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terça-feira

NO CALOR DA NOITE

NO CALOR DA NOITE (In the heat of the night, 1967, The Mirisch Corporation/United Artists, 110min) Direção: Norman Jewison. Roteiro: Stirling Silliphant, romance de John Ball. Fotografia: Haskell Wexler. Montagem: Hal Ashby. Música: Quincy Jones. Figurino: Alan Levine. Direção de arte/cenários: Paul Groesse/Robert Priestey. Produção: Walter Mirisch. Elenco: Sidney Poitier, Rod Steiger, Warren Oates, Lee Grant, Larry Gates, James Patterson, William Schallert, Beah Richards. Estreia: 02/8/67

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Norman Jewison), Ator (Rod Steiger), Roteiro Adaptado, Montagem, Som, Efeitos Sonoros
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Ator (Rod Steiger), Roteiro Adaptado, Montagem, Som
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Ator/Drama (Rod Steiger), Roteiro 

Às vezes o destino age de forma cruel ou irônica até mesmo em Hollywood. Em abril de 1968 o assassinato de Martin Luther King adiou pela segunda vez na história a cerimônia de entrega do Oscar. Dois dias depois da data prevista, quase como uma homenagem involuntária ao líder do movimento pelos direitos civis da população negra, a estatueta de melhor filme de 1967 - além de outros quatro prêmios, incluindo melhor ator e roteiro adaptado - era anunciada para "No calor da noite", uma produção polêmica que retratava, sem meias-palavras, o racismo latente e violento do sul dos EUA. Através de uma trama policial baseada em um livro de John Ball, o filme de Norman Jewison remexe na profunda ferida da discriminação se utilizando de todas as regras consagradas do gênero - e acaba por fazer um gol de placa ao casar de forma exemplar um entretenimento de primeira categoria com um estudo cru e desprovido de sentimentalismos de um dos problemas sociais mais graves do país. Tudo isso amparado em atuações admiráveis de Sidney Poitier e Rod Steiger, como dois improváveis parceiros profissionais.

Filmado principalmente em Sparta, uma cidade do estado do Illinois, já que Potier já havia recebido ameaças de morte pela Ku Klux Klan do sul do país, "No calor da noite" acabou por tornar-se o filme preferido do ator, dentre os vários projetos em que atuou. Claramente, motivos não faltam: além do tom condenatório do racismo proposto pelo roteiro, o personagem do maior astro negro de sua geração (e um dos maiores ídolos do cinema dos anos 60) foge bravamente do vitimismo ou de qualquer situação condescendente em relação a sua cor. Em uma das cenas mais impactantes - e dá pra imaginar ainda hoje o tamanho de sua importância dentro do contexto social em que surgiu -, o detetive de polícia Virgil Tibbs, interpretado por Poitier, devolve uma bofetada recebida, sem pensar duas vezes. Detalhe: o autor da agressão era um homem branco e poderoso da cidade onde se passa a história. O choque provocado por tal atitude nas telas foi, certamente, um dos motivos que fizeram com que o filme atingisse tão diretamente o coração dos EUA: uma cena que fez com que o próprio diretor, Norman Jewison, percebesse o tamanho de sua responsabilidade junto ao público. Mas, é claro, tal cena não existe sozinha, e faz parte de um conjunto repleto de acertos que conduziu a produção à mais cobiçada estatueta de Hollywood.


Sem o subtexto racial que é imprescindível a seu desenvolvimento dramático, o roteiro de "No calor da noite" seria apenas mais um dentre tantos que surgem frequentemente dentro da indústria de cinema americano. Porém, ao eleger como um dos principais pontos de sua narrativa a problemática relação entre um xerife branco, ríspido e conservador e um detetive urbano, inteligente, refinado e negro, a trama de John Ball, adaptada com precisão por Stirling Silliphant (vencedor, com merecimento, do Oscar da categoria), escapa do lugar-comum e garante um lugar de honra entre os mais relevantes momentos do cinema na década de 60. Tudo começa com o assassinato de um proeminente homem de negócios da pequena Sparta: vindo para a cidade para construir uma nova fábrica, o empresário batia de frente com o todo-poderoso Endicott (Larry Gates), que passa a ser o principal suspeito do crime logo depois que o irascível xerife Gillespie (Rod Steiger) se convence que o misterioso forasteiro Virgil Tibbs (Sidney Poitier) não apenas é inocente como é também o principal detetive de polícia da Filadélfia. Mesmo hesitante em contar com sua ajuda - o rapaz é negro e por isso passível de sofrer discriminação na racista região do sul dos EUA -, o xerife acaba cedendo ante os pedidos da viúva da vítima (Lee Grant), que acredita no talento e na intuição do visitante. Porém, as coisas não serão tão simples, já que os temores de Gillespie se mostram bastante realistas quando Tibbs se torna persona non grata na cidade.

Equilibrando com inteligência a trama policial - coerente e surpreendente na medida certa - com os lances dramáticos a respeito do preconceito, "No calor da noite" é um filme de ação que é também um divisor de águas dentro do cinema americano. Pela primeira vez mostrando em um filme comercial um herói negro sem que ele precise ser subserviente ou uma cópia de personagens brancos, a produção de Norman Jewison - que voltaria a trabalhar com o tema do racismo em "A história de um soldado" (84) e "Hurricane: o furacão" (99) - é corajosa, contundente e, acima de tudo, envolvente como um bom entretenimento precisa ser. Editado com destreza pelo futuro cineasta Hal Ashby e fotografado com extremo cuidado pelo veterano Haskell Wexler - pela primeira vez na história trabalhando com uma iluminação própria para atores com a pele escura -, é um marco absoluto, um filme de gênero que consegue sobressair-se a suas limitações óbvias e permanecer como uma excelente diversão acima de tudo.

segunda-feira

JUSTIÇA PARA TODOS

JUSTIÇA PARA TODOS (... and justice for all, 1979, Columbia Pictures, 119min) Direção: Norman Jewison. Roteiro: Valerie Curtin, Barry Levinson. Fotografia: Victor J. Kemper. Montagem: John F. Burnett. Música: Dave Grusin. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Richard MacDonald/Thomas L. Roysden. Produção executiva: Joe Wizan. Produção: Norman Jewison, Patrick Palmer. Elenco: Al Pacino, Jack Warden, John Forsythe, Lee Strasberg, Jeffrey Tambor, Christine Lahti. Estreia: 15/9/79 (Festival de Toronto)

2 indicações ao Oscar: Ator (Al Pacino), Roteiro Original

Não havia, na Hollywood da década de 70, ator mais quente do que Al Pacino. Indicado quatro anos consecutivos ao Oscar - por "O poderoso chefão" (em que concorreu injustamente como coadjuvante), "Serpico", "O poderoso chefão - parte 2" (dessa vez como protagonista) e "Um dia de cão" - e respeitado como um dos maiores intérpretes de sua geração, ao lado de Robert De Niro, Pacino também tinha como característica buscar desafios cada vez maiores, em papéis que questionassem o status quo e o tradicional american way of life. Por isso, não foi surpresa para ninguém quando ele voltou a disputar a estatueta dourada na cerimônia de 1980, por uma atuação que se tornaria, anos mais tarde, uma das mais icônicas de sua carreira. Na pele de um advogado lutando contra a burocracia e o descaso da justiça norte-americana, Pacino entregou mais uma interpretação feroz e intensa, que encantou a crítica e o público mas esbarrou nos eleitores da Academia, que preferiram abraçar o minimalista desempenho de Dustin Hoffman em "Kramer vs Kramer" - papel do qual, por ironia do destino, o próprio Pacino declinou para trabalhar no filme de Jewison.

"Justiça para todos" - um título recheado de uma boa dose de sarcasmo que fica evidente no final amargo do filme - é quase uma crônica a respeito dos meandros da justiça americana, inspirada em visitas do casal de roteiristas a tribunais de júri em Baltimore e Los Angeles. O futuro cineasta Barry Levinson (vencedor do Oscar por "Rain Man") e sua então esposa Valerie Curtin (que também concorreram à estatueta dourada, assim como Pacino) criaram um roteiro que não se prende a uma única situação dramática, desenvolvendo, ao invés disso, uma série de acontecimentos que vão levando seu protagonista à mais completa desilusão com o sistema judicial de seu país. Logo em sua primeira cena, Arthur Kirkland é visto junto a presos comuns, na cela de uma delegacia, depois de passar a noite na cadeia por desacato ao juiz Henry Fleming (John Forsythe) - a personificação do lado mais corrupto e arrogante da lei. É nesse ambiente que Kirkland, que mantém seu idealismo intacto apesar de algumas experiências pouco saudáveis, conhece Ralph Agee (Robert Christian), uma travesti negra, acusada injustamente de tráfico de drogas e que acaba se tornando sua cliente. Cuidando também do caso do jovem Jeff McCullaugh (Thomas Waites) - condenado devido a uma série de enganos judiciais que o estão empurrando diretamente para a insanidade mental - Kirkland acaba se vendo obrigado a defender justamente seu maior desafeto quando o Juiz Fleming é acusado de estupro e agressão. Chantageado (tal aproximação pode salvar McCullaugh), Kirkland aceita, mesmo a contragosto, a tarefa de engolir seus princípios, mas nem de longe imagina o quão podre pode ser o meio em que transita.


Utilizando personagens secundários como forma de comentar a ação, o roteiro de "Justiça para todos" evita cair no dramalhão mesmo quando se vê obrigado a apelar para tragédias como forma de sublinhar sua contundência. Enquanto luta por seus clientes, Kirkland se vê enredado em um romance com Gail Packer (Christine Lahti) - advogada que faz parte de um comitê que investiga assuntos internos - e convive com outros membros de sua profissão, retratos ora cômicos ora dramáticos de seu círculo. No primeiro caso existe o Juiz Francis Rayford (Jack Warden) - que tem constantes pensamentos suicidas e não hesita em utilizar uma arma durante as sessões que preside; no segundo, o filme apresenta Jay Porter (Jeffrey Tambor, estreando em cinema), que sofre de um grave desequilíbrio emocional depois que um cliente que ajudou a absolver voltou a praticar crimes violentos. Nem sempre os alívios cômicos inseridos na narrativa funcionam - pelo contrário, soam muitas vezes deslocados e desnecessários - mas é inegável que o ritmo impresso pelos diálogos ágeis e pela edição inteligente envolvem o espectador sem grande dificuldade, em especial graças ao elenco impecável selecionado por Jewison, que apesar de manter o tom sóbrio na direção, não hesitou em definir seu filme, à época da estreia, como uma "grande comédia".

Não é difícil compreender o ponto de vista de Jewison. Ao enfatizar os absurdos e as situações surreais que ocorrem nos bastidores da Justiça e colocá-las lado a lado com suas consequências diretas nas vidas de réus, advogados e juízes, "Justiça para todos" se mostra, a cada minuto, como um panorama quase bizarro de uma sociedade em constante desequilíbrio de classe e raças. Único personagem com real percepção sobre o mundo que o cerca, Arthur Kirkland é uma espécie de anti-heroi, um homem perdido em um redemoinho de corrupção, burocracia e interesses escusos, tentando desesperadamente manter sua retidão moral mesmo quando tudo o empurra em direção contrária. Al Pacino oferece todo o seu talento para contar sua história, acertando o tom em qualquer direção que a trama siga e mostrando porque é um dos grandes atores de sua geração. Voltando a contracenar com seu mestre do Actor's Studio, o veterano Lee Strasberg (com quem havia trabalhado em "O poderoso chefão - parte II", aqui na pele de seu estimado avô), Pacino brinda o espectador com uma de suas mais poderosas interpretações, intensa e dotada da energia de que apenas os maiores são capazes. Uma obra indispensável para os fãs de cinema e de filmes de tribunal, "Justiça para todos" é atemporal.

terça-feira

HURRICANE - O FURACÃO

HURRICANE - O FURACÃO (The Hurricane, 1999, Universal Pictures, 146min) Direção: Norman Jewison. Roteiro: Armyan Bernstein, Dan Gordon, livros "The 16th Round", de Rubin "Hurricane" Carter e "Lazarus and the Hurricane", de Sam Chaiton e Terry Swinton. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Stephen Rivkin. Música: Christopher Young. Figurino: Aggie Guerard-Rodgers. Direção de arte/cenários: Philip Rosenberg/Gordon Sim. Produção executiva: Marc Abraham, Irving Azoff, Thomas A. Bliss, Rudy Langlais, Tom Rosenberg, William Teitler. Produção: Armyan Bernstein, Norman Jewison, John Ketcham. Elenco: Denzel Washington, Deborah Kara Unger, Liev Schrieber, John Hannah, Dan Hedaya, Vicellous Reon Shannon, Clancy Brown, David Paymer, Rod Steiger, Debbi Morgan. Estreia: 17/9/99 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Denzel Washington)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Denzel Washington)

Em 1966, o lutador de boxe Rubin "Hurricane" Carter, forte candidato ao título de campeão mundial de peso médio, foi preso, acusado de múltiplo homicídio. Condenado a três penas de prisão perpétua, ele nunca cansou de clamar inocência, chamando a atenção dos ativistas pelos direitos civis dos negros e de personalidades como o lutador Muhamad Ali, a atriz Ellen Burstyn e o cantor Bob Dylan, que inclusive compôs uma canção de protesto narrando os fatos que levaram o atleta à prisão e levantando a clara hipótese de perseguição racial. Tal história, um dos mais contundentes retratos das diferenças sociais dos EUA na década de 60 rendeu dois livros: um, escrito pelo próprio Carter, narrava sua vida repleta de preconceito e violência. O outro, mais inspirador, revelava a relação entre ele e um adolescente negro chamado Lesra, que, se identificando com a biografia do boxeador, convenceu seus tutores canadenses a colaborar na tentativa de um novo julgamento, mais de 30 anos depois de sua condenação. Essa história - escrita pelos professores do rapaz - foi o que serviu de base para "Hurricane, o furacão", a versão cinematográfica que quase deu o Oscar de melhor ator a Denzel Washington em 2000. Dirigido pelo veterano Norman Jewison - cujo "No calor da noite" também tinha o preconceito racial como mote dramático - a história de Rubin Carter chegou às tela cercada de elogios, mas não passou incólume ao teste da realidade: acusado de distorcer os fatos em favor do protagonista, o filme sofre de uma parcialidade que dilui sua denúncia (apesar de não diminuir seu valor como arte).

Fabuloso na pele de Rubin Carter, Denzel Washington levou o Golden Globe de melhor ator dramático, mas perdeu o Oscar para Kevin Spacey, brilhante em "Beleza americana". Alguns chegaram a culpar as controvérsias geradas pelo roteiro do filme - como a criação do personagem Della Pesca, vivido por Dan Hedaya, uma espécie de Javert (de "Os miseráveis", de Victor Hugo) em sua busca incessante pela condenação do protagonista desde sua infância - para enfatizar a conotação racial da perseguição. É possível que tais polêmicas tenham realmente respingado em Denzel, mas o fato é que nem mesmo sua atuação visceral consegue esconder a irregularidade do trabalho de edição e da fragilidade da estrutura do roteiro, que muda de tom e foco repentinamente, prejudicando inclusive o ritmo empolgante de sua primeira hora. Contando praticamente dois filmes em um só - a divisão fica clara entre os dois livros que lhe deram origem - Jewison não consegue manter a unidade de sua narrativa, deixando de lado, por exemplo, a montagem fora de ordem cronológica de seus primeiros minutos, que conquistam a audiência sem muito esforço. O terço inicial do filme, forte e dramático, logo é substituído por um tom mais ameno e pacifíco que, se corresponde às mudanças espirituais do protagonista em seu processo de amadurecimento na cadeia, deixa o produto final com menos força do que poderia se mantivesse a fúria do começo.


A trama já começa com a prisão de Carter, em 1966, juntamente com um amigo, igualmente negro, pela morte de três pessoas em um bar. Reconhecido por uma testemunha ocular retratada no filme como incapaz de tal - e coagida por um policial que persegue o lutador desde que ele ainda era uma criança, ele é imediatamente preso e, depois de um julgamento pouco mostrado em cena (o que dá margem às dúvidas sobre a veracidade de seu rigor histórico) é condenado e, rebelde, impõe sua forte personalidade junto às autoridades policiais, trocando o dia pela noite, estudando seu próprio caso e escrevendo sua biografia, chamada "O 16º round". O livro se torna um sucesso e, sete anos depois, cai nas mãos de um jovem negro chamado Lesra (Vicellous Reon Shannon), que, identificando-se com a história do famoso presidiário, inicia com ele uma correspondência fraternal. Morando no Canadá com três tutores que veem nele um futuro que estava ameaçado pelo descaso paterno e familiar, Lesra acaba por convencer seus amigos a iniciarem uma campanha que exija um novo julgamento para Carter - com base em incoerências durante o processo, eles desejam anular as sentenças.

É difícil não gostar de "Hurricane, o furacão": a direção de atores de Norman Jewison é certeira, extraindo de cada ator a expressão mais correta e apropriada, a trilha sonora de Christopher Young é eficaz, e a história é contada de forma emocionante, ainda que burocrática em seus dois terços finais. Além do mais, Denzel Washington entrega uma performance avassaladora, equilibrando fúria e desespero nas medidas certas. Mas talvez com mais ousadia no roteiro e na direção um filme bom poderia ter se transformado em uma pequena obra-prima. A falta de coragem dos produtores talvez tenha sido o golpe fatal para suas intenções. Mesmo assim, é um dos grandes filmes da temporada 99.

domingo

ONLY YOU

ONLY YOU (Only you, 1994, TriStarPictures, 108min) Direção: Norman Jewison. Roteiro: Diane Drake. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Stephen Rivkin. Música: Rachel Portman. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Luciana Arrighi/Ian Whittaker. Produção: Robert N. Fried, Norman Jewison, Charles Mulvehill, Cary Woods. Elenco: Marisa Tomei, Robert Downey Jr., Bonnie Hunt, Joaquim de Almeida, Fisher Stevens, Billy Zane, John Benjamin Hickey. Estreia: 17/9/94 (Festival de Toronto)

Quando ganhou o inesperado Oscar de atriz coadjuvante por seu desempenho em "Meu primo Vinny" (92), Marisa Tomei ganhou junto a incômoda missão de provar que seu prêmio não havia sido mais um dos inúmeros enganos acumulados pela Academia em seu histórico de erros. Filmes como o fraco "Coração indomável" (93) e o esquecível "O jornal" (94) não ajudaram nesse sentido, mas é inegável que o simpático "Only you", dirigido pelo veterano Norman Jewison foi o mais perto que ela chegou, nos anos 90, de comprovar seu talento para a leveza das comédias românticas. Usando de muitos elementos clássicos, flertando com obras icônicas do gênero, como "A princesa e o plebeu" - além de uma citação direta de "Casablanca" (43) - e tendo as belezas da Itália como cenário, o filme não chegou a ser um sucesso de bilheteria, mas conquista a plateia pela simpatia do elenco e pelo roteiro, com reviravoltas em número suficiente para manter a atenção até o último minuto.

Sendo nada mais do que uma simples comédia, "Only you" não pretende oferecer mais do que um simples e divertido entretenimento, mas entrega ao espectador quase duas horas de um romantismo derramado, ilustrado pela fotografia do mestre Sven Nykvist - colaborador habitual de Ingmar Bergman e Woody Allen - e pontuado pela discreta trilha sonora de Rachel Portman. Polvilhando seu roteiro com tiradas de um humor sutil, Diane Drake construiu uma trama capaz de conquistar até mesmo o mais ferrenho detrator do gênero, especialmente por não deter-se na eterna fórmula do "moça encontra rapaz, se apaixona e luta por seu amor até o final feliz". Ok, alguns desses elementos estão presentes na história, mas tão bem misturados que é difícil resistir. Senão, vejamos: desde criança a professora Faith (Marisa Tomei, encantadora) ouve o mesmo nome quando procura saber, via meios sobrenaturais, quem é sua alma gêmea. Em uma brincadeira na tábua dos mortos com o irmão, Damon Bradley surge pela primeira vez. Alguns anos depois, uma cigana de parque de diversões reitera a informação, deixando a adolescente obcecada com esse desconhecido que promete ser seu grande amor.


Já adulta, Faith está de casamento marcado e aparentemente feliz quando, ao atender o telefone do noivo, ouve do outro lado da linha o nome de sua cara-metade: excitada, ela ignora o fato de Bradley estar de viagem para Veneza e, com a companhia da cunhada, Kate (Bonnie Hunt) - que está passando por uma fase infeliz no casamento - pega o primeiro avião para a Itália. Depois de inúmeros desencontros, ela finalmente dá de cara com o rapaz, um morador de Nova York que está na Europa a serviço (Robert Downey Jr.). Bonito, sedutor e romântico, ele é o sonho encarnado, e Faith está resolvida a cancelar o casamento e apostar em uma vida ao lado de seu novo grande amor quando descobre que as coisas não são exatamente como ela esperava.

Um dos maiores méritos de "Only you" é sua capacidade de surpreender o público, levando-o para várias direções antes de finalmente dar sua história por encerrada. Brincando com o mito do  do homem mediterrâneo através do flerte de Kate com o sedutor Giovanni (Joaquim de Almeida) e com a obsessão feminina pela busca do amor romântico, o filme de Norman Jewison - também autor do delicioso "Feitiço da lua" (87) - é uma divertida viagem pelos meandros do destino guiada por uma dupla central atraente e de excelente química. Tomei, que anos mais tarde voltaria a ser levada a sério como atriz, com mais duas indicações ao Oscar - por "Entre quatro paredes" (01) e "O lutador" (08) - não foi um erro da Academia. Ela sempre foi uma atriz deliciosa de se assistir.

FEITIÇO DA LUA


FEITIÇO DA LUA (Moonstruck, 1987, MGM Pictures, 102min) Direção: Norman Jewison. Roteiro: John Patrick Shanley. Fotografia: David Watkin. Montagem: Lou Lombardo. Música: Dick Hyman. Figurino: Theoni V. Aldredge. Direção de arte/cenários: Philip Rosenberg. Casting: Howard Feuer. Produção: Norman Jewison, Patrick Palmer. Elenco: Cher, Nicolas Cage, Vincent Gardenia, Olympia Dukakis, John Mahoney. Estreia: 18/12/87

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Norman Jewison), Atriz (Cher), Ator Coadjuvante (Vincent Gardenia), Atriz Coadjuvante (Olympia Dukakis), Roteiro Original
Vencedor de 3 Oscar: Atriz (Cher), Atriz Coadjuvante (Olympia Dukakis), Roteiro Original
Vencedor de 2 Golden Globes: Atriz/Comédia ou Musical (Cher), Atriz Coadjuvante (Olympia Dukakis)


Como é bom perceber que mesmo dentro de um gênero em tese tão repleto de clichês e armadilhas como as comédias românticas ainda é possível ser criativo, delicado e surpreendente! Premiado merecidamente com o Oscar de roteiro original, "Feitiço da lua", dirigido pelo normalmente seríssimo Norman Jewison é uma simpática história de amor, dona de um humor passional e repleta de diálogos brilhantes. Mesmo fugindo da ambição de ser inesquecível, é um filme que conquista pela inteligência, pelo bom-humor e pelo elenco impecável. Não foi à toa que Cher e Olympia Dukakis também levaram suas estatuetas para casa, por entregarem luminosas performances.

Ficando com o papel originalmente escrito com Sally Field em mente, Cher provou-se como atriz séria - e não apenas uma cantora exótica e frequentemente espalhafatosa - na pele de Loretta Castorini, uma contadora descendente de italianos que vive no Brooklyn e que há muito deixou de acreditar em coisas como romances. Precocemente viúva, ela é pedida novamente em casamento por Johnny Cammameri (Danny Aiello), um homem mais velho e também longe de ser um exemplo de romantismo. Ao viajar para a Itália a fim de acompanhar os dias finais de vida de sua mãe, ele pede a Loretta que entre em contato com seu irmão, com quem ele rompeu anos antes, para uma reaproximação. Obediente, Loretta vai até o raivoso Ronny (Nicolas Cage), um padeiro que não tem uma das mãos e que culpa o irmão por isso. Ao tentar convencê-lo a ir à cerimônia, Loretta acaba se apaixonando por ele.


A qualidade do roteiro de John Patrick Shanley é inegável. Além de contar a história do belo romance entre Loretta e Ronny - que explode ao som de "La Boheme" - Shanley aproveita para criar personagens complexos e interessantes na família Castorini. Vincent Gardenia conquista pela simpatia com que conduz a aventura extra-conjugal de seu Cosmo, que busca reconquistar a juventude perdida envolvendo-se com outra mulher. E Dukakis mereceu seu prêmio de coadjuvante graças a seu trabalho delicado como Rose, uma mãe de família tentando entender a força que a lua cheia dá a seus familiares.

Ao brincar com a lenda que dá à comunidade italiana a fama de romântico/passional, "Feitiço da lua" oferece a seu público bem mais do que simplesmente uma comédia romântica: é simpático, encantador e deliciosamente sedutor. O trabalho de Cher é sutil, mas irrepreensível - até mesmo seu sotaque e seu jeito exagerado de falar e gesticular soam naturais e verdadeiros. E não há como não se deixar envolver por um filme cujos créditos de abertura apresentam a bela "That's amore" na voz de Dean Martin. Para ver com um sorriso no rosto!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...