ASSASSINATO NO EXPRESSO ORIENTE (Murder on the Orient Express, 1974, Paramount Pictures, 128min) Direção: Sidney Lumet. Roteiro: Paul Dehn, romance de Agatha Christie. Fotografia: Geoffrey Unsworth. Montagem: Anne V. Coates. Música: Richard Rodney Bennett. Figurino: Tony Walton. Direção de arte/cenários: Tony Walton/Jack Stephens. Produção: John Brabourne, Richard Goodwin. Elenco: Albert Finney, Lauren Bacall, Martin Balsam, Ingrid Bergman, Sean Connery, Jacqueline Bissett, Jean-Pierre Cassel, John Gielgud, Wendy Hiller, Anthony Perkins, Vanessa Redgrave, Rachel Roberts, Richard Widmark, Michael York. Estreia: 21/11/74
6 indicações ao Oscar: Ator (Albert Finney), Atriz Coadjuvante (Ingrid Bergman), Roteiro Adaptado, Fotografia, Figurino, Trilha Sonora Original (Drama)
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Ingrid Bergman)
Não é sem motivos que a inglesa Agatha Christie é considerada a "rainha do crime": a autora policial mais lida e vendida de todos os tempos tem em seu currículo no mínimo uma meia-dúzia de obras-primas, que sobrevivem ao tempo como perfeitos exemplos de tramas bem construídas, personagens psicologicamente críveis e resoluções intrincadas e criativas. De todas as suas histórias, é bastante provável que a melhor e mais genial seja a criada para "Assassinato no Expresso Oriente", lançado em 1934 e ainda hoje capaz de surpreender até mesmo ao mais atento e experiente leitor. Quarenta anos depois de chegar às prateleiras das livrarias, sob a direção do elogiado Sidney Lumet - já então com uma indicação ao Oscar, por "12 homens e uma sentença" (57) - e com um elenco internacional liderado por Albert Finney na pele do indefectível detetive belga Hercule Poirot, a história de um brutal assassinato cometido em um dos meios de transporte mais famosos do mundo alcançou também as telas de cinema... e agradou não apenas a crítica e a Academia de Hollywood (que lhe deu seis indicações ao Oscar e uma estatueta), mas também à mais impiedosa espectadora: a própria autora do romance.
Feliz com a interpretação de Albert Finney (então com apenas 37 anos de idade e se utilizando de uma pesada maquiagem para personificar um dos detetives mais famosos da literatura policial), Agatha Christie não poupou elogios ao filme, que estreou pouco mais de um ano antes de sua morte, em janeiro de 1976. Mesmo que tenha ficado bastante satisfeita com a adaptação de Billy Wilder para sua peça teatral "Testemunha de acusação", em 1957, a escritora não escondia de ninguém que considerava o filme de Lumet o mais fiel à sua obra até então - um elogio e tanto que reflete o cuidado da produção em recriar não apenas a ambientação charmosa e realista do cenário principal mas também o clima de suspense que perpassa todas as páginas do livro. Ainda que o roteiro indicado ao Oscar não consiga evitar a armadilha comum de atropelar os acontecimentos e apressar o desfecho - tudo soa muito rápido, ao contrário do livro, que dá tempo ao leitor de administrar cada pista e evidência que vai sendo oferecida - é inegável que a elegância que Lumet imprime à narrativa torna o espetáculo um entretenimento de primeira, avalizado por um elenco estelar que se dá ao luxo de ter como coadjuvantes nomes como Sean Connery, Jacqueline Bissett, Anthony Perkins, John Gielgud e Ingrid Bergman (que acabou faturando um inesperado Oscar da categoria, batendo a então favorita Valentina Cortese, do aclamado "A noite americana", de François Truffaut).
Enquanto o romance de Agatha Christie já começa em plena ação, com a chegada dos passageiros ao trem que dá nome à história - partindo de Istambul, na Turquia - o filme de Lumet já ilumina, sutilmente, através de uma introdução silenciosa nos créditos de abertura, os atos que levarão, alguns anos mais tarde, ao crime que impulsiona a narrativa. Se de certa forma tal opção tira parte do suspense (por que mataram esse desconhecido dentro do trem?), ela ajuda de forma inteligente a expor, sem longos e didáticos discursos, o motivo do homicídio. A partir daí, resta apresentar a fauna de personagens exóticos criados por Christie e interpretados por atores de primeira linha - em uma constelação tão fascinante que disfarça até mesmo o pouco espaço dado a cada um deles em cena. Finney é quem tem mais sorte, com um Hercule Poirot um tanto caricato mas perfeitamente adequado às caracterizações comandadas por Lumet. Indicado ao Oscar de melhor ator, ele perdeu a estatueta para Art Carney ("Harry, o amigo de Tonto"), mas é o maestro de uma orquestra impecável, conduzida sem sobressaltos e/ou maiores destaques justamente por sua natureza coletiva.
A trama se passa em dezembro de 1935, durante uma viagem estranhamente lotada no Expresso Oriente: em uma parada devido a uma nevasca, um dos passageiros é assassinado com uma série de punhaladas, enquanto dormia. Assumindo a investigação antes que o trem prossiga seu curso, o famoso e excêntrico Hercule Poirot logo descobre que a vítima, de nome Ratchett (Richard Widmark), na verdade se escondia sob falsa identidade, por ser o responsável pelo sequestro e assassinato de uma criança alguns anos antes - fato que acarretou uma série de outras tragédias na família e tornou-se manchete internacional. Certo de que sua morte é resultado do crime cometido no passado, Poirot tenta encontrar, dentre seus companheiros de viagem, quem poderia ter ligações com o caso - e se depara com inúmeras surpresas, que o levam a questionar sua própria noção de justiça. Por mais inocentes que pareçam, todos os passageiros são suspeitos, desde a idosa Princesa Dragomiroff (Wendy Hiller) até a religiosa Greta (Ingrid Bergman) - passando pela bela Condessa Andrenyi (Jacqueline Bissett) e seu marido (Michael York) e o respeitável Coronel Arbuthnot (Sean Connery), que esconde uma ligação com a jovem Mary Debenham (Vanessa Redgrave).
Valorizado principalmente pelo elenco e pela produção caprichada, "Assassinato no Expresso Oriente" não chega aos pés do livro que o originou - uma obra-prima policial cujo desenvolvimento prende o leitor até a página final com uma sucessão de reviravoltas inteligentes e verossímeis. Porém, é, ao mesmo tempo, uma adaptação que se mantém fiel a seu espírito elegante e sutil, que ameniza a violência física necessária a uma história do gênero com toques de um fino humor e a destreza de uma especialista em surpreender e cativar seu público. Se não é mais empolgante é justamente porque o roteiro lhe tirou algumas das maiores qualidades - o desenrolar gradual da investigação é apressado até o discurso final que não chega a ser tão emocionante quanto poderia - e não explora com a devida força as incoerências e mistérios dos personagens. É uma boa adaptação, mas longe de ser a obra-prima que poderia (e deveria) ser.
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segunda-feira
MARNIE - CONFISSÕES DE UMA LADRA
MARNIE: CONFISSÕES DE UMA LADRA (Marnie, 1964, Universal Pictures,
130min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Jay Presson Allen, romance
de Winston Graham. Fotografia: Robert Burks. Montagem: George Tomasini.
Música: Bernard Herrmann. Direção de arte/cenários: Robert F.
Boyle/George Milo. Produção: Alfred Hitchcock. Elenco: Tippi Hedren,
Sean Connery, Martin Gabel, Louise Latham, Diane Baker, Bruce Dern. Estreia: 09/7/64
Em 1962, uma das notícias mais quentes e surpreendentes que rolavam nos bastidores de Hollywood dizia respeito a uma possível volta de Grace Kelly às telas. Casada desde 1956 com o Príncipe Rainier III, do Condado de Mônaco, a bela e talentosa musa vencedora do Oscar por "Amar é sofrer" (54) estava em negociações com o cineasta Alfred Hitchcock - com quem havia realizado os inesquecíveis "Janela indiscreta" (54), "Disque M para matar" (54) e "Ladrão de casaca" (55) - para um retorno não definitivo, mas muito esperado pelo público, saudoso de uma das mais populares atrizes de sua época. Interessada no roteiro e disposta a dividir seu tempo entre as filmagens e suas responsabilidades como princesa, Kelly acabou desistindo da ideia, para tristeza dos fãs e alívio de todos que a cercavam no principado - que, como mostra o filme "Grace de Mônaco" (2014), de Olivier Dahan, passava por uma grave crise financeira e política e não via com bons olhos tal "excentricidade". É possível, também, que os conselheiros de Rainier não estivessem muito entusiasmados com a ideia de sua princesa voltar aos cinemas interpretando uma cleptomaníaca frígida e com traumas de infância bem pouco compatíveis com sua imagem pública. Era o fim de um sonho - e Kelly nunca mais faria nenhum outro filme.
A saída de Grace Kelly do elenco de "Marnie, confissões de uma ladra" não chegou a ser uma surpresa para Hitchcock, que, apesar de sua amizade com a atriz, sabia dos empecilhos que a impediam de aceitar seu convite. Com o papel principal sem dona, o cineasta começou, então, uma sofrida procura por alguém capaz de interpretar todas as nuances da personagem - e que aceitasse seus métodos algumas vezes heterodoxos de direção. Nomes como Eva Marie Saint - com quem ele havia trabalhado em "Intriga internacional" (59) - e Vera Miles - com quem o diretor mantinha uma relação de amor e ódio desde que ela havia engravidado pouco antes de começar a filmar "Um corpo que cai" (58) - foram levantados como hipóteses plausíveis, e até mesmo Marilyn Monroe foi cogitada, depois de ter demonstrado interesse no projeto. No final das contas, depois de estudar diversas possibilidades, Hitchcock acabou recorrendo à protagonista de seu filme anterior, "Os pássaros" (63) - e ofereceu à Tippi Hedren a maior personagem de sua carreira. Mesmo que pelo período de filmagens ela e o cineasta tenham se estranhado constantemente, o resultado final acabou por compensar qualquer problema: nunca a mãe de Melanie Griffith esteve tão bem em cena quanto nesse atípico drama de suspense, com conotações sexuais ousadas até mesmo para os liberais anos 60.
Baseado em um romance de Winston Graham - que declarou posteriormente que teria cedido da graça os direitos de sua obra à Hitchcock, dada a sua importância na história do cinema - "Marnie" começou a ser adaptado pelo mesmo Joseph Stefano que havia assinado "Psicose", um dos maiores sucessos de bilheteria do diretor. O roteiro de Stefano (com Grace Kelly em mente para a personagem-título) era mais próximo da obra original, mas acabou sendo deixado de lado quando a princesa deixou o projeto. Entre as alterações mais significativas do novo texto, sob o comando de Jay Presson Allen, estava a eliminação de um personagem crucial (um psiquiatra que ajudaria Marnie a enfrentar seus fantasmas do passado) e um segundo pretendente ao coração da protagonista, transformado, no filme, na cunhada de Mark (Sean Connery), a dedicada Lil (papel que foi cobiçado por Jane Fonda mas que acabou nas mãos de Diane Baker). Tendendo muito mais para o drama psicológico do que para o suspense, o roteiro final de "Marnie, confissões de uma ladra" acabou oferecendo à Hedren a chance de mostrar outra faceta de seu talento - e de comprovar Hitchcock como um cineasta capaz de buscar elementos de gêneros diversos para mesclar a seu universo particular.
O filme conta a complexa e estranha história de amor entre Marnie Edgar (Tippi Hedren), uma cleptomaníaca com sérios problemas de relacionamento com mãe, Bernice (Louise Latham), e o milionário Mark Rutland (Sean Connery já tentando ser mais do que James Bond, em papel cogitado para Paul Newman, Marlon Brando e Peter O'Toole). Sabendo dos problemas de Marnie, Mark se casa com ela ao invés de denunciá-la, mas descobre, na lua-de-mel, que roubar é o menor dos males da jovem esposa: acontecimentos traumáticos em seu passado a levam a recusar qualquer tipo de toque, além de ter ataques histéricos sempre que vê a cor vermelha. Disposto a ajudá-la a superar seus dramas, Mark lhe propõe repor tudo que ela roubou, desde que ela aceite ser analisada. Equilibrando cenas de puro suspense - um roubo de Marnie quase sendo descoberto por uma faxineira, por exemplo - com momentos que traem a tendência da época em utilizar-se da psicanálise como instrumento narrativo, Hitchcock abandona sua zona de conforto ao criar um protagonista masculino de índole dúbia - Mark praticamente estupra Marnie na lua-de-mel - e uma heroína tragicamente presa a um passado violento e brutal. Ao oferecer ao casal uma chance de redenção, o cineasta mostra que, no fundo, por trás de seu quase cinismo, ainda existia um romântico. A seu modo tortuoso, "Marnie, confissões de uma ladra" é, no fim das contas, um romance torturado e angustiante como somente Hitch conseguiria realizar.
Em 1962, uma das notícias mais quentes e surpreendentes que rolavam nos bastidores de Hollywood dizia respeito a uma possível volta de Grace Kelly às telas. Casada desde 1956 com o Príncipe Rainier III, do Condado de Mônaco, a bela e talentosa musa vencedora do Oscar por "Amar é sofrer" (54) estava em negociações com o cineasta Alfred Hitchcock - com quem havia realizado os inesquecíveis "Janela indiscreta" (54), "Disque M para matar" (54) e "Ladrão de casaca" (55) - para um retorno não definitivo, mas muito esperado pelo público, saudoso de uma das mais populares atrizes de sua época. Interessada no roteiro e disposta a dividir seu tempo entre as filmagens e suas responsabilidades como princesa, Kelly acabou desistindo da ideia, para tristeza dos fãs e alívio de todos que a cercavam no principado - que, como mostra o filme "Grace de Mônaco" (2014), de Olivier Dahan, passava por uma grave crise financeira e política e não via com bons olhos tal "excentricidade". É possível, também, que os conselheiros de Rainier não estivessem muito entusiasmados com a ideia de sua princesa voltar aos cinemas interpretando uma cleptomaníaca frígida e com traumas de infância bem pouco compatíveis com sua imagem pública. Era o fim de um sonho - e Kelly nunca mais faria nenhum outro filme.
A saída de Grace Kelly do elenco de "Marnie, confissões de uma ladra" não chegou a ser uma surpresa para Hitchcock, que, apesar de sua amizade com a atriz, sabia dos empecilhos que a impediam de aceitar seu convite. Com o papel principal sem dona, o cineasta começou, então, uma sofrida procura por alguém capaz de interpretar todas as nuances da personagem - e que aceitasse seus métodos algumas vezes heterodoxos de direção. Nomes como Eva Marie Saint - com quem ele havia trabalhado em "Intriga internacional" (59) - e Vera Miles - com quem o diretor mantinha uma relação de amor e ódio desde que ela havia engravidado pouco antes de começar a filmar "Um corpo que cai" (58) - foram levantados como hipóteses plausíveis, e até mesmo Marilyn Monroe foi cogitada, depois de ter demonstrado interesse no projeto. No final das contas, depois de estudar diversas possibilidades, Hitchcock acabou recorrendo à protagonista de seu filme anterior, "Os pássaros" (63) - e ofereceu à Tippi Hedren a maior personagem de sua carreira. Mesmo que pelo período de filmagens ela e o cineasta tenham se estranhado constantemente, o resultado final acabou por compensar qualquer problema: nunca a mãe de Melanie Griffith esteve tão bem em cena quanto nesse atípico drama de suspense, com conotações sexuais ousadas até mesmo para os liberais anos 60.
Baseado em um romance de Winston Graham - que declarou posteriormente que teria cedido da graça os direitos de sua obra à Hitchcock, dada a sua importância na história do cinema - "Marnie" começou a ser adaptado pelo mesmo Joseph Stefano que havia assinado "Psicose", um dos maiores sucessos de bilheteria do diretor. O roteiro de Stefano (com Grace Kelly em mente para a personagem-título) era mais próximo da obra original, mas acabou sendo deixado de lado quando a princesa deixou o projeto. Entre as alterações mais significativas do novo texto, sob o comando de Jay Presson Allen, estava a eliminação de um personagem crucial (um psiquiatra que ajudaria Marnie a enfrentar seus fantasmas do passado) e um segundo pretendente ao coração da protagonista, transformado, no filme, na cunhada de Mark (Sean Connery), a dedicada Lil (papel que foi cobiçado por Jane Fonda mas que acabou nas mãos de Diane Baker). Tendendo muito mais para o drama psicológico do que para o suspense, o roteiro final de "Marnie, confissões de uma ladra" acabou oferecendo à Hedren a chance de mostrar outra faceta de seu talento - e de comprovar Hitchcock como um cineasta capaz de buscar elementos de gêneros diversos para mesclar a seu universo particular.
O filme conta a complexa e estranha história de amor entre Marnie Edgar (Tippi Hedren), uma cleptomaníaca com sérios problemas de relacionamento com mãe, Bernice (Louise Latham), e o milionário Mark Rutland (Sean Connery já tentando ser mais do que James Bond, em papel cogitado para Paul Newman, Marlon Brando e Peter O'Toole). Sabendo dos problemas de Marnie, Mark se casa com ela ao invés de denunciá-la, mas descobre, na lua-de-mel, que roubar é o menor dos males da jovem esposa: acontecimentos traumáticos em seu passado a levam a recusar qualquer tipo de toque, além de ter ataques histéricos sempre que vê a cor vermelha. Disposto a ajudá-la a superar seus dramas, Mark lhe propõe repor tudo que ela roubou, desde que ela aceite ser analisada. Equilibrando cenas de puro suspense - um roubo de Marnie quase sendo descoberto por uma faxineira, por exemplo - com momentos que traem a tendência da época em utilizar-se da psicanálise como instrumento narrativo, Hitchcock abandona sua zona de conforto ao criar um protagonista masculino de índole dúbia - Mark praticamente estupra Marnie na lua-de-mel - e uma heroína tragicamente presa a um passado violento e brutal. Ao oferecer ao casal uma chance de redenção, o cineasta mostra que, no fundo, por trás de seu quase cinismo, ainda existia um romântico. A seu modo tortuoso, "Marnie, confissões de uma ladra" é, no fim das contas, um romance torturado e angustiante como somente Hitch conseguiria realizar.
quarta-feira
CORAÇÕES APAIXONADOS
CORAÇÕES APAIXONADOS (Playing by heart, 1998, Miramax Films, 121min) Direção e roteiro: Willard Carroll. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Pietro Scalia. Música: John Barry. Figurino: April Ferry. Direção de arte/cenários: Missy Stewart/Cindy Carr. Produção executiva: Guy East, Paul Feldsher, Nigel Sinclair, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Willard Carroll, Meg Liberman, Tom Wilhite. Elenco: Sean Connery, Gena Rowlands, Angelina Jolie, Ryan Philippe, Madeleine Stowe, Dennis Quaid, Gillian Anderson, Ellen Burstyn, Jay Mohr, Anthony Edwards, Jon Stewart, Patricia Clarkson. Estreia: 18/12/98
Filmes com várias estórias aparentemente independentes que se cruzam no final já fazem parte de quase um sub-gênero em Hollywood. De Robert Altman a Quentin Tarantino, vários diretores já se aventuraram, com resultados os mais variados, a assinar filmes assim. Por isso não deixa de ser surpreendente quando um exemplar do estilo consegue ultrapassar as expectativas e conquistar o espectador. Mesmo sendo escrito e dirigido pelo praticamente desconhecido Willard Carroll, o drama romântico "Corações apaixonados" é bom o suficiente para prender a atenção do público, contando para isso com uma equipe de causar inveja a qualquer veterano.
Por não ser exatamente um nome de peso, o cineasta cercou-se de um time de colaboradores de primeira linha. Do diretor de fotografia Vilmos Zsigmond (Oscar por "Contatos imediatos de terceiro grau") ao editor Pietro Scalia (Oscar por "JFK" e "Falcão negro em perigo"), passando pelo maestro John Barry e os experientes atores Sean Connery, Ellen Burstyn e Gena Rowlands, os créditos do filme são um desfile dos mais talentosos profissionais da sétima arte. No entanto, nada disso adiantaria se Carroll não tivesse em mãos um belo trunfo: o roteiro esperto e ágil. Inteligentemente, ele não criou um petardo emocional como "Magnólia" ou um besteirol ralo como "Pret-a-porter": dosando muito bem elementos comoventes com cenas de uma graça sincera e leve, o diretor conseguiu um equilíbrio raro, fazendo com que todas as estórias que conta sejam dignas de interesse, mesmo porque o elenco estava em dias inspirados.

Os veteranos Sean Connery e Gena Rowlands vivem Hannah e Paul, um casal que, às vésperas de completar 40 anos de casamento, se envolvem em uma crise quando a esposa, apresentadora de um programa de TV nos moldes de Ana Maria Braga descobre a foto de uma antiga paixão do marido. A química entre os atores é orgânica, e o texto é divertido e caloroso (poucas vezes se viu o James Bond mais famoso das telas tão à vontade). Angelina Jolie (pré-Oscar, pré-Brad Pitt e pré-símbolo sexual absoluto) e Ryan Philippe são Joan e Keenan, dois jovens que se conhecem em uma danceteria e passam a viver um romance titubeante graças à resistência do rapaz, oriunda de um traumatizante relacionamento anterior. Jolie é pura alegria de viver e carisma, em um papel feito sob medida, e Philippe se sai relativamente bem, sem precisar explorar o corpo, como fez em "Studio 54".
Madeleine Stowe e Anthony Edwards (da série "Plantão Médico") são os amantes Gracie e Roger, cuja relação nunca sai dos quartos de hotel, apesar dos apelos dele (talvez seja a trama menos interessante, ainda que revele uma pequena surpresa nas cenas finais). Gillian Anderson (da série "Arquivo X") interpreta a diretora de teatro Meredith, que tenta afastar o pretendente Trent (Jon Stewart) por medo de sofrer (e Anderson tem um insuspeito timing cômico). Dennis Quaid é Hugh, aparentemente um mentiroso contumaz que tenta seduzir mulheres em bares contando as mais absurdas histórias de tristeza (e o então marido de Meg Ryan deita e rola no papel, demonstrando um talento que viria a crescer ainda mais nos anos seguintes). E finalmente Ellen Burstyn é Mildred, uma mulher que acompanha os últimos momentos do filho Mark (Jay Mohr), vítima da AIDS. É a história mais triste do filme, mas contada com delicadeza e com a excelência de Burstyn.
Tentar adivinhar como essas estórias irão se cruzar é apenas um dos prazeres que se tem ao assistir a “Corações apaixonados”. Engraçado, comovente, romântico, é uma pequena pérola em meio às explosões e tiroteios que povoam as telas de cinema. Para ser descoberto!
Filmes com várias estórias aparentemente independentes que se cruzam no final já fazem parte de quase um sub-gênero em Hollywood. De Robert Altman a Quentin Tarantino, vários diretores já se aventuraram, com resultados os mais variados, a assinar filmes assim. Por isso não deixa de ser surpreendente quando um exemplar do estilo consegue ultrapassar as expectativas e conquistar o espectador. Mesmo sendo escrito e dirigido pelo praticamente desconhecido Willard Carroll, o drama romântico "Corações apaixonados" é bom o suficiente para prender a atenção do público, contando para isso com uma equipe de causar inveja a qualquer veterano.
Por não ser exatamente um nome de peso, o cineasta cercou-se de um time de colaboradores de primeira linha. Do diretor de fotografia Vilmos Zsigmond (Oscar por "Contatos imediatos de terceiro grau") ao editor Pietro Scalia (Oscar por "JFK" e "Falcão negro em perigo"), passando pelo maestro John Barry e os experientes atores Sean Connery, Ellen Burstyn e Gena Rowlands, os créditos do filme são um desfile dos mais talentosos profissionais da sétima arte. No entanto, nada disso adiantaria se Carroll não tivesse em mãos um belo trunfo: o roteiro esperto e ágil. Inteligentemente, ele não criou um petardo emocional como "Magnólia" ou um besteirol ralo como "Pret-a-porter": dosando muito bem elementos comoventes com cenas de uma graça sincera e leve, o diretor conseguiu um equilíbrio raro, fazendo com que todas as estórias que conta sejam dignas de interesse, mesmo porque o elenco estava em dias inspirados.
Os veteranos Sean Connery e Gena Rowlands vivem Hannah e Paul, um casal que, às vésperas de completar 40 anos de casamento, se envolvem em uma crise quando a esposa, apresentadora de um programa de TV nos moldes de Ana Maria Braga descobre a foto de uma antiga paixão do marido. A química entre os atores é orgânica, e o texto é divertido e caloroso (poucas vezes se viu o James Bond mais famoso das telas tão à vontade). Angelina Jolie (pré-Oscar, pré-Brad Pitt e pré-símbolo sexual absoluto) e Ryan Philippe são Joan e Keenan, dois jovens que se conhecem em uma danceteria e passam a viver um romance titubeante graças à resistência do rapaz, oriunda de um traumatizante relacionamento anterior. Jolie é pura alegria de viver e carisma, em um papel feito sob medida, e Philippe se sai relativamente bem, sem precisar explorar o corpo, como fez em "Studio 54".
Madeleine Stowe e Anthony Edwards (da série "Plantão Médico") são os amantes Gracie e Roger, cuja relação nunca sai dos quartos de hotel, apesar dos apelos dele (talvez seja a trama menos interessante, ainda que revele uma pequena surpresa nas cenas finais). Gillian Anderson (da série "Arquivo X") interpreta a diretora de teatro Meredith, que tenta afastar o pretendente Trent (Jon Stewart) por medo de sofrer (e Anderson tem um insuspeito timing cômico). Dennis Quaid é Hugh, aparentemente um mentiroso contumaz que tenta seduzir mulheres em bares contando as mais absurdas histórias de tristeza (e o então marido de Meg Ryan deita e rola no papel, demonstrando um talento que viria a crescer ainda mais nos anos seguintes). E finalmente Ellen Burstyn é Mildred, uma mulher que acompanha os últimos momentos do filho Mark (Jay Mohr), vítima da AIDS. É a história mais triste do filme, mas contada com delicadeza e com a excelência de Burstyn.
Tentar adivinhar como essas estórias irão se cruzar é apenas um dos prazeres que se tem ao assistir a “Corações apaixonados”. Engraçado, comovente, romântico, é uma pequena pérola em meio às explosões e tiroteios que povoam as telas de cinema. Para ser descoberto!
sábado
INDIANA JONES E A ÚLTIMA CRUZADA
3 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Som, Efeitos Sonoros
Vencedor do Oscar de Efeitos Sonoros
Um dos maiores problemas encontrados por Hollywood quando se trata de realizar continuações de seus maiores sucessos de bilheteria chama-se criatividade. Dificilmente sequências de filmes bem-sucedidos encontram equilíbrio entre crítica e público, afundando em auto-referências e o pior de tudo, preguiça. Felizmente Steven Spielberg pode ser considerado tudo, menos sem criatividade e preguiçoso. Talvez por isso "Indiana Jones e a última cruzada", terceiro capítulo da saga do mais famoso arqueólogo do cinema tenha conseguido o feito de agradar a gregos e troianos - diferentemente da segunda parte, que foi considerada violenta demais para o público infanto-juvenil. Desta vez, Spíelberg não errou a mão em nada: a receita tem muita ação, bom humor, um pouco de romance e o melhor de tudo, duas novidades empolgantes no elenco.
Rejeitando a regra que diz que não se mexe em time que está ganhando, o diretor acrescentou à vitoriosa fórmula dos filmes anteriores duas aquisições de gerações diferentes, visando atingir todas as faixas de público: o veterano Sean Connery e o jovem River Phoenix juntam-se a Harrison Ford, Denholm Elliot e John Rhys-Davies em duas horas de um entretenimento saudável, divertido e que não deve absolutamente nada a seus predecessores. "Indiana Jones e a última cruzada" é uma digna exceção à regra que dita que continuações são sempre sofríveis.
A trama de "A última cruzada" se passa três anos depois das aventuras do primeiro filme. O nazismo ainda é uma ameaça à paz mundial e Indiana Jones recebe a missão de encontrar mais um artefato religioso que pode conceder poderes sobrenaturais. Enquanto no primeiro capítulo ele corria atrás da Arca Perdida que continha os Dez Mandamentos, desta vez ele precisa localizar o Cálice Sagrado utilizado por Cristo na última ceia, objeto que, segundo a lenda, pode dar a imortalidade a seu dono. Intrigado com a possibilidade, logo ele se vê praticamente obrigado a embarcar na aventura, ao descobrir que seu pai, Henry Jones (vivido por Connery) desapareceu em vias de saber a exata localização do ambicionado cálice.
Assim como nas aventuras anteriores de Indiana Jones, o público é brindado com um filme que, a despeito de suas sequências de ação ininterruptas, não descuida em momento algum do roteiro, repleto de diálogos saborosos e inteligentes. Ao eleger novamente como vilões os nazistas, Spielberg e cia mais uma vez acertam o alvo - o Mal como entidade não poderia ser melhor representado, afinal. Sem que muito sangue seja derramado - pelo menos em frente às câmeras - o Bem triunfa, como convém ao estilo escapista criado pelo cineasta em "Os caçadores da Arca Perdida" e meio esquecido em "O templo da perdição". Ao resgatar o espírito mais leve da primeira aventura de Jones, "A última cruzada" resgata também o bom-humor que lhe fazia falta. E para isso, a escalação de Sean Connery mostrou-se providencial.
Escalado até mesmo como forma de homenagem aos filmes de 007 que inspiraram a criação da personagem Indiana Jones, Connery rouba as cenas em que aparece, como um pai jovial, conquistador e tão dado a aventuras quanto o filho. O fato dos dois dividirem a atenção da mesma mulher (interpretada por Alisson Doody) é sintomático. Aqui, Indiana Jones não é o centro das atenções: ele divide tudo com seu progenitor.
E é impossível negar também o excelente prólogo criado para explicar alguns detalhes da biografia do protagonista. Na pele de River Phoenix, Jones aos 16 anos sofre o acidente que lhe deixa a cicatriz no queixo, encontra pela primeira vez seu famoso chicote e passa a sofrer de seu conhecido terror de cobras. Como uma espécie de preparação para a série de TV "O jovem Indiana Jones" (injusto fracasso), esses primeiros quinze minutos são a cereja de um bolo saboroso e que deixa um gostinho de quero mais - infelizmente esse mais viria somente quase vinte anos depois...
sexta-feira
OS INTOCÁVEIS

OS INTOCÁVEIS (The untouchables, 1987, Paramount Pictures, 119min) Direção: Brian De Palma. Roteiro: David Mamet, inspirado em livro de Oscar Fraley, Eliot Ness. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Jerry Greenberg, Bill Pankow. Música: Ennio Morricone. Figurino: Marilyn Vance-Straker. Direção de arte/cenários: William A. Elliott/Hal Gausman. Casting: Mali Finn. Produção: Art Linson. Elenco: Kevin Costner, Robert DeNiro, Sean Connery, Andy Garcia, Charles Martin Smith, Billy Drago, Patricia Clarkson, Richard Bradford. Estreia: 03/6/87
4 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Sean Connery), Trilha Sonora, Figurino, Direção de arte/cenários
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Sean Connery)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Sean Connery)
Quatro anos depois do violento “Scarface”, Brian de Palma voltou a lidar com o tema do gangsterismo, dessa vez contando uma história mezzo verdadeira mezzo ficção. Baseado na extinta série de TV dos anos 60, “Os intocáveis” é diversão de primeira grandeza e ainda provou uma expressiva maturidade de seu diretor.
Sem deixar muito espaço para tramas paralelas, o que enfraqueceu “Scarface”, o roteiro do dramaturgo David Mamet parte logo pro assunto, mostrando a que veio: na Chicago dos anos 20, em pleno vigor da Lei Seca, o chefão do crime organizado, Al Capone (em mais uma caracterização impecável de Robert De Niro) manda e desmanda na cidade, utilizando de violência sempre que lhe é conveniente. Para tentar acabar com seus desmandos, surge Eliott Ness (um Kevin Costner jovial e promissor), que, como bom chefe de família incorruptível e honesto, resolve formar uma brigada em prol de sua prisão. Para isso une-se ao veterano policial Jim Malone (Sean Connery), o ambicioso George Stone(Andy Garcia) e o contador Oscar Wallace (Charles Martin Smith), que é quem tem a ideia mais eficaz contra o criminoso: processá-lo por sonegação do imposto de renda.
A luta travada entre Capone – capaz de comprar um corpo de jurados inteiro – e Ness e seus asseclas, os “intocáveis” do título faz do filme de De Palma o que ele é: um impactante e empolgante filme de gângster, com lados bem divididos e claros, com mocinhos de um lado e bandidos de outro. Com uma edição enxuta e ágil e uma reconstituição de época brilhante, além de uma das mais marcantes trilhas sonoras de Enio Morricone, “Os intocáveis” consegue o que parecia impossível: superar sua origem, desatacando seu quase maniqueísmo e louvando-o como uma qualidade. Em tempos cínicos nada como um pouco de nostalgia, é o que parece gritar cada fotograma de Stephen H. Burum. Sequências de uma beleza plástica inegáveis caminham lado a lado com uma violência muitas vezes inesperadas.
E nostalgia é o que não falta a “Os intocáveis”, uma vez que De Palma consegue arrumar espaço inclusive para uma bela e justa homenagem a uma das seqüências mais memoráveis da história do cinema. Praticamente copiando quadro a quadro a cena da escadaria de Odessa do alemão “Outubro”, de Serguei Eisenstein, o cineasta criou um dos mais tensos e exemplares momentos do cinema de ação dos últimos anos, que deixa a platéia com a respiração suspensa por alguns dos minutos mais recompensadores das suas duas horas de projeção.
E se Kevin Costner é o herói e Robert De Niro o vilão não pode-se deixar de notar o elenco coadjuvante. O cubano Andy Garcia parece sempre prestes a roubar as cenas de que participa e o baixinho Charles Martin Smith dá o tom cômico sem exageros. Mas foi Sean Connery, o eterno James Bond quem mais chamou a atenção da crítica. Deixando para trás a maldição de um único papel, ele chegou a levar o Oscar de coadjuvante por seu trabalho em um papel feito sob medida: na pele do policial irlandês Malone, Connery injeta humanidade e experiência a um projeto elegante e adulto. Um filme como poucos!
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