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quinta-feira

SORTE NO AMOR

 


SORTE NO AMOR (Bull Durham, 1988, MGM, 103min) Direção e roteiro: Ron Shelton. Fotografia: Bobby Byrne. Montagem: Robert Leighton, Adam Weiss. Música: Michael Convertino. Figurino: Louise Frogley. Direção de arte/cenários: Armin Ganz/Kris Boxell. Produção executiva: David V. Lester. Produção: Mark Burg, Thom Mount. Elenco: Kevin Costner, Susan Sarandon, Tim Robbins, Robert Wuhl, Trey Wilson, William O'Leary. Estreia: 15/6/88

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Eu acredito na igreja do beisebol. Tentei todas as grandes religiões e a maioria das pequenas. Adorei Buda, Alá, Brahma, Vishnu, Shiva, árvores, cogumelos e Isadora Duncan. Eu sei coisas. Por exemplo, que há 108 contas no rosário católico e há 108 pontos em uma bola de beisebol. Quando soube disso, dei uma chance a Jesus. Mas não deu certo entre nós dois. Deus pôs muita culpa em mim. Eu prefiro metafísica a teologia. Veja, não há culpa no beisebol, e nunca é chato, o que faz dele algo parecido com sexo. Nunca houve um jogador que dormiu comigo e não teve o melhor ano da carreira. Fazer amor é como acertar a bola: é preciso apenas relaxar e se concentrar.

A profissão de fé de Annie Savoy não se refere apenas a sexo e beisebol. Lúcida, bem-resolvida, dona da própria liberdade e do próprio corpo, ela é praticamente uma lenda junto ao Durham Bulls, onde é conhecida por seu ritual anual de escolher um jovem jogador para manter sob sua proteção - sexual e culturalmente falando. Normalmente no controle da situação, ela se vê, no começo da nova temporada, presa a uma inusitada configuração: enquanto se dedica a transmitir sua experiência ao jovem Ebby LaLoosh (Tim Robbins) - um novato tão talentoso quanto prepotente e ligeiramente burro -, ela se percebe surpreendentemente atraída pelo quase veterano Crash Davis (Kevin Costner), contratado justamente para amenizar os rompantes rebeldes do colega mais novo. Contrariando todas as expectativas, Crash resiste ao magnetismo sexual de Annie - principalmente por não ver o sexo com o pragmatismo da bela professora - e acaba por forçar um inesperado triângulo amoroso que afeta até mesmo o desempenho do time no campeonato.

"Sorte no amor" é um caso raro dentro do cinema hollywoodiano: um filme sobre beisebol que não fracassou nas bilheterias. Mesmo longe de ter sido um estouro comercial avassalador, o filme de Ron Shelton teve êxito o suficiente para encorajar os estúdios a apostar no gênero depois de várias tentativas infrutíferas de repetir nas telas o êxito dos estádios. Amparado em um roteiro simpático e agradável - indicado ao Oscar - e no carisma de seu trio de atores principais, o misto de comédia, romance e esporte caiu nas graças das plateias e da crítica sem medo de demonstrar-se uma produção adulta, com um público-alvo bem definido e sem ceder ao humor fácil ou vulgar: apesar de o sexo ser um elemento fundamental para a história, Shelton o utiliza de forma bem-humorada e quase ingênua. A opção de enfatizar o tom cômico da trama (Annie ensinando poesia e literatura a seus amantes, enquanto explora seus dotes físicos; um jogador entrando em campo vestindo roupas íntimas femininas) sobre a sensualidade pura e simples é um acerto - e ninguém melhor que Susan Sarandon do que encarnar ambos os lados da equação.

 

A princípio recusada pela Orion Pictures sob a alegação de ser velha demais para o papel principal (aos 41 anos!!), Sarandon cala a boca de qualquer opositor assim que entra em cena, com sua personalidade fascinante e exuberante. Não é difícil compreender porque tanto Crash - com sua vasta experiência sexual - quanto LaLoosh - no auge de sua libido juvenil - caem de amores por ela e são capazes de sair no braço por sua atenção. Dando início a um período brilhante de sua carreira (que culminaria com um Oscar por "Os últimos passos de um homem", de 1995), Sarandon enche a tela de um carisma raro - não à toa seu parceiro de cena Tim Robbins apaixonou-se por ela durante as filmagens e casou-se com ela. Certamente nenhuma das outras atrizes sondadas para viver Annie Savoy seria tão perfeita - nem Debra Winger, nem Kelly McGillis, nem Glenn Close e nem Kim Basinger. Nem mesmo a bela Michelle Pfeiffer, não aceita pelo estúdio pelo motivo radicalmente oposto ao de Sarandon (a saber, ser considerada jovem demais para interpretar a calejada fã de beisebol). E, por mais talento que todas elas tenham, química não se encontra em qualquer esquina - e é o que mais se vê entre os três protagonistas.

Kevin Costner, entrando na curva ascendente que lhe renderia uma penca de Oscar por "Dança com lobos" (1991), não é um grande ator, mas seu charme de bom moço caiu como uma luva em sua interpretação do certinho Crash Davis - ainda que outros atores tenham sido cotados para tal, como Jeff Bridges, Nick Nolte, Don Johnson, Richard Gere e Mel Gibson (além dos absurdamente inadequados Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger). E se Tim Robbins - então na flor dos 31 anos de idade - não tinha exatamente o tipo de galã tradicional, encontrou em Ebby LaLoosh um veículo ideal para exibir o timing cômico que chegaria ao ápice em "As aventuras de Erik, o viking" (1989) e o talento para produções menos óbvias, como "Alucinações do passado" (1989). Juntos a Susan Sarandon, são eles que mantém o interesse em "Sorte no amor" mesmo por aqueles que não fazem a menor ideia de como funcionam as regras de beisebol - ou não estão nem um pouco inclinados a saber. Feito para os fãs do esporte, mas sem ignorar o vasto público que não o é, Ron Shelton realizou o melhor filme de sua carreira e um dos melhores do gênero.

sexta-feira

A GRANDE JOGADA

 


A GRANDE JOGADA (Molly's game, 2017, STX Entertainment/The Mark Gordon Company, 140min) Direção: Aaron Sorkin. Roteiro: Aaron Sorkin, livro de Molly Bloom. Fotografia: Charlotte Brus Christensen. Montagem: Alan Baumgarten, Elliot Graham, Josh Schaeffer. Música: Daniel Pemberton. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: David Wasco/Patricia Larman, Sandy Reynolds-Wasco. Produção executiva: Oren Aviv, Felice Bee, Stuart M. Besser, Adam Fogelson, Leopoldo Goult, Robert Simonds, Donald Tang, Wang Zhongjun, Wang Zhonglei. Produção: Mark Gordon, Matt Jackson, Amy Pascal. Elenco: Jessica Chastain, Idris Elba, Kevin Costner, Michael Cera, Jeremy Strong, Chris O'Dowd, Graham Greene. Estreia: 08/9/2017 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de roteiro adaptado

Conhecido como um premiado dramaturgo e roteirista (vencedor do Oscar por "A rede social" e sempre lembrado por associações de críticos por seus trabalhos no cinema e na televisão), Aaron Sorkin até que demorou para estrear na direção. De seu primeiro script (a adaptação de sua própria peça teatral "Questão de honra", estrelado por Tom Cruise e Jack Nicholson em 1992) até "A grande jogada", seu primeiro filme como cineasta, se passaram 25 anos - e nesse meio-tempo ele acrescentou outras láureas a seu currículo, graças a produções como "O homem que mudou o jogo" (2011) e "Steve Jobs" (2015). Com tal histórico, não é de surpreender que Sorkin tenha escolhido a dedo o material para seu primeiro longa-metragem. "A grande jogada" é tudo que se pode esperar de um filme comandado pelo roteirista/diretor: inteligente, ágil e com personagens complexos, defendidos por um elenco coeso, no qual se destaca a sensacional Jessica Chastain.

Chastain, uma atriz superlativa que valoriza cada filme, por mais medíocre que seja, encontrou em Molly Bloom, a protagonista de "A grande jogada", um papel que toda grande intérprete sonha: cheia de camadas e dona de uma história interessante o bastante para prescindir de qualquer muleta (leia-se romances desnecessários, doenças redentoras, e tudo mais que os roteiristas criam para oferecer momentos dramáticos que justifiquem indicações ao Oscar e afins). Por esse motivo, é inacreditável que a Academia tenha ignorado seu impecável trabalho e a deixado de fora inclusive do páreo na categoria. Sem deixar de lado a beleza e o glamour de sua atriz central, Sorkin oferece à Chastain possibilidades ilimitadas - e a atriz tira todas de letra, dona absoluta do filme e de sua personagem. Molly Bloom - o mesmo nome da personagem criada por James Joyce em "Ulisses" - é uma mulher que não pede desculpas e tenta (nem sempre com sucesso) manipular o próprio destino. Logo, está fadada a enfrentar as consequências de desafiar um mundo feito por e para os homens. Sim, "A grande jogada" é, de uma certa forma, um filme feminista.


Não, não há nada de panfletário em "A grande jogada". O que faz dele um filme feminista é o fato de ter como protagonista uma mulher corajosa e que não baixa a cabeça diante dos homens que tentam mandar no jogo. Se seu advogado - vivido pelo ótimo Idris Elba - é quem vai tentar salvar sua pele, ele o faz de acordo com suas diretrizes, que incluem manter a ética profissional mesmo quando corre o risco de parar na cadeira. Molly Bloom não pede desculpas pelo que é - e essa força, que nem mesmo sua derrocada consegue apagar completamente. Atleta frustrada (com uma carreira de esquiadora interrompida por um acidente) e com sérios problemas de relacionamento com o pai (Kevin Costner) - um homem exigente e pouco dado a carinhos -, Molly descobre, quase acidentalmente, o submundo do pôquer, e, depois de um tempo como coadjuvante de uma série de jogos, decide tornar-se a coordenadora de grupos milionários de celebridades e empresários. Competente e discreta, ela se torna uma conhecida e respeitada gerente de jogos - até que se envolve, sem querer, com a perigosa máfia russa, o que a coloca na mira do FBI.

Contado através de flashbacks, através das conversas de Molly com seu advogado, Charlie Jaffey (Idris Elba), "A grande jogada" usa e abusa de artifícios visuais para seduzir o público, e para isso, conta com a edição inteligente e diálogos afiados, com certa dose de ironia e personagens bastante interessantes. Do início, com Molly explicando sua trajetória de aspirante a atleta olímpica a gerente de noitadas milionárias de pôquer, até o final, quando ela se vê obrigada a pagar por seus erros de estratégia, o filme de Sorkin apresenta ao espectador jogadores dos mais variados níveis de vício - inclusive um ator de cinema (interpretado por Michael Cera) que, segundo consta, era Tobey Maguire, que levava seu amigo Leonardo DiCaprio para noites de jogatina que enriqueciam - e muito - a renda da protagonista. E se o tom da produção vai ficando cada vez mais sombrio conforme Molly vai se encrencado com a máfia russa sem saber, melhor ainda o filme vai se tornando, demonstrando o domíno do roteirista transformado em cineasta. Se em seu primeiro filme ele já demonstra tal segurança, é de se imaginar como será sua próxima incursão na cadeira de diretor. "A grande jogada" é um filme de enormes qualidades, um entretenimento adulto de alto gabarito que merece ser descoberto e aplaudido.

WYATT EARP

WYATT EARP (Wyatt Earp, 1994, Warner Bros, 191min) Direção: Lawrence Kasdan. Roteiro: Dan Gordon, Lawrence Kasdan. Fotografia: Owen Roizman. Montagem: Carol Littleton. Música: James Newton Howard. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Ida Random/Cheryl Carasik. Produção executiva: Dan Gordon, Michael Grillo, Charles Okun, Jon Slan. Produção: Kevin Costner, Lawrence Kasdan, Jim Wilson. Elenco: Kevin Costner, Dennis Quaid, Gene Hackman, David Andrews, Linden Ashby, Jeff Fahey, Mark Harmon, Michael Madsen, Catherine O'Hara, Bill Pullman, Isabella Rossellini, Tom Sizemore, Jobeth Williams, Mare Winningham, Annabeth Gish, Jim Caviezel, Mackenzie Astin, Téa Leoni. Estreia: 24/6/94

Indicado ao Oscar de Fotografia

Nada como uma boa ironia do destino para sacudir o ego de um astro. Que o diga "Wyatt Earp", superprodução comandada por Lawrence Kasdan que praticamente começou a pavimentar o declínio de Kevin Costner, um dos atores mais populares no início da década de 1990. Responsável pelo sopro de popularidade do western, com o enorme sucesso de seu "Dança com lobos" (1990), Costner emendou vários êxitos comerciais, como "JFK" (1991) e "O guarda-costas" (1993) - e, do alto de sua autoconfiança, acreditava que todo e qualquer projeto em que tocasse se transformaria em ouro. Foi assim que juntou-se ao roteirista Kevin Jarre para criar o que pretendia ser a visão definitiva de um dos heróis mais conhecidos do público norte-americano, o xerife Wyatt Earp. Tudo parecia ir bem até que as famosas "diferenças criativas" acabaram por separar os dois: não concordando com o espaço dado por Jarre aos personagens coadjuvantes - o que não dava o espaço pretendido pelo ator para exercitar todo o seu status de galã -, o ator pulou fora e procurou o amigo Lawrence Kasdan para começar uma produção rival, que seguisse os seus desejos. Como forma de demonstrar sua força dentro da indústria, ele chegou a tentar utilizá-la como moeda de troca, para impedir a distribuição do concorrente por outros estúdios - o que atrasou e dificultou a realização do filme, dirigido por George P. Cosmatos. A ironia de tudo é que não apenas "Tombstone: a justiça está chegando" custou metade do orçamento do mastodôntico "Wyatt Earp" como rendeu mais que o dobro da produção estrelada por Costner - e obteve melhores críticas, apesar de não ter um astro de sua estatura no elenco, liderado por Kurt Russell e Val Kilmer.

Com uma bilheteria mundial que não conseguiu nem ao menos cobrir seu custo de mais de 60 milhões de dólares, "Wyatt Earp" naufragou em sua própria ambição. Com o desejo óbvio de realizar mais um épico - mania que o levaria a mares ainda mais tumultuados em seu filme seguinte, "Waterworld: o segredo das águas", um fiasco histórico -, Costner acreditou demais na fidelidade dos fãs. Se "Dança com lobos" tinha mais de três horas de duração e fez o sucesso que fez, por que a trajetória de um herói nacional como Earp daria errado, não é mesmo? Originalmente concebido como uma minissérie de televisão de seis capítulos, o projeto que reunia Costner e Kasdan depois de outro faroeste, "Silverado", lançado em 1985, não se contentava em contar apenas a história mais conhecida a respeito de seu protagonista - o duelo em OK Corral, ocorrido em 1881, resultado da rixa entre os chamados "homens da lei", que incluíam três irmãos Earp e Doc Holliday, e cinco forasteiros, que, segundo a lenda, ameaçavam a paz da cidade de Tombstone, no Arizona. Ao contrário, o roteiro de Kasdan e Don Gordon começa na adolescência do protagonista e se estende por décadas - o que pode soar historicamente correto, mas causa um excesso de personagens e momentos desnecessários e prejudiciais ao ritmo da narrativa. Apesar disso, porém, seu fracasso nas bilheterias e a extrema má-vontade da imprensa não é totalmente justificado. "Wyatt Earp" pode não ser o filmaço que prometia, mas está muito longe de ser um filme ruim.


Primeiro, seus defeitos: um épico de três horas de duração pode facilmente prender a atenção do espectador, desde que haja conteúdo nesse tempo todo. O roteiro de "Wyatt Earp" parece dar a mesma importância a fatos cruciais, como a morte de Urilla (Annabeth Gish), primeira mulher do protagonista - acontecimento que o marca para sempre - e anedotas nem sempre dignas de ênfase, como os problemas conjugais entre Doc Holliday (Dennis Quaid) e Big Nose Katie (Isabella Rossellini). Atores como Gene Hackman (como o patriarca da família Earp) e a própria Rossellini são subaproveitados, e Kevin Costner em si não consegue convencer em todas as fases do personagem, especialmente quando mais jovem. A direção também falha em estabelecer a tensão necessária que conduz ao clímax - que, por sua vez, tampouco chega a empolgar (o que, levando-se em conta que o tiroteio real levou apenas alguns segundos, é plenamente perdoável). E, por fim, há a falta de carisma do personagem principal, que em nenhum momento domina o filme como deveria - mais um problema na conta de Costner.

Mas nem tudo está errado. A bela fotografia de Owen Roizman, indicada ao Oscar, funciona às mil maravilhas, sublinhando com discrição os vários tons do filme, da amplidão de horizontes e crepúsculos até o cinza das passagens mais sombrias e dramáticas. Dennis Quaid quase rouba o filme para si na pele de Doc Holliday: apesar de ter mais idade que o personagem, entrega uma performance admirável, para a qual perdeu peso e criou um visual impecável. A trilha sonora de James Newton Howard também é um ponto forte, fugindo do óbvio e apostando no minimalismo na maior parte do tempo. Revisto com o benefício do tempo, que salva filmes subestimados e muitas vezes desmascara obras nem tão geniais quanto se pensava, "Wyatt Earp" é um bom programa para quem gosta de faroestes mais contemplativos - a exemplo de "Os imperdoáveis", que deu a Clint Eastwood seu primeiro Oscar de direção e incentivou o renascimento do gênero em Hollywood. É um filme adulto e sério, realizado com dedicação e cuidado, mas que infelizmente afogou-se na prepotência e na megalomania. Pode ser resgatado do limbo dos fracassos - tem qualidades para tal -, mas jamais será a obra-prima definitiva sobre o assunto, como sonhava ser.

segunda-feira

BATMAN VS SUPERMAN: A ORIGEM DA JUSTIÇA

BATMAN VS SUPERMAN: A ORIGEM DA JUSTIÇA (Batman v Superman: The Dawn of Justice, 2016, Warner Bros, 151min) Direção: Zack Snyder. Roteiro: Chris Terrio, David S. Goyer, personagens criados por Bob Kane e Bill Finger (Batman), Jerry Siegel e Joe Shuster (Superman) e William Moulton Marston (Mulher Maravilha). Fotografia: Larry Fong. Montagem: David Brenner. Música: Junkie XL, Hans Zimmer. Figurino: Michael Wilkinson. Direção de arte/cenários: Patrick Tatopoulos/Carolyn "Cal" Loucks. Produção executiva: Wesley Coller, David S. Goyer, Geoff Johns, Benjamin Melniker, Steven Mnuchin, Christopher Nolan, Emma Thomas, Michael E. Uslan. Produção: Charles Roven, Deborah Snyder. Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Laurence Fishburne, Jesse Eisenberg, Gal Gadot, Diane Lane, Kevin Costner, Holly Hunter, Jeremy Irons, Michael Shannon, Jeffrey Dean Morgan. Estreia: 20/3/16

Primeiro foi a polêmica em torno do nome de Ben Affleck para viver o Cavaleiro das Trevas, praticamente imortalizado por Christian Bale na trilogia dirigida por Christopher Nolan entre 2006 e 2012. Depois, as críticas generalizadas a "O Homem de Aço" (2013), que recomeçava a apresentar o Superman às novas gerações de cinéfilos - depois do inesquecível Christopher Reeve e do pouco memorável Brandon Routh. Por fim, havia a dúvida se Zack Snyder (cujo currículo incluía o sucesso "300", de 2008, e o fracasso "Sucker punch", de 2010) seria capaz de apagar a má impressão de seu primeiro filme estrelado pelo herói de Krypton - criticado principalmente pelo excesso de violência e efeitos visuais supérfluos. Com um orçamento generoso de aproximados 250 milhões de dólares, a volta do britânico Henry Cavill à pele de Clark Kent e uma trama que daria origem ao esperado filme sobre a Liga da Justiça (daí o subtítulo "Dawn of justice"), "Batman vs Superman: a origem da justiça" chegou aos cinemas cercado de expectativas e medos. Como era de se esperar, dividiu opiniões: puristas e fãs dos quadrinhos surgiram com listas intermináveis de reclamações; a imprensa não exatamente ficou entusiasmada, mas o público não deixou de correr às salas de exibição. Com uma renda mundial de quase 900 milhões de dólares, o filme de Snyder conseguiu o principal: deixou felizes os executivos da Warner, preparou terreno para um próximo capítulo ainda mais explosivo e, para alegria dos espectadores, apresentou em primeira mão sua arma mais poderosa e esperada, a Mulher Maravilha do século XXI, interpretada pela israelense Gal Gadot.

Protagonista de seu próprio filme de origem, que viria a ser lançado em 2017, a Mulher Maravilha é apenas uma pequena (mas crucial) peça no roteiro escrito por David S. Goyer e Chris Terrio (Oscar por "Argo") a partir de uma ideia surgida em 2001, quando o roteirista Andrew Kevin Walker (de "Seven: os sete crimes capitais") propôs um filme em que o Batman, enfurecido pela perda de sua noiva nas mãos do Coringa, parte em busca de vingança e se vê impedido pelo Superman. Diz-se que, na época, o script ficaria a cargo de Akiva Goldsman (Oscar por "Uma mente brilhante"), a direção seria do alemão Wolfgang Petersen e os protagonistas seriam George Clooney (voltando ao papel do Homem Morcego) e John Travolta. Felizmente a ideia acabou não vingando nos termos imaginados por Walker, e depois de mais de quinze anos no limbo, o que parecia meio absurdo começou a tomar forma. Com sérias mudanças, é verdade, mas com seu principal trunfo intacto: o encontro entre dois dos maiores super heróis dos quadrinhos (e do cinema) em uma produção caprichada, repleta de astros e, felizmente, bem melhor do que o público médio poderia esperar (apesar das ressalvas da crítica especializada e dos leitores mais radicais).


Começando dois anos depois dos eventos de "O Homem de Aço" - ou seja, após o show de destruição comandado pelo Superman em sua luta contra o General Zod (Michael Shannon) -, o filme de Snyder mostra uma população dividida entre acreditar nas boas intenções do misterioso alienígena de Krypton e temer por ainda mais tragédias na Terra. Mesmo defendido ferrenhamente pela jornalista Lois Lane (Amy Adams), o Superman é constantemente atacado pela mídia e pela congressista June Finch (Holly Hunter), que o intima a comparecer a uma sessão no Capitólio para defender-se diante da população. A explosão de uma bomba - plantada pelo milionário Lex Luthor (Jesse Eisenberg) - acaba por dar ainda mais credibilidade a quem o considera uma ameaça: acusado de ser o responsável pelo atentado, Superman abandona o planeta. Acreditando que tem o dever de proteger a humanidade dos poderes daquele que considera uma temeridade à população, Bruce Wayne assume a responsabilidade de, como Batman, destruí-lo sem compaixão. De certa forma manipulado por Luthor, ele bate de frente com Superman - mas não demora para que ambos, auxiliados pela corajosa Mulher Maravilha, se unam diante de um perigo ainda maior, representado por um monstro criado por Lex Luthor.

A princípio, parece que a trama de "Batman vs Superman" é um tanto forçada, criada mais pela necessidade de unir seus protagonistas do que exatamente contar uma história interessante ou plausível. No entanto, é surpreendente como as peças se encaixam, de forma a prender a atenção do público e construir uma base razoavelmente verossímil para o explosivo conflito final - esse sim, mais uma vez, exagerado e sem muita criatividade. Por incrível que pareça, Snyder se sai melhor quando estabelece o clima e as causas de todo o desfecho do que quando finalmente põe as mãos no clímax. Para isso, claro, ele conta com um elenco coadjuvante de nomes como Holly Hunter, Jeremy Irons e Laurence Fishburne, com o poder de fogo de seus personagens e com a produção caprichada - da fotografia de Larry Fong à trilha sonora, dividida entre Hans Zimmer e Junkie XL, tudo funciona muito bem, sem maiores percalços. Infelizmente nem tudo são flores, e a luta final - que finalmente coloca os heróis todos ao mesmo lado - é desnecessariamente longa, minando a força de um final que poderia ter sido ainda mais poderoso. Sem muito o que fazer em cena, Amy Adams e Diane Lane (como Martha, a mãe adotiva de Clark Kent), apenas enfeitam o filme com seu talento e beleza, e Jesse Eisenberg talvez esteja a um passo do overacting, mas o que era motivo de mais questionamentos antes da estreia acabou por ser um ponto positivo: emprestando prestígio a uma produção de objetivos claramente comerciais, o premiado Ben Affleck não compromete como Batman, mesmo estando à sombra de Christian Bale e assumindo as rédeas de um dos mais icônicos personagens da cultura popular mundial. Sua criticada escalação é, por fim, uma das maiores qualidades de um filme que, mesmo não sendo inesquecível ou artisticamente potente, serve muito bem como entretenimento. É só deixar o mau-humor de lado e embarcar na viagem!

terça-feira

ESTRELAS ALÉM DO TEMPO

ESTRELAS ALÉM DO TEMPO (Hidden figures, 2016, Fox 2000 Pictures, 127min) Direção: Theodore Melfi. Roteiro: Allison Schroeder, Theodore Melfi, livro de Margot Lee Shetterly. Fotografia: Mandy Walker. Montagem: Peter Teschner. Música: Benjamin Wallfisch, Pharrell Williams, Hans Zimmer. Figurino: Renee Ehrlich Kalfus. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Missy Parker. Produção executiva: Jamal Daniel, Kevin Halloran, Ivana Lombardi, Margot Lee Shetterley, Mimi Valdes, Renee Witt. Produção: Peter Chernin, Donna Gigliotti, Theodore Melfi, Jeno Topping, Pharrell Williams. Elenco: Taraji P. Henson, Octavia Spencer, Janelle Monáe, Kevin Costner, Kirsten Dunst, Mahershala Ali, Jim Parsons. Estreia: 25/12/16

3 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer), Roteiro Adaptado

Depois de uma polêmica bastante justa em relação à ausência de artistas negros entre os indicados ao Oscar 2016, parece que a Academia de Hollywood finalmente abriu os olhos em relação à diversidade de sua indústria: em 2017, escolheu três filmes com temática racial para fazer parte de sua seleta lista de indicados ao prêmio principal. Um deles, "Moonlight: sob a luz do luar", merece todos os elogios e a estatueta que acabou com os planos de "La La Land: cantando estações". Outro, "Um limite entre nós", dirigido e estrelado por Denzel Washington - talvez o maior ator negro em atividade - é uma adaptação fiel, e portanto um bocado limitada, de uma peça teatral, mas tem ele e Viola Davis no elenco, o que sempre vale o espetáculo. No entanto, é difícil achar que "Estrelas além do tempo" não foi selecionado apenas por seu tema. Repleto de clichês, dirigido sem inspiração e com sérios problemas de foco, o filme de Theodore Melfi chegou a ganhar o prêmio máximo do Sindicato de Atores (melhor elenco), mas se ressente justamente de não dar a esse mesmo elenco um material menos previsível e piegas.

Assim como aconteceu com "Histórias cruzadas" (2011), de Tate Taylor, "Estrelas além do tempo" fez enorme sucesso de bilheteria, chegou a finalista do Oscar e tem Octavia Spencer entre seus ótimos atores (ela ganhou a estatueta de coadjuvante pelo filme de Taylor e repetiu a indicação aqui). Mas, também como "Histórias cruzadas" apela para um popularismo que, se agrada em cheio ao público médio, o distancia de ser um grande filme. Com uma história fascinante em mãos, e personagens ricas para explorar, o roteiro prefere optar pelo caminho mais fácil, minando ao máximo todas as poderosas nuances que sua história de superação e força poderia ter. No final das contas, entrega um filme correto, sem arestas e de óbvia relevância política e social, mas perde a chance de ser inesquecível como cinema. Com uma narrativa clássica - quase preguiçosa - Melfi parece não acreditar na potência da imagem, reiterando constantemente o que é dito e repetido, como a insistência em mostrar as placas de "COLORED" (negros) toda vez que precisa sublinhar ainda mais os fatos de racismo que ocorrem na trama. Essa aparente falta de confiança na inteligência do público, porém, é o que menos incomoda: o pior é a nítida sensação de que o roteiro não sabe exatamente qual a história que pretende contar.


Se não, vejamos: a trama se passa em 1961, quando os EUA e a União Soviética disputavam a primazia na corrida espacial. Suas protagonistas são três amigas, negras, que, apesar da brilhante inteligência, são consideradas peças menos importantes do jogo. Todas trabalham na NASA, mas são separadas de todos os colegas brancos e seu local de trabalho é uma sala especial - assim como o banheiro que são autorizadas a usar e o café que podem tomar. Quando uma delas, Katherine Goble (Taraji P. Henson, a melhor em cena) é chamada para trabalhar na equipe liderada por Al Harrison (Kevin Costner), ela acredita que seu talento para geometria analítica finalmente será reconhecido por seus semelhantes, mas, apesar da atenção de Harrison, percebe que continua sendo tratada como alguém inferior somente por sua raça. Enquanto isso, Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) luta para convencer sua chefe, Vivian Mitchell (Kirsten Dunst), a lhe promover a supervisora das demais computadoras, já que falta-lhe apenas o status e o salário para tal, uma vez que faz todo o trabalho referente ao cargo - obviamente, suas ambições são tratadas com quase desprezo. E por fim, Mary Jackson (a cantora Janelle Monáe, começando bem a carreira), encorajada por sua inteligência e por sua coragem, resolve tornar-se a primeira negra a cursar a Faculdade de Engenharia, entrando na Justiça para garantir seus direitos.

É uma história encorajadora, inspiradora e emocionante, especialmente quando contextualizada - tanto no início dos anos 60, quando a tensão racial era ainda mais explícita na sociedade americana, quanto nos dias de hoje, com a onda de conservadorismo e fascismo ameaçando cada vez mais. Porém, "Estrelas além do tempo" perde o foco diversas vezes em sua narrativa, desviando a atenção de suas protagonistas para sequências desnecessariamente longas sobre problemas da NASA - que combinam com filmes como "Apollo 13" (95), mas que soam completamente deslocadas aqui - ou questões domésticas que diluem a força da mensagem. Dando a impressão de não confiar totalmente na empatia inerente de suas protagonistas, o roteiro faz questão de sublinhar cada momento de maior tensão racial que surge na trama, mas jamais se aprofunda na discussão, mantendo-se sempre na superficialidade que mais apetece à plateia média. Mais uma vez se assemelha com "Histórias cruzadas", um filme sobre negros feito para agradar ao público branco. "Estrelas além do tempo" se ressente de uma contundência maior, de um engajamento maior e menos óbvio. É um passatempo digno graças a seu excelente elenco e a suas protagonistas brilhantes, mas está longe de ser tão bom quanto muitos fizeram acreditar.

quinta-feira

UMA CARTA DE AMOR

UMA CARTA DE AMOR (Message in a bottle, 1999, Warner Bros, 131min) Direção: Luis Mandoki. Roteiro: Gerald DiPego, romance de Nicholas Sparks. Fotografia: Caleb Deschanel. Montagem: Steven Weisberg. Música: Gabriel Yared. Figurino: Bernie Pollack. Direção de arte/cenários: Jeffrey Beecroft/Dorree Cooper, Elaine O'Donnell, CC Perkinson. Produção: Kevin Costner, Denise DiNovi, Jim Wilson. Elenco: Kevin Costner, Robin Wright-Penn, Paul Newman, John Savage, Ileana Douglas, Robbie Coltrane. Estreia: 12/02/99

Primeiro romance de Nicholas Sparks a ser adaptado para o cinema - antes, portanto, que a fórmula de seus livros se tornasse facilmente reconhecível a qualquer espectador, por mais distraído que seja - "Uma carta de amor" é, também, um dos melhores filmes baseados em sua obra, normalmente exagerada no dramalhão a ponto da superficialidade. Marcando também o retorno de Kevin Costner às boas graças do público depois de um período negro em que estrelou fracassos retumbantes como "Waterworld, o segredo das águas" e "O mensageiro", o filme de Luis Mandoki é um drama romântico à moda antiga, feito sob medida para quem gosta de se emocionar ao assistir a uma bela e devastadora história de amor.

Mesmo que não tenha sido um sucesso extraordinário de bilheteria, "Uma carta de amor" devolveu a Costner - um dos astros mais quentes do final dos anos 80 e do começo da década de 90 - um pouco do respeito e do prestígio acumulado com êxitos acachapantes com "Os intocáveis", "JFK", "O guarda-costas" e principalmente "Dança com lobos", sua estreia como diretor e que lhe rendeu o Oscar da categoria (além de outras seis estatuetas, incluindo melhor filme). Deixando de lado sua tendência à megalomania e seu ego exarcebado (apesar de ainda assinar como um dos produtores), Costner entrega à plateia uma das melhores e mais naturais atuações de sua carreira, mostrando que, apesar dos erros monumentais de sua trajetória, ele é um astro de grande carisma, especialmente quando tem a seu lado atores do porte de Paul Newman e Robin Wright Penn, capazes de iluminar qualquer cena com seu imenso talento. São eles que dão à trama - nada especial e até um tanto previsível - o charme e a credibilidade necessários para que ela se torne uma experiência interessante e comovente.


Apesar do nome de Costner ser o primeiro dos créditos, a verdadeira protagonista é Theresa Osborne, a personagem vivida pela bela Robin Wright (então Penn): pesquisadora do jornal Chicago Tribune, ela encontra, durante um período de descanso à beira do mar, uma garrafa contendo uma bela e triste carta romântica, endereçada a uma mulher chamada Catherine. Comovida com o texto e intrigada com uma possível história a ser publicada - principalmente quando descobre outras cartas escritas pelo mesmo autor, ela investiga o caso com a ajuda de uma colega de trabalho e chega até uma pequena cidade costeira, onde conhece Garrett Blake (Costner), um viúvo charmoso e introvertido que vive às turras com a família de sua falecida mulher e se recusa a esquecer o passado. Encantada com Garrett, Theresa esconde dele o real motivo de sua visita e os dois acabam se envolvendo. Ela, desiludida com um divórcio recente e ele ainda enfrentando um luto de dois anos, se apaixonam perdidamente, redescobrindo sentimentos que consideravam enterrados dentro de si. Mas será que Garrett saberá compreender as razões que levaram Theresa a ocultar a verdade sobre seu encontro?

Mesmo que esteja longe de ser uma obra-prima - em parte porque o roteiro não dá espaço a um aprofundamento maior aos personagens e à trama e em parte porque a intenção do filme é apenas emocionar seu público - "Uma carta de amor" cumpre o que promete. É um romance adulto, estrelado por atores competentes (Paul Newman dá show em cada cena em que aparece como o ranzinza pai de Costner) e com uma história que não tenta inventar a roda, mas prende a atenção do início até o final trágico como é comum na obra de Sparks. Com uma química potente entre Kevin Costner e Robin Wright Penn, é também um dos romances mais consistentes de sua época. Os fãs não tem do que reclamar.

domingo

UM MUNDO PERFEITO

UM MUNDO PERFEITO (A perfect world, 1993, Warner Bros, 138min) Direção: Clint Eastwood. Roteiro: John Lee Hancock. Fotografia: Jack N. Green. Montagem: Joel Cox, Ron Spang. Música: Lennie Niehaus. Figurino: Erica Edell Phillips. Direção de arte/cenários: Henry Bumstead/Alan Hicks. Produção: Clint Eastwood, Mark Johnson, David Valdes. Elenco: Clint Eastwood, Kevin Costner, Laura Dern, T.J. Lowther, Keith Szarabajka, Leo Burmester, Bradley Whitford, Jennifer Griffin. Estreia: 24/11/93

Em 1990, Kevin Costner fez sua estreia na direção com "Dança com lobos", um western revisionista e plácido que conquistou multidões e a Academia de Hollywood, que o premiou com sete Oscar (boa parte deles de merecimento duvidoso, frente a concorrentes como "Os bons companheiros", de Martin Scorsese e "O poderoso chefão, parte 3", de Francis Ford Coppola). Dois anos depois, o veterano Clint Eastwood repetiu o feito com "Os imperdoáveis", um faroeste melancólico que levou 4 Oscar (dessa vez com pleno merecimento). Uma reunião dos dois vencedores só poderia, então, resultar em um sucesso arrasador, especialmente se rompesse com a imagem de bom moço cultivada com tanto cuidado por Costner em sua carreira. O fato de "Um mundo perfeito" ter arrecadado pouco mais de 30 milhões de dólares no território americano, no entanto, mostrou que, das duas uma: ou o público não estava preparado para essa mudança na persona artística do ator ou o filme - no qual Eastwood acumulava as funções de ator, diretor e produtor - não era exatamente grande coisa. Na verdade, é um pouco das duas coisas: nem Kevin Costner é um ator de grande alcance dramático e nem a escolha de Clint de dirigir um filme moralmente dúbio foi acertada.

"Um mundo perfeito" está longe de ser um filme ruim e o fato de fugir do maniqueísmo reinante das produções made in Hollywood já seria motivo o bastante para ter todos os seus pecados perdoados. Seu problema é justamente oferecer a Kevin Costner, um ator limitado e que construiu sua trajetória com base em personagens de moral ilibada e de identificação imediata com o americano médio - ou seja, nada desafiadores - um papel complexo, repleto de aparentes incoerências e que não faz concessões ao romantismo do público feminino. Seu Butch Haynes até deixa vislumbrar uma certa hombridade em algumas atitudes, mas no final das contas, mesmo que mostre um lado mais ameno em determinados momentos, ele é um fora-da-lei, alguém que, sob o ponto de vista puramente moral, é o cara mau da história - como deixa bem claro o rastro de cadáveres que vai deixando para trás. Esse lado sombrio do ator não parece ter agradado à audiência, como mostrou a bilheteria escassa do filme, mas fica a dúvida sobre qual teria sido o resultado (ao menos em termos de crítica) se o ator central fosse alguém mais competente.


A direção de Eastwood para "Um mundo perfeito" segue seu padrão sóbrio, direto e simples. Sem firulas ou brincadeiras com a câmera, o eterno Dirty Harry conduz a trama sem sobressaltos, com sua tranquilidade habitual. Essa calma - uma característica quase imutável de seu trabalho como cineasta - de certa forma atrapalha o desenvolvimento da história, que pede um calor e uma tensão quase inexistentes em sua forma quase acadêmica. O estilo cool de Eastwood talvez não tenha sido o mais apropriado para mostrar o relacionamento entre um perigoso fugitivo e seu refém, um menino de oito anos de idade sem uma imagem paterna na qual se mirar. A emoção e o calor necessários para envolver o público inexistem e a frieza com que a corrida do chefe de polícia atrás dos dois é explorada são, certamente, a maior causa da indiferença com que o filme foi recebido, apesar de suas qualidades.

E qualidades não faltam: a bela fotografia de Jack N. Green é exemplar e o roteiro de John Lee Hancock - que surpreendentemente anos depois cometeria "Um sonho possível" (09), um amontoado dos mais constrangedores clichês dramáticos do cinema - é inteligente ao eleger como herói um homem repleto de falhas e crimes. Até mesmo o plot central (um foragido sequestra um menino, filho de uma testemunha de Jeová que até então o privava de todos os prazeres mundanos permitidos a qualquer criança, e forja com ele uma amizade inusitada enquanto é perseguido pela polícia, ansiosa em fazê-lo voltar para trás das grades) funciona, principalmente por causa da atuação espontânea e encantadora do novato T.J. Lowther. Mas é decepcionante que um filme com tantas possibilidades tenha se transformado em apenas mais um filme comum. De Eastwood sempre se espera mais.

sexta-feira

O GUARDA-COSTAS

O GUARDA-COSTAS (The bodyguard, 1992, Warner Bros, 129min) Direção: Mick Jackson. Roteiro: Lawrence Kasdan. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Donn Cambern, Richard A. Harris. Música: Alan Silvestri. Figurino: Susan Nininger. Direção de arte/cenários: Jeffrey Beecroft/Lisa Dean. Produção: Kevin Costner, Lawrence Kasdan, Jim Wilson. Elenco: Kevin Costner, Whitney Houston, Gary Kemp, Bill Cobbs, Ralph Waite, Michele Lamar Richars. Estreia: 25/11/92

2 indicações ao Oscar: Melhor Canção ("I have nothing", "Run to you")

Primeiro, na metade dos anos 70, o projeto que seria estrelado por Diana Ross e Steve McQueen foi cancelado por ser considerado muito controverso (vale lembrar que o racismo era uma chaga social ainda maior no período). Poucos anos depois, ainda na mesma década, ele voltou à baila, novamente com Ross cotada como estrela, mas dessa vez ao lado do ex-namorado Ryan O'Neal - e novamente ficou só no papel, justamente porque as diferenças entre os outrora amantes impediram que a coisa andasse. Foi preciso, então, praticamente outros vinte anos para que finalmente "O guarda-costas" visse a luz dos refletores. E, levando-se em consideração o estouro de bilheteria - e o status de clássico kitsch que amealhou com o passar do tempo, devido às inúmeras apresentações na televisão - o filme que conta a história de amor entre um guarda-costas branco e uma estrela da música pop negra (que vem a ser sua cliente) não poderia ter estreado em melhor momento. Estrelado por um Kevin Costner no auge da popularidade - ainda surfando na onda do prestígio acumulado pelos sete Oscar de seu "Dança com lobos" (90) e pela polêmica do genial "JFK" (91), de Oliver Stone - e pela cantora Whitney Houston - que estreava no cinema no rastro de seu êxito nas paradas de sucesso - "O guarda-costas" custou a bagatela de 25 milhões de dólares e  arrecadou mais de 120 milhões só no mercado doméstico (EUA e Canadá), além de ver sua trilha sonora quebrar recordes de vendas, puxada pela música-chiclete da década, "I will always love you", hit country que Houston regravou especialmente para o filme e transformou em uma das canções mais emblemáticas de sua carreira.

Houston - que morreu precocemente, vítima de uma overdose em 2012 - não era uma atriz de muitas nuances, mas era dona de uma beleza delicada e de um carisma inegável, o que fez dela a escolha ideal para o papel da protagonista do filme de Mick Jackson, que até então não apresentava nada mais recomendável no currículo do que a comédia romântica "L.A. Story", estrelada por Steve Martin em 1991. Marron, vivida por Houston no filme, é uma cantora extremamente popular, linda, milionária e talentosa que, em vias de também ser reconhecida como grande atriz ao ser indicada ao Oscar, passa a ser ameaçada (via cartas anônimas e bombas caseiras) de morte. Para protegê-la, é contratado Frank Farmer (Kevin Costner), famoso como o melhor do ramo e por ter entre suas regras não trabalhar com celebridades. O pagamento generoso, porém, faz com que ele mude de ideia, mas logo ele percebe que terá muito trabalho pela frente: não apenas a equipe da cantora não é exatamente simpática à ideia de um estranho circulando e impondo ordens, mas a própria estrela, subestimando o perigo que corre, o trata apenas como mais um empregado. As coisas mudam, no entanto, quando ela se apaixona por ele, é correspondida, e o criminoso começa a dar sinais de estar mais perto do que se pensava.


O roteiro de "O guarda-costas" - escrito pelo cineasta Lawrence Kasdan - é repleto de clichês, mas eles desfilam pela tela banhados em um visual tão caprichado que é difícil não se deixar conquistar. A mansão de Marron - a mesma utilizada por Francis Ford Coppola na famosa cena da cabeça de cavalo em "O poderoso chefão" (72) - é espetacular, assim como as referências do cineasta aos clássicos "Metrópolis" (22), de Fritz Lang (citado plasticamente no videoclipe "Queen of the night") e "Yojimbo, o guarda-costas", de Akira Kurosawa (filme preferido do personagem de Costner, que o assiste em companhia de sua cliente/namorada). Tais momentos desviam a trama de sua previsibilidade e até mostram o dedo de Kasdan, um roteirista/diretor que sempre demonstrou carinho pelas tradições cinematográficas - haja visto sua revisita ao western em "Silverado" e seu script para o vitorioso "Caçadores da arca perdida" (81). Aqui ele equilibra o tom cerebral do cinema policial dos anos 70 com referências à cultura popular da década de 90, evitando tanto a violência excessiva quanto o erotismo que se tornaria ingrediente obrigatório em filmes de suspense após o sucesso de "Instinto selvagem" (92). O romance entre Farmer e Rachel beira o puritanismo (a cena de amor entre eles é basicamente um beijo e um corte para a manhã seguinte) e as sequências em que Frank precisa passar à ação soam mais como uma justificativa para enquadrar o filme no gênero policial do que uma necessidade orgânica do roteiro.

Apesar dos pesares, porém, "O guarda-costas" é um dos filmes-ícone dos anos 90 e sobrevive incólume a quaisquer críticas e esnobismo por parte dos cinéfilos mais intelectualoides. Suas constantes reprises na TV aberta ainda conquistam audiência, a trilha sonora entoada por Whitney Houston se mantém inesquecível e é difícil encontrar alguma pessoa que nunca tenha o assistido ao menos uma vez. Um clássico moderno, a despeito de suas falhas.

quarta-feira

SEM SAÍDA

SEM SAÍDA (No way out, 1987, Orion Pictures, 114min) Direção: Roger Donaldson. Roteiro: Robert Garland, romance "The big clock", de Kenneth Fearing. Fotografia: John Alcott. Montagem: William Hoy, Neil Travis. Música: Maurice Jarre. Direção de arte/cenários: Dennis Washington/Bruce Gibeson. Produção executiva: Mace Neufeld. Produção: Robert Garland, Laura Ziskin. Elenco: Kevin Costner, Gene Hackman, Sean Young, Will Patton, Howard Duff, George Dzunza, Iaman, Jason Bernard, David Paymer. Estreia: 14/8/87

Em Hollywood poucas coisas são mais valorizadas do que saber a hora certa de lançar um filme. Às vezes pequenas obras-primas são prejudicadas por estratégias equivocadas de lançamento, enquanto em outras ocasiões filmes medíocres são alçados ao posto de campeão de bilheteria simplesmente porque estrearam na hora certa. Um exemplo de como esse posicionamento comercial pode definir a sorte de um produto - um filme, um astro, uma marca - pode ser encontrado claramente em "Sem saída", eficiente thriller de espionagem dirigido por Roger Donaldson. Pronto desde 1986, ele foi segurado por seu estúdio - a Orion Pictures - até o segundo semestre de 1987. A razão? Eles queriam aproveitar o sucesso que previam para a superprodução "Os intocáveis", de Brian DePalma - que realmente foi muito bem-sucedido nas bilheterias - para capitalizar em cima do astro de ambos os filmes, o então recém-descoberto Kevin Costner. Deu certíssimo - para eles e para Costner. Não só seu filme rendeu mais que o dobro do seu custo como confirmou o status de astro ascendente do ator, que em poucos anos até diretor vencedor do Oscar se tornaria (antes de afundar-se no egocentrismo de filmes catastróficos como "Waterworld" (95) e "O mensageiro" (97)). Mas o melhor de tudo é que, sem essa visão mercadológica, era bem possível que, mesmo com a presença de Gene Hackman no elenco, "Sem saída" acabasse passando em branco, o que seria uma tremenda injustiça com um filme que merece o sucesso que fez.

Uma espécie de precursor das adaptações cinematográficas de Tom Clancy e John Grisham, "Sem saída" é envolvente e surpreendente, com reviravoltas em número o suficiente para prender a atenção até mesmo do público mais descolado do gênero - além de apresentar Costner em cenas bastante ousadas com Sean Young, antes de tornar-se o queridinho bem-comportado da América (e depois ver esse titulo escorrer pelo ralo pelos escândalos de traições conjugais). Ele vive Tom Farrell, um oficial da Marinha americana que é escalado por um antigo colega, Scott Pritchard (Will Patton) para trabalhar no Pentágono ao lado do Secretário de Defesa, David Brice (Gene Hackman) - que quer sua ajuda para obter informações a respeito da construção de um caríssimo submarino que ele acredita ter mais conotações políticas do que necessárias. Não demora muito para que Farrell descubra que a mulher por quem está apaixonado - a sexy e desinibida Susan Atwell (Sean Young) - também tem um caso antigo com Brice, o que o coloca em rota de colisão com seu chefe. A situação fica ainda mais complicada quando uma tragédia muda o curso da história e Farrell precisa utilizar-se de trapaças e mentiras para sair com vida de uma conspiração que envolve até mesmo um suposto espião russo infiltrado no Pentágono.

Narrado sem pressa por Donaldson, que conta com um roteiro de pedigree literário, já que é inspirado livremente no romance "The big clock", de Kenneth Fearing (por sua vez já havia sido adaptado com mais fidelidade em um filme de 1948 estrelado por Ray Milland e Charles Laughton, mas sem conotações políticas), "Sem saída" muda drasticamente de tom em sua segunda metade, quando o idílico e romântico começo dá espaço a uma corrida desesperada contra o relógio. Acusado de um crime que não cometeu, Farrell precisa provar sua inocência e desmascarar os reais responsáveis por sua desesperada situação, tendo sua angústia testemunhada apenas pela audiência, que o acompanha através da câmera nervosa de John Alcott pelos corredores apertados do Pentágono. A tensão crescente, sublinhada pela música do veterano Maurice Jarre e pela edição ágil que não permite o menor descanso - nem ao personagem nem à plateia - só acaba nas sequências finais, que apresentam não apenas um clímax forte o suficiente mas também uma surpresa que muda tudo que havia sido estabelecido até então.

Dirigido com firmeza e com senso de entretenimento na medida certa, "Sem saída" foi o veículo ideal para a construção do ídolo Kevin Costner, que sai-se muito bem em seu primeiro papel de protagonista, mesmo quando precisa encarar Gene Hackman como um dos vilões mais frios de sua carreira. A química entre o galã e a bela Sean Young (que já havia chamado a atenção como uma replicante em "Blade Runner, o caçador de androides" (82)) é outro ponto alto do filme, e culmina com a já famosa cena no interior de uma limousine que passeia pelos pontos turísticos de Washington enquanto os dois estão pra lá de entretidos com paisagens menos clássicas. Tal momento de descontração serve de prelúdio para o abismo que ambos irão encontrar em seguida - e no qual serão seguidos atentamente pelo público que, pelos anos seguintes, correria a qualquer sala de cinema que estivesse apresentando um filme de Costner, um ator cuja queda foi tão espetacular quanto sua ascensão dentro da indústria hollywoodiana.

CAMPO DOS SONHOS

CAMPO DOS SONHOS (Field of dreams, 1989, Universal Pictures, 107min) Direção: Phil Alden Robinson. Roteiro: Phil Alden Robinson, romance "Shoeless Jackson", de W.P. Kinsella.  Fotografia: John Lindley. Montagem: Ian Crafford. Música: James Horner. Figurino: Linda Bass. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Nancy Haigh. Produção executiva: Brian Frankish. Produção: Charles Gordon, Lawrence Gordon. Elenco: Kevin Costner, James Earl Jones, Amy Madigan, Ray Liotta, Burt Lancaster, Frank Whaley, Gabby Hoffman. Estreia: 21/4/89

3 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original

No início dos anos 90 não havia ator mais quente em Hollywood do que Kevin Costner - que chegou a ver sua estreia como diretor, "Dança com lobos" sair da festa do Oscar 91 com sete estatuetas, incluindo filme e direção. Um dos pontapés iniciais dessa febre foi "Campo dos sonhos", um drama com toques espirituais e o beisebol como pano de fundo que surpreendeu nas bilheterias e foi indicado ao Oscar de melhor filme e roteiro adaptado. Ainda que já tivesse dois sucessos no currículo, foi o papel de Ray Kinsella, um íntegro fazendeiro do Iowa que arrisca sua propriedade ao seguir vozes do além que o transformou em astro de primeira grandeza - afinal de contas, "Os intocáveis" tinha a direção de Brian DePalma e o nome de Robert DeNiro como chamarizes.

Baseado no romance "Shoeless Jackson" - inédito no Brasil - "Campo dos sonhos" exige do espectador uma entrega total à história, quase inimaginável nos cínicos anos 80 e 90. Em sua personalização de James Stewart de seu tempo, Costner esbanja simpatia e carisma em uma trama que mescla espiritualismo, relações familiares, lembranças do passado e esporte sem exagerar em nenhum quesito e emociona sem apelar demasiadamente para o lacrimoso. Se suas indicações ao Oscar foram exageradas - em um ano onde estavam na disputa os poderosos "Nascido em 4 de julho" e "Sociedade dos poetas mortos" - é inegável que o filme de Phil Alden Robinson (que mais de dez anos depois assinaria "A soma de todos os medos" e mostraria que entende de adrenalina) cumpre o que promete, mesmo para o público que não tem pelo beisebol nada mais do que indiferença.


O beisebol é apenas o pano de fundo de "Campo dos sonhos", podendo ser substituído por qualquer esporte sem a perda da essência de sua narrativa. Ray Kinsella (Costner) é dono de uma fazenda de milho no interior do Iowa que um dia, do nada, começa a ouvir vozes que repetem sempre a mesma sentença: "Se você construí-lo, ele virá!" Sem saber exatamente o motivo, ele interpreta a mensagem como uma ordem para que construa um estádio de beisebol onde está sua plantação de milho. Mesmo arriscado a perder tudo, ele conta com o apoio da esposa Annie (Amy Madigan) e se surpreende quando, depois do estádio pronto, recebe a visita de Shoeless Joe Jackson (Ray Liotta), um jogador de beisebol banido do esporte em 1919 depois de um escândalo. Aos poucos, diante dos olhos atônitos de Ray, um grupo inteiro de jogadores já mortos começa a frequentar seu estádio. Já que as vozes continuam a orientá-lo, o fazendeiro inicia então uma jornada em direção aos reais objetivos de sua missão. Para isso, ele precisa da ajuda do recluso escritor Terence Mann (James Earl Jones).

Inspirado no escritor J.D. Salinger, Terence Mann é um personagem fictício que remete Kinsella diretamente a seus dias de juventude idealista em que, ao lado da esposa, lutava contra as injustiças sociais. É Mann quem irá ajudar o protagonista em sua busca e é ele quem irá testemunhar o encontro do rapaz com um jovem Archibald Graham (Frank Whaley) - que mais tarde irá revelar-se mais importante do que parece a princípio. No fundo de tudo, está a relação de Kinsella com seu falecido pai - uma relação marcada pelo rancor e por palavras não ditas e que encontrará no estádio de beisebol uma forma de redenção.

Se Costner é a mola-mestra do filme, servindo como ponto de partida e retorno, o elenco coadjuvante de "Campo dos sonhos" não poderia ser mais adequado. James Earl Jones brilha como o irascível Terence Mann, que mostra seu lado gentil no decorrer da trama. Burt Lancaster tem uma participação afetiva brilhante como o velho doutor Archibald Graham em um momento crucial - ainda que pouco explorado pela direção de Robinson. E Ray Liotta quase rouba a cena como o rebelde Shoelles Jackson do título do romance - antes de protagonizar "Os bons companheiros", de Scorsese, o ator transmite todas as emoções do personagem sem precisar de muitos diálogos.

"Campo dos sonhos" é um belo e sensível filme que tira partido do carisma de Kevin Costner e de uma história sentimental (e não piegas) que trata de amor, sonhos despedaçados e da força da fé.

quinta-feira

DIZEM POR AÍ


DIZEM POR AÍ (Rumor has it, 2005, Warner Bros, 97min) Direção: Rob Reiner. Roteiro: T.M.Griffin. Roteiro: Peter Deming. Montagem: Robert Leighton. Música: Marc Shaiman. Figurino: Kym Barrett. Direção de arte/cenários: Tom Sanders/Jay R. Hart. Produção executiva: Len Amato, Bruce Berman, George Clooney, Jennifer Fox, Robert Kirby, Michael Rachmil, Steven Soderbergh. Produção: Ben Cosgrove, Paula Weinstein. Elenco: Jennifer Aniston, Kevin Costner, Mark Ruffalo, Shirley MacLaine, Richard Jenkins, Kathy Bates, Mena Suvari. Estreia: 25/12/05

Publicado em 1963, o romance "The graduate", escrito por Charles Webb chegou às telas dos cinemas em 1967, sob a direção premiada com o Oscar de Mike Nichols. Com o título nacional de "A primeira noite de um homem", o filme de Nichols e estrelado por Dustin Hoffman e Anne Bancroft em atuações consagradoras tornou-se imediato sucesso e ícone de uma geração. Quase quarenta anos depois, um filme que especula sobre até que ponto a história contada no livro era realmente fictícia comprova que charme não é algo que se pode forjar. Por mais talentosos que sejam os atores e o diretor de "Dizem por aí", falta ao filme o que dava um molho especial ao original: sutileza e relevância.

A protagonista de "Dizem por aí" é Sarah Huttinger (Jennifer Aniston, linda e boa atriz), uma jornalista que acaba de ficar noiva do amoroso advogado Jeff (Mark Ruffalo), com quem mantém uma relação carinhosa mas longe de apaixonada. Voltando à casa da família em Pasadena para o casamento da irmã caçula (Mena Suvari), ela reencontra o pai (Richard Jenkins) e a exuberante avó, Katharine Richelieu (Shirley MacLaine). Durante sua estada na cidade, porém, ela acaba, sem querer, ouvindo boatos de que o romance "A primeira noite de um homem" - e consequentemente o filme inspirado nele - é a descrição exata da história do triângulo amoroso que envolveu sua falecida mãe, sua avó e o sedutor Beau Burroughs (Kevin Costner). Apavorada com a possibilidade de não ser filha legítima de seu pai - a quem adora - ela procura o escritor e acaba se envolvendo com ele após ter certeza de que não é sua filha.



Levado em tom de comédia romântica contemporânea pelo diretor Rob Reiner - que assinou aquela que é a quintessência do gênero, "Harry & Sally, feitos um para o outro" - essa continuação informal do filme de Mike Nichols não tem outra intenção senão entreter sua plateia. Não existe nele nenhum tipo de tentativa de retratar sua época e seus jovens nem tampouco ambições secretas. Tudo é claro e um tanto óbvio no roteiro, excluindo a dubiedade e o quase cinismo do produto original. Mesmo que por vezes seja bem divertida - responsabilidade da atuação inspirada de Shirley MacLaine - a trama não se sustenta em seus momentos dramáticos, principalmente por causa das atitudes duvidosas de sua protagonista, um problema que nem mesmo o carisma de Jennifer Aniston consegue resolver. E Mark Ruffalo, coitado, não tem muito o que fazer, se tornando um coadjuvante de luxo logo que Kevin Costner entra em cena.

Aliás, é pertinente assumir que o trabalho de Costner é uma das melhores surpresas do filme de Reiner. Deixando de lado a persona megalomaníaca que quase enterrou sua carreira, o ex-maior astro de Hollywood no início dos anos 90 entrega um trabalho leve, charmoso e sedutor, tornando crível sua relação tanto com MacLaine quanto com Aniston. É ele um dos maiores destaques do filme e, assim como fez em "A outra face da raiva", agarra com as duas mãos uma dos papéis mais interessantes a surgir em sua frente depois de seus deslizes comerciais. Quando ele e MacLaine finalmente contracenam - já no final da projeção - faíscas saltam e ao público resta apenas lamentar que o encontro não tenha acontecido antes.

A OUTRA FACE DA RAIVA

A OUTRA FACE DA RAIVA (The upside of anger, 2005, New Line Cinema, 118min) Direção e roteiro: Mike Binder. Fotografia: Richard Greatrex. Montagem: Steve Edwards, Robin Sales. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Deborah Scott. Direção de arte/cenários: Chris Roope/Neesh Ruben. Produção executiva: Mark Damon, Andreas Grosch, Stewart Hall, Andreas Schmid. Produção: Jack Binder, Alex Gartner, Sammy Lee. Elenco: Joan Allen, Kevin Costner, Evan Rachel Wood, Erika Christensen, Mike Binder, Keri Russell, Alicia Witt. Estreia: 23/01/05 (Festival de Sundance)

Uma das atrizes mais interessantes do cinema americano a aparecer ao grande público na segunda metade dos anos 90, Joan Allen já havia sido reconhecida com algumas indicações ao Oscar - como coadjuvante por "Nixon" e "As bruxas de Salem" e como protagonista por "A conspiração" - mas, apesar de sempre ser a melhor coisa dos filmes dos quais participava demorou a ter um filme que lhe desse a oportunidade de mostrar toda a sua capacidade. Foi preciso um filme pequeno e despretensioso - dirigido pelo também ator Mike Binder, que escreveu o papel especialmente para ela - para que ela finalmente pudesse deitar e rolar, em uma atuação tão fabulosa que consegue contagiar até mesmo o normalmente apático Kevin Costner.


Realizado com delicadeza, simplicidade e sensibilidade, “A outra face da raiva” conta a história de Terry Wolfmeyer, uma dona de casa que tem a vida transformada quando é repentinamente abandonada pelo marido e fica às voltas com as quatro filhas: a mais velha, Hadley (Alicia Witt) estuda em outra cidade e está grávida do namorado; a segunda, Emily (Keri Russell) sonha em ser bailarina mas descobre estar seriamente doente; a terceira, Andy (Érika Christensen) quer ser jornalista e se envolve com o patrão alguns anos mais velho (o diretor do filme, Mike Binder) e a caçula, Popeye (Evan Rachel Wood) se apaixona por um colega de classe com dúvidas sobre sua sexualidade. Entregando-se à amargura e à bebida, Terry acaba encontrando amparo e companheirismo em Denny (Kevin Costner), amigo de seu marido que teve seus dias de glória como jogador de beisebol e no momento apresenta um programa de rádio e vive da fama de seu passado.
        

Sem tentar comover apelando às lágrimas fáceis, o equilibrado roteiro de Binder é um prato cheio para Allen, que brilha em cada cena, sendo a megera amarga, a sensível abandonada, a mãe cruel e a mulher com medo de entregar-se a uma nova paixão. Cercada por um elenco que nunca deixa a peteca cair, ela prova, sem espaço para dúvidas, de que é uma das atrizes mais completas de sua geração e transforma o que poderia ser apenas mais um filme sobre problemas familiares em uma experiência acima da média. E encontra em Kevin Costner um parceiro à altura, por incrível que pareça.

Um dos maiores ídolos do começo da década de 90 - com sucessos de bilheteria e um aplauso quase unânime a respeito de sua estreia na direção com o multioscarizado "Dança com lobos" - Kevin Costner deixou que sua megalomania freasse bruscamente a sua ascensão. Os fracassos mastodônticos dos igualmente imensos "Waterworld" e "O mensageiro" o transformaram rapidamente de "o grande astro americano" em "a promessa que não se cumpriu". Até mesmo sua imagem de bom moço foi pro ralo com o fim de seu casamento aparentemente indissolúvel e tudo parecia ter ido água abaixo quando o que restava de sua humildade o jogou em filmes elogiados como "13 dias que abalaram o mundo" - sobre a crise dos mísseis de Cuba em 1963 - e este "A outra face da raiva", onde injetou humanidade a uma personagem que, de certa forma, reflete o ocaso de sua carreira. Ao lado de Joan Allen ele é a principal razão para se assistir à bela estreia de Mike Binder como diretor.

JFK, A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR

JFK, A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR (JFK, 1991, Warner Bros, 189min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, Zachary Sklar, livros "On the trail of assassins", de Jim Garrison e "Crossfire: the plot that killed Kennedy", de Jim Marrs. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Joe Hutsching, Pietro Scalia. Música: John Williams. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Victor Kempster/Crispian Sallis. Casting: Risa Bramon Garcia, Billy Hopkins, Heidi Levitt. Produção executiva: Arnon Milchan. Produção: A. Kitman Ho, Oliver Stone. Elenco: Kevin Costner, Sissy Spacek, Gary Oldman, Tommy Lee Jones, Joe Pesci, Jack Lemmon, Walter Matthau, Donald Sutherland, Kevin Bacon, Michael Rooker, John Candy, Sally Kirkland, Vincent D'Onofrio, Wayne Knight, Laurie Metcalf, Lolita Davidovich, Ron Rifkin. Estreia: 20/12/91

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Oliver Stone), Ator Coadjuvante (Tommy Lee Jones), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Som
Vencedor de 2 Oscar: Fotografia, Montagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Diretor (Oliver Stone) 

Em 22 de novembro de 1963, em uma viagem a Dallas, o presidente John Fitzgerald Kennedy foi alvejado fatalmente, para desespero de milhares de americanos que o idolatravam. Pouco tempo depois, a polícia apresentava o culpado, o jovem Lee Harvey Oswald. Antes de qualquer tipo de julgamento, o acusado foi assassinado, frente às câmeras de TV, por Jack Ruby, o dono de um bar de strippers, ligado à máfia. Uma comissão formada pelo governo para investigar o caso - a Comissão Warren - chegou à conclusão de que Oswald agiu por contra própria, por discordar das ideias de Kennedy a respeito de Cuba e Fidel Castro. A investigação teria tido um ponto final se Jim Garrison, o promotor público de Nova Orleans, não tivesse dado continuidade ao assunto. Com a ajuda de uma equipe dedicada e incorruptível, ele levou um empresário local ao banco de réus, acusando-o de conspiração. Segundo Garrison, a morte de Kennedy foi o ato final de uma conspiração gigantesca envolvendo o FBI, a CIA e até mesmo o próprio governo americano. E é justamente sua batalha atrás da verdade sobre o assassinato que mudou a história dos EUA que é retratada em "JFK, A pergunta que não quer calar", a obra-prima absoluta do polêmico cineasta Oliver Stone.

Utilizando dois livros como base para seu complexo e instingante roteiro - um escrito pelo próprio Jim Garrison e outro pelo jornalista Jim Marrs, nem sempre de teorias compatíveis - Oliver Stone construiu um dos thrillers políticos mais fascinantes da história do cinema. Ao eleger a investigação de Garrison como fio condutor para sua narrativa, Stone entrega ao público um trabalho detalhista e admiravelmente bem construído. O roteiro, repleto de camadas que escondem camadas que escondem camadas, é um primor de inteligência, que gruda o espectador na cadeira em seus primeiros minutos e não o deixa abandoná-la até seu final - na versão do diretor, mais de três horas depois.

 

Interpretado por um Kevin Costner discreto, que não se deixa engrandecer pela personagem - depois que Harrison Ford e Mel Gibson declinaram do papel - Jim Garrison é o mais próximo de um herói que a trama de "JFK" pode oferecer à plateia. Lembrando em certos momentos seu Elliot Ness de "Os intocáveis" - um homem honesto e quase obcecado em sua busca pela verdade - Garrison serve também como os olhos do público, incrédulos, chocados, absolutamente apavorados com a gama de mentiras que vão sendo desvendadas pouco a pouco. E a forma como as verdades - ou o mais perto possível delas - surgem diante dos olhos de Garrison e da audiência é nunca menos do que brilhante. Nas mãos de Oliver Stone, a morte de John Kennedy, um dos maiores traumas coletivos da história americana, transforma-se em um espetáculo dos mais empolgantes que o cinema pode proporcionar.

Além do roteiro impecável - tão cheio de informações que é desaconselhável até mesmo uma piscadela - Stone também cercou-se de uma equipe excepcional. A edição nunca aquém de espetacular levou um merecidíssimo Oscar, ao alternar vídeos reais com cenas incrivelmente reconstituídas, e a fotografia de Robert Richardson, também oscarizada, se equilibra entre a cor, o preto-e-branco e 8mm (com as recorrentes cenas do filme de Abraham Zapruder, que testemunhou a tragédia, sendo apresentadas quase como uma personagem). A trilha sonora de John Williams comenta a ação com sabedoria, destacando com força os momentos mais tensos - trabalhando longe de Steven Spielberg, Williams criou uma de suas mais sensacionais trilhas, que dá o tom exato das intenções de Oliver Stone em manter intacta a atenção do público mesmo diante da quantidade de nomes, fatos e contradições que se espalham na tela. E se as informações são em número quase assustador, o elenco formado pelo cineasta é de tirar o fôlego. Trabalhando com cachês bem abaixo de seu normal, os atores de "JFK" são um show à parte.

Naturalmente, Kevin Costner lidera o elenco como protagonista absoluto.Mas, a seu lado, desfila um elenco de causar inveja a Robert Altman - em personagens maiores ou menores, eles sustentam com garra e elegância uma estrutura complexa que dá espaço para que todos brilhem em seu devido momento. Somente Tommy Lee Jones chegou a ser indicado ao Oscar, por sua atuação como Clancy Shaw, o único a ser julgado pela morte do presidente, mas sua indicação pode ter sido uma forma de a Academia homenagear todas as feras dirigidas por Stone. Como Lee Harvey Oswald, o inglês Gary Oldman transforma-se absurdamente (como já o havia feito em "Sid & Nancy, o amor mata", onde viveu o roqueiro Sid Vicious). Como o misterioso X, que dá dicas preciosas a Garrison, Donald Sutherland é dono de uma das sequências mais arrepiantes do longa. E além deles, estão presentes Kevin Bacon, Joe Pesci (magnífico), Sissy Spacek e os indescritíveis Jack Lemmon e Walter Matthau. Pode-se pedir mais de um elenco?

"JFK" é eletrizante, inteligente, fascinante e dirigido com uma paixão evidente. Graças a ele, documentos a respeito das investigações da Comissão Warren foram a público muito antes do previsto e, mais importante do que tudo, Oliver Stone conseguiu abalar as estruturas americanas com um filme que nunca deixa de ser também entretenimento da mais alta qualidade. Suas teorias talvez não sejam tão realistas quanto ele afirma, mas só o fato de fazer um trabalho tão impecável do ponto de vista cinematográfico já é motivo o bastante para que seja louvado. Infelizmente bateu de frente com "O silêncio dos inocentes" na corrida pelo Oscar. Ganhou duas estatuetas. Merecia muito mais.

sexta-feira

OS INTOCÁVEIS


OS INTOCÁVEIS (The untouchables, 1987, Paramount Pictures, 119min) Direção: Brian De Palma. Roteiro: David Mamet, inspirado em livro de Oscar Fraley, Eliot Ness. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Jerry Greenberg, Bill Pankow. Música: Ennio Morricone. Figurino: Marilyn Vance-Straker. Direção de arte/cenários: William A. Elliott/Hal Gausman. Casting: Mali Finn. Produção: Art Linson. Elenco: Kevin Costner, Robert DeNiro, Sean Connery, Andy Garcia, Charles Martin Smith, Billy Drago, Patricia Clarkson, Richard Bradford. Estreia: 03/6/87

4 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Sean Connery), Trilha Sonora, Figurino, Direção de arte/cenários
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Sean Connery)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Sean Connery)


Quatro anos depois do violento “Scarface”, Brian de Palma voltou a lidar com o tema do gangsterismo, dessa vez contando uma história mezzo verdadeira mezzo ficção. Baseado na extinta série de TV dos anos 60, “Os intocáveis” é diversão de primeira grandeza e ainda provou uma expressiva maturidade de seu diretor.

Sem deixar muito espaço para tramas paralelas, o que enfraqueceu “Scarface”, o roteiro do dramaturgo David Mamet parte logo pro assunto, mostrando a que veio: na Chicago dos anos 20, em pleno vigor da Lei Seca, o chefão do crime organizado, Al Capone (em mais uma caracterização impecável de Robert De Niro) manda e desmanda na cidade, utilizando de violência sempre que lhe é conveniente. Para tentar acabar com seus desmandos, surge Eliott Ness (um Kevin Costner jovial e promissor), que, como bom chefe de família incorruptível e honesto, resolve formar uma brigada em prol de sua prisão. Para isso une-se ao veterano policial Jim Malone (Sean Connery), o ambicioso George Stone(Andy Garcia) e o contador Oscar Wallace (Charles Martin Smith), que é quem tem a ideia mais eficaz contra o criminoso: processá-lo por sonegação do imposto de renda.


A luta travada entre Capone – capaz de comprar um corpo de jurados inteiro – e Ness e seus asseclas, os “intocáveis” do título faz do filme de De Palma o que ele é: um impactante e empolgante filme de gângster, com lados bem divididos e claros, com mocinhos de um lado e bandidos de outro. Com uma edição enxuta e ágil e uma reconstituição de época brilhante, além de uma das mais marcantes trilhas sonoras de Enio Morricone, “Os intocáveis” consegue o que parecia impossível: superar sua origem, desatacando seu quase maniqueísmo e louvando-o como uma qualidade. Em tempos cínicos nada como um pouco de nostalgia, é o que parece gritar cada fotograma de Stephen H. Burum. Sequências de uma beleza plástica inegáveis caminham lado a lado com uma violência muitas vezes inesperadas.

E nostalgia é o que não falta a “Os intocáveis”, uma vez que De Palma consegue arrumar espaço inclusive para uma bela e justa homenagem a uma das seqüências mais memoráveis da história do cinema. Praticamente copiando quadro a quadro a cena da escadaria de Odessa do alemão “Outubro”, de Serguei Eisenstein, o cineasta criou um dos mais tensos e exemplares momentos do cinema de ação dos últimos anos, que deixa a platéia com a respiração suspensa por alguns dos minutos mais recompensadores das suas duas horas de projeção.

E se Kevin Costner é o herói e Robert De Niro o vilão não pode-se deixar de notar o elenco coadjuvante. O cubano Andy Garcia parece sempre prestes a roubar as cenas de que participa e o baixinho Charles Martin Smith dá o tom cômico sem exageros. Mas foi Sean Connery, o eterno James Bond quem mais chamou a atenção da crítica. Deixando para trás a maldição de um único papel, ele chegou a levar o Oscar de coadjuvante por seu trabalho em um papel feito sob medida: na pele do policial irlandês Malone, Connery injeta humanidade e experiência a um projeto elegante e adulto. Um filme como poucos!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...