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terça-feira

CAPITÃO FANTÁSTICO

CAPITÃO FANTÁSTICO (Captain Fantastic, 2016, Bleeker Street/ShivHands Pictures, 118min) Direção e roteiro: Matt Ross. Fotografia: Stéphane Fontaine. Montagem: Joseph Krings. Música: Alex Somers. Figurino: Courtney Hoffman. Direção de arte/cenários: Russell Barnes/Tania Cupczack, Susan Magestro. Produção executiva: Declan Baldwin, Nimitt Mankad. Produção: Lynette Howell Taylor, Monica Levinson, Jamie Patricof, Shivani Rawat. Elenco: Viggo Mortensen, George McKay, Frank Langella, Ann Dowd, Kathryn Hahn, Samantha Isler, Annalise Basso, Nicholas Hamilton, Missy Pile, Steve Zahn. Estreia: 23/01/16 (Festival de Sundance)

Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Viggo Mortensen)

Ben Cash cria seus seis filhos longe de qualquer influência de um mundo capitalista a que ele considera pernicioso e fascista. Educados pelos pais, que lhe indicam leituras, os ensinam a caçar e preparar o próprio alimento, a discutir qualquer assunto com segurança e desafiar o sistema sempre que possível, Cash mora com a família em um ônibus, no meio de uma floresta, e dentre suas excentricidades, está comemorar o dia de Noam Chomsky ao invés do Natal e, ocasionalmente, roubar comida dos supermercados como forma de protesto e autopreservação. A prole - dividida entre adolescentes e crianças - segue uma rígida rotina de exercícios físicos, atividades intelectuais e alimentação saudável, sobrevivendo à margem da sociedade de consumo condenada por seu patriarca, e sua união aponta para um núcleo familiar sadio e feliz. Porém, quando Leslie, a mulher de Ben, sofre uma séria crise nervosa e precisa voltar a conviver com os pais e a irmã, ele se vê obrigado a introduzir os meninos em um universo do qual ele sempre os quis proteger e afastar - e testemunha um inevitável choque cultural.

Em "Capitão Fantástico", segundo longa-metragem dirigido pelo também ator Matt Ross, o ousado Ben Cash é interpretado por Viggo Mortensen, em um trabalho inspiradíssimo que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor ator. Na pele de um homem que busca incansavelmente uma sociedade mais justa ao orientar seus próprios filhos a seguirem uma conduta mais próxima da natureza e dos valores humanistas, Mortensen parece ter encontrado o papel de sua vida: é difícil vê-lo em cena e não acreditar em cada um de seus diálogos, de seus sentimentos, de suas atitudes. Em um mundo cada vez mais egocêntrico e avassaladoramente competitivo, seu personagem é um sopro de verdade e resistência, ainda que nem sempre seus métodos possam ser considerados louváveis. É irresistível pensar que Ben está coberto de razão em distanciar sua prole de um mundo doente - mas será que não é sua função de pai lhes dar o direito de escolha? E por que as crianças são educadas dentro de suas convicções, sem chance de discordância? E não é possível que a doença de sua mulher seja consequência de uma vida aparentemente saudável mas alternativa a ponto do segregacionismo e isolamento social? Mortensen dá vida à Ben com sensibilidade e maturidade, e o roteiro de Ross abre espaço para discussões bastante interessantes, e acerta ao jamais abandonar seu principal objetivo: entreter o público com uma trama delicada, emocionante e por vezes bastante engraçada.


Logo nas primeiras cenas, Matt Ross deixa claro que o dia-a-dia da família Cash não é dos mais tediosos: a disciplina que exige dos filhos não é apenas cultural, mas também extremamente focada em atividades físicas, praticadas por todos, desde o mais velho, Bodevan (George McKay), até os menores. Todos eles também são leitores vorazes - ficção, filosofia, história, sociologia e até sexualidade são assuntos banais nas discussões familiares - e questionadores do status quo. São capazes de discutir a Declaração de Direitos Universais e "Lolita", de Vladimir Nabokov, e rejeitam a alimentação equivocada dos norte-americanos. Ben os trata de igual para igual, sem tratá-los com condescendência ou superioridade. São crianças felizes, acima de tudo, mas seu universo particular sofre uma ruptura brusca quando seu avô, Jack (Frank Langella), resolve entrar na Justiça pela guarda de todos: segundo ele, as crianças são prejudicadas por sua falta de convívio com pessoas de sua idade e privadas de uma educação convencional que lhes será útil no futuro. A situação fica ainda mais delicada quando Bodevan revela ao pai seu desejo de cursar uma universidade - desejo compartilhado inclusive por sua mãe.

Não há cenas desnecessárias em "Capitão Fantástico": seu roteiro é preciso e eficaz é construído exemplarmente a modo de apresentar à plateia seus personagens, seus conflitos e suas questões sem que nada pareça aleatório ou soe forçado. O elenco infantil tira de letra o desafio de representar membros de uma família que tem ecos do movimento hippie e se desenha como uma utopia moderna, e Viggo Mortensen aparece como o maestro de uma sinfonia comovente e, em certos momentos, bastante divertida - o embate entre a cultura natural e intelectual dos Cash com a sociedade capitalista e ególatra do resto dos familiares tem cenas preciosas. Matt Ross não busca a emoção rasteira ou a discussão maniqueísta: seus personagens são complexos e falíveis, e embora Ben seja o herói da estória, ele tampouco está absolutamente correto e acima de críticas. O diretor equilibra com presteza todos os elementos de sua trama, constrói uma atmosfera sólida e crível, e consegue, com inteligência, criar um desfecho que torna tudo ainda mais humano e honesto - mas que pode não agradar aos mais radicais. Elogiadíssimo pela crítica, principalmente pelo desempenho de Mortensen, "Capitão Fantástico" é, sem favores, um dos melhores filmes de sua temporada, e uma pérola a ser constantemente revisitada como um presente para a alma.

segunda-feira

AS DUAS FACES DE JANEIRO

AS DUAS FACES DE JANEIRO (The two faces of January, 2014, Working Title Films, 96min) Direção: Hossein Amini. Roteiro: Hossein Amini, romance de Patricia Highsmith. Fotografia: Marcel Zyskind. Montagem: Nicolas Chardeuge, Jon Harris. Música: Alberto Iglesias. Figurino: Steven Noble. Direção de arte/cenários: Michael Carlin/Dominic Capon. Produção executiva: Tim Bricknell, Ron Halpern, Max Minghella. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Robyn Slovo, Tom Sternberg. Elenco: Viggo Mortensen, Kirsten Dunst, Oscar Isaac, Daisy Bevan. Estreia: 11/02/14 (Festival de Berlim)

Quem conhece a obra de Patricia Highsmith sabe que uma de suas maiores características é a elegância com que ela reveste até mesmo os atos mais cruéis cometidos por seus personagens - vias de regra dotados de um carisma que quase obriga o leitor a compactuar com tais atitudes. Foi assim que aconteceu com Tom Ripley (interpretado no cinema por Matt Damon, Alain Delon e John Malkovich) e com Bruno Anthony (a quem Robert Walker deu vida no clássico hitchcockiano "Pacto sinistro"). E é quase isso que acontece também com Chester MacFarland, o protagonista do envolvente "As duas faces de janeiro", estreia na direção do iraniano Hossein Amini - também roteirista do impactante "Drive", estrelado por Ryan Gosling. Vivido por um Viggo Mortensen esbanjando charme e equilibrando-o com um muito apropriado tom ameaçador, MacFarland une-se à galeria de tipos ambíguos criados por Highsmisth em um filme que, a despeito de sua passagem quase ignorada pelas telas de cinema, merece uma segunda chance de ser descoberto.

Sem apelar para a violência desnecessária e dotando sua narrativa com um compasso suave que combina com o calor do sol que banha as belas paisagens gregas que lhe servem de cenário - fotografadas com inspiração por Nicolas Chardeuge - Amini mistura em seu filme a tensão característica dos livros da escritora texana, uma sensualidade reprimida e um senso de imprevisibilidade que conduz o espectador por um labirinto de reviravoltas capaz de seduzir qualquer um até o minuto final. Revelando somente aos poucos as reais intenções e personalidades de seus protagonistas e proporcionando ao público a chance de acompanhar uma história inteligente e calcada na sutileza ao invés de bombardeá-lo com sangue e efeitos visuais, "As duas faces de janeiro" pode não arrebatar completamente - há uma certa quebra de ritmo em sua metade - mas é muito melhor do que a maioria dos filmes policiais incensados pela crítica.


A trama começa em Atenas, em 1962, quando o casal de americanos Chester (Viggo Mortensen) e Colette (Kirsten Dunst em mais uma memorável atuação) chama a atenção do guia turístico Rydal (Oscar Isaac, sem dúvida um dos atores mais competentes surgidos em Hollywood na segunda década dos anos 2000), que complementa sua renda enganando jovens turistas desavisadas, que se deixam seduzir por seu charme e inteligência. Impressionado com a sofisticação do casal - e principalmente pela beleza de Colette - Rydal acaba por servir de acompanhante aos dois durante sua estada na cidade. Por um acaso do destino, porém, ele acaba sendo testemunha de um crime cometido por Chester - na verdade um golpista que está no país fugindo de uma série de credores. Se oferecendo para ajudar o novo amigo a escapar incólume da região, o rapaz se aproveita para ficar ainda mais próximo de Colette, também atraída por sua juventude e vitalidade. Triângulo amoroso formado, resta aos três desvencilhar-se das investigações policiais e lidar com novos segredos que podem vir à tona.

Produzido com extremo requinte - a reconstituição de época é primorosa e a trilha sonora de Alberto Iglesias pontua com precisão o desenvolvimento da história - "As duas faces de janeiro" é um filme que merece encontrar seu público também porque é uma alternativa consistente a obras que tentam cativar a audiência com explosões sem sentido e violência gratuita. Nadando contra a corrente e privilegiando a história e os personagens mais do que tais artifícios, Hosseim Amini acabou por realizar uma estreia alvissareira, que denota um cineasta inteligente e sensível que tem tudo para tornar-se um nome bastante reconhecido nos próximos anos. Que venha um novo trabalho!

quinta-feira

UM MÉTODO PERIGOSO

UM MÉTODO PERIGOSO (A dangerous method, 2011, RPC/Lago Film, 99min) Direção: David Cronenberg. Roteiro: Christopher Hampton, peça teatral "A most dangerous method", de John Kerr. Fotografia: Peter Suchitzky. Montagem: Ronald Sanders. Música: Howard Shore. Figurino: Denise Cronenberg. Direção de arte/cenários: James McAteer/Gernot Thondel. Produção executiva: Stephan Mallman, Karl Spoerri, Thomas Sterchi, Peter Watson, Mathias Zimmermann. Produção: Jeremy Thomas. Elenco: Michael Fassbender, Keira Knightley, Viggo Mortensen, Vincent Cassel, Sarah Gadon. Estreia: 02/9/11 (Festival de Veneza)

Levando-se em consideração a obsessão do cineasta David Cronenberg pelo lado mais sombrio da mente humana - haja visto filmes como "Gêmeos, mórbida semelhança" e "Crash, estranhos prazeres" - não era de se duvidar que, mais cedo ou mais tarde ele iria esbarrar com o pai da psicanálise em algum projeto. Esse dia chegou, e, por incrível que pareça, "Um método perigoso" - o resultado desse encontro - é um filme que, apesar do tema, é bastante diferente da filmografia pregressa de Cronenberg, onde a transgressão de qualquer formalidade estética e comercial era mandatória. Quase burocrático e por vezes comportado até demais (principalmente se for levado em conta seu tema), ainda assim seu filme é muito mais interessante do que a média.

Baseado na peça teatral de "A most dangerous method", escrita pelo roteirista Christopher Hampton - por sua vez inspirado no livro de John Kerr já publicado no Brasil - "Um método perigoso" não mostra todas as aberrações visuais dos filmes mais conhecidos do diretor, preferindo centrar-se nos diálogos inteligentes e nas neuroses dos protagonistas, todos eles de grande importância para a psicanálise como a conhecemos hoje em dia. Ao abdicar também da violência com que vinha trabalhando em seus últimos projetos - "Marcas da violência" e "Senhores do crime", ambos estrelados por Viggo Mortensen - Cronenberg demonstra uma maturidade muito bem-vinda e uma segurança na direção de atores que justifica os elogios rasgados que o filme recebeu desde sua estreia no Festival de Veneza de 2011, apesar de ter falhado em conquistar a atenção da Academia, que ignorou o completamente o filme.


"Um método perigoso" conta o nascimento da psicanálise, através da relação entre Carl Jung (Michael Fassbender em outra atuação notável) e sua jovem paciente Sabina Spielrein (Keira Knigthley usando e abusando das caras e bocas), com a qual ele se permite utilizar um novo estilo de tratamento, ainda inédito então, no qual o médico busca a cura das psicoses (esquizofrenias e todas as variantes possíveis) através de longas e constantes conversas. O tratamento com Sabrina - jovem, bela, inteligente e que encontra prazer na violência física por razões que acabam sendo descobertas no decorrer do tratamento - acaba confundido Jung, que acaba se envolvendo sexualmente com ela, para desgosto de seu mentor, Sigmund Freud (Viggo Mortensen, indicado ao Golde Globe de ator coadjuvante apesar de apresentar um trabalho apenas mediano). Os relacionamentos de Jung - com Sabrina e com Freud - são o cerne do roteiro de Hampton, e é sorte de Cronenberg contar com um inspiradíssimo Michael Fassbender para dar credibilidade e complexidade a todas as nuances de um personagem que poderia facilmente cair na caricatura ou no egocentrismo. Diferente da atuação de Keira Knigthley, que torna risível os potentes dramas de sua personagem.

Logicamente é um filme para leigos, o que de certa forma deixa a desejar em termos históricos ou médicos. O roteiro de Hampton - vencedor do Oscar pelo sensacional "Ligações perigosas" - se dedica muito mais às personagens e suas relações do que com suas consequências históricas, o que não deixa, no entanto de ser um assunto tão atraente quanto. A reconstituição de época caprichada e a belíssima fotografia dão consistência à trama, e o ritmo pacífico imposto por Cronenberg serve muito bem ao espírito clássico da obra, um trabalho sensível que conta ainda com uma participação mais do que especial de Vincent Cassel, que quase rouba a cena na pele de um amigo de Jung que o incentiva a abandonar seus pudores e se entregar ao desejo por Sabrina. Suas cenas com Michael Fassbender são hipnotizantes, bem mais do que aquelas que deveriam ser as mais importantes do roteiro - e que mostram os embates intelectuais entre Jung e Freud (um papel que provavelmente teria sido melhor aproveitado pela escolha inicial do diretor, Christoph Waltz). Essa pequena falha, no entanto, não atrapalha o resultado final de um filme sério e adulto que é tratado como tal.

terça-feira

SENHORES DO CRIME

SENHORES DO CRIME (Eastern promises, 2007, Focus Features/BBC Films, 100min) Direção: David Cronenberg. Roteiro: Steve Knight. Fotografia: Peter Suschitszky. Montagem: Ronald Sanders. Música: Howard Shore. Figurino: Denise Cronenberg. Direção de arte/cenários: Carol Spier/Judy Farr. Produção executiva: Jeff Abberley, Julia Blackman, Stephen Garrett, David M. Thompson. Produção: Robert Lantos, Paul Webster. Elenco: Viggo Mortensen, Naomi Watts, Vincent Cassel, Armin Mueller-Stahl, Sinéad Cusack, Jerzy Skolimowski. Estreia: 05/9/07 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Melhor Ator

O sucesso de crítica e público de "Marcas da violência" (05) deu novo rumo à carreira do cineasta canadense David Cronenberg, até então acostumado a dividir opiniões com seus trabalhos frequentemente à beira do mau-gosto - vide a podridão explícita de "A mosca" e o surrealismo exarcebado de "Mistérios e paixões". Encontrando no ator Viggo Mortensen um parceiro artístico à altura, ele retornou aos desvãos da alma humana em seu filme seguinte, "Senhores do crime", em que equilibrou seu gosto pela violência com uma narrativa simples e direta, que prescindia de artifícios e metáforas para conquistar a plateia ávida por um bom filme policial. Mesmo recorrendo em alguns momentos a sequências bem mais gráficas do que a média do gênero - com sangue jorrando aos borbotões e um homem tendo o olho perfurado em uma luta - Cronenberg realizou uma obra que foge do convencional graças ao roteiro inteligente, ao elenco em boa forma e à sua direção, firme e inspirada.

Mortensen recebeu uma indicação ao Oscar de melhor ator por seu desempenho - a princípio minimalista mas que vai aos poucos acumulando energia para o já antológico clímax em uma sauna, onde luta nu com dois homens que querem matá-lo - como Nikolai, o motorista de uma família de mafiosos russos que vivem em Londres. Com o corpo coberto de tatuagens - sinais que contam sua história de crimes, segundo dizem seus chefes - ele anseia em ser aceito como membro do seleto e violento grupo, liderado pelo aparentemente dócil Seymon (Armin Mueller-Stahl), que tem uma relação conflituosa com o filho único, o desajustado e impulsivo Kirill (Vincent Cassel). Seu mundo encharcado de sangue e vinganças é penetrado repentinamente pela obstetra Anna (Naomi Watts),  que chega até eles em busca de informações a respeito de uma adolescente que morreu em seus braços, durante um parto. Através do diário da jovem - que a médica não consegue traduzir do russo apesar de sua descendência soviética - ela tenta descobrir um meio de entregar seu bebê recém-nascido a algum membro da família, mas nem de longe desconfia que os responsáveis por toda a tragédia estão justamente entre aqueles a quem ela pede socorro.


Pontuando sua trama com um clima de constante ameaça, Cronenberg tem o mérito de depositar nos confiáveis braços de Mortensen um papel-chave, que, para surpresa do público, tem muito mais nuances e desdobramentos do que parecia a princípio. O roteiro de Steve Knight é pródigo em impedir a audiência de adivinhar o que vem pela frente, embaralhando suas cartas sempre que a trama parece caminhar em direção a um clichê. A relação entre Seymon e Kirill, por exemplo, seria um prato cheio para um roteirista preguiçoso, mas Knight faz questão de deixá-la sempre em tensão crescente, como se a qualquer momento tudo entre eles pudesse explodir sem aviso prévio. Logicamente, a escolha de Mueller-Stahl e principalmente Vincent Cassel para os papéis não poderiam ter sido mais corretas - o primeiro com seu ar bonachão de pai de família carinhoso e o segundo com seu eterno tom de desequilíbrio mental. Ao lado de Mortensen, uma presença tranquila e silenciosa, eles formam uma tríade de perigo à espreita que empresta o filme boa parte de seu charme e inteligência.

Forte e violento, "Senhores do crime" transforma até mesmo um momento sublime - o nascimento de um bebê - em uma fonte de vingança e crueldade, uma espiral crescente de tensão e desespero na qual a sofrida Anna (uma mãe frustrada pela morte prematura de um filho) se vê envolvida em um meio masculino que não a vê senão como um pedaço de carne. A virilidade misógina que perpassa o filme - com os homens explorando as prostitutas, violentando adolescentes e tratando suas esposas e mães como apêndices inferiores - tem reflexo nas cenas extremamente agressivas de luta e nos rituais de transição representados pela sessão de tatuagens em Nikolai e nos assassinatos cometidos em nome de uma tradição familiar sanguinária, mas a presença quase serena de Anna ameniza a sensação de desesperança e pesadelo que a fotografia escura e úmida transmite. Essa dicotomia massiva entre bem/mal, luz/escuridão, nascimento/morte é um dos trunfos do filme, que é um dos pontos altos da filmografia de David Cronenberg.
 

segunda-feira

MARCAS DA VIOLÊNCIA

MARCAS DA VIOLÊNCIA (A history of violence, 2005, New Line Cinema, 98min) Direção: David Cronenberg. Roteiro: Josh Olson, graphic novel de John Wagner, Vince Locke. Fotografia: Peter Suchitzky. Montagem: Ronald Sanders. Música: Howard Shore. Figurino: Denise Cronenberg. Direção de arte/cenários: Carol Spier/Peter P. Nikolakakos. Produção executiva: Ken Alterman, Cale Boyter, Josh Braun, Toby Emmerich, Justis Greene, Roger E. Kass. Produção: Chris Bender, J.C. Spink. Elenco: Viggo Mortensen, Maria Bello, Ed Harris, William Hurt, Ashton Holmes, Peter MacNeill. Estreia: 16/5/05 (Festival de Cannes)

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (William Hurt), Roteiro Adaptado

A princípio parece estranho que o nome de David Cronenberg esteja nos créditos de abertura do filme "Marcas da violência", afinal o cineasta canadense sempre privilegiou, em sua filmografia, histórias que se distanciassem do banal - a não ser que alguém considere convencionais obras como "A mosca" (86), "Gêmeos, mórbida semelhança" (88), "Mistérios e paixões" (93), "Crash, estranhos prazeres" (96) e "Spider, desafie sua mente" (02), só para citar alguns. O estranhamento, porém, fica apenas na superfície: apesar da narrativa linear e clássica, a adaptação da graphic novel de John Wagner e Vince Locke tem, em seu âmago, um tema caro ao diretor: uma crise de identidade capaz de transformar uma vida pacata e normal em um turbilhão de violência e sangue. O fato de tal crise se passar em um ambiente doméstico, distante de laboratórios, clínicas de cirurgia plástica ou instituições psiquiátricas, portanto, apenas amplia o desconforto e a tensão geradas por uma história simples, mas contada com o talento visceral de um dos mais corajosos cineastas de sua geração em um encontro mais do que feliz com um ator que se tornaria um parceiro fiel: Viggo Mortensen.

Ficando com o papel recusado por Thomas Jane e Harrison Ford (em uma escalação que soaria um tanto esquisita devido à sua idade inadequada), Mortensen tem uma das melhores atuações de sua carreira na pele do tranquilo e caseiro Tom Stall, feliz proprietário de uma lanchonete em uma pequena cidade de Indiana que tem sua vida virada pelo avesso quando, ao defender uma funcionária durante um assalto, mata os dois criminosos com técnica e disposição surpreendentes. Tornado ídolo dos moradores da cidade e pauta de telejornais por todo o país, ele é procurado por um misterioso homem chamado Carl Fogarty (Ed Harris), que, deformado por uma cicatriz no lado esquerdo do rosto, insiste em chamá-lo de Joey. Cercando e ameaçando a família de Tom - a esposa Edie (Maria Bello), o filho adolescente Jack (Ashton Holmes) e a pequena Sarah (Heidi Hayes) - Fogarty acaba despertando um lado obscuro no sereno e dedicado comerciante, que se vê obrigado a enfrentar seu passado escondido de todos (e que envolve a máfia irlandesa e seu próprio irmão, o sinistro Richie Cusack, interpretado por um William Hurt indicado ao Oscar de coadjuvante por menos de dez minutos em cena).


Apesar do tema comum à obra de Cronenberg, é inegável que "Marcas da violência" é um produto atípico em sua trajetória. Narrado de forma quase clássica e prescindindo de artifícios visuais além daqueles necessários a sublinhar a violência bastante gráfica de algumas sequências, o filme mergulha o espectador em um universo onde a tensão é constante e cada silêncio deixa revelar contornos assustadores a respeito do protagonista, cuja verdadeira personalidade vai sendo descoberta aos poucos - tanto pelo público quanto por sua atônita esposa, interpretada por Maria Bello também em um momento inspirado da carreira e protagonista de duas tórridas cenas de sexo que deram muito o que falar e que inteligentemente marcam a ruptura psicológica de Tom, que passa de marido romântico e carinhoso a um interessante contraponto violento e viril. Essa ruptura também é perceptível no ritmo da narrativa, que começa sossegadamente mostrando o cotidiano quase monótono da vida familiar até explodir em um inesperado banho de sangue que passa a ditar o tom da segunda metade do filme - um tom que a primeira cena já deixava antever, ainda que com uma certa sutileza que vai se esvaecendo no decorrer da trama.

Saindo de sua zona de conforto como diretor, David Cronenberg acaba por entregar um excelente drama policial, repleto de cenas de grande impacto visual e emocional e com uma história sólida o bastante para não deixar que se apoie somente em tais sequências. Ao mesmo tempo em que desenvolve uma trama com início, meio e fim bem definidos, o roteiro - também indicado ao Oscar, que perdeu para "O segredo de Brokeback Mountain" - questiona, de forma inteligente, de que forma a genética pode influenciar uma personalidade, quando põe em jogo os problemas do filho adolescente de Tom, que, sofrendo bullying na escola, vê na atitude corajosa do pai uma maneira de resolver suas questões e acaba se envolvendo muito mais do que o esperado e desejado no mundo de violência do qual sua família estava a salvo até então. Esse subtexto dramático - forte e adequado - dá ainda mais consistência à "Marcas da violência", um dos grandes filmes da temporada 2005.

sexta-feira

A ESTRADA





A ESTRADA (The road, 2009, Dimension Films, 111min) Direção: John Hillcoat. Roteiro: Joe Penhall, romance de Cormac McCarthy. Fotografia: Javier Aguirresarobe. Montagem: Jon Gregory. Música: Nick Cave, Warren Ellis. Figurino: Margot Wilson. Direção de arte/cenários: Chris Kennedy/Robert Greenfield. Produção executiva: Marc Butan, Mark Cuban, Rudd Simmons, Todd Wagner. Produção: Paula Mae Schwartz, Steve Schwartz, Nick Wechsler. Elenco: Viggo Mortensen, Kodi Smith-McPhee, Charlize Theron, Robert Duvall, Guy Pearce. Estreia: 03/9/09 (Festival de Veneza)


Se existe uma coisa que deixa qualquer cinéfilo feliz da vida é assistir a um filme do qual não se espera muito e sair do cinema encantado. Depois de tanto ter que engolir péssimos exemplos cinematográficos vindo de uma Hollywood que adora pasteurizar sentimentos, os fãs de bom cinema foram surpreendido com um dos melhores filmes de 2009 e que, sintomaticamente, passou batido pelas cerimônias de premiação que renderam louvores a lixos como "Um sonho possível". Dirigido pelo relativamente novato John Hillcoat, "A estrada" é um petardo emocional dos mais sinceros, que equilibra com presteza elementos de um filme de suspense aterrador com um drama familiar de partir o coração.

Adaptado de um romance de Cormac McCarthy (escritor que teve sorte até agora com as transições de seus livros para o cinema, uma vez que é também o autor da trama de "Onde os fracos não tem vez"), "A estrada" não é exatamente um filme fácil, e exige do público uma entrega quase total a seu universo, já que não oferece respostas imediatas nem soluções comuns à audiência. A história se passa em uma época não definida, em um lugar também não declarado. Só o que se sabe é que, por alguma razão, poucas pessoas estão vivas e vagam perdidas pelas estradas, em busca de alimento e moradia segura. Algumas dessas pessoas apelam para o canibalismo como forma de sobrevivência e é nesse ambiente que um homem (Viggo Mortensen) tenta proteger o único filho (Kodi Smith-McPhee) da violência que os cerca, ao mesmo tempo em que lhe ensina como manter-se são e perspicaz a tudo que lhes rodeia. Seu objetivo é reencontrar a esposa que os abandonou (Charlize Theron) e, no meio do caminho, cruza com vândalos, assassinos, indigentes e um homem idoso (Robert Duvall, irreconhecível e em uma atuação estupenda) que perdeu o filho devido à tragédia que os jogou, a todos, no mesmo barco de desesperança.

A belíssima fotografia de Javier Aguirresarobe, a trilha sonora discreta de Nick Cave e Warren Ellis e a maquiagem assustadora de Mandi Crane acabam se tornando elementos-chave nas mãos do diretor, que reitera a máxima de que o importante não é o destino e sim a viagem. Durante o processo de fuga/busca entre os protagonistas, a relação entre pai e filho chama mais a atenção do que os angustiantes momentos de tensão que perpassam o filme - mesmo que esses sejam filmados com extrema eficácia. É o carinho que move o pai desesperançoso e o filho dono de uma inocência sempre em vias de acabar que eleva o filme a uma categoria especial: é difícil não emocionar-se com o rosto ingênuo da sensacional revelação Kodi Smith-McPhee tentando devolver ao pai (vivido com garra por um Viggo Mortensen melhor ator do que nunca) a fé na bondade e na compaixão, assim como é virtualmente impossível acabar a sessão sem a certeza absoluta de ter-se assistido a uma obra corajosa, forte e comovente.

"A estrada" é um filmaço, feito com uma competência assustadora e que aponta a seu diretor um futuro bem menos distópico do que o representado por ele em 120 minutos de projeção.

segunda-feira

RETRATO DE UMA MULHER

RETRATO DE UMA MULHER (The portrait of a lady, 1996, PolyGram Filmed Entertainment, 144min) Direção: Jane Campion. Roteiro: Laura Jones, romance de Henry James. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: Veronika Jenet. Música: Wojcieh Kilar. Figurino: Janet Patterson. Direção de arte/cenários: Janet Patterson. Produção: Steve Golin, Monty Montgomery. Elenco: Nicole Kidman, John Malkovich, Barbara Hershey, Martin Donovan, Christian Bale, Viggo Mortensen, John Gielgud, Shelley Winters, Shelley Duvall. Estreia: 28/8/96

Duas indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Barbara Hershey), Figurino

Por mais fãs que tenha, entre o público e a crítica, é impossível negar que a filmografia de Jane Campion tem uma séria tendência à chatice. Até mesmo "O piano", seu filme mais famoso - e tido como sua obra-prima - não consegue escapar de um ritmo claudicante que convencionou-se chamar de sensibilidade feminina. Sua obra seguinte à louvada história da pianista muda interpretada brilhantemente por Holly Hunter sofre do mesmo problema. Adaptado do clássico romance de Henry James, "Retrato de uma mulher" é um filme sofisticado, delicado e denso, mas, apesar de melhorar consideravelmente em seu terço final, castiga o espectador com uma história excessivamente lenta, que demora a engrenar - e é plenamente compreensível que esse mesmo espectador desista da trama depois de não ver nada de excitante acontecendo em mais de uma hora de projeção.

Nicole Kidman, já em seu caminho para tornar-se uma das atrizes mais respeitadas de Hollywood - com um Golden Globe de atriz por "Um sonho sem limites" debaixo do braço - empresta sua beleza frágil e etérea para viver Isabel Archer, uma americana de 23 anos de idade que, no final do século XIX, empreende uma viagem à Europa com a intenção de se autodescobrir. Moderna diante das rígidas normas que regiam a sociedade da época - não vê no casamento, por exemplo, um objetivo de vida - ela não percebe o amor que desperta em seu primo, Ralph Touchett (Martin Donovan, queridinho do diretor independente Hal Hartley) e refusa veementemente as investidas de uma antiga paixão, o também americano Caspar Goodwood (Viggo Mortensen). Depois de herdar uma fortuna de um tio, ela acaba tornando-se alvo do interesse do misterioso Gilbert Osmond (John Malkovich), um colecionador de arte que ela conhece através da aparentemente amável Madame Merle (Barbara Hershey, que ficou com o papel que seria de Susan Sarandon e foi indicada ao Oscar por seu desempenho). Sua relação com ele acaba forçando-a a entrar em um jogo de interesses com o qual ela não está preparada para lidar.


A delicadeza de Kidman como Archer é, paradoxalmente, uma das forças-motrizes do filme de Campion. Especialmente na reta final, quando a protagonista começa a perceber as entranhas maldosas da armação de Merle e Osmond, a então esposa de Tom Cruise está sensacional, contrastando com a quase frieza com que lida com a primeira metade do filme, quando sua personagem se divide entre as normas sociais de seu período e o desejo sexual que a impele a sonhar acordada com seus pretendentes - em sequências não particularmente interessantes, mas dirigidas com criatividade, assim como a bela cena em que Osmond se declara apaixonado por Isabel. Aliás, pode-se reclamar da falta de agilidade de Campion como diretora, mas jamais de sua capacidade em criar cenas esteticamente impactantes, para o que colabora a impecável e detalhista reconstituição de época e a fotografia bem cuidada de Stuart Dryburgh.

E o elenco coadjuvante de "Retrato de uma mulher" também merece elogios rasgados. Se Kidman e Hershey chamam a atenção sempre que estão em cena, com interpretações distintas mas igualmente impressionantes, o equilíbrio entre veteranos e jovens talentos atingido por Campion é notável. John Gielgud e Shelley Winters representam o primeiro grupo - como os tios de Isabel Archer - o segundo time conta com Martin Donovan em uma atuação sensível e arrebatadora e o ótimo Christian Bale como o pretendente da filha de Osmond, outra vítima inocente da ambição de Madame Merle. Cada um à sua maneira, os atores são a principal razão para se assistir ao filme, uma adaptação fiel e sofisticada de uma obra das mais importantes da literatura inglesa.

UM CRIME PERFEITO

UM CRIME PERFEITO (A perfect murder, 1998, Warner Bros, 108min) Direção: Andrew Davis. Roteiro: Patrick Smith Kelly, peça teatral "Dial M for Murder", de Frederick Knott. Fotografia: Darius Wolski. Montagem: Dov Hoenig. Música: James Newton Howard. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Philip Rosenberg/Debra Schutt. Produção executiva: Stephen Brown. Produção: Anne Kopelson, Arnold Kopelson, Peter Macgregor-Scott, Christopher Mankiewicz. Elenco: Michael Douglas, Gwyneth Paltrow, Viggo Mortensen. Estreia: 05/6/98

Em 1954, o diretor inglês Alfred Hitchcock lançou "Disque M para matar", hoje um de seus trabalhos mais conhecidos. Baseado em uma peça de teatro de Frederick Knott, o filme estrelado por Ray Milland e Grace Kelly já utilizava elementos de 3D e contava com o habitual talento do cineasta para manter a plateia grudada na cadeira. Mais de 40 anos depois, o americano Andrew Davis - que comandou a versão para o cinema da telessérie "O fugitivo" e encheu os bolsos dos executivos da Warner - resolveu contar a mesma história, justificando a refilmagem com um batido "queremos ser mais fieis ao texto original". O resultado, por incrível que pareça, não é o desastre que se poderia esperar (como aconteceria com o remake de "Psicose", de Gus Van Sant), mas sim um filme elegante, de sustos discretos e reviravoltas bastante interessantes. Na verdade, é um filme muito diferente de seu original, o que é um elogio e tanto.

Fugindo da claustrofobia do original, que se passava quase que exclusivamente no apartamento dos protagonistas, a versão de Davis amplia o alcance da trama, levando suas personagens a galerias de arte, festas chiques e às ensolaradas ruas de Nova York. Michael Douglas, em uma atuação discreta, vive Steven Taylor, um aparentemente bem-sucedido empresário do mundo das finanças que, endividado, planeja o assassinato de sua esposa, a bela e mais jovem Emily (Gwyneth Paltrow). Para isso, ele chantageia o amante dela, o artista plástico David Shaw (Viggo Mortensen), que tem um histórico de golpes em mulheres ricas. Armando um plano meticulosamente calculado, Taylor precisa lidar com a frustração e a investigação policial quando as coisas fogem a seu controle.




Circulando pela sofisticação da alta sociedade nova-iorquina, Andrew Davis constrói um suspense eficiente, onde os acontecimentos importam mais do que os sustos ou a violência. Praticamente ignorando o filme de Hitchcock - com bastante propriedade - o cineasta conta sua história sem pressa, preferindo criar um clima sexy e opressivo. A química entre Gwyneth Paltrow - sempre de uma classe inquestionável - e Viggo Mortensen chama a atenção e proporciona algumas cenas bastante quentes, em especial na primeira metade do filme. Michael Douglas, por sua vez, brilha no papel de vilão sinistro, quase fazendo com que a audiência compactue com sua personagem. É preciso dizer, inclusive, que o trabalho de Douglas é tão interessante que, mesmo sendo o vilão do filme, é mais simpático do que a dupla Paltrow/Mortensen. A atriz está linda como sempre, mas sua personagem é quase apática, enquanto Mortensen não faz com que seu David Shaw conquiste o público, talvez por não ser exatamente o mocinho tradicional.

No final das contas, "Um crime perfeito" é um suspense que cumpre o que promete, mas que jamais atinge o nível de brilhantismo que poderia. Davis comprova seu talento em construir sequências de grande tensão, mas ao mesmo tempo deixa claro que lhe falta um talento maior para desenvolver personagens mais complexos - ainda que em seu filme ninguém seja exatamente santo. Essa falta de maniqueísmo o diferencia do corriqueiro, mas atrapalha suas intenções em fazer com que a audiência média se sinta absolutamente capaz de tomar partido de um dos lados da história. Gwyneth não está particularmente simpática nem Douglas completamente vilanesco. Se por um lado isso é bom (afinal de contas a realidade nunca é tão transparente) por outro foge dos padrões comerciais. "Um crime perfeito" é uma ótima opção para quem gosta do gênero, mas perde a chance de ser sensacional.

sexta-feira

ATÉ O LIMITE DA HONRA

ATÉ O LIMITE DA HONRA (G.I. Jane, 1997, Hollywood Pictures/Caravan Pictures/First Independent Films, 125min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: David Twohy, Danielle Alexandra, história de Danielle Alexandra. Fotografia: Hugh Johnson. Montagem: Pietro Scalia. Música: Trevor Jones. Figurino: Marilyn Vance. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Cindy Carr. Produção executiva: Danielle Alexandra, Julie Bergman Sender, Chris Zarpas. Produção: Roger Birnbaum, Demi Moore, Ridley Scott, Suzanne Todd. Elenco: Demi Moore, Anne Bancroft, Viggo Mortensen, Jason Beghe, Daniel Von Bargen, Jim Caviezel. Estreia: 22/8/97

Mais do que as críticas à sua qualidade ou ao salário milionário de sua protagonista, "Até o limite da honra" ficou conhecido como "o filme em que Demi Moore raspou a cabeça". Vinda do fracasso absoluto de "Stritpease", uma pretensa comédia pela qual recebeu o estratosférico cachê de 12 milhões de dólares - o mais alto pago a uma atriz até então - Moore precisava urgentemente de um sucesso de bilheteria que a fizesse merecer o status de estrela que lhe escapava rapidamente das mãos. O projeto escolhido - e no qual ela assumiu também o papel de produtora - foi um filme onde ela poderia testar seu poder de atração junto ao público sem precisar tirar a roupa. Com um diretor de categoria como Ridley Scott no comando da brincadeira, era de se esperar que tudo desse muito certo. Mas não deu. Apesar de não ser o fiasco que muitos previam, "Até o limite da honra" ficou longe de ser o êxito que Demi necessitava e de certa forma abalou a carreira de Scott, cujo filme anterior, "Tormenta", também havia fracassado comercialmente.

Honestamente, não se pode dizer que "Até o limite da honra" seja um grande filme, assim como é injusto apedrejá-lo como muitos fizeram - e o Framboesa de Ouro de Pior Atriz para Demi Moore é mais implicância do que exatamente justiça. Seu problema maior é o excesso de clichês no qual ele se atola, sem que tenha o distanciamento crítico para ao menos não levar-se a sério. Não há nenhum senso de humor no roteiro feminista e seu ritmo sofre um sério abalo na segunda metade, precisamente quando tinha tudo para conquistar a plateia com cenas de ação que Scott sabe dirigir muito bem - como comprovou em filmes posteriores como "Gladiador" e "Falcão negro em perigo". Tudo é feito com grande competência, desde a fotografia inspirada de Hugh Johnson até a bela música de Trevor Jones, mas falta coração a "Até o limite da honra". Coração e paixão.


Demi Moore - bela como sempre e evitando o uso de dublês - vive Jordan O'Neil, uma especialista em topologia que é escolhida para ser a primeira mulher a enfrentar o treinamento mais radical dos fuzileiros americanos, do qual 60% dos inscritos desiste antes do final. Sua escolha é menos altruísta do que interesseira: quem está por trás de tudo é a senadora Lilian DeHaven (Anne Bancroft), uma raposa velha política que vê na mudança das atitudes da Marinha americana em relação às mulheres um benefício para sua própria carreira. Hostilizada pelos colegas de treinamento - que não sabem nem ao menos como lidar com sua presença entre eles - O'Neil aos poucos passa a ganhar o respeito e a admiração de todos, ao mostrar-se tão forte, corajosa e persistente quanto qualquer um. Sua trajetória, porém, fica ameaçada quando a própria senadora tenta puxar-lhe o tapete, lançando boatos sobre sua sexualidade.

A primeira parte de "Até o limite da honra" é a melhor. Apesar de usar e abusar de todos os clichês do gênero, o treinamento de Jordan e seus colegas consegue ser interessante, principalmente por contar com a atuação vigorosa de Viggo Mortensen como o comandante John Urgayle - que, honrando a tradição máxima do lugar-comum é um brucutu que recita T.E. Lawrence e se desmancha de admiração pela heroína nas cenas finais. Antes de sua consagração com a trilogia "O Senhor dos anéis", Mortensen já mostrava que tinha um talento incomum, conseguindo fazer o possível e o impossível com uma personagem unidimensional. Sua participação engrandece o filme, assim como o trabalho mais uma vez irrepreensível de Anne Bancroft, que rouba todas as (infelizmente poucas) cenas em que aparece. São eles que dão sustentação à Demi Moore, cuja protagonista, apesar de forte e determinada não é desenvolvida a contento pelo roteiro. Ainda assim, a então esposa de Bruce Willis merece elogios por sua dedicação e pela coragem de arriscar-se em um terreno dominado quase exclusivamente pelos homens.

Sem maiores expectativas pode-se gostar bastante de "Até o limite da honra" - que apresenta inclusive uma bela canção original interpretada pela banda The Pretenders em seus créditos finais. É um exemplar muito digno de seu gênero, ainda que fique muito aquém de tudo já realizado por Ridley Scott. E tem Demi Moore botando muito homem no chinelo, o que sempre é muito interessante...

quarta-feira

O PAGAMENTO FINAL

O PAGAMENTO FINAL (Carlito's way, 1993, Universal Pictures, 144min) Direção: Brian DePalma. Roteiro: David Koepp, romances "Carlito's way" e "After Hours", de Edwin Torres. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Kristina Boden, Bill Pankow. Música: Patrick Doyle. Figurino: Aude Bronson-Howard. Direção de arte/cenários: Richard Sylbert/Leslie A. Pope. Casting: Bonnie Timmermann. Produção executiva: Ortwin Freyermuth, Louis A. Stroller. Produção: Willi Baer, Martin Bregman, Michael S. Bregman. Elenco: Al Pacino, Penelope Ann Miller, Sean Penn, John Leguizamo, Viggo Mortensen, Luis Guzman, James Rebhorn. Estreia: 10/11/93

2 indicações ao Golden Globe: Ator Coadjuvante (Sean Penn), Atriz Coadjuvante (Penelope Ann Miller)

Dez anos separam "Scarface" de "O pagamento final". Nesse meio-tempo, Brian DePalma conheceu a frieza da crítica com os fracassados "A fogueira das vaidades" e "Síndrome de Caim", enquanto Al Pacino se afastava do cinema e retornava em grande estilo, chegando a ganhar seu merecido Oscar, por "Perfume de mulher". O reencontro de diretor e ator não poderia ter chegado em melhor hora. E não poderia ter sido mais bem-sucedido. Ainda que a bilheteria não tenha correspondido à altura, "O pagamento final" é um dos melhores policiais dos anos 90. Novamente reunidos pelo produtor Martin Bregman, DePalma e Pacino demonstram uma maturidade muito bem-vinda ao contar uma trágica história sobre a força do ambiente sobre os indivíduos.

Baseado em dois romances do Juiz Edwin Torres - que os escreveu inspirado em suas lembranças do Brooklyn nova-iorquino - "O pagamento final" começa em 1975, quando o porto-riquenho Carlito Brigante (Al Pacino, excelente) é libertado da cadeia depois de manobras de seu ambicioso advogado David Kleinfeld (um irreconhecível e estupendo Sean Penn). Poupado de permanecer 15 anos preso, Brigante deve sua liberdade ao jovem e um tanto corrupto advogado, mas ao voltar às ruas onde cresceu, decide afastar-se da vida do crime. Assumindo a sociedade de uma boate, ele resiste bravamente a todas as ofertas de negócios escusos, dedicando-se a guardar dinheiro suficiente para ir embora para um paraíso tropical ao lado da mulher que ama, a dançarina Gail (Penelope Ann Miller). Porém, quando, por dívida moral, ele aceita ajudar Kleinfeld em uma manobra perigosa para tirar um assassino da cadeia, ele vê todo seu esforço em seguir uma vida honesta correr sérios riscos. Traído por todos em quem confia, só resta a ele mais uma vez apelar para a violência.

O Carlito Brigante criado por Al Pacino tem ecos gritantes com seu Michael Corleone. Ambos sofrem de paranoia justificada - assim como Tony Montana, de "Scarface" - e ambos tentam infrutiveramente escapar de um destino trágico e sangrento. Mas enquanto Corleone jamais suja suas mãos, Brigante vai à luta por si mesmo, empunhando armas e literalmente correndo para sobreviver. Enquanto Corleone tem poderes que se estendem ao Vaticano e a Wall Street, Brigante esconde seu suado dinheiro em um cofre da boate que comanda. Enquanto Corleone é incapaz de amar verdadeiramente uma mulher, Brigante é apaixonado por Gail acima de tudo. E mais importante: enquanto Michael Corleone sabe muito bem com quem está lidando, Brigante tem - apesar de sua malandragem de calçada - uma certa ingenuidade e um rígido padrão ético, apesar disso não o impedir de vingar-se quando estritamente necessário.

Menos propenso a movimentos mirabolantes de câmera - que fizeram sua fama no início da carreira - DePalma orquestra, em "O pagamento final" uma de suas mais afinadas sinfonias. Inteligentemente, o cineasta proporciona pequenas doses de suspense no decorrer do filme - o primeiro tiroteio é um exemplo bem acabado dessa afirmação - enquanto acompanha sem pressa o caminho do protagonista a seu destino. Nesse caminho, Carlito Brigante trava contato com antigos comparsas (um deles vivido por Viggo Mortensen em início de carreira), pequenos contraventores e ambiciosos criminosos (entre eles, o sinistro "Benny Blanco, from the Bronx", interpretado magistralmente por John Leguizamo). Nenhum deles, no entanto, mais perigoso do que seu advogado de confiança.



Personificado com maestria por um Sean Penn começando uma caminhada rumo ao respeito absoluto da crítica e do público, David Kleinfeld é uma das personagens mais fascinantes do filme - repleto de bons papéis. Viciado em cocaína, corrupto, covarde e sem o menor senso de ética ou moral, ele não é exatamente um retrato agradável da profissão de advogado, mas na pele de Penn é impossível não ter compaixão em seus momentos de puro desespero. Fisicamente irreconhecível, o ator - injustamente esquecido pelo Oscar de coadjuvante - tem a personagem que move o filme, empurrando todo mundo em direção ao clímax espetacular imaginado pelo roteiro de David Koepp e filmado com precisão cirúrgica por De Palma.

Assim como "Os intocáveis" tem no tiroteio na estação de trens sua sequência mais lembrada e comemorada - aliás, chupada do clássico "Encouraçado Potenkim", de Sergei Eisenstein - os vinte minutos finais de "O pagamento final" são de figurar em qualquer antologia de cinema. Fugindo dos mafiosos que querem sua cabeça - por motivos que não convém contar para não estragar o prazer de quem ainda (imperdoavelmente) não assistiu ao filme - Brigante foge em direção à estação central de NY para embarcar com Gail em uma viagem sem volta. Sua fuga - tensa, angustiante e magnificamente editada - mantém o espectador grudado na poltrona até seus últimos momentos, quando tudo faz um sentido avassalador.

"O pagamento final" é um filme que merece ser redescoberto. Maltratado pela crítica à época de sua estreia, se mantém com um frescor e uma força até os dias de hoje, além de contar com um Al Pacino no auge de sua forma como ator e personalidade. E, por mais intenso que "Scarface" seja, ele consegue ser ainda melhor.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...