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quinta-feira

A MARCA DA MALDADE

A MARCA DA MALDADE (Touch of evil, 1958, Universal Pictures, 95min) Direção: Orson Welles. Roteiro: Orson Welles, romance "Badge of evil", de Whit Masterson. Fotografia: Russell Metty. Montagem: Aaron Stell, Virgil Vogel. Música: Henry Mancini. Figurino: Bill Thomas. Direção de arte/cenários: Robert Clatworthy, Alexander Golitzen/John P. Austin, Russell A. Gausman. Produção: Albert Zugsmith. Elenco: Charlton Heston, Janet Leigh, Orson Welles, Marlene Dietrich, Joseph Calleia, Akim Tamiroff, Joanna Moore. Estreia: 23/4/58

Em uma cena do filme “Ed Wood” (94), dirigido por Tim Burton, o protagonista – conhecido pela alcunha pouco lisonjeira de “o pior diretor de todos os tempos” – encontra um arrasado Orson Welles sentado em uma mesa de bar, afogando as mágoas. Em uma rápida conversa, o cineasta considerado gênio já em seu filme de estreia, o incensado “Cidadão Kane” (41), reclama dos rumos de sua carreira, enfatizando que está em vias de começar um filme em que Charlton Heston fará o papel de um mexicano (!!). A conversa entre os dois cineastas (separados pela diferença de talento mas unidos pela paixão com que desenvolviam seus filmes) provavelmente nunca aconteceu, mas é bastante ilustrativa: tanto Wood, com seus filmes de fundo de quintal, como Welles, com obras-primas como “Soberba” (42), sofreram nas mãos dos produtores, que, passando por cima de qualquer ambição autoral de ambos, não hesitavam em impor suas próprias ideais acerca dos resultados finais. No caso de Wood, o problema até não era tão grande – quase ninguém assistia a seus filmes, sempre tidos como o mais absoluto exemplo de cinema trash – mas Welles realmente tinha do que se queixar. Desde que se tornou o gênio mais admirado de Hollywood por seu primeiro filme, o diretor caiu em desgraça junto aos estúdios, que, não sabendo lidar com sua personalidade forte, passaram a interferir ferozmente em seus trabalhos seguintes. Mesmo com o apoio de nomes de peso da indústria a seu lado – como a estrela Rita Hayworth, com quem era casado durante as filmagens de “A dama de Shangai” (42) – seu brilhantismo não era o suficiente para que ele mantivesse uma carreira sólida e estável.

“A marca da maldade” – o tal filme com Charlton Heston no papel de mexicano – é um perfeito exemplo dessa intromissão dos estúdios no trabalho do cineasta, que renegou a versão final imposta pelo estúdio à época de sua estreia, com alterações em número suficiente para que ele mesmo deixasse uma carta com informações expressas de sua visão do filme. Tal carta, de posse do ator Charlton Heston até o final da década de 90, serviu de guia para uma nova montagem, que seguia à risca suas orientações e estreou, já com aura de clássico injustiçado, em 1998. De pequenos detalhes – como a mudança dos créditos para o final do filme, como forma de não prejudicar o belo plano-sequência de abertura, com três minutos de duração – até outras modificações mais ligadas à edição, as novidades acabaram por dar ao filme um ritmo mais interessante e um tom ainda mais sombrio e pessimista – coisas que a Universal, obviamente, não considerava comerciais. Aliás, até mesmo a simples presença de Welles como ator (papel para o qual foi exclusivamente contratado no início do projeto) já era algo temerário, uma vez que, apesar de sua fama de gênio, seu nome não era necessariamente um chamariz de público.



Vindo de fracassos consecutivos de bilheteria – incluindo duas adaptações da obra de Shakespeare, “Macbeth” (48) e “Othello” (52) – Welles foi chamado pela Universal para trabalhar apenas como ator, mas o estúdio acabou convencido por Charlton Heston, então já consagrado por sucessos como “Os dez mandamentos” (56), de Cecil B. de Mille, para contratá-lo também como roteirista e diretor (mas, ainda assim, sem os salários cumulativos para tais funções). Assumindo a tripla responsabilidade, Welles recomeçou quase do zero: pegou o roteiro escrito por Paul Monash – por sua vez baseado em um romance barato chamado “Badge of evil”, de Whit Masterson – e iniciou seu processo de transformar alguns elementos da trama a fim de servir melhor à sua visão da narrativa. Apesar do afirmado na cena do filme de Tim Burton, não foi o estúdio quem optou por fazer de Charlton Heston um policial mexicano, e sim o próprio Welles, que inverteu as nacionalidades do casal protagonista e transferiu o cenário da ação de uma pequena cidade californiana para a fronteira México/EUA. Reservando para si um papel crucial – o do asqueroso chefe de polícia Quinlan, que lhe tornou ainda mais volumoso fisicamente – e oferecendo uma pequena participação para a amiga Marlene Dietrich, o cineasta ainda conseguiu com que Janet Leigh diminuísse seu salário apenas pela possibilidade de trabalhar com ele, ao contrário do que sugeria seu agente. Sorte da futura Marion Crane, que cravou sua imagem em mais um importante exemplar do grande cinema americano.

Charlton Heston (um tanto estranho em sua caracterização) vive Mike Vargas, um detetive mexicano que está em vias de desbaratar uma quadrilha de traficante de drogas comandada por um misterioso criminoso chamado Grandi, que não hesita em mandar-lhe recados ameaçadores ou sequer matar inocentes para demonstrar seu poder. Bem no dia de seu casamento com a destemida Susan (Janet Leigh), Vargas se vê envolvido na investigação de um atentado à bomba que matou um casal dentro de um carro, praticamente na sua frente. Enquanto tenta descobrir os culpados pelo crime, ele enfrenta a oposição explícita de um policial do México, o Capitão Hank Quinaln (Orson Welles), que não é exatamente um primor de honestidade: grotesco em seus modos heterodoxos (pra dizer o mínimo), Quinlan bate de frente com Vargas quando percebe que o mexicano não irá fechar os olhos diante de suas arbitrariedades, que incluem forjar provas e torturar suspeitos. Quem acaba de vítima da batalha é Susan, que, sozinha em um hotel afastado, sofre as consequências do embate.

Com um roteiro que privilegia o clima e a as imagens mais do que as reviravoltas da história - uma forma que Welles encontrou de impedir estragos ainda maiores caso o filme lhe fosse tirado das mãos, como de fato o foi - "A marca da maldade" é um show de visual e interpretações. Welles em pessoa é o maior destaque, com seu Quinlan absolutamente monstruoso tanto em forma quanto em alma, mas é preciso destacar o trabalho competente de Janet Leigh e o brilhantismo da atuação de Akim Tamiroff, na pele do imprevisível Joe Grandi e ao fascínio que sempre acompanha a presença de Marlene Dietrich, aqui como Tanya, uma cartomante que parece saber bem mais do que deveria. É o conjunto de todos esses fatores que faz do filme mais um trabalho irrepreensível de Orson Welles, mostrando ser muito mais do que o criador de "Cidadão Kane" - o que já não seria pouca coisa.

JULGAMENTO EM NUREMBERG


JULGAMENTO EM NUREMBERG (Judgment at Nuremberg, 1961, United Artists, 186min) Direção: Stanley Kramer. Roteiro: Abby Mann. Fotografia: Ernest Laszlo. Montagem: Frederic Knudtson. Música: Ernest Gold. Produção: Stanley Kramer. Elenco: Spencer Tracy, Burt Lancaster, Marlene Dietrich, Richard Widmark, Maximilian Schell, Judy Garland, Montgomery Clift, William Shatner. Estreia: 14/12/61

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Stanley Kramer), Ator (Maximilian Schell, Spencer Tracy), Ator Coadjuvante (Montgomery Clift), Atriz Coadjuvante (Judy Garland), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte
Vencedor de 2 Oscar: Ator (Maximilian Schell), Roteiro Adaptado
Vencedor de 2 Golden Globes: Diretor (Stanley Kramer), Ator/Drama (Maximilian Schell)


Pródiga que é em encantar a plateia com seu cinema, Hollywood também o é quando se trata de tomar partido em relação a temas polêmicos. Vez por outra, no entanto, a própria história se encarrega de prover aos estúdios e aos produtores os elementos necessários para o deleite do público. É o que acontece com "Julgamento em Nuremberg", dirigido por Stanley Kramer e lançado em 1961. Para buscar o interesse do público, o roteirista Abby Mann nem precisou buscar na sua imaginação os ingredientes do sucesso: eles realmente aconteceram, meros 13 anos antes, e foram muito mais cruéis do que a mente humana conseguiria conceber.

"Julgamento em Nuremberg" se passa em 1948, três anos depois, portanto, do final da II Guerra Mundial. O juiz de uma cidadezinha americana, Dan Heywood (Spencer Tracy) chega à Alemanha para presidir o julgamento de quatro juízes nazistas, acusados de crimes contra a humanidade. No tribunal, ele mantém a calma e a placidez necessárias enquanto assiste o embate entre o promotor Tad Lawson (Richard Widmark) e o jovem advogado de defesa, Hans Rolfe (Maximilian Schell, vencedor do Oscar de melhor ator). Mais do que simplesmente julgar os acusados, o juiz precisa também entender os pontos de vista a respeito do maior crime já cometido contra seres humanos, uma vez que, dentre os réus, existe o silencioso Ernst Janning (Burt Lancaster), que, depois de passar dias silencioso e meditativo, resolve se pronunciar, defendendo a si mesmo e seu país (em uma cena marcante e assustadoramente sincera).

"Julgamento em Nuremberg" é um filme obrigatório por inúmeras razões. Além de ser dramaticamente bem construído e contar com um elenco estelar (sendo que a maioria dos atores trabalhou com um salário menor do que o costumeiro apenas por julgar que o filme deveria ser feito por sua importância histórica), é um documento forte, pungente e realista, fugindo sempre que possível do maniqueísmo inerente ao tema. O equilíbrio do roteiro de Mann é notável, dando espaço a cenas massacrantes (o material filmado nos campos de concentração mostrado no tribunal é real) e diálogos e personagens bastante interessantes: Marlene Dietrich - inimiga pública do III Reich desde que recusou a ser a estrela de filmes de propaganda nazista e passou a fazer shows às tropas aliadas - vive, por exemplo, a viúva de um militar da SS condenado à morte, que insiste em afirmar que o povo alemão não sabia das atrocidades cometidas nos campos e, por mais que a simpatia da plateia esteja do lado do bem (a saber, os vencedores da guerra) não deixa de ser intrigante perceber como o texto forte de Mann e a atuação da bela Dietrich conseguem abalar as certezas que o público tem.


E o público, além de tudo, é brindado com o que de melhor há em termos de atuação no início dos anos 60. Maximilian Schell levou o Oscar de melhor ator disputando o prêmio com seu colega de elenco Spencer Tracy e brilha intensamente na pele do idealista advogado de defesa, que tenta desesperadamente salvar a liberdade de seus clientes mesmo sabendo que a batalha é praticamente perdida. Burt Lancaster entrega a melhor atuação de sua carreira com uma personagem indecifrável que consegue, em apenas duas cenas com diálogos substanciais (o já citado depoimento no banco das testemunhas e na sequência final com Tracy, de arrepiar qualquer fã de cinema e história). Mas são dois coadjuvantes que surpreendem ainda mais, em interpretações muito acima do chamado do dever - não à toa ambos tiveram indicações ao Oscar na categoria: Montgomery Clift e Judy Garland.

Clift, em um de seus últimos trabalhos, emociona como Rudolf Petersen, um homem vítima de esterilização por ter sido considerado mentalmente atrasado. Em apenas uma cena, Clift entrega o desempenho de sua vida, brilhantemente arrancando lágrimas com seu falar lento, sua angústia vísivel e sua indignação incurável (a defesa que ele faz da própria mãe é de fazer chorar o mais insensível dos homens). E Garland, voltando ao cinema depois de sete anos (seu último filme havia sido "Nasce uma estrela"), interpreta Irene Hoffman, que sobe ao banco das testemunhas para contar como foi obrigada a falar contra um homem mais velho, judeu, a quem tinha como pai, que foi acusado de manter relações sexuais com ela e portanto, condenado à morte. Mais velha e fisicamente descuidada, a eterna Dorothy de "O mágico de Oz" comprova seu talento único ao, corajosamente, expôr sua falta de vaidade em um papel difícil e emocionalmente complexo.

"Julgamento em Nuremberg" é um documento histórico de valor inestimável. Agrada aos fãs do gênero, conquista os interessados em história e impressiona os aficcionados por cinema clássico. Mais uma injustiça da Academia, que preferiu dar o Oscar principal ao pouco engajado "Amor, sublime amor".

segunda-feira

TESTEMUNHA DA ACUSAÇÃO


TESTEMUNHA DA ACUSAÇÃO (Witness for the prosecution, 1957, United Artists, 116min) Direção: Billy Wilder. Roteiro: Billy Wilder, Harry Kurnitz, baseado na peça teatral de Agatha Christie. Fotografia: Russell Harlan. Montagem: Daniel Mandell. Música: Matty Malneck. Figurino: Edith Head, Joseph King. Produção: Arthur Hornblow Jr. Elenco: Charles Laughton, Tyrone Power, Marlene Dietrich, Elsa Lanchester, John Willams. Estreia: Dezembro/57

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Billy Wilder), Ator (Charles Laughton), Atriz Coadjuvante (Elsa Lanchester), Montagem, Som
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Elsa Lanchester)

Considerada a Rainha do Crime da literatura policial, a inglesa Agatha Christie teve pouca sorte com as adaptações de seus romances para o cinema. Nem mesmo "Assassinato no Orient Express", com um elenco estelar e um Oscar de atriz coadjuvante para Ingrid Bergman chegou perto do brilhantismo. Felizmente exceções existem para cada regra e a exceção aqui tem a assinatura de Billy Wilder, o cineasta austríaco acostumado a legar obras-primas ao mundo. Dirigido e co-escrito por Wilder (ao lado de Harry Kurnitz), "Testemunha da acusação", baseado na peça teatral homônima de Christie é, sem espaço para qualquer tipo de dúvida, a melhor transposição de uma obra da escritora para o cinema. Para quem não acredita, basta apenas assistir a uma única vez para nunca mais esquecer.

Ao contrário da peça original, que já começa no julgamento do protagonista, o roteiro de Wilder e Kurnitz aumenta a importância do advogado Wilfrid Robbarts, vivido com uma verve irresistível pelo britânico Charles Laughton (indicado ao Oscar por sua atuação). Recém-saído do hospital devido a um ataque do coração, ele é procurado pelo jovem Leonard Vole (Tyrone Power em seu último filme completo antes de sua morte por enfarte) para que o defenda em um caso de homicídio. Vole é acusado de assassinar uma senhora de idade com quem vinha se encontrando (e que, segundo as más línguas, incentivando seu interesse romântico) e, conhecendo a fama de Robbarts pede sua ajuda para ser absolvido. O veterano advogado aceita a causa, mas tem uma grande surpresa quando, durante o julgamento, fica sabendo que a principal testemunha da acusação é justamente a pessoa que eles menos poderiam esperar: Christine Helm (Marlene Dietrich), a esposa de Vole, disposta a destruir as chances de absolvição de seu marido.

Contar muito sobre o desenrolar da trama de "Testemunha da acusação" é um crime inafiançável. As reviravoltas são absolutamente surpreendentes (na primeira vez em que assiste ao filme, logicamente) e por mais que pareçam um tanto forçadas soam críveis graças à atmosfera criada pela direção de Wilder e pela atuação de seu elenco. Ao contrário de seus filmes imediatamente anteriores - com personagens americanos até a raiz dos cabelos e portanto com comportamentos bem diferentes dos mostrados aqui - Wilder criou um ambiente classicamente britânico, em que até mesmo o estilo de interpretação dos atores diverge bastante de sua obra - o que levou muita gente a pensar que o filme tivesse sido dirigido por Alfred Hitchcock. Charles Laughton (um dos maiores atores britânicos de todos os tempos) deita e rola na pele do teimoso e brilhante Wilfrid Robbarts, mal dando espaço para os demais colegas de elenco (com exceção da excelente Elsa Lanchester, sua esposa na vida real, que rouba a cena a cada momento em que aparece e levou um Globo de Ouro e uma indicação ao Oscar por isso). Tyrone Power, por exemplo, faz o que pode no papel do réu Leonard Vole, mas sucumbe perante a força de Laughton (e seu papel foi oferecido a nomes tão díspares quanto William Holden, Gene Kelly, Kirk Douglas, Glenn Ford, Jack Lemmon e Roger Moore (!!)). Só quem chama a atenção independentemente do brilho do veterano ator inglês é, pasmem, Marlene Dietrich.

Mais uma personalidade e um símbolo sexual do que exatamente uma atriz respeitada por seus dotes histriônicos, Dietrich ficou com um papel ingrato e extremamente difícil que foi oferecido primeiramente a Ava Gardner e Rita Hayworth. Como Christine Vole (ou Helm), no entanto, Marlene demonstra que, além de sua marcante voz grave, suas belas pernas (uma cena foi criada apenas para que uma delas fosse mostrada) e seu sotaque sedutor, ela tinha sim, muito talento. Houve até cochichos que garantiam uma indicação ao Oscar (ela entusiasmou-se com a possibilidade, que acabou não se provando acurada). Basta Marlene entrar em cena que é impossível desviar os olhos de seu belo e expressivo rosto e é inegável que sua presença colabora muito com o resultado final do filme.

E se não bastasse a trama surpreendente (no final do filme há um pedido dos produtores para que o público não comentasse seu desfecho com ninguém), a direção impecável de Wilder e o elenco espetacular, "Testemunha da acusação" ainda tem um senso de humor delicioso, principalmente nos embates entre o velho advogado e sua enfermeira dedicada. Juntos, Laughton e Lanchester brindam a plateia com interpretações repletas de nuances verbais e físicas, que resgatam a obra do lugar-comum em filmes sobre julgamentos. Se não fosse detalhes meticulosamente oferecidos por Billy Wilder no decorrer da narrativa, não haveria interesse em se assistir ao filme depois da primeira vez - afinal, não há mais surpresas. Mas um homem que criou pérolas como "Crepúsculo dos deuses" e "Sabrina" e ainda haveria de lançar "Quanto mais quente melhor" e "Se meu apartamento falasse" jamais deixaria de encantar seu público. Obrigado, Billy Wilder, por mais uma obra-prima!

quarta-feira

PAVOR NOS BASTIDORES


PAVOR NOS BASTIDORES (Stage fright, 1950, Warner Bros, 110min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Whitfield Cook, baseado no romance de Selwyn Jepson. Fotografia: Wilkie Cooper. Montagem: E. B. Jarvis. Música: Leighton Lucas. Elenco: Jane Wyman, Richard Todd, Marlene Dietrich, Michael Wilding, Alistair Sim, Patricia Hitchcock. Estreia: 15/4/50

No definitivo livro de entrevistas "Hitchcock Truffaut" (obra-prima indispensável lançada pela Cia das Letras), o mestre do suspense declara que o filme "Pavor nos bastidores", lançado em 1950, não estava entre seus preferidos, e listava uma série de defeitos que via no resultado final - e nesse rol constava a ausência de um vilão memorável, a falta de entrega da estrela Jane Wyman à sua personagem e a utilização de um artifício que ele desprezava: um flashback mentiroso.

Assistindo-se ao filme - que nem é dos mais conhecidos do cineasta inglês - é impossível negar que ele sabia o que estava falando. Todas as suas críticas em relação à obra procedem. Richard Todd é um vilão absolutamente fraco, Jane Wyman não entusiasma (e isso que vinha de um Oscar de melhor atriz, por "Belinda") e se o flashback mentiroso não chega a incomodar tanto, pelo menos poderia ter sido um pouco menos intrincado. Mas o que Hitch não disse e que fica patente em determinados momentos é a força indescritível de uma coadjuvante que faz toda a diferença. É de ficar de queixo caído sempre que a inesquecível Marlene Dietrich entra em cena. Seu carisma, sua beleza gélida, sua voz grave e suas belas pernas são de fazer com que qualquer pecado do filme atinja o tamanho de um mísero grão de areia.



A história de "Pavor nos bastidores" segue uma linha Agatha Christie de narração. A estudante de teatro Eve Gill (Jane Wyman) é apaixonada pelo misterioso Jonathan Cooper (Richard Todd), que tem um relacionamento clandestino com a famosa atriz Charlotte Inwood (Marlene Dietrich). Quando Jonathan a procura, pedindo ajuda para fugir da polícia, uma vez que ele é o principal suspeito da morte do marido de Charlotte, Eve resolve provar a todos sua inocência. Suspeitando da própria viúva, ela assume a falsa identidade da camareira substituta da atriz para assim desmascará-la. O único problema de seu plano surge quando ela se apaixona pelo detetive do caso, o sensível Wilfred Smith (Michael Wilding).

Hitchcock diz ainda, na entrevista a François Truffaut, que dois motivos o levaram a dirigir "Pavor nos bastidores": a influência de vários críticos literários que haviam lido o romance que deu origem ao roteiro e insistiam que era um material que serviria perfeitamente a seu estilo e a vontade de dirigir um filme que se passasse nos bastidores do teatro. O primeiro motivo ele mesmo reconheceu ter sido um equívoco. O segundo também não é exatamente forte - mesmo porque, no mesmo ano, "A malvada", de Joseph L. Manckiewicz falaria do assunto com muito mais propriedade. Mas "Stage fright", ainda que não seja uma obra-prima como vários dos trabalhos do pai de "Psicose" e "Os pássaros" tem momentos de quase genialidade - um exemplo claro é a armadilha em que a personagem de Marlene cai, já no terço final de projeção.

É inegável que a primeira parte de "Pavor nos bastidores" é bastante superior à sua segunda metade: a definição da trama é interessante e o suspense genuíno, em contrapartida ao final anêmico e anticlimático. Dietrich - mesmo não sendo propriamente uma grande atriz dramática - segura muito bem a audiência, mas o mesmo não pode ser dito de uma indiferente Wyman, um nada simpático Richard Todd e um apático Michael Wilding (que, casado com Elizabeth Taylor à época, logo morreria em um trágico acidente de avião). Ainda assim, assistir a um Alfred Hitchcock "menor" ainda é uma experiência a ser degustada com grande prazer.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...