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sexta-feira

THOR

 

THOR (Thor, 2011, Marvel Studios/Paramount Pictures/Marvel Entertainment, 115min) Direção: Kenneth Branagh. Roteiro: Ashley Edward Miller, Zack Stentz, Don Payne, estória de J. Michael Straczynski, Mark Protosevich, personagens criados por Stan Lee, Larry Lieber, Jack Kirby. Fotografia: Haris Zambarloukos. Montagem: Paul Rubell. Música: Patrick Doyle. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: Bo Welch/Lauri Gaffin. Produção executiva: Louis D'Esposito, Alan Fine, Stan Lee, David Maisel, Patricia Whitcher. Elenco: Chris Hemsworth, Natalie Portman, Anthony Hopkins, Tom Hiddleston, Stellan Skarsgard, Kat Dennings, Clark Gregg, Colm Feore, Idris Elba, Rene Russo. Estreia: 17/4/2011 (Sidney)

 A princípio pode parecer bastante estranho que um cineasta de tanto prestígio quanto Kenneth Branagh - indicado aos Oscar de ator e diretor aos 29 anos, por "Henry V" (1989) - tenha sido o escolhido para comandar "Thor", uma produção nitidamente comercial que dava continuidade às adaptações para as telas dos super-heróis da Marvel, iniciadas com o sucesso estrondoso de "Homem de ferro" (2008). Porém, basta ver os conflitos familiares na origem do personagem para compreender as razões por tal escolha: famoso por suas transposições das peças de Shakespeare para o cinema, Branagh viu ecos da obra do bardo na relação entre os protagonistas e, como fã dos quadrinhos desde a infância, aceitou o desafio de imprimir uma visão artística a um produto meramente mercadológico. Não se pode dizer que conseguiu atingir totalmente seus objetivos, mas em termos financeiros - com quase 450 milhões de dólares arrecadados internacionalmente - deixou o estúdio plenamente satisfeito e deu mais um passo em direção a seu "Os Vingadores", lançado em 2012.

Como é comum em filmes de origem, "Thor" se dedica, em boa parte de suas quase duas horas de duração, a contar os motivos que levaram o protagonista a sair de seu planeta natal, Asgard, e chegar à Terra, onde irá, futuramente, fazer parte da S.H.I.E.L.D. - organização que será responsável pela reunião de todos os heróis da Marvel para fins de proteção do planeta. A trama começa narrando uma batalha, acontecida em 965 A.C., quando um exército de Asgard impede os temíveis Gigantes Gelados de transformarem a Terra em um planeta devastado através dos poderes do Tesseract (um artefato com poderes ilimitados). O objeto fica, então, em poder do rei de Asgard, o poderoso Odin (Anthony Hopkins em papel oferecido a Mel Gibson). Anos mais tarde, uma tentativa de invasão da sala onde está guardado o objeto causa uma ruptura no clã de Odin: para defender a paz, seu filho mais velho e herdeiro do trono, Thor (Chris Hemsworth), desafia as orientações paternas e se inssurge contra os invasores, causando o rompimento da antiga trégua. Como punição, Odin envia o rapaz para a Terra (Midgard) - sem o martelo que lhe concede seus poderes - mas não percebe que seu filho adotivo, o sorrateiro Loki (Tom Hiddleston), está em negociações com os inimigos do reino para que possa ser coroado o novo soberano. Na Terra, enquanto isso, Thor se apaixona pela bela cientista Jane Foster (Natalie Portman) - e terá que recuperar seu martelo para impedir a destruição do planeta, consequência das articulações de seu ressentido irmão.

 

Não é difícil perceber, no roteiro de "Thor", as tais relações com a obra de Shakespeare - o próprio Tom Hiddleston enxerga, em seu Loki, pontos de semelhança com Edmund, um dos personagens da clássica "O rei Lear". A difícil relação entre pai e filhos - detalhe que chamou a atenção de Anthony Hopkins e o fez aceitar o papel de Odin, saindo de uma quase aposentadoria - é o grande trunfo dramático do filme de Branagh, e um atrativo a mais em um filme que, do contrário, poderia resumir-se a apenas mais um show pirotécnico. Utilizando-se de elementos da mitologia nórdica - de forma explícita ou espalhadas em citações visuais e em diálogos aparentemente banais -, "Thor" é uma produção que oferece exatamente o que seu público-alvo procura, equilibrando sequências de ação com momentos que permitem o brilho de seu elenco, em especial Tom Hiddleston, que rouba a cena com seu Loki, ao mesmo tempo cruel e dotado de um senso de humor que conquista de imediato a plateia. E se Chris Hemsworth parece o intérprete ideal para viver o super-herói do título, ele teve - assim como Thor - de disputar o papel com... seu próprio irmão, Liam Hemsworth, que, quase como prêmio de consolação, foi viver um dos personagens principais da série "Jogos vorazes".

A disputa entre os Hemsworth, porém, foi apenas a reta final pela escolha do ator que iria personificar um dos mais icônicos ídolos dos quadrinhos. Um projeto que já datava de 1991, quando Stan Lee em pessoa aproximou-se de Sam Raimi - vindo do elogiado "Darkman: vingança sem rosto" (1990) - para dirigir uma adaptação a ser produzida pela 20th Century Fox, "Thor" só voltou a ser objeto de interesse de Hollywood com o êxito de "Homem de ferro" e a decisão da Marvel em criar todo um universo cinematográfico. Cineastas como Guillermo Del Toro e Steven Spielberg foram cogitados para comandar o filme - mas apenas com a contratação de Kenneth Branagh as coisas começaram a andar, e mesmo assim, a seleção para o protagonista movimentou a indústria. De astros consagrados como Brad Pitt e Daniel Craig a jovens promessas, como Channing Tatum, Charlie Hunnam e Joel Kinnaman, o papel do herdeiro do trono de Asgard esteve vago até que Chris - que já havia provado o gostinho da fama com "Star Trek" (2009) - finalmente entrou em cena e assumiu a bronca. O sucesso de bilheteria - e até a boa vontade da crítica - mostraram que o público aprovou a decisão.

quinta-feira

ANIQUILAÇÃO


ANIQUILAÇÃO (Annihilation, 2018, Paramount Pictures/Skydance Media/Scott Rudin Productions, 115min) Direção: Alex Garland. Roteiro: Alex Garland, romance de Jeff VanderMeer. Fotografia: Rob Hardy. Montagem: Barney Pilling. Música: Geoff Barrow, Ben Salisbury. Figurino: Sammy Sheldon Differ. Direção de arte/cenários: Mark Digby/Michelle Day. Produção executiva: Jo Burn, David Ellison, Dana Goldberg, Don Granger. Produção: Eli Bush, Andrew Macdonald, Allon Reich, Scott Rudin. Elenco: Natalie Portman, Jennifer Jason Leigh, Oscar Isaac, Gina Rodriguez, Tuva Novotny, Tessa Thompson. Estreia: 13/02/2018

Experiente como escritor - é dele o romance "A praia", que Danny Boyle levou às telas com Leonardo DiCaprio, em 2000 - e roteirista - ele é o nome por trás de "Extermínio" (2002), também de Boyle, e da adaptação de "Não me abandone jamais" (2001), baseado em livro de Kazuo Ishiguro -, o inglês Alex Garland sabe que a pressão não é pouca quando se transfere uma obra literária para o cinema. Com isso em mente, a primeira coisa que fez quando anunciou que estaria no comando da versão cinematográfica do livro "Annihilation", início de uma trilogia escrita por Jeff VanderMeer, foi declarar que, ao invés de reler a obra para escrever o roteiro, o faria como "um sonho do livro". Qualquer coisa que isso possa significar, o resultado foi um filme que não exatamente agradou aos fãs do original por suas diferenças claras - mas que, como produto audiovisual, caminha muito bem pelas próprias pernas. Inteligente, intrigante e oferecendo mais perguntas que respostas, "Aniquilação" ainda se beneficia da presença sempre magnética de Natalie Portman - por ironia uma das principais críticas dos leitores mais exigentes da trama de VanderMeer.

Indignados com a escalação de Portman para um dos papéis principais da história - que nas páginas é descrita como asiática - os fãs da trilogia tampouco gostaram de ver Jennifer Jason Leigh na pele de uma personagem de descendência indígena. Em sua defesa, Garland alegou - com certa coerência - que os detalhes físicos das protagonistas são revelados apenas no segundo livro da série (lançado apenas depois que o roteiro da adaptação já estava finalizado). A esta altura da pré-produção, o cineasta - cujo "Ex-machina: instinto artificial" (2014) havia agradado plenamente crítica e público - preferiu escolher seu elenco de acordo com as audições e com sua experiência anterior como diretor. Talvez a explicação não tenha sido completamente aceita pelos detratores, mas o fato é que, apesar da polêmica, "Aniquilação" é um suspense de ficção muito acima da média, que se utiliza de efeitos visuais como parte integrante da narrativa, e não como seu principal atrativo, e cujos elementos remetem ao clássico russo "Stalker" (1979), de Andrei Tarkovski - apesar das veementes negativas de VanderMeer a respeito de suas inspirações.

 

A trama começa quando o militar Kane (Oscar Isaac), tido como desaparecido em uma missão há pelo menos um ano, retorna à companhia da mulher, a biologista Lena (Natalie Portman). Kane não tem memória alguma a respeito do que aconteceu com ele e seus demais colegas - e subitamente começa a passar mal, sendo levado por seus superiores (sem maiores explicações) a uma instalação militar. É neste local que Lena começa a conhecer, ainda que superficialmente, a história por trás de todo o mistério que cercava a missão do marido - através da psicóloga Ventress (Jennifer Jason Leigh), Lena fica sabendo que Kane fazia parte de uma expedição que buscava informações científicas a respeito da Área X - uma região da Terra repentinamente cercada por uma cúpula a qual se convencionou chamar de Brilho. Sabendo que uma outra expedição está em vias de tentar novamente a sorte - até mesmo como forma de descobrir o paradeiro dos demais membros da primeira missão -, Lena se oferece como voluntária. Assim, se une a Ventress, à física Josie Radek (Tessa Thompson), à antropologista Cassie Sheppard (Tuva Novotny) e à paramédica Anya Thorensen (Gina Rodriguez) e entra em um universo novo, onde aparentemente organismos alienígenas estão provocando mutações genéticas das mais variadas - e ameaçando a existência da Terra nos moldes tradicionais.

Levando-se bastante a sério - uma vantagem em um gênero que frequentemente apela para um humor vazio como forma de conquistar plateias mais jovens - e oferecendo efeitos visuais criativos e longe do lugar-comum, "Aniquilação" estreou em um acordo entre a Paramount Pictures e a Netflix, resultado de bastidores pouco tranquilos entre os executivos do estúdio - enquanto David Ellison, preocupado com o tom intelectual do filme pedia por refilmagens e alterações cruciais no filme (incluindo mudanças substanciais na personalidade da protagonista interpretada por Portman), o produtor Scott Rudin declarava total apoio à integridade da obra de Garland. A briga resultou no lançamento do filme em streaming, uma aposta arriscada para uma produção de 40 milhões de dólares que, sem uma estreia tradicional, ficou muito aquém do que poderia ter conquistado - tanto em termos financeiros quanto de prestígio. Uma das mais interessantes ficções científicas a surgir em um período repleto de boas opções no gênero - "Interestelar" (2015), "Perdido em Marte (2015) e "A chegada" (2016) elevaram o patamar em muitos graus -, o filme de Garland tem, certamente, um lugar garantido no coração dos fãs.


terça-feira

JACKIE

JACKIE (Jackie, 2016, Fox Searchlight Pictures, 100min) Direção: Pablo Larraín. Roteiro: Noah Oppenheim. Fotografia: Stéphane Fontaine. Montagem: Sebastián Sepúlveda. Música: Mica Levi. Figurino: Madeline Fontaine. Direção de arte/cenários: Jean Rabasse/Véronique Melery. Produção executiva: Martine Cassinelli, Charlie Corwin, Wei Han, Jayne Hong, Jennifer Monroe, Howard Owens, Lin Qi, Pete Shilaimon, Josh Stern. Produção: Darren Aronofsky, Pascal Caucheteaux, Scott Franklin, Ari Handel, Juan de Dios Larraín, Mickey Liddell. Elenco: Natalie Portman, Peter Sarsgaard, Greta Gerwig, Billy Crudup, John Carrol Lynch, Richard E. Grant, John Hurt, Beth Grant. Estreia: 07/9/16 (Festival de Veneza)

3 indicações ao Oscar: Atriz (Natalie Portman), Trilha Sonora Original, Figurino

Quem conhece a filmografia do cineasta chileno Pablo Larraín já sabe o que esperar de "Jackie": não uma cinebiografia convencional da mais famosa primeira-dama dos EUA, mas uma tentativa de retratar diferentes ângulos de sua personalidade a partir da morte de John F. Kennedy, um dos mais traumáticos eventos da história do país, ocorrido em novembro de 1963, em Dallas. Com base em uma entrevista concedida pela jovem viúva ao repórter Theodore H. White - da revista Life - pouco depois do trágico acontecimento, o roteiro de Noah Oppenheim se recusa a seguir uma linha narrativa tradicional e constrói, através de silêncios, meias-verdades e declarações da protagonista, um perfil não completo, mas controverso e complexo de uma das figuras mais admiradas e influentes do século XX. Contando com uma atuação irretocável de Natalie Portman no papel central e uma reconstituição meticulosa de alguns momentos cruciais da história da família Kennedy durante sua estada na Casa Branca, "Jackie" é um filme acima da média, ainda que possa causar certo estranhamento àqueles que procuram uma produção nos moldes acadêmicos. Mas, como já afirmado, quem conhece a obra de seu diretor não irá se surpreender tanto assim.

Crítico ferrenho da política e da sociedade chilena, Pablo Larraín assinou filmes polêmicos e crus - como "Tony Manero" (2008) e "Post mortem" (2010) -, o indicado ao Oscar de melhor produção estrangeira "No" (2012) e o controverso "O clube" (2015), que concorreu ao Golden Globe na mesma categoria. Em todos eles, há a tendência em tocar em feridas ainda não cicatrizadas - sejam elas quais forem, desde pedofilia na Igreja Católica até a traumática ditadura de Pinochet. Distante geográfica e emocionalmente da trajetória de Jacqueline Kennedy, Larraín pode exumar sem medo suas contradições e mecanismos de defesa, apresentando uma protagonista que deixa vislumbrar seus medos e inseguranças somente em momentos solitários - e em uma ou outra hesitação na voz e no olhar durante a famosa entrevista (no filme o repórter, vivido por Billy Crudup, não tem nome e nem a revista Life é citada, para maior liberdade artística). Louvada como ícone fashion e uma das mulheres mais elegantes do mundo, no filme de Larraín a elegante Jackie mostra outras facetas de si mesma: a mãe extremada e preocupada com o destino dos filhos, a viúva chocada com o fim trágico do marido diante de seus olhos, a primeira-dama exemplar posta na angustiante situação de ver-se desamparada e a mulher altiva que evita demonstrar sentimentos exagerados para o povo ainda aturdido com toda a situação. Natalie Portman se encarrega de dar vida a todas às nuances propostas pelo roteiro, mostrando que alguns males realmente vem para o bem: a primeira opção para o papel era Rachel Weisz, na época em que o projeto era do cineasta Darren Aronofsky - que dirigiu Portman em "Cisne negro" e se manteve como produtor mesmo depois de pular fora da direção: Weisz é uma boa atriz, mas Natalie simplesmente desaparece na pele de Jackie, em um trabalho de imersão que justifica plenamente sua indicação ao Oscar.


Amparada por uma caracterização impecável - em especial o figurino de Madelie Fontane, também concorrente ao Oscar - e pela decisão de Larraín em utilizar primordialmente os primeiros takes de cada cena e filmar com uma câmera de mão (como forma de extrair as emoções de maneira mais orgânica e claustrofóbica possível), a atuação de Natalie Portman faz esquecer que, na verdade, ela é bastante diferente fisicamente da verdadeira Jacqueline Kennedy. Sua empostação de voz, postura e trejeitos convencem o público assim que ela entra em cena, ainda abalada pela morte do marido, mas tentando, de todas as formas, manter uma classe e uma força interior que possa inspirar os fãs. Seus diálogos com o repórter mostram uma mulher estoica e conformada - e é aí que o roteiro dá seu pulo do gato, com flashbacks reveladores tanto de seus momentos imediatamente posteriores à morte do marido quanto de outra ocasião célebre: o tour televisionado pela Casa Branca, que aproximou a família presidencial do povo e tornou-a quase uma espécie de família real norte-americana. Misturando cenas reais do programa com takes filmados com o elenco liderado por Portman, Pablo Larraín volta a brincar com a dicotomia real/fictício que já havia imposto a "No", e a edição magistral torna a experiência ainda mais satisfatória.

Sempre que as imagens reais de Jacqueline, John Kennedy e seu entorno surgem na tela, Pablo Larraín faz questão de intercalar com cenas reconstituídas, explorando ao máximo o extremo cuidado em sua recriação e a mágica de transformar alguns momentos icônicos da história dos EUA em cinema de qualidade. Se Natalie Portman traduz a protagonista com perfeição, não se pode deixar de elogiar também o trabalho de Peter Sarsgaard como Bobby Kennedy: igualmente pouco semelhante ao irmão do presidente (e que também foi assassinado, em 1968), Sarsgaard convence facilmente a plateia tão logo aparece, tamanha o seu talento em desaparecer sob o gestual formal e público do personagem. É também notável como o cineasta atinge plenamente seu objetivo de mostrar ângulos diversos de seus personagens, deixando a audiência vislumbrar, ocasionalmente, as pessoas por trás dos ícones - é para isso que estão em cena personagens cruciais, como a assistente e melhor amiga de Jackie, Nancy Tuckerman (Greta Gerwig), e um padre católico que a ajuda a compreender e lidar com a dor da perda (John Hurt em um de seus últimos trabalhos): esses elos de Jackie com o mundo exterior lhe dão a chance de expor seus sentimentos, e o filme cresce a cada momento em que eles estão presentes, graças à inteligência dos diálogos e da sensibilidade do diretor.

Com uma bela e sutil trilha sonora - que também concorreu a uma estatueta dourada - e um respeito quase reverente à sua protagonista, "Jackie" é um filme que pode não agradar a todos os públicos, mas que resiste bravamente à tentação de ser mais uma compilação de fofocas de bastidores e se torna um retrato interessante e elegante de uma das figuras femininas mais importantes do século XX. Não é o grande filme que poderia ser, mas é bastante recomendável a quem procura cinema de qualidade.

sexta-feira

EM QUALQUER OUTRO LUGAR

EM QUALQUER OUTRO LUGAR (Anywhere but here, 1999, 20th Century Fox, 114min) Direção: Wayne Wang. Roteiro: Alvin Sargent, romance de Mona Simpson. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Nicholas C. Smith. Música: Danny Elfman. Figurino: Betsy Heinman. Direção de arte/cenários: Donald Graham Burt/Barbara Munch. Produção executiva: Ginny Nugent. Produção: Laurence Mark. Elenco: Susan Sarandon, Natalie Portman, Shawn Hatosy, Bonnie Bedelia, Thora Birch, John Carrol Lynch, Hart Bochner, Paul Guilfoyle, Megan Mulally, Caroline Aaron. Estreia: 17/9/99 (Festival de Toronto)

Se alguém ainda duvida do poder que duas atrizes de primeiro gabarito tem em transformar uma ideia simples e banal em um filme interessante, esse alguém precisa assistir a "Em qualquer outro lugar". Baseado em um romance nada memorável de Mona Simpson - irmã biológica de Steve Jobs - e dirigido sem muita criatividade por Wayne Wang (responsável pelo belo "O clube da felicidade e da sorte"), o filme, que retrata a difícil relação entre mãe e filha de personalidades conflitantes, sustenta-se basicamente no duelo de interpretações travado entre Susan Sarandon e Natalie Portman, que tomam para si a responsabilidade de dar consistência e emoção a personagens complexas que, em mãos menos sensíveis, poderiam soar apenas chatas e desagradáveis.

Ciente de que merece mais oportunidades que sua pequena Bay City lhe proporciona, a inquieta Adele August (Susan Sarandon) abandona o segundo marido e parte para Beverly Hills acompanhada da filha de 14 anos, a introvertida Ann (Natalie Portman), a quem ela deseja transformar em uma atriz. Fazendo a viagem conta a sua vontade, Ann - cujo contato com o pai foi perdido ainda nos primeiros anos da infância - começa a afastar-se ainda mais da mãe, uma mulher forte e determinada, mas equivocada na forma como leva a vida. Mudando-se constantemente e buscando sempre emoções novas - o que na prática tanto se resume a conquistar homens que podem lhe dar o conforto procurado quanto ambicionar um estilo de vida mais confortável e luxuoso - Adele muitas vezes demonstra ser mais imatura que a filha, cujo único objetivo imediato é terminar a escola, para mais tarde tentar entrar em uma faculdade, longe dos delírios de sua mãe.


Com uma linha narrativa frágil e sem maiores lances dramáticos - nem mesmo uma inesperada e trágica morte altera o tom naturalista proposto por Wang, um cineasta com bom olho para a variação de nuances de suas atrizes - "Em qualquer outro lugar" pode ser descrito sem medo como um filme "para mulheres", já que concentra-se exclusivamente no ponto de vista feminino da história, relegando os homens a meros coadjuvantes unidimensionais. Tal opção, ainda que válida, acaba por limitar o alcance da obra e lhe tirando as possibilidades de agradar a um público mais amplo - o que explica sua bilheteria pouco representativa mesmo com o relativo poder de fogo de Sarandon, na época já premiada com o Oscar por seu trabalho em "Os últimos passos de um homem". Uma das grandes atrizes de sua geração, ela domina cada sequência com um carisma gigantesco, que impede a rejeição à uma personagem que não é exatamente simpática: irresponsável, carente e muitas vezes egoísta, sua Adele só encontra redenção em seu amor (distorcido, mas ainda assim amor) pela filha, vivida por uma ainda iniciante Natalie Portman - que entrou no elenco como exigência absoluta de Sarandon. Linda como sempre, Portman mostra a cada momento o porquê da instransigência de sua mãe fictícia: juntas, elas são o corpo e a alma do filme.

Resumir "Em qualquer outro lugar" não é empolgante. A história é banal, quase clichê. As personagens raramente ultrapassam os limites do superficial - e quando o fazem devem isso a suas talentosas protagonistas. A narrativa não é criativa, apesar de compensar tal característica na seriedade e na placidez. Mas ao mesmo tempo é difícil não se deixar envolver pelo filme de Wang, já que ele tem a inteligência de apoiar-se quase exclusivamente em suas atrizes centrais, tão espetaculares e carismáticas que disfarçam todo e qualquer momento de tédio. É, literalmente, um filme que vale pelo elenco.

BRINCANDO DE SEDUZIR

BRINCANDO DE SEDUZIR (Beautiful girls, 1996, Miramax Films, 112min) Direção: Ted Demme. Roteiro: Scott Rosenberg. Fotografia: Adam Kimmel. Montagem: Jeffrey Wolf. Música: David A. Stewart. Figurino: Lucy W. Corrigan. Direção de arte/cenários: Dan Davis/Tracey A. Doyle. Produção executiva: Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Cary Woods. Elenco: Matt Dillon, Timothy Hutton, Noah Emmerich, Michael Rapaport, Rosie O'Donnell, Lauren Holly, Martha Plimpton, Max Perlich, Natalie Portman, Mira Sorvino, Uma Thurman, Pruitt Taylor Vince, Sam Robards, David Arquette, John Carrol Lynch. Estreia: 09/02/06

Esta é uma história real: na metade da década de 90, enquanto esperava por uma resposta em relação à sorte de um trabalho seu para um grande estúdio de Hollywood, o roteirista Scott Rosenberg voltou à sua cidade natal, no estado de Massachusetts, para fugir da tensão da situação. Lá, ao lado de amigos de infância, percebeu, quase como uma epifania, o quão imaturos todos eles eram, incapazes de aceitar o fato de que estavam chegando aos 30 anos e totalmente despreparados para assumirem compromissos sentimentais. Ciente de que tal estado de espírito também dizia respeito a quase todos os homens de sua geração - e talvez das anteriores e posteriores - Rosenberg partiu para a ação e escreveu "Brincando de seduzir", uma comédia cáustica, romântica e um tanto cínica sobre ele mesmo em particular e os homens em geral. Dirigido por Ted Demme - recém vindo do ácido "O árbitro" - e estrelado por um grupo de jovens atores e atrizes que se dividiam entre iniciantes e veteranos, o filme fez pouco barulho nas bilheterias, mas é, sem dúvida, um retrato fiel e - por que não? - encantador da amizade entre homens.

Willie Conway (Timothy Hutton caprichando no visual desleixado) toca pianos nos bares de Nova York enquanto espera sua grande chance de tornar-se rico e famoso. Namorando há anos a compreensiva advogada Tracy (Annabeth Gish), ele retorna à sua cidade natal para um reencontro com os colegas do ginasial, a quem não vê há anos - assim como seu pai e seu irmão caçula, que desde a morte de sua mãe entraram em uma rotina triste e sem expectativas. Chegando a seu destino, ele imediatamente conhece a nova vizinha, a adolescente Marty (Natalie Portman), que mesmo aos 14 anos, não hesita em flertar com o forasteiro - que, logicamente, sente-se atraído pelo frescor e juventude da menina. Seu desequilíbrio diante de um belo espécime do sexo feminino é compartilhado com seus outros amigos, conforme ele vai percebendo ao encontrá-los: Tommy (Matt Dillon), o galã da cidade, namora com a bela e dedicada Sharon (Mira Sorvino), mas mantém há tempos um caso com uma mulher casada, Darian (Lauren Holly). Seu sócio no negócio de limpar neve das calçadas é Paul (Michael Rapaport, sempre bom em papéis de homens bobalhões), que não se conforma com a traição da namorada, Jan (Martha Plimpton) e vinga-se dela atravancando sua garagem com detritos das tempestades que não param de chegar. O único da turma que parece feliz é Michael (Noah Emmerich), casado, pai de dois filhos e imune às tentações da carne - sempre ironizadas pela sarcástica Gina (Rosie O'Donnell). As noitadas regadas a bebida e reminiscências são abaladas, porém, com a chegada de Andera (Uma Thurman), a bela e independente prima de um amigo em comum que mexe com a libido de todos.


É difícil de acreditar que antes de "Brincando de seduzir" apenas um outro roteiro de Scott Rosenberg havia chegado às telas - e de um gênero totalmente distante, o policial "Coisas para se fazer em Denver quando você está morto", lançado em 1995. Dotado de ritmo, consistência dramática e personagens críveis e pateticamente humanos, o texto de Rosenberg flui com extrema naturalidade, chegando até ao espectador sem soar presunçoso ou autocomplacente. Mesmo quando toca em um assunto potencialmente perigoso - a atração do trintão Willie pela adolescente Marty - o roteiro substitui o peso de uma polêmica pela leveza da citação de Nabokov e sua Lolita. Ao defender a imaturidade masculina mesmo quando ela tem consequências pouco nobres ou altruístas, tanto Rosenberg quanto o diretor Ted Demme tem o cuidado de não parecerem machistas ou misóginos: eles parecem dizer, através dos diálogos certeiros e quase melancólicos em determinados momentos, que seus personagens não são maus, são apenas infantis e, portanto, dotados de um egoísmo inerente à sua condição. E para isso, eles contam com um elenco excelente, que se desincumbe com maestria das armadilhas de uma trama que prescinde de heróis ou vilões.

Timothy Hutton - que ganhou um Oscar de coadjuvante aos 19 anos por "Gente como a gente" (80) - sai-se bem como o desnorteado Willie, um homem perdido entre a juventude e a maturidade que vê no possível envolvimento com uma adolescente sua última chance de prender-se de vez ao passado. Uma Thurman desfila linda e carismática pela tela como a sedutora Andera e Michael Rapaport faz o papel de adorável paspalho que se tornaria sua marca registrada - o mesmo que acontece com Rosie O'Donnell, que rouba a cena com sua desbocada e realista Gina em pelo menos uma cena memorável, quando discursa sobre a ditadura da beleza feminina ideal dos homens (tema também de um diálogo brilhante proferido pelo personagem de Rapaport). Junto a eles, as duas oscarizadas Natalie Portman - ainda menina - e Mira Sorvino completam uma equipe iluminada, que vem suas cenas comentadas pela adequada e agradável trilha sonora de David A. Stewart.

Ah, o filme que Rosenberg escreveu antes de esconder-se em sua cidadezinha chegou às telas em 1997: era o blockbuster "Con Air, a rota da fuga"... que não tem, perceptivelmente, nada a ver com o delicioso "Brincando de seduzir".

sábado

O PROFISSIONAL

O PROFISSIONAL (The professional/Leon, 1994, Gaumont Pictures, 110min) Direção e roteiro: Luc Besson. Fotografia: Thierry Arbogast. Montagem: Sylvie Landra. Música: Eric Serra. Figurino: Magali Guidasci. Direção de arte/cenários: Dan Weill/Françoise Benoit Fresco. Produção executiva: Claude Besson. Elenco: Jean Reno, Gary Oldman, Natalie Portman, Danny Aiello. Estreia: 14/9/94

Alguns filmes marcam a vida do espectador por sua mensagem, outros por sua história e ainda outros pela forma narrativa que adotam. Em alguns casos, porém, o que fica na memória da plateia e faz uma produção tornar-se especial é uma característica única. É o caso de "O profissional", lançado em 1994 e que hoje é menos lembrado por sua história ou por outros detalhes narrativos e mais por ter sido o filme que lançou a carreira de uma das atrizes mais importantes de sua geração, Natalie Portman. O alvoroço em torno da estreia de Portman foi tanto e tão merecido que o principal ponto de venda da obra na época - era o primeiro trabalho do cineasta francês Luc Besson em Hollywood - ficou quase totalmente eclipsado. Não é pra menos: como uma lolita pós-moderna, decidida e vingativa (ainda que sensível nos momentos certos), a jovem que tinha apenas 11 anos quando foi escolhida pelo diretor, roubou a cena de ninguém menos que Jean Reno (astro na França e começando uma popular carreira nos EUA) e o mestre Gary Oldman.

Um dos diretores franceses mais respeitados na indústria americana - a ponto de ter recebido a discutível homenagem de ver seu sucesso de bilheteria "Nikita, criada para matar" (90) ser refilmado sob o título de "A assassina" (92), com Bridget Fonda - Besson estava com tudo pronto para fazer sua estreia em Hollywood com a superprodução "O quinto elemento", uma ficção científica cara e ambiciosa que seria estrelada por Bruce Willis e Gary Oldman para a Columbia Pictures. A agenda de Willis, sempre apertada, acabou adiando as filmagens, mas o cineasta, para não perder o ritmo criativo, escreveu, em cerca de 30 dias, o roteiro de um filme policial inspirado em um dos coadjuvantes de "Nikita". Ainda com Oldman no elenco, ele chamou seu amigo Jean Reno - que fazia o tal personagem inspirador do protagonista no filme anterior - e escolheu a jovem Portman para viver a protagonista feminina. Com um custo consideravelmente mais baixo, sem o apoio da Columbia e com um prazo de filmagens de 90 dias, ele realizou então um dos pontos mais altos de sua filmografia - enquanto "O quinto elemento", lançado apenas quatro anos mais tarde, decepcionou a gregos e troianos.


O profissional do titulo internacional - na frança ele chamou-se apenas "Léon" - é Leone Montana, um matador de aluguel que é, segundo seu intermediário Tony (Danny Aiello), o melhor dentre todos. Vivendo sozinho em um pequeno apartamento de Nova York, ele leva uma vida simples e discreta, sem amigos, sem relacionamentos e sem vida social. Sua bolha de isolamento é rompida quando ele conhece Mathilda (Natalie Portman, esbanjando talento), uma menina de 12 anos que testemunha toda a sua família ser chacinada violentamente por Stansfield (Gary Oldman) - um policial corrupto - e seus capangas. Desesperada e sedenta de vingança, a garota se aproxima de Léon, vai morar com ele e resolve aprender a se tornar ela mesma uma assassina, para acabar com o assassino - não tanto de seu pai, com quem não mantinha a mais saudável das relações, mas principalmente de seu irmão de 4 anos.

A relação entre Léon e Mathilda é a mais interessante das camadas de "O profissional". Mesmo que o filme funcione muito bem como policial e suspense, com cenas bem construídas e uma edição impactante que remete aos melhores momentos de "Nikita", é a história de amor e amizade surgida entre duas pessoas tão diferentes e ao mesmo tempo tão semelhantes que empurra o filme pra frente. Léon, um homem sozinho e até então desprovido de maiores emoções, se vê profundamente tocado com o sofrimento e a angústia de Mathilda, a quem adota como filha. A menina, por sua vez, é uma explosão de sentimentos, chegando a confundir a gratidão e o carinho imensos que sente por seu mentor com amor e desejo. A cena em que ela se declara apaixonada é uma prova inconteste do talento já enorme de Portman em seu primeiro filme: apenas com o olhar e a voz, ela se transforma de vingadora obsessiva em uma jovem mulher, ainda que confusa em suas sensações, experimentadas pela primeira vez.

"O profissional" é um belo filme, ainda que tenha sido recebido com certa frieza da crítica quando foi lançado - em especial a imprensa se concentrava em seus diálogos, que considerou fracos. Hoje, a obra alcançou status de cult e é considerado por vários especialistas um dos filmes indispensáveis dos anos 90. Nem que seja para testemunhar o nascimento de uma estrela chamada Natalie Portman.

quinta-feira

CISNE NEGRO

CISNE NEGRO (Black Swan, 2010, Fox Searchlight Pictures, 108min) Direção: Darren Aronofsky. Roteiro: Mark Heyman, Andrés Heinz, John McLaughlin, estória de Andrés Heinz. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Andrew Weisblum. Música: Clint Mansell. Figurino: Amy Westcott. Direção de arte/cenários: Thérèse DePrez/Tora Peterson. Produção executiva: Jon Avnet, Bradley J. Fischer, Peter Fructhman, Ari Handel, Jennifer Roth, Rick Schwartz, Tyler Thompson, David Thwaites. Produção: Scott Franklin, Mike Medavoy, Arnold W. Messer, Brian Oliver. Elenco: Natalie Portman, Vincent Cassell, Barbara Hershey, Mila Kunis, Winona Ryder. Estreia: 01/9/10 (Festival de Veneza)

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Darren Aronofsky), Atriz (Natalie Portman), Fotografia, Montagem
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Natalie Portman)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Natalie Portman) 

A referência óbvia é o balé “O lago dos cisnes”, de Tchaikovsky, que serve de pano de fundo para a trama central e seus desdobramentos dramáticos. Porém, o cineasta Darren Aronofsky não é exatamente um artista partidário do óbvio e, misturando elementos de literatura – “O duplo”, de Dostoievsky – e do próprio cinema – mais exatamente o claustrofóbico “Repulsa ao sexo”, de Roman Polanski e o clássico “Sapatinhos vermelhos”, de Preston Sturgess – ele construiu um dos mais sufocantes e angustiantes filmes de terror da história... e que nem mesmo é um filme de terror. Disfarçado de drama psicológico e envernizado com a aura de sofisticação inerente a filmes sobre uma arte tão nobre quanto a dança, “Cisne negro” surpreende o público com um estudo impiedoso sobre a busca pela perfeição, a repressão sexual e a entrega incondicional à arte sobrepondo-se à vida. Contando com uma atuação avassaladora de Natalie Portman – merecidamente premiada com o Oscar de melhor atriz – e um clima opressivo que vai se tornando mais e mais desconfortável conforme a trama avança, “Cisne negro” já nasceu com o status de clássico moderno.
            
Diametralmente oposto ao cartesianismo de seu filme anterior – o drama “O lutador”, que deu a Mickey Rourke e Marisa Tomei indicações ao Oscar – Aronofsky não hesita em fazer de “Cisne negro” uma obra recheada de símbolos e imagens que brincam com o surrealismo, sugerindo em cada sequência uma série de ideias que dialogam com precisão com seu principal tema: a dualidade da alma humana. Como uma espécie de Dr. Jekyll e Mr. Hyde – personagens do famoso livro de Robert Louis Stevenson – a protagonista do filme vê travar-se, dentro de sua mente, uma batalha impiedosa por sua sanidade psicológica, uma luta inclemente que não poupa vítimas e se desvia frequentemente para os recônditos mais obscuros do inconsciente. Mas, como cineasta formado em Hollywood, Aronofsky – que também deixou crítica e público de queixo caído com a falta de piedade que demonstrou com seus personagens no inesquecível “Réquiem para um sonho” – não criou um tratado psiquiátrico ou uma obra hermética e/ou pedante. Antes de mais nada – antes até mesmo das várias leituras psicológicas que a narrativa permite ao espectador – “Cisne negro” é um filme. Um grande filme. Contado com maestria e com a energia de um cineasta ainda jovem e munido de um arsenal de ideias que faz de cada cena um espetáculo à parte para os fãs de cinema.


A trama, a princípio, é simples e quase dèja vu. O diretor de uma companhia de balé, Thomas Leroy (Vincent Cassel, excelente) resolve aposentar a estrela do grupo, Beth (a sumida Winona Ryder) e escalar uma nova bailarina para protagonizar sua versão moderna do aclamado “O lago dos cisnes”. A jovem e dedicada Nina Sayer (Natalie Portman em papel que herdou de Rachel Weisz e Jennifer Connelly) vê, com isso, a melhor chance de sua carreira. Sua obsessão com a perfeição, porém, não é o bastante para Thomas, que diz a ela, sem rodeios, que lhe falta a ousadia necessária para que possa interpretar o lado obscuro da protagonista da história, o tal Cisne Negro que, no enredo do balé, rouba o príncipe pelo qual sua irmã gêmea e romântica é apaixonada. Desafiada pelo diretor a buscar dentro de si esse lado desconhecido de sua personalidade, Nina – que dorme em um quarto cor-de-rosa decorado com ursinhos de pelúcia e que deixa que sua mãe, a bailarina aposentada (Barbara Hershey) cuide dela como se fosse uma criança – passa a espelhar-se no comportamento livre e descontraído de uma colega, a bela Lily (Mila Kunis). Não demora para que inicie uma jornada perigosa e sem retorno para os desvãos de seus desejos mais recalcados.
           
 Decorando todos os cenários com espelhos que refletem a dualidade de seu jogo de aparências, o cineasta conta com a ajuda da fotografia quase expressionista de Matthew Libatique, que acompanha cada detalhe da jornada de Nina rumo à loucura como uma testemunha onipresente e onisciente, embaralhando diante do espectador as cartas de um roteiro que não tem medo de explorar todas as nuances de sua história, seja no nível físico quanto mental. As metáforas visuais criadas por Aronofsky – conforme Nina vai perdendo seus pudores e deixando de lado as convenções que lhe aprisionavam o público vai percebendo uma transformação física que chega ao ápice no arrepiante clímax do filme – são cortesia de efeitos visuais discretos mas extremamente eficientes, que substituem a grandiosidade pelo minimalismo e que não chamam a atenção mais do que a história em si. E é difícil não deixar-se envolver com o clima de crescente tensão que antecede o desfecho embalado pela consagrada música de Tchaikovsky utilizada durante toda a narrativa – uma cena tão brilhante que deixam mais do que óbvias as razões pelas quais Portman levou seu Oscar.
            
Transformando-se radicalmente da moça tímida e quase infantil das primeiras cenas em um furacão de sensualidade e fúria nos momentos finais, Portman – que estreou no cinema já causando furor com a vingativa ninfeta que interpretou em “O profissional”, de 1994 – transforma o pesadelo em forma de filme criado por Aronofsky em uma experiência única. Sem medo de entregar-se de corpo e alma a uma personagem de extrema complexidade física e psicológica, ela deita e rola na brincadeira quase metalinguística do diretor (afinal a trama do balé de certa forma reflete-se na trajetória da bailarina), dando uma dimensão trágica e poética a uma obra que, em mãos menos habilidosas, poderia virar facilmente mais um filme de terror com pretensões intelectuais jamais atingidas. Equilibrando-se com sensibilidade entre um paralisante drama psicológico e um brilhante filme de suspense, “Cisne negro” é uma obra-prima indiscutível. E pensar que perdeu o Oscar para aquele soporífero brega e previsível chamado “O discurso do rei”...

OS AGENTES DO DESTINO

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