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segunda-feira

MÃES PARALELAS

 


MÃES PARALELAS (Madres paralelas, 2021, El Deseo/Pathé Films, 123min) Direção e roteiro: Pedro Almodóvar. Fotografia: José Luis Alcaine. Montagem: Teresa Font. Música: Alberto Iglesias. Figurino: Paola Torres. Direção de arte/cenários: Antxón Gomez/Vicent Díaz. Produção: Agustin Almodóvar, Esther García. Elenco: Penélope Cruz, Milena Smit, Israel Elejalde, Aitana Sánchez-Gijón, Rossy de Palma. Estreia: 01/9/2021 (Festival de Veneza)

2 indicações ao Oscar: Atriz (Penélope Cruz), Trilha Sonora Original

Os filmes do espanhol Pedro Almodóvar dificilmente podem ser resumidos em poucas palavras sem que se perda, no processo, todas as nuances de tramas raramente simples como podem parecer em um primeiro momento. "Mães paralelas" não foge à regra: o que a princípio soa como um mero melodrama (gênero no qual o diretor navega com conforto e experiência), se mostra, ao final, um poderoso estudo não apenas sobre a maternidade em si, mas também sobre relações familiares, sobre escolhas de vida e sobre o passado como força motriz para transformações no presente. Ao unir a história de duas desconhecidas que tem suas vidas transformadas pelo nascimento de seus bebês com uma trama a respeito de mortos pela ditadura franquista, Almodóvar se arrisca em um terreno novo - o drama político - sem abdicar de suas características mais notáveis (e que fizeram sua glória junto a cinéfilos e críticos).

"Mães paralelas" apresenta quase tudo aquilo que se pode esperar de um bom Almodóvar: personagens femininas fortes (com o bônus de uma atuação monstruosa de Penélope Cruz, a cada dia mais bonita e boa atriz), uma trama repleta de idas e vindas (que causa o terror de quem tenta resumir suas sinopses), uma trilha sonora marcante (indicada ao Oscar) e a capacidade de envolver o público sem muito esforço - além do retorno de sua parceria com a ótima Rossy de Palma. Voltando a um tema bastante caro a si mesmo - a maternidade -, o cineasta abre mão do deboche de suas produções mais anárquicas e aponta sua câmera em direção a uma história mais sombria e dramática, em que questões éticas e menções políticas caminham lado a lado sem que se atropelem ou ofusquem. Pode-se dizer que é um de seus filmes mais maduros e elegantes - o que, de certa forma, deixa pouco espaço para soluções mais catárticas e/ou lacrimosas. Pode soar um tanto anticlimático vindo de um diretor de sangue tão efervescente, mas não deixa de ser também um aceno a tempos mais delicados e sutis. "Mães paralelas" é um Almodóvar tanto atípico quando extremamente característico: um paradoxo que é, a seu modo, a cara de um dos mais fecundos e criativos realizadores da Europa desde a década de 1980.


A trama de "Mães paralelas" começa com o encontro de Janis (Penélope Cruz) e Ana (Milena Smit) em uma maternidade: a primeira, com 40 anos, está prestes a dar à luz ao filho de seu amante casado; a segunda, adolescente, tem uma relação difícil com a mãe, uma atriz retomando a carreira, e não conta com o apoio do pai do bebê. Algum tempo depois, as duas se reencontram em uma situação pouco comum - não convém dar mais detalhes para não estragar as surpresas que vão surgindo - e criam laços inesperados e profundos. Enquanto isso, Janis insiste em seu projeto profissional de buscar, com a ajuda do pai de sua filha, as ossadas de presos políticos desaparecidos durante o regime franquista. 

Mencionado em uma única linha de diálogo de "Carne trêmula" (1997) - e mesmo assim de forma bastante implícita -, o sangrento período, compreendido entre 1939 e 1976, em que Francisco Franco espalhou violência e repressão junto a seus opositores na sociedade espanhola, surge em "Mães paralelas" com importância crucial, ainda que isso só fique claro em seus instantes finais. O que pode parecer um tanto gratuito transforma-se, aos poucos, em mais uma prova da capacidade de Almodóvar em conduzir o espectador por caminhos imprevisíveis - e com mais camadas do que se pressupunha. Afinal, se o cerne de seu filme é a maternidade (símbolo maior de lar e família), não seria o reencontro com o passado uma forma de fazer as pazes com o futuro? Almodóvar não apresenta respostas, apenas aponta questões - como um bom artista em sintonia com a sensibilidade e a inteligência de sua plateia. Talvez tudo só faça sentido um bom tempo depois da sessão, mas não é essa perenidade que caracteriza o bom cinema?

quarta-feira

O QUE EU FIZ PARA MERECER ISSO?

O QUE EU FIZ PARA MERECER ISSO? (Une heure de tranquillité, 2014, TF1 Films Production/Wild Bunch/Fidélité Films, 79min) Direção: Patrice Leconte. Roteiro: Florian Zeller, peça teatral de Florian Zeller, Simon Gray. Fotografia: Jean-Marie Dreujou. Montagem: Joelle Hache. Música: Éric Neveux. Direção de arte: Ivan Maussion. Produção: Olivier Delbosc. Elenco: Christian Clavier, Carole Bouquet, Valérie Bonneton, Rossy de Palma, Stéphanie de Groodt, Sébastien Castro, Christian Charmetant. Estreia: 31/12/14

O título em português é semelhante ao clássico oitentista de Pedro Almodóvar, mas "O que eu fiz para merecer isso?" não tem, rigorosamente, nada a ver com a comédia surrealista do cineasta espanhol - a não ser que se conte a participação de Rossy de Palma, colaboradora célebre do oscarizado diretor de "Fale com ela" (2002) e "Tudo sobre minha mãe" (1999). Baseado em uma peça de teatro escrita pelo roteirista Florian Zeller em parceria com Simon Gray, o filme do veterano Patrice Leconte é um típico produto francês: verborrágico, autocrítico e com um humor bem mais sofisticado que a média. Para sorte do espectador, porém, essa sofisticação não o impede de ser um passatempo divertido e rápido (pouco menos de uma hora e meia), capaz de fazer rir graças a suas inusitadas situações e personagens bem delineados e interpretados por um belo elenco - liderado pelo sensacional Christian Clavier, conhecido do grande público por seu trabalho como Asterix, nas adaptações cinematográficas dos famosos quadrinhos de René Goscinny e Alberto Uderzo.

Especialista em interpretar pais de família à beira de um ataque de nervos (para novamente citar Almodóvar), Clavier mais uma vez demonstra um timing cômico impecável na pele de Michel Leproux, o protagonista do filme de Leconte. Odontologista consagrado e bem estabelecido em um belo e amplo apartamento de Paris, Michel encontra, em um de seus passeios pelos mercados de pulga da cidade, um vinil raro de jazz, o qual procurava há décadas. Sabendo que seu melhor amigo, Pierre (Christian Charmetant), irá visitá-lo logo mais, ele corre até seu doce lar com o objetivo claro e simples de ter uma simples hora de tranquilidade (a hora do título original em francês) e deleitar-se com sua música preferida. Como planos nunca costumam dar certo - especialmente em comédias -, tudo parece conspirar contra o momento de paz de Michel. Sua mulher, Nathalie (Carole Bouquet), está decidida a revelar um segredo do passado, incentivada por seu terapeuta; sua amante, Elsa (Valérie Bonneton), melhor amiga de sua mulher, quer expor o relacionamento extraconjugal, movida por um intenso sentimento de culpa; seu filho, Sébastien (Sébastien Castro) está hospedando uma família de imigrantes filipinos no apartamento exatamente acima dos pais; e, se não bastasse, uma dupla de estrangeiros está cuidando da reforma do banheiro (leia-se demolindo ruidosamente as paredes).


Desesperado pela série de situações que o rodeiam e o impedem de ser feliz por alguns minutos, Michel ainda precisa lidar com o vizinho, Pavel (Stéphane de Groodt) - que sofre com o vazamento do banheiro do andar de cima e está preparando cuidadosamente uma festa para todos os moradores do prédio - e a voluntariosa empregada doméstica, Maria (Rossy de Palma). Quando percebe que definitivamente sua esperança está destruída, novos problemas surgem no horizonte - e revelações bombásticas transformam uma banal tarde de sábado em um pesadelo kafkiano, em que imigrantes, pedreiros, vizinhos desconhecidos e amantes secretos se tornam parte do mesmo universo. Essa estrutura teatral é muito bem conduzida por Leconte, em um trabalho discreto, quase minimalista em termos de produção. Praticamente sem tomadas externas e desenvolvido dentro de um período de tempo bem definido, "O que eu fiz para merecer isso?" não nega suas origens teatrais, mas jamais se prende às limitações que elas poderiam lhe impor, dado o frescor de seu texto e do talento de seu elenco: seguros e com excelente química, eles transformam a experiência em diversão pura.

Conhecido por filmes densos, como "Um homem meio esquisito" (1989), "O marido da cabeleireira" (1990) e "Caindo no ridículo" (1996), indicado ao Oscar, Leconte mais uma vez encontra no humor a forma ideal de criticar o moralismo e a hipocrisia da sociedade. O desfile de personagens inusitados - mas aparentemente normais - que surge diante dos olhos de Michel (e do espectador) é um retrato de uma Europa tanto cosmopolita quanto fechada. A luta ideológica de Sébastien em defender imigrantes enquanto pedreiros estrangeiros batalham por dinheiro em um emprego insalubre no apartamento de seu pai, por exemplo, é sintomático dessa esquizofrenia que se estende pelo mundo inteiro - assim como a indignação do protagonista ao descobrir segredos da esposa enquanto ele mesmo tem seus mistérios a encobrir. A reunião forçada de vizinhos, a solidão e a falta de comunicação também estão entre os temas discutidos no texto - em maior ou menor grau de clareza e obviedade. Inteligente e sarcástico, "O que eu fiz para merecer isso?" é uma delícia, ainda que nem todo mundo vá perceber toda a extensão de sua crítica.

segunda-feira

JULIETA

JULIETA (Julieta, 2016, El Deseo S/A, 99min) Direção: Pedro Almodóvar. Roteiro: Pedro Almodóvar, contos de Alice Munro. Fotografia: Jean Claude Carrieu. Montagem: José Salcedo. Música: Alberto Iglesias. Figurino: Sonia Grande. Direção de arte/cenários: Antxon Gómez/Federico G. Cambero. Produção: Agustin Almodóvar, Esther Garcia. Elenco: Emma Suárez, Adriana Ugarte, Daniel Grao, Inma Cuesta, Rossy de Palma, Dario Grandinetti, Michelle Jenner, Pilar Castro, Nathalia Poza, Susi Sánchez, Joaquín Notario, Priscilla Delgado. Estreia: 08/4/16

Depois de flertar com o suspense psicológico em "A pele que habito" (2011) e voltar às origens debochadas com "Os amantes passageiros" (2013), o cineasta espanhol Pedro Almodóvar estava devendo aos fãs um novo mergulho no denso universo feminino do melodrama - gênero que lhe proporcionou os maiores sucessos de crítica da carreira, como "Tudo sobre minha mãe" (99) e "Volver" (06), e do qual estava afastado desde "Abraços partidos" (09). Pois foi somente no Festival de Cannes de 2016 que ele presenteou o público com mais uma pequena obra de arte, um filme delicado e sensível sobre a alma humana e seus desvãos: inspirado em três contos da escritora canadense Alice Munro, "Julieta" saiu da Riviera Francesa sem nenhum prêmio, mas reconquistou o carinho da plateia graças à sua extrema delicadeza e força dramática. Ainda um exímio diretor e roteirista implacável, Almodóvar se debruça sobre a tristeza e a melancolia para contar as desventuras da personagem-título - interpretada com segurança por Emma Suárez e Adriana Ugarte - em meio a seus belíssimos enquadramentos e suas características cores vivas.

Renunciando totalmente ao humor podreira do início de sua carreira e que vez ou outra dava as caras em suas produções mais sérias, dessa vez Almodóvar resolveu apostar sem medo no drama explícito, sem espaço para respiros. Ainda mantém o flashback como peça fundamental de sua narrativa - algo que faz como poucos - e jamais abandona o cuidado extremo com o visual de suas cenas, valorizado pela fotografia de Jean Claude Carrieu, discreta o bastante para não chamar mais atenção do que a trama que se desenrola diante do espectador. O uso impactante do vermelho também continua parte indissociável de sua personalidade artística, bem como sua inacreditável capacidade de transformar o mais banal drama doméstico em um poderoso estudo sobre as emoções humanas. Amor, culpa, ciúme, inveja, solidão e desejo estão presentes em cada momento do filme, misturados pelas mãos mágicas do cineasta e interpretados por uma dupla de expressivas atrizes dividindo o papel central. Assim como todos os seus filmes anteriores, "Julieta" não é drama de uma única emoção - e Almodóvar faz com que o espectador sinta cada uma delas sem que para isso precise apelar para lágrimas e sorrisos fáceis.


A trama, aparentemente simples, começa quando Julieta (Emma Suárez), uma ex-professora de literatura grega em vias de deixar Madri com o namorado, o escultor Lorenzo (Dario Grandinetti, de "Fale com ela", também de Almodóvar), reencontra, na rua, a jovem Beatriz (Michelle Jenner), amiga de infância de sua única filha, Antía. O reencontro mexe profundamente com Julieta, que não vê nem tem notícias da filha há anos, desde que esta viajou para um retiro espiritual e nunca mais procurou a mãe. Desistindo de sair do país e voltando para o apartamento onde morava com a menina, Julieta entra em uma jornada através do tempo, relembrando sua história de amor e perda com Xoan (Daniel Grao), iniciada em uma viagem de trem e terminada tragicamente, de forma a deixar marcas indeléveis em sua alma. Dessas memórias - quando é interpretada por Adriana Ugarte - fazem parte outros personagens importantes, como a empregada doméstica Marian (Rossy de Palma, presença constante na obra do diretor) e a escultora Ava (Inma Cuesta), que, de um modo ou outro, são fundamentais no rumo dos acontecimentos.

Magistralmente executado - sem excessos e dotado de uma elegância quase inédita na carreira do cineasta - "Julieta" é um filme de notas menores, uma surpresa quando se trata do normalmente excêntrico Almodóvar. Apresentando emoções contidas e represadas, sua trama aposta no minimalismo, como refletindo o silêncio da protagonista diante de seu constante desespero. Ao fugir de sua zona de conforto e evitar catarses grandiosas, o diretor segue o caminho inverso de sua obra até aqui e surpreende positivamente, mostrando (mais uma vez) que, por trás do rebelde e escandaloso autor de "Mulheres à beira de um ataque de nervos" (88) existe um homem de sensibilidade rara quando se trata de conhecer a alma humana - em especial a feminina. Até mesmo o final - anti-climático para alguns, emocionante para outros - é quase uma antítese do Almodóvar histriônico ao que se está acostumado. E é sempre refrescante e empolgante perceber que um grande artista ainda tem o poder de se reinventar com tanta genialidade. Bravo, Almodóvar! Mais uma vez.

ABRAÇOS PARTIDOS




ABRAÇOS PARTIDOS (Los abrazos rotos, 2009, El Deseo SA, 127min) Direção e roteiro: Pedro Almodovar. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: José Salcedo. Música: Alberto Iglesias. Figurino: Sonia Grande. Direção de arte/cenários: Antxón Gómez/Marta Blasco, Pilar Revuelta. Produção: Agustin Almodovar, Esther García. Elenco: Penelope Cruz, Lluis Homar, Blanca Portillo, Tamar Novas, Angela Molina, Lola Dueñas, Rossy de Palma. Estreia: 17/3/09 (Barcelona)

"Abraços partidos", o 18º longa-metragem de Pedro Almodovar  proporciona a seu público um fato até então inédito em sua vitoriosa carreira: a autocitação. Não que isso seja um defeito, até porque qualquer citação de Almodovar sempre será bem-vinda, mas é que, quando se assiste às cenas de "Garotas e maletas" - o filme dentro do filme - dá uma saudade tremenda da época em que o diretor espanhol não se levava tão a sério e, mesmo não sendo tão respeitado como passou a ser depois de obras mais "maduras", fazia rir diante dos absurdos de seus roteiros e suas personagens iconoclastas e neuróticas. Talvez como forma de mostrar que por detrás do diretor sóbrio de "Fale com ela" e "Volver" ainda existe um enfant terrible, Almodovar encerra seu filme com sorrisos, depois de mais de duas horas de uma trágica história de amor que trai sua adoração e respeito pelo melodrama - já explícita em "A flor do meu segredo".

Como raríssimas ocasiões na carreira do cineasta, o protagonista é um homem. No caso, um roteirista cego chamado Harry Caine (que soa como hurricane - ou furacão) que vê seu passado literalmente bater-lhe à porta na figura de Ray X (Rubén Ochandiano), um aspirante à cineasta que quer contratar-lhe para escrever um roteiro. Caine recusa a oferta sem saber que o jovem tem uma forte ligação com a trágica história de seu torturado relacionamento com a bela Lena (Penelope Cruz, linda como nunca), a esposa de Ernesto Martel (José Luis Gómez), um empresário milionário que também foi o produtor de seu último (e inacabado, ao menos para ele, filme). Para saciar a curiosidade de Diego (Tamar Novas), filho de sua assistente Judit (Blanca Portillo), Caine passa a narrar os fatos que o levaram à cegueira e à aposentadoria como cineasta.


Contando sua história basicamente em flashbacks, Pedro Almodovar apresenta à sua audiência uma história de amor que difere em muito de tudo que ele mesmo contou anteriormente. Substituindo o sarcasmo e a ironia pela melancolia, ele se aproxima muito mais de "Fale com ela" do que "Mulheres à beira de um ataque de nervos" (inspiração para "Garotas e maletas"). Poucas vezes na obra do diretor o amor foi retratado de maneira tão séria e avassaladora, sem espaços para piadas ou até mesmo para sexo: talvez este seja seu filme menos calcado na sexualidade, um dos pilares de sua obra até então. O que pode afastar seu público fiel, portanto - as características marcantes de sua filmografia - pode aproximá-lo daqueles que ainda não se deixaram seduzir pela perfeição de seus filmes de 1998 pra cá, quando ele aprimorou seu estilo com inteligência e sensibilidade. "Abraços partidos", não fosse a presença de Penelope Cruz e a presença afetiva de Angela Molina, Lola Dueñas e Rossy de Palma (todas ex-colaboradoras de Pedro), poderia tranquilamente se passar por um filme de qualquer diretor, tamanha a neutralidade imposta por Almodovar na maior parte de suas duas horas de duração.

Essa neutralidade, porém, não quer dizer, de modo algum, que "Abraços partidos" não tenha personalidade. Pedro Almodovar sabe como ninguém utilizar as ferramentas à sua disposição para criar imagens e personagens que ficam para sempre na mente do espectador. Aqui, ele cria duas sequências antológicas: a hilariante cena em que o milionário Ernesto Martel descobre, através de uma dubladora, que sua amada Lena está tendo um caso com seu diretor e a belíssima tomada que mostra o casal em uma praia deserta, abraçados e totalmente inocentes da tragédia que viria a mudar suas vidas em pouco tempo. Se não fosse o bastasse a forma mágica como o cineasta conta sua história - seduzindo a plateia aos poucos - essas duas cenas (e "Garotas e maletas", é claro) já valeriam o espetáculo. Mas um Almodovar nunca oferece poucas sensações.

terça-feira

A FLOR DO MEU SEGREDO

A FLOR DO MEU SEGREDO (La flor de mi secreto, 1995, El Deseo S/A, 103min) Direção e roteiro: Pedro Almodovar. Fotografia: Affonso Beato. Montagem: José Salcedo. Música: Alfredo Iglesias. Figurino: Hugo Mezcua. Direção de arte/cenários: Esther Garcia/Miguel López Pelegrín. Produção executiva: Agustin Almodovar. Produção: Esther García. Elenco: Marisa Paredes, Juan Echanove, Carme Elias, Rossy de Palma, Chus Lampreave, Imanol Arias, Kiti Manver, Joaquin Cortes. Estreia: 22/9/95

Depois de tornar-se famoso por suas obras transgressoras, repletas de um humor frequentemente grosseiro embalado por um senso de autocrítica e um visual propositalmente kitsch, o cineasta espanhol Pedro Almodovar enveredou pelo melodrama, um de seus gêneros cinematográficos preferidos, em filmes como "De salto alto" - onde analisava a relação de amor e ódio entre mãe e filha. Seu trabalho seguinte, "A flor do meu segredo", dá continuidade a esse caminho, com uma sofisticação narrativa que alguns anos depois lhe consagraria como um dos mais inventivos roteiristas do cinema contemporâneo. Sóbrio e austero, o 11º filme de Almodovar é, provavelmente, um de seus mais coerentes com sua carreira, por mais paradoxal que soe essa afirmação.


Como é constante na obra de Almodovar, o centro da história é uma mulher à beira de um ataque de nervos, a escritora Leo Macias (em esplêndida atuação de Marisa Paredes). Afastada do marido que está lutando na Bósnia e infeliz com sua carreira literária - ela usa o pseudônimo de Amanda Gris para publicar romances água-com-açúcar que vendem aos milhares apesar de seu desprezo por eles - Leo é uma pessoa extremamente solitária, capaz de pagar a alguém na rua para ajudá-la a tirar as botas que apertam seus pés. Enquanto flutua pela vida, ela conta com a ajuda da amiga Betty (Carme Elias), lida com a família - representada pela mãe e pela irmã (as sensacionais Chus Lampreave e Rossy de Palma) - e atrai a atenção do jornalista Angel (Juan Echanove), que a contrata para escrever uma matéria criticando Amanda e se apaixona por ela.


A trama criada por Almodovar - aparentemente simples, mas complexa em emoções e sentimentos de dor e perda - flui com delicadeza diante dos olhos do espectador, ao contrário da narrativa quase histérica de seus filmes anteriores. Marisa Paredes entrega uma interpretação fascinante, calcada basicamente em olhares e pequenos gestos, que a aproximam do público sem dificuldade. Constantemente em lágrimas, ela consegue o feito de diferenciá-las, não tornando o filme um programa lacrimoso e piegas. A dor de Leo, captada pelas lentes discretas de Affonso Beato, é avassaladora, mas o cineasta jamais cai na armadilha de exagerá-la, preferindo acompanhar sua trajetória rumo à superfície, depois de um mergulho sufocante na depressão, de forma magistral. Não é exagero afirmar que "A flor do meu segredo" apresenta um dos melhores trabalhos de direção do espanhol.

Mas existe muito mais, em "A flor do meu segredo", do que o roteiro esperto, a direção segura e a atuação de Marisa Paredes - ainda que estes três elementos já sejam suficientes para colocar o filme como um dos melhores europeus da década de 90. De forma extremamente orgânica e inteligente, Almodovar também povoa seu filme com coadjuvantes interessantes, que de uma forma ou outra, cruzam o caminho de Leo para ajudá-la em seu momento de dor. Ao contrário do que acontece muitas vezes, nenhum personagem existe sem razão. Unidos por Leo estão sua família, sua empregada - e o filho dançarino - a melhor amiga, o marido, o editor apaixonado. Todos tem personalidade, todos tem importância, todos fazem parte do quebra-cabeças que formam o renascimento de Leocadia Macias em outra mulher - e todos também mantém seus próprios segredos.

E, se não bastasse tudo isso, "A flor do meu segredo" dialoga, de maneira direta, com outros dois filmes que o cineasta realizaria posteriormente: Betty trabalha em um hospital e apresenta conferências sobre doação de órgãos - e uma cena mostra a gravação de um vídeo que encoraja o ato, assim como acontece em "Tudo sobre minha mãe", de 1999. E uma das histórias contadas por Leo para um futuro romance - de um mãe que assume a morte do marido para poupar a filha - é uma das subtramas de "Volver", lançado em 2006. Dois pequenos bônus para os fãs do diretor, capazes de deixá-los com um sorriso nos lábios.

KIKA

KIKA (Kika, 1993, El Deseo, 114min) Direção e roteiro: Pedro Almodovar. Fotografia: Alfredo Mayo. Montagem: José Salcedo. Figurino: José María Cossio, Gianni Versace. Direção de arte: Alain Bainée, Javier Fernandez. Produção: Agustin Almodovar. Elenco: Veronica Forqué, Peter Coyote, Victoria Abril, Àlex Casanovas, Rossy de Palma, Santiago Lajusticia. Elenco: 29/10/93

Dono de uma das mais criativas mentes do cinema europeu, o cineasta e roteirista Pedro Almodovar tem uma séria tendência ao melodrama. Reviravoltas mirabolantes, crimes misteriosos e passionais e amores obsessivos são moeda corrente em sua filmografia. Normalmente pródigo em equilibrar elementos dramáticos com as mais absurdas e surreais situações, o espanhol também é especialista em criar memoráveis personagens femininas. Por isso, não é nenhuma surpresa o fato de o maior destaque de "Kika" seja justamente uma bizarra jornalista chamada Andrea Caracortada. Sensacionalista e fria a ponto de filmar impassível um assassinato - para aumentar os índices de audiência de programa de TV chamado "O pior do dia" - ela é vestida por Jean-Paul Gautier, pilota uma motocicleta com um capacete munido de uma câmera e abusa de imagens do mundo-cão para sobressair em sua profissão - além, é claro, de ostentar uma cicatriz na face direita. A surpresa aqui é que Andrea Caracortada, apesar de roubar todas as cenas em que aparece, não é a protagonista do filme.

Vivida por Veronica Forqué, a personagem-título é uma maquiadora dotada de grande otimismo que, mesmo morando com o namorado fotógrafo, Ramon (Alex Casanova), mantém um tórrido romance com o padrasto dele, o escritor americano Nicholas (Peter Coyote). A volta de Nicholas à Espanha abala o relacionamento um tanto frio de Kika e Ramon, especialmente porque o rapaz desconfia que a morte de sua mãe não foi o suicídio oficial e sim um assassinato. O triângulo amoroso cruza o caminho de Andrea - novamente, já que ela foi amante de Ramon em outros tempos - quando o ator pornô Pablo (Santiago Lajusticia), irmão da empregada lésbica de Kika, Juana (Rossy de Palma), invade o apartamento da esteticista e a estupra repetidas vezes.

Apesar de brincar com temas sérios - violência sexual, adultério, homicídios - Almodovar não consegue, em "Kika" repetir o mesmo nível de sucesso de seu filme mais famoso até então, "Mulheres à beira de um ataque de nervos". Indeciso entre narrar uma história policial ou debochar dos excessos com que o gênero se mantém, ele não atinge aqui o delicado equilíbrio entre o drama e a comédia de seus trabalhos anteriores. Prejudicado pela falta de carisma de sua atriz principal - que substituiu Maria Barranco (a amante do terrorista de "Mulheres...") na última hora - o décimo longa-metragem de Almodovar esbarra na falta de interesse da história, não particularmente empolgante. No entanto, espertamente, seu maior trunfo acaba se tornando também a prova da fragilidade de sua protagonista.



Na pele de Andrea Caracortada - e se divertindo notadamente em cena - Victoria Abril tem os diálogos mais "almodovarianos" do filme, repletos de um humor surreal  (a entrevista que faz com a mãe de um acusado de homicídio, por exemplo, é uma pérola de humor negro). Ainda que sua personagem não tenha uma profundidade maior - uma deficiência que o diretor curou majestosamente em seus trabalhos posteriores - Abril deita e rola, em uma das atuações mais fascinantes de sua carreira. Sempre que ela sai de cena o filme enfraquece, mesmo contando com a participação da também hilária Rossy de Palma. De Palma, aliás, um dos rostos mais estranhos do cinema europeu da época, também não fica atrás em termos de aproveitamento: todas as suas cenas nunca são menos do que engraçadíssimas. E isso inclui a polêmica sequência do estupro de sua patroa.

Em uma longa cena - mais de dez minutos - Almodovar mostra Kika sendo estuprada pelo irmão de sua empregada, um ator pornô foragido da cadeia que tenciona bater o recorde de gozar quatro vezes sem tirar. Em uma prova inconteste do humor sui generis do cineasta, ao invés de chocar ou indignar, a cena é uma das mais hilárias do filme - e isso inclui a participação de dois policiais bastante incomuns e um misterioso voyeur, que assiste a tudo de sua janela. Enquanto é estuprada, Kika não chora nem dramatiza: conversa com seu agressor e até mesmo tenta ajudá-lo em sua missão, ao simular o orgasmo mais falso da história do cinema...

Talvez "Kika" seja o filme menos brilhante de Almodovar - uma espécie de transição entre seu lado marginal e seu status de autor que se firmaria em pouco tempo. Mas é divertido, diferente e jamais comum, o que, convenhamos, é bom o suficiente.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...