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segunda-feira

ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO

 


ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO (Before the devil knows you're dead, 2007,  Capitol Films/Funky Buddha Productions/Unity Productions, 117min) Direção: Sidney Lumet. Roteiro: Kelly Masterson. Fotografia: Ron Fortunato. Montagem: Tom Swartwout. Música: Carter Burwell. Figurino: Tina Nigro. Direção de arte/cenários: Christopher Nowak/Diane Lederman. Produção executiva: Belle Avery, Jane Barclay, David Bergstein, J. J. Hoffman, Eli Klein, Hannah Leader, Jeffry Melnick, Sam Zaharis. Produção: Michael Cerenzie, William S. Gilmore, Brian Linse, Paul Parmar. Elenco: Phillip Seymour Hoffman, Ethan Hawke, Marisa Tomei, Albert Finney, Rosemary Harris, Amy Ryan, Michael Shannon. Estreia: 07/9/2007 (Deauville Festival of American Cinema)

No mínimo desde "12 homens e uma sentença" (1957) - passando por clássicos absolutos como "Serpico" (1973), "Um dia de cão" (1975) e "Rede de intrigas" (1976) -, o cineasta Sidney Lumet acostumou-se a entregar ao público produções que apresentavam personagens dúbios, falíveis e dispostos a correrem riscos em nomes de objetivos quase sempre suicidas. Depois de um longo período de obras menores e/ou sem repercussão popular e de crítica, ele voltou a seu tema preferido em "Antes que o diabo saiba que você está morto", uma poderosa mescla de filme policial e drama familiar que acabou por ser, sem que ele mesmo soubesse disso, seu canto do cisne. Dirigindo com precisão cirúrgica o trágico e surpreendente primeiro roteiro de Kelly Masterson, o veterano Lumet demonstra uma vitalidade rara para um artista octogenário, mantendo o espectador atento a cada reviravolta e cada nuance revelada por seus protagonistas. E é lógico que ajuda muito contar, no elenco, com atores brilhantes como Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke e Albert Finney - em uma de suas últimas aparições nas telas.

Com ecos de Shakespeare em sua trama - imprevisível e pessimista -, "Antes que o diabo saiba que você está morto" apresenta dois irmãos de personalidades opostas que se unem para cometer um crime aparentemente perfeito: o roubo a uma joalheria familiar em uma manhã de pouco movimento. Andy (Philip Seymour Hoffman) está em vias de ter descoberto o desfalque que deu na empresa onde trabalha, enquanto Hank (Ethan Hawke) vive sob a pressão de dever a pensão para a ex-mulher ao mesmo tempo em que se culpa por não conseguir ser o filho que seu pai, Charles (Albert Finney), sonhava ter. Com o fracasso do assalto - que acaba em duas mortes - a vida da família vira do avesso: chantageados pelo irmão de uma das vítimas (que sabe de sua responsabilidade na tragédia), Andy e Hank entram em um caminho de sangue, violência e traições, que envolve Gina (Marisa Tomei) - esposa de um e amante do outro - e o próprio patriarca.

 

Contada de forma não linear, recheada de idas e vindas no tempo que servem para oferecer ao público as peças que formam seu quebra-cabeças, a trama do filme de Lumet se utiliza de tal artifício não como muleta narrativa, mas como parte fundamental de sua estrutura. Conforme novas informações a respeito dos acontecimentos que levaram ao crime - e suas consequências - vão surgindo diante do espectador, mais potentes as camadas vão se revelando, reafirmando o tom fatalista da expressão irlandesa que empresta o nome à produção. As surpresas reservadas a cada capítulo - com uma edição primorosa, que explicita apenas o que é necessário no momento - tornam "Antes que o diabo saiba que você está morto" um drama policial que rompe com as tradicionais engrenagens do gênero, aprofundando as relações interpessoais até o limite da inevitável ruptura. Com três focos distintos - Andy, Hank e Charles - que se intercalam e se completam, o roteiro de Kelly Masterson empolga exatamente por sua capacidade de surpreender e por sua coragem em chegar a desdobramentos que a maioria das produções do gênero evita a todo custo. E não atrapalha em nada que Lumet possa contar com um elenco absolutamente impecável.

Assim como seus personagens, Philip Seymour Hoffman e Ethan Hawke são atores de personalidades distintas, e o experiente cineasta explora com precisão tais diferenças, em cenas de crescente tensão que enfatizam suas qualidades como intérpretes e potencializam cada linha de diálogo. O veterano Albert Finney tampouco fica atrás, com ao menos duas sequências arrepiantes - uma delas encerrando de forma chocante o drama familiar estabelecido nos primeiros minutos. E em um elenco tão incrível, o único senão é o pouco aproveitamento de Rosemary Harris e Amy Ryan - partes femininas de um clã onde apenas Marisa Tomei tem reais chances de brilhar. Forte e coeso, o conjunto de atores (premiado por várias associações de críticos) é a tradução perfeita de um roteiro inteligente, uma direção energética e, o que é mais importante de tudo, uma história envolvente. Um adeus digno da grandeza de seu diretor.

CAINDO NA REAL

CAINDO NA REAL (Reality bites, 1994, Universal Pictures, 99min) Direção: Ben Stiller. Roteiro: Helen Childress. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Lisa Churgin, John Spence. Figurino: Eugenie Bafaloukos. Direção de arte/cenários: Sharon Seymour/Maggie Martin. Produção executiva: Wm. Barclay Malcolm, Stacey Sher. Produção: Danny De Vito, Michael Shamberg. Elenco: Winona Ryder, Ethan Hawke, Ben Stiller, Steve Zahn, Janeane Garofalo, Swoosie Kurtz. Estreia: 18/02/94

Convencionou-se chamar de "Geração X" aquela formada pelos nascidos entre meados da década de 60 e final dos anos 70 - posteriores, portanto, ao Baby Boom ocorrido logo após a II Guerra Mundial. Mesmo cunhada pelo fotógrafo Robert Capa em 1950, ela serviu para definir um grupo específico de jovens que, vindos ao mundo no período pós-1960, enfrentavam um futuro ainda incerto e sem tanto otimismo. Em 1964, a jornalista Jane Deverson voltou a utilizar o termo em um ensaio para uma revista britânica - dessa vez descrevendo os integrantes do grupo como jovens que não respeitavam os padrões pré-estabelecidos e conservadores da geração anterior. Foi somente com o lançamento do livro "Geração X: contos para uma cultura acelerada" (91), de Douglas Coupland, no entanto, que o apelido pegou de vez - e tornou-se o carimbo de uma juventude cujo niilismo e desilusão eram marcas registradas. Hollywood não demorou em perceber que tinha em mãos um possível nicho e logo tratou de conceber a sua própria visão do fenômeno. "Vida de solteiro" (92), de Cameron Crowe, inaugurou o filão com largas doses de rock e humor, mas não agradou nas bilheterias e imediatamente pôs em dúvida o potencial comercial de filmes relacionados ao tema. Essa falta de interesse repentina - e até justificável - acabou sendo a maior dificuldade, então, no caminho de "Caindo na real", uma comédia dramática/romântica que tratava justamente dos conflitos e dúvidas de um grupo de amigos de vinte e poucos anos que, recém-saídos da universidade, precisam lidar com a nova realidade.

Escrito por uma jovem de apenas 19 anos, "Caindo na real" foi recusado por todos os estúdios de Hollywood - ressabiados com o fracasso de bilheteria de "Vida de solteiro" e temerosos a respeito de um filme sem grandes nomes que garantissem o retorno do investimento. Foi somente depois que a TriStar Pictures desistiu de vez do projeto, porém, que a Universal Pictures entrou na jogada - cobriu o orçamento de 11 milhões de dólares e atraiu Winona Ryder para o papel principal feminino, escrito por Helen Childress exatamente com a atriz em mente. Cansada de várias produções de época, Ryder imediatamente aceitou participar do filme e exigiu, como cláusula contratual, que Ethan Hawke fosse escalado para viver o protagonista masculino. Foi o relativo poder de Winona na época - uma das atrizes jovens mais populares e prestigiadas de sua geração - que também garantiu a presença de Janeane Garofalo, em um papel disputado por nomes em ascensão, como Gwyneth Paltrow, Anne Heche e Parker Posey: mesmo demonstrando problemas de comportamento durante as filmagens (o que ocasionou inclusive uma demissão, mais tarde revogada), Garofalo foi defendida por unhas e dentes por Winona, que a recomendou fervorosamente ao diretor do filme, o estreante Ben Stiller.


Conhecido da televisão americana, Stiller chegou a "Caindo na real" através dos produtores, que viram nele o diretor ideal para contar uma história sobre a juventude americana do começo da década de 90. Foi Stiller quem ajudou a roteirista a chegar a um roteiro final, alterando o foco central da trama: ao invés de simplesmente contar o dia-a-dia de quatro amigos recém-formados, ele preferiu voltar sua atenção para um triângulo amoroso que, como uma metáfora romântica, simbolizava as dúvidas que torturavam as mentes juvenis do momento: o amor rebelde e idealista ou o conforto de uma vida estável e profissionalmente enquadrada nos padrões da sociedade? Surgia assim o ponto crucial da questão, que renegava a ideia inicial (retratar a tal "geração X") para aproximar o filme de uma plateia mais ampla. Em parte deu certo: se não foi um assombroso sucesso, ao menos não comprometeu as carreiras dos envolvidos - e recebeu carinhosos elogios da crítica.

O centro da trama é Lelaina Pierce (Winona Ryder), uma jovem que, enquanto trabalha como assistente de um programa de televisão apresentado pelo arrogante Grant Gubler (John Mahoney), sonha em lançar um documentário sobre ela e seus melhores amigos, todos em momentos decisivos de suas vidas. Troy Dyer (Ethan Hawke) é um músico em constante busca por reconhecimento e um lugar ao sol; Vickie Miner (Janeane Garofalo) trabalha em uma loja de roupas e se preocupa com a possibilidade de ter contraído AIDS; e Sammy Gray (Steve Zahn) tenta lidar com as dúvidas a respeito de sua sexualidade. Unidos, os quatro atravessam um período de mudanças em suas trajetórias, mas é Lelaine quem irá precisar tomar a mais difícil decisão: encarar sua paixão por Troy e embarcar em uma vida mais próxima do que sonha ou ficar ao lado de Michael Grates (Ben Stiller), o executivo de uma emissora de TV que pode lhe proporcionar uma estabilidade profissional e financeira? Winona Ryder nem precisa se esforçar muito para convencer na pele de Lelaina - linda e carismática, ela é a escolha ideal para liderar o elenco. Ben Stiller faz uma estreia promissora, dotando seu filme de ritmo e leveza apropriados, ilustrados com uma trilha sonora das mais adequadas e uma simpatia natural, que dá a seus personagens complexidades surpreendentes em uma produção voltada para um público mais afeito a efeitos visuais do que sutilezas dramáticas. Só por essa coragem, "Caindo na real" já merece aplausos.

quarta-feira

SETE HOMENS E UM DESTINO

SETE HOMENS E UM DESTINO (The magnificent seven, 2016, MGM/Columbia Pictures, 132min) Direção: Antoine Fuqua. Roteiro: Nic Pizzolatto, Richard Wenk, roteiro original de Akira Kurosawa, Shinobu Hashimoto, Hideo Oguni. Fotografia: Mauro Fiore. Montagem: John Refoua. Música: James Horner. Figurino: Sharen Davis. Direção de arte/cenários: Derek R. Hill/Bradford Johnson, Melissa Lombardo. Produção executiva: Bruce Berman, Antoine Fuqua, Walter Mirisch, Ben Waisbren. Produção: Roger Birnbaum, Todd Black. Elenco: Denzel Washington, Chris Pratt, Ethan Hawke, Haley Bennett, Vincent D'Onofrio, Peter Sarsgaard, Matt Bomer, Byung Hu-Lee, Manuel Garcia-Rulfo, Martin Seinsmeier, Luke Grimes, Cam Gigandet. Estreia: 08/9/16 (Festival de Toronto)

Não deixou de ser irônica a gritaria em torno da refilmagem de "Sete homens e um destino", quando ela foi anunciada pelo cineasta Antoine Fuqua. Primeiro porque o filme de 1960, dirigido por John Sturges, foi uma decepção de bilheteria quando estreou nos EUA, tornando-se cult somente anos mais tarde, depois do sucesso comercial na Europa. E segundo porque ele mesmo não era uma ideia original, e sim o remake americano do japonês "Os sete samurais" (54), de Akira Kurosawa, este sim um êxito internacional incontestável e atemporal. Estrelado por um elenco de astros do gabarito de Yul Brinner, Steve McQueen e Charles Bronson, a versão de Sturges acabou se transformando em um clássico do western americano, uma espécie de patrimônio intocável - o que resultou na série de questionamentos a respeito dos motivos que levariam Fuqua (um diretor apenas razoável, cujo maior cartão de visita é "Dia de treinamento", que deu o Oscar de melhor ator a Denzel Washington em 2002) a mexer com tal vespeiro. A boa notícia é que, apesar das alterações em pequenos detalhes da trama (ou talvez justamente por causa delas), a versão século XXI de "Sete homens e um destino" - politicamente correta, representativa e multicultural - é um faroeste à moda antiga filmado com os recursos da moderna Hollywood. Em resumo, o melhor dos dois mundos em um resultado final que agrada aos neófitos (aqueles que jamais assistiram a nenhum dos originais) e não ofende aos fãs dos clássicos.

Como não poderia deixar de ser ao tratar-se de um filme dirigido por um cineasta afro-americano engajado e militante, a principal mudança de "Sete homens e um destino" em relação à versão de Sturges foi eleger como protagonista um ator negro (algo impensável em uma Hollywood que somente no final da década de 60 começaria a dar os primeiros e tímidos passos em direção ao assunto, com a presença de Sidney Poitier em sucessos de bilheteria e crítica). Na pele do destemido oficial de justiça Sam Chilsom - que anda pelo país à caça de bandidos procurados pela polícia - está Denzel Washington, um dos mais representativos astros negros dos EUA, respeitado e admirado tanto pelo público quanto pela indústria. Sua imponência física e seu ar de autoconfiança cai como uma luva na história, reescrita por Nic Pizzolatto e Richard Wenk de acordo com os tempos modernos: não apenas o grupo de protagonistas é liderado por um negro, mas conta também com um oriental, um indígena, um mexicano e, surpresa das surpresas, tem até mesmo uma forte presença feminina na figura de Emma Cullen (Haley Bennett), a responsável por pedir ajuda a Chilsom na sua batalha para livrar sua pequena cidade, Rose Creek, dos desmandos do implacável e truculento Bartholomew Bogue (Peter Sarsgaard, assustadoramente magro e cruel). É Emma, que acaba de perder o marido pelas mãos sanguinárias de Bogue, quem contrata os serviços de Chilsom - mas, como manda o figurino do cinema do século XXI, não se faz de rogada e não foge à luta, encarando em pé de igualdade (ou quase) o batalhão de capangas que aceita o desafio de invadir a cidade e tomá-la a custo de sangue.


A primeira parte do filme, como não poderia deixar de ser, serve para que Fuqua apresente seus personagens e mostre como cada um dos sete homens do título é recrutado. Assim, surge em cena o falastrão e carismático Josh Faraday (Chris Pratt em papel sob medida para seu talento em roubar cenas), o traumatizado e famoso atirador Goodnight Robicheaux (Ethan Hawke) - junto com seu associado Billy Rocks (Byung-hun Lee) - e o veterano e excêntrico Jack Horner (Vincent D'Onofrio). O grupo é completo pelo mexicano fora-da-lei Vasquez (Manuel Garcia-Rulfo em papel que quase ficou com o brasileiro Wagner Moura) e o indígena Red Harvest (Martin Seinsmeier), que partem em direção à Rose Creek com o objetivo de resolver a questão definitivamente. Além deles, estão Emma e seu amigo Teddy Q (Luke Grimes), que tem razões mais do que suficientes para odiar Bogue e o que ele representa - algo que os une à Chilsom, que também tem questões mal-resolvidas com o ambicioso latifundiário. Depois de um tiroteio que anuncia sua chegada à cidade, o bando de Chilsom então marca o duelo com seu antagonista - e é aí que Fuqua surpreende positivamente.

Dirigindo com firmeza longas sequências de ação, o cineasta não apenas consegue o feito de não soar tedioso ou repetitivo como ainda vai mais longe, orquestrando uma coreografia milimetricamente criada para manter o público de olhos grudados na tela. Para isso, colabora a edição de John Refoua - que mantém mais de uma linha narrativa ao mesmo tempo - e o trabalho de sonorização, impecável e eficiente. Se até então o maior mérito do filme era desenvolver os personagens com a maior clareza possível em tão pouco tempo (a duração mal passa de duas horas, um milagre em tempos de obras que chegam a 180 minutos sem necessidade), a partir do começo da briga entre mocinhos e bandidos ,"Sete homens e um destino" se apresenta como um legítimo representante do western moderno - sem complexidades existenciais ou autoparódia, mas como um filme que deixa bem claro a linha que separa o bem do mal, a luz das trevas, a honra da traição. Seus protagonistas - por mais falíveis que sejam -, carregam a aura de heróis, uma aura que forjou um dos gêneros mais queridos e influentes da indústria hollywoodiana. Ao respeitar os cânones de tal gênero e filtrá-lo sob uma luz moderna, Fuqua criou seu melhor trabalho, um filme que encanta pelos valores de produção - como a bela fotografia de Mauro Fiore e a trilha sonora de James Horner, que homenageia a clássica composição de Elmer Bernstein para a produção de 1960 nos letreiros finais - e pela capacidade de contar uma velha e conhecida história lhe dando ares de novidade e inteligência. Um belo filme, uma bela surpresa e um dos raros remakes dignos já feitos em Hollywood!

sábado

O PREDESTINADO

O PREDESTINADO (Predestination, 2014, Screen Australia/Screen Queensland, 97min) Direção: The Spierig Brothers (Michael e Peter). Roteiro: The Spierig Brothers, estória de Robert A. Heinlein. Fotografia: Ben Nott. Montagem: Matt Villa. Música: Peter Spierig. Figurino: Wendy Cork. Direção de arte/cenários: Matthew Putland/Vanessa Cerne. Produção executiva: Michael Burton, Gary Hamilton, Matt Kennedy, James M. Vernon. Produção: Paddy McDonald, Tim McGahan, Michael Spierig, Peter Spierig. Elenco: Ethan Hawke, Sarah Snook, Noah Taylor, Christopher Kirby, Christopher Sommers, Cate Wolfe. Estreia: 08/3/14 (South by Southwest Festival)

Em 1999, dois irmãos pegaram o mundo da ficção científica de surpresa com um dos filmes mais impactantes e criativos do gênero em muitos anos. Eram Larry e Andy Wachowski, e seu filho, "Matrix", fascinou crítica e público, além de abiscoitar quatro Oscar - efeitos especiais, montagem, som e efeitos sonoros - e dar origem a uma trilogia que ainda hoje influencia muitos cineastas. Quinze anos mais tarde, outra dupla de irmãos - Michael e Peter Spierig - abdicou das pirotecnias visuais e, de posse de um conto do mestre Robert A. Heinlen (autor do clássico "Duna"), assinou um dos mais interessantes exemplares do gênero a surgir nas telas em muito tempo. Injustamente ignorado pela plateia, "O predestinado" pode e deve ser descoberto no mercado de dvd/bluray: sem apelar para orçamentos milionários e apostando basicamente na força de sua história, o filme é simplesmente sensacional em sua complexidade e fatalismo, e apresenta ao público uma atriz a se prestar atenção, a ótima Sarah Snook.

O protagonista da intrincada história é Ethan Hawke, excelente na pele de um agente policial, parte de um grupo de elite a quem são permitidas viagens no tempo para impedir crimes e prender seus autores - uma trama que lembra "Minority report, a nova lei", que Steven Spielberg dirigiu baseado em conto do mesmo Philip K. Dick de "Blade Runner, o caçador de andróides". Na caça por um terrorista chamado pelas autoridades de "Detonador sussurrante", que irá provocar a morte de dez mil civis na explosão de uma bomba em Nova York no ano de 1975, o rapaz se disfarça de barman e trava conhecimento com um misterioso cliente que, depois de beber um pouco demais, lhe conta sua trágica e inacreditável história, que envolve treinamentos para o Programa Espacial americano, bebês sequestrados e intervenções cirúrgicas radicais. Sabendo que há alguém responsável pelas desventuras de seu novo amigo, o agente lhe propõe que viaje com ele ao passado para acertar suas contas.


O ideal é que se saiba o mínimo possível sobre a trama de "O predestinado" para que mais o filme dos irmãos Spierig surpreenda o espectador com suas imprevisíveis reviravoltas, mas mesmo em uma segunda sessão é fascinante perceber o cuidado dos cineastas em dar pistas sobre o desfecho da história sem explicitar nada - algo que M. Night Shyamalan fez com maestria com seu "O sexto sentido". Com uma bela fotografia em tom amarelado de Ben Nott emoldurando uma narrativa rocambolesca e repleta de níveis, a produção oferece à plateia mais do que simplesmente um jogo de gato e rato entre o agente que busca um criminoso desconhecido: versando sobre assuntos importantes como o livre arbítrio e a força do destino, o filme dá um nó na cabeça da audiência sem nunca apressar seu ritmo, que destoa da velocidade tradicional dos filmes de sua geração. O roteiro não tem pressa em resolver tudo que propõe, enfatizando mais o suspense do que a ficção científica - ainda que seja inegável que seu núcleo seja nitidamente da tradição dos grandes escritores do gênero.

E além da qualidade do texto e da direção inspirada, outro elemento faz de "O predestinado" um filme a ser cultuado: a atuação brilhante de Sarah Snook. Na pele da tímida Jane, que descobre ainda na juventude seu imenso talento em fugir das convenções e o utiliza para superar as humilhações e tristezas que cruzam seu caminho, Snook dá conta de um dos personagens mais complexos e inusitados do cinema dos últimos anos. Injustamente ignorada pelas cerimônias de premiação, ela rouba a cena com uma transformação física e emocional das mais corajosas já vistas nas telas. Em um duelo de interpretação com Ethan Hawke ela acaba saindo-se vitoriosa mesmo diante da vasta experiência do colega. Ela é, sem dúvida, o corpo e a alma de um dos filmes mais subestimados da temporada 2014. Imperdível!

quinta-feira

BOYHOOD - DA INFÂNCIA À JUVENTUDE

BOYHOOD: DA INFÂNCIA À JUVENTUDE (Boyhood, 2014, IFC Productions/Detour Filmproduction, 165min) Direção e roteiro: Richard Linklater. Fotografia: Lee Daniel, Shane Kelly. Montagem: Sandra Adair. Figurino: Kari Perkins. Direção de arte/cenários: Rodney Becker/Melanie Ferguson. Produção: Richard Linklater, Jonathan Sehring, John Sloss, Cathleen Sutherland. Elenco: Ellar Coltrane, Ethan Hawke, Patricia Arquette, Lorelei Linklater, Elijah Smith, Steven Prince. Estreia: 19/01/14 (Festival de Sundance)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Richard Linklater), Ator Coadjuvante (Ethan Hawke), Atriz Coadjuvante (Patricia Arquette), Roteiro Original, Montagem
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Patricia Arquette)
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Richard Linklater), Atriz Coadjuvante (Patricia Arquette)

Em 1999, o cineasta Paul Thomas Anderson criou, com seu impressionante “Magnólia”, um épico sobre pessoas comuns e colheu elogios unânimes da crítica ao substituir cenas de ação e milhares de figurantes por cenas intimistas e personagens cujas preocupações se resumiam a brigar com seus fantasmas interiores. Quinze anos depois, um outro norte-americano pôs seu nome na história do cinema ao levar ainda mais longe esse conceito da grandiosidade do homem banal: com seu “Boyhood, da infância à juventude”, Richard Linklater encantou críticos, desconcertou plateias e entrou na corrida do Oscar 2015 com o pé direito, concorrendo a seis estatuetas – perdeu as principais, mas deu à Patricia Arquette o prêmio de atriz coadjuvante, repetindo a escolha do Golden Globe. O porquê de tantos aplausos fica claro assim que os créditos finais começam a subir. Em duas horas e meia de duração, Linklater conta, sem lances melodramáticos ou artifícios sentimentaloides, a rotina de um menino normal, desde a escola primária até o momento em que ele sai de casa para cursar a faculdade. Quando criança, Mason não era um garoto problemático; na pré-adolescência, não afundou em drogas ou álcool; e quando finalmente começou a viver de forma independente dos pais, mostra-se um rapaz de confiança e surpreendentemente maduro. Mas é justamente por ser tão comum – tedioso, diriam os detratores – que Mason é um dos personagens mais cativantes do cinema ianque contemporâneo. E o que é mais admirável? Ele é vivido, dos seis aos dezenove anos, pelo mesmo ator, Ellar Coltrane.
Ao contrário do que normalmente acontece em filmes que retratam o processo de amadurecimento de um personagem na transição entre a infância e a adolescência, o diretor não substituiu seu ator central: o que se vê na tela é o trabalho de treze anos, condensado em 150 minutos de cenas desprovidas de emoções falsas e recheadas de uma naturalidade rara no cinemão americano – algo talvez semelhante apenas à trilogia “Antes do amanhecer”, “Antes do pôr-do-sol” e “Antes da meia-noite”, não por acaso dirigida pelo mesmo Linklater: seu talento em criar diálogos críveis é tanto que muita gente chegou a questionar sua indicação ao Oscar de roteiro original. Compreensível. Acostumados a filmes que revestem sentimentos e relações humanas com um verniz de previsibilidade cada vez maior, muitos espectadores não souberam entender a proposta e o resultado final da obra. Afinal, pra que perder quase três horas da vida assistindo a vida de um moleque sem grandes problemas e que não possui nenhum poder alienígena? Todos aqueles que embarcaram sem reservas na viagem de Linklater, porém, só tiveram uma opção: considerar-se parte da família de Mason e acompanhar com carinhoso interesse partes de uma vida que poderia facilmente ser a sua.




Quando o filme começa, Mason tem seis anos de idade e é surpreendido com a notícia de que sua mãe, Olivia (Patricia Arquette, em uma decisão corajosa de envelhecer praticamente diante das câmeras), vai voltar a estudar, precisando, para isso, voltar à cidade natal, no Texas. Ao lado da irmã mais velha, Samantha (Lorelei Linklater, filha do diretor), o garoto precisa lidar com o fato de abandonar os amigos e sua rotina. É nessa nova cidade que ele irá desenvolver-se, conhecer o amor, desiludir-se, trabalhar para completar a renda doméstica, descobrir a paixão pela fotografia e, vez ou outra, ter de lidar com os novos maridos da mãe – uma mulher forte, decidida e amorosa, mas incapaz de acertar-se afetivamente. Enquanto isso, vai firmando também a relação com o pai (Ethan Hawke), que, mesmo depois da separação, nunca perdeu o contato com os filhos – ainda que com menos frequência do que todos gostariam. Da primeira cena até o desfecho, não há nenhuma sequência que manipule as emoções do espectador: o cineasta conduz sua narrativa com leveza, bom-humor, ternura e um certo ar de nostalgia que torna tudo ainda mais encantador. Ellar Coltrane, com seu ar ingênuo, constrói um protagonista apaixonante, que se deixa levar pela vida com uma espécie de sabedoria zen, como se soubesse que tudo é parte de uma experiência maior. Ethan Hawke e Patricia Arquette encarnam com garra seus pais, oferecendo ao público trabalhos extremamente difíceis justamente por sua aparente simplicidade e a edição suave e fluida praticamente pega o público pela mão enquanto o acompanha pelos anos dourados de Mason. Pontuado aqui e ali por alguma referência pop – Britney Spears, Harry Potter, Lady Gaga – o roteiro não deixa de ser, também, um panorama sensível de parte da história dos EUA através dos olhos de um de seus filhos.
Linklater – preterido no Oscar por Alejandro G. Iñarrítu e seu “Birdman” – merecia a estatueta. Não apenas por ter investido mais de uma década em uma produção que corria o sério risco de nunca ver a luz dos refletores (a filha do cineasta chegou a pensar em desistir do projeto e Ethan Hawke aceitou a incumbência de levar a ideia adiante no caso da morte do autor) mas por ter ousado desafiar um mercado avesso a novidades e à quebra de paradigmas. Seu filme vai contra todas as regras do mercado – é longo acima da média, não tem grandes astros ou orçamento milionário, não tem um roteiro esquemático nem tampouco apela para efeitos especiais – e não tem a menor vontade de pedir desculpas por isso. É maduro, é belo e valoriza os pequenos momentos da vida como se eles fossem heroicos ou épicos. É, enfim, um dos poucos filmes da história que podem ser considerados como um “retrato da vida”. Muita gente pode torcer o nariz. Mas em inúmeras ocasiões a simplicidade ainda é muito mais interessante do que o luxo, e isso fica óbvio quando o espectador chega ao final do filme querendo ver mais e mais sobre a vida de Mason Jr..

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...