Mostrando postagens com marcador CHARLOTTE GAINSBOURG. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador CHARLOTTE GAINSBOURG. Mostrar todas as postagens

quarta-feira

SAMBA

SAMBA (Samba, 2014, Quad Productions/Ten Films/Gaumont, 118min) Direção: Olivier Nakache, Eric Toledano. Roteiro: Olivier Nakache, Eric Toledano, colaboração de Delphine Coulin, Muriel Coulin, romance de Delphine Coulin. Fotografia: Stéphane Fontaine. Montagem: Dorian Rigal-Ansous. Música: Ludovico Eunadi. Figurino: Isabelle Pannetier. Direção de arte: Nicolas de Boiscuillé. Produção: Nicolas Duval-Adassovksy, Laurent Zeitoun, Yann Zenou. Elenco: Omar Sy, Charlotte Gainsbourg, Tahar Rahim, Izia Higelin, Isaka Sawadogo. Estreia: 07/9/14 (Festival de Toronto) 

Em 2011, a dupla de cineastas Olivier Nakache e Eric Toledano emplacou um dos maiores sucessos da história do cinema francês, a comédia dramática "Intocáveis", que levou multidões às salas de exibição com sua mistura certeira entre o lírico e o popular. Além de contar com a presença do ótimo François Cluzet em um dos papéis centrais, o filme também revelou ao grande público o carisma de seu colega de cena, o ator Omar Sy - que chamou a atenção com sua energia e seu talento até então relegado a produções menores e sem o mesmo efeito comercial. Como não se mexe em time que está ganhando, o trabalho seguinte de Nakache e Toledano repetiu a parceria com Sy em mais um filme que equilibra humor e lágrimas - acrescentando à receita uma crítica social e um retrato o mais realista possível (dentro de uma ficção que se pretende rentável) de uma das chagas mais doloridas do atual momento político da Europa: a imigração ilegal. Baseado em um romance de Delphine Coulin, "Samba" estreou no Festival de Toronto de 2014 e, se não repetiu o impressionante êxito de "Intocáveis", ao mesmo conseguiu manter o frescor que caracteriza a obra dos diretores. Com um elenco que ainda inclui os talentosíssimos Charlotte Gainsbourg (musa de Lars Von Trier) e Tahar Rahim (o ótimo protagonista de "O profeta"), "Samba" cativa facilmente a plateia - ainda que não a encante tanto como se poderia esperar.

O personagem principal do filme é o senegalês Samba Cissé (Omar Sy), que mora ilegalmente na França há dez anos e é preso pela Imigração, ameaçado de ser deportado - especialmente por não ter no país uma família além de um tio idoso. Quem vai ajudar-lhe a solicitar um visto permanente é a inexperiente Alice (Charlotte Gainsbourg), que acaba de passar por uma séria crise nervosa no trabalho e resolveu dedicar-se ao serviço social enquanto se recupera do trauma. Alertada pela colega Manu (Izia Higelin) a não envolver-se demais nos problemas das pessoas a quem atende, Alice não consegue deixar de ficar impressionada com a simpatia e o otimismo de Samba - e, correspondida, começa com ele uma relação hesitante e nunca devidamente declarada. Enquanto isso, o rapaz usa de toda a sua experiência em ser invisível diante das autoridades para manter-se no país - assim como seu companheiro de desventuras, o brasileiro Wilson (Tahar Rahim).


Sem pesar a mão nos estereótipos raciais ou no humor politicamente incorreto, o roteiro de "Samba" passeia tranquilo pelo drama que acompanha a trajetória dos imigrantes - preferindo ater-se àqueles íntegros e trabalhadores, para não desviar o foco do protagonista - e pelo humor que faz parte da rotina de Samba e Wilson (e para que os brasileiros não reclamem da forma óbvia com que são retratados, existe uma surpresa mais além na história que explica certos comportamentos do personagem). Interpretado por outro ator de grande carisma, Tahar Rahim, Wilson é responsável pelos momentos mais leves do filme, que felizmente evita pesar a mão nas tragédias mesmo quando parece que este é o único caminho viável para o desfecho. Além disso, a história de amor que se desenha entre Samba e Alice escapa com criatividade do clichê, trilhando um caminho bem mais interessante do que se poderia supor a princípio - especialmente porque existe também uma outra mulher, que será capaz de alterar todos os planos anteriormente feitos pela dupla.

Com uma trilha sonora que inclui várias canções brasileiras - Jorge Benjor em especial - e uma trama que consegue o feito raro de tratar de um assunto pesado sem tornar-se excessivamente dramática ou pessimista, "Samba" mostra que a dupla Eric Toledano e Olivier Nakache ainda tem muito a oferecer ao cinema francês e mundial. Já Omar Sy não precisa se preocupar em conquistar a plateia: já estreou em Hollywood e fez parte do elenco dos blockbusters "Jurassic World: mundo dos dinossauros" e "X-Men: dias de um futuro esquecido", que o colocaram de vez no inconsciente coletivo dos fãs do cinemão mainstream. Nada mais justo.

quinta-feira

NINFOMANÍACA, VOLUME 2

NINFOMANÍACA: VOLUME 2 (Nymphomaniac: Vol. II, 2013, Zentropa Entertainment, 123min) Direção e roteiro: Lars Von Trier. Fotografia: Manuel Alberto Claro. Montagem: Molly Marlene Stensgaard. Direção de arte: Alexander Scherer. Produção executiva: Peter Garde, Peter Aalbaek Jensen. Produção: Marie Cecilie Gade, Peter Aalbaek Jensen, Louise Vesth. Elenco: Charlotte Gainsbourg, Stellan Skarsgard, Stacy Martin, Shia LaBeouf, Christian Slater, Jamie Bell, Willem Dafoe, Jean-Marc Barr, Udo Kier. Estreia: 25/12/13

Enquanto o primeiro capítulo do mais polêmico filme de Lars Von Trier tratava de apresentar Joe e sua infância e adolescência - origens de sua autodiagnosticada doença - "Ninfomaníaca, volume 2" se aprofunda ainda mais em sua busca inglória pelo Santo Graal do prazer a todo custo e nas consequências dramáticas de suas escolhas - nem sempre tomadas de forma totalmente racional. Sem mais dividir o papel de protagonista com Stacy Martin, a atriz Charlotte Gainsbourg mostra mais uma vez porque é uma das preferidas do cineasta, com uma performance intensa e corajosa. Finalizando com coerência e ainda mais controvérsia uma obra explosiva e que despertou discussões incansáveis ao redor do planeta, o segundo volume da história de Joe acrescenta ao já variado menu sexual da protagonista sadomasoquismo, lesbianismo, sexo grupal e, para seu desespero, até uma dose de anorgasmia (incapacidade de ter orgasmos). O resultado é uma narrativa que equilibra com sensibilidade uma série de sequências bastante quentes - interpretadas por dublês de corpo - e alguns momentos de partir o coração.

Começando exatamente de onde acabou a primeira parte - quando, casada e apaixonada, Joe se descobre incapaz de ter prazer com o marido, Jerôme (Shia LaBeouf), também pai de seu filho - o filme mostra o desespero da protagonista diante de uma encruzilhada que a obriga a tomar decisões cruéis e revoltantes como forma de sustentar seu estilo particular de vida, regado a sexo compulsivo e por vezes (ao menos na visão tradicional) degradante. Se dando até mesmo ao luxo da auto-citação - com uma sequência que lembra um dos momentos mais fortes de seu "Anticristo" - Lars Von Trier conduz Joe e a plateia por um caminho sombrio e desprovido de glamour, onde o sexo surge não como uma forma de prazer absoluto, mas como uma espécie de inferno particular. Ao não conseguir fugir de sua "doença", Joe se afunda cada vez mais em situações de perigo - sexo a três com desconhecidos, encontros secretos com um jovem cujo fetiche é espancar mulheres e até mesmo um emprego como "cobradora informal" ao lado de criminosos violentos - como forma de expiar seus pecados (nem mesmo a ajuda de um grupo de apoio é capaz de livrá-la do que considera parte de seu ser). Mas, ao contrário do primeiro volume, dessa vez o cineasta deixa a trama perder o foco em algum lugar da estrada.


Mesmo sendo visualmente mais ousado do que o primeiro filme em termos de cenas de sexo e até mesmo em teorias polêmicas (em determinado ponto Joe defende os pedófilos que nunca ultrapassaram a linha do desejo e os classifica como heróis), "Ninfomaníaca, volume 2" perde parte de seu ritmo quando cria uma subtrama desnecessária e quase deslocada, que envolve Joe e um empresário (Willem Dafoe) que a contrata para cobrar dívidas de mau-pagadores. Ok, existe um motivo dramaticamente explicável para tal desvio quase surpreendente da narrativa (e que inclui mais uma história de amor frustrada da protagonista e que acaba por ser a responsável pela situação em que ela se encontra no começo do capítulo inicial), mas é inegável que, depois da avalanche de situações empolgantes/temerárias/controversas discutidas pelo filme, esse desvio de percurso compromete o ritmo do filme e quase o transforma em uma obra de narrativa convencional - impressão que seu final anti-climático (ainda que com uma certa dose de ironia) apenas ajuda a reforçar. A questão que fica, porém, é uma só: "Ninfomaníaca" (os dois volumes juntos) é, afinal um filme misógino ou feminista?

Nem uma coisa nem outra. Lars Von Trier é um cineasta conhecido por colocar suas personagens femininas em situações extremas de humilhação e sofrimento, mas daí a considerá-lo misógino por causa disso é exagero - afinal, ótimas atrizes, como Emily Watson Nicole Kidman, Kirsten Dunst e a própria Charlotte Gainsbourg não iriam sujeitar-se a um diretor com tendências exclusivamente sádicas e sem (boas) histórias para contar. Além do mais, basta examinar com mais cuidado seus filmes anteriores para perceber que, apesar das via-crucis pelas quais passam suas protagonistas, elas não deixam de ser mulheres fortes e determinadas. Joe, por exemplo, pode ser vista tanto como uma vítima das circunstâncias quanto uma senhora de seu destino, por fazer escolhas (muitas delas erradas, mas coerentes com sua personalidade) e pagar o preço por elas estoicamente. Uma mulher ser capaz de entregar-se a uma vida sexual rica e submeter-se aos caprichos masculinos por vontade própria pode soar como uma afronta às feministas, mas não deixa de ser também revolucionário e corajoso. Talvez isso tenha incomodado algumas mulheres e provocado a discussão a respeito das intenções de Von Trier, mas até mesmo essa dubiedade é fascinante e transforma o que poderia ser apenas mais um filme disposto a chamar a atenção pelo comércio do sexo puro e simples em uma obra passível de permanecer por bons anos na berlinda. Afinal de contas, não é isso que se espera de um bom cineasta?

Quanto às virtudes artísticas, é preciso mais uma vez louvar o desempenho de Charlotte Gainsbourg - não à toa integrante da Trilogia da Depressão do cineasta ("Anticristo", "Melancolia" e estes volumes de "Ninfomaníaca" - no papel central. Entregue de corpo e alma a um papel difícil e desafiador, a filha da cantora Jane Birkin e do músico Serge Gainsbourg se mostra uma das mais ousadas atrizes de sua geração e uma parceira à altura dos devaneios de Von Trier. Merecem destaque também as participações de Jamie Bell - o menino revelado em "Billy Elliot", aqui crescido e bem desenvolvido - e Stellan Skarsgard, em uma atuação contida que só vai explodir ao final, quando finalmente revela quem é seu personagem. Resumindo, "Ninfomaníaca, volume 2" é o desfecho impactante de um filme por si só capaz de despertar todos os tipos de sentimento no espectador que procura mais no cinema do que simples diversão. Altamente recomendável - nem que seja para falar mal com argumentos.

quarta-feira

NINFOMANÍACA, VOLUME 1

NINFOMANÍACA, VOLUME 1 (Nymphomaniac: Vol. I, 2013, Zentropa Entertainments, 117min) Direção e roteiro: Lars Von Trier. Fotografia: Manuel Alberto Claro. Montagem: Morten Hojberg, Moly Marlene Stensgaard. Figurino: Manon Rasmussen. Direção de arte/cenários: Simon Grau Roney/Thorsten Sabel. Produção executiva: Peter Garde, Peter Aalbaek Jensen. Produção: Louise Vesth. Elenco: Charlotte Gainsbourg, Stellan Skarsgard, Stacy Martin, Shia LaBeouf, Christian Slater, Uma Thurman, Sophie Kennedy Clark, Connie Nielsen, Mia Goth. Estreia: 25/12/13

Lars Von Trier é um cineasta que não tem medo de polêmicas - e, a julgar por sua filmografia recheada de obras provocantes como "Anticristo", "Dogville" e "Ondas do destino" até as procura constantemente. Depois de ter sido banido do Festival de Cannes 2011 por declarações consideradas antissemitas - ele afirmou entender Hitler - o dinamarquês voltou às manchetes no final de 2013 graças a mais um projeto cinematográfico ousado e controverso: dividido em dois volumes lançados simultaneamente, "Ninfomaníaca" já despertava furiosas discussões ao redor do mundo antes mesmo de sua estreia. O motivo? Mais do que nunca, Trier dava munição de sobra a todos que sempre o acusavam de misoginia ao contar a dramática história de Joe, uma mulher cuja impossibilidade de resistir a seus desejos a leva a uma vida repleta de dor e sofrimento. Porém, mesmo que dê continuidade à linhagem de mártires femininas criadas pelo diretor, Joe é, ao mesmo tempo, vítima e heroína, dona de uma complexidade dramática de que só mesmo o talento da atriz Charlotte Gainsbourgh - parceira constante do diretor - conseguiria dar conta. O resultado é uma obra perturbadora como todos os trabalhos anteriores de Trier, mas bem menos "pornográfico" do que o marketing e a curiosidade do público previam.

Misturando matemática, música clássica e filosofia a uma receita explosiva por natureza, Lars Von Trier narra a saga de Joe através de flashbacks, quando ela conta sua história ao solidário Seligman (Stellan Skarsgard), que a encontra caída e extremamente ferida perto de sua casa. Sentindo que pode confiar no homem que a ajudou, Joe revela a ele sua trajetória sexual, que teve início já na infância em brincadeiras com uma amiga. Aos poucos, ela passa para situações mais intensas, como a traumática perda da virgindade com Jerôme (Shia LaBeouf), que a atormentará pela vida inteira. Enquanto discute teorias matemáticas com Seligman e ouve suas histórias sobre pescaria - hobby que ele compara ao vício dela - Joe também revela a importância de seu relacionamento com o pai amoroso (Christian Slater), a amizade competitiva com B (Sophie Kennedy Clark) - que a incentivava a praticar atos ousados como transar com todos os passageiros possíveis de um trem - e a forma como gerenciava uma vida preenchida por inúmeros casos sexuais concomitantes e que resultou em uma experiência pouco agradável com a esposa de um dos amantes (Uma Thurman). Dotada de extrema autocrítica, Joe prepara o espírito de Seligman para chegar até o clímax de sua história - e que a fez acabar espancada na porta de sua casa.


"Ninfomaníaca, volume 1" não é um filme erótico, apesar do que pode parecer ao público menos informado: tudo bem que Lars Von Trier não se furta a mostrar cenas bem mais ousadas do que acontece no cinema comercial, mas não existe gratuidade nas sequências que mostram as desventuras sexuais de sua protagonista. Mesmo em momentos mais explícitos, não é intenção do filme excitar o espectador, e sim retratar com o máximo de realismo a rotina de uma mulher presa a suas próprias armadilhas. Joe sabe desde cedo onde colocar o desejo que lhe acomete - e, a princípio, o faz sem culpa e com um prazer que não teria como passar em branco por um mundo machista e propenso a todo tipo de julgamentos morais. E o castigo por sua liberdade, como se poderia esperar de um filme assinado por Von Trier, vem sem piedade justamente quando ela sente-se disposta a entregar-se ao amor - em uma cena angustiante que prepara o público para a segunda parte, que levará a protagonista ao fundo do poço físico e moral.

Mesmo que seja o rosto de Charlotte Gainsbourgh que enfeite os cartazes de "Ninfomaníaca", é inegável que boa parte do impacto do filme se deve à performance corajosa e intensa de Stacy Martin, que se entrega sem medo ao desafio de interpretar a juventude de Joe mesmo em cenas pra lá de quentes. Com um rosto angelical que contrasta com a voracidade do desejo sexual de sua personagem, Martin cativa a plateia com um misto de conformismo e sensualidade, enquanto contracena com atores do porte de Uma Thurman, Christian Slater e Shia LaBeouf em dias inspiradíssimos. Fotografado com capricho e criativo na edição - que mantém a atenção da plateia do primeiro ao último minuto de projeção - o filme de Von Trier é um primeiro capítulo instigante, repleto das maiores qualidades do cinema do diretor (e também um prato cheio para seus detratores). Como filme é fascinante, e como discussão é ainda melhor, ainda que só faça sentido completo após o término do segundo volume.

terça-feira

MELANCOLIA

MELANCOLIA (Melancholia, 2011, Zentropa Entertainments/Memfis Films, 130min) Direção e roteiro: Lars Von Trier. Fotografia: Manuel Alberto Claro. Montagem: Molly M. Stensgaard. Figurino: Manon Rasmussen. Direção de arte/cenários: Jette Lehman/Simone Grau Roney. Produção executiva: Peter Garde, Peter Albaek Jensen. Produção: Meta Louise Foldager, Louise Vesth. Elenco: Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland, Alexander Skarsgard, Stellan Skarsgard, Brady Corbet, John Hurt, Charlotte Rampling, Udo Kier. Estreia: 18/5/11 (Festival de Cannes)

Vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes: Melhor Atriz (Kirsten Dunst)

Foi durante a entrevista coletiva de lançamento de "Melancolia", em maio de 2011, que o cineasta Lars Von Trier deu a infame declaração em que afirmava compreender Adolf Hitler. A controvérsia acabou fazendo com que o normalmente polêmico diretor fosse banido do festival, mas não impediu que seu belo filme saísse premiado com a Palma de Ouro de Melhor Atriz para Kirsten Dunst. Substituindo a primeira opção para o papel - Penélope Cruz, que pulou fora para navegar com Johnny Depp no tenebroso terceiro capítulo da cinessérie "Piratas do Caribe"- Dunst mereceu a premiação: basta poucos minutos em cena para que seu desempenho, intenso e febril, apague da mente do espectador que ele está diante da faceira Mary Jane da trilogia do Homem-aranha dirigida por Sam Raimi. Tornando-se a terceira atriz dirigida por Von Trier a sair laureada do festival francês - antes dela foram laureadas a cantora Bjork, por "Dançando no escuro", em 2000, e Charlotte Gainsbourg, por "Anticristo", de 2009 - Dunst mostrou que os elogios que recebeu ao interpretar a pequena morta-viva Claudia de "Entrevista com o vampiro" não foram levianos e que, adulta, ela é uma atriz repleta de nuances e recursos.

Segunda parte da entitulada "Trilogia da Depressão", de Von Trier - que começou com "Anticristo" e terminou com os dois volumes de "Ninfomaníaca", todos com Charlotte Gainsbourg no elenco - "Melancolia" é, sem dúvida, a obra que tem o visual mais deslumbrante dos três - cortesia da fotografia de Manuel Alberto Claro - e a trama menos polêmica e mais acessível, apesar do tema difícil. Dividido em dois capítulos com os nomes das protagonistas (depois de um belíssimo prólogo, como já passou a ser uma marca registrada do diretor), o filme conta, a grosso modo, a história de duas irmãs (e sua família) que aguardam a colisão de um planeta chamado Melancolia com a Terra, fato que, logicamente, significaria o fim do mundo. No entanto, nas mãos do cineasta, o que poderia ser mais um longa de ficção científica corriqueiro e recheado de clichês, se transforma em um estudo poderoso e angustiante sobre amor, família e depressão - esta última retratada de forma exemplar através de Justine, a personagem de Dunst.


Justine - que dá nome ao primeiro capítulo - tem tudo para ser uma mulher feliz e realizada. Bonita, inteligente e rica, ela trabalha em uma agência de publicidade, é reconhecida profissionalmente e está se casando com o homem que aparentemente ama, o carinhoso Michael (Alexander Skarsgard, da série "True blood"). Acontece que as coisas não são tão simples assim para ela: sofrendo de uma severa depressão, ela atravessa a sofisticada e caríssima festa de casamento organizada pela irmã, Claire (Charlotte Gainsbourg) e pelo cunhado John (Kiefer Sutherland) - um cientista que não acredita na colisão iminente entre os dois planetas - como quem atravessa um calvário. Nada lhe excita, nada lhe impressiona, nada lhe deixa alegre e tal situação acaba ficando óbvia até para o pouco atento noivo - o que acarreta em um final pouco feliz para a cerimônia. O segundo capítulo - batizado com o nome de Claire - se passa nos dias seguintes à festa, quando Justine, ao lado da irmã, do cunhado e do sobrinho, tenta superar o agravamento de sua crise depressiva enquanto aguarda o momento em que a natureza irá decidir o destino da Terra e de seus habitantes. Dessa vez, porém, é Claire quem não tem certeza se conseguirá suportar tanta tensão e angústia.

Para que "Melancolia" seja melhor compreendido pelo seu público, é essencial que se saiba o que esperar da proposta de Lars Von Trier - que confessou ter escrito o roteiro sob forte influência de drogas e álcool, o que já dá pistas a respeito do tom pouco festivo da trama. Pouco afeito a conceitos como otimismo e felicidade, o cineasta faz desfilar pela tela personagens que não retratam exatamente as melhores qualidades do ser humano - até mesmo a mãe interpretada por Charlotte Rampling parece desprovida de qualquer traço de simpatia ou solidariedade - e não poupa o espectador de mergulhar sem reservas na doença de Justine, filmada sem filtros de glamour ou romantismo. Menos simbólico do que "Anticristo" mas ainda assim um prato cheio para quem busca no cinema uma forma de analisar o mundo contemporâneo - física ou psicologicamente - o filme de Von Trier faz uso de metáforas visuais e temáticas para atingir seus objetivos artísticos e os faz com maestria. Não é, mais uma vez em sua carreira, um filme para todos os tipos de público. Mas é um belo espetáculo narrativo e um ponto alto de sua filmografia.

segunda-feira

ANTICRISTO

ANTICRISTO (Antichrist, 2009, Zentropa Entertainments, 108min) Direção e roteiro: Lars Von Trier. Fotografia: Anthony Dod Mantle. Montagem: Anders Refn. Música: Kristian Eidnes Andersen. Figurino: Frauke Firl. Direção de arte/cenários: Karl 'Kalli' Juliusson/Tim Pannen. Produção executiva: Peter Garde, Peter Aalbaek Jensen. Produção: Meta Louise Foldager. Elenco: Willem Dafoe, Charlotte Gainsbourg. Estreia: 18/5/09

Vencedor da Palma de Ouro de Melhor Atriz no Festival de Cannes: (Charlotte Gainsbourg) 

Quando começou a filmar "Anticristo" - um polêmico exercício de estilo que dividiu opiniões no Festival de Cannes 2009 e deu à Charlotte Gainsbourg a Palma de Ouro de melhor atriz - o cineasta dinamarquês Lars Von Trier estava saindo de uma severa crise de depressão que o havia deixado internado em um hospital por dois meses. Porém, mesmo sem estar completamente curado (o que o impedia de operar a câmera pessoalmente, uma das maiores características de sua controversa filmografia), o homem que esteve por trás da criação do Dogma 95 - um dos mais importantes manifestos cinematográficos dos anos 90, ainda que efêmero e nem sempre eficiente em suas ambições - não decepcionou aos fãs de seu cinema repleto de simbolismos: mesmo que não seja exatamente o filme de terror que ele ambicionava realizar - assim como "Dançando no escuro" não era propriamente um musical nos moldes hollywoodianos que estava em sua mente - "Anticristo" chocou, despertou discussões acaloradas e sacudiu a mesmice do cinema "de arte". Nada mal para uma obra quase hermética, que levanta diversas questões e não fornece nenhuma resposta a elas.

Abrindo sua narrativa com uma belíssima sequência em preto-e-branco fotografada com extremo requinte por Anthony Dod Mantle, "Anticristo" já pega de surpresa o espectador acostumado às amenidades hollywoodianas, intercalando cenas de sexo explícito no chuveiro entre o casal vivido por Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg com uma irresponsável travessura de seu filho bebê, que tragicamente morre ao cair da janela de sua casa. Depois desse prólogo - que estabelece o tom mórbido e cru da história - pouco resta aos dois protagonistas senão o luto, o desespero e a dor, especialmente para a mãe da criança, que acaba indo parar no hospital, incapaz de lidar com a perda. Confiante de que pode ajudar a esposa, o pai - terapeuta - resolve começar um tratamento radical, confrontando-a com seus medos, e a leva para sua cabana na floresta, a que chamam de "Eden". É lá, em um lugar afastado de tudo e todos, cercados de uma natureza filmada em ângulos mórbidos e opressivos e de lembranças que se mesclam entre positivas e melancólicas, que eles são obrigados a exorcizar seus demônios pessoais.


Quem se aventurar a uma sessão de "Anticristo" deve estar ciente de que não está adentrando em território afável: não é a intenção de Lars Von Trier ser acessível ou simpático à raça humana. Mais uma vez em sua filmografia não há espaço para esperanças ou sentimentos nobres, e até mesmo a natureza - algo tão singelo em outras filmografias - é retratada como algo ameaçador e sufocante, como mostra a inesquecível (e impressionante) cena em que os protagonistas fazem sexo ao ar livre, diante de uma árvore retorcida que, sob a visão cruel do cineasta, mostra-se cenário bem pouco apropriado ao ato. Até mesmo animais servem como prenúncios fatídicos na narrativa de Von Trier: um inocente veado simboliza o luto, uma raposa serve de ilustração da dor e um corvo representa o desespero, conforme deixam claro os desenhos que abrem cada um dos capítulos do filme - e, a cada um, mais e mais afundados na angústia ficam os personagens. E a plateia.

Sem medo de ofender ou escandalizar o espectador, Lars Von Trier não se furta a apelar para cenas de extremo impacto físico e emocional, o que inclui até mesmo uma comentada e cruel automutilação genital que testa os limites de qualquer cinéfilo. Para isso, o cineasta contou com a corajosa Charlotte Gainsbourg, que se entrega de corpo e alma na personificação de uma mulher em mais puro desespero. Merecidamente premiada no Festival de Cannes, Gainsbourg acabou se tornando também uma queridinha do diretor, fazendo parte de todos os filmes da "Trilogia da Depressão" gerada por ele, que inclui "Melancolia" e os dois volumes de "Ninfomaníaca". Seu estilo de interpretação, visceral e de uma intensidade quase palpável, é a base na qual se ergue "Anticristo", um filme que se preocupa muito menos com sua história do que com a forma como ela será contada. Tem quem adore. Mas também tem quem odeie. Escolha seu time.

terça-feira

21 GRAMAS


21 GRAMAS (21 grams, 2003, Focus Features, 124min) Direção: Alejandro Gonzalez Iñarritu. Roteiro: Guillermo Arriaga. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Stephen Mirrione. Música: Gustavo Santaolalla. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Brigitte Broch/Meg Everist. Produção executiva: Ted Hope. Produção: Alejandro Gonzalez Iñarritu. Elenco: Sean Penn, Benicio Del Toro, Naomi Watts, Melissa Leo, Charlotte Gainsbourg, Danny Huston, Clea Duvall, Eddie Marsan. Estreia: 19/10/03

2 indicações ao Oscar: Atriz (Naomi Watts), Ator Coadjuvante (Benicio Del Toro)

A vida vista pelos olhos do roteirista Guillermo Arriaga e pelo diretor Alejandro Gonzalez Iñarritu não é exatamente cor-de-rosa. Pelo contrário, a dupla de mexicanos que deu ao mundo o excepcional “Amores brutos” volta a analisar o lado sombrio e triste da alma humana em seu segundo longa-metragem, desta vez sob os auspícios generosos de um orçamento hollywoodiano, sem, no entanto, perder em qualidade dramática. A estrutura do primeiro filme – histórias aparentemente isoladas que se entrecruzam – se mantém. O ritmo próprio idem. Mas, se antes o elenco não contava com nenhum nome internacionalmente conhecido – Gael García Bernal ainda não havia estourado – agora a história é bem diferente. Quando “21 gramas” estreou, Benicio Del Toro já tinha um Oscar na prateleira, Sean Penn estava em vias de ganhar o seu primeiro por "Sobre meninos e lobos" e Naomi Watts já era famosa entre os críticos por sua atuação em “Cidade dos sonhos” e entre os fãs de cinema pelo remake de “O chamado”.

Contado de forma aparentemente desconecta, “21 gramas” conta três histórias que se encontram (se chocam talvez seja a melhor expressão) devido a um trágico acidente de carro (ecoando a mesma situação de “Amores brutos”). O professor Paul Rivers (Sean Penn, mais uma vez sensacional) sofre de uma doença grave no coração e precisa de um transplante – para salvar sua vida e manter seu abalado casamento com  Mary (Charlotte Gainsbourg), que sonha em ter um filho mas esconde um aborto em seu passado. Christina Peck (Naomi Watts merecidamente indicada ao Oscar) é uma dona-de-casa dedicada que vive uma vida de faz-de-conta com o marido Michael (Danny Huston) e as filhas pequenas. E Jack Jordan (Benicio Del Toro, avassalador) é um ex-presidiário que, convertido a um catolicismo fanático na prisão, tenta reestabelecer o convívio com a família. O destino, irônico como nunca, porém, prega uma peça a todos eles: em um final de tarde, Jack atropela e mata a família de Michael, cujo coração vai parar no peito de Paul, que, em um ato de desatino, procura Christina e se apaixona por ela, que desesperada, deseja vingança.


É desesperador assistir-se à "21 gramas". Ao contrário do que normalmente acontece no cinemão americano, a angústia e a dor de seus protagonistas não são disfarçados por um humor deslocado ou por belas imagens - ainda que a fotografia excepcional de Rodrigo Prieto esteja totalmente de acordo com a intenção de Iñarritu de aproximar o espectador de suas personagens, em closes tensos e uma iluminação que reflete com perfeição todos os estados de espíritos. A edição picotada de Stephen Mirrione - vencedor do Oscar por "Traffic" - também colabora para corroborar a desorientação dos três anti-heróis criados por Guillermo Arriaga, em um roteiro tão coeso que é o ápice de sua carreira: Paul, Christina e Jack são pessoas reais, de carne-e-osso, construídas com tal verdade que é impossível à audiência não acreditar em seus dramas e dúvidas. E para isso, logicamente, o cineasta conta com um elenco nunca menos do que espetacular.


É difícil lembrar um filme cujo trio de protagonistas seja tão especial quanto aquele que forma a tríade de ouro de "21 gramas". Enquanto Penn mais uma vez comprova seu talento e versatilidade, Naomi Watts surpreende demonstrando um alcance dramático vislumbrado em "Cidade dos sonhos" e aqui visto em sua totalidade de nuances. Mas é Benicio Del Toro com seu devastador Jack Jordan quem rouba o filme, com diálogos substanciais e uma crença tão absoluta no destino - a quem ele coloca o nome de Deus - que é impossível não lhe crer em cada fala, em cada silêncio, em cada olhar. Mais ainda do que no papel que lhe deu o Oscar - em "Traffic" - é aqui que Del Toro demonstra todo seu imenso talento, em uma interpretação arrepiante.

Por mais árduo e dolorido que seja compartilhar das duas horas de sofrimento imposto por "21 gramas" é também impossível não se deixar emocionar e envolver com sua trama. Forte, emocionante e triste, é um dos grandes filmes de seu tempo, e a obra-prima - até a data - de seu extraordinário realizador.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...