens saídas de sua mente, Kevin Smith ainda é o menino católico praticante que foi na infância. Se alguém tem dúvidas que escute a bela "Still", composta e interpretada por Alanis Morissette nos créditos finais.

quinta-feira

DE OLHOS BEM FECHADOS


DE OLHOS BEM FECHADOS (Eyes wide shut, 1999, Warner Bros, 159min) Direção: Stanley Kubrick. Roteiro: Stanley Kubrick, Frederic Raphael, novela "Traumnovelle", de Arthur Schnitzler. Fotografia: Larry Smith. Montagem: Nigel Galt. Música: Jocelyn Pook. Figurino: Marit Allen. Direção de arte/cenários: Les Tomkins, Roy Walker/Lisa Leone, Terry Wells Sr.. Produção executiva: Jan Harlan. Produção: Stanley Kubrick. Elenco: Tom Cruise, Nicole Kidman, Sidney Pollack, Todd Field, Sky du Mont, Marie Richardson, Thomas Gibson, Julienne Davis, Vinessa Shaw, Leelee Sobieski, Rade Serbedzija. Estreia: 13/7/99

O tempo é um elemento do qual não se é possível fugir ao se falar sobre "De olhos bem fechados", o último filme do celebrado e mítico Stanley Kubrick. Foi em 1960 que o cineasta conheceu o livro "Traumnovelle", de Arthur Schnitzler - durante as sessões de terapia a que foi submetido em conjunto com Kirk Douglas para que resolvessem seus problemas de relacionamento nas filmagens de "Spartacus". Foi em 1971 que o presidente da Warner Bros, John Calley, anunciou que a adaptação da obra seria o próximo trabalho do diretor - uma informação que não revelou-se verdade, uma vez que a honra de suceder "Laranja mecânica" (1971) ficou com "Barry Lyndon" (1975). Foi no começo dos anos 1990 que o lendário homem por trás de "2001: uma odisseia no espaço" (1968) resolveu voltar a seu projeto de estimação quando Steven Spielberg anunciou "A lista de Schindler" (1993) - com tema bastante similar a "Aryan papers", cuja produção estava disposto a começar. Foi em novembro de 1996 que finalmente começaram as filmagens que se estenderiam por 400 dias - um recorde registrado no Guinnes Book, que nem considerou a pós-produção de quase um ano. E foi apenas quatro dias depois de mostrar sua versão do filme aos executivos do estúdio (ainda não completamente finalizada) que o mundo foi pego de surpresa com a notícia de sua inesperada morte - quatro meses antes da estreia oficial de uma mais esperadas produções cinematográficas da década.

Estrelado pelo então casal real de Hollywood - Tom Cruise e Nicole Kidman - e cercado por expectativas estratosféricas (assim como por um mistério que se estendeu até o lançamento), "De olhos bem fechados"se beneficiou do hype em torno do nome do diretor e do reencontro dos protagonistas sete anos depois do esquecível "Um sonho distante": mesmo sem muitas pistas a respeito da trama e das intenções comerciais do filme (nem mesmo o famoso trailer ao som de Chris Isaack entregava qualquer dica), o público correu às salas de exibição para conferir o resultado das cansativas e controversas filmagens que mantiveram Cruise e  Kidman presos na Inglaterra por mais de um ano - a ponto de atrasar outras produções da dupla, como "Da magia à sedução" e"Missão: impossível II" (finalmente lançado em 2000). Primeiro filme de Kubrick a estrear em primeiro lugar nas bilheterias dos EUA, "De olhos bem fechados" terminou sua carreira internacional com mais de 160 milhões de dólares em caixa - nada mal para uma produção adulta e com um tema tão controverso quanto... sexo.

Sim, sexo está na base e na origem de "De olhos bem fechados". Já adaptada anteriormente (para a televisão austríaca, em 1969, e em um filme italiano chamado "Ad un pas dall'aurora"), a novela de Schnitzler - discípulo de Freud - acompanha a obsessiva jornada de um médico, William Harford (Tom Cruise), por uma aventura sexual que o faça esquecer (ao menos momentaneamente) a confissão da bela esposa, Alice (Nicole Kidman), de que quase o traiu em uma viagem romântica. Cego de decepção - afinal sua vida matrimonial parecia sólida e imune a qualquer tipo de traição -, Harford busca um encontro casual, mas acaba envolvido (como penetra) em uma misteriosa orgia com participantes mascarados, senhas e uma atmosfera de perigo constante. Perseguido pela paranoia, ele refaz os passos da noite, o que inclui encontros com uma jovem prostituta e com uma adolescente envolvida com dois homens mais velhos. Nesse meio tempo, passa a desconfiar que está correndo o risco de ser vítima da violência dos organizadores da orgia - como aconteceu com um amigo músico e com uma bela mulher que tentou alertá-lo sobre os perigos da festa.


 A trama de Schnitzler, seguida com razoável fidelidade pelo roteiro do diretor e Frederic Raphael, não é das mais empolgantes em termos de ação. Porém, é fascinante como o cineasta é capaz de cobrir o enredo com uma atmosfera de pesadelo, sublinhada pela trilha sonora de Jocelyn Pook (indicada ao Globo de Ouro) e pela edição quase contemplativa de Nigel Galt. Se Tom Cruise não é um grande ator nem mesmo sob o comando de alguém exigente como Kubrick, o mesmo não pode ser dito de Nicole Kidman - em um de seus papéis mais importantes antes do divórcio do galã, a atriz mostra que beleza e talento podem tranquilamente caminhar juntos, e mesmo sem muita participação na segunda metade do filme, rouba a cena sem cerimônia na primeira parte (cujo desfecho é a cena em que confessa o adultério cogitado). Kubrick - que considerava "De olhos bem fechados" seu melhor filme - conduz seu último trabalho como um maestro, enfatizando aqui e acolá a complexidade de seus personagens com a sutileza de um veterano. É surpreendente que, antes que chegasse à conclusão sobre sua própria visão do enredo, tenha tido ideias tão excêntricas quanto a de tratá-lo como uma comédia.

A ideia de Kubrick de tratar o material de Schnitzler como uma comédia talvez tenha sido a mais inusitada de sua carreira - especialmente quando se pensa que o cineasta desejava ter Woody Allen no papel principal. Depois de Allen, Kubrick pensou em Steve Martin - até que deixou de lado a ousadia de brincar com o sisudo texto original e voltou a cogitar atores mais sérios, como Harrison Ford e Johnny Depp. Depois de conceber a ideia de ter um casal real na pela dos protagonistas, Kubrick chegou a Alec Baldwin e Kim Basinger - mas somente até que Tom Cruise e Nicole Kidman visitaram sua propriedade na Inglaterra (onde Kidman filmava "Retrato de uma mulher") e foram oficialmente convidados para tomar parte em seu ambicioso projeto. A opção por um dos casais mais famosos do mundo agradou aos executivos da Warner - que sugeriam ao diretor a escalação de nomes populares para agradar ao mercado - e deu início a uma série de fofocas de bastidores, que iam de especulações a respeito da trama (eles realmente seriam terapeutas que se envolviam com pacientes?) até substituições no meio das filmagens (Harvey Keitel e Jennifer Jason Leigh chegaram a filmar várias cenas, antes que compromissos os impedissem de voltar ao set para novas gravações e os fizessem perder os papéis para Sidney Pollack e Marie Richardson). O trabalho estendeu-se indefinidamente a ponto de dar uma úlcera a Tom Cruise - que, dizem, teve que fazer 95 takes de uma cena em que tinha que simplesmente atravessar o batente de uma porta -, mas valeu a pena. Com um roteiro que lança mais perguntas que respostas, "De olhos bem fechados" é a obra-prima imperfeita de Kubrick é seu belo canto do cisne - e uma produção digna de figurar em uma filmografia tão ímpar e cultuada.

sábado

O MESMO AMOR, A MESMA CHUVA

O MESMO AMOR, A MESMA CHUVA (El mismo amor, la misma lluvia, 1998, JEMPSA/Warner Bros, 113min) Direção: Juan José Campanella. Roteiro: Juan José Campanella, Fernando Castets. Fotografia: Daniel Shulman. Montagem: Camilo Antolini. Música: Emilio Kauderer. Figurino: Cecilia Monti. Direção de arte: María Julia Bertotto. Produção executiva: Ricardo Freixa. Produção: Jorge Estrada Mora. Elenco: Ricardo Darín, Soledad Villamil, Ulises Dumont, Eduardo Blanco, Graciela Tenenbaum. Estreia: 16/9/99

Quem ficou encantado com a química entre Ricardo Darín e Soledad Villamil em "O segredo dos seus olhos" - inesperado vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2010 - pode não saber, mas seu par romântico central já havia provocado faíscas dez anos antes, em outro filme dirigido pelo mesmo Juan José Campanella. "O mesmo amor, a mesma chuva", lançado em 1998, pode não ter o mesmo nível de qualidade técnica e narrativa de sua obra mais premiada, mas demonstra, sem sombra de dúvida, que Campanella já tinha um extremo cuidado em construir personagens verossímeis e falar de assuntos extremamente humanos e de fácil identificação com o público. Com um roteiro simples e personagens cativantes, seu filme conta uma simples história de amor que atravessa duas décadas e que comenta, em suas entrelinhas, o momento político atravessado pela Argentina nos anos 80.


Contada em forma de flashback, a história de amor entre o jornalista e escritor Jorge Pellegrini (Ricardo Darín) e a bela Laura Ramallo (Soledad Villamil) começa em 1980, quando ele a vê em uma tela de cinema, em um filme inspirado em um de seus contos. Ambos estão frustrados com suas carreiras incipientes - ele é obrigado a escrever contos para uma revista que não dá valor a seu talento, frequentemente cortando suas histórias, e ela ganha a vida como garçonete enquanto espera o retorno de um namorado que não lhe dá notícias há meses. Depois de alguns meses de relutância, finalmente o romance engata, mas o casal não demora a perceber que, apesar da paixão, os problemas insistirão em encontrar brechas em seu relacionamento. Com o passar dos anos, a batalha de Jorge em finalmente ser reconhecido como escritor - sempre incentivado por Laura - vai se misturando às mudanças políticas do país, e o desgaste natural ameaça por diversas vezes a manutenção dos sentimentos entre eles.


Com um roteiro assumidamente simples e sem firulas, "O mesmo amor, a mesma chuva" conquista justamente por sua objetividade e capacidade de tornar interessante até mesmo os acontecimentos mais banais. Graças à química incandescente entre Ricardo Darín e Soledad Villamil, os diálogos co-escritos por Campanella e Fernando Castets soam como poesia, ainda que versem sobre problemas triviais e comuns à maioria dos casais da plateia. Ciúmes, monotonia e traições estão na receita criada pelo cineasta, que aproveita para criticar com contundência o período negro vivido pela Argentina durante sua ditadura militar, entre 1976 e 1983: através dos colegas de Jorge na revista, ele apresenta ao espectador uma visão inteligente dos desdobramentos do golpe militar, ressaltando as dificuldades dos jornalistas veteranos em encontrar trabalho e a ascensão de jovens despreparados profissionalmente mas dispostos a rezar pela cartilha do governo. Não é o tema central do filme, mas surge organicamente no decorrer da narrativa, graças à sensibilidade do roteiro e à leveza com mesmo os momentos mais pesados são tratados. Injetando poesia em diversas sequências, Campanella já mostrava sua capacidade de equilibrar ingredientes aparentemente tão distintos quanto política e romance. Sua direção é tão leve que chega a impedir que o filme seja maior - sua despretensão é, ao mesmo tempo, seu maior mérito e seu calcanhar de Aquiles.

Ao optar por um viés menos ambicioso de contar sua história, "O mesmo amor, a mesma chuva" deixa escapar a oportunidade de ser um filme ainda melhor. Se o roteiro aprofundasse mais os conflitos entre o casal protagonista talvez se tornasse um programa inesquecível. Da forma como está, é o belo e delicado estudo de uma relação, interpretado por grandes atores e comandado por um diretor de vasto talento, mas sem aquele algo mais que o faça sobressair no gênero. De qualquer maneira, é mais um exemplar extremamente digno do cinema argentino, que em poucos anos começaria a demonstrar toda a sua força em filmes de gêneros e enfoques bastante distintos. E além do mais, tem Ricardo Darín, um dos maiores atores de sua geração. Precisa mais?

ECOS DO ALÉM

ECOS DO ALÉM (Stir of echoes, 1999, Artisan Entertainment, 99min) Direção: David Koepp. Roteiro: David Koepp, romance de Richard Matheson. Fotografia: Fred Murphy. Montagem: Jill Savitt. Música: James Newton Howard. Figurino: Leesa Evans. Direção de arte/cenários: Nelson Coates/David Krummel. Produção executiva: Michele Weisler. Produção: Judy Hofflund, Gavin Polone. Elenco: Kevin Bacon, Illeana Douglas, Kathryn Erbe, Zachary David Cope, Kevin Dunn. Estreia: 28/7/99

Em 1999, um filme estrelado por um astro dos anos 80 voltando a chamar a atenção da crítica e um menino com o poder de ver e falar com fantasmas chegou às telas de cinema para assustar às plateias e deixá-la grudada na poltrona. Não, não estamos falando de "O sexto sentido", que, com Bruce Willis à frente dos créditos e um roteiro pra lá de bem amarrado seduziu o público do mundo todo, transformando-se em um dos maiores sucessos de bilheteria da história, e sim de "Ecos do além", que, com trazendo alguns elementos semelhantes, teve o azar de estrear poucos meses depois, quando todos ainda estavam encantados e/ou assombrados pela trama de M. Night Shyamalan e mal perceberam suas qualidades. Baseado em um livro de Richard Matheson, autor de clássicos sobrenaturais com o romântico "Em algum lugar do passado", o filme de David Koepp - cuja estreia como diretor foi o subestimado "Efeito dominó", de 1996, não fez feio nas bilheterias, mas foi eclipsado sem pena pela obra do cineasta indiano. Merece, depois de mais de uma década, ser descoberto pela audiência.

Kevin Bacon - um ator de extrema competência, que sai-se bem tanto como herois quanto como vilões - interpreta o personagem principal, Tom Witzky, um músico frustrado que vive do emprego na companhia telefônica para manter a família, a esposa Maggie (Kathryn Erbe) e o filho pequeno, Jake (Zachary David Cope). Na mesma noite em que fica sabendo que será pai pela segunda vez - fato que o afunda ainda mais na mediocridade de um cotidiano que não o faz feliz - ele aceita ser hipnotizado pela cunhada, Lisa (Illeana Douglas), em uma festa da vizinhança. Sem lembranças do que aconteceu durante o período em que esteve desacordado, ele tenta seguir sua vida normal, mas começa a ser assombrado por visões de uma jovem fantasmagórica e flashes incompreensíveis de um crime cujos detalhes ele não consegue discernir. Ao mesmo tempo, seu filho também mantém contato com a garota, que ele descobre chamar-se Samantha Kozac (Jennifer Morrison) e ter desaparecido há algum tempo, antes mesmo de sua mudança para o bairro. Aos poucos, Tom vai perdendo o equilíbrio emocional, envolvendo toda a família em sua loucura.


Com um tom bastante diferente daquele mostrado em "O sexto sentido" - que equilibrava o suspense com toques emocionais sofisticados e sutis - "Ecos do além" mescla os sustos de um filme de fantasmas com uma trama policial consistente e verossímil, apesar de resvalar em um clímax desnecessariamente barulhento e lugar-comum, que substitui a tensão construída com cuidado até então por um desfecho quase preguiçoso. Sustentada por uma trilha sonora adequada de James Newton Howard - coincidentemente ou não também o autor da música do filme de Shyamalan - e um clima de angústia crescente proposto pela fotografia de Fred Murphy, que utiliza com precisão a luz noturna para sublinhar a escuridão cada vez mais profunda em que Tom vai penetrando, a trama de Matheson ganha contornos bem reais quando se percebe que, por trás de ectoplasmas misteriosos e hipnoses profundas, é a maldade humana quem está por trás de todo o drama. Esse pé fincado na realidade é a maior qualidade do filme, valorizado pela presença forte e contundente de Kevin Bacon.

Não fosse a presença de Bacon em seu papel central, "Ecos do além" estaria fadado a ser confundido com apenas mais um suspense feijão-com-arroz, daqueles que abarrotam as prateleiras das videolocadoras. Sua presença, porém, confere autenticidade e credibilidade ao filme, transformando-o em uma produção bem acima da média do gênero. Pode não ser um "O sexto sentido", mas quantos filmes o são??

terça-feira

THOMAS CROWN - A ARTE DO CRIME

THOMAS CROWN, A ARTE DO CRIME (The Thomas Crown Affair, 1999, United Artists/MGM, 113min) Direção: John McTiernan. Roteiro: Leslie Dixon, Kurt Wimmer, estória de Alan R. Trustman. Fotografia: Tom Priestley. Montagem: John Wright. Música: Bill Conti. Figurino: Kate Harrington, Mark Zunino. Direção de arte/cenários: Bruno Rubeo/Leslie E. Rollins. Produção executiva: Michael Tadross. Produção: Pierce Brosnan, Beau St. Clair. Elenco: Pierce Brosnan, Rene Russo, Denis Leary, Ben Gazzarra, Frankie Faison, Fritz Weaver, Faye Dunaway. Estreia: 27/7/99

Em 1968, dois dos maiores astros da época, Steve McQueen e Faye Dunaway, protagonizaram "Crown, o magnífico", um policial romântico que se tornaria um clássico do estilo e referência para futuras produções que tentassem misturar dois gêneros aparentemente opostos. Mais de três décadas depois do lançamento do original, com sua eterna falta de criatividade, Hollywood resolveu revisitar a história da improvável história de amor entre um milionário entediado e a investigadora de uma companhia de seguros que está em seu encalço. Revestida com elegância e um erotismo, a nova versão - estrelada pelo então 007 Pierce Brosnan e pela bela Rene Russo - modificou detalhes da trama original e acabou agradando à crítica e ao público, ambos sedentos por filmes adultos que falassem mais ao cérebro do que aos músculos. Dirigido por John McTiernan - cujo currículo repleto de blockbusters explosivos incluia os primeiros "Duro de matar" e "Predador" - "Thomas Crown, a arte do crime" surpreende pela sutileza e pela inteligência em contar uma história policial sem recorrer a um único tiro.

Thomas Crown (Pierce Brosnan, também produtor do filme), é um milionário do setor de aquisições que, sentindo-se aborrecido com a pasmaceira de sua vida fácil, volta e meia envolve-se em complicados esquemas de falsificação das obras de arte que rouba (sem despertar a menor suspeita) até mesmo dos mais sofisticados e seguros museus do mundo. Sua tranquilidade é posta em xeque, porém, quando ele rouba um valiosíssimo Monet, em uma arriscada manobra realizada durante o horário de visitação às obras: disposta a recuperar o quadro e assim poupar milhões de dólares, a seguradora contratada pelo museu chama a competente e dedicada investigadora Catherine Banning (Rene Russo, linda e sexy) para descobrir seu paradeiro. Esperta e experiente, Banning logo passa a desconfiar do charmoso e prestativo Crown e, ignorando os conselhos do policial Michael McCann (Dennis Leary), se aproxima dele com o objetivo de desmascará-lo. Não é preciso muito tempo para que surja entre investigadora e investigado uma atração irresistível, que pode por tudo a perder.


Mantendo o tempo todo a dubiedade em relação aos verdadeiros sentimentos de seus protagonistas em relação um ao outro, o roteiro de "Thomas Crown, a arte do crime" prende a atenção do público em vários niveis: tanto funciona como um romance de alta voltagem erótica (as cenas de sexo, de extremo bom gosto, mostram o pela primeira vez nu o corpo escultural da bela Rene Russo) quanto como um policial bem engendrado, repleto de pistas espalhadas pelo caminho, à espera de serem unidas. O desfecho, um clímax bem armado e inteligente, não decepciona a ninguém, enfatizando a opção de McTiernan em contar uma história utilizando-se do cérebro como principal elemento. Depois de deslumbrar a audiência com tomadas de tirar o fôlego de paisagens deslumbrantes, mansões luxuosas e obras de arte fascinantes (além de momentos românticos pra ninguém botar defeito), ele encerra seu filme com uma sequência exemplarmente bem editada e empolgante, mostrando de uma vez por todas que a sutileza pode substituir sem perda a violência desnecessária. É impossível que o público termine a sessão sem que fique com a bela sensação de ter sido respeitado em sua inteligência, o que, convenhamos, é algo raríssimo em produções comerciais norte-americanas.

Contando ainda com a simpática participação especial de Faye Dunaway - que viveu a investigadora na primeira versão do filme - na pele da terapeuta do enfastiado milionário, "Thomas Crown, a arte do crime" é um entretenimento maduro, esperto, romântico e elegante, que nada contra a corrente do emburrecimento do cinema hollywoodiano. É, também, um dos poucos filmes de sua época a ter como protagonista um casal acima dos 30 anos de idade que não hesita em usar e abusar da sensualidade sem culpa. Palmas para ele!

segunda-feira

MÚSICA DO CORAÇÃO

MÚSICA DO CORAÇÃO (Music of the heart, 1999, Miramax Pictures, 124min) Direção: Wes Craven. Roteiro: Pamela Gray. Fotografia: Peter Deming. Montagem: Gregg Featherman, Patrick Lussier. Música: Mason Daring. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: Bruce Alan Miller/George De Titta Jr.. Produção executiva: Amy Slotnick, Harvey Weinstein, Bob Weinstein. Produção: Susan Kaplan, Marianne Maddalena, Allan Miller, Walter Scheuer. Elenco: Meryl Streep, Aidan Quinn, Angela Bassett, Cloris Leachman, Gloria Estefan, Kieran Culkin, Michael Angarano. Estreia: 06/9/99 (Festival de Toronto)

2 indicações ao Oscar: Atriz (Meryl Streep), Canção Original ("Music of my heart")

Filmes estrelados por professores que lutam contra as adversidades e conquistam o amor dos alunos mesmo desafiando as autoridades são comuns em Hollywood. Desde o clássico "Ao mestre, com carinho", estrelado por Sidney Poitier até produções menos bem recebidas pela crítica, como "Mentes perigosas", com Michelle Pfeiffer, o tema sempre emocionou as plateias, graças à força dramática sempre presente nos inspiradores roteiros. Quando a história é real, então, as lágrimas são impossíveis de segurar, especialmente quando no papel central está Meryl Streep. Como protagonista de "Música do coração", ela pega o papel inicialmente oferecido à Madonna - e que era cobiçado por Meg Ryan e Sandra Bullock - e, com a intensidade de sempre, transforma um drama convencional em mais um espetáculo digno de nota. Perfeccionista ao extremo, Streep aprendeu a tocar violino em um mês e entregou mais uma atuação memorável, que lhe rendeu uma merecida indicação ao Oscar - a décima-segunda em sua vitoriosa carreira. Na pele de Roberta Guaspari, uma professora de violino que transformou a vida de mais de mil alunos da periferia nova-iorquina com seus dez anos de aulas diárias - e que também inspirou um documentário chamado "Small wonders" - Streep comanda novamente o show, acrescentando camadas extras de sensibilidade a uma história já tocante por si mesma.

Dirigido por Wes Craven - que assustou o mundo com seus "A hora do pesadelo" e "Pânico" e resolveu testar a mão com um drama como exigência para comandar o terceiro capítulo da série estrelada por Neve Campbell - "Música do coração" não chega a ser uma produção surpreendente em termos narrativos, mas compensa essa burocracia com uma sinceridade e uma delicadeza que vão se avolumando pouco a pouco para chegar a um clímax capaz de arrepiar até ao mais indiferente espectador. É claro que o talento superlativo de Meryl ajuda muito - por melhor artista pop que seja, Madonna jamais conseguiria emocionar tanto quanto ela - mas é preciso aplaudir também o elenco juvenil, que dá garra e ar fresco a uma trama um tanto quanto repetitiva que só encontra todo seu potencial quando reúne sua protagonista - cuja força e determinação vai crescendo conforme sua autoestima também passa a se recuperar, depois de um divórcio traumático - a seus estudantes, um grupo variados de crianças e adolescentes que descobrem na música clássica uma válvula de escape de seus problemas domésticos e sociais.


Quando o filme começa, Roberta (personagem de Streep) acaba de voltar para a casa da mãe, Assunta (Cloris Leachman), depois de ser abandonada pelo marido, que deixou-a para ficar com uma amiga sua. Como forma de manter-se e aos dois filhos pequenos, ela se oferece para dar aulas de violino em uma escola do Harlem, dirigida pela rígida Janet Williams (Angela Bassett). Aceita como substituta depois que mostra seus dons como educadora e sua paixão pela música, ela passa a ensinar meninos e meninas que vivem em um ambiente desprovido de sensibilidade artística e, aos poucos, vai conquistando a admiração e o respeito da comunidade - mesmo que sua vida pessoal não reflita tanto sucesso, principalmente sua relação com um antigo amigo, Brian Turner (Aidan Quinn). Depois de mais de uma década mantendo o programa de música da escola, porém, o conselho educacional resolve cortar a verba destinada ao projeto. Desesperada com a situação, Roberta conta com a ajuda dos pais dos alunos, dos amigos e até mesmo de figuras consagradas da música para organizar um concerto beneficente e assim mudar o jogo a seu favor.

Contando com uma protagonista carismática e provida de ótimas intenções, "Música do coração" não demora em conquistar o carinho da plateia, principalmente porque não se deixa levar pela tentação de apelar para a lágrima fácil. Quando a emoção surge - e ela frequentemente se mostra, às vezes timidamente, outras nem tanto - é porque Craven consegue manipular com sucesso a fórmula que está em suas mãos, sem deixá-la passar do ponto. Dirigindo com suavidade e apostando na química entre Streep, seus jovens atores e até na cantora Gloria Estefan como atriz (na pele de uma das professoras aliadas de Roberta em seus primeiros dias), o famoso criador do temível Freddy Kruger dá um passo à frente na carreira, mostrando que talento para outros gêneros não lhe falta - ainda que até hoje ele não tenha apostado em outro drama. Bonito, sensível e inspirador, "Música do coração" fala à alma.

domingo

O COLECIONADOR DE OSSOS

O COLECIONADOR DE OSSOS (The bone collector, 1999, Universal Pictures/Columbia Pictures, 118min) Direção: Philip Noyce. Roteiro: Jeremy Iacone, romance de Jeffery Deaver. Fotografia: Dean Semler. Montagem: William Hoy. Música: Craig Armstrong. Figurino: Odette Gaudory. Direção de arte/cenários: Nigel Phelps/Marie-Claude Gosselin, Susan C. MacQuarrie, Harriet Zucker. Produção executiva: Dan Jinks, Michael Klawitter. Produção: Martin Bregman, Michael Bregman, Louis A. Stroller. Elenco: Denzel Washington, Angelina Jolie, Queen Latifah, Michael Rooker, Luis Guzman, Mike McGlone, Leland Orser, Ed O'Neil, Bobby Cannavale. Estreia: 29/8/99 (Festival de Montreal)

O ano de 1999 foi movimentado para Denzel Washington e Angelina Jolie: antes mesmo que passassem a acumular elogios e prêmios por suas atuações em "Hurricane, o furacão" e "Garota, interrompida", respectivamente, os dois atores tiveram o gostinho de brincar de gato e rato no suspense policial "O colecionador de ossos", baseado em livro do escritor Jeffery Deaver. Uma espécie de "O silêncio dos inocentes" sem ambições psicológicas maiores do que as necessárias para prender a atenção da plateia, o filme tem a seu favor a intensidade dramática de Washington - um dos atores mais confiáveis de Hollywood - e a direção segura de Philip Noyce, mas esbarra em tantas implausibilidades e em um final tão anti-climático que nem mesmo os esforços da produção caprichada conseguem disfarçar a fragilidade de sua trama.

O protagonista vivido por Washington no piloto automático é Lincoln Rhyme, um policial tornado famoso por seus métodos investigativos heterodoxos e pelos livros que escreveu sobre o assunto. Tetraplégico após um acidente de trabalho mas ainda ajudando a polícia mesmo preso a uma cama que limita seus movimentos - e que o faz flertar seriamente com a eutanásia mesmo contra a vontade de sua enfermeira, Thelma (Queen Latifah) - ele é procurado por seu ex-parceiro, Paulie Selitto (Ed O'Neill) para colaborar na caça a um psicopata que, caçando suas vítimas em seu táxi, anda deixando pistas que remetem a algo que os detetives nova-iorquinos não conseguem compreender em sua totalidade. Sentindo-se desafiado, Rhyme aceita o desafio, mas exige a ajuda de Amelia Donaghy (Angelina Jolie), uma jovem policial que está em vias de abandonar as ruas para dedicar-se a uma carreira menos violenta dentro da corporação. A princípio hesitante - por não ter experiência e nem estômago para coletar as evidências, além de ter um passado traumático - ela muda de ideia e torna-se o corpo de Lincoln nas cenas dos crimes. Juntos, eles partem em busca da identidade e dos motivos do serial killer, que, entre outras delicadezas, arranca pedaços dos ossos de suas vítimas.


Philip Noyce acerta em cheio no clima que propõe a "O colecionador de ossos", exalando tensão em cada sequência, principalmente por conta da trilha sonora do veterano Craig Armstrong e da fotografia soturna do oscarizado Dean Semler - vencedor da estatueta por "Dança com lobos". O problema resume-se basicamente à trama, inverossímil e carente da intensidade psicológica que separa os filmes apenas corretos daqueles que se tornam clássicos inesquecíveis. É difícil, por exemplo, acreditar nas epifanias de Rhyme: por mais genial que ele seja ou por mais experiência que tenha, a facilidade com que ele entra na mente do assassino - e entende todas as suas motivações e antecipa seus próximos passos - soa forçada demais até mesmo para um público acostumado a explosões e efeitos visuais sem sentido. As revelações finais sobre o nome do assassino também soam artificiais e apressadas, como se fosse extremamente necessário surpreender a plateia com um desfecho inesperado (e carente de lógica). Mesmo que esse exagero venha do romance de Deaver - um escritor respeitado e querido por um público fiel - em cinema é quase impossível comprar a premissa básica, o que acaba por comprometer fatalmente o resultado final, por mais esforço que haja por parte da direção e do talentoso elenco.

Prejudicada por uma personagem sem maiores justificativas dramáticas que não sejam comerciais - e desprovida de qualquer traço da sensualidade que se tornaria uma de suas maiores características - Angelina Jolie faz o que pode em cena, transmitindo a seriedade exigida pelo papel mesmo quando o exagero toma conta da história. Queen Latifah brilha sempre que entra em cena, com uma presença que ficaria evidente com sua indicação ao Oscar de coadjuvante, por "Chicago", três anos depois. E Denzel Washington, do alto de sua consagração como um dos mais importantes atores negros do cinema americano, impõe respeito e credibilidade a um personagem que, em mãos menos eficientes, poderia resvalar facilmente ou para a caricatura ou para o dramalhão excessivo. Econômico e sutil, ele dá sustentação a um filme eficiente, mas exagerado demais em suas tentativas de chocar o público. Assistível, mas facilmente esquecível.

sábado

OS PICARETAS

OS PICARETAS (Bowfinger, 1999, Universal Pictures, 97min) Direção: Frank Oz. Roteiro: Steve Martin. Fotografia: Ueli Steiger. Montagem: Richard Pearson. Música: David Newman. Figurino: Joseph G. Aulisi. Direção de arte/cenários: Jackson DeGovia/K.C. Fox. Produção executiva: Karen Kehela, Bernie Williams. Produção: Brian Grazer. Elenco: Steve Martin, Eddie Murphy, Heather Graham, Robert Downey Jr., Terence Stamp, Christine Baranski, Jamie Kennedy, Adam Alexi-Malle. Estreia: 13/8/99

Quando o cineasta Frank Oz dirigiu Steve Martin ao lado de Michael Caine em "Os safados" (88) - refilmagem livre de "Dois farristas irresistíveis", com Marlon Brando e David Niven - a comédia norte-americana ganhou um clássico instantâneo, um filme repleto de humor inteligente e irônico que misturava a tradicional fleuma britânica de Caine com a picardia ianque e quase vulgar de Martin. Cineasta ciente dos meandros da comédia - um gênero que frequentemente escorrega no mau-gosto ou simplesmente na falta de graça - Oz voltou a colaborar com Martin em outras ocasiões, como no apenas simpático "Como agarrar um marido", mas foi somente em 1999 que os dois voltaram a acertar a mão juntos. Tendo os bastidores do cinema como pano de fundo e a adição luxuosa de Eddie Murphy ao time vencedor, "Os picaretas" não só fez mais sucesso que os outros filmes de Murphy lançados quase à mesma época - "Até que a fuga nos separe" e "O professor aloprado 2" - como recebeu elogios rasgados da crítica, que encantou-se com a mordacidade carinhosa com que a indústria de Hollywood foi retratada. Recheado de piadas engraçadíssimas, atuações inspiradas e um cinismo irresistível, "Os picaretas" é uma comédia sem contra-indicações.

O próprio Steve Martin escreveu a história de Robert K. Bowfinger, um produtor de filmes B que, decadente e sem perspectivas profissionais imediatas, vê sua grande chance de sair do marasmo quando põe os olhos no roteiro de um amigo, uma ficção científica chamada "Chuva gorda". Entusiasmado com a possibilidade de voltar aos sets de filmagens, ele reúne um grupo de antigos colaboradores - como a dedicada atriz Carol (Christine Baranski) e o leal Dave (Jamie Kennedy) - para levar a novidade adiante, mas percebe que, para conseguir competir como gente grande com produções de orçamentos milionários, precisa necessariamente de um grande astro. Entra em cena, então, Kit Ramsey (Eddie Murphy), um dos mais populares atores do momento: sem que ninguém saiba, Bowfinger resolve filmar o ator em seu dia-a-dia e forçar situações em sua rotina para encaixar no script. Assim, Ramsey - um astro paranoico e mulherengo que acredita estar sendo perseguido por extra-terrestres - entra à sua própria revelia na bagunça, que fica ainda mais complicada com a chegada de um sósia seu, o tímido Jiff (também Murphy), que serve como dublé nas cenas perigosas.


Criando situações cada vez mais insanas e contando com um elenco de personagens hilariantes, Martin fez do roteiro de seu "Os picaretas" uma comédia de muitas risadas, fato raro em uma Hollywood tomada por filmes formulaicos e pouco ousados, que tentam arrancar gargalhadas com piadas sobre fluidos corporais e constrangimentos dos mais variados. Sua trama, reta e simples, busca o humor na identificação com as várias referências (diretas ou não) com o mundo a que retrata - e a graça da piada fica ainda maior quando se sabe de onde ela vem. Daisy, a personagem de Heather Graham, por exemplo, pode ser apenas a ambiciosa moça do interior que sonha em tornar-se atriz e assim vai pulando de cama em cama para conseguir atingir seus objetivos como pode ser uma sátira à Anne Heche, que teve um caso com Martin e ficou famosa no final da década de 90 ao envolver-se com Ellen De Generes. Rindo ainda da moda dos astros em terem um guru espiritual - aqui representado pelo personagem do sempre sinistro Terence Stamp - e do vício em sexo do personagem de Murphy (que encaixou o filme em sua complicada agenda apenas por ser fã de Steve Martin), "Os picaretas" é, ainda, uma homenagem aos que fazem cinema por amor, sendo assim uma espécie de "Ed Wood" - filmaço de Tim Burton sobre o pior diretor de todos os tempos - que não se leva a sério.

Superando de longe a média das comédias lançadas em sua época, "Os picaretas" é uma pérola de humor que consegue ao mesmo tempo ser sofisticado e popular, um equilíbrio raro e louvável conquistado pela experiência de Oz - que recentemente havia marcado outro golaço com o sucesso "Será que ele é?", estrelado por Kevin Kline - e pelo talento de Martin e Eddie Murphy, este último em um de seus melhores trabalhos nas telas. Com um elenco coadjuvante afiadíssimo (com destaque para a sempre incrível Christine Baranski e uma participação especial de Robert Downey Jr. como um executivo da indústria de cinema) e uma história espertíssima que brinca com o cinema e com aqueles que o fazem, não deixa de ser também uma bela homenagem à sétima arte.

sexta-feira

EM QUALQUER OUTRO LUGAR

EM QUALQUER OUTRO LUGAR (Anywhere but here, 1999, 20th Century Fox, 114min) Direção: Wayne Wang. Roteiro: Alvin Sargent, romance de Mona Simpson. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Nicholas C. Smith. Música: Danny Elfman. Figurino: Betsy Heinman. Direção de arte/cenários: Donald Graham Burt/Barbara Munch. Produção executiva: Ginny Nugent. Produção: Laurence Mark. Elenco: Susan Sarandon, Natalie Portman, Shawn Hatosy, Bonnie Bedelia, Thora Birch, John Carrol Lynch, Hart Bochner, Paul Guilfoyle, Megan Mulally, Caroline Aaron. Estreia: 17/9/99 (Festival de Toronto)

Se alguém ainda duvida do poder que duas atrizes de primeiro gabarito tem em transformar uma ideia simples e banal em um filme interessante, esse alguém precisa assistir a "Em qualquer outro lugar". Baseado em um romance nada memorável de Mona Simpson - irmã biológica de Steve Jobs - e dirigido sem muita criatividade por Wayne Wang (responsável pelo belo "O clube da felicidade e da sorte"), o filme, que retrata a difícil relação entre mãe e filha de personalidades conflitantes, sustenta-se basicamente no duelo de interpretações travado entre Susan Sarandon e Natalie Portman, que tomam para si a responsabilidade de dar consistência e emoção a personagens complexas que, em mãos menos sensíveis, poderiam soar apenas chatas e desagradáveis.

Ciente de que merece mais oportunidades que sua pequena Bay City lhe proporciona, a inquieta Adele August (Susan Sarandon) abandona o segundo marido e parte para Beverly Hills acompanhada da filha de 14 anos, a introvertida Ann (Natalie Portman), a quem ela deseja transformar em uma atriz. Fazendo a viagem conta a sua vontade, Ann - cujo contato com o pai foi perdido ainda nos primeiros anos da infância - começa a afastar-se ainda mais da mãe, uma mulher forte e determinada, mas equivocada na forma como leva a vida. Mudando-se constantemente e buscando sempre emoções novas - o que na prática tanto se resume a conquistar homens que podem lhe dar o conforto procurado quanto ambicionar um estilo de vida mais confortável e luxuoso - Adele muitas vezes demonstra ser mais imatura que a filha, cujo único objetivo imediato é terminar a escola, para mais tarde tentar entrar em uma faculdade, longe dos delírios de sua mãe.


Com uma linha narrativa frágil e sem maiores lances dramáticos - nem mesmo uma inesperada e trágica morte altera o tom naturalista proposto por Wang, um cineasta com bom olho para a variação de nuances de suas atrizes - "Em qualquer outro lugar" pode ser descrito sem medo como um filme "para mulheres", já que concentra-se exclusivamente no ponto de vista feminino da história, relegando os homens a meros coadjuvantes unidimensionais. Tal opção, ainda que válida, acaba por limitar o alcance da obra e lhe tirando as possibilidades de agradar a um público mais amplo - o que explica sua bilheteria pouco representativa mesmo com o relativo poder de fogo de Sarandon, na época já premiada com o Oscar por seu trabalho em "Os últimos passos de um homem". Uma das grandes atrizes de sua geração, ela domina cada sequência com um carisma gigantesco, que impede a rejeição à uma personagem que não é exatamente simpática: irresponsável, carente e muitas vezes egoísta, sua Adele só encontra redenção em seu amor (distorcido, mas ainda assim amor) pela filha, vivida por uma ainda iniciante Natalie Portman - que entrou no elenco como exigência absoluta de Sarandon. Linda como sempre, Portman mostra a cada momento o porquê da instransigência de sua mãe fictícia: juntas, elas são o corpo e a alma do filme.

Resumir "Em qualquer outro lugar" não é empolgante. A história é banal, quase clichê. As personagens raramente ultrapassam os limites do superficial - e quando o fazem devem isso a suas talentosas protagonistas. A narrativa não é criativa, apesar de compensar tal característica na seriedade e na placidez. Mas ao mesmo tempo é difícil não se deixar envolver pelo filme de Wang, já que ele tem a inteligência de apoiar-se quase exclusivamente em suas atrizes centrais, tão espetaculares e carismáticas que disfarçam todo e qualquer momento de tédio. É, literalmente, um filme que vale pelo elenco.

quinta-feira

UMA CARTA DE AMOR

UMA CARTA DE AMOR (Message in a bottle, 1999, Warner Bros, 131min) Direção: Luis Mandoki. Roteiro: Gerald DiPego, romance de Nicholas Sparks. Fotografia: Caleb Deschanel. Montagem: Steven Weisberg. Música: Gabriel Yared. Figurino: Bernie Pollack. Direção de arte/cenários: Jeffrey Beecroft/Dorree Cooper, Elaine O'Donnell, CC Perkinson. Produção: Kevin Costner, Denise DiNovi, Jim Wilson. Elenco: Kevin Costner, Robin Wright-Penn, Paul Newman, John Savage, Ileana Douglas, Robbie Coltrane. Estreia: 12/02/99

Primeiro romance de Nicholas Sparks a ser adaptado para o cinema - antes, portanto, que a fórmula de seus livros se tornasse facilmente reconhecível a qualquer espectador, por mais distraído que seja - "Uma carta de amor" é, também, um dos melhores filmes baseados em sua obra, normalmente exagerada no dramalhão a ponto da superficialidade. Marcando também o retorno de Kevin Costner às boas graças do público depois de um período negro em que estrelou fracassos retumbantes como "Waterworld, o segredo das águas" e "O mensageiro", o filme de Luis Mandoki é um drama romântico à moda antiga, feito sob medida para quem gosta de se emocionar ao assistir a uma bela e devastadora história de amor.

Mesmo que não tenha sido um sucesso extraordinário de bilheteria, "Uma carta de amor" devolveu a Costner - um dos astros mais quentes do final dos anos 80 e do começo da década de 90 - um pouco do respeito e do prestígio acumulado com êxitos acachapantes com "Os intocáveis", "JFK", "O guarda-costas" e principalmente "Dança com lobos", sua estreia como diretor e que lhe rendeu o Oscar da categoria (além de outras seis estatuetas, incluindo melhor filme). Deixando de lado sua tendência à megalomania e seu ego exarcebado (apesar de ainda assinar como um dos produtores), Costner entrega à plateia uma das melhores e mais naturais atuações de sua carreira, mostrando que, apesar dos erros monumentais de sua trajetória, ele é um astro de grande carisma, especialmente quando tem a seu lado atores do porte de Paul Newman e Robin Wright Penn, capazes de iluminar qualquer cena com seu imenso talento. São eles que dão à trama - nada especial e até um tanto previsível - o charme e a credibilidade necessários para que ela se torne uma experiência interessante e comovente.


Apesar do nome de Costner ser o primeiro dos créditos, a verdadeira protagonista é Theresa Osborne, a personagem vivida pela bela Robin Wright (então Penn): pesquisadora do jornal Chicago Tribune, ela encontra, durante um período de descanso à beira do mar, uma garrafa contendo uma bela e triste carta romântica, endereçada a uma mulher chamada Catherine. Comovida com o texto e intrigada com uma possível história a ser publicada - principalmente quando descobre outras cartas escritas pelo mesmo autor, ela investiga o caso com a ajuda de uma colega de trabalho e chega até uma pequena cidade costeira, onde conhece Garrett Blake (Costner), um viúvo charmoso e introvertido que vive às turras com a família de sua falecida mulher e se recusa a esquecer o passado. Encantada com Garrett, Theresa esconde dele o real motivo de sua visita e os dois acabam se envolvendo. Ela, desiludida com um divórcio recente e ele ainda enfrentando um luto de dois anos, se apaixonam perdidamente, redescobrindo sentimentos que consideravam enterrados dentro de si. Mas será que Garrett saberá compreender as razões que levaram Theresa a ocultar a verdade sobre seu encontro?

Mesmo que esteja longe de ser uma obra-prima - em parte porque o roteiro não dá espaço a um aprofundamento maior aos personagens e à trama e em parte porque a intenção do filme é apenas emocionar seu público - "Uma carta de amor" cumpre o que promete. É um romance adulto, estrelado por atores competentes (Paul Newman dá show em cada cena em que aparece como o ranzinza pai de Costner) e com uma história que não tenta inventar a roda, mas prende a atenção do início até o final trágico como é comum na obra de Sparks. Com uma química potente entre Kevin Costner e Robin Wright Penn, é também um dos romances mais consistentes de sua época. Os fãs não tem do que reclamar.

quarta-feira

UMA HISTÓRIA REAL

UMA HISTÓRIA REAL (The Straight story, 1999, Asymmetrical Productions/Canal +/Channel Four Films, 112min ) Direção: David Lynch. Roteiro: John Roach, Mary Sweeney. Fotografia: Freddie Francis. Montagem: Mary Sweeney. Música: Angelo Badalamenti. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Jack Fisk/Barbara Haberecht. Produção executiva: Pierre Edelman, Michael Polaire. Produção: Neal Edelstein, Mary Sweeney. Elenco: Richard Farnsworth, Sissy Spacek, Jane Galloway Heitz, Joseph A. Carpenter, Donald Wiegert, Everet McGill, Harry Dean Stanton. Estreia: 21/5/99 (Festival de Cannes)

Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Richard Farnsworth)

Antes de começar uma sessão de "Uma história real" é preciso esquecer que seu diretor, David Lynch, é o cérebro por trás de obras perturbadoras como "Veludo azul" e "Coração selvagem" - além da telessérie "Twin Peaks", que mudou de forma definitiva a maneira como a televisão era feita nos EUA em 1991. Pela primeira dirigindo um roteiro alheio (e baseado em uma história verídica), Lynch demonstrou um lado sensível, carinhoso e delicado que pegou de surpresa até mesmo a seus fãs mais fiéis, que viram nele uma faceta menos macabra e bizarra de seu realizador. Até mesmo a Academia de Hollywood se viu obrigada a reconhecer a excelência do resultado final, dando ao protagonista do filme, Richard Farnsworth, a indicação ao Oscar de melhor ator. Aos 79 anos na ocasião, Farnsworth tornou-se o mais velho indicado da categoria em todos os tempos, e infelizmente, meses depois da cerimônia que premiou Kevin Spacey - por "Beleza americana" - suicidou-se ao saber de um diagnóstico de câncer.

Em uma atuação que equilibra fragilidade física com extrema força emocional, Farnsworth transforma a odisseia de um homem em busca de reatar laços familiares perdidos em um um comovente tratado sobre a velhice, a solidão e a força da solidariedade entre desconhecidos. Comandando o espetáculo a bordo de uma máquina de cortar grama adaptada a um trator, o veterano ator conquista o público e os personagens que cruzam seu caminho sem muito esforço, graças também ao script fluente e à edição que, fugindo da pressa habitual do cinema americano da década de 90, contempla e retrata com suavidade a placidez a trajetória do seu protagonista rumo a seu objetivo principal. Traçado como uma linha reta e simples - mas jamais simploria ou rasa - o roteiro de Sweeney e John Roach cativa a audiência justamente pela ausência de artifícios ou reviravoltas: a história de Alvin Straight é formada apenas por sua férrea determinação e por sua inusitada viagem rumo à paz de espírito.


Alvin Straight, o protagonista do filme, é um senhor de 73 anos de idade, aposentado, que vive em uma zona rural do estado de Iowa ao lado de uma de suas filhas, Rose (Sissy Spacek) - uma mulher com problemas mentais que não se conforma com a perda da guarda dos filhos. Ao ficar sabendo que seu irmão mais velho, Lyle (com quem está sem falar há dez anos, desde que tiveram uma briga) sofreu um enfarte, ele resolve procurá-lo, com o objetivo de reatar a relação. Fisicamente prejudicado pela idade, ele é desencorajado por todos ao seu redor, mas, inabalável em sua decisão, ele transforma seu cortador de grama em um pequeno trator e inicia uma viagem até o Wisconsin, enfrentando chuva, sol e problemas mecânicos no caminho. Suas dificuldades, porém, são amenizadas graças às amizades que vai fazendo no trajeto - que o fazem refletir sobre sua vida, sua família e a transitoriedade dos problemas frente à grandeza do universo.

É surprendente como David Lynch consegue se reinventar como diretor em "Uma história real": abandonando totalmente as características que lhe deram fama e prestígio, ele apresenta ao espectador um drama desprovido de qualquer tipo de truque sentimental ou de narrativa. Limpa e sem excessos, sua direção apenas deixa nas mãos (e nos olhos) extremamente competentes de Richard Farnsworth o maior trabalho, e é impossível não se deixar envolver por ele. Recitando diálogos aparentemente simples mas repletos de significados poéticos e de uma profundidade dramática rara no cinema norte-americano, ele encarna um Alvin Straight dolorosamente real e comovente, que cruza com outros personagens igualmente impactantes, como uma jovem grávida incapaz de lidar com a própria família, um homem de idade atormentado pelos fantasmas da guerra e uma mulher desesperada com o fato de atropelar veados com uma frequência muito maior do que poderia suportar - uma cena, aliás, que poderia resvalar no mau-gosto mas que, sob a visão de Lynch, acaba se tornando uma metáfora perfeita sobre a brevidade da vida.

Uma pequena obra-prima de delicadeza e sensibilidade perdida em uma filmografia frequentemente assustadora e chocante, "Uma história real" é um dos melhores trabalhos de David Lynch, e um deslumbrante canto do cisne de Richard Farnsworth. Imperdível!

terça-feira

HURRICANE - O FURACÃO

HURRICANE - O FURACÃO (The Hurricane, 1999, Universal Pictures, 146min) Direção: Norman Jewison. Roteiro: Armyan Bernstein, Dan Gordon, livros "The 16th Round", de Rubin "Hurricane" Carter e "Lazarus and the Hurricane", de Sam Chaiton e Terry Swinton. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Stephen Rivkin. Música: Christopher Young. Figurino: Aggie Guerard-Rodgers. Direção de arte/cenários: Philip Rosenberg/Gordon Sim. Produção executiva: Marc Abraham, Irving Azoff, Thomas A. Bliss, Rudy Langlais, Tom Rosenberg, William Teitler. Produção: Armyan Bernstein, Norman Jewison, John Ketcham. Elenco: Denzel Washington, Deborah Kara Unger, Liev Schrieber, John Hannah, Dan Hedaya, Vicellous Reon Shannon, Clancy Brown, David Paymer, Rod Steiger, Debbi Morgan. Estreia: 17/9/99 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Denzel Washington)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Denzel Washington)

Em 1966, o lutador de boxe Rubin "Hurricane" Carter, forte candidato ao título de campeão mundial de peso médio, foi preso, acusado de múltiplo homicídio. Condenado a três penas de prisão perpétua, ele nunca cansou de clamar inocência, chamando a atenção dos ativistas pelos direitos civis dos negros e de personalidades como o lutador Muhamad Ali, a atriz Ellen Burstyn e o cantor Bob Dylan, que inclusive compôs uma canção de protesto narrando os fatos que levaram o atleta à prisão e levantando a clara hipótese de perseguição racial. Tal história, um dos mais contundentes retratos das diferenças sociais dos EUA na década de 60 rendeu dois livros: um, escrito pelo próprio Carter, narrava sua vida repleta de preconceito e violência. O outro, mais inspirador, revelava a relação entre ele e um adolescente negro chamado Lesra, que, se identificando com a biografia do boxeador, convenceu seus tutores canadenses a colaborar na tentativa de um novo julgamento, mais de 30 anos depois de sua condenação. Essa história - escrita pelos professores do rapaz - foi o que serviu de base para "Hurricane, o furacão", a versão cinematográfica que quase deu o Oscar de melhor ator a Denzel Washington em 2000. Dirigido pelo veterano Norman Jewison - cujo "No calor da noite" também tinha o preconceito racial como mote dramático - a história de Rubin Carter chegou às tela cercada de elogios, mas não passou incólume ao teste da realidade: acusado de distorcer os fatos em favor do protagonista, o filme sofre de uma parcialidade que dilui sua denúncia (apesar de não diminuir seu valor como arte).

Fabuloso na pele de Rubin Carter, Denzel Washington levou o Golden Globe de melhor ator dramático, mas perdeu o Oscar para Kevin Spacey, brilhante em "Beleza americana". Alguns chegaram a culpar as controvérsias geradas pelo roteiro do filme - como a criação do personagem Della Pesca, vivido por Dan Hedaya, uma espécie de Javert (de "Os miseráveis", de Victor Hugo) em sua busca incessante pela condenação do protagonista desde sua infância - para enfatizar a conotação racial da perseguição. É possível que tais polêmicas tenham realmente respingado em Denzel, mas o fato é que nem mesmo sua atuação visceral consegue esconder a irregularidade do trabalho de edição e da fragilidade da estrutura do roteiro, que muda de tom e foco repentinamente, prejudicando inclusive o ritmo empolgante de sua primeira hora. Contando praticamente dois filmes em um só - a divisão fica clara entre os dois livros que lhe deram origem - Jewison não consegue manter a unidade de sua narrativa, deixando de lado, por exemplo, a montagem fora de ordem cronológica de seus primeiros minutos, que conquistam a audiência sem muito esforço. O terço inicial do filme, forte e dramático, logo é substituído por um tom mais ameno e pacifíco que, se corresponde às mudanças espirituais do protagonista em seu processo de amadurecimento na cadeia, deixa o produto final com menos força do que poderia se mantivesse a fúria do começo.


A trama já começa com a prisão de Carter, em 1966, juntamente com um amigo, igualmente negro, pela morte de três pessoas em um bar. Reconhecido por uma testemunha ocular retratada no filme como incapaz de tal - e coagida por um policial que persegue o lutador desde que ele ainda era uma criança, ele é imediatamente preso e, depois de um julgamento pouco mostrado em cena (o que dá margem às dúvidas sobre a veracidade de seu rigor histórico) é condenado e, rebelde, impõe sua forte personalidade junto às autoridades policiais, trocando o dia pela noite, estudando seu próprio caso e escrevendo sua biografia, chamada "O 16º round". O livro se torna um sucesso e, sete anos depois, cai nas mãos de um jovem negro chamado Lesra (Vicellous Reon Shannon), que, identificando-se com a história do famoso presidiário, inicia com ele uma correspondência fraternal. Morando no Canadá com três tutores que veem nele um futuro que estava ameaçado pelo descaso paterno e familiar, Lesra acaba por convencer seus amigos a iniciarem uma campanha que exija um novo julgamento para Carter - com base em incoerências durante o processo, eles desejam anular as sentenças.

É difícil não gostar de "Hurricane, o furacão": a direção de atores de Norman Jewison é certeira, extraindo de cada ator a expressão mais correta e apropriada, a trilha sonora de Christopher Young é eficaz, e a história é contada de forma emocionante, ainda que burocrática em seus dois terços finais. Além do mais, Denzel Washington entrega uma performance avassaladora, equilibrando fúria e desespero nas medidas certas. Mas talvez com mais ousadia no roteiro e na direção um filme bom poderia ter se transformado em uma pequena obra-prima. A falta de coragem dos produtores talvez tenha sido o golpe fatal para suas intenções. Mesmo assim, é um dos grandes filmes da temporada 99.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...