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quarta-feira

O ÂNCORA: A LENDA DE RON BURGUNDY

 


O ÂNCORA: A LENDA DE RON BURGUNDY (Anchorman: the legend of Ron Burgundy, 2004, DreamWorks Pictures/Apatow Productions, 94min) Direção: Adam McKay. Roteiro: Adam McKay, Will Ferrell. Fotografia: Thomas E. Ackerman. Montagem: Brent White. Música: Alex Wurman. Figurino: Debra McGuire. Direção de arte/cenários: Clayton R. Hartley/Jan Pascale. Produção executiva: Shauna Robertson, David O. Russell. Produção: Judd Apatow. Elenco: Will Ferrell, Christina Applegate, Paul Rudd, Steve Carell, David Koechner, Fred Willard, Seth Rogen, Vince Vaughn, Ben Stiller, Owen Wilson, Kathryn Hahn, Jack Black, Tim Robbins. Estreia: 28/6/2004

Na segunda metade da década de 1970 nenhum jornalista era mais importante e prestigiado em San Diego do que Ron Burgundy, âncora do programa de maior audiência da televisão regional, admirado pelo público e desejado pelas mulheres. Em uma emissora dominada por uma mentalidade machista, ele era o símbolo máximo de uma sociedade ainda impermeável às conquistas profissionais femininas. Porém, seu poder considerado definitivo sofreu um baque violento com a chegada de Veronica Corningstone, uma repórter dedicada e ambiciosa da Carolina do Norte, decidida a buscar seu lugar ao sol como o primeiro nome do telejornal. A disputa entre os dois - e o inesperado romance entre eles - movimentou os bastidores do telejornalismo da época, e precipitou a ascensão das mulheres no mercado de notícias televisivas. Uma história empolgante - mas que existiu apenas nas mentes dos roteiristas Will Ferrell e Adam McKay, responsáveis por "O âncora: a lenda de Ron Burgundy", uma comédia despretensiosa que, depois de ter sido esnobada diversas vezes pelo estúdio (a DreamWorks), surpreendeu ao ultrapassar a marca de 80 milhões de dólares de arrecadação somente no mercado doméstico (EUA e Canadá) e tornar-se cult por parte do público a ponto de render uma continuação, lançada mais dez anos depois. Com um humor que beira o ofensivo e flerta abertamente com a estupidez, o filme é ideal para quem gosta de rir sem precisar ligar o cérebro - mas, paradoxalmente, faz um crítica sagaz ao machismo e à indústria do jornalismo televisivo.

Com um elenco que é praticamente um quem é quem do humor norte-americano do começo dos anos 2000 - incluindo um Steve Carrel pré-estrelato - e participações especiais de nomes como Tim Robbins, Jack Black e Ben Stiller, "O âncora" parte de uma estrutura clássica narrativa para permitir a seus atores todo tipo de improviso, ampliando consideravelmente seu tom debochado e anárquico. Will Ferrell - também um dos autores do roteiro - deita e rola com um personagem sob medida para seu humor histriônico, que a tantos agrada e a muitos outros repele, e encontra no carisma de Christina Applegate um equilíbrio muito bem-vindo. Juntos em cena, os dois ilustram com perfeição o casamento entre a comédia rasgada e um romantismo que, por mais distorcido que seja, ameniza os exageros de uma produção que não tem medo de ir fundo na palhaçada e não poupa nada nem ninguém. Adam McKay - que pouco mais de uma década depois levaria um Oscar de roteiro por "A grande aposta" (2015), que também lhe renderia uma indicação à estatueta de direção - demonstra segurança ao comandar o que poderia facilmente transformar-se em um absoluto caos: com atores craques no improviso, ele mantém uma surpreendente coesão no desenvolvimento da narrativa mesmo diante de situações propensas ao bizarro.



Se Ron Burgundy é o retrato perfeito do líder de um universo falocêntrico e egoísta, seu séquito de colaboradores/admiradores/amigos não fica atrás - e é um grande mérito que seus intérpretes tenham sido tão bem escalados. Paul Rudd vive Brian Fantana, um repórter de campo mulherengo e que considera irresistíveis suas qualidades físicas e suas táticas amorosas; Steve Carell dá vida a Brick Tamland, o responsável pela divulgação da previsão de tempo e com o raciocínio lento além da conta; e David Koechner é o ator ideal para criar Champion Kind, especialista em esportes e dono de um talento natural para a grosseria. Agindo como uma gangue de adolescentes rebeldes, o grupo não apenas é uma metralhadora giratória de absurdos verbais como também volta e meia se envolve em brigas físicas com o time da emissora rival, liderado por Wes Mantooth (Vince Vaughn), cuja principal ameaça é fisgar o primeiro lugar na audiência. Quando Veronica entra em cena, conquistá-la (e impedi-la de chegar à bancada do telejornal) passa a ser o objetivo principal de todos - e nem mesmo a aparentemente dócil forasteira parece imune a tal desejo. A forma com que McKay e Ferrell demonstram tais anseios (através de momentos que brincam até mesmo com filmes musicais e melodramas) é o que faz de "O âncora" uma pérola: é difícil não se deixar conquistar por pelo menos uma das táticas do roteiro, que abrange todos os tipos de comédia sem cair na falta de foco ou ritmo.

Apesar de ser engraçadíssimo e apresentar um elenco impecável, "O âncora" não chega a ser uma unanimidade. Seu humor pouco sutil pode não agradar a quem busca comédias sofisticadas ou menos explícitas - apesar de o roteiro apresentar nuances raras no típico besteirol americano -, e Will Ferrell, apesar de seu talento cômico preciso, não é exatamente um astro muito popular fora dos Estados Unidos. Mas o filme de McKay é a demonstração, além de qualquer dúvida, de que é possível fazer rir equilibrando inteligência, sarcasmo e um pouquinho de escatologia. Pena que demorou dez anos para que ganhasse um segundo - e igualmente divertido - segundo capítulo.

ENTRANDO NUMA FRIA

 


ENTRANDO NUMA FRIA (Meet the parents, 2000, Universal Pictures/DreamWorks Pictures, 108min) Direção: Jay Roach. Roteiro: Jim Herzfeld, John Hamburg, estória de Greg Glienna, Mary Ruth Clarke. Fotografia: Peter James. Montagem: Greg Hayden, Jon Poll. Música: Randy Newman. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Rusty Smith/Karen Wiesel. Produção: Robert DeNiro, Jay Roach, Jane Rosenthal, Nancy Tenenbaum. Elenco: Robert DeNiro, Ben Stiller, Teri Polo, Blythe Danner, Owen Wilson, Nicole DeHuff, Jon Abrahams, James Rebhorn, Tom McCarthy, Phyllis George. Estreia: 06/10/2000

Indicado ao Oscar de Canção Original ("A fool in love")

Sétima maior bilheteria de 2000 - com uma renda global de mais de 300 milhões de dólares -, "Entrando numa fria" deu continuidade a uma nova fase da trajetória cinematográfica do ator Robert DeNiro, explorando seu - até então raramente demonstrado - timing cômico depois do sucesso de "A máfia no divã" (1999). Brincando mais uma vez com sua imagem de durão (conquistada por décadas interpretando criminosos das mais variadas estirpes e homens pouco loquazes), DeNiro encontrou em Jack Byrnes - um ex-agente secreto da CIA em confronto com o atrapalhado futuro genro - um dos personagens mais populares de sua carreira, em uma dupla de química impecável com Ben Stiller. O inusitado, porém, é que nem ele nem Stiller foram as primeiras escolhas para serem os astros do filme, um projeto que esteve nas mãos de ninguém menos que Steven Spielberg.

O caminho de "Entrando numa fria" em direção a tornar-se um êxito comercial que rendeu duas continuações começou em 1991, com um média-metragem independente escrito pelos ilustres desconhecidos Greg Glienna (também diretor) e Mary Ruth Clarke: incapazes de encontrarem distribuição para seu filme, rodado a um custo ínfimo de 100 mil dólares, os dois acabaram por vender seus direitos à Universal Pictures, ciente de seu potencial. No final da década de 1990, já com Spielberg interessado no projeto, o filme parecia estar a caminho das telas - e depois de nomes como Christopher Walken, Harrison Ford e Anthony Hopkins terem sido considerados para o papel principal, Al Pacino já estava confirmado como o imprevisível sogro do enfermeiro que seria interpretado por Jim Carrey. A demora na produção, no entanto, mudou tudo. Tanto Spielberg quanto Carrey pularam fora para dar seguimento a outros trabalhos - o cineasta para começar "A.I.: Inteligência Artificial" (2001) e o ator para fazer ""Eu, eu mesmo e Irene" (2000) e "O Grinch" (2000) - e Pacino aceitou a proposta de Oliver Stone para liderar o elenco de seu "Um domingo qualquer" (2000), substituindo... Robert DeNiro, mais disposto a fazer rir do que encarar um drama sobre futebol americano. Com Ben Stiller escolhido para viver o atrapalhado Greg Focker, e alterações no roteiro para melhor aproveitar seu tipo de humor (menos físico do que o consagrado por Carrey), a escolha do diretor não poderia ter sido mais feliz: vindo dos de uma carreira basicamente na comédia, o cineasta Jay Roach deu ao filme o tom certo de uma comédia familiar sem o ranço do politicamente correto.

 

Sempre ótimo em papéis que exploram o constrangimento, Ben Stiller vive Greg Focker, um sensível e romântico enfermeiro de Chicago que, apaixonado pela namorada, a doce professora Pam (Teri Polo), descobre que, antes de pedí-la em casamento, precisa da aprovação de seu pai, um homem rígido e conservador que trabalhava como estudioso de flores exóticas. A oportunidade de conhecê-lo surge com uma reunião familiar para o casamento da futura cunhada - mas as coisas não saem nem um pouco como esperadas. Não apenas Focker se envolve em uma série de incidentes - que envolvem desde as cinzas da matriarca da família até o mimado gato de raça - como descobre, da pior maneira possível, que o sisudo Jack Byrnes (Robert DeNiro) era, na verdade, um agente secreto da CIA, dado a espionar desafetos e controlar todos os movimentos da casa. Não bastasse isso, quem aparece nas comemorações do matrimônio é Kevin (Owen Wilson), ex-namorado de Pam que ainda frequenta a casa dos Byrnes e não esconde seus sentimentos em relação a ela.

Calcado principalmente no humor que surge da vergonha alheia - e equilibrando com presteza piadas verbais com momentos de uma irresistível comédia física -, "Entrando numa fria" se beneficia muito do comando de Jay Roach, experiente no gênero graças aos filmes estrelados de Austin Powers (o espião inglês vivido por Mike Meyers em três produções). Conduzindo a trama com um ritmo ligeiro mas nunca superficial, que explora as relações entre seus personagens de forma inteligente e (por que não?) sensível, o diretor acerta em cheio ao deixar espaço de sobra para o feliz encontro entre a suposta seriedade de DeNiro e o talento histriônico de Stiller: são nos momentos de interação entre eles que o filme cresce e conquista de vez o espectador. O roteiro, que acumula situações hilárias, expande o filme original e aprofunda as diferenças radicais entre os protagonistas de forma orgânica, oferecendo ao elenco - que conta ainda com Blythe Danner e Tom McCarthy (indicado ao Oscar de direção por "Spotlight: segredos revelados", de 2015) - sequências que já nasceram antológicas. E é justamente o encontro entre bons atores, um roteiro esperto e uma direção que imprime ritmo e consistência que faz de "Entrando numa fria" uma comédia acima da média - e que, não à toa, deu origem a duas sequências que desenvolvem ainda mais as relações entre o apaixonado Greg (ou Gaylord) Focker e a família disfuncional de sua amada Pam.

quinta-feira

O PENTELHO


O PENTELHO (The cable guy, 1996, Columbia Pictures, 96min) Direção: Ben Stiller. Roteiro: Lou Holt Jr.. Fotografia: Robert Brinkmann. Montagem: Steven Waisberg. Música: John Ottman. Figurino: Erica Edell Phillips. Direção de arte/cenários: Sharon Seymour/Maggie Martin. Produção executiva: Bernie Brillstein, Brad Grey, Marc Gurvitz. Produção: Judd Apatow, Andrew Licht, Jeffrey A. Mueller. Elenco: Jim Carrey, Matthew Broderick, Leslie Mann, Jack Black, Ben Stiller, Owen Wilson, George Segal, Diane Baker, Bob Odenkirk, Janeane Garofalo. Estreia: 10/6/96

Quando "O pentelho" estreou, no verão norte-americano de 1996, a carreira e o potencial comercial de Jim Carrey estavam em jogo. Não apenas o ator canadense teria que provar ser mais do que apenas um humorista cujo humor físico agradava ao público mas constrangia a crítica, mas também precisaria provar à indústria de que seu astronômico salário de 20 milhões de dólares (um recorde absoluto na época) não era um exagero irresponsável da Columbia Pictures. O resultado nas bilheterias, se não foi o sucesso esperado por aqueles que testemunharam a ascensão meteórica do astro - a soma da renda de seus dois "Ace Ventura" e de "O máskara" ultrapassava 500 milhões de dólares, sem contar os números de "Batman eternamente" (1995), uma máquina de fazer dinheiro que nem mesmo o massacre da crítica pode atrapalhar -, ao menos não decepcionou completamente. Apesar de constar na história como um fracasso, o filme dirigido por Ben Stiller não fez tão feio quanto fizeram crer os analistas: com mais de 100 milhões arrecadados ao redor do mundo, "O pentelho" pode não ter sido o arrasa-quarteirão que era previsto, mas ficou longe de ser um fiasco. Mais importante ainda: ao contrário de muitas críticas negativas, é uma produção com muito mais qualidades do que defeitos.

Lançado como o filme que mostraria um lado novo de Carrey - que já demonstrava interesse em fugir dos papéis de palhaço que lhe deram fama e dinheiro -, "O pentelho" seria, a princípio, um veículo para o estrelato de Chris Farley. Com a saída de Farley do projeto, por compromissos com a Paramount, o roteiro de Lou Holt Jr., comprado pela Columbia Pictures por um milhão de dólares, ficou à deriva, à procura de um novo astro. Nomes como os de Robin Williams, Adam Sandler e Paul Giamatti chegaram a ser considerados, até que, alterando substancialmente as ambições da produção, Carrey entrou na jogada. Sequioso por dar um novo rumo à carreira e emprestar credibilidade a uma trajetória que corria o sério risco de um desgaste iminente, o ator agarrou com unhas e dentes a possibilidade de deixar de lado seus personagens bobalhões e assumir uma persona mais sombria. Sua chegada ao grupo alterou também outros fatores: o roteiro de Holt Jr. passou a ser reescrito por Judd Apatow (que acabou não creditado, por regras do sindicato) e o que seria apenas uma comédia sobre a amizade bizarra entre dois homens virou um filme que flerta abertamente com o suspense - ainda que não tenha a coragem de ir até as últimas consequências principalmente por suas ambições comerciais junto ao público fiel de seu ator central.


 

Na verdade, apesar de viver um protagonista mais complexo do que em seus filmes anteriores, Carrey não chega a abandonar de vez seus trejeitos histriônicos em "O pentelho", mesmo que os equilibre com momentos mais discretos. A trama tem início com a separação do jovem executivo Steven Kovacs (Matthew Broderick), que, voltando a morar sozinho, contrata um serviço de televisão a cabo para ocupar suas noites solitárias. Quem aparece para a instalação é Chip (Jim Carrey), um rapaz um tanto estranho que, confundindo a atenção do novo cliente por um desejo de amizade, passa a perseguí-lo sem folga. A princípio aceitando a atenção de Chip, o tímido Steven logo passa a sentir-se incomodado com a obsessão do novo amigo. Quando resolve impor limites à relação, acaba por despertar um lado perigoso do instalador, que começa a utilizar-se de todas as suas forças para destruir sua vida, incluindo as chances de uma reconciliação com a ex-namorada, Robin (Leslie Mann).

Sob a direção acertadamente claustrofóbica de Ben Stiller - que dá as caras no filme em uma subtrama veiculada na televisão, sobre um homicídio entre irmãos gêmeos -, Jim Carrey dá, em "O pentelho", os primeiros passos em direção a uma carreira de ator sério, que culminaria em performances precisas em "O show de Truman: o show da vida" (1998), "O mundo de Andy" (1999) e "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" (2004). Extremamente à vontade em cena, o astro mescla momentos de seu humor físico inconfundível com sequências onde exercita um lado dramático (ainda) um tanto exagerado. Seu colega de cena, Matthew Broderick (que recebeu um salário de apenas um milhão de dólares), está constrangido na medida certa, oferecendo uma contraparte adequada aos quase excessos de Carrey, mas é inegável que, ao alterar o roteiro original, a produção não consegue esconder certa irregularidade em sua segunda metade. Com um ritmo instável e algumas sequências arrastadas, "O pentelho" é nitidamente um degrau acima das bobagens até então estreladas por Carrey, mas sofre com sua indecisão entre uma comédia rasgada e um suspense com toques cômicos. Pode não ter sido o fracasso que foi alardeado por Hollywood - onde muita gente torcia pela queda do ator, não exatamente fácil de lidar -, mas tampouco é a obra marcante que poderia ter sido. Pode-se dizer, sem medo, que foi o primeiro capítulo de uma fase menos comercial e mais artística de sua trajetória - ainda que, em 1999, ele tenha voltado um pouco às origens com o sucesso de "O mentiroso", menos ousado mas bem mais regular.

segunda-feira

DUPLEX


DUPLEX (Duplex, 2003, Miramax/Buena Vista Pictures, 89min) Direção: Danny DeVito. Roteiro: Larry Doyle. Fotografia: Anastas Michos. Montagem: Greg Hayden, Lynzee Klingman. Música: David Newman. Figurino: Joseph G. Aulisi. Direção de arte/cenários: Stephen Alesch/Robin Stafender. Produção executiva: Alan C. Blomquist, Richard N. Gladstein, Meryl Poster, Jennifer Wachtell, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Drew Barrymore, Stuart Cornfeld, Nancy Juvonen, Jeremy Kramer, Ben Stiller. Elenco: Ben Stiller, Drew Barrymore, Eileen Essell, Harvey Fierstein, Maya Rudolph, Justin Theroux, Wallace Shawn, James Remar, Robert Wisdom, Swoosie Kurtz. Estreia: 26/9/2003

O primeiro longa-metragem de Danny DeVito como diretor, "Joga a mamãe do trem" (1987), já traía sua visão bastante particular de comédia, extraída de situações corriqueiras mas com os dois pés fincados em um tom sombrio e ácido. No filme, ele mesmo interpretava um aspirante a escritor que tentava convencer seu professor de escrita criativa a matar sua mãe autoritária - em troca dele mesmo assassinar a ex-esposa traidora do autor, como em "Pacto sinistro" (1951). Em seu trabalho seguinte atrás das câmeras, "A guerra dos Roses" (1989), um casal em processo de divórcio usava dos mais sórdidos artifícios para ficar com a posse da mansão que dividiam - mesmo que isso significasse sua destruição. "Duplex", lançado em 2003, confirmava a tendência de DeVito em rir de situações sérias e criticar, sem muita sutileza, o verniz que separa a civilização da barbárie. Ao contrapor um jovem casal em busca de um lar para chamar de seu e uma idosa aparentemente dócil que os separa da realização de seu sonho, a comédia estrelada por Ben Stiller e Drew Barrymore substitui a gargalhada óbvia pelo riso nervoso - opção inteligente que talvez explique sua decepcionante recepção comercial.

 

Com uma renda mundial que não chegou a cobrir nem mesmo a metade de seu orçamento, estimado em 40 milhões de dólares, "Duplex" provavelmente esbarrou na resistência do público em abraçar comédias que ousam fugir do esperado binômio pastelão/sofisticação. Situado em um meio-termo arriscado entre irmãos Farrelly e Woody Allen, o filme de DeVito aposta em personagens de caráter dúbio (ainda que facilmente adoráveis e de fácil empatia) e sequências de humor físico que deveriam dialogar diretamente com uma plateia ávida por risadas fáceis - mas que, por algum motivo, a afugentaram. O fraco resultado financeiro do filme, no entanto, não reflete sua qualidade. Assim como várias produções acima da média que naufragaram sem maior explicação, "Duplex" é um produto destinado a tornar-se cult. Talvez uma daquelas sessões da tarde queridas, com um público cativo e fiel, sempre disposto a rir das desventuras de um dos casais mais azarados de Nova York.

Alex Rose (Ben Stiller) e Nancy Kendricks (Drew Barrymore) são jovens, apaixonados, felizes e no caminho para se tornarem bem-sucedidos profissionais. Ela trabalha em uma revista e tem ambições de ascender na carreira, e ele é um escritor em vias de entregar seu segundo livro - apesar do atraso considerável no cronograma especificado no contrato. Depois de muito procurarem um lar para chamar de seu, os dois pombinhos mal podem acreditar na sorte grande quando surge, diante de seus olhos, a oportunidade de comprar um espaçoso duplex no Brooklyn - a um preço atrativo, ainda que apertado dentro de suas condições financeiras. Apaixonados pelo apartamento, os dois resolvem investir suas economias na compra do imóvel, mesmo sabendo que o andar superior do imóvel está ocupado. A inquilina é uma senhora idosa chamada Miss Connelly (Eileen Essell), solitária, doce e de saúde frágil. Alex e Nancy tem certeza de que não irá demorar para que sua vizinha morra e eles possam finalmente tomar posse de todo o seu duplex - mas as coisas não são como parecem. A dócil velhinha logo se transforma em uma enorme pedra no sapato do casal: espaçosa, cínica e irascível, ela não hesita em utilizar-se de sua imagem meiga para esconder uma personalidade insuportável. Sem ter a quem recorrer, Alex e Nancy chegam à conclusão de que a única maneira que eles tem de se livrar de seu pesadelo é apressando sua morte.

Assim como em seus filmes anteriores, Danny DeVito leva seus personagens ao limite do eticamente aceitável, transformando cidadãos normais e pacíficos em potenciais homicidas. Ao contrário de fazer disso um discurso pessimista sobre a maldade intrínseca do ser humano, porém, ele o faz com humor e leveza. Alex e Nancy não são pessoas ruins - o que não pode ser dito a respeito da respeitável anciã que os tira do sério -, e não é difícil simpatizar com eles e (pasmem!) torcer para que seus planos mirabolantes deem certo. Completamente inaptos para o crime, Alex e Nancy são mais vítimas do que assassinos (ou pretensos assassinos) e, dona de um talento inesgotável para transformar a vida dos vizinhos em um inferno na Terra, Miss Connelly passa rapidamente da condição de velhinha indefesa a alguém capaz de tirar a paciência do mais pacífico cidadão. Criando maneiras surpreendentes de tentativas de homicídio, o roteiro de Larry Doyle brinca sem medo com uma completa inversão de expectativas, e encontra em Ben Stiller, Drew Barrymore e Eileen Essell os intérpretes ideais de sua imaginação fértil - e seu casamento com a direção debochada de DeVito resulta em um filme cujo humor inteligente infelizmente não encontrou seu público. Talvez pelo tema, talvez pelo tom sombrio, a plateia ignorou "Duplex" no cinema - e acabou privada de uma das comédias mais ousadas e divertidas da temporada.

CAINDO NA REAL

CAINDO NA REAL (Reality bites, 1994, Universal Pictures, 99min) Direção: Ben Stiller. Roteiro: Helen Childress. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Lisa Churgin, John Spence. Figurino: Eugenie Bafaloukos. Direção de arte/cenários: Sharon Seymour/Maggie Martin. Produção executiva: Wm. Barclay Malcolm, Stacey Sher. Produção: Danny De Vito, Michael Shamberg. Elenco: Winona Ryder, Ethan Hawke, Ben Stiller, Steve Zahn, Janeane Garofalo, Swoosie Kurtz. Estreia: 18/02/94

Convencionou-se chamar de "Geração X" aquela formada pelos nascidos entre meados da década de 60 e final dos anos 70 - posteriores, portanto, ao Baby Boom ocorrido logo após a II Guerra Mundial. Mesmo cunhada pelo fotógrafo Robert Capa em 1950, ela serviu para definir um grupo específico de jovens que, vindos ao mundo no período pós-1960, enfrentavam um futuro ainda incerto e sem tanto otimismo. Em 1964, a jornalista Jane Deverson voltou a utilizar o termo em um ensaio para uma revista britânica - dessa vez descrevendo os integrantes do grupo como jovens que não respeitavam os padrões pré-estabelecidos e conservadores da geração anterior. Foi somente com o lançamento do livro "Geração X: contos para uma cultura acelerada" (91), de Douglas Coupland, no entanto, que o apelido pegou de vez - e tornou-se o carimbo de uma juventude cujo niilismo e desilusão eram marcas registradas. Hollywood não demorou em perceber que tinha em mãos um possível nicho e logo tratou de conceber a sua própria visão do fenômeno. "Vida de solteiro" (92), de Cameron Crowe, inaugurou o filão com largas doses de rock e humor, mas não agradou nas bilheterias e imediatamente pôs em dúvida o potencial comercial de filmes relacionados ao tema. Essa falta de interesse repentina - e até justificável - acabou sendo a maior dificuldade, então, no caminho de "Caindo na real", uma comédia dramática/romântica que tratava justamente dos conflitos e dúvidas de um grupo de amigos de vinte e poucos anos que, recém-saídos da universidade, precisam lidar com a nova realidade.

Escrito por uma jovem de apenas 19 anos, "Caindo na real" foi recusado por todos os estúdios de Hollywood - ressabiados com o fracasso de bilheteria de "Vida de solteiro" e temerosos a respeito de um filme sem grandes nomes que garantissem o retorno do investimento. Foi somente depois que a TriStar Pictures desistiu de vez do projeto, porém, que a Universal Pictures entrou na jogada - cobriu o orçamento de 11 milhões de dólares e atraiu Winona Ryder para o papel principal feminino, escrito por Helen Childress exatamente com a atriz em mente. Cansada de várias produções de época, Ryder imediatamente aceitou participar do filme e exigiu, como cláusula contratual, que Ethan Hawke fosse escalado para viver o protagonista masculino. Foi o relativo poder de Winona na época - uma das atrizes jovens mais populares e prestigiadas de sua geração - que também garantiu a presença de Janeane Garofalo, em um papel disputado por nomes em ascensão, como Gwyneth Paltrow, Anne Heche e Parker Posey: mesmo demonstrando problemas de comportamento durante as filmagens (o que ocasionou inclusive uma demissão, mais tarde revogada), Garofalo foi defendida por unhas e dentes por Winona, que a recomendou fervorosamente ao diretor do filme, o estreante Ben Stiller.


Conhecido da televisão americana, Stiller chegou a "Caindo na real" através dos produtores, que viram nele o diretor ideal para contar uma história sobre a juventude americana do começo da década de 90. Foi Stiller quem ajudou a roteirista a chegar a um roteiro final, alterando o foco central da trama: ao invés de simplesmente contar o dia-a-dia de quatro amigos recém-formados, ele preferiu voltar sua atenção para um triângulo amoroso que, como uma metáfora romântica, simbolizava as dúvidas que torturavam as mentes juvenis do momento: o amor rebelde e idealista ou o conforto de uma vida estável e profissionalmente enquadrada nos padrões da sociedade? Surgia assim o ponto crucial da questão, que renegava a ideia inicial (retratar a tal "geração X") para aproximar o filme de uma plateia mais ampla. Em parte deu certo: se não foi um assombroso sucesso, ao menos não comprometeu as carreiras dos envolvidos - e recebeu carinhosos elogios da crítica.

O centro da trama é Lelaina Pierce (Winona Ryder), uma jovem que, enquanto trabalha como assistente de um programa de televisão apresentado pelo arrogante Grant Gubler (John Mahoney), sonha em lançar um documentário sobre ela e seus melhores amigos, todos em momentos decisivos de suas vidas. Troy Dyer (Ethan Hawke) é um músico em constante busca por reconhecimento e um lugar ao sol; Vickie Miner (Janeane Garofalo) trabalha em uma loja de roupas e se preocupa com a possibilidade de ter contraído AIDS; e Sammy Gray (Steve Zahn) tenta lidar com as dúvidas a respeito de sua sexualidade. Unidos, os quatro atravessam um período de mudanças em suas trajetórias, mas é Lelaine quem irá precisar tomar a mais difícil decisão: encarar sua paixão por Troy e embarcar em uma vida mais próxima do que sonha ou ficar ao lado de Michael Grates (Ben Stiller), o executivo de uma emissora de TV que pode lhe proporcionar uma estabilidade profissional e financeira? Winona Ryder nem precisa se esforçar muito para convencer na pele de Lelaina - linda e carismática, ela é a escolha ideal para liderar o elenco. Ben Stiller faz uma estreia promissora, dotando seu filme de ritmo e leveza apropriados, ilustrados com uma trilha sonora das mais adequadas e uma simpatia natural, que dá a seus personagens complexidades surpreendentes em uma produção voltada para um público mais afeito a efeitos visuais do que sutilezas dramáticas. Só por essa coragem, "Caindo na real" já merece aplausos.

sexta-feira

OS EXCÊNTRICOS TENENBAUMS

OS EXCÊNTRICOS TENENBAUMS (The royal Tenenbaums, 2001, Touchstone Pictures, 110min) Direção: Wes Anderson. Roteiro: Wes Anderson, Owen Wilson. Fotografia: Robert Yeoman. Montagem: Dylan Tichenor. Música: Mark Mothersbaugh. Figurino: Karen Patch. Direção de arte/cenários: David Wasco. Produção executiva: Rudd Simmons, Owen Wilson. Produção: Wes Anderson, Barry Mendel, Scott Rudin. Elenco: Gene Hackman, Anjelica Huston, Gwyneth Paltrow, Ben Stiller, Owen Wilson, Luke Wilson, Bill Murray, Danny Glover, Seymour Cassel, Alec Baldwin. Estreia: 05/10/01 (Festival de Nova York)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Comédia/Musical (Gene Hackman) 

Era uma vez uma família de pequenos gênios que, não conseguindo lidar com o tamanho de seus talentos, cresceu à sombra de seus precoces feitos, levando uma vida adulta triste e frustrada até que seu pai, de quem viveram afastados por décadas, reaparece alegando uma doença terminal e uma vontade férrea de reconciliação. Essa trama, um tanto banal a princípio, é a base para um dos filmes mais estranhos, criativos e surpreendentemente comoventes de 2001 - apesar de ser, a rigor, uma comédia: dirigido por Wes Anderson e co-escrito por ele e o ator Owen Wilson, "Os excêntricos Tenenbaums" aprimora o estilo de seu diretor - depois do pouco conhecido "Pura adrenalina" e do cultuado "Três é demais" - ao contar a história desses bizarros personagens incapazes de lidar com sua decadência de forma divertida e emocionante, com toques discretos de melancolia e cinismo. Contando com um elenco formado por atores premiados com o Oscar - Gene Hackman, Anjelica Huston e Gwyneth Paltrow - e colaboradores habituais - Owen Wilson, seu irmão Luke, Bill Murray - Anderson criou um espetáculo de estilo personalíssimo, capaz até mesmo de chamar a atenção da Academia de Hollywood, que lhe deu a oportunidade de concorrer ao Oscar de melhor roteiro original - que perdeu para "Assassinato em Gosford Park". Essa mesma Academia, que ignorou o desempenho exemplar de Gene Hackman como o patriarca Royal Tenenbaum, mais de uma década depois se encantaria com "O Grande Hotel Budapeste", obra da maturidade do cineasta -  mas os fãs já conheciam esse talento há muito tempo.


A história da família Tenenbaum é narrada pela voz de Alec Baldwin, que dá o tom exato entre fábula e comédia de costumes à sua estranha trajetória. Quando crianças, os três filhos de Royal e Etheline Tenenbaum (Gene Hackman e Anjelica Huston) demonstram talentos incomuns para sua idade, transformando-se rapidamente em pequenas celebridades: o mais velho, Chas, desenvolve habilidades incomuns para as finanças e a química; a filha adotiva, Margot, escreve peças de teatro aplaudidíssimas; e o caçula Richie chama a atenção como prodigioso jogador de tênis. A separação de seus pais, porém, abala suas estruturas emocionais e intelectuais e os joga em uma espécie de arremedo deles mesmos. Vinte e dois anos depois da separação, os três irmãos vivem prostrados diante de suas vidas medíocres: Chas (Ben Stiller) acaba de perder a esposa e tenta cuidar sozinho dos dois filhos pequenos, versões em miniatura de si mesmo. Margot (Gwyneth Paltrow) deixou o teatro de lado e vive em depressão ao lado do marido, o brilhante psiquiatra Raleigh St. Clair (Bill Murray), com idade para ser seu pai. E Richie (Luke Wilson), depois de abandonar a carreira durante uma crise emocional em uma partida, saiu em viagem pelo mundo em um barco de pesca. Quando seu pai retorna à mansão onde todos foram criados, dizendo estar sofrendo de um câncer terminal - às vésperas do casamento de Etheline com o contador Henry Sherman (Danny Glover) - a família se vê obrigada a encarar os fantasmas do passado para finalmente conseguir olhar para a frente.

A trama soa como um dramalhão dos mais carregados no açúcar, mas Anderson não é um diretor dado a sentimentalismos baratos, e aplica em seu roteiro toda a criatividade visual que se tornaria sua marca registrada. A mansão da família, que serve como principal cenário, por exemplo, é de uma sofisticação visual impressionante, refletindo em cada detalhe todos os paradoxos temporais e psicológicos da trama, repleta de camadas e piadas escondidas (como o fato de todos os irmãos terem sido inspirados em personalidades reais, como o tenista Bjorn Borg, a cantora alemã Nico e no escritor Cormac McCarthy). A história de amor proibido entre Richie e sua irmã adotiva Margot dá o toque romântico ao roteiro, que ainda encontra espaço para explorar os dramas de Eli Cash (Owen Wilson), vizinho da família que se torna famoso como romancista especialista em desmistificar heróis americanos - e cujo maior sonho era ser um Tenenbaum. Fugindo do piegas até mesmo nos embates dramáticos entre pai e filhos, o filme de Anderson é conduzido como um delicado acerto de contas banhado em uma ironia rara e inteligente que transpira até mesmo nos figurinos irreverentes - os três irmãos, por exemplo, usam, mesmo na fase adulta, o mesmo estilo de roupas que usavam na infância.

E se o roteiro e a direção de "Os excêntricos Tenenbaums" são um show de sutileza e minimalismo, o mesmo pode ser dito a respeito do extraordinário elenco reunido por Wes Anderson. Gene Hackman levou o Golden Globe de melhor ator em comédia ou musical por seu trabalho como Royal Tenenbaum - no qual ele inspirou-se na própria relação distante com os filhos - e Anjelica Huston mais uma vez mostra que não é preciso lágrimas em profusão para emocionar. E os três irmãos gênios - Ben Stiller, Gwyneth Paltrow e Luke Wilson - estão no tom perfeito, entrando com presteza no jogo do cineasta, dono de um estilo tão peculiar que muitas vezes pode soar artificial. No entanto, quem se deixa cativar por sua exuberância não tem do que reclamar. A família Tenenbaum é, sem dúvida, o exemplo perfeito do seu cinema que a tantos encanta.

TROVÃO TROPICAL

TROVÃO TROPICAL (Tropic Thunder, 2008, Dreamworks Pictures, 107min) Direção: Ben Stiller. Roteiro: Ben Stiller, Justin Theroux, Etan Cohen, estória de Justin Theroux e Ben Stiller. Fotografia: John Toll. Montagem: Greg Hayden. Música: Theodore Shapiro. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Jeff Mann/Daniel B. Clancy. Produção executiva: Justin Theroux. Produção: Stuart Cornfeld, Eric McLeod, Ben Stiller. Elenco: Ben Stiller, Robert Downey Jr., Jack Black, Tom Cruise, Nick Nolte, Matthew McConaughey, Steve Coogan, Jay Baruchel, Brandon T. Jackson. Estreia: 13/8/08

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Robert Downey Jr.)

Normalmente, quando Hollywood olha para o próprio umbigo e retrata seus bastidores, opta por fazê-lo em dramas autocomplacentes ou cinebiografias de qualidade variadas. Raramente ele busca o riso do espectador, mas quando isso acontece, coisas sensacionais como "Um cilada para Roger Rabbit", de Robert Zemeckis, "Ed Wood", de Tim Burton e "Os picaretas", de Steve Martin - que brincam com a fogueira das vaidades sem perder o carinho por ela - surgem e encantam o espectador inteligente, com piadas certeiras sobre o universo do cinema. Outro exemplar imperdível do gênero é "Trovão tropical", a hilariante comédia com que Ben Stiller provou que tem razoável poder de fogo na indústria, com uma arrecadação doméstica que ultrapassou os 100 milhões de dólares: a despeito de seu orçamento milionário ter ultrapassado os 90 milhões, o filme de Stiller foi um êxito incontestável de bilheteria.

Incontestável e merecido. "Trovão tropical" é uma comédia excepcional e corajosa, que não poupa ninguém dos bastidores do cinema, apontando sua metralhadora giratória para os atores comerciais com ambições mais sérias, para produtores gananciosos, agentes irresponsáveis, cineastas metidos a autorais, os prêmios da Academia e até mesmo para a força do cinema americano ao redor do mundo. Irônico e debochado, o roteiro - escrito a partir de uma história imaginada por Stiller e pelo ator Justin Theroux - tira sarro de tudo e de todos a partir de uma premissa que, não fosse totalmente coerente com o universo retratado, seria de um absurdo sem igual: o "Trovão tropical" do título é um filme produzido pelo excêntrico Les Grossman (Tom Cruise, irreconhecível e muito engraçado), que quer realizar o seu próprio épico sobre a guerra do Vietnã e para isso não mede esforços para reunir uma equipe invejável. O diretor,  Damien Cockburn (Steve Coogan), é um cineasta cult, metido a intelectual e os atores não ficam atrás: o conceituado Kirk Lazarus (Robert Downey Jr) é um veterano vencedor de 4 Oscar adepto do "método" (a ponto de fazer um tratamento dermatológico e escurecer a pele para interpretar um soldado negro), o outrora astro de filmes de ação Tugg Speedmn (o próprio Stiller) quer salvar a carreira depois de uma mal-sucedida investida em um drama pelo qual ambicionava um Oscar, e Jeff Portnoy (Jack Black) tenciona deixar pra trás sua carreira de comediante em um papel sério - e enfrenta problemas com seu vício em drogas.


A bagunça começa quando Damien morre ao pisar em uma mina escondida e os atores, julgando que estão sendo testados pela produção, continuam atuando sem perceber que estão sendo perseguidos por nativos do lugar - que tampouco sabem que eles são apenas atores e não soldados americanos com objetivos militares. Enquanto isso, em Hollywood, Rick Peck (Matthew McConaughey), o agente de Speedman, tenta de todas as maneiras possíveis, proporcionar a seu cliente os luxos a que está acostumado - mesmo batendo de frente com a arrogância do produtor Grossman, que nem de longe imagina que Speedman foi pego como refém de um grupo violento de soldados asiáticos.

Equilibrando com inteligência um humor visual com referências espertas ao mundo das celebridades - não é preciso muito conhecimento de causa para reconhecer em Jeff Portnoy um pouco de Eddie Murphy, por exemplo - "Trovão tropical" conquista por não ter medo de rir das entranhas da própria Hollywood, com seu egocentrismo e sua tendência a louvar mercenários em detrimento de reais artistas - ainda que mesmo esses sejam alvo de piadas inclementes. Além disso, dá a Robert Downey Jr. um dos papéis essenciais à sua carreira - que surgiu juntamente com "Homem de ferro" e "Zodíaco" em sua ressurreição artística. Merecidamente indicado a um Oscar de coadjuvante (que perdeu para a impressionante atuação de Heath Ledger em "Batman, o cavaleiro das trevas"), Downey é, dentre tantas coisas boas, a maior qualidade de "Trovão tropical". E isso não é pouco!

QUEM VAI FICAR COM MARY?


QUEM VAI FICAR COM MARY? (There's something about Mary, 1998, 20th Century Fox, 119min) Direção: Peter Farrelly, Bob Farrelly. Roteiro: Peter Farrelly, Bob Farrelly, Ed Decter, John J. Strauss, história de Ed Decter, John J. Strauss. Fotografia: Mark Irwin. Montagem: Christopher Greenbury. Música: Jonathan Richman. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Arlan Jay Vetter/Scott Jacobson. Produção executiva: Peter Farrelly, Bob Farrelly. Produção: Frank Beddor, Michael Steinberg, Bradley Thomas, Charles B. Wessler. Elenco: Cameron Diaz, Matt Dillon, Ben Stiller, Richard Jenkins. Estreia: 15/7/98

Às vezes, para se divertir no escurinho do cinema, é preciso abdicar de um senso crítico mais severo e de qualquer resquício de pudores. É o caso de "Quem vai ficar com Mary?", uma comédia tão despudorada e politicamente incorreta que chega a ser difícil de acreditar que tenha rendido mais de 170 milhões de verdinhas nos EUA, um país merecidamente famoso por seus hipócritas pruridos morais. Ao fazer piada com qualquer ser humano que não seja branco, anglo-saxão, protestante, heterossexual ou com uma saúde perfeita, o filme dos irmãos Farrelly não deixa pedra sobre pedra. E é um dos mais divertidos da década de 90.

O filme começa nos anos 80, quando o tímido estudante Ted (Ben Stiller) finalmente consegue realizar seu maior sonho: levar a bela Mary (Cameron Diaz) ao baile de formatura. Porém, depois de um constrangedor acidente no banheiro da casa da garota, ele perde notícias da beldade. Anos depois, ainda sofrendo de saudade e paixão recolhidas, ele tem a ideia de contratar um detetive particular para encontrá-la. O escolhido é o mau-caráter Healy (Matt Dillon), que também se apaixona pela moça, um doce de pessoa que não tem sorte no amor. Aos poucos, Ted tenta reconquistá-la, lutando contra o atrapalhado detetive e inúmeros outros fãs da jovem.

Na verdade, a pífia história de "Quem vai ficar com Mary?" serve apenas de pano de fundo para uma sucessão de piadas engraçadíssimas, que variam do sofisticado humor irônico ao mais deslavado pastelão. Ao apelar para praticamente todo tipo de piada, o roteiro dos irmãos Farrelly não deixa absolutamente nada escapar, com tiradas visuais hilárias e diálogos espirituosos e sem o menor temor em ofender as minorias - que, a julgar pelo enorme sucesso do filme, também lotaram as salas de cinema. No entanto, é preciso afirmar que, mesmo que tivesse um roteiro genial, o filme não teria sido tão bem-sucedido se não contasse com o ótimo elenco escolhido pelos cineastas.

 Enquanto Ben Stiller exercita seu humor já demonstrado em outras ocasiões, são Cameron Diaz e Matt Dillon (então um casal fora das telas) que surpreendem, exibindo um senso de humor insuspeitos. Dillon, brincando com sua imagem de galã, é quem mais se destaca, utilizando um charme canastrão que conquista o público logo em sua primeira cena. Suas cenas com o cãozinho de Mary são de chorar de rir, assim como seus diálogos absurdos. E que atire a primeira pedra quem nunca riu com a infame sequência do "gel de cabelo" de Mary, destinada a antológica desde sempre. Recomendado para curar qualquer mau-humor, "Quem vai ficar com Mary?" é o antídoto perfeito para a insuportável onda do politicamente correto que tomou conta do planeta nos anos 90.

IMPÉRIO DO SOL


IMPÉRIO DO SOL (Empire of the sun, 1987, Warner Bros, 152min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Tom Stoppard, romance de J.G. Ballard. Fotografia: Allen Daviau. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Bob Ringwood. Direção de arte/cenários: Norman Reynolds/Harry Cordwell, Michael D. Ford. Casting: Maggie Cartier. Produção executiva: Robert Shapiro. Produção: Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Steven Spielberg. Elenco: Christian Bale, Miranda Richardson, John Malkovich, Joe Pantoliano, Ben Stiller. Estreia: 09/12/87

6 indicações ao Oscar: Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Figurino, Direção de arte/cenários, Som

Depois da frustração de ver seu “A cor púrpura” receber 13 indicações ao Oscar e nenhuma estatueta no final da festa e encher ainda mais os bolsos com a segunda aventura do arqueólogo Indiana Jones, Steven Spielberg tentou de novo comover os eleitores da Academia com um filme sério. Apesar de chegar perto, mais uma vez ele errou a mira. Apesar de belo, emocionante e adulto, “Império do sol”, baseado no livro homônimo do escritor inglês J.G. Ballard recebeu apenas indicações técnicas ao Oscar, o que não deixa de ser uma espécie de injustiça.

Apesar da temática adulta, “Império do sol” tem o ponto de vista de uma criança, no caso o mimado inglês James Graham (o ótimo Christian Bale), que tem sua vida confortável em Pequim abalada pelo ataque japonês a Pearl Harbor, que muda a dinâmica da II Guerra Mundial. Separado dos pais – em uma cena angustiante e bem dirigida – e enviado a um campo de prisioneiros, ele passa a sofrer os horrores da guerra na pele, passando fome, testemunhando violências impensáveis e aprendendo a crescer da pior maneira possível. Seus únicos amigos são um americano cínico (John Malkovich) e um soldado japonês, a quem encontra sempre em momentos inesperados. Encantado por uma inglesa casada (Miranda Richardson), James mantém, no entanto, a sua enorme paixão por aviões e a esperança de reencontrar sua família.


O esnobismo da Academia em relação a “Império do sol”, em um ano em que até mesmo o apenas correto e comercial “Atração fatal” encontrou lugar entre os candidatos a melhor filme só pode ser explicado por uma má vontade dos seus membros. Belissimamente fotografado por Allen Daviau, com uma reconstituição de época primorosa e um elenco em dias iluminados, a começar por um arrasador Christian Bale, de apenas 11 anos de idade e escolhido dentre 4000 crianças, o filme de Spielberg peca apenas, assim como aconteceu em “A cor púrpura”, por ser longo demais. Arrastada em alguns momentos, a saga de James perde o pique e o interesse depois de hora e meia de projeção, para reconquistar a emoção da platéia nos minutos finais, em algumas cenas construídas especificamente para arrancar lágrimas do espectador.

Talvez tenha sido o jogo sentimental de Spielberg que incomodou a Academia (que no entanto é capaz de dar o Oscar para obras como “Laços de ternura”, infinitamente mais explícito e manipulador em suas intenções de emocionar). Talvez o tema II Guerra estivesse cansando os eleitores (o que não explica a presença de “Esperança e glória” entre os finalistas ao Oscar do mesmo ano). O fato certo é que o diretor amadurecia a olhos vistos e, enquanto ficava mais rico a cada filme-pipoca que produzia e/ou dirigia, também adquiria experiência para entregar ao mundo, em pouco mais de cinco anos, a sua obra-prima, "A lista de Schindler".

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...