Mostrando postagens com marcador PATRICIA ARQUETTE. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador PATRICIA ARQUETTE. Mostrar todas as postagens

sexta-feira

ESTRADA PERDIDA


ESTRADA PERDIDA (Lost highway, 1997, CiBy 2000, 134min) Direção: David Lynch. Roteiro: David Lynch, Barry Gifford. Fotografia: Peter Deming. Montagem: Mary Sweeney. Música: Angelo Badalamenti. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Patricia Norris/Leslie Morales. Produção: Deepak Nayar, Tom Sternberg, Mary Sweeney. Elenco: Bill Pullman, Balthazar Getty, Patricia Arquette, Robert Blake, Louis Eppolito, Gary Busey, Natasha Gregson-Wagner. Estreia: 15/01/97 (França) 

A maneira com que ideias surgem na mente de criadores é sempre uma incógnita. Autores costumam ser inspirados por canções, acontecimentos reais, pessoas que conhecem, livros ou até mesmo por sonhos - e nenhum deles se arriscaria a afirmar sua receita como a melhor ou mais acertada. Que o diga David Lynch, que viu o roteiro de seu "Estrada perdida" surgir de dois acontecimentos completamente aleatórios. Segundo o cineasta, tudo começou com um incidente estranho ocorrido em sua própria casa, quando uma voz desconhecida declarou, através do interfone, que uma pessoa que ele não conhecia estava morta - para simplesmente desaparecer depois da notícia. Além disso, durante o processo de escrita, Lynch teve (segundo ele mesmo, de forma inconsciente) a influência de um dos julgamentos mais rumorosos dos EUA na década de 1990: o caso O.J. Simpson, levado aos tribunais pelo duplo homicídio de sua ex-mulher e um amigo. De posse desses dois elementos díspares, um dos mais íntegros e fascinantes realizadores de Hollywood surgiu com seu oitavo longa-metragem, aquele que foi definido pela revista Entertainment Weekly como um dos mais assustadores filmes de todos os tempos. Cruel e angustiante na mesma medida, "Estrada perdida" é, também, um exercício de estilo dos mais impressionantes.

Enigmático como boa parte da filmografia de David Lynch, "Estrada perdida" já desnorteia o espectador de cara, assim como o faz com seus protagonistas, o saxofonista Fred Madison (Bill Pullman, colhendo os louros do sucesso de bilheteria de "Independence Day" (1996) e sua bela esposa, Renee (Patricia Arquette, morena): passando por uma série crise em seu casamento, enfatizada pelo constante ciúme de Fred, o casal ainda precisa lidar com a chegada constante de fitas de vídeo deixadas à sua porta, que mostram cenas do interior de sua casa. Nem mesmo a polícia é capaz de fazer algo para resolver a situação - que pode ou não estar relacionada ao violento assassinato de Renee, pelo qual seu marido acaba por ser responsabilizado e condenado. Se até então Lynch brincava com a percepção do público a respeito de seu par central de personagens - cujas personalidades não são aprofundadas propositalmente -, o segundo ato embaralha as cartas de forma radical: do nada, de dentro de sua cela, Fred se transforma em outra pessoa, mais jovem, com outro nome, outro rosto e outra profissão. A partir de então ele é Pete Dayton (Balthazar Getty), mecânico preso por crimes menores e que, fora da cadeia, irá se envolver em um romance arriscado com Alice (Patricia Arquette, dessa vez loura), amante de um perigoso gângster. Mas afinal de contas, qual a relação entre Fred Madison e Pete Dayton? Ou mais importante ainda: há alguma relação entre eles? E quem mandava as fitas para Madison e Renee? E quem é Dick Laurant - cujo anúncio de morte feito via interfone para o saxofonista dá início ao jogo?

Quem conhece a obra de David Lynch sabe que nem todas as perguntas criadas em suas tramas tem respostas óbvias - frequentemente cada espectador tem uma resposta própria e razoavelmente coerente com suas percepções. Em "Estrada perdida" não é diferente: amparado pela trilha sonora hipnótica de Angelo Badalamenti - em sua quarta colaboração juntos - e pela edição claustrofóbica de Mary Sweeney, o cineasta conduz a plateia por uma jornada aflitiva e aparentemente caótica cujos elementos só fazem sentido quando unidos em um panorama maior. Assim como faria em seus filmes seguintes, "Cidade dos sonhos" (2002) e "Império dos sonhos" (2006), o diretor apresenta suas armas gradativamente, jogando luz sobre detalhes que se repetem em circunstâncias contraditórias e/ou complementares. Um filme de Lynch não é apenas um passatempo esquecível: reafirmando seu modo peculiar de enxergar o mundo, o homem que fez o planeta se perguntar quem matou Laura Palmer - na antológica série "Twin Peaks" - faz de uma sessão de pouco mais de duas horas se transformar em uma experiência sensorial completa, em que nada é o que parece ser, personagens desafiam a lógica pré-estabelecida pelas regras narrativas e atores mostram lados até então novos de suas personas artísticas. É assim que Bill Pullman se transforma em um Fred Madison angustiado, paranoico e torturado e Patricia Arquette abandona suas personagens maluquetes - de filmes como "Amor à queima-roupa" (1993), "Ed Wood" (1994) e "Procurando encrenca" (1996) - para entregar não apenas uma, mas duas atuações densas, que chegam ao limite entre o sensual e o macabro.

Chegar a uma conclusão definitiva sobre qualquer trabalho de David Lynch é tarefa inglória. Por mais que sempre exista um caminho para decifrar seus enigmas - montados como um pesadelo pictório - e no final das contas as coisas possam fazer sentido dentro de um quadro maior, quebrar a cabeça com mil teorias faz parte da viagem que é assistir a filmes como "Estrada perdida". Toda imagem, todo diálogo, todo personagem, são peças essenciais para que o conjunto se torne, no final da sessão, uma espécie de experiência única e avassaladora. Em "Estrada perdida" há uma explicação lógica e simples por trás da profusão de problemas apresentados - mas a forma como se chegar a essa explicação é que faz disso tudo um momento único. Embalado por uma trilha sonora jazzística que mistura David Bowie, Lou Reed, Marilyn Manson, Trent Reznor e Tom Jobim - uma miscelânea que já dá pistas sobre o estilo iconoclasta do currículo do cineasta - e por um tom aterrador de suspense que jamais permite ao público antecipar o que virá pela frente, "Estrada perdida" é mais um ponto alto da carreira de seu realizador, ainda que apeteça muito mais a seu público cativo do que eventuais neófitos.

quinta-feira

BOYHOOD - DA INFÂNCIA À JUVENTUDE

BOYHOOD: DA INFÂNCIA À JUVENTUDE (Boyhood, 2014, IFC Productions/Detour Filmproduction, 165min) Direção e roteiro: Richard Linklater. Fotografia: Lee Daniel, Shane Kelly. Montagem: Sandra Adair. Figurino: Kari Perkins. Direção de arte/cenários: Rodney Becker/Melanie Ferguson. Produção: Richard Linklater, Jonathan Sehring, John Sloss, Cathleen Sutherland. Elenco: Ellar Coltrane, Ethan Hawke, Patricia Arquette, Lorelei Linklater, Elijah Smith, Steven Prince. Estreia: 19/01/14 (Festival de Sundance)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Richard Linklater), Ator Coadjuvante (Ethan Hawke), Atriz Coadjuvante (Patricia Arquette), Roteiro Original, Montagem
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Patricia Arquette)
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Richard Linklater), Atriz Coadjuvante (Patricia Arquette)

Em 1999, o cineasta Paul Thomas Anderson criou, com seu impressionante “Magnólia”, um épico sobre pessoas comuns e colheu elogios unânimes da crítica ao substituir cenas de ação e milhares de figurantes por cenas intimistas e personagens cujas preocupações se resumiam a brigar com seus fantasmas interiores. Quinze anos depois, um outro norte-americano pôs seu nome na história do cinema ao levar ainda mais longe esse conceito da grandiosidade do homem banal: com seu “Boyhood, da infância à juventude”, Richard Linklater encantou críticos, desconcertou plateias e entrou na corrida do Oscar 2015 com o pé direito, concorrendo a seis estatuetas – perdeu as principais, mas deu à Patricia Arquette o prêmio de atriz coadjuvante, repetindo a escolha do Golden Globe. O porquê de tantos aplausos fica claro assim que os créditos finais começam a subir. Em duas horas e meia de duração, Linklater conta, sem lances melodramáticos ou artifícios sentimentaloides, a rotina de um menino normal, desde a escola primária até o momento em que ele sai de casa para cursar a faculdade. Quando criança, Mason não era um garoto problemático; na pré-adolescência, não afundou em drogas ou álcool; e quando finalmente começou a viver de forma independente dos pais, mostra-se um rapaz de confiança e surpreendentemente maduro. Mas é justamente por ser tão comum – tedioso, diriam os detratores – que Mason é um dos personagens mais cativantes do cinema ianque contemporâneo. E o que é mais admirável? Ele é vivido, dos seis aos dezenove anos, pelo mesmo ator, Ellar Coltrane.
Ao contrário do que normalmente acontece em filmes que retratam o processo de amadurecimento de um personagem na transição entre a infância e a adolescência, o diretor não substituiu seu ator central: o que se vê na tela é o trabalho de treze anos, condensado em 150 minutos de cenas desprovidas de emoções falsas e recheadas de uma naturalidade rara no cinemão americano – algo talvez semelhante apenas à trilogia “Antes do amanhecer”, “Antes do pôr-do-sol” e “Antes da meia-noite”, não por acaso dirigida pelo mesmo Linklater: seu talento em criar diálogos críveis é tanto que muita gente chegou a questionar sua indicação ao Oscar de roteiro original. Compreensível. Acostumados a filmes que revestem sentimentos e relações humanas com um verniz de previsibilidade cada vez maior, muitos espectadores não souberam entender a proposta e o resultado final da obra. Afinal, pra que perder quase três horas da vida assistindo a vida de um moleque sem grandes problemas e que não possui nenhum poder alienígena? Todos aqueles que embarcaram sem reservas na viagem de Linklater, porém, só tiveram uma opção: considerar-se parte da família de Mason e acompanhar com carinhoso interesse partes de uma vida que poderia facilmente ser a sua.




Quando o filme começa, Mason tem seis anos de idade e é surpreendido com a notícia de que sua mãe, Olivia (Patricia Arquette, em uma decisão corajosa de envelhecer praticamente diante das câmeras), vai voltar a estudar, precisando, para isso, voltar à cidade natal, no Texas. Ao lado da irmã mais velha, Samantha (Lorelei Linklater, filha do diretor), o garoto precisa lidar com o fato de abandonar os amigos e sua rotina. É nessa nova cidade que ele irá desenvolver-se, conhecer o amor, desiludir-se, trabalhar para completar a renda doméstica, descobrir a paixão pela fotografia e, vez ou outra, ter de lidar com os novos maridos da mãe – uma mulher forte, decidida e amorosa, mas incapaz de acertar-se afetivamente. Enquanto isso, vai firmando também a relação com o pai (Ethan Hawke), que, mesmo depois da separação, nunca perdeu o contato com os filhos – ainda que com menos frequência do que todos gostariam. Da primeira cena até o desfecho, não há nenhuma sequência que manipule as emoções do espectador: o cineasta conduz sua narrativa com leveza, bom-humor, ternura e um certo ar de nostalgia que torna tudo ainda mais encantador. Ellar Coltrane, com seu ar ingênuo, constrói um protagonista apaixonante, que se deixa levar pela vida com uma espécie de sabedoria zen, como se soubesse que tudo é parte de uma experiência maior. Ethan Hawke e Patricia Arquette encarnam com garra seus pais, oferecendo ao público trabalhos extremamente difíceis justamente por sua aparente simplicidade e a edição suave e fluida praticamente pega o público pela mão enquanto o acompanha pelos anos dourados de Mason. Pontuado aqui e ali por alguma referência pop – Britney Spears, Harry Potter, Lady Gaga – o roteiro não deixa de ser, também, um panorama sensível de parte da história dos EUA através dos olhos de um de seus filhos.
Linklater – preterido no Oscar por Alejandro G. Iñarrítu e seu “Birdman” – merecia a estatueta. Não apenas por ter investido mais de uma década em uma produção que corria o sério risco de nunca ver a luz dos refletores (a filha do cineasta chegou a pensar em desistir do projeto e Ethan Hawke aceitou a incumbência de levar a ideia adiante no caso da morte do autor) mas por ter ousado desafiar um mercado avesso a novidades e à quebra de paradigmas. Seu filme vai contra todas as regras do mercado – é longo acima da média, não tem grandes astros ou orçamento milionário, não tem um roteiro esquemático nem tampouco apela para efeitos especiais – e não tem a menor vontade de pedir desculpas por isso. É maduro, é belo e valoriza os pequenos momentos da vida como se eles fossem heroicos ou épicos. É, enfim, um dos poucos filmes da história que podem ser considerados como um “retrato da vida”. Muita gente pode torcer o nariz. Mas em inúmeras ocasiões a simplicidade ainda é muito mais interessante do que o luxo, e isso fica óbvio quando o espectador chega ao final do filme querendo ver mais e mais sobre a vida de Mason Jr..

domingo

O PRINCIPAL SUSPEITO

O PRINCIPAL SUSPEITO (Nightwatch, 1997, Dimension Films, 101min) Direção: Ole Bornedal. Roteiro: Ole Bornedal, Steven Soderbergh, roteiro original de Ole Bornedal. Fotografia: Dan Laustsen. Montagem: Sally Menke. Música: Joachim Olbeck. Figurino: Louise Mingenbach. Direção de arte/cenários: Richard Hoover/Brian Kasch. Produção executiva: Cary Granat, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Elenco: Ewan McGregor, Nick Nolte, Josh Brolin, Patricia Arquette, Brad Dourif, John C. Reilly, Lauren Graham. Estreia: 02/07 (Semana Internacional de Cinema Fantástico de Málaga)

Mal-acostumado que é e extremamente resistente a filmes legendados, o público norte-americano volta e meia se vê "obrigando" produtores a traduzir à sua maneira produções elogiadas e bem-sucedidas em seus países de origem. Muitas vezes, tal transferência é um tiro no pé, com histórias interessantes e criativas sendo diluídas por uma visão frequentemente pasteurizada e encaixada nos padrões mais palatáveis ao gosto médio da plateia. De vez em quando, porém, os produtores acabam fazendo as escolhas certas e conseguem chegar bem perto do original, transmitindo a ideia principal de seus criadores em filmes acima da média - ainda que nem sempre isso seja certeza de uma receptividade positiva por parte da audiência. Um exemplo claro disso é "O principal suspeito", refilmagem do suspense policial "Nattevagten", lançado na Dinamarca em 1994. Dirigido pelo mesmo Ole Bornedal da versão original, o filme estrelado por um Ewan McGregor recém começando a navegar na onda do prestígio de suas colaborações com Danny Boyle - a saber, "Cova rasa" e "Trainspotting, sem limites" - estreou em um Festival Internacional de Cinema Fantástico na Espanha em fevereiro de 1997, mas só foi chegar aos cinemas americanos mais de um ano depois, rendendo pouco mais de um milhão de dólares nas bilheterias. Seu fracasso ajudou na demora do filme em estrear no resto do mundo - no Brasil só chegou em agosto de 1998 - e acabou com suas possibilidades de ser reconhecido como um dos mais intrigantes filmes do gênero na década.

McGregor, com o carisma que lhe é característico, vive Martin Bells, um jovem estudante de Direito que, para ajudar nas despesas e lhe dar tempo para estudar, arruma emprego como vigia noturno de um necrotério. O que para muitos é uma função apavorante, para ele acaba soando corriqueira depois das primeiras e solitárias noites. O problema maior de seu novo trabalho é o fato de ele estar no epicentro de um furacão: um serial killer violento tem matado prostitutas e arrancado seus olhos, deixando a cidade em pânico e o experiente inspetor Thomas Cray (Nick Nolte) duvidando de todos à sua volta. Com os nervos à flor da pele, o jovem Martin acaba se tornando suspeito dos crimes depois que uma brincadeira com seu melhor amigo, James (Josh Brolin) o liga a uma das vítimas e, sem saber com quem contar, ele perde também o apoio da namorada, Katherine (Patricia Arquette) e passa a ser ameaçado de perder o emprego - especialmente quando os cadáveres começam a lhe pregar sustos cada vez maiores.


Sem fugir dos elementos mais tradicionais do suspense clássico, o diretor Ole Bornedal transmite toda a tensão e a sensação de claustrofobia de seu protagonista sem precisar recorrer a muitos artifícios. Apenas com uma fotografia seca, uma edição de som inteligente e uma montagem que surpreende justamente por ser simples e eficiente, ele assusta o espectador e o conduz a uma trama instigante o suficiente para manter a atenção até os minutos finais - que até escorregam no clichê, mas mesmo assim de forma coerente. Espalhando pistas e suspeitos no decorrer da trama - até mesmo o excelente Brad Dourif dá as caras como um médico que trabalha no necrotério e não parece muito confiável - e sustentando todos eles com atores em dias inspirados (Nick Nolte especialmente), "O principal suspeito" convence até mesmo o mais escolado espectador. Sua despretensão em soar moderno ou ultra-surpreendente conquista desde os créditos iniciais - que dão o tom sombrio da narrativa - até o final, de uma tensão palpável e empolgante.

É lógico que "O principal suspeito", como entretenimento puro e simples, não tem intenções outras que não divertir por pouco mais de uma hora e meia, o que faz com extrema competência. Mas seu sucesso em alcançar notas tão altas com elementos tão básicos mostra com clareza que o mais importante em um filme não é um orçamento milionário, astros apáticos ou efeitos visuais mirabolantes. A lição que o filme passa, com sua simplicidade explícita, é que boas ideias e talento para colocá-las em prática são e sempre serão primordiais na arte. Os sustos, no filme de Bornedal, são francos e diretos - nada de gatinhos surgindo do nada ou cadeiras rangendo - e funcionam justamente porque soam reais e próximos. Essa tangência é o segredo do filme. Junto com o jeitão "gente como a gente" de Ewan McGregor, ela transforma uma diversão ligeira em um perfeito exemplar de refilmagem que supera o original.

quinta-feira

AMOR À QUEIMA-ROUPA

AMOR À QUEIMA-ROUPA (True romance, 1993, Morgan Creek Productions, 120min) Direção: Tony Scott. Roteiro: Quentin Tarantino. Fotografia: Jeffrey L. Kimball. Montagem: Michael Tronick, Christian Wagner. Música: Hans Zimmer. Figurino: Susan Becker. Direção de arte/cenários: Benjamín Fernández/Thomas L. Roysden. Produção executiva: James G. Robinson, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Gary Barber, Samuel Hadida, Steve Perry, Bill Unger. Elenco: Christian Slater, Patricia Arquette, Gary Oldman, Christopher Walken, Dennis Hopper, Brad Pitt, Saul Rubinek, Michael Rapaport, James Gandolfini, Samuel L. Jackson, Val Kilmer, Bronson Pinchot, Chris Penn, Tom Sizemore, Maria Pitillo. Estreia: 10/9/93

Antes de tornar-se febre e ser considerado o "novo Martin Scorsese" graças ao sucesso imediato de seu violento "Cães de aluguel" (92), Quentin Tarantino trabalhava como gerente de uma video-locadora, como qualquer fã de cinema bem informado sabe. O que talvez pouca gente saiba é que, durante esse período, ele e seu colega Roger Avary trabalharam em uma gigantesca história com mais de 500 páginas recheada de todas as características que posteriormente marcariam a obra do mais venerado cineasta da década de 90. Logicamente um roteiro de 500 páginas jamais seria produzido, nem mesmo pelo mais alucinado estúdio de Hollywood e a trama acabou sendo dividida em dois filmes que aparentemente nada tem em comum: o primeiro, "Assassinos por natureza", acabou se transformando em um gigantesco manifesto anti-violência dirigido por Oliver Stone e anabolizado com um excesso de efeitos de filmagem que descaracterizou o texto de Tarantino e provocou duras críticas de seu autor (apesar de ser um grande filme ainda não devidamente reconhecido por todo mundo). O segundo, com narrativa mais tradicional - mas ainda assim extremamente violento - é "Amor à queima-roupa", vendido por meros 50 mil dólares e dirigido pelo inglês Tony Scott, irmão de Ridley e mais conhecido como o autor de filmes bem-sucedidos comercialmente mas ocos em conteúdo, como "Top Gun, ases indomáveis" (86) e "Um tira da pesada II" (87). De posse do roteiro ágil e sem melindres de Tarantino - e com um grande elenco em dias pra lá de inspirados - Scott conseguiu assinar o melhor filme de sua carreira, tragicamente encerrada em agosto de 2012 com um suicídio que abalou Hollywood.

Apesar de parecer estranha a afirmação, "Amor à queima-roupa" é, como diz o título, uma história de amor, ainda que revestida de todas as obsessões e neuroses da década de 90 - bem com de suas referências à cultura contemporânea e às cenas de sexo bem fotografadas e quentes na medida certa. A fotogênica (ainda que um tanto canastrona) dupla central serve perfeitamente às intenções da trama, rocambolesca, exagerada e extremamente divertida. Clarence (Christian Slater no melhor papel de sua carreira) é um jovem atendente de uma loja de quadrinhos raros (referência autobiográfica de Tarantino) que sofre com sua falta de aptidões sociais. Na noite de seu aniversário, ele vai ao cinema assistir a uma sessão tripla de filmes de kung-fu e conhece a doce Alabama (Patricia Arquette), com quem sente uma identificação imediata. Os dois passam a noite juntos, se apaixonam e a verdade cai sobre eles como um balde de água fria: ela é prostituta e foi contratada pelo chefe do rapaz como presente de aniversário. Ao invés de ficar arrasado e sentir-se traído, Clarence sente na confissão da moça uma prova de sinceridade e a pede em casamento. Para que possam viver sua vida em paz, porém, eles precisam se livrar do cafetão de Alabama, o bizarro Drexl (Gary Oldman). E é aí que os problemas realmente começam.


Depois de um confronto com Drexl, em que tanto o cafetão quanto todos os seus comparsas são mortos, Clarence fica de posse de uma mala com 500 mil dólares em cocaína. Vendo nessa trágica circunstância a chance de ficar rico e poder viver ao lado da amada Alabama, eles viajam até Hollywood para vender a droga ao produtor de cinema (Saul Rubinek), mas não sabem que atrás deles está o verdadeiro dono da mercadoria - um mafioso pouco dado a sutilezas que não hesita em matar quem atrapalhe seu caminho - e a polícia de Los Angeles, disposta a tudo para desbaratar a quadrilha de traficantes. O resultado, como se poderia esperar, é um daqueles massacres que só Hollywood sabe orquestrar sem ofender a suscetibilidade da plateia. Exercitando a violência como poucas vezes em sua filmografia, Scott deita e rola em sequências feitas para o delírio dos fãs do gênero - em especial a luta entre Alabama e o capanga vivido pelo saudoso James Gandolfini, em que até mesmo um saca-rolhas serve de arma. É para nenhum fã de sangue botar defeito.

Mas, por trás da violência, das sacadas pop de Quentin Tarantino e do elenco cool, "Amor à queima-roupa" é um bom filme? Sem dúvida. Apesar de nunca ter conseguido realizar antes um filme que combinasse o visual apurado de suas produções com um conteúdo digno de tanto capricho, aqui ele tem a chance de explorar tanto a direção de atores - o que não é difícil quando se tem em cena dois monstros como Christopher Walken e Dennis Hopper, por exemplo - quanto o desenvolvimento de uma trama que, apesar dos clichês (utilizados com destreza ímpar), é inteligente e bem construída. O ritmo imposto a partir da morte de Drexl é alucinado, equilibrado com doses de humor negro e participações especiais que vão desde um Brad Pitt chapado em todas as cenas até a um Val Kilmer que não mostra o rosto como o fantasma de Elvis Presley que aconselha Clarence em suas aventuras. É uma história de amor ao gosto de Quentin Tarantino, com tudo que faz do seu cinema bom ou ruim, dependendo do ponto de vista. É pegar ou largar.

quarta-feira

VIVENDO NO LIMITE

VIVENDO NO LIMITE (Bringing out the dead, 1999, Paramount Pictures/Touchstone Pictures, 121min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Paul Schrader, romance de Joe Connelly. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Thelma Schoonmaker. Música: Elmer Bernstein. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Dante Ferretti/William F. Reynolds. Produção executiva: Bruce S. Pustin, Adam Schroeder. Produção: Barbara De Fina, Scott Rudin. Elenco: Nicolas Cage, John Goodman, Tom Sizemore, Patricia Arquette, Marc Anthony, Ving Rhames, Mary Beth Hurt. Estreia: 22/10/99

Se o subestimado “Cassino", filme anterior do diretor Martin Scorsese, tinha ecos de sua obra-prima “Os bons companheiros” tanto em forma quanto em violência, este “Vivendo no limite”, baseado no romance de Joe Connelly emula diretamente um clássico do cineasta, o inesquecível “Taxi driver”, em que o taxista vivido por Robert de Niro se aventurava pelas perigosas e ameaçadoras ruas de Nova York durante as madrugadas. Sintomaticamente ambos os filmes foram escritos por Paul Schrader, colaborador habitual de Scorsese e tratam da solidão em níveis quase doentios.

O solitário em “Vivendo no limite” não é mais um taxista traumatizado pela guerra do Vietnã e sim Frank Pierce (Nicolas Cage), um paramédico que sofre de insônia e tem visões de uma jovem prostituta que morreu em seus braços. Corroído por uma culpa sem sentido, ele começa a buscar a redenção quando conhece (Patrícia Arquette), a jovem filha de um homem em coma, salvo por ele. Em seu caminho atrás de sua sanidade mental, Pierce testemunha um lado obscuro da humanidade e chega a envolver-se em situações de perigo e violência.


Similaridades com “Taxi driver” pipocam a cada cena, assim como gritantes diferenças. A fotografia úmida de Robert Richardson, a montagem quase paranóica de Thelma Schoonmaker e a edição de som colaboram com o clima de pesadelo proposto por Scorsese, bem como a trilha sonora nervosa, que mistura REM, Bob Dylan e Rolling Stones sem medo de errar. Os coadjuvantes também não prejudicam o conjunto, especialmente Tom Sizemore, como um paramédico histérico e revoltado que faz esporádicas parcerias com o protagonista, cuja personalidade atormentada também remete ao Travis Bickle de DeNiro.
Mas é justamente na figura de seu protagonista que "Vivendo no limite" perde dezenas de pontos, especialmente em comparação com a icônica imagem criada por De Niro e o mesmo Scorsese em "Taxi driver". Com sua cara de cachorro perdido, em nenhum momento Nicolas Cage deixa que o público se compadeça ou simpatize com sua situação, o que nas mãos de um ator mais talentoso e menos limitado (como Edward Norton, que era a primeira opção para o papel) poderia render uma atuação brilhante, especialmente sob o comando de um diretor energético e criativo como Marty. Ao equivocar-se justamente em um ponto tão crucial (e escalar a fraca Patricia Arquette em um papel fundamental), o cineasta nova-iorquino perdeu a oportunidade de legar ao mundo uma nova obra-prima, entregando comente um filme forte e depressivo, ainda que otimista em seu final agridoce. É mais do que a maioria dos diretores consegue, mas dele sempre espera-se mais.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...