FARRAPO HUMANO (The lost weekend, 1945, Paramount Pictures, 101min) Direção: Billy Wilder. Roteiro: Charles Brackett, Billy Wilder, romance de Charles R. Jackson. Fotografia: John F. Seitz. Montagem: Doane Harrison. Música: Miklós Rósza. Figurino: Edith Head. Direção de arte/cenários: Hans Dreier, A. Earl Hedrick/Bertram Granger. Produção: Charles Brackett. Elenco: Ray Milland, Jane Wyman, Phillip Terry, Howard da Silva, Doris Dowling. Estreia: 16/11/45
7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Billy Wilder), Ator (Ray Milland), Roteiro Adaptado, Fotografia em P&B, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Billy Wilder), Ator (Ray Milland), Roteiro Adaptado
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme, Diretor (Billy Wilder), Ator (Ray Milland)
Vencedor de 2 prêmios no Festival de Cannes: Ator (Ray Milland), Grande Prêmio
Com medo das possíves consequências financeiramente desastrosas de um filme
que abordasse sem meias-verdades o drama do alcoolismo, a indústria de bebidas
dos EUA chegou até a Paramount Pictures em 1945 com uma proposta inusitada:
comprar os negativos do novo filme de Billy Wilder por 5 milhões de dólares
para impedir seu lançamento nos cinemas. É lógico que o estúdio declinou da
oferta, e Wilder, irônico como sempre, declarou anos mais tarde que se tivesse
sido ele o destinatário de tão generosa oferta a resposta teria sido positiva.
Uma piada, é claro, já que sem “Farrapo humano” o cineasta austríaco não teria
se firmado como um dos maiores diretores de Hollywood de todos os tempos – e de
quebra, não teria ganho também seu primeiro Oscar (e o segundo, também, já que
dividiu com seu parceiro habitual Charles Brackett a estatueta de roteiro).
Incensado por crítica e pelo Festival de Cannes, “Farrapo humano” ainda saiu da
cerimônia da Academia com dois outros importantes prêmios: melhor filme e ator
(Ray Milland).
Até então um ator popular mas pouco levado a sério, Milland hesitou em
aceitar dar a virada que sua carreira tanto precisava. O mundo estava saindo da
II Guerra e um filme sério e pesado sobre o vício em álcool e seus efeitos não
parecia algo que o público fosse adotar para fins de entretenimento. Essa não
era, no entanto, a opinião de Billy Wilder, que, depois de ler o romance “The
lost weekend”, de Charles R. Jackson, em uma viagem de trem, decidiu que sua
adaptação seria seu filme seguinte ao noir “Pacto de sangue”, baseado no livro
de Raymond Chandler. Ainda impressionado com as dificuldades que passou com
Chandler durante a feitura do roteiro do filme – o escritor sofria de
alcoolismo – Wilder imediatamente convenceu seu amigo Charles Brackett a acompanhá-lo
no desafio de fazer do anti-heroi criado por Jackson um protagonista simpático
o suficiente para não afugentar as plateias das salas de exibição. Depois que
Cary Grant e José Ferrer recusaram estrelar a produção – talvez por medo que
ela pudesse fracassar e matar suas carreiras – o estúdio acabou convencendo Ray
Milland de que o papel poderia ser um divisor de águas em sua trajetória de
ator. Mergulhado com dedicação na busca por uma atuação convincente, Milland
acabou por passar por dificuldades inusitadas – internado espontaneamente na
ala para dependentes de álcool em um hospital nova-iorquino, ele tentou fugir
apavorado com o que viu e demorou a convencer os funcionários de que era apenas
laboratório – e se viu, no fim do processo, não só com o Oscar de melhor ator,
mas também com o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes e o Golden Globe.
Não é para menos: na pele de Don Birman, um escritor em meio a uma enorme crise criativa que tanto foi o catalisador de seu vício quanto sua consequência, Milland entrega uma performance de intensidade rara. Era a primeira vez que o cinema americano mostrava uma vítima de alcoolismo sem apoiar-se no humor ou como parte do elenco de coadjuvantes. Mais do que isso, o roteiro de Wilder e Brackett tampouco caía na tentação de fazer de seu protagonista um bêbado engraçadinho ou simpático, vítima das circunstâncias. Birman não hesita em mentir e roubar para sustentar seu vício, chegando a ser humilhado e sofrer na pele desde o desespero da abstinência até as temidas alucinações - que lhe chegam durante sua internação em um hospital que o faz tomar contato com outro lado de sua doença: a partir dali ela não é mais parte de um universo de bares e conversas inconsequentes ou subterfúgios que o fazem disfarçar o problema e minimizá-lo. Enfatizadas pela angustiante trilha sonora de Miklós Rozsa - também indicada à estatueta da Academia - as cenas em que Birman anda pelas ruas de Nova York tentando empenhar sua máquina de escrever para arrumar dinheiro para a bebida e quando rouba a bolsa de uma cliente de um bar são de uma força ainda hoje admiráveis e fascinantes. O "fim-de-semana perdido" do título original - que se refere aos dias em que Birnam aproveita uma viagem do irmão para entregar-se sem medo a seu vício - se escora na trêmula fotografia de John F. Seitz para carregar consigo uma plateia até então desacostumada a viagens tão realistas.
E justamente por causa do realismo de tais cenas, dirigidas com a firmeza e a inteligência características de Billy Wilder, não deixa de ser irônico que, à época de seu lançamento, o filme tenha sofrido tantos ataques. Não bastasse a reação totalmente negativa do público na primeira exibição do filme - segundo o diretor houve risadas do início ao fim da projeção - e o medo da Paramount a respeito de uma história tão pesada, entidades de combate ao vício do álcool se posicionaram contra "Farrapo humano" por acreditar que ele poderia incentivar o consumo da bebida. Quase engavetado pelo estúdio, a produção só chegou às telas devido ao respeito e ao prestígio de Wilder - e para surpresa de todos, o que parecia mais um projeto destinado ao fracasso acabou caindo nas graças da crítica e da Academia. De algo arriscado e corajoso, o filme marcou época, ganhou quatro dos sete Oscar a que foi indicado, levou 3 Golden Globes, dois prêmios no Festival de Cannes e se fixou na memória do público como a mais importante e relevante produção a respeito do tema. Graças ao roteiro conciso (que substituiu a homossexualidade do protagonista por um simples bloqueio criativo sem perder a força da trama), a direção criativa e à atuação milagrosa de Ray Milland, "Farrapo humano" é, ainda hoje, um filme irretocável e moderno.
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DISQUE M PARA MATAR

DISQUE M PARA MATAR (Dial M for murder, 1954, Warner Bros., 105min) Direção e produção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Frederick Knott, baseado em sua peça teatral homônima. Fotografia: Robert Burks. Montagem: Rudi Fehr. Música: Dimitri Tiomkin. Elenco: Ray Milland, Grace Kelly, Robert Cummings, John Williams. Estreia: 29/5/54
Quase sessenta anos antes de "Avatar" quebrar recordes de bilheteria e revolucionar o modo de fazer cinema (mas não de melhorá-lo qualitativamente), o mestre do suspense já brincava com a tecnologia de 3D. Em 1954 estreava "Disque M para matar", que, baseado em uma peça de teatro de Frederick Knott, utilizava - com bastante parcimônia - efeitos poucas vezes vistos nas telas de cinema na época. A crucial diferença entre sua ambição no momento e o que acontece atualmente nos multiplexes é que antes de focar-se em "revoluções visuais", Alfred Hitchcock concentrava-se na história de seus filmes, em trabalhar o suspense de suas cenas e dar verossimilhança a seus protagonistas, por mais ambíguos que eles fossem.
A personagem central de "Disque M" é Tony Wendice (Ray Milland), um ex-tenista profissional que abandonou a carreira em prol de um vantajoso casamento com a bela Margot (Grace Kelly na primeira de suas três colaborações com o cineasta). Sabendo-se traído por ela, que mantém um romance com o escritor de livros policiais Mark Halliday (Robert Cummings), ele tece um mirabolante plano para livrar-se dela e consequentemente ficar com sua herança. Para tal, ele contrata um antigo colega de escola com uma longa ficha de processos por estelionato. Na hora marcada para o crime, no entanto, as coisas não saem como o esperado e quando Grace passa de vítima a algoz seu marido aproveita para mudar seus planos, acusando-a de assassinato.

O mais interessante em "Disque M para matar" nem é a tentativa de Hitchcock em utilizar-se de recursos óticos "modernos" para contar sua história e sim a maneira com que ele conduz a trama, repleta de surpresas e reviravoltas. Por ser baseado em um texto teatral - uma origem que necessariamente prende a ação em poucos cenários - o filme não apresenta cenas de ação ou externas muito elaboradas (pelo contrário, sempre que aparece a rua é de maneira um tanto artificial). O diretor se contenta em mostrar à audiência apenas o que está acontecendo no momento, sem apelar para flashbacks ou outros recursos que desviariam a atenção. Essa opção em ser extremamente econômico em malabarismos de câmera propicia ao público um sentimento de voyeurismo que o mantém ligado na história mesmo quando ela descamba para um ato final um tanto forçado.
É inegável que "Disque M para matar" perde o pique no seu terceiro ato, quando Tony Wendice está prestes a ser desmascarado. Talvez por não contar com a presença luminosa de Grace Kelly ou por contar apenas com uma conclusão pouco satisfatória em termos de suspense, não se tem, em seus últimos vinte minutos, a concisão e o ritmo de seu princípio - em especial as cenas que antecedem o crime propriamente dito. Ainda assim, como sempre na obra do cineasta, é imperdível por ser de uma elegância rara, em que até mesmo um assassinato é filmado, segundo palavras do francês François Truffaut "como uma cena de amor".
PS - Em 1998, o diretor Andrew Davis (de "O fugitivo") realizou uma nova versão de "Disque M para matar", intitulada "Um crime perfeito", estrelada por Michael Douglas, Gwyneth Paltrow e Viggo Mortensen, mais fiel ao texto teatral e surpreendentemente interessante.
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