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terça-feira

EU, EU MESMO E IRENE


EU, EU MESMO E IRENE (Me, myself & Irene, 2000, 20thCentury Fox, 116min) Direção: Bobby Farrelly, Peter Farrelly. Roteiro: Bobby Farrelly, Peter Farrelly, Mike Cerrone. Fotografia: Mark Irwin. Montagem: Christopher Greenbury. Música: Lee Scott, Pete Yorn. Figurino: Pamela Withers.Direção de arte/cenários: Sidney J. Bartholomew Jr./Scott Jacobson. Produção executiva: Tom Schulman, Charles B. Wessler. Produção: Bobby Farrelly, Peter Farrelly, Bradley Thomas. Elenco: Jim Carrey, Renée Zellweger, Chris Cooper, Robert Forster, Richard Jenkins. Estreia: 15/6/2000

Sutileza nunca foi o forte de Bobby e Peter Farrely. Desde que apareceram no radar de Hollywood com "Débi & Lóide: dois idiotas em apuros" (1994), os irmãos não pararam de apelar para a vulgaridade como forma de fazer as plateias gargalharem sem que fosse preciso acionar o cérebro. Atingiram o auge do sucesso com "Quem vai ficar com Mary?" (1998), em que aproveitaram a popularidade e o carisma de Cameron Diaz para um desfile de piadas infames com o verniz de credibilidade oferecido por um grande estúdio (a 20th Century Fox) e se tornaram nomes quentes na indústria. Porém, até mesmo aqueles que fingiam não ver o excesso de grosserias visuais e verbais de seus primeiros filmes não deixaram de ficar chocados com a absoluta falta de noção apresentada em "Eu, eu mesmo e Irene". Estrelado pelo mesmo Jim Carrey de "Débi & Lóide" e valorizado pela presença da sempre ótima Renée Zellweger, o terceiro longa dos Farrelly não poupa o espectador de piadas constrangedoras que atingem todo e qualquer tipo de minoria - racial, étnica ou médica -, mas esbarra perigosamente em sua falta de limites. Mesmo com uma bilheteria polpuda de quase 150 milhões de dólares, a comédia quase romântica dos Farrelly encontrou severa resistência em sua estreia, e foi criticado justamente por aquilo que parecia ser o ponto forte dos cineastas: o humor politicamente incorreto.

Quem primeiro chiou a respeito do filme foram as associações de familiares de portadores de esquizofrenia, que não gostaram nem um pouco de ver a doença tratada como piada - principalmente da forma avassaladoramente histriônica apresentada por Jim Carrey no auge de seu sucesso no gênero. Depois disso, vieram reclamações sobre como o filme debochava de anões, negros e albinos - se quisesse, qualquer um poderia encontrar motivos justos para queixas. A grande questão, porém,  descontado o absoluto desprezo da dupla de realizadores por um mísero traço de sofisticação, é o fato de que, apesar de seguir quase à risca a fórmula dos primeiros filmes dos cineastas, "Eu, eu mesmo e Irene" não é nem de longe tão engraçado quanto eles. Primeiro por forçar piadas que soam deslocadas e nem sempre funcionam. E principalmente porque, ao contrário de seus trabalhos anteriores, elas estão diluídas em uma trama que exige mais do espectador do que simplesmente risadas - por vezes, a história (fraca) que envolve os personagens fica tão confusa que sobra pouco tempo para rir.

 

O personagem central do filme é Charlie Baileygates, um pacato policial de Rhode Island, cumpridor das leis, afável a ponto de ser tratado como capacho por quase todo mundo e um pai dedicado de trigêmeos que são a prova do adultério da ex-esposa. Continuamente abusado em sua boa-fé, ingenuidade e bondade, um dia Charlie deixa escapar uma nova personalidade: bruto, desbocado, vulgar e sem filtros, Hank assusta os moradores da pequena cidade e principalmente seus colegas de trabalho. Ciente dessa nova condição psíquica de Charlie - administrável quando devidamente medicada -, seu superior, Coronel Partington (Robert Forster) lhe dá uma missão simples: acompanhar com segurança, até o estado de Nova York, a forasteira Irene Walker (Renée Zellweger), presa por dívidas com a polícia rodoviária. No caminho, porém, Charlie descobre que Irene está na mira de policiais corruptos e um ex-namorado tóxico, que farão de tudo para eliminá-la. Intercalando momentos bons com outros dominados por Hank, ele se apaixona pela bela fugitiva e passa a disputá-la com seu grosseiro alterego.

Assumindo o papel central depois que Jack Black pulou fora do projeto, Jim Carrey deita e rola em sua mais absoluta zona de conforto. Seu talento para o humor físico serve como uma luva para as insanidades do roteiro - terminado por Mike Cerrone em 1991 e posteriormente adequado ao estilo dos irmãos Farrelly pelos próprios diretores - e é difícil imaginar outro ator com a coragem suficiente de participar, em uma fase já de grande prestígio na carreira, de algumas sequências francamente duvidosas (sem spoilers, basta citar um momento com uma mãe amamentando um bebê e outro com uma vaca atropelada no meio da estrada). Renée Zellweger está encantadora como Irene Walker, mas tem pouco a fazer diante das atrocidades comandadas por Carrey (com quem namorou durante as filmagens), e o elenco coadjuvante conta com nomes consagrados por indicações ou vitórias no Oscar (Chris Cooper, Richard Jenkins, Robert Forster). Nada disso impede, no entanto, que "Eu, eu mesmo e Irene" fique na história mais como um filme que talvez tenha ido longe demais em seu conceito de humor a qualquer preço do que por suas qualidades artísticas e/ou cômicas. Não à toa, os próprios Farrelly o consideram seu pior filme - e isso que depois eles ainda virariam sua metralhadora giratória para obesos ("O amor é cego", de 2000) e gêmeos siameses ("Ligado em você", de 2003), até Peter deixar de lado seu pendor para o politicamente incorreto, e cometer "Green Book: O Guia", que levou o Oscar de melhor filme de 2018 ao falar sobre racismo (mesmo que sob um ponto de vista branco e pouco profundo).

quarta-feira

SEXO, ROCK E CONFUSÃO

SEXO, ROCK E CONFUSÃO (Empire Records, 1995, Warner Bros, 90min) Direção: Allan Moyle. Roteiro: Carol Heikkinen. Fotografia: Walt Lloyd. Montagem: Michael Chandler. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: Peter Jamison/Linda Spheeris. Produção: Tony Ludwig, Arnon Milchan, Michael Nathanson, Alan Riche. Elenco: Anthony LaPaglia, Maxwell Caulfield, Debi Mazar, Rory Cochrane, Johnny Whitworth, Robin Tunney, Liv Tyler, Renée Zellweger, Ethan Embry, Brendan Sexton III. Estreia: 22/9/95

Nem só de escritores consagrados e adaptações literárias vive o cinema americano. Vez ou outra, uma voz nova e solitária surge com alguma ideia interessante o suficiente para despertar a cobiça de algum estúdio, sedento por alguns milhares de dólares a mais no cofre (ou um produto com potencial a cult). Foi assim, por exemplo, com Carol Heikkinen, ex-funcionária da Tower Records de Phoenix, Arizona, e autora do roteiro da comédia "Sexo, rock e confusão", lançada pela Warner em 1995 com um elenco jovem que incluía as então iniciantes Renée Zellweger e Liv Tyler. Tudo bem que Heikkinen já havia assinado o script de "Um sonho, dois amores" (93), dirigido por Peter Boganovich e estrelado por River Phoenix (um fracasso de bilheteria e crítica), mas foi sua coletânea de memórias afetivas de seu tempo em uma das lojas de discos mais famosas dos EUA que a colocou no radar de Hollywood: com uma mistura quase anárquica de música, humor adolescente e despretensão, sua trama (simples e superficial) chegou às telas sob a direção de Allan Moyle - que já tinha no currículo outra comédia musical jovem, "Um som diferente" (90), com Christian Slater - e, se não arrebentou nas bilheterias, ao menos consegue divertir seu público-alvo mesmo passando longe de apresentar alguma novidade.

A estrutura central de "Sexo, rock e confusão" lembra a do clássico juvenil "Clube dos cinco" (85), de John Hughes, mas sem a profundidade emocional deste. Sua ambientação pode lembrar aos cinéfilos o genial "Alta fidelidade" (99), de Stephen Frears - mesmo que ele tenha sido lançado anos depois. Mas o filme de Moyle não parece querer ser mais do que um passatempo leve e simpático, embalado por uma trilha sonora pop-rock e enfeitado por um elenco fotogênico. Todo o roteiro gira em torno da Empire Records do título original, uma loja independente de discos que está a um passo de ser absorvida por uma cadeia de empreendimentos semelhantes. Seu gerente, Joe (Anthony LaPaglia) ainda não quer revelar aos funcionários tal situação, mas este parece ser o menor dos problemas da equipe, toda ela envolvida em algum problema pessoal. Lucas (Rory Cochrane), o único que sabe da verdade, tentou reverter o quadro roubando a féria do dia anterior e perdendo no jogo em Atlantic City; A. J. (Johnny Withworth) planeja declarar seu amor à colega Corey (Liv Tyler) - que está mais interessada em perder a virgindade com o astro popular Rex Manning (Maxwell Caulfield), que irá autografar seu novo disco nas dependências da loja; Debra (Robin Tunney) acaba de tentar o suicídio depois do fim do namoro com outro vendedor, Berko (Coyote Shivers); Mark (Ethan Embry) sonha em ser roqueiro; e Gina (Renée Zellweger) administra seu jeito liberal de ser enquanto aconselha Corey a manter seu objetivo de entregar-se à Manning. Nesse meio-tempo, até mesmo um ladrãozinho de meia-tigela, Warren (Brendan Sexton) entra na jogada, tornando-se uma espécie de refém dos jovens funcionários que esperam a chegada de Rex Manning e sua assessora Jane (Debi Mazar).


Uma série de anedotas ligadas tenuamente por um roteiro ligeiro e inconsequente, "Sexo, rock e confusão" se beneficia principalmente por seu elenco, formado por jovens atores então em ascensão. Robin Tunney logo estaria no elenco de "Jovens bruxas" (96) e futuramente participaria da série "O mentalista". Liv Tyler - então recém reconhecida como filha do roqueiro Steven Tyler e musa do clipe "Crazy" ao lado de Alicia Silverstone - se tornaria símbolo sexual instantâneo graças aos filmes "Beleza roubada" (96) e "Armageddon" (98). E Renée Zellweger iria ainda mais longe, conquistando a crítica e o público com filmes como "Jerry Maguire: a grande virada" (96) e "O diário de Bridget Jones" (01), além de ganhar um Oscar de coadjuvante por "Cold Mountain" (03) depois de duas infrutíferas indicações. Jovens, belas e talentosas, elas disfarçam a falta de novidades do roteiro e até a falta de consistência do filme como um todo - não há, a rigor, nenhum personagem que realmente crie empatia com o espectador médio, que assiste a tudo facilmente, é verdade, mas sempre à espera de alguma cena, algum momento que acabe com a nítida impressão de que ele é, na verdade, um produto feito especificamente para a geração MTV.

E nesse ponto, justiça seja feita, o filme não deixa de ser uma delícia. Não tão inteligente quanto outros realizados pela mesma época, como "As patricinhas de Beverly Hills" ou "Pânico" - que não apenas retratavam uma geração, mas o faziam com um grau de ironia carinhosamente único - mas agradável e bem-humorado. Sem pesar a mão nem mesmo quando trata de assuntos um tanto polêmicos como suicídio e virgindade, "Sexo, rock e confusão" é pontuado por uma trilha sonora que inclui The Cranberries, AC/DC, Dire Straits e Better Than Ezra, além de outros nomes do rock anos 90, o que imprime imediatamente um ar nostálgico e irreverente a uma trama facilmente esquecível, mas que não faz mal a ninguém. Uma sessão da tarde para aqueles que cultuam a década de 90 - e suas musas.

segunda-feira

UM AMOR VERDADEIRO

UM AMOR VERDADEIRO (One true thing, 1998, Universal Pictures, 127min) Direção: Carl Franklin. Roteiro: Karen Croner, romance de Anna Quindlen. Fotografia: Declan Quinn. Montagem: Carole Kravetz. Música: Cliff Eidelman. Figurino: Donna Zakowska. Direção de arte/cenários: Paul Peters/Elaine O'Donnell, Leslie A. Pope. Produção executiva: Leslie Morgan, William W. Wilson III. Produção: Jesse Beaton, Harry J. Ufland. Elenco: Meryl Streep, William Hurt, Renée Zellweger, Tom Everett Scott, Lauren Graham, Nicky Katt, James Eckhouse. Estreia: 18/9/98

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Meryl Streep)

A história é conhecida e banhada de clichês: jovem e promissora jornalista, às vésperas de um dos mais importantes trabalhos de sua recém iniciada trajetória profissional, é obrigada a voltar à sua cidade natal para cuidar da mãe, uma mulher forte e determinada que sempre foi o centro da família mas está sofrendo de um câncer terminal. Nesse meio-tempo, a jovem precisa também enfrentar a difícil relação que sempre teve com o pai, um professor de literatura que fracassou como escritor e nunca soube dar o amor que os filhos e a mulher precisavam. Qual é, então, a razão para se assistir a "Um amor verdadeiro"? A mesma que o distingue de dezenas de outras obras semelhantes que volta e meia preenchem a programação da televisão: o elenco extraordinário escalado pelo diretor Carl Franklin. Bom diretor de atores, Franklin extrai de gente do porte de Meryl Streep e William Hurt atuações muito acima da média - não à toa Meryl recebeu sua 11ª indicação ao Oscar por seu desempenho - e entrega à então estrela em ascensão Renée Zellweger um dos papéis mais densos de sua carreira.

É de Zellweger a responsabilidade de dar ao filme de Franklin, baseado em romance de Anna Quindlen - uma escritora conhecida nos EUA por seus livros de teor feminino adocicado - um tom menos piegas e previsível, e ela desincumbe-se muito bem da missão. Na pele da ambiciosa e talentosa Ellen Gulden, que precisa abrir mão de seus objetivos profissionais em prol da saúde de sua mãe, ela dosa com precisão uma gama extensa de sentimentos por vezes contraditórios e que, nas mãos de uma atriz menos competente, fatalmente descambaria para o sentimentalismo barato ou o exagero dramático. Encarando de frente uma das melhores atrizes de todos os tempos, Zellweger - que menos de dois anos antes, quando contracenou com Tom Cruise em "Jerry Maguire", ainda era uma ilustre desconhecida - não se deixa diminuir em cena, crescendo até mesmo quando precisa enfrentar um sempre potente William Hurt, que vai desenhando seu personagem gradualmente até explodir em uma devastadora cena no terço final da projeção - onde seu George finalmente diz a que veio e sai de um melancólico segundo plano. Não é injusto afirmar, aliás, que tanto Renée quanto Hurt também mereciam ter sido lembrados pela Academia, já que conseguem tirar leite de pedra, dando consistência até mesmo a diálogos pouco inspirados e algumas cenas simplesmente supérfluas.


Meryl Streep, por sua vez, está em sua zona de conforto. Kate Gulden é a típica personagem dos sonhos para qualquer atriz ciente de suas capacidades dramáticas, e a veterana vencedora (à época) de dois Oscar não deixa por menos, emocionando o espectador com alguns momentos que demonstram claramente os motivos que a levam a ser tão respeitada e admirada. Vivendo uma mulher simples, altruísta e dedicada que se vê às portas da morte, ela tanto é capaz de despertar uma sincera compaixão do público quanto um sentimento de paz e serenidade que poucas intérpretes conseguiriam com tanta maestria. Mesmo que sua personagem sofra devido a um desenvolvimento pobre - de certa forma ela é quase uma coadjuvante de luxo, já que a trama gira em torno das dificuldades de sua filha em confrontar-se com um nova realidade - Streep consegue extrair dela sempre o máximo de profundidade e verdade. A cena em que ela e sua filha cantam emocionadas na festa de Natal da cidadezinha onde moram é de cortar o coração justamente por essa intensidade.

"Um amor verdadeiro" em si não é um grande filme. Ainda que tente surpreender a plateia no final, com uma pequena reviravolta que muda as perspectivas da audiência em relação aos protagonistas, não consegue desviar-se dos lugares-comuns das produções sobre famílias disfuncionais, doenças terminais e lições de vida. Porém, ao unir em cena três grandes intérpretes em momentos iluminados, merece aplausos e boas lembranças.

quarta-feira

A LUTA PELA ESPERANÇA

A LUTA PELA ESPERANÇA (Cinderella man, 2005, Universal Pictures/Miramax Films, 144min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Cliff Hollingsworth, Akiva Goldsman, estória de Cliff Hollingsworth. Fotografia: Salvatore Totino. Montagem: Dan Hanley, Mike Hill. Música: Thomas Newman. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Gordon Sim. Produção executiva: Todd Hallowell. Produção: Brian Grazer, Ron Howard, Penny Marshall. Elenco: Russell Crowe, Renée Zellweger, Paul Giamatti, Bruce McGill, Craig Bierko, Paddy Considine. Estreia: 23/5/05

3 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Paul Giamatti), Montagem, Maquiagem

Depois dos merecidos Oscar por "Uma mente brilhante" o diretor Ron Howard, o ator Russell Crowe, o roteirista Akiva Goldsman e o produtor Brian Grazer tinham a mais plena certeza de que um bicampeonato estava despontando com seu filme seguinte, mais uma poderosa história de superação, repleta de lances melodramáticos e um protagonista capaz de emocionar os espectadores. Sua ambições, no entanto, começaram a parecer impossíveis quando "A luta pela esperança" - a história real de um boxeador nos difíceis anos pós-Depressão americana - naufragou solenemente nas bilheterias. Tendo custado cerca de 80 milhões de dólares, o filme estacionou em pouco mais de 60 milhões em território ianque e só conseguiu passar dos 100 milhões depois de estrear no resto do mundo - no Brasil, mesmo, só chegou às telas quatro meses depois de seu lançamento doméstico. O fracasso comercial, porém, não faz justiça a um espetáculo que, apesar de quadradinho e sem maiores arroubos de criatividade é comovente ao extremo e visualmente deslumbrante.

Fotografado com precisão por Salvatore Totino - que dá a textura de desânimo e desesperança às imagens - e editado com coesão por Dan Hanley e Mike Hill (também herança de "Uma mente brilhante"), "A luta pela esperança" talvez não tenha encontrado seu público justamente por um visual próximo demais da realidade dos anos 30, ou seja, triste e doloroso demais para uma audiência muito mais interessada em filmes de ação escapistas e efeitos visuais. Também não colaborou para sua tentativa de sucesso o fato de que seu protagonista, Jim Braddock, é um boxeador e é sabido que filmes com qualquer relação com esportes - com raras exceções - tendem a bombar nas bilheterias. Somado ao fato de ter estreado bem longe da data tida como mais favorável aos possíveis indicados ao Oscar - a saber, o final do ano - as chances da obra de Howard chegar aos finalistas da estatueta dourada foram minguando com o passar do tempo. Resultado: apenas três indicações menores, incluindo uma de ator coadjuvante para Paul Giamatti.



Giamatti - sendo lembrado pela Academia depois de ter sido ignorado por seu protagonista em "Sideways, entre umas e outras" - interpreta Joe Gould, o treinador de Braddock, um boxeador que teve seus dias de glória deixados para trás com a crise financeira causada pela quebra da bolsa em 1929 e que tenta desesperadamente arrumar trabalho nas docas de Nova York para sustentar a mulher, Mae (Renée Zellweger) e os três filhos pequenos. Sua luta pela sobrevivência - cada dia mais difícil e sofrida - recebe um alento quando seu antigo empresário lhe oferece uma série de lutas. Mesmo contra a vontade da esposa, Braddock aos poucos começa a recuperar seu status e passa a ser chamado pela imprensa de "Cinderella man". Sua grande chance, porém, ainda está por vir: ele aceita lutar contra o arrogante e talentoso Max Baer (Craig Bierko, irreconhecível), em uma luta que será seu tudo ou nada.

Quanto menos se souber a respeito da história de Jim Braddock - sim, é uma história real - melhor para o aproveitamento do drama proposto por Howard e companhia. O suspense a respeito da luta final é realmente bem desenhado pelo cineasta, que faz com que a audiência sofra cada soco em seu protagonista como se fosse em si mesmo. As cenas de luta - mesmo que passem longe da excelência de "Touro indomável" - são filmadas com realismo e extrema competência pelo cineasta. E Russell Crowe mais uma vez entrega uma performance invejável, que o levou a emagrecer e sofrer com uma prótese dentária. Seu esforço injustamente não foi recompensado com uma indicação ao Oscar, mas é digna de figurar entre os grandes momentos de sua carreira.

terça-feira

COLD MOUNTAIN


COLD MOUNTAIN (Cold Mountain, 2003, Miramax Pictures, 154min) Direção: Anthony Minghella. Roteiro: Anthony Minghella, romance de Charles Frazier. Fotografia: John Seale. Montagem: Walter Murch. Música: Gabriel Yared. Figurino: Ann Roth, Carlo Poggioli. Direção de arte/cenários: Dante Ferretti/Francesca LoSchiavo. Produção executiva: Bob Osher, Iain Smith, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Albert Berger, Wiiliam Horberg, Sydney Pollack, Ron Yerxa. Elenco: Jude Law, Nicole Kidman, Renee Zelwegger, Donald Sutherland, Ray Winstone, Philip Seymour Hoffman, Natalie Portman, Giovanni Ribisi, Kathy Baker, Jack White, Melora Walters, Jena Malone. Estreia: 25/12/03


7 indicações ao Oscar: Ator (Jude Law), Atriz Coadjuvante (Renee Zelwegger), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção Original ("Scarlet tide", "You will be my ain true love")
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Renee Zelwegger)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Renee Zelwegger)

Quando “O talentoso Ripley” estreou, em 1999, uma das maiores reclamações da crítica em relação ao filme do ultra-oscarizado Anthony Minghella era o fato dele ter escalado Matt Damon no papel central e o ótimo Jude Law como coadjuvante. O griteiro foi tanto que Law, que concorreu ao Oscar daquele ano acabou sendo a escolha mais coerente de Minghella para protagonizar seu projeto seguinte, este “Cold Mountain”, baseado em um romance relativamente pouco conhecido de Charles Frazier, ele próprio um ilustre desconhecido no Brasil. Considerado como uma versão moderna do clássico “E o vento levou”, “Cold Mountain” decepcionou em termos de bilheteria e não chegou a entusiasmar muito a crítica. No entanto, é um espetáculo que mostra como Hollywood ainda domina a arte de se contar uma história de forma majestosa e glamourosa. Não deixa de ser sintomática a escalação da bela Nicole Kidman como atriz principal, uma vez que a ex-mulher de Tom Cruise, além de linda era, à época das filmagens, o mais perto de diva que o cinema tinha em mãos. Cruise, que havia se interessado pelo papel central, ficou de fora. Nicole se manteve.
   
Kidman interpreta a mimada e sensível Ada Monroe, que, às vésperas do início da Guerra de Secessão vai morar com o pai, o Pastor Monroe (Donald Sutherland, em atuação simpática) em Cold Mountain, um lugarejo afastado e pacífico. Lá, conquista o amor do tímido e igualmente sensível Inman (Jude Law, que recebeu nova indicação ao Oscar por seu papel), que em seguida parte para o front. Sozinha e sem condições de cuidar da fazenda, Monroe escreve uma carta sofrida para seu amor, implorando que ele volte. Tendo visto os horrores da guerra, o rapaz resolve desertar e parte em busca da mulher amada, que tenta levantar suas economias ao lado da valente Ruby (Renée Zelwegger, que levou o Oscar de coadjuvante, apesar de certos exageros em sua caracterização).

        

A odisséia de Inman para alcançar sua felicidade e sua paz, levemente inspirada na travessia escrita por Homero, dá ao filme muito mais substância do que os sofrimentos de Ada Monroe, ainda que Kidman e Zelwegger tenham uma química invejável. A aventura do jovem vivido por Law faz com que ele cruze com personagens extremamente interessantes e vividos por atores sensacionais. Phillip Seymour-Hoffman oferece seu imenso talento no papel de um pastor bastante mulherengo. Natalie Portman é dona da cena mais forte, como uma jovem viúva e mãe de um bebê que enfrenta soldados bastante violentos. E até Jack White, da banda White Stripes dá sua colaboração como um jovem músico que se apaixona por Ruby - e conquistou o coração de Zelwegger nos bastidores.

 “Cold Mountain” é sem dúvida um belo espetáculo. A fotografia de John Seale e a trilha sonora de Gabriel Yared são impecáveis. A reconstituição de época e as cenas de guerra nunca estão aquém de fantásticas. Nicole Kidman está no auge da beleza e do carisma de estrela. Mas é injusto negar que é o trabalho de Jude Law que torna o filme de Anthony Minghella uma experiência inesquecível. O jovem inglês foi merecidamente indicado ao Oscar, uma vez que brilha intensamente em qualquer cena em que esteja presente. E dessa vez Minghella acertou colocando-o no papel central, felizmente deixando de lado escolhas bizarras como Tom Hanks, Daniel Day-Lewis, Matt Damon, Brad Pitt, Leonardo DiCaprio e Eric Bana. Prova de que um elenco bem escalado faz metade do serviço.

segunda-feira

ABAIXO O AMOR

ABAIXO O AMOR (Down with love, 2003, Fox 2000 Pictures, 101min) Direção: Peyton Reed. Roteiro: Eve Ahlert, Dennis Drake. Fotografia: Jeff Cronenweth. Montagem: Larry Bock. Música: Marc Shaiman. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Andrew Laws/Don Diers. Produção executiva: Paddy Cullen, Arnon Milchan. Produção: Bruce Cohen, Dan Jinks. Elenco: Renee Zellweger, Ewan McGregor, Sarah Paulson, David Hyde Pierce, Tony Randall. Estreia: 09/5/03

Nova York, década de 60. O feminismo ainda é um ideal para a maioria das mulheres americanas, esmagadas pelo machismo latente e nada velado. É nesse ambiente um tanto em combustão que chega a escritora Barbara Novak (Renée Zellwegger), vinda do interior do país para lançar seu livro “Abaixo o amor”, onde incentiva as mulheres a tomarem as rédeas de suas vidas amorosas, profissionais e – por que não? – sexuais. Contando com o apoio de sua editora e amiga Vikki Hiller (Sarah Paulson), ela quase que imediatamente vira sensação na cidade que nunca dorme, principalmente quando vai a uma rede de televisão e dá o nome de um exemplo a ser combatido pela raça fêmea: o repórter, playboy e conquistador Catcher Block (Ewan McGregor). Sentindo-se pessoalmente atingido, uma vez que sua taxa de sedução cai astronomicamente depois da declaração de Barbara, Catcher resolve então virar o jogo: assumindo o nome e a personalidade do astronauta Zip Martin, ele tenta seduzir a escritora, para assim desmascará-la como mais uma mulher que, no fundo, busca o que todas buscam: a felicidade nos braços de um homem.
     
Uma pena que esta divertida comédia romântica tenha se dado tão mal nas bilheterias americanas. Engraçada, criativa e inteligente, ela não conquistou o público ianque, tão mal acostumado a besteiras como as estreladas por rappers e afins. O filme, dirigido pelo pouco conhecido Peyton Reed, na verdade é uma bela e justa homenagem às comédias estreladas por Rock Hudson e Doris Day, nos anos 50, em que uma história de amor quase boba disfarçava, às vezes bem mal, piadas de duplo sentido embaladas em um visual exagerado e que beirava o kitsch. Está tudo isso em “Abaixo o amor”. O roteiro, com ótimos diálogos e situações rocambolescas , a direção de arte cafona e over, o figurino extremamente espirituoso, o visual retrô (a tela dividida em duas quando os personagens estão no telefone, por exemplo), a trilha sonora com standards do jazz da época (em que até Astrud Gilberto dá uma canja, cantando “Fly me to the moon”), os coadjuvantes engraçadinhos (a dupla de amigos, vivida por David Hyde Pierce e Sarah Paulson tem ótimos momentos) e a dupla central, entrosada e com boa química, divertindo-se notadamente com suas atuações afetadas (Renee ainda não havia ganho o Oscar de coadjuvante por “Cold Mountain”, mas já era uma queridinha da crítica americana), além inclusive do logotipo da Fox com seu visual anos 60 e a presença do ator Tony Randall, companheiro fixo de Day e Hudson em seus filmes do gênero.


O que não deu certo, então? Novamente, a falta de boa vontade do público, que não entrou no espírito da brincadeira, não comprou a idéia de um romance aparentemente ingênuo e com sabor de sessão da tarde das antigas. Nem mesmo o capricho da produção (com o figurino confecionado especialmente para o filme e a direção de arte espirituosa) conseguiu chamar a atenção, relegando o trabalho de Reed ao indesejável rol dos injustos fracassos comerciais. Tudo culpa de uma plateia mal-acostumada a produções formulaicas que não ousam com medo de perder público.
Afinal, só mesmo em um filme como “Abaixo o amor”, que não se preocupa com verossimilhança e bobagens do tipo, o final feliz pode ser tão debochado, irônico e até nostálgico. Um filme que merece ser descoberto e apreciado! É só entrar no clima nostálgico e se deliciar.

sexta-feira

CHICAGO

CHICAGO (Chicago, 2002, Miramax Films, 113min) Direção: Rob Marshall. Roteiro: Bill Condon, peça teatral de Maurine Dallas Watkins, músicas de Bob Fosse, Fred Ebb. Fotografia: Dion Beebe. Montagem: Martin Walsh. Música: Danny Elfman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: John Myhre/Gord Sim. Produção executiva: Jennifer Berman, Sam Crothers, Julia Goldstein, Neil Meron, Meryl Poster, Bob Weinstein, Harvey Weinstein, Craig Zadan. Produção: Martin Richards. Elenco: Renée Zellweger, Richard Gere, Catherine Zeta-Jones, John C. Reilly, Queen Latifah, Colm Feore, Taye Diggs, Dominic West, Christine Baranski, Lucy Liu. Estreia: 27/12/02

13 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Rob Marshall), Atriz (Renée Zellweger), Ator Coadjuvante (John C. Reilly), Atriz Coadjuvante (Queen Latifah, Catherine Zeta-Jones), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Canção ("I move on"), Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor de 6 Oscar: Melhor Filme, Atriz Coadjuvante (Catherine Zeta-Jones), Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Ator Comédia/Musical (Richard Gere), Atriz Comédia/Musical (Renée Zellweger)
Vencedor de 3 Screen Actors Guild Awards: Atriz (Renée Zellweger), Atriz Coadjuvante (Catherine Zeta-Jones), Melhor Elenco

O "Chicago" que todo mundo conhece e admira, vencedor de 6 Oscar e o maior sucesso de bilheteria da história da Miramax poderia ter sido bem diferente. Alvo do interesse dos estúdios hollywoodianos desde sua estreia nos palcos da Broadway em 1975, o musical - que chegou aos cinemas dirigido com energia e criatividade por Rob Marshall, cujo currículo tinha de marcante somente uma versão para a TV do chatinho "Annie" - demorou quase três décadas para fazer a transição dos palcos para as telas, e entre as intenções e a realização muita coisa mudou. Entre Bob Fosse (que dirigiu e coreografou a versão teatral da trama em sua estreia) e Marshall (que efetivamente comandou o espetáculo de 2002) até mesmo Nicholas Hytner esteve interessado em dirigir e na lista de atores que estiveram envolvidos com o projeto, em um momento ou outro da produção, estão nomes como Madonna, Goldie Hawn, Kathy Bates, Nicole Kidman, Charlize Theron, Cameron Diaz, Whoopi Goldberg, Hugh Jackman, Frank Sinatra, Liza Minnelli, Toni Collette, Marisa Tomei, Gwyneth Paltrow, Winona Ryder e até (ufa!) Britney Spears. Como às vezes o tempo é uma bênção, é impossível não se deixar conquistar pelo elenco que finalmente assumiu os papéis criados por Maurine Dallas Watkins e adaptados pelo ótimo Bill Condon.

A trama de "Chicago" se passa nos anos 20, quando o teatro de vaudeville estava em seu auge. Ser uma estrela dos palcos é o sonho maior de Roxie Hart (Renee Zelwegger), que, no entanto, precisa levar uma vida sem sal de dona-de-casa ao lado do marido, o mecânico Amos (John C. Reilly). Quando ela conhece o sedutor Fred Casely (Dominic West) sua sorte parece estar começando a mudar: porém, ao contrário das promessas que o rapaz faz (de que vai apresentá-la às pessoas certas no show business) ele quer apenas levá-la pra cama. Quando ela descobre isso, não vê outra alternativa senão matá-lo. Na cadeia, ela conhece seu maior ídolo, a atriz Velma Kelly (Catherine Zeta-Jones), que aguarda julgamento pelo assassinato duplo de sua irmã e seu amante. Para escapar da condenação à forca, Roxie contrata (com o financiamento do pobre marido) o famoso e competente Billy Flynn (Richard Gere), que também defende Velma. As duas passam, então, a disputar a atenção do advogado e as manchetes dos jornais.



Talvez a maior qualidade de "Chicago" seja mesmo seu roteiro: Bill Condon (que dirigiu o sensacional "Deuses e monstros", de 1998) consegue o feito raro de manter o tom irônico de suas primeiras cenas até os créditos de encerramento, sempre entregando à plateia diálogos inteligentes e sarcásticos, seja em falas ou canções, todas elas absolutamente bem encaixadas na história, por si só interessante o bastante. A química entre as duas protagonistas (ambas indicadas ao Oscar, mas apenas Zeta-Jones premiada, de forma um tanto estranha, como coadjuvante) é extraordinária e é perceptível sua entrega ao trabalho. Todos os belos números musicais são dirigidos com extrema competência por Marshall e belissimamente fotografados por Dion Beebe, que dá uma atmosfera de sonho a todos eles. A ideia genial do cineasta - e que deu rumo à adaptação para o cinema - foi fazer com que todos os números sejam originários da imaginação fértil de Roxie, que, assim vê a carcereira Mamma Morton (Queen Latifah, ótima) como uma sofisticada crooner e a execução de uma companheira de prisão como uma apresentação de mágica. É particularmente feliz a ideia de Marshall conduzir a entrevista coletiva de Roxie e Billy como se ela fosse um títere (e a execução da cena é, no mínimo, antológica).

Beneficiando-se do sucesso de "Moulin Rouge" - cujos elogios e popularidade abriu as portas para que novos musicais pudessem ser produzidos pela terra do cinema - "Chicago" conquista principalmente por não ousar demais como o filme de Baz Luhrmann. É um filme claramente moderno, mas com uma linguagem tradicional, que peca apenas por não surpreender em termos estilísticos. Rob Marshall segue à risca a cartilha de Bob Fosse, com coreografias excepcionais e um apurado visual, brincando muito mais com as pequenas ironias que cercam suas personagens do que com o gênero em si, como fez o filme estrelado por Nicole Kidman e Ewan McGregor. Proporciona brilhantes momentos-solos a seus atores (John C. Reilly deita e rola com "Mr.Cellophane" mas Richard Gere mostra sua fragilidade artística com "Razzle Dazzle") e revela em Marshall um cineasta atento aos detalhes e às sutilezas de um projeto tão ambicioso. E além de tudo - e o que é ainda melhor - diverte sem tratar a audiência como débil mental.

Muita gente torceu o nariz para o generoso número de Oscar para "Chicago" - em especial os fãs de seus rivais na briga pela estatueta "As horas" e "Gangues de Nova York". Mas é inegável que é um trabalho de primeira grandeza, realizado com um talento incomum e que remete aos bons tempos de uma Hollywood glamourosa e que tinha no entretenimento sua principal preocupação.

terça-feira

DEIXE-ME VIVER

DEIXE-ME VIVER (White oleander, 2002, Warner Bros, 109min) Direção: Peter Kosminsky. Roteiro: Mary Agnes Donoghue, romance de Janet Fitch. Fotografia: Elliott Davis. Montagem: Chris Risdale. Música: Thomas Newman. Figurino: Susie DeSanto. Direção de arte/cenários: Donald Graham Burt/Bryony Foster. Produção executiva: Stacy Cohen, E.K. Gaylord II, Kristin Harms, Patrick Markey. Produção: Hunt Lowry, John Wells. Elenco: Michelle Pfeiffer, Alison Lohmann, Renée Zellweger, Robin Wright-Penn, Patrick Fugit, Noah Wyle, Cole Hauser. Estreia: 11/10/02

Em 2002, a incansável máquina de fabricar novas estrelas que Hollywood jamais abandona encontrou um novo nome a ser explorado: com meros 13 anos de idade (mas trabalhando como atriz desde a mais tenra infância), a delicada Alison Lohman conquistou a simpatia do público e da crítica no papel de uma frágil pré-adolescente lutando para fugir do jugo de uma mãe dominadora condenada por homicídio. Depois de sua convincente atuação em "Deixe-me viver", adaptado de um romance de Janet Fitch, a jovem Lohman pavimentou seu caminho para trabalhar com diretores do porte de Ridley Scott e Tim Burton - e foi mais um exemplo de que pouca idade não é desculpa para falta de talento: mesmo bastante jovem, ela enfrentou sem medo o desafio de atuar com atrizes consagradas já em seu primeiro filme de grande visibilidade.

Aliás, grande visibilidade em termos. Aposta certeira para a temporada de prêmios - em especial era considerada certeza a indicação de Michelle Pfeiffer ao Oscar de coadjuvante - o filme de Peter Kosminsky acabou morrendo na praia, sem tornar-se nem um êxito de crítica nem o sucesso comercial que se esperava. Porém, a despeito dessa frustrada ambição por estatuetas, "Deixe-me viver" é um filme com belas qualidades. E a maior delas já está estampada no cartaz: o elenco feminino acima de qualquer suspeita.



Em uma interpretação surpreendente, Michelle Pfeiffer vive Ingrid Magnussen, uma artista plástica tão talentosa quanto temperamental que vê sua vida virar de cabeça pra baixo quando mata um ex-amante que a trocou por outra mulher. Condenada à prisão, ela perde a guarda da filha única, Astrid, uma adolescente introvertida que tinha na imagem materna um exemplo a ser seguido. A falta de referências da jovem aumenta ainda mais quando ela passa a viver em consecutivos lares provisórios, tomando contato com realidades distintas da que vivia até então. É assim que ela vai morar, entre outras, com Starr (a excelente Robin Wright), uma mulher que se diz religiosa mas não concebe sua vida sem estar atrelada a um homem e com Claire Richards (Renee Zelwegger), uma atriz decadente com o casamento em frangalhos. Enquanto tenta manter um equilíbrio em seu mundo já bastante bagunçado, Astrid ainda precisa lidar com o fato de não conseguir fugir dos domínios de sua mãe, uma mulher ardilosa e inteligente que tem na filha o único contato com o mundo exterior.

Não se pode dizer que "Deixe-me viver" seja psicologicamente acurado ou tenha personagens brilhantemente desenhados. Seu formato episódico de certa forma prejudica o envolvimento do espectador com suas personagens, que poderiam ser melhor desenvolvidas. É lamentável, por exemplo, que Robin Wright-Penn, uma atriz tão sensacional, fique tão pouco tempo em cena. Mas o roteiro consegue fazer com que a história nunca perca seu interesse e seu foco central (a relação entre Astrid e sua mãe) e, além de tudo, não caia nos exageros melodramáticos que a história fatalmente poderia apresentar devido ao tema. Essa opção por não cair no piegas valoriza o resultado final, ainda que não o torne especialmente marcante. Ainda assim, é um drama competente e que apresentou uma jovem atriz ao mundo. Já está de bom tamanho!

O DIÁRIO DE BRIDGET JONES

O DIÁRIO DE BRIDGET JONES (Bridget Jones's diary, 2001, Working Title Films, 97min) Direção: Sharon Maguire. Roteiro: Helen Fielding, Richard Curtis, Andrew Davies, romance de Helen Fielding. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: Martin Walsh. Música: Patrick Doyle. Figurino: Rachael Fleming. Direção de arte/cenários: Gemma Jackson/Shirley Lixenberg. Produção executiva: Helen Fielding. Produção: Tim Bevan, Jonathan Cavendish, Eric Fellner. Elenco: Renée Zelwegger, Hugh Grant, Colin Firth, Gemma Jones, Tim Broadbent. Estreia: 13/4/01

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Renée Zelwegger)

Não há como negar: toda mulher tem uma parte Bridget Jones. A personagem criada pela escritora Helen Fielding e protagonista de dois romances atingiu em cheio o que era esperado por milhares de leitoras ávidas por personagens com as quais pudessem identificar-se. Fumante inveterada, com alguns quilos a mais, amiga de um bom porre, infeliz com o emprego e irremediavelmente frustrada com seus casos de amor, a inglesa criada por Fielding chegou aos cinemas na pele da texana Renée Zellweger e em um caso raro na história do cinema não criou polêmica por causa disso. Em uma interpretação impecável que chegou a ser indicada ao Oscar de melhor atriz, Zellwegger toma a personagem para si e não deixa dúvidas de que foi a escolha acertada para viver a personagem.

Bridget Jones é uma mulher comum. Apaixonada pelo chefe cafajeste Daniel Clever (Hugh Grant, divertindo-se a valer no papel), ela começa, no primeiro dia do ano, a escrever um diário, onde narra suas escapadas amorosas com ele, sua luta contra a balança, seus problemas familiares – sua mãe acaba de abandonar seu pai, trocando-o por um apresentador de televisão – e sua implicância com um partido arrumado por sua mãe, o almofadinha Mark Darcy (Colin Firth). Repleto de piadas tipicamente inglesas com um tempero feminino anos 90, o roteiro – que tem a colaboração da própria Helen Fielding – segue fielmente o livro, brincando com as neuroses femininas de forma saudável e romântica. A trilha sonora também ajuda, misturando contemporaneidades (Geri Haliwell, Robbie Williams) com clássicos (a cena em que Bridget dubla “All by myself”, logo nos créditos de abertura conquista qualquer um com um mínimo de senso de humor).



Quanto aos homens da vida de Mrs. Jones, nada a reclamar. Enquanto Hugh Grant dá início a sua especialização em papéis de canalhas adoráveis - sempre com atuações renovadas e simpáticas - o normalmente relegado a segundo plano Colin Firth é quem rouba a cena e os corações femininos da plateia (isso bem antes de ter seu talento reconhecido e ser premiado com o Oscar pelo soporífero "O discurso do rei"). Seu Mark Darcy, arrogante em um primeiro olhar e romântico e sentimental quando analisado mais profundamente, encontra em Firth o intérprete ideal (isso sem mencionar que no livro que deu origem ao filme a protagonista é fissurada pelo próprio ator Colin Firth, em uma jogada feliz dos produtores). O triângulo amoroso formado por Grant-Zelwegger-Firth só acrescenta ainda mais simpatia ao filme, seguramente uma das mais bem-sucedidas adaptações literárias de sua época.

Dono de um bom-humor contagiante e um romantismo longe de ser babaca (além de contar com a participação especialíssima do escritor Salman Rushdie), "O diário de Bridget Jones" é um perfeito passatempo que pode agradar até a ala masculina do público. Pena que sua continuação não foi tão feliz...

quarta-feira

A ENFERMEIRA BETTY


A ENFERMEIRA BETTY (Nurse Betty, 2000, Gramercy Pictures, 110min) Direção: Neil LaBute. Roteiro: John C. Richards, James Flamberg, estória de John C. Richards. Fotografia: Jean-Yves Escoffier. Montagem: Joel Plotch, Steven Waisberg. Música: Rolfe Kent. Figurino: Lynette Meyer. Direção de arte/cenários: Charles Breen/Jeffrey Kushon. Produção executiva: Moritz Borman, Stephen Pevner, Chris Sievernich, Philip Steuer. Produção: Steve Golin, Gail Mutrux. Elenco: Renée Zellweger, Morgan Freeman, Chris Rock, Greg Kinnear, Aaron Eckhart, Allison Janney, Crispin Glover, Tia Texada, Pruitt Taylor Vince, Elizabeth Mitchell. Estreia: 08/9/00

Vencedor do Festival de Cannes - Melhor Roteiro
Vencedor do Golden Globe - Melhor Atriz Comédia/Musical (Renée Zellweger)

Depois da fria recepção - tanto crítica quanto popular - a "Seus amigos, seus vizinhos", o diretor Neil Labute compreendeu que precisava urgentemente se reinventar. Sua tendência à polêmica - que atingiu o ápice em sua estreia, o misógino  "Na companhia de homens" - foi deixada de lado, então, em seu terceiro longa. Disfarçado com um elenco de nomes conhecidos e confiáveis - Morgan Freeman e Renée Zelwegger à frente - "A enfermeira Betty" é uma deliciosa comédia de humor negro recheada de referências pop, uma violência um tanto cruel e diálogos saborosos. Não é o tipo de filme que arranca gargalhadas, mas tem um roteiro brilhante que faz uma crítica mordaz à fuga da realidade provocada pela televisão. Pode-se dizer que "A enfermeira Betty" é um "A rosa púrpura do Cairo" que tomou anfetaminas.

A enfermeira Betty do título não é, na verdade, uma enfermeira. Betty Sizemore (Renée Zelwegger em uma de suas melhores atuações) é uma jovem garçonete do Kansas que leva uma vida medíocre ao lado do marido infiel, o mulherengo Del (Aaron Eckhart, o alter ego do diretor se divertindo a valer em sua rápida participação). A monotonia de seu dia-a-dia só é quebrada com os capítulos de "Uma razão para amar", uma telenovela que lhe afasta da apatia de seu casamento. Fascinada principalmente pelo protagonista do programa, o charmoso médico cirurgião David Ravell (Greg Kinnear), Betty tem sua vida totalmente transformada justamente no dia de seu aniversário, quando testemunha, às escondidas, o violento assassinato de seu marido por uma dupla de criminosos. Em estado de absoluto choque, ela cria uma nova vida em sua mente, pega o LeSabre do casal e parte para a California, onde pretende encontrar seu ex-noivo (na verdade, o personagem da novela). O que ela não sabe é que, além de precisar encontrar alguém que não existe na vida real ela está sendo perseguida pelos assassinos do marido - sendo que o mais velho, Charlie (Morgan Freeman), apaixonou-se por ela através de uma fotografia.




O que há de mais inteligente no roteiro de "A enfermeira Betty" é o fato de LaBute e seus colaboradores jamais utilizarem a situação trágica de sua protagonista como forma de deboche. Apesar de estarem todos em uma comédia, os personagens nunca se comportam como tal e o cineasta respeita a condição especial da encantadora Betty, apenas aproveitando-a em prol de um desenrolar jamais previsível. Para isso, conta com uma interpretação excelente de Renée Zelwegger, que consegue escapar vitoriosamente de todas as armadilhas que o papel oferece. Ela constrói uma carismática e sensível Betty de tal maneira a envolver o espectador incondicionalmente - assim como faz com todos à sua volta, desde a bartender de um bar de beira de estrada até à latina Rosa (Tia Texada), com quem vai morar e que lhe ajuda a chegar até seu grande amor - e o que vem depois disso é que faz do filme tão especial.

Em uma comédia romântica convencional, o romance entre Betty e George assumiria a protagonização da trama assim que eles se encontrassem. No filme de LaBute isso jamais acontece. O romance entre os dois é bizarro, estranho, irreal e até mesmo desconfortável (principalmente porque a audiência sabe do que realmente está acontecendo). E o desfecho da trama - que apela para a violência, ainda que nunca exagere - também não pode ser chamado de convencional, mesmo que sua sequência final seja de uma ironia quase clichê. O roteiro de "A enfermeira Betty" brinca com a vaidade da fama e com os perigos da fantasia excessiva, mas nunca pede para ser levado a sério, e talvez aí resida seu charme maior.

"A enfermeira Betty" é uma das comédias mais inventivas e cruéis do início do século, que prova o talento de Neil LaBute em buscar assuntos diferentes de seus primeiros trabalhos e tratá-los com o devido respeito. E é também um marco definitivo na trajetória de Renée Zelwegger como atriz respeitada e admirada. Depois desse filme ela seria Bridget Jones e o resto é história....

segunda-feira

JERRY MAGUIRE, A GRANDE VIRADA


JERRY MAGUIRE, A GRANDE VIRADA (Jerry Maguire, 1996, TriStar Pictures, 139min) Direção e roteiro: Cameron Crowe. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Joe Hutsching. Figurino: Betsy Heinman. Direção de arte/cenários: Stephen Lineweaver/Clay A. Griffith. Produção executiva: Bridget Johnson. Produção: James L. Brooks, Cameron Crowe, Laurence Mark, Richard Sakai. Elenco: Tom Cruise, Cuba Gooding Jr., Renee Zelwegger, Kelly Preston, Bonnie Hunt, Regina King, Jonathan Lipnicki, Beau Bridges, Jay Mohr, Jerry O'Connell, Todd Louiso. Estreia: 13/12/96

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Tom Cruise), Ator Coadjuvante (Cuba Gooding Jr.), Roteiro Original, Montagem
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Cuba Gooding Jr.)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Comédia/Musical (Tom Cruise)
Vencedor do Screen Actors Guild Award de Ator Coadjuvante (Cuba Gooding Jr.)

Estivesse Frank Capra vivo e em atividade em 1996 certamente ele assinaria com prazer a comédia romântica "Jerry Maguire, a grande virada". Repleto do otimismo e do humanismo que eram suas marcas registradas, o filme escrito e dirigido por Cameron Crowe nadou contra a corrente dos filmes encharcados de cinismo da década de 90 ao contar uma história de amor e redenção com um protagonista que caberia facilmente no currículo de James Stewart. Não à toa, Tom Hanks - a encarnação atual do ator preferido de Capra - foi cotado para o papel de Maguire, um agente esportivo que, depois de uma crise de consciência, toma contato com uma nova forma de enxergar a vida e os relacionamentos. Quinto filme consecutivo de Tom Cruise a ultrapassar a marca de cem milhões de dólares de arrecadação, provou, além disso, que o galã preferido da época também sabia atuar longe dos filmes de guerra e dos dramas de tribunal: o então ainda marido de Nicole Kidman arrebatou sua segunda indicação ao Oscar.


O Jerry Maguire do título é um bem-sucedido agente de esportistas, que mede seu sucesso pelo número de telefonemas que atende diariamente e pelos contratos milionários que assina para seus clientes. Um belo dia, sentindo-se culpado e ganancioso, ele escreve uma declaração de metas onde sugere que todos os seus colegas (ele inclusive) passem a dedicar-se a menos clientes, dando-lhes a devida atenção. Aplaudido pela frente e criticado pelas costas (afinal sua ideia significa menos dinheiro à empresa onde trabalha), ele é demitido por Bob Sugar (Jay Mohr), que o tinha como mentor. Não se deixando desesperançar, ele conta com a ajuda da contadora Dorothy Boyd (René Zelwegger) para recomeçar do zero, Mãe solteira e apaixonada por Jerry, Dorothy entra de cabeça na nova agência do rapaz, que conta com apenas um cliente, o falastrão e encrenqueiro Rod Tidwell (Cuba Gooding Jr.), que tem talento tanto para jogar futebol quanto para reclamar de seus péssimos contratos.



"Jerry Maguire" é delicioso. Tem um roteiro impecável, recheado de diálogos brilhantes por sua simplicidade e verdade. Tem uma trilha sonora agradável que inclui Paul McCartney, Tom Petty e Bruce Springsteen - cuja belíssima "Secret garden" embala o romance central de maneira comovente. E conta com um elenco que, apesar de não ser formado de primeiras escolhas, não só dá conta do recado como conquista a audiência desde seus primeiros momentos. Para o papel título, nomes como os de Tom Hanks e John Travolta foram sondados. Para interpretar Rod Tidwell foi testado Jamie Foxx. Para o papel de Avery, a ambiciosa noiva do protagonista (vivida por Kelly Preston) foram pensadas Diane Lane, Jennifer Connely e Meg Ryan. E para o papel da romântica Dorothy Boyd, o diretor Cameron Crowe considerou atrizes que iam de Winona Ryder e Mira Sorvino a Janeane Garofalo a Courtney Love. Sorte da texana Rene Zelwegger, que não apenas conquistou o papel mas também o coração da audiência, com uma atuação doce e engraçada.


A química entre Cruise e Zelwegger, aliás, é outro ponto alto do filme. Dificilmente a história de amor entre Jerry e Dorothy emocionaria tanto o público se outros atores estivessem em seus lugares. Se Cruise até exagera em certos momentos - não a ponto de incomodar, mas o suficiente para ser notado - a quase novata Zelwegger está absolutamente impecável com sua estóica contadora: suas cenas com Bonnie Hunt (como sua irmã Laurel) e com o pequeno Jonathan Lipnicki (na pele do encantador Ray) são dotadas de uma veracidade delicada e tocante. Transitando entre o dramático e o cômico com segurança ímpar, a futura Bridget Jones apresenta uma das melhores interpretações de sua carreira. Merecia muito mais o Oscar de coadjuvante feminina do que Cuba Gooding Jr. merecia o de masculino. Gooding Jr. - que saiu vitorioso no ano em que Edward Norton causou impacto com sua estreia em "As duas faces de um crime" - tem uma atuação histérica e bastante irritante, que destoa da sutileza do restante do elenco. E é de se imaginar como seria se Billy Wilder (ele mesmo, o diretor de "Quanto mais quente melhor") tivesse aceito interpretar o mentor de Maguire, cujas inserções durante o filme dão o tom e a "moral" da história.


Em última análise, "Jerry Maguire" é uma pequena obra-prima de seu gênero. Romântico sem ser bobo, engraçado sem ser pateta e com uma certa dose de ingenuidade e otimismo que sempre faz bem ao coração, é também o filme que revelou Rene Zelwegger ao grande público. Imperdível para quem ainda acredita no ser humano!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...